Controvérsia
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José Saramago
O Controvérsia deixa sua homenagem ao grande escritor de língua portuguesa, homem de preocupações sociais, de esquerda e protagonista do século XX.

Fundação José Saramago

Autobiografia

Nasci numa família de camponeses sem terra, em Azinhaga, uma pequena povoação situada na província do Ribatejo, na margem direita do rio Almonda, a uns cem quilómetros a nordeste de Lisboa. Meus pais chamavam-se José de Sousa e Maria da Piedade. José de Sousa teria sido também o meu nome se o funcionário do Registo Civil, por sua própria iniciativa, não lhe tivesse acrescentado a alcunha por que a família de meu pai era conhecida na aldeia: Saramago. (Cabe esclarecer que saramago é uma planta herbácea espontânea, cujas folhas, naqueles tempos, em épocas de carência, serviam como alimento na cozinha dos pobres). Só aos sete anos, quando tive de apresentar na escola primária um documento de identificação, é que se veio a saber que o meu nome completo era José de Sousa Saramago... Não foi este, porém, o único problema de identidade com que fui fadado no berço. Embora tivesse vindo ao mundo no dia 16 de Novembro de 1922, os meus documentos oficiais referem que nasci dois dias depois, a 18: foi graças a esta pequena fraude que a família escapou ao pagamento da multa por falta de declaração do nascimento no prazo legal.

Talvez por ter participado na Grande Guerra, em França, como soldado de artilharia, e conhecido outros ambientes, diferentes do viver da aldeia, meu pai decidiu, em 1924, deixar o trabalho do campo e trasladar-se com a família para Lisboa, onde começou a exercer a profissão de polícia de segurança pública, para a qual não se exigiam mais "habilitações literárias" (expressão comum então...) que ler, escrever e contar. Poucos meses depois de nos termos instalado na capital, morreria meu irmão Francisco, que era dois anos mais velho do que eu. Embora as condições em que vivíamos tivessem melhorado um pouco com a mudança, nunca viríamos a conhecer verdadeiro desafogo económico. Já eu tinha 13 ou 14 anos quando passámos, enfim, a viver numa casa (pequeníssima) só para nós: até aí sempre tínhamos habitado em partes de casa, com outras famílias. Durante todo este tempo, e até à maioridade, foram muitos, e frequentemente prolongados, os períodos em que vivi na aldeia com os meus avós maternos, Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha.

Fui bom aluno na escola primária: na segunda classe já escrevia sem erros de ortografia, e a terceira e quarta classes foram feitas em um só ano. Transitei depois para o liceu, onde permaneci dois anos, com notas excelentes no primeiro, bastante menos boas no segundo, mas estimado por colegas e professores, ao ponto de ser eleito (tinha então 12 anos...) tesoureiro da associação académica... Entretanto, meus pais haviam chegado à conclusão de que, por falta de meios, não poderiam continuar a manter-me no liceu. A única alternativa que se apresentava seria entrar para uma escola de ensino profissional, e assim se fez: durante cinco anos aprendi o ofício de serralheiro mecânico. O mais surpreendente era que o plano de estudos da escola, naquele tempo, embora obviamente orientado para formações profissionais técnicas, incluía, além do Francês, uma disciplina de Literatura. Como não tinha livros em casa (livros meus, comprados por mim, ainda que com dinheiro emprestado por um amigo, só os pude ter aos 19 anos), foram os livros escolares de Português, pelo seu carácter "antológico", que me abriram as portas para a fruição literária: ainda hoje posso recitar poesias aprendidas naquela época distante. Terminado o curso, trabalhei durante cerca de dois anos como serralheiro mecânico numa oficina de reparação de automóveis. Também por essas alturas tinha começado a frequentar, nos períodos nocturnos de funcionamento, uma biblioteca pública de Lisboa. E foi aí, sem ajudas nem conselhos, apenas guiado pela curiosidade e pela vontade de aprender, que o meu gosto pela leitura se desenvolveu e apurou.

Quando casei, em 1944, já tinha mudado de actividade, passara a trabalhar num organismo de Segurança Social como empregado administrativo. Minha mulher, Ilda Reis, então dactilógrafa nos Caminhos de Ferro, viria a ser, muitos anos mais tarde, um dos mais importantes gravadores portugueses. Faleceria em 1998. Em 1947, ano do nascimento da minha única filha, Violante, publiquei o primeiro livro, um romance que intitulei A Viúva, mas que por conveniências editoriais viria a sair com o nome de Terra do Pecado. Escrevi ainda outro romance, Clarabóia, que permanece inédito até hoje, e principiei um outro, que não passou das primeiras páginas: chamar-se-ia O Mel e o Fel ou talvez Luís, filho de Tadeu... A questão ficou resolvida quando abandonei o projecto: começava a tornar-se claro para mim que não tinha para dizer algo que valesse a pena. Durante 19 anos, até 1966, quando publicaria Os Poemas Possíveis , estive ausente do mundo literário português, onde devem ter sido pouquíssimas as pessoas que deram pela minha falta.

Por motivos políticos fiquei desempregado em 1949, mas, graças à boa vontade de um meu antigo professor do tempo da escola técnica, pude encontrar ocupação na empresa metalúrgia de que ele era administrador. No final dos anos 50 passei a trabalhar numa editora, Estúdios Cor, como responsável pela produção, regressando assim, mas não como autor, ao mundo das letras que tinha deixado anos antes.

Essa nova actividadepermitiu-me conhecer e criar relações de amizade com alguns dos mais importantes escritores portugueses de então. Para melhorar o orçamento familiar, mas também por gosto, comecei, a partir de 1955, a dedicar uma parte do tempo livre a trabalhos de tradução, actividade que se prolongaria até 1981: Colette, Pär Lagerkvist, Jean Cassou, Maupassant, André Bonnard, Tolstoi, Baudelaire, Étienne Balibar, Nikos Poulantzas, Henri Focillon, Jacques Roumain, Hegel, Raymond Bayer foram alguns dos autores que traduzi. Outra ocupação paralela, entre Maio de 1967 e Novembro de 1968, foi a de crítico literário. Entretanto, em 1966, publicara Os Poemas Possíveis, uma colectânea poética que marcou o meu regresso à literatura. A esse livro seguiu-se, em 1970, outra colectânea de poemas, Provavelmente Alegria, e logo, em 1971 e 1973 respectivamente, sob os títulos Deste Mundo e do OutroA Bagagem do Viajante , duas recolhas de crónicas publicadas na imprensa, que a crítica tem considerado essenciais à completa compreensão do meu trabalho posterior. Tendo-me divorciado em 1970, iniciei uma relação de convivência, que duraria até 1986, com a escritora portuguesa Isabel da Nóbrega.

