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Gênios do crime
Romances de detetive do italiano Andrea Camilleri e do sueco Henning Mankell evidenciam as diferenças dentro da literatura globalizada

PETER BURKE

Desde que Arthur Conan Doyle virtualmente inventou um novo gênero literário ao criar Sherlock Holmes, em 1887, as histórias de detetives vêm florescendo.
O Marlowe de Raymond Chandler, o Poirot de Agatha Christie e o Maigret de Georges Simenon são famosos há muito (uma estátua de Maigret foi erigida na Bélgica natal de Simenon, em 1966), mas eles ganharam ao longo dos anos a adesão de um grupo multinacional de colegas mais jovens, quer policiais, quer investigadores particulares (gosto de imaginar a possibilidade de um jogo de futebol entre os dois grupos).
No passado quase confinado aos mundos de fala inglesa ou francesa, o gênero posteriormente floresceu de maneira muito mais ampla, especialmente no Japão e na Coreia do Sul.
Na Europa, há importantes escritores, da Espanha (Vázquez Montalbán, criador de Pepe Carvalho) à Holanda e da Itália (Andrea Camilleri) à Suécia -um país que por algum motivo se provou especialmente produtivo em termos de detetives literários, desde os anos 1960-, culminando com o sucesso infelizmente póstumo do jornalista Stieg Larsson [1954-2004] com sua Lisbeth Salander, a mais recente em uma linhagem cada vez mais longa de investigadoras.
A televisão ofereceu uma segunda vida a alguns desses personagens. O Hercule Poirot de Agatha Christie é hoje tão inseparável do ator David Suchet quanto o inspetor Morse, de Colin Dexter, o é do ator John Thaw (os fãs da atuação de Thaw na longa série de televisão protagonizada por Morse incluem a rainha Elizabeth 2ª).
As carreiras de outros detetives famosos, de Taggart em Glasgow [Escócia] a Columbo em Los Angeles, transcorreram inteiramente na televisão, e não nas páginas de romances. Os críticos literários certamente perceberão e provavelmente já escreveram sobre as alusões que uma história de detetives faz a figuras anteriores dessa tradição, um truque que muitos dos escritores desse tipo de livro adoram usar.
Assim, o nome do inspetor Montalbano, de Camilleri, é uma homenagem ao escritor Vázquez Montalbán, enquanto Lisbeth Salander, de Larsson, evoca o inspetor Wallander [de Henning Mankell].
De sua parte, o amor do inspetor Wallander pela ópera lembra os leitores do inspetor Morse (gosto de imaginar esses dois sujeitos solitários se encontrando e descobrindo na música um interesse comum).

O rastro de cada um
Do ponto de vista de um historiador da cultura, como é o meu caso, também é interessante perguntar se, a despeito dos traços comuns do gênero, histórias de detetives publicadas em diferentes países revelam algumas das principais características das culturas em que foram escritas.
Para testar a hipótese, consideremos dois dos principais detetives de ficção hoje em atividade, Montalbano e Wallander. Os dois compartilham alguns traços. Ambos são policiais, ao contrário de Holmes e Marlowe. Os dois trabalham em cidades pequenas de suas regiões natais, a Sicília no primeiro caso e Skane, no sul da Suécia, no segundo, em lugar de serem forasteiros, como Poirot na Inglaterra. Nem Montalbano nem Wallander são casados; no momento maridos ou mulheres de protagonistas são de fato coisa rara nesse gênero de ficção.
De outras maneiras, porém, eles são muito diferentes, quase opostos. Montalbano, como seu predecessor espanhol Pepe Carvalho, gosta de comer bem, enquanto Wallander come mal e pouco parece se importar com comida.
Montalbano é mais sociável e tem mais sucesso em suas relações com mulheres, e seu senso de diversão é superior, enquanto Wallander, enquadrado aos estereótipos das culturas protestantes em geral, e da sueca em particular, é melancólico, introspectivo e individualista, como um personagem de um filme de Ingmar Bergman -e também bebe pesadamente.
O mais revelador quanto às diferenças culturais entre Itália e Suécia talvez sejam as atitudes distintas que os dois policiais adotam com relação às leis em geral e às regras de investigação em particular. Montalbano está sempre quebrando as regras, sem remorso. Sua atitude para com o governo e a burocracia é cínica.
Wallander, por outro lado, sofre de desilusão apenas parcial para com o sistema. Ainda respeita "vacas sagradas" tais como diretores de empresas e políticos, a despeito de todos os indícios de corrupção. Prefere obedecer à lei, exceto quando precisa estacionar seu carro.
Mas muitas vezes, como em "O Homem Que Sorria" [Companhia das Letras], vê-se em "uma terra de ninguém onde qualquer bem que ele pudesse fazer sempre envolvia a necessidade de decidir que regulamentos obedecer e que regulamentos violar". Não é difícil adivinhar qual dos dois inspetores sobreviveria melhor a uma transferência para a polícia do Rio de Janeiro.

Depois do teatro
Os dois autores, o siciliano Camilleri e o sueco Mankell, também oferecem uma interessante mistura de semelhanças e contrastes. Ambos se tornaram famosos depois de publicar suas histórias de detetives, que venderam milhões de cópias em muitos idiomas e foram adaptadas para a televisão.
Os dois chegaram ao gênero relativamente tarde, depois de carreiras no teatro, o que se torna mais aparente nos livros de Camilleri, com suas cenas dramáticas e diálogos coloquiais, apresentados ao leitor em um italiano temperado -ou melhor, apimentado- pelo dialeto siciliano.
A caracterização de Mankell é discreta, calculada. Os personagens dele podem parecer um tanto apagados, inicialmente, mas, ao longo de uma série de livros, ganham contornos mais definidos.
Mas os maiores contrastes estão na percepção dos dois autores quanto a tempo e espaço, vinculados a seus diferentes lugares de nascimento (uma grande cidade, Estocolmo, e a pequena Porto Empedocle) e, possivelmente, à diferença geracional (Camilleri nasceu em 1925 e Mankell, em 1948).
A Sicília de Camilleri, especialmente a cidade de Vigàta [imaginada pelo autor italiano] e a área que a cerca, é apresentada como um mundo isolado, resistente a mudanças, a despeito de referências à história italiana recente, especialmente terrorismo, corrupção e imigração norte-africana. Por outro lado, os crimes que Wallander investiga na pequena Skane estão sempre conectados ao mundo exterior -à Letônia, em "Os Cães de Riga", à África do Sul, em "A Leoa Branca" [ambos publicados pela Companhia das Letras], e à República Dominicana, em "A Falsa Pista".
Isso permite que Mankell aproveite sua experiência de vida em Moçambique e outros países, mas também enfatiza que o global interfere cada vez mais nas culturas locais, mesmo em pequenas cidades como a Ystad de Wallander. Quer o tenham planejado, quer não, Camilleri-Montalbano e Mankell-Wallander têm muito a nos dizer sobre suas culturas.

PETER BURKE é historiador inglês, autor de "O Que É História Cultural?" (ed. Zahar).

Tradução de Paulo Migliacci.


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Cultura   936   26/12/2009 - 22h   4949  


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