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Não me chamem de bandido
Aílton Antunes da Silva era o centro das atenções naquele dia de agosto. A audiência, de cerca de 200 pessoas, ouvia o seu testemunho. A história daquele que chegou a controlar, diziam os jornais da década de 1990, 70% do tráfico de drogas em Minas Gerais, prendia a atenção dos presentes. Esses, condenados à prisão por tráfico, homicídios, assaltos, ouviam as palavras de Aílton de dentro da prisão que prometia a eles reintegração social.

Natália Martino

O ponto alto do relato, entretanto, se deu quando outro personagem, Valdeci Antônio de Oliveira, entrou em cena. “Eu tenho um presente para você”, disse. Aílton calou-se e esperou. “É a sua liberdade”. Depois de quase 20 anos entre presídios e fugas, Aílton ganhava, em 2005, o direito de ir e vir.

O presente de Aílton havia sido encomendado alguns anos antes, em 1998. Nesse ano, Eduardo Oliveira, ou Gordo, pseudônimos utilizados por Aílton, foi preso pela última vez. Passou 6 dias na solitária da Penitenciária José Maria Alkimin, em Ribeirão das Neves (MG), e em seguida foi transferido para a Penitenciária de Segurança Máxima Nelson Hungria, em Contagem (MG). Lá, foram mais 30 dias de solitária. 21 deles sem banho. Quis morrer, mas nem isso conseguiria, já que não havia nada dentro da sua cela a não ser a escuridão. Depois do período de isolamento, recebeu a visita de Valdeci, o qual havia conhecido quando estava preso na Cadeia Pública de Itaúna (MG), ainda em seus primeiros passos na vida criminosa.

O visitante sugeriu a Aílton que escrevesse uma carta para o juiz da comarca de Itaúna, sua cidade natal, solicitando a transferência para a APAC (Associação de Proteção ao Condenado) . Aílton acatou a sugestão e o juiz acatou o pedido. A liberdade estava encomendada nesse dia. A APAC é um presídio diferenciado, que acolhe condenados pelos mais diversos crimes – tráfico, assalto, homicídio – e trabalha para que tais condenados voltem às ruas sem oferecer mais perigo para a sociedade. Para o trabalho de reeducação, o presídio conta com voluntários – treinados em um curso de cerca de 40 horas – e alguns poucos funcionários remunerados na administração. Não há policiais. O resultado é um índice de reincidência que não ultrapassa 8% na APAC de Itaúna, enquanto a média nacional chega a 85%.

Quando chegou à APAC, Aílton estava com pneumonia e com o corpo fraco, atrofiado, segundo sua própria descrição. Foi, para ele, como chegar em casa. O chuveiro era quente, havia espaço para caminhar, os funcionários o tratavam bem. Mas ainda assim foi difícil se adaptar. Ao ouvir qualquer barulho de chave, ele já corria para a cama e lá ficava, tremendo, em pânico. Na penitenciária, os presos não podiam estar tristes nem felizes. Sorrisos poderiam ser interpretados como zombaria. Os carcereiros puniam. Caras fechadas poderiam revelar olhares desafiadores. Eram punidos também. A solução era, diante de qualquer barulho, deitar e fingir estar dormindo. Não foi fácil se libertar desse hábito.

Em suas idas e vindas em várias cadeias e penitenciárias, Aílton já havia padecido dos mais diferentes males. Da cadeia pública de Itaúna, lembra-se de acordar à noite se coçando, abrir os olhos e ver vários presos chorando de dor, de desespero. Era a sarna, doença comum graças à falta de higiene na cadeia onde banho, só uma vez por semana. Nessa época, a cadeia não tinha nem colchão para os presos. Foi nessa situação que Valdeci conheceu Aílton. Comovido, ele fundou, junto a outros jovens atuantes na Igreja Católica, a Pastoral Carcerária. Visitava a cadeia, lutava por melhorias no espaço físico e até lavava pessoalmente as roupas dos presidiários. Anos depois, foi esse mesmo grupo que lutou pela construção da segunda unidade da APAC no mundo, inspirados na experiência da cidade de São José dos Campos (SP).

Da Delegacia de Furtos e Roubos, em Belo Horizonte (MG), Aílton lembra-se do pau-de-arara. Pelado, mãos e pés amarrados, ficou pendurado mais de uma vez na posição de um frango assado por um ferro que se apoiava em um buraco na parede de um lado e um cavalete do outro. No chão, abaixo dele, um pneu. No caso de queda, ninguém queria que o preso quebrasse uma costela. Ao redor de Aílton, seis policiais. Um segurava a mangueira, outro um fio de choque, um terceiro segurava uma máquina de choque próxima aos pés e um quarto cuidava da chamada “cocota”, que consistia em uma borracha amarrada a um pedaço de madeira – era usada para bater no interrogado. Os outros dois se encarregavam de fazer as perguntas necessárias. Queriam que ele confessasse, mas em certos casos não era possível, pois ele não era culpado e não saberia, portanto, contar os detalhes necessários para a confissão.

