Uma nova guerra civil no Líbano?

ORIENTE MÉDIO Hezbollah e tropas do primeiro-ministro pró-ocidental Fouad Siniora combatem por 11 dias; incitação foi provocada por EUA e Israel para atingir Síria e Irã; país continua sem presidente após 19 tentativas de se chegar a um consenso

Achille Lollo

DE 5 A 13 de maio, os moradores de Beirute, Trípoli e Halba, viveram o inferno da guerra civil, voltando atrás no tempo, quando, em 1975, as milícias dos partidos cristãos e próocidentais (Falange Libanesa) lançaram uma ofensiva generalizada contra os palestinos e todos os partidos, grupos e movimentos políticos da oposição libanesa. A guerra civil foi um desastre. Beirute ficou inteiramente destruída e o Sul do Líbano foi repetidamente invadido por Israel durante 15 longos anos. Um contexto que obrigou os partidos de esquerda, os progressistas drusos e todos os componentes da comunidade muçulmana a pegar em armas para defender seus territórios.
Agora, depois de 11 dias de duros combates em todo o Líbano, a ameaça da guerra civil parece congelada, mas não eliminada. Inicialmente, o porta-voz do governo (pró-ocidental) do sunita Fouad Siniora declarou que nestes 11 dias morreram somente 36 pessoas. Depois, tiveram que retificar dizendo que os mortos eram 60 e os feridos, 130. Porém, na véspera da reunião com o chefe da delegação da Liga Árabe, Hamad bin Jasen al Thani (primeiro-ministro do Qatar), o presidente do Parlamento libanês, Nabih Berri, reconheceu que neste rápido conflito registrouse a morte de 88 pessoas, das quais 14 eram guerrilheiros do Hezbollah, e mais de 250 civis feridos gravemente.

Início
O governo libanês, liderado pelo sunita Fouad Siniora, provocou a crise, inicialmente no dia 2 de maio, quando ordenou o fechamento da rede telefônica do Hezbollah, não acreditando que a mesma fosse de uso estritamente militar.
Segundo o líder do “Partido de Deus”, Nasrallah, “havia várias centrais de escuta que operavam na rede pública captando todo o fluxo de comunicações relacionadas aos Postos de Comandos e às representações do Hezbollah. Escutas que, depois, chegavam nos escritórios dos analistas dos serviços secretos de Israel e dos Estados Unidos. Visto que o governo nada fez, fomos obrigados a criar uma rede telefônica autônoma, na qual eram transmitidas apenas as comunicações de ordem militar.”
A seguir, no dia 3 de maio, o primeiro-ministro decidiu substituir o chefe de segurança do aeroporto de Beirute, general Wafic Shoukair, por ser considerado “demasiado amigo da cúpula do Hezbollah”. No dia 4 de maio, Fouad Siniora, sem consultar o Parlamento, preparou um documento para o comando militar dos “Capacetes Azuis” das Nações Unidas, sugerindo uma nova interpretação da resolução que regula os limites operacionais do contingente da ONU. Substancialmente, ele pedia que as tropas da ONU procedessem o desarmamento das patrulhas dos milicianos do Partido de Deus (Hezbollah), do Amal (muçulmanos) e do Partido Social-Nacionalista (muçulmanos pró-Síria).

Declaração de guerra
No mesmo dia, o embaixador de Israel nas Nações Unidas proferia um violento discurso contra o Hezbollah, a Síria e o Irã, sublinhando que nunca haverá paz no Oriente Médio enquanto o Líbano e Gaza permanecerem subjugados pelos fundamentalistas e o Irã continuar a darlhes armas e dinheiro – ao mesmo tempo que completa o seu programa nuclear. Tudo isto, aos olhos do líder do Hezbollah, era o equivalente a uma declaração de guerra. Porém, para a mídia internacional, internacional, nada de grave estava acontecendo.
Apenas Robert Fisk, o valioso repórter do jornal britânico The Independent, colocou no mesmo plano as provocações do sunita Fouad Siniora com as declarações do embaixador israelense na ONU, que antecipavam as ameaças à Síria e ao Irã que o presidente George W. Bush fez depois, no dia 15 de maio, em Jerusalém. Para o repórter britânico – que há 20 anos vive em Beirute – tudo isto era um pano de fundo para antecipar o conflito no momento em que Bush anunciava sua viagem para Israel, onde ia prestar homenagem aos 60 anos da “ocupação sionista” na cidade de Jerusalém.

