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2958
Assunto:
História
Postado:
15/12/2009-08h
Nº:
4843
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A Enciclopédia, recenseamento do saber
No século XVIII, Diderot e D’Alembert organizaram a primeira obra que colocava ao alcance dos leitores o conjunto dos conhecimentos filosóficos e científicos disponíveis na época. Era o início de uma revolução intelectual.

Joëlle Chevé
Museu Nacional do Castelo de Malmaison, Rueil-Malmaison
Filósofos Iluministas reunidos no salão de madame Geoffrin. Óleo sobre tela de Anicet-Charles Lemonnier, 1812

Em 1751 foi editado o primeiro volume da Enciclopédia, de Denis Diderot e Jean le Rond d’Alembert. A peripécia intelectual e editorial sem precedentes provocou na Europa, ao mesmo tempo, entusiasmo e aversão. A obra tinha a ambição de colocar ao alcance do leitor todo o conjunto de conhecimentos humanos derivados da razão. Mas, já no fim do século XVIII, o trabalho foi acusado de estar na origem da Revolução Francesa, dado que também o movimento bebeu na fonte do Iluminismo.

Alguns estudiosos do século XIX aprofundaram essa visão e identificaram nos volumes o triunfo do liberalismo reformador e a reabilitação do trabalho popular. O historiador francês Jules Michelet, por exemplo, exaltava em Diderot a alma e o caráter da revolução. Já o intelectual alemão Karl Marx avançava mais e denunciava o desvio do espírito das Luzes pela classe burguesa.

Críticas à parte, a história da Enciclopédia revela um nível ímpar de idealismo. Em 1740, o livreiro parisiense André Le Breton estava em busca de um projeto que colocasse à disposição do público, a um preço razoável, uma informação competente, filosófica, científica e técnica, na língua do país e livre da pressão erudita das obras acadêmicas.

A moda então eram os livros ingleses. Com seus três sócios, Le Breton decidiu traduzir e editar a Cyclopaedia de Ephraim Chambers, uma espécie de dicionário de vários assuntos publicado em Londres em 1728. Surgiu, contudo, todo tipo de dificuldades entre editores e colaboradores. Em 1747, os livreiros franceses decidiram apelar a Diderot e D’Alembert para que ambos dirigissem a concepção e a realização da obra.

Diderot tinha o perfil intelectual adequado, e sua associação com d’Alambert, matemático próximo dos meios aristocráticos e membro da Academia das Ciências, deu à obra uma chancela oficial. Do empenho de ambos no projeto resultou a necessidade de ir além do dicionário de Chambers, limitado demais, em particular no campo das artes mecânicas, da agronomia e das ilustrações.

Para reforçar o novo texto, optou-se pelo uso de imagens, procedimento pedagógico que seria um dos maiores trunfos da Enciclopédia. Os temas foram apresentados sob a forma de uma árvore inspirada na do filósofo inglês Francis Bacon. A filosofia era o tronco, enquanto a teologia foi destronada e relegada a um ramo, em companhia das ciências ocultas e da magia!

O tom estava dado: a Enciclopédia, dicionário racional das ciências, das artes e dos ofícios era ao mesmo tempo uma obra de informação e um manifesto. Havia o desejo expresso de romper com um passado considerado ignorante e obscurantista e afirmar o advento de uma nova era, fundada nas luzes da razão e na fé no progresso.

A filosofia foi, a partir de então, considerada uma disciplina guia, encarregada de acabar com os preconceitos e superstições que se opunham à razão, transformada em uma espécie de nova religião. Ocorre que havia muitas divergências entre os filósofos. O suíço Jean-Jacques Rousseau e o francês François-Marie Arouet (ninguém menos que Voltaire) eram deístas. Já Diderot e os também franceses Paul-Henri Thiry (cujo pseudônimo era Baron d’Holbach) e Claude-Adrien Helvétius eram ateus.

As divergências não paravam aí. Rousseau proclamava a liberdade do homem e as virtudes da solidão, enquanto Diderot via o ser humano em uma lógica mais determinista na qual a sociedade tinha um papel quase preponderante. Mesmo assim, todos concordavam com o princípio de melhorar o homem e organizar a sociedade, em vez de questionar a existência de Deus, com o qual o homem não tinha uma experiência sensível por definição.

Além disso, todos tinham o mesmo dever: ampliar o campo do conhecimento e esclarecer a humanidade por meio de educação baseada na observação e na razão. Os enciclopedistas se consideravam um baluarte dessa nova pedagogia, que tomou ares messiânicos.

Diderot trabalhou nessa obra anos a fio e se cercou de uma equipe de aproximadamente 150 colaboradores reconhecidos – dois quintos deles permaneceram anônimos. O recrutamento levou em conta competências, não posição social. Assim, havia eruditos e práticos, proprietários e funcionários. A despeito da lenda, porém, nenhum negociante ou grande mercador participou da obra. E nenhum operário ou camponês.

