Os mineiros e o poeta

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Para escritor chileno, episódio em Copiapó forjou ‘unidade provisória’ em um país ainda dividido e desigual

Ivan Marsiglia

O clima de união nacional em torno da operação de resgate dos 33 mineiros em Copiapó, norte do Chile, durou menos de um dia. Na quinta-feira, enquanto o presidente Sebastián Piñera ainda posava para fotos ao lado dos heróis içados do fundo da terra no início da semana, a ex-presidente socialista Michelle Bachelet fez críticas direto do Vietnã – onde estava em visita oficial pela ONU -, criticando as falhas de segurança que causaram o soterramento.

Hugo Infante/EFE

Hugo Infante/EFE

‘Assim que termina o heroísmo, vem a burocracia e, então, o esquecimento’, desconfia Skármeta

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Ao dizer que o acidente "poderia ter sido evitado", Bachelet devolvia na mesma moeda a acusação que lhe fora feita em fevereiro, durante o terremoto que matou mais de 400 pessoas no país, pelo então candidato da oposição, Piñera – para quem teria havido "uma negligência tremenda".

Novidade nenhuma para um país rachado por divergências políticas, onde o antigo e o moderno convivem em sincronia. É a opinião do filósofo, escritor e ex-diplomata chileno Antonio Skármeta, de 69 anos. "Passada a unidade provisória das tragédias", diz, "países voltam às suas rotinas".

Na entrevista a seguir, concedida por telefone de Berlim, na Alemanha, onde participava de uma conferência sobre literatura, Skármeta – autor do romance O Carteiro e o Poeta, inspirado na vida de Pablo Neruda, que virou filme de sucesso na década de 90 – contou suas reminiscências de infância em Antofagasta, mesma região onde a mina pariu de volta as 33 almas, em um espetáculo transmitido ao vivo para o mundo todo. Para o escritor, as cenas do deserto chileno, carregadas de metáforas de nascimento e ressurreição, "mexeram com o inconsciente poético da humanidade".

Ainda assim, e a despeito de alpinismos políticos da direita e da esquerda no país, o escritor – que lança ano que vem seu novo livro no Brasil pela Record, Um Pai de Cinema – não crê que do episódio se extraiam melhorias significativas para a vida desses incansáveis trabalhadores. "Eu conheço a rotina: assim que termina o heroísmo, vem a burocracia e, então, o esquecimento."

Que memória afetiva o sr. tem de Antofagasta, sua terra natal, no norte do Chile?

Quando alguém vem do norte do Chile, do deserto, tem a reputação de que suporta bem as dificuldades, o rigor do clima, trabalha duro e não vê muito verde. Na minha infância em Antofagasta, havia árvores apenas na praça: no resto da cidade, não havia nada, e era muito difícil encontrar água. Então, a riqueza do Chile do norte está escondida debaixo da terra. E, para se chegar a ter alguma coisa, é preciso mergulhar na escuridão. É uma zona dura e de homens fraternais, pois as dificuldades de um são as de quem está a seu lado também.

O sr. conviveu diretamente com esses trabalhadores durante sua infância?

Conheci mineiros e tive até um familiar que trabalhava nas minas. Escrevi um artigo sobre ele há alguns anos, no El País. Nele, eu conto a ocasião em que fui, com um tio, até as minas de Antofagasta, uma viagem de mais de três horas, para acompanhar o enterro desse nosso parente. Meu pai, que foi uma pessoa de muitos ofícios, trabalhou uma época como vendedor de bebidas para os trabalhadores das minas de Chuquicamata, em Calama. Ele, que nunca bebeu uma gota de álcool na vida, porque não gostava, levava garrafas de vinho para os mineiros nos finais de semana. E convivia com essa gente que tem um trabalho tão desesperado, difícil, metidos nas minas. E tinham muita sede: bebiam bastante. Outra coisa que acontece no norte é que, como os mineiros passam longas temporadas sós, longe da família, frequentam los buques, barcos que transportam prostitutas. A elas, se referem, de maneira carinhosa, como las ninas.

Essa imagem de força e solidariedade lembra o sertanejo de Euclides da Cunha.

Exato. Quanto mais difícil é sua vida, mais sensível é um homem à dor e à solidão do outro. Os mineiros, em todas as partes do mundo, têm fama de laboriosos e explorados. A canção mais expressiva que existe sobre suas vidas foi cantada nos anos 50/60 pelo americano Tenessee Ernie Ford. Chama-se Sixteen Tons (16 toneladas) e, curiosamente, se tornou muito popular no Chile, apesar de os mineiros não falarem inglês. Nossas minas, naquela época, eram de propriedade de companhias americanas ou inglesas. E a letra dizia: "You load sixteen tons, what do you get / Another day older and deeper in debt / Saint Peter don’t you call me ‘cause I can’t go / I owe my soul to the company store". Você carrega 16 toneladas – no caso, de carvão – e, em troca, só envelhece e aumenta a sua dívida. E o mineiro pede aos céus: "São Pedro, não me chame pois devo minha alma à companhia". Company store era o que no Chile se chamava la pulpería, a única venda ao lado da mina onde os trabalhadores podiam comprar arroz, feijão, açúcar, azeite. E era de propriedade, também, dos donos – que vendiam os alimentos ao preço que queriam. No final da semana, quando o mineiro ia receber seu salário, só tinha dívidas.