Deixei a editora no final de 1971, trabalhei durante os dois anos seguintes no vespertino Diário de Lisboa como coordenador de um suplemento cultural e como editorialista. Publicados em 1974 sob o título As Opiniões que o DL teve, esses textos representam uma "leitura" bastante precisa dos últimos tempos da ditadura que viria a ser derrubada em Abril daquele ano. Em Abril de 1975 passei a exercer as funções de director-adjunto do matutino Diário de Notícias, cargo que desempenhei até Novembro desse ano e de que fui demitido na sequência das mudanças ocasionadas pelo golpe político-militar de 25 de daquele mês, que travou o processo revolucionário. Dois livros assinalam esta época: O Ano de 1993, um poema longo publicado em 1975, que alguns críticos consideram já anunciador das obras de ficção que dois anos depois se iniciariam com o romance Manual de Pintura e Caligrafia, e, sob o título Os Apontamentos , os artigos de teor político que publiquei no jornal de que havia sido director.

Sem emprego uma vez mais e, ponderadas as circunstâncias da situação política que então se vivia, sem a menor possibilidade de o encontrar, tomei a decisão de me dedicar inteiramente à literatura: já era hora de saber o que poderia realmente valer como escritor. No princípio de 1976 instalei-me por algumas semanas em Lavre, uma povoação rural da província do Alentejo. Foi esse período de estudo, observação e registo de informações que veio a dar origem, em 1980, ao romance Levantado do Chão, em que nasce o modo de narrar que caracteriza a minha ficção novelesca. Entretanto, em 1978, havia publicado uma colectânea de contos, Objecto Quase, em 1979 a peça de teatro A Noite, a que se seguiu, poucos meses antes da publicação de Levantado do Chão, nova obra teatral, Que Farei com este Livro?. Com excepção de uma outra peça de teatro, intitulada A Segunda Vida de Francisco de Assis e publicada em 1987, a década de 80 foi inteiramente dedicada ao romance: Memorial do Convento, 1982, O Ano da Morte de Ricardo Reis, 1984, A Jangada de Pedra, 1986, História do Cerco de Lisboa , 1989. Em 1986 conheci a jornalista espanhola Pilar del Río. Casámo-nos em 1988.

Em consequência da censura exercida pelo Governo português sobre o romance O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), vetando a sua apresentação ao Prémio Literário Europeu sob pretexto de que o livro era ofensivo para os católicos, transferimos, minha mulher e eu, em Fevereiro de 1993, a nossa residência para a ilha de Lanzarote, no arquipélago de Canárias. No princípio desse ano publiquei a peça In Nomine Dei, ainda escrita em Lisboa, de que seria extraído o libreto da ópera Divara, com música do compositor italiano Azio Corghi, estreada em Münster (Alemanha), em 1993. Não foi esta a minha primeira colaboração com Corghi: também é dele a música da ópera Blimunda, sobre o romance Memorial do Convento, estreada em Milão (Itália), em 1990. Em 1993 iniciei a escrita de um diário, Cadernos de Lanzarote, de que estão publicados cinco volumes. Em 1995 publiquei o romance Ensaio sobre a Cegueira e em 1997 Todos os NomesO Conto da Ilha Desconhecida . Em 1995 foi-me atribuído o Prémio Camões, e em 1998 o Prémio Nobel de Literatura.

Em consequência da atribuição do Prémio Nobel a minha actividade pública viu-se incrementada. Viajei pelos cinco continentes, oferecendo conferências, recebendo graus académicos, participando em reuniões e congressos, tanto de carácter literário como social e político, mas, sobretudo, participei em acções reivindicativas da dignificação dos seres humanos e do cumprimento da Declaração dos Direitos Humanos pela consecução de uma sociedade mais justa, onde a pessoa seja prioridade absoluta, e não o comércio ou as lutas por um poder hegemónico, sempre destrutivas.

Creio ter trabalhado bastante durante estes últimos anos. Desde 1998, publiquei Folhas Políticas (1976-1998) (1999), A Caverna (2000), A Maior Flor do Mundo (2001), O Homem Duplicado (2002), Ensaio sobre a Lucidez (2004), Don Giovanni ou o Dissoluto Absolvido (2005), As Intermitências da Morte (2005) e As Pequenas Memórias (2006). Agora, neste Outono de 2008, aparecerá um novo livro: A Viagem do Elefante, um conto, uma narrativa, uma fábula.

No ano de 2007 decidiu-se criar em Lisboa uma Fundação com o meu nome, a qual assume, entre os seus objectivos principais, a defesa e a divulgação da literatura contemporânea, a defesa e a exigência de cumprimento da Carta dos Direitos Humanos, além da atenção que devemos, como cidadãos responsáveis, ao cuidado do meio ambiente. Em Julho de 2008 foi assinado um protocolo de cedência da Casa dos Bicos, em Lisboa, para sede da Fundação José Saramago, onde esta continuará a intensificar e consolidar os objectivos que se propôs na sua Declaração de Princípios, abrindo portas a projectos vivos de agitação cultural e propostas transformadoras da sociedade.

Cronobiografia

1922

Nasce a 16 de Novembro na Rua da Alagoa de Azinhaga (Ribatejo, Golegã, Portugal) no seio de uma família de camponeses. Os seus pais são José de Sousa, jornaleiro, e Maria de Jesus, doméstica.

1924

Muda-se para Lisboa com a família, onde o pai irá trabalhar na Polícia de Segurança Pública.

Em Dezembro morre o seu irmão Francisco, com quatro anos de idade.

1929

Aquando da sua inscrição na escola primária da Rua Martens Ferrão descobre-se que um funcionário do Registo Civil da Golegã incluiu como apelido na sua certidão de nascimento a alcunha familiar, Saramago. Desta forma, torna-se no primeiro Saramago da família Sousa. Se assim não tivesse acontecido, o seu nome seria José de Sousa.

1930

Muda-se para a escola primária do Largo do Leão.

Durante estes anos e os seguintes a família Sousa tem uma vida difícil, morando em quartos alugados e em várias ruas de Lisboa: Quinta do Perna-de-Pau, Rua E (hoje Rua Luís Monteiro), Rua Carrilho Videira, Rua dos Cavaleiros, Rua Padre Sena Freitas.

1932

Matricula-se no Liceu Gil Vicente, onde inicia estudos secundários, frequentando dois cursos (liceal e técnico).