Outros nomes célebres sistematicamente associados à Enciclopédia tiveram participação ínfima, como Charles de Montesquieu, morto na França em 1755. Rousseau, que contribuiu com 390 artigos de música e outros de economia política, retirou-se do projeto em 1757, furioso com um texto redigido por D’Alembert, que já andava cansado de ataques e proibições oficiais e também abandonou o barco. Voltaire apoiava a causa, mas sem muito esforço – seus artigos literários ou históricos careciam de brilho.

Depois de 1759, a maioria havia desertado. Diderot, decepcionado, recorreu a uma equipe menor e menos célebre para redigir os dez últimos tomos de textos.

A Enciclopédia pareceu desde o início uma máquina de guerra contra a Igreja. Para driblar a censura, os autores se valeram de uma esperteza: reservaram poucos “sacrilégios” aos textos sobre cristianismo, por exemplo. Mas em outros textos e verbetes, sobre outros temas, há referências irônicas sobre o Espírito Santo e as vestimentas do papa. Essa graça, quase uma codificação, fez grande sucesso entre leitores antirreligião.

Até meados do século XVIII, a desconfiança dos censores da universidade Sorbonne – então totalmente dominada pela Igreja – não repousava sobre os filósofos enciclopedistas. O caso do abade de Prades, que escreveu o artigo Certeza para a obra, abriu-lhes os olhos. Prades era acusado de heresia por causa de sua visão particular da teologia. O conselho do rei Luís XV reagiu proibindo os dois primeiros volumes da Enciclopédia.

Não bastasse, em 1758, a obra do colaborador Helvétius, Do espírito, desencadeou uma crise. Os meios tradicionais e as autoridades passaram a considerar a Enciclopédia como um monumento de heresia e perversidade. Em 6 de fevereiro de 1759, o Parlamento de Paris condenou a obra. Foi seguido pelo Conselho de Estado e por Roma. Religiosos que viviam às turras, como jesuítas e jansenistas, aliaram-se contra os selvagens cacouacs, alcunha que designava os enciclopedistas.

Proibida, a obra continuou disponível a quem quisesse, já que a autorização dos livreiros não foi revogada. E seu sucesso continuava imenso, na verdade ampliado pela polêmica. Havia uma excitação geral, intelectual e política. O Estado era mais bem tratado que a Igreja pelos enciclopedistas, mas havia restrições à monarquia. No artigo Economia, Rousseau lançou as bases do livro Do contrato social, e, aqui e ali, os privilégios dos nobres contrastavam com a vida rude do povo.

Os enciclopedistas, contudo, não encorajavam a revolução, pois tinham a certeza de ser eles próprios os protótipos do novo gênero humano: eis uma concepção elitista que afastava de suas preocupações a reivindicação de igualdade universal. Nesse sentido, a Enciclopédia era um produto de seu tempo. Seus idealizadores e seus leitores vieram de classes sociais cujas representações e expectativas se inscreviam em uma corrente racional e liberal amplamente compartilhada com os notáveis e com uma parte da corte.

Por ocasião do lançamento do último tomo, em 1772, Diderot avaliou que a obra estava monstruosa e deveria ser retomada de A a Z. Em 1775, o editor Charles-Joseph Panckoucke iniciou um trabalho de revisão e de complemento, a Enciclopédia metódica, concluída em 1832.

Mesmo com o conhecimento técnico já ultrapassado em muitos aspectos – permanecem com desconcertante atualidade suas teorias sociais –, a obra nunca perdeu o interesse como documento histórico. Seus autores foram pioneiros de um mundo contemporâneo que multiplicou infinitamente o sonho do Iluminismo.

Nascido em 1713, era filho de um cuteleiro rico. Recebeu educação sólida de jesuítas, mas até os 29 anos levou uma vida de boêmio, embora estudioso, pontuada por breves empregos. Isso lhe permitiu dedicar-se à paixão por matemática, latim, grego, inglês, teatro e conversação.

Um casamento precipitado, o nascimento de quatro filhos e uma amante dispendiosa o obrigaram a buscar fontes de renda menos aleatórias que as traduções e os trabalhos filosóficos que lhe rendiam mais prestígio que dinheiro. Foi então que aceitou dirigir o grande projeto do livreiro Le Breton. Trabalhou nele 25 anos.

Se a Enciclopédia, com sua natureza abrangente, o afastou um pouco da filosofia, foi graças à obra e à sua curiosidade intelectual insaciável que se tornou, segundo as palavras de Rousseau, “uma cabeça universal”. Seus inimigos muitas vezes o criticaram por nunca concluir o que havia começado. Injustiça: ele só foi liberado da Enciclopédia em 1765.

A maior parte da obra de Diderot foi conhecida postumamente. Parecia caótica devido à multiplicidade de seus centros de interesse: filosofia e moral (nos livros O sobrinho de Rameau; A religiosa; O pai de família; Jacques, o fatalista), estética (O paradoxo do comediante; Ensaios sobre a pintura; Salões) e crítica literária.

Joëlle Chevé é especialista em história social dos séculos XVII e XVIII







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