Inimigo número 1
O conflito pontualmente se iniciou no dia 5 de maio, quando o Hezbollah e os seus aliados anteciparam suas movimentações, surpreendendo o Exército libanês e os grupos paramilitares cristãos e sunitas, dando assim uma prova de força que minimizou Fouad Siniora e Saad Hariri (líderes do partido sunita AL-Mustaqbal no governo) e seus principais aliados, nomeadamente os líderes dos partidos cristãos, Samir Geagea e Amyn Gemayel (respectivamente, Forças Libanesas e Falanges), e do partido socialista progressista druso de Walid Jumblatt. É importante lembrar que o contexto libanês tornou-se ainda mais complexo quando o líder do partido socialista progressista druso, Jumblatt, depois de uma aliança de 20 anos com a esquerda libanesa e com os partidos de oposição muçulmana, apoiou o governo pró-ocidental de Fouad Siniora, tornando-se o inimigo número um do Hezbollah.
O verdadeiro motivo que levou o primeiro ministro libanês, Fouad Siniora, em provocar o Hezbollah ao ponto de preparar a implosão de uma nova guerra civil no imediato futuro é, antes de tudo, de ordem estratégica, e está relacionada com o desejo do Departamento de Estado em querer acabar com o Hezbollah antes das eleições estadunidenses. Depois, caberá à nova administração a tarefa de “desmontar ou destruir” as instalações nucleares que o Irã está montando para a produção de energia destinada ao seu parque industrial.
Não é casual que no dia 15 de maio – isto é, quando a missão da Liga Árabe tentava desesperadamente negociar com Jumblad e Talal Arsalan (líder do Partido Social-Nacionalista que apóia o Hezbollah) –, o presidente dos EUA, George W. Bush, ao falar da crise libanesa juntamente com o presidente israelense, Shimon Peres, tenha declarado:”Condeno com força as recentes tentativas do Hezbollah, do regime de Teerã e de Damasco, e o uso da violência deles contra o governo e a população libanesa. A comunidade internacional não permitirá aos regimes sírio e iraniano controlar o Líbano e, por isso, vou consultar nossos aliados”.
Bush, durante sua estadia em Israel, nada disse sobre a Palestina e seu futuro e decidiu encontrar-se posteriormente com o presidente da ANP (Autonomia Palestina), Abu Mazen, somente no Egito. Porém, ao comentar o desenvolvimento do programa nuclear iraniano, mesmo com fins pacíficos, foi duríssimo e insistiu ameaçando: “O programa nuclear iraniano é a ameaça mais grave para a paz. Não excluo nenhuma opção para impedir a finalização do programa e, portanto, de obter deste armas nucleares. Todas as opções estão no tapete”, disse.
É evidente que, se o presidente Bush ameaçou destruir o complexo nuclear iraniano, algo já foi planejado entre o Pentágono e o Ministério da Defesa de Israel. Por isso, Robert Fisk, em comentário do dia 13 de maio, reafirmava que “tudo o que aconteceu nestes dias – da denúncia de Siniora acerca de um pretenso “golpe de Estado” por parte do Hezbollah, e a surpreendente ocupação militar de Beirute Oeste e de grande parte do porto de Trípoli por parte dos milicianos do “Partido de Deus”, Amal e grupos pró-sírios –, nada mais é que um novo capítulo da guerra no Oriente Médio, que ainda opõe os interesses estratégicos dos Estados Unidos, Israel e dos países ocidentais e suas transnacionais aos anseios dos povos árabes.”