1935

A falta de recursos económicos da família obriga-o a transferir-se para a Escola Industrial de Afonso Domingues, onde estudará até 1940.

Durante toda a infância e adolescência passa longos períodos na Azinhaga com os avós maternos.

1936

O primeiro livro que possui é-lhe oferecido pela mãe: A Toutinegra do Moinho, de Émile de Richebourg.

1938

A família Sousa passa a viver num andar só para ela na Rua Carlos Ribeiro, nº 15, no Bairro da Penha de França.

1940

Conclui os estudos de Serralharia Mecânica no Escola Industrial de Afonso Domingues. Consegue o seu primeiro emprego como serralheiro mecânico nas oficinas dos Hospitais Civis de Lisboa.

À noite frequenta a biblioteca municipal do Palácio das Galveias, «lendo ao acaso de encontros e de catálogos, sem orientação, sem ninguém que me aconselhasse, com o mesmo assombro criador do navegante que vai inventando cada lugar que descobre», nas palavras do próprio Saramago.

1942

Passa a ocupar um lugar nos serviços administrativos dos Hospitais Civis de Lisboa.

1943

Trabalha na Caixa de Abono de Família do Pessoal da Indústria de Cerâmica, de onde foi afastado em 1949 em consequência do seu apoio à campanha eleitoral de Norton de Matos, o candidato da oposição à Presidência da República.

1944

Casa-se com a pintora Ilda Reis.

1947

Publica Terra do Pecado, o seu primeiro romance, intitulado inicialmente A Viúva.

Nasce a sua filha, Violante.

Na segunda metade dos anos cinquenta e até 1953 escreve numerosos poemas, contos - alguns dos quais são publicados em revistas e jornais - e esboça a redacção de pelo menos quatro romances, dos quais apenas conclui um.

1948

Morre o seu avô, Jerónimo Melrinho.

1950

Começa a trabalhar na Caixa de Previdência do Pessoal da Companhia Previdente, fazendo cálculos de subsídios e de pensões, graças à mediação do seu antigo professor Jorge O´Neil.

1953

Termina Clarabóia, romance inédito, com que encerra uma série de infrutíferas tentativas narrativas que aborda sob títulos como O Mel e o FelOs EmparedadosRua.

1955

A convite de Nataniel Costa enceta colaboração com a editora Estúdios Cor, no sector de produção. O seu nome começa a ser conhecido no campo da literatura e da cultura. Inicia a sua actividade como tradutor, cifrada em mais de sessenta títulos, até meados da década de oitenta. Na segunda metade da década de cinquenta traduz cerca de dezasseis livros, entre eles de autores como Colette e Tolstoi.

1959

Abandona a Companhia Previdente para trabalhar exclusivamente na editora Estúdios Cor.

1964

Em 13 de Maio morre o seu pai, no Hospital dos Capuchos, aos sessenta e oito anos de idade.

1966

É editado o seu primeiro livro de poesia, Os Poemas Possíveis.

Ao longo desta década continua a sua actividade de tradutor, se bem que com mais moderação. Traduz, entre outros, Colette, Cassou, Audisio, Maupassant e Bonnard.

1967-1968

Colabora como crítico literário na revista Seara Nova. Nesta condição, escreve sobre vinte e três livros de ficção, entre eles títulos de Jorge de Sena, Agustina Bessa-Luís, Júlio Moreira, Alice Sampaio, Augusto Abelaira, Urbano Tavares Rodrigues, José Cardoso Pires, Rentes Carvalho, Nelson de Matos, Manuel Campos Pereira...

Publica crónicas no jornal A Capital, nas secções «Rua Acima, Rua Abaixo» e «Deste Mundo e do Outro».

1969

Filia-se no Partido Comunista Português.

Faz a sua primeira viagem ao estrangeiro (Paris).

Continua a publicar crónicas jornalísticas n'A Capital, na secção «Deste Mundo e do Outro».

1970

Divorcia-se de Ilda Reis.

Muda-se para Lisboa, depois de viver doze anos na Parede.

Inicia uma relação com a escritora Isabel da Nóbrega, que durará até 1986.

Publica o livro de poemas Provavelmente Alegria.

1971

Deixa a editora Estúdios Cor.

Sob o título Deste Mundo e do Outro, reúne as crónicas publicadas no jornal A Capital (1968-1969), cujo suplemento «A Semana» coordenou.

Continua a publicar crónicas nos jornais A CapitalJornal do Fundão, na secção Deste Mundo e do Outro.

1972

Publica numerosas crónicas no Jornal do Fundão.

Trabalha como editorialista no Diário de Lisboa .

Nasce a sua primeira neta, Ana.

1973

Continua como editorialista no Diário de Lisboa.

Publica O Embargo.

Dá à estampa A Bagagem do Viajante, segundo volume das crónicas jornalísticas publicadas nos jornais diários A CapitalJornal do Fundão (1971-1972).

Dirige o suplemento literário do Diário de Lisboa.

1974

Colabora com a revista Arquitectura.

Após a Revolução do 25 de Abril coordena uma equipa do Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis (FAOJ), sob dependência do Ministério da Educação.

Colabora como assessor do Ministério da Comunicação Social.

Edita o seu primeiro volume de crónicas políticas, As Opiniões Que o DL Teve, onde colige os editoriais que publicou anonimamente no Diário de Lisboa em 1972 e 1973.

1975

Publica no Diário de Notícias o «Primeiro e Segundo Poema dos Mortos».

É nomeado director-adjunto do Diário de Notícias. Acusado de radicalismo marxista, vive um tumultuoso momento de crise, paralelo à evolução política moderada da Revolução, que o afasta do jornal, sem sequer receber apoio do seu partido.

Ao ficar desempregado no 25 de Novembro, decide não procurar outro trabalho e dedicar-se exclusivamente à escrita e à tradução. Os seus únicos rendimentos provêm das traduções, e intensifica esta actividade, a partir deste ano, vertendo para português, entre 1976 e 1979, cerca de vinte e sete obras, muitas delas de carácter político: Frémontier, Jivkov, Moskovichov, Pramov, Grisnoni, Poulantzas, Bayer, Hegel, Romain...

Faz parte do Movimento Unitário de Trabalhadores Intelectuais para a Defesa da Revolução (MUTI).

Publica o livro de poemas O Ano de 1993.

1976

Faz uma recompilação das crónicas escritas no Diário de Notícias, que publica com o título Apontamentos.

Em Dezembro publica o romance Manual de Pintura e Caligrafia.