Da Penitenciária José Maria Alkmin, em Ribeirão das Neves (MG), lembra-se do início da carreira de traficante. Até então, vendia pouca droga. “É uma escola do crime”, define Aílton se utilizando de um clichê que suas lembranças parecem confirmar. É preciso ser violento para ganhar o respeito dos outros presidiários e sobreviver. Nas conversas, descobre-se como cada um foi preso e aprende-se a evitar os mesmos erros. Nas novas amizades, aumenta-se o ciclo de parceiros para os atos ilícitos.

Fugiu de todas essas cadeias. Às vezes por meio de suborno. Em outras ocasiões cerrava a grade e saia da prisão embaixo de tiros. Da APAC, onde ficou por 7 anos até ganhar a liberdade durante o seu testemunho na Jornada de Libertação com Cristo, evento anual da APAC, nunca tentou fugir. Para quem visita a instituição, isso pode ser difícil de entender. O enorme muro de concreto na frente do prédio até lembra uma prisão, mas as frágeis cercas de arame farpado aos fundos mais parece a delimitação de um pequeno sítio. Mesmo o enorme muro tem sua diferença em relação a outras prisões atrás do pequeno portão azul por onde se entra no prédio. É que o dono da chave que o tranca e destranca não é policial. Também não é um funcionário da administração e nem tão pouco um voluntário. É um recuperando – porque na APAC não existem presidiários, existem recuperandos.

Tudo parece favorável a uma fuga. Mas Aílton nem mesmo tentou. “Não podemos trair quem quer nos ajudar”, resume ele ao tentar explicar o porquê. Na APAC, a mãe de Aílton voltou a visitá-lo. Aos poucos, ele reconstruía seus laços afetivos. Isso lhe dava força, diminuía a sensação de isolamento, o sentimento de que era bandido mesmo e de que não havia outro caminho. Logo nos primeiros dias de APAC, já percebeu uma diferença fundamental. Não havia corrupção. Se não é possível comprar ninguém, se o dinheiro ou a fama não fazem diferença, então todos são iguais. Não é possível ter privilégios.

Dez anos antes de ganhar sua liberdade, no dia 18 de maio de 1995, o jornal Diário da Tarde trazia no caderno Polícia a foto de Aílton escondendo o rosto. Ele e sua quadrilha haviam sido presos com 250 quilos de maconha prensada e vários armamentos. “Para o delegado (Humberto Braz Pereira) essa quadrilha é uma das mais atuantes em Minas e abastecia 70% do mercado (de drogas)”, dizia a reportagem. O currículo de Aílton apresentado pelo jornal não deixava dúvidas sobre o perigo que ele representava: “Aílton, que também é conhecido com Eduardo Oliveira, é foragido do Centro de Reeducação de Neves, onde cumpria pena de 17 anos por tráfico de drogas. Ao ser preso, foi autuado em flagrante por tráfico, falsidade ideológica e falsa identidade”.

Quatorze anos se passaram e Aílton não apagou esse histórico, mas já pode se apresentar sem esconder o rosto e responde “sapateiro” quando é perguntado sobre a sua profissão. Ele produz sandálias manualmente, com a ajuda da família e de dois recuperandos da APAC, aos quais ensina o ofício. A fábrica é dentro da prisão e o que produz é vendido em uma de suas lojas, em Itaúna(MG) e em Pará de Minas (MG), ou distribuído por lojas em Belo Horizonte (MG). Ao contar a sua história, quase não sorri, possui o ar preocupado de quem sabe que tem que lutar muito para sobreviver. Olha para o chão enquanto relembra seus longos 45 anos de vida. Não manifesta emoções ao relatar as torturas, mas chora ao se lembrar da humilhação sofrida quando alguém o chamava de bandido.

Mora hoje com a esposa Cláudia, que conheceu quando estava no regime semi-aberto da APAC, Rúbia, a filha de dois anos do casal, os dois filhos que teve com a ex-namorada Valquíria, Romeu e Roger, e a filha do primeiro casamento de Cláudia, Débora, hoje com 10 anos. Ele não é alto, também não parece merecedor do apelido Gordo. A pele morena, os cabelos e os olhos pretos. É, fisicamente, um tipo comum.

A história, porém, é incomum. É por isso que entre os planos futuros de Aílton está escrever um livro autobiográfico. Nos primeiros tempos na APAC, ele tentou escrever essa biografia. Não conseguiu. Não tinha final. Agora será mais fácil. Ele já considera o seu final feliz. Happy end, no melhor estilo hollywoodiano


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Violência   1129   28/12/2009 - 12h   4962  


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