Prêmio Nobel diz ter sido mais feliz quando era louco

“Cheguei a um ponto em que era mais feliz louco que são”, diz John Forbes Nash, prêmio Nobel de Economia , cientista que foi esquizofrênico e inspirou o filme “Uma Mente Brilhante”

Lluís Amiguet

Tenho 79 anos. Nasci na Virgínia Ocidental. Tenho dois filhos: estive casado, deixei de estar e agora volto a estar. As estatísticas demonstram que é melhor estar casado. Seria penoso explicar toda a minha evolução religiosa. Votar é fácil e pouco. Colaboro com a Universidade Pompeu Fabra (Barcelona). A entrevista:

La Vanguardia – Por que lhe deram o prêmio Nobel de Economia?
John Forbes Nash – Descobri uma forma de equilíbrio -hoje chamado de Nash- na teoria dos jogos: um ponto em que nenhum dos jogadores pode melhorar sua situação. Hoje esse conceito é aplicado de forma interdisciplinar.

LV – Fez essa descoberta apesar de sua enfermidade mental?
Nash – Tenho um histórico, sim, de distúrbio mental temporário que se manifestava de diversas formas. Hoje temos medicamentos que na época não existiam, que tratam os sintomas e permitem continuar com o que se considera uma vida normal, mas têm efeitos indesejáveis.

LV – Quais?
Nash – Para restituir sua normalidade, reduzem sua atividade neurológica e suas funções cognitivas. O devolvem à normalidade, sim, mas às custas de sua capacidade pessoal de raciocínio.

LV – E hoje o senhor o exerce integralmente?
Nash – Eu posso trabalhar, mas meu filho, que também sofre esse distúrbio, toma esse medicamento que não lhe permite se dedicar a nada concretamente; mas pode observar um comportamento normal.

LV – Como se manifestou esse transtorno?
Nash – Tive de ser internado em um hospital depois de vários episódios de disfunção social, e afinal melhorei, mas não pude evitar um poço de infelicidade em meu ânimo e em minha conduta.

LV – A que se refere?
Nash – Era infeliz ao me recuperar, porque a normalidade não me deixava feliz. A loucura começa quando você descobre uma segunda realidade em sua mente e às vezes a prefere, porque o faz mais feliz que a normalidade. Assim, cheguei a um ponto em que eu era mais feliz louco do que são.

LV – Mas era capaz de distinguir entre a realidade e sua ilusão?
Nash – Chega um momento em que fica difícil distingui-las e você vai escolhendo cada vez mais a ilusória. Assim se transforma em disfuncional.

LV – Disfuncional em que sentido?
Nash – É natural que um ser humano deva atuar com o resto do grupo: trabalhar, observar as normas, comportar-se como todos…

LV – Há exceções.
Nash – Correto. Suponhamos que eu não trabalhe nem seja rico e diga que ouço vozes, tenho visões e as desenho ou escrevo: o que você pensaria?

LV – Talvez sugira que poderiam interná-lo.
Nash – Suponhamos que eu lhe diga que sou um monge enclausurado. Você aceitaria que uma freira ou um monge em seu convento pode não trabalhar, ter visões e explicá-las, no entanto esse monge não será considerado anormal por isso.

LV – Certamente.
Nash – A sociedade os aceita porque, fora eles, há muitos e suficientes outros homens e mulheres que se comportam de forma normal.

LV – A maioria tem senso comum.
Nash – Falso. O senso comum não é majoritário: por exemplo, na Espanha e no Ocidente o cristianismo é a religião majoritária…

LV – Continua sendo, sim.
Nash – … mas o cristianismo exige de seus fiéis fé cega em dogmas que em caso algum poderiam ser considerados senso comum.

LV – A trindade ou a virgindade de Maria.
Nash – Hoje eu vi a obra de Gaudí: magnífica.

LV – Sem dúvida.
Nash – Apesar de não conhecer sua vida, tenho certeza de que foi considerado um anormal, um louco.

LV – Creio lembrar-me que sim.
Nash – Van Gogh também tinha problemas para discernir a realidade de suas visões. O que me pergunto é se a medicação que temos hoje teria sido capaz de devolver a normalidade a Van Gogh sem privá-lo de seu talento.

LV – …
Nash – No entanto, o progresso teria sido difícil sem as visões de Van Gogh ou o autismo de Newton. Newton também foi considerado um tipo suspeito: não se casou, era estranho…

LV – O senhor acredita que Newton precisava de medicação?
Nash – Era Newton, mas nem todos os doentes são gênios. Muitas vezes a diferença entre um louco e um gênio esteve na quantidade de dinheiro que ganhava. Van Gogh acabou se suicidando também por ser pobre, e hoje meu filho recebe um subsídio federal que eu não ganhei porque não existia. Esse subsídio é importante para evitar que um doente mental seja marginalizado por não ser rico e não trabalhar.

LV – O que o senhor achou do livro e do filme sobre sua pessoa, “Uma Mente Brilhante”?
Nash – O livro foi feito sem contar comigo, e embora a autora tenha acumulado uma quantidade de informações notável também acumulou uma quantidade notável de erros.

LV – E o filme com Russell Crowe?
Nash – Os autores foram mais cooperativos conosco. Assinamos um acordo com a Universal Studios. Isso não quer dizer que esse filme tenha muito a ver com a minha vida.

LV – Isso não pareceu importar muito a eles…
Nash – … a ninguém exceto a mim. Na realidade, tem muito pouco a ver com a minha vida. Você acredita que me pareço com Russell Crowe? Mas é um filme com valores estéticos e uma boa mensagem proativa para os doentes mentais.

LV – Em que trabalha agora?
Nash – Questiono o conceito keynesiano de inflação. Também me interessa a teoria das cordas da física teórica e suas derivações na antropologia e nas ciências sociais.

LV – Conte-nos, por favor.
Nash – Talvez o universo não seja indiferente à nossa existência: temos um instinto descobridor manifesto na colonização da América que nos levará para fora do planeta antes que ele entre em colapso.

La Vanguardia