1977

No início do ano transfere-se durante uns meses para Lavre, Montemor-o-Novo, onde convive com trabalhadores da Unidade Colectiva de Produção Boa Esperança, com o objectivo de preparar o seu romance Levantado do Chão , que será publicado no ano de  1980.

1978

Publica Objecto Quase (contos).

1979

Publica a peça de teatro A Noite, que recebe o Prémio da Associação Portuguesa de Críticos.

Publica-se Poética dos Cinco Sentidos , livro de contos em que vários autores escrevem sobre os sentidos. A colaboração de José Saramago intitula-se O Ouvido.

O Círculo de Leitores encarrega-o de escrever um livro de viagens sobre Portugal.

1980

Surge Levantado do Chão, que marca o início do estilo saramaguiano. É-lhe atribuído o Prémio Cidade de Lisboa.

Publica a peça de teatro Que Farei com Este Livro?, representada nesse ano no Teatro de Almada. Entre esta data e 1985 traduz cerca de dez títulos de vários autores: Bautista, Honoré, Jivkov, Duby, Hikmet...

1981

É publicada Viagem a Portugal.

1982

Em Agosto morre a sua mãe, Maria da Piedade, aos 81 anos.

Publica Memorial do Convento, que o consagra internacionalmente.

Dá à estampa a segunda edição, revista e corrigida, de Provavelmente Alegria.

1983

Atribuição a Memorial do Convento do Prémio Pen Club 1983 e do Prémio Literário Município de Lisboa.

1984

Publica O Ano da Morte de Ricardo Reis.

Preside à Assembleia Geral da Sociedade Portuguesa de Autores.

Nasce o seu neto, Tiago.

1985

É nomeado Comendador da Ordem Militar de Santiago de Espada pelo Presidente da República, Mário Soares.

Prémio Pen Club 1985 pelo título O Ano da Morte de Ricardo Reis.

Prémio da Crítica 1985, pela Associação Portuguesa de Críticos.

1986

Termina a relação com Isabel da Nóbrega.

Publica A Jangada de Pedra.

Prémio Dom Dinis (Fundação Casa de Mateus) 1986, pela obra O Ano da Morte de Ricardo Reis.

Começa a escrever as crónicas «A Letra da Tabuleta» no JL (Jornal de Letras, Artes e Ideias ).

Conhece Pilar del Río.

1987

Publica peça de teatro A Segunda Vida de Francisco de Assis, levada à cena posteriormente no Teatro Aberto.

Recebe o Prémio Grinzane-Cavour (Alba, Itália) 1987 atribuído a O Ano da Morte de Ricardo Reis.

1988

Casa-se com a jornalista Pilar del Río.

1989

Publica História do Cerco de Lisboa.

1990

Estreia no Teatro Alla Scalla de Milão a ópera Blimunda, com libreto do músico italiano Azio Corghi baseado no romance Memorial do Convento.

1991

Publica O Evangelho Segundo Jesus Cristo, obra galardoada com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores e com o Prémio Brancatti (Zafferana, Itália).

É nomeado Doutor Honoris Causa pelas Universidades de Turim e Sevilha.

O governo francês concede-lhe o título de Cavaleiro da Ordem das Artes e Letras.

A Lello Editores publica a sua obra completa em três tomos.

1992

O governo português veta a candidatura de O Evangelho Segundo Jesus Cristo ao Prémio Literário Europeu.

Em Itália, recebe o Prémio Internacional Ennio Flaiano (Pescara, Itália) atribuído ao romance Levantado do Chão.

É-lhe concedido o Prémio Literário Internacional Mondello (Palermo, Itália).

1993

Transfere a sua residência para Lanzarote.

Publica a sua quarta peça de teatro, In Nomine Dei, que é distinguida com o Grande Prémio de Teatro da Associação Portuguesa de Escritores.

Torna-se membro do Parlamento Internacional de Escritores, com sede em Estrasburgo.

Atribuição do The Independent Foreign Fiction Award (Inglaterra) a O Ano da Morte de Ricardo Reis (tradução inglesa).

Recebe o Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores.

Estreia no teatro de Münster (Alemanha) da ópera Divara, com música de Azio Corghi e libreto baseado na peça In Nomine Dei.

1994

Publica-se o primeiro volume de Cadernos de Lanzarote.

Ingressa na Academia Universal das Culturas (Paris).

Ingressa na Academia Argentina de Letras.

Ingressa no Patronato de Honra da Fundação César Manrique (Lanzarote).

É nomeado Presidente Honorário da Sociedade Portuguesa de Autores.

1995

Publica Ensaio sobre a Cegueira.

Publica o segundo volume de Cadernos de Lanzarote.

É-lhe atribuído o Prémio Camões.

É nomeado Doutor Honoris Causa pela Universidade de Manchester (Inglaterra).

Estreia de A Morte de Lázaro, com música de Azio Corghi e libreto baseado nas obras In Nomine DeiO Evangelho Segundo Jesus CristoMemorial do Convento.

Recebe o Prémio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores.

1996

Viaja para o Brasil a fim de receber o Prémio Camões.

Publica o terceiro volume de Cadernos de Lanzarote .

1997

Sai o quarto volume de Cadernos de Lanzarote.

Publica o romance Todos os Nomes.

É nomeado Filho Adoptivo de Lanzarote.

Publica o Conto da Ilha Desconhecida.

Doutor Honoris Causa, Universidade de Castilha-la-Mancha (Espanha).

1998

Recebe o Prémio Nobel da Literatura «... pela sua capacidade de tornar compreensível uma realidade fugidia, com parábolas sustentadas pela imaginação, pela compaixão e pela ironia», segundo a Academia Sueca.

Sai o quinto volume de Cadernos de Lanzarote.

É-lhe atribuído o Prémio Scanno/Universidade G. D'Annunzi pelo livro Objecto Quase.

1999

Publica Folhas Políticas.

É nomeado Filho Adoptivo de Tías (Lanzarote).

Visita e permanece durante alguns dias no México, com os Zapatistas.

Doutor Honoris Causa, Universidade de Évora (Portugal).

Doutor Honoris Causa, Universidade de Nottingham (Inglaterra).

Doutor Honoris Causa, Universidade de Porto Alegre (Brasil).

Doutor Honoris Causa, Universidade de Minas Gerais (Brasil).

Doutor Honoris Causa, Universidade de Santa Catarina (Brasil)

Doutor Honoris Causa, Universidade de Rio de Janeiro (Brasil).

Doutor Honoris Causa, Universidade de Massachusetts (EUA).

Doutor Honoris Causa, Universidade de Las Palmas de Gran Canaria (Espanha).

