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Cultura | texto 4671
Tudo o que é sólido se desmancha no digital

Como acontece a cada dois ou três anos desde meados dos anos 90, o pequeno mundo das editoras e da cultura está novamente agitado diante das promessas do "livro digital", da suposta "desmaterialização dos saberes".

Rémy Toulouse

Os prognósticos, asseguramos desta vez, são confiáveis: já estamos maduros para uma digitalização do conteúdo de nossas bibliotecas, para "migrar" para as "novas plataformas do saber". A oferta tecnológica por fim está à altura, o curso foi estabelecido, em breve iremos nos desfazer desse velho objeto empoeirado e anacrônico acima de tudo: esse pequeno paralelepípedo de papel que ousava se vangloriar do monopólio sobre a palavra "livro".

Pode-se esperar, sem dúvida, que um pequeno editor de ciências sociais se entusiasme com a quantidade de "oportunidades" que essa marcha forçada em direção ao progresso não deixará de trazer, ou, pelo contrário, que ele se feche numa postura puramente defensiva diante dos riscos de uma maior concentração, dos fabricantes todo-poderosos dos e-books e das ameaças à sua independência editorial...

Mas, embora essas questões sejam importantes, elas não devem mascarar os verdadeiros riscos que se perfilam - para os editores e para os leitores - por conta desse processo. E estes nos obrigam a considerar a estreita relação entre a digitalização generalizada dos saberes (com o Google e afins) e o papel conferido aos suportes de leitura eletrônica, como o Kindle e outros Sony.

De fato, os mecanismos que agem hoje são poderosos: trata-se de nada menos do que da aceleração dos ciclos de acúmulo do capital, aliados à lógica subjetiva da mentalidade dos governos neoliberais; que encontraram nas novas tecnologias "imateriais" um tipo de ferramenta ideal, uma ferramenta que promete ao mesmo tempo novas perspectivas de lucro e novas formas de subjugação.

Para o capital, a certeza de acréscimo permanente, e portanto a garantia de aumentar a velocidade de rotatividade dos produtos, assim como a compressão dos custos de produção e de mão-de-obra (para os defensores do neoliberalismo), a perspectiva de dominar os ritmos sociais ligados à atividade de aprender, de disciplinar o corpo diante da tela, de submeter os cérebros "disponíveis" ao fluxo incessante de "conteúdo" e de informação.

Finalmente, o que está em debate hoje, de maneira autoritária, através do livro digital, é toda nossa relação como texto e a leitura. Essa relação é ligada à linearidade, à forma argumentativa e, portanto, ao senso crítico. Sabe-se que lemos cada vez mais, e por um tempo cada vez maior, na tela, e que as gerações que crescerão com os computadores ultrapassarão ainda mais o que hoje parece ser um limite para nós.

Mas lemos de forma bem diferente, e coisas bem diferentes. É muito provável que um texto que necessite de mais de uma hora de leitura, que não tenha como única função "responder a uma pesquisa", fornecer uma informação, e que não seja lido dentro de um contexto institucional em que os "tomadores de decisão" já estão convertidos ao "mundo digital" (como na escola, onde o livro é hoje uma espécie em vias de extinção), só pode ser lido sobre o papel.

É apenas no livro, com sua forma finita tão específica, que a "verdadeira" leitura pode se efetuar, aquela que implica atenção, concentração, duração, desinteresse. E o famoso e-book parece mais um fator essencial da marginalização do livro do que um livro novo.

Se a leitura que ele induz pode convencer um certo número de leitores - aqueles que, por exemplo, fazem um uso científico dos textos, que exige pesquisas temáticas ou acesso a muitas obras ao mesmo tempo -, ele chegará para a maioria de nós, que não fazemos o mesmo uso da leitura, como mais um aparelho eletrônico.

A maior parte dos leitores leem de fato só um livro por vez e, para eles, possuir 10 mil obras numa biblioteca virtual simplesmente não faz nenhum sentido. Sem entrar no pequeno jogo das previsões, podemos supor que é em direção a um terminal com múltiplas funções, no qual desenvolver-se-á efetivamente um tipo de leitura mais fragmentada (artigos, notícias, citações diversas, etc.), que se orientará a maior parte das pessoas; se assim desejarem.

Aqueles que hoje contam com novos lucros, fazendo-nos acreditar que todos os leitores precisam desse tipo de objeto, fazem o jogo de um sistema que tem por lógica produzir subjetividades fracas, moldadas pela aceleração dos ritmos de solicitação das telas, e que talvez não saibam mais como ler um texto. O risco é portanto eminentemente político: lutar contra a lógica da desmaterialização do livro pela digitalização, é lutar contra uma forma de produção de sujeitos de intensidade frágil, cujo senso crítico será necessariamente reduzido.

É claro, não se trata de satisfazer uma inclinação tecnófoba ou corporativista, nem de decretar que a digitalização é ruim por natureza; a digitalização de livros raros e antigos, dificilmente acessíveis, é por exemplo algo com que podemos nos alegrar, desde que isso seja conduzido sob uma perspectiva igualitária, pública, e em nenhum caso tenha como objetivo ser "rentável" ou constituir uma fonte indireta de lucros para uma empresa privada (seja ela americana ou francesa, não importa).

Não se trata de cair no determinismo tecnológico ou numa crítica da tecnologia 'per se'; nenhum conteúdo é distribuído pelas tecnologias segundo as categorias do bom e do ruim.

Trata-se de trabalhar na proliferação e na defesa das ferramentas e das técnicas que, no nosso contexto sócio-histórico, podem favorecer a emancipação e a igualdade dos homens. E hoje isso passa sem dúvida nenhuma pela defesa do livro de papel, assim como por uma vigilância crítica renovada em face a uma indústria do livro cujas disfunções são inúmeras.

Tradução: Eloise De Vylder



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