Derrota ocidental
A mídia ocidental tentou mistificar a derrota do governo pró-ocidental do sunita Fouad Siniora minimizando o sucesso político e militar do Hezbollah que, de fato, hoje, preocupa muito mais os estrategistas do Pentágono e do Mossad (serviço secreto israelense).
De fato, os milicianos do “Partido de Deus”e seus aliados – os mesmos que em 2006 resistiram à tentativa de invasão israelense em todo o Sul do Líbano – demonstraram ter uma mobilidade operacional que surpreendeu o próprio Exército libanês, que nada pôde fazer para impedir a ocupação da Zona Oeste de Beirute, e que praticamente se absteve de enfrentar os milicianos fundamentalistas também nos principais centros do Norte do Líbano, Trípoli, Halba e em Baalbek, no Leste do país.
Todo esse contexto mudou os equilíbrios político-militares da conjuntura libanesa, visto que a coordenação militar liderada pelo Hezbollah demonstrou aos EUA e a Israel que os fundamentalistas têm capacidade militar para ocupar 80% do Líbano. Este fato obrigou Fouad Siniora a aceitar todas as recomendações da Liga Árabe que, representada pelo primeiro ministro do Qatar, Hamad Bin Jasem al Thami, pediu ao Hezbollah para remover todos os seus homens de Beirute Oeste e de Trípoli.
Por sua parte, Fouad Siniora teve que anular seus decretos-leis que provocaram a crise. O jornal iraniano Keyhan (independente) saudou o posicionamento da Liga Árabe com um longo editorial, cujo título dá a entender o que pode acontecer no futuro: “Hezbollah anula as conspirações dos EUA”. Enquanto o diário governamental Iran era mais enfático ao dizer: “Pesada derrota dos ocidentais em Beirute, o Hezbollah vai mudar o destino da região inteira”.

Paz: até quando?
Ninguém sabe quanto tempo vai durar a paz, visto que maioria e oposição ainda não manifestaram seu consenso para a nomeação do novo presidente que, após 19 tentativas, tentará ser eleito no dia 10 de junho. Nabih Berri, presidente do Parlamento ligado ao Hezbollah, admite que há um potencial consenso para eleger o general Michel Suleiman, porém o primeiro- ministro Fouad Siniora ainda não sinalizou sua posição. Neste âmbito, o “diálogo nacional” sugerido pela Liga Árabe fica no ar, enquanto os diferentes grupos se preparam para o próximo embate.
De fato, o líder do partido sunita Saad Hariri (filho do ex-presidente Rafi k Hariri, assassinado em um atentado à bomba de um grupo pró-sírio) já está reorganizando os homens do partido al-Mustaqbal com a seguinte idéia: “Querem que nos rendamos, para depois imporem suas condições, mas isto nunca vai acontecer. O Hezbollah, que ocupou Beirute atendendo às ordens de Irã e Síria – cujo regime assassinou meu pai, Rafik Hariri, – quer voltar a impor sua hegemonia no Líbano”. Por sua parte, o sunita Fares Souied foi enfático em anunciar a revanche ao dizer: “Os sunitas e os cristãos não vão esquecer o constrangimento sofrido, e vão se preparar para que isso não aconteça nunca mais” Amin Gemayel, ex-presidente e chefe das Falangi (grupos paramilitares fascistas), também pediu a todos os grupos cristãos para “ficarem juntos e consolidarem suas posições em suas regiões”.
Para os EUA e Israel, é absolutamente indispensável “limpar” o Líbano do Hezbollah. Sua presença no Sul do Líbano inviabiliza qualquer ataque contra a Síria e a intenção de estrangular o Irã. O problema, para o Pentágono, CIA e o Mossad (israelense), é que o Hezbollah demonstrou no terreno uma notável capacidade militar operacional, além de um grande apoio popular.

Achille Lollo é jornalista italiano

“Brasil De Fato”

  • NIDI

    PARABENS PELO ARTIGO. MOSTRA COM CLAREZA A SITUAÇAO NO LIBANO E A RAZAO DE LUTA DAQUELE POVO