Doutor Honoris Causa, Universidade Pontifícia de Valência (Espanha).

Doutor Honoris Causa, Universidade de Rio Grande do Sul (Brasil).

Doutor Honoris Causa, Universidade de Fluminense (Brasil).

Doutor Honoris Causa, Universidade de Michel de Montaigne (França).

2000

Publica A Caverna.

Recebe a Medalha de Ouro que lhe é outorgada pelo Governo de Canárias.

Doutor Honoris Causa, Universidade de Salamanca (Espanha).

Doutor Honoris Causa, Universidade de Santiago do Chile (Chile).

Doutor Honoris Causa, Universidade do Uruguai (Uruguai).

2001

Publica A Maior Flor do Mundo.

Recebe o Prémio Canárias Internacional concedido pelo Governo de Canárias.

Doutor Honoris Causa, Universidade de Granada (Espanha).

Doutor Honoris Causa, Universidade Carlos III (Espanha).

Doutor Honoris Causa, Universidade de Roma (Itália).

2002

Publica O Homem Duplicado.

Doutor Honoris Causa, Universidade de Stranieri de Siena (Itália).

2003

Doutor Honoris Causa, Universidade Autónoma do México (México).

Doutor Honoris Causa, Universidade de Tabasco (México).

Doutor Honoris Causa, Universidade de Buenos Aires (Argentina).

2004

Publica  Ensaio sobre a Lucidez.

Doutor Honoris Causa, Universidade Charles de Gaulle (França).

Doutor Honoris Causa, Universidade de Alicante (Espanha).

Doutor Honoris Causa, Universidade de Coimbra (Portugal).

Doutor Honoris Causa, Universidade de Brasília (Brasil).

2005

Publica Don Giovanni ou o Dissoluto Absolvido.

Don Giovanni ou o Dissoluto Absolvido é traduzido para italiano.

Doutor Honoris Causa, Universidade de Edmonton (Canadá).

Doutor Honoris Causa, Universidade Nacional de El Salvador (El Salvador).

Doutor Honoris Causa, Universidade Nacional de São José da Costa Rica (Costa Rica).

Em fins de Julho a Companhia de Teatro O Bando estreia uma adaptação teatral de Ensaio sobre a Cegueira no Teatro da Trindade. A dramaturgia e a encenação são de João Brites.

Doutor Honoris Causa, Universidade de Estocolmo (Suécia).

Compra uma casa em Lisboa, no Bairro do Arco do Cego, que a partir de finais de Outubro lhe servirá de residência durante as suas permanências na capital.

Publica As Intermitências da Morte. No Teatro Nacional de São Carlos tem lugar uma iniciativa inédita: a apresentação conjunta das edições portuguesa, brasileira, catalã, italiana e espanhola (De Espanha e da América falante do castelhano), com leituras de excertos da obra em todas estas línguas, num acto de homenagem à diversidade cultural. A edição foi impressa em papel «amigo das florestas», por acordo entre José Saramago, editores e a Greenpeace. A música de Bach foi o fundo musical do evento.

2006

É nomeado Filho Predilecto da Província de Granada.

Em Fevereiro começa a escrever As Pequenas Memórias, concluindo o livro em Agosto. Trata-se de um projecto concebido e amadurecido durante mais de vinte anos.

No Verão inaugura-se a biblioteca de sua casa em Tías, Lanzarote, numa festa cultural com a bailarina María Pagés e os cantores Luis Pastor e Pasión Vega, e à qual assistem numerosos amigos de Espanha e de Portugal.

Publica As Pequenas Memórias. O lançamento é feito na Azinhaga, coincidindo com a passagem do seu 84.º aniversário.

É-lhe atribuído o Prémio Dolores Ibarruri.

Doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Dublin no Bloomsday (Irlanda).

Em Guadalajara, México, procede-se à leitura teatral de As Intermitências da Morte com Gael Diaz Bernal.

Petras, Gracia: Concerto A Maior Flor do Mundo.

Lisboa: estreia de Don Giovanni ou o Dissoluto Absolvido, no Teatro Nacional de São Carlos.

Milão: estreia no Teatro Alla Scalla de Don Giovanni ou o Dissoluto Absolvido.

2007

A 17 de Janeiro Luis Pastor apresenta o CD Nesta Esquina do Tempo, em que são musicados poemas de Saramago.

A 3 de Fevereiro são apresentadas As Pequenas Memórias em Tías, Lanzarote.

Em Fevereiro começa a escrever A Viagem do Elefante. Até Maio escreve cerca de quarenta páginas, mas depressa o interrompe por problemas de saúde. Só voltará a pegar-lhe em Fevereiro de 2008.

A 28 de Fevereiro é nomeado Filho Predilecto da Andaluzia.

A 7 de Março é levado à cena, em Nova Iorque, o seu romance Ensaio sobre a Cegueira, pela mão do director artístico da Godlight Theater Company.

A 15 de Março é nomeado Doutor Honoris Causa pela Universidade Autónoma de Madrid.

A 20 de Março apresenta-se na Corunha La flor más grande del mundo, uma curta-metragem de animação baseada no conto de Saramago A Maior Flor do Mundo, realizada por Juan Pablo Etcheverry e com música de Emilio Aragón.

Em Março estreia-se em Helsínquia Baltasar e Blimunda, espectáculo musical realizado sobre textos do Memorial do Convento e música de Domenico Scarlatti. Na obra, criada e dirigida por Lisbeth Landefort, intervêm, além de uma voz recitante, a cravista Elina Mustonen, a soprano Sirkka Lampimäki e a bailarina Lili Dahlberg. O espectáculo estrear-se-á em Madrid a 16 de Novembro, para celebrar o 85º aniversário do escritor; em Lisboa, a 18 de Novembro; em Lanzarote, a 13 de Janeiro de 2008.

Em Abril termina o texto «As Sete Palavras do Homem» [«Las siete palabras del hombre»]. É uma encomenda de Jordi Savall para acompanhar a sua gravação da versão orquestral de As Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz de Joseph Haydn, à frente da orquestra Le Concert des Nations. O texto de Saramago reproduz-se no folheto que acompanha o CD. As Sete Palavras de Cristo na Cruz é uma partitura encomendada ao compositor vienense pela Hermandad da Santa Cueva de Cádiz, em 1785. Constitui um desafio, pois tratava-se de criar um «oratório sem palavras», em sete movimentos lentos (sonatas), que servissem de contraponto musical às palavras lidas dos evangelhos.

Em Junho começa a escrever A Viagem do Elefante, que interromperá em Outubro por motivo de uma doença grave. Saramago explicaria a origem do romance: «Foi há uns dez anos, em Salzburgo. Num restaurante chamado precisamente O Elefante, vi um friso de pequenas esculturas que representavam a caminhada de um elefante desde Lisboa até Viena.» Numa folha de  agradecimentos, no início do livro, o autor precisa as circunstâncias que favoreceram o nascimento da obra, a propósito de um jantar no referido restaurante, depois de proferir uma conferência na Universidade de Salzburgo: «Foi necessário que os ignotos fados se tivessem situado na cidade de Mozart para que este escritor pudesse perguntar: «Que figuras são essas?» As figuras eram umas pequenas esculturas de madeira postas em fila, e a primeira delas, da direita para a  esquerda, era a Torre de Belém em Lisboa. A seguir vinham representações de vários edifícios e monumentos europeus que manifestamente anunciavam um itinerário. Disseram-me que se tratava da viagem de um elefante que, no século XVI, exactamente em 1551, sendo rei D. João III, foi levado desde Lisboa até Viena. Pressenti que aí podia haver uma história...»

Em Junho cria a Fundação José Saramago, não apenas com o objectivo de promover a conservação, o estudo e o conhecimento da sua obra mas também de intervir social e culturalmente, de impulsionar acções a favor do ambiente e de contribuir para a promoção activa dos direitos humanos. Numa declaração de princípios assinada a 29 de Junho de 2007 por José Saramago, dirigida aos patronos da sua Fundação, expõe como suas vontades:

«a ) Que a Fundação José Saramago assuma, nas suas actividades, como norma de conduta, tanto na letra como no espírito, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, assinada em Nova Iorque no dia 10 de Dezembro de 1948; b) Que todas as acções da Fundação José Saramago sejam orientadas à luz deste documento que, embora longe da perfeição, é, ainda assim, para quem se decidir a aplicá-lo nas diversas práticas e necessidades da vida, como uma bússola, a qual, mesmo não sabendo traçar o caminho, sempre aponta o Norte; c) Que à Fundação José Saramago mereçam atenção particular os problemas do meio ambiente e do aquecimento global do planeta, os quais atingiram níveis de tal gravidade que já ameaçam escapar às intervenções correctivas que começam a esboçar-se no mundo.» E conclui: «Bem sei que, por si só, a Fundação José Saramago não poderá resolver nenhum destes problemas, mas deverá trabalhar como se para isso tivesse nascido. Como se vê, não vos peço muito, peço-vos tudo.»

A 15 de Julho é publicada uma entrevista de João Céu e Silva no Diário de Notícias, em que Saramago declara que, no seu entender, Portugal acabará por se integrar administrativamente, embora não culturalmente, na Espanha: «Não deixaríamos de falar português, não deixaríamos de escrever na nossa língua e certamente com dez milhões de habitante teríamos tudo a ganhar em desenvolvimento nesse tipo de aproximação e de integração territorial, administrativa e estrutural.» E sugere que a Espanha provavelmente deveria mudar de nome, passando a chamar-se Ibéria: «Se Espanha ofende os nossos brios, era uma questão a negociar.» As suas palavras têm grande ressonância polémica na Península Ibérica e geram um grande debate público. 

Em Cartagena das Índias, Colômbia, intervém perante um fórum de líderes da América organizado pela Fundación Carolina, para falar da necessidade da emergência do mundo indígena na América. «O outro lado da lua» foi o  título da sua intervenção.

A 16 de Julho, em Castril (Granada, Espanha), numa renovação de votos, volta a contrair matrimónio com Pilar del Río, num acto simbólico de homenagem à mãe de Pilar, meses após a sua morte. Nessa noite Paco Ibañez dá um recital emocionante na praça da aldeia em memória de Carmen, mãe de 15 filhos, da mãe de Saramago, Maria da Piedade, e também da sua própria mãe, uma corajosa exilada que não se rendeu.

O realizador de cinema Fernando Meirelles trabalha na adaptação cinematográfica do Ensaio sobre a Cegueira.

Em Setembro recebe o Prémio Save the Children pela sua contribuição na defesa dos direitos da infância, juntamente com Graça Machel, Jane Fonda e Anne Sophie Mutter.

Em Outubro viaja para a Argentina, para assistir à reunião do júri do Prémio Clarín de romance e visitar o Memorial aos desaparecidos da ditadura com as Mães e as Avós de Maio, que iam falando dos nomes dos seus filhos como se os nomes fossem pessoas. Saramago acariciou as pessoas, embora fosse em cadeira de rodas. Regressa a Espanha muito debilitado por uma pneumonia, tendo que ingressar num hospital de Madrid.

A 23 de Novembro a Fundação César Manrique (Lanzarote) inaugura uma grande exposição, comissariada por Fernando Gómez Aguilera, dedicada à sua vida e à sua obra literária, intitulada José Saramago. A Consistência dos Sonhos. Além de inéditos descobertos durante o período preparatório da mostra, reúne abundantes manuscritos, primeiras edições, material documental, agendas pessoais, jornais e revistas, cadernos de notas, obras e documentos audiovisuais, traduções, num total de mais de um milhar de documentos. Ao acto, que congrega autoridades nacionais e amigos de vários países, Saramago desloca-se em cadeira de rodas e expressa o seu agradecimento e a sua emoção: «Não sabia que tinha trabalhado tanto.»

Depois de treze anos de afrontas e coincidindo com o 25º aniversário da primeira edição de Memorial do Convento, a Câmara Municipal de Mafra concede-lhe a Medalha de Ouro Municipal. Saramago aceita a distinção «em nome do povo de Mafra».

Em Dezembro representa-se no Centro Andaluz de Teatro (CAT), em Sevilha, a sua peça de teatro In Nomine Dei uma crítica da intolerância e do fanatismo religiosos , encenada por José Carlos Plaza e produzida pelo próprio CAT.

Representação da peça Que Farei com Este Livro? pela Companhia de Teatro de Almada em Almada (Portugal).

A 9 de Dezembro a curta-metragem de animação La flor más grande del mundo (realização de Juan Pablo Etcheverry sobre o conto de José Saramago A Maior Flor do Mundo) ganhou o prémio de melhor filme de animação no Anchorage International Film Festival no Alaska.

A 18 de Dezembro dá entrada num hospital de Lanzarote, acometido por uma pneumonia que evoluirá, com complicações, ao ponto de pôr a sua vida em risco. Estará hospitalizado um mês e três dias.

2008

No dia 13 de Janeiro encerra, na Fundação César Manrique (Lanzarote), a Exposição José Saramago. A Consistência dos Sonhos .

A 22 de Janeiro tem alta hospitalar e regressa a casa.

No dia seguinte a abandonar o hospital, retoma a escrita de A Viagem do Elefante, interrompida pela doença. Os dois primeiros dias dedica-os à correcção do que já estava escrito em cerca de quarenta páginas e no terceiro já avança na história. Numa entrevista publicada em Outubro de 2008, no Brasil, comentará: «É sabido que passei por uma doença muito grave. Tive que interromper a escrita do livro [A Viagem do Elefante]. Internaram-me num hospital, mas vinte e quatro horas depois de regressar a casa já estava sentado a escrever. Entre finais de Fevereiro e Agosto, não parei. Pode concluir-se que retomei os meus hábitos de sempre: disciplina, trabalho regular e um pouco de obstinação.» Um mês mais tarde insistiria: «Comecei o livro em Fevereiro de 2007, e até Maio escrevi cerca de 40 páginas. Não avancei porque a minha saúde piorou. Mas, como já me havia decidido por um certo tipo de narrativa, não se produziu nenhuma alteração no estilo [...] É como se houvesse outro que escrevesse por mim.»

Em Fevereiro, foi nomeada a curta-metragem de animação La flor más grande del mundo  (realização de Juan Pablo Etcheverry sobre o conto de José Saramago A Maior Flor do Mundo) para a edição dos Prémios Goya 2008 da Academia das Artes e Ciências Cinematográficas de Espanha. Com estas distinções, A Maior Flor do Mundo consegue outro grande êxito na sua passagem pelos festivais VII edição dos Premios Mestre Mateo (Academia Galega do Audiovisual) ou 17º Tokyo Global Environmental Film Festival.

A 28 de Fevereiro a Fundação José Saramago é reconhecida oficialmente pelo governo português, com publicação no Diário da República desse dia.

A 1 de Março inauguram-se as actividades da Fundação José Saramago em Lanzarote com um encontro na biblioteca entre Saramago e María Kodama para falar de Borges. A mesma actividade será organizada em Lisboa pela sua Fundação a 20 de Junho, subordinada ao título «E se falássemos de Borges?».

Primeiros ateliers com escolas no auditório da Fundação José Saramago em Lisboa (Portugal) a propósito da curta-metragem de animação A Maior Flor do Mundo, disponível em DVD em versão bilingue.

A 15 de Março, homenagem a José Saramago (Teatro Nacional Dona Maria II / Companhia de Teatro de Almada mesa-redonda «O Teatro em José Saramago» e descerramento de uma placa de homenagem ao escritor) no TNDM II em Lisboa (Portugal).

A 29 de Março o ministro da Cultura de Portugal, José António Pinto Ribeiro, visita Saramago em Lanzarote.

Em Abril viaja até Lisboa, onde no dia 23 se inaugura, com a presença do primeiro-ministro do seu país, a Exposição José Saramago. A Consistência dos Sonhos, organizada, na Galeria de Pintura do Rei D. Luís, no Palácio Nacional da Ajuda, pelo Ministério da Cultura português (Instituto dos Museus e Conservação IMC, Biblioteca Nacional de Portugal BNP e Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas DGLB). Durante a sua permanência de três meses em Lisboa, continua escrevendo A Viagem do Elefante .

A 26 de Abril a curta-metragem de animação La flor más grande del mundo (realização de Juan Pablo Etcheverry sobre o conto de José Saramago A Maior Flor do Mundo) ganhou o prémio de melhor filme de animação no Festival Contraplano 08 em Segovia.

A 14 de Maio, o Festival de Cinema de Cannes abre com o filme Blindness, uma adaptação do romance Ensaio sobre a Cegueira transposta para os ecrãs pelo realizador brasileiro Fernando Meirelles. Quatro dias mais tarde, Meirelles e os produtores do filme exibem-no em Lisboa num visionamento privado a que assiste José Saramago. Na capital lusa, o filme estreará em Outubro. Apesar das suas reticências a que os seus romances sejam transpostos para cinema, Saramago sente-se satisfeito com o trabalho do cineasta: «O resultado da adaptação de Fernando Meirelles é mais que satisfatório. Considero-o mesmo brilhante. O essencial da história está ali, como seria de esperar, mas sobretudo encontrei, na narrativa cinematográfica, o mesmo espírito e o mesmo impulso humanístico que me levaram a escrever o livro.»

A 31 de Maio inaugura-se uma extensão local da Fundação José Saramago em Azinhaga. Nesse mesmo dia, a sua aldeia natal gemina-se com os municípios de Tías (Lanzarote) e Castril (Granada), reunindo-se assim, simbolicamente, três municípios vinculados à história sentimental de Saramago. Homenagem a Pilar del Río com descerramento de placa toponímica em Azinhaga. Lançamento do livro Memórias da Terra de José Saramago Azinhaga, de José Henriques Dias, primeiro título editado pela Fundação José Saramago, em Azinhaga.

Realização de ateliers com escolas, a propósito da curta-metragem de animação A Maior Flor do Mundo, em Azinhaga (Ribatejo, Portugal), no âmbito das comemorações do Dia Mundial da Criança.

Representação única da peça Que Farei com Este Livro? pela Companhia de Teatro de Almada no Teatro Municipal de Almada, em Almada (Portugal).

The Biggest Flower in the World (realização de Juan Pablo Etcheverry sobre o conto de José Saramago A Maior Flor do Mundo) vence o Prémio de Melhor Argumento no Chicago Short Film Festival (Festival de Curtas-Metragens de Chicago).

A 20 de Junho, palestra-colóquio E Se Falássemos de Borges? com María Kodama e José Saramago na Biblioteca Nacional, em Lisboa.

Concerto executado pelo Quarteto Vianna da Motta, com interpretação do Quarteto n.o 9, op. 117, de D. Shostakovich na Galeria de Pintura do Rei D. Luís I no Palácio Nacional da Ajuda (Lisboa).

A 10 de Julho a Fundação José Saramago realiza no Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa, uma homenagem a Jorge de Sena subordinada ao título «Jorge de Sena Um regresso», com a presença e participação do ministro da Cultura português, José António Pinto Ribeiro, e intervenções de José Saramago, Eduardo Lourenço, Vítor Aguiar e Silva, Jorge Fazenda Lourenço, António Mega Ferreira e Jorge Vaz de Carvalho, que procedeu à leitura de poemas do homenageado, acompanhado ao piano por António Rosado.

Curso Livre em torno da obra de José Saramago, organizado pelo  IMC e pela DGLB no âmbito da exposição José Saramago. A Consistência dos Sonhos (10 e 11 de Julho), na Galeria de Pintura do Rei D. Luís I, Palácio Nacional da Ajuda (Lisboa).

A 16 de Julho, a Câmara Municipal de Lisboa aprova a cedência da Casa dos Bicos à Fundação José Saramago por um período de 10 anos para que ali se instale a sua sede. No dia seguinte é assinado o protocolo de cedência entre a Câmara e a Fundação.

A 18 de Julho voa de Lisboa para Lanzarote.

Lançamento do sítio da Fundação José Saramago na Internet.

A 22 de Agosto acaba na sua casa em Lanzarote A Viagem do Elefante. A obra parte de um episódio histórico localizado em 1551, a oferta de um elefante asiático por parte do rei D. João III de Portugal a seu primo, o arquiduque Maximiliano de Áustria. Saramago reinventa a viagem que, por terra e por mar, o paquiderme realiza desde Belém (Lisboa) a Viena. A ironia, o sarcasmo e o humor formam uma amálgama com a compaixão para oferecer, como o próprio autor assinalou, «uma metáfora da vida humana»: «O que me levou a este livro foi o destino do elefante, no sentido em que, depois de morrer, lhe cortaram as patas para as colocarem na entrada do palácio para porem nelas os guarda-chuvas, as bengalas e as sombrinhas. Sem esse destino, tão grotesco, tão absurdo, talvez não tivesse escrito o livro. Em qualquer caso, excluindo esse final, o livro é uma metáfora da vida humana.» Mas o alcance metafísico da narração não exclui a dimensão crítica da metáfora mediante a qual o escritor, amparado no seu célebre pessimismo, censura a estupidez do homem e investe duramente contra a Igreja, a nobreza e o estatuto militar, em suma, contra o poder, desmitificando as instituições para sublinhar o valor do marginal e do aparentemente menor, do ponto de vista histórico. Saramago assume uma posição cervantina e presta tributo à língua portuguesa, ao gosto pelo idioma e à invenção narrativa. 

Em fins de Agosto dá-se início ao blog da Fundação José Saramago.

Coincidindo com a festa anual (Seixal, Portugal) do jornal Avante!, o Partido Comunista Português presta-lhe uma homenagem.

A 15 de Setembro inicia «O Caderno de Saramago» no blog da Fundação José Saramago, onde publicará regularmente os seus textos, por norma cinco artigos por semana.

A 22 de Novembro viaja de Lisboa para o Brasil.

A 26 de Novembro A Viagem do Elefante será apresentado, pela primeira vez, na Academia Brasileira das Letras, no Rio de Janeiro, e no dia seguinte, na Sesc Pinheiros, em São Paulo. A 3 de Dezembro o mesmo sucederá no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. As edições portuguesa, brasileira, espanhola e catalã saem em simultâneo.

A 29 de Novembro é inaugurada a Exposição José Saramago. A Consistência dos Sonhos no Instituto Tomie Ohtake de São Paulo.

A 1 de Dezembro regressa a Lisboa.

Em co-edição com a Fundação José Saramago, a Editorial Caminho imprime una edição especial limitada e numerada de A Viagem do Elefante, que inclui 15 ilustrações de Pedro Proença.

Edita-se e é apresentada uma edição especial de Levantado do Chão ilustrada por Armando Alves e coordenada por José da Cruz Santos, da editora Modo de Ler. O livro apresenta-se numa caixa com gravação e tem um prólogo de Pilar del Río.

A 5 de Dezembro escreve, na sua casa de Lisboa, a primeira página do seu novo livro, obra que conclui no dia 16 de Março em Lanzarote. Cinco dias antes anunciara no Brasil que começaria um novo livro.

A 10 de Dezembro, coincidindo com o 10.o aniversário da atribuição do Prémio Nobel, a Fundação José Saramago realiza uma homenagem à literatura portuguesa na Casa do Alentejo em Lisboa, na qual 25 escritores, actores e jornalistas emprestam a sua voz a autores já desaparecidos. Saramago lê Fernando Namora. A Fundação distribui nesse dia na imprensa portuguesa um folheto com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a propósito do seu 60.o aniversário.

A 11 de Dezembro, também na Casa do Alentejo, o juiz Baltasar Garzón, em colóquio com Saramago, explica o processo de Pinochet e os actos judiciais que se estão levando a cabo na América contra os crimes das ditaduras.

A 12 de Dezembro inaugura em Lisboa, com María Kodama, o Memorial a Jorge Luis Borges.    

A 16 de Dezembro apresenta a edição espanhola de A Viagem do Elefante na Casa de América, Madrid.  

A 28 de Dezembro regressa a Lanzarote, depois de passar o Natal em Granada. Escreve para o blog a entrada «Cunhados», que reflecte o que significa para ele, filho único, estar com tantos cunhados, os 14 irmãos e irmãs de Pilar e seus respectivos pares. 

2009

Durante o mês de Janeiro, dedica-se a escrever o seu novo livro.

No início de Fevereiro participa numa homenagem a Jorge Sampaio, em Lisboa.

A 5 de Fevereiro visita as obras de remodelação da Casa dos Bicos, futura sede da fundação que leva o seu nome.

A 1 de Março estreia em Madrid o filme A ciegas, de Fernando Meirelles, adaptação cinematográfica de Ensaio sobre a Cegueira. Saramago participa, juntamente com Meirelles, na sua apresentação.

A 4 de Março inaugura-se em Albacete (Espanha) a Casa da Cultura José Saramago, com a presença do ministro da Cultura espanhol.

A 16 de Março, em Lanzarote, conclui o seu novo livro. A sua publicação só acontecerá no mês de Outubro.

A 26 de Março encerra, em Arrecife de Lanzarote, as II Jornadas sobre Legalidade Urbanística, organizadas pelo  presidente do município de Lanzarote.

A 5 de Abril, dá entrada numa clínica de Lanzarote afectado por problemas de saúde. Permanece hospitalizado quinze dias.

A 13 de Abril, abandona por umas horas a clínica para participar na mesa-redonda, «Experiência de Um Sequestro», organizada conjuntamente pela Fundação César Manrique e pela Fundação José Saramago, com o político colombiano Sigifredo López, primeiramente sequestrado e libertado oito anos depois pelas FARC. A 20 de Abril deixa o hospital.

A 16 de Abril recebe em Granada (Espanha), juntamente com Dario Fo, o XI Prémio Caja Granada de Cooperación Internacional, nos actos preliminares do Hay Festival Alambra, em «reconhecimento do esforço e da dedica&am


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