O Chile guarda fortemente também as marcas do massacre dos trabalhadores do salitre em Santa María de Iquique, não?

Santa María de Iquique! Uma das músicas mais belas do cancioneiro chileno, composta por Luis Advis, trata do episódio. Narra o massacre de 3 mil trabalhadores que protestavam na cidade portuária de Iquique. Essa memória existe e, de alguma forma, se fez presente em Copiapó. A solidariedade entre os mineiros, de que falo, tem um conteúdo político também. No sentido de uma consciência de classe. E há uma tradição forte de luta política no norte. O fundador do Partido Comunista de Chile, (Luis Emilio) Recabarren, nasceu na região. Mas vale notar que há dois tipos de minas e mineiros no Chile. Um, moderno, dos trabalhadores de grandes companhias que respeitam seus sindicatos e lhes pagam bem. Esses estão nas grandes minas de cobre de Chuquicamata, que pertenciam a companhias estrangeiras nacionalizadas por Salvador Allende. Por isso, derrubaram-no. Mas, graças a isso, o Estado chileno hoje é rico.

As minas de Copiapó são de outro tipo.

Em Copiapó estão minas modestas, que não produzem grandes riquezas e onde, lamentavelmente, se descuidou das medidas de segurança. Há dois anos esses problemas já haviam sido denunciados. Mas os donos afirmaram tê-los solucionado e o governo deu-lhes voto de confiança, autorizando o funcionamento das minas. É algo que precisamos investigar.

No artigo que publicou recentemente no ‘La Repubblica’, o sr. defende que ‘as minas que enchem as arcas fiscais do governo deveriam servir para criar igualdade de oportunidades’. Agora, com os 33 mineiros transformados em heróis nacionais, haverá reflexos no mundo do trabalho chileno?

Uma vez que termine o espetáculo, isso que alguns chamam de milagre e outros de bênção, o Chile vai retornar a sua rotina. Que é a das grandes desigualdades e injustiças. O episódio pode até estimular o Parlamento e o Poder Executivo a apresentarem novas leis, que aperfeiçoem as medidas de segurança e melhorem a remuneração dos trabalhadores. Mas eu conheço a rotina: assim que termina o heroísmo, vem a burocracia e, então, o esquecimento. Agora, esse caso despertou uma paixão… Nunca acreditei que a humanidade tivesse essa ternura. Gostaria que me explicassem por que ele importou, quando no mundo há tanta gente sofrendo, torturada, aniquilada.

O sr. arrisca uma explicação?

Em meu artigo levanto três hipóteses. A primeira é que, com a primeira descida de ajuda, meteu-se junto uma câmera de vídeo. Isso transformou o episódio num fenômeno midiático imediato. Segundo, porque no inconsciente poético da humanidade há essa imagem da formação cristã e também budista, que é a ideia de renascimento. De retorno à vida de alguém que está enterrado.

O nome da cápsula era Fénix…

Mesmo? Eu não reparei (risos). Essa ideia de que a vida não termina quando estamos enterrados, que se vai renascer, isso despertou emoção em todo mundo. Como quando Jesus disse a Lázaro: "Levanta-te e anda". A terceira hipótese é da terra que dá frutos, oferece a vida. A cena do resgate é como um parto, uma emoção universal.

Seu artigo afirma também que houve uma crítica mesquinha ao presidente Sebastián Piñera, segundo a qual o presidente teria imposto seu protagonismo durante o resgate. Ele desempenhou um bom papel?

Piñera é um action man, um político que quer se mostrar o tempo todo como executivo. Estamos lidando com símbolos. E ele cuida de muito de sua imagem. Não sei se você sabe, mas depois do terremoto no Chile, Piñera mal chegara ao governo e fez seus ministros vestirem uma jaqueta vermelha, com as cores da seleção de futebol chilena, que disputava a Copa do Mundo. Com isso, criou a sensação de que havia um time jogando junto pelo Chile – uma imagem publicitária muito eficaz. Dito isso, creio que Piñera se comportou com grande intuição em Copiapó, viu que era um tema que mexia com as emoções de todos os chilenos, não importando a posição política que tivessem. Fez o que deveria ter feito qualquer presidente do Chile, fosse comunista, socialista ou democrata-cristão. E saiba que me considero um homem de centro-esquerda, eleitor da Concertação. Apoiei os governos anteriores.

A ausência da ex-presidente Michelle Bachelet foi notada. Ela deveria estar lá?

Não posso responder, pois estava fora do país. Fui a Los Angeles ver a estreia da ópera O Carteiro e o Poeta, com Plácido Domingo, e depois à Espanha, apresentar meu novo livro. Como ela foi escolhida para dirigir um órgão das Nações Unidas para as mulheres, parece-me que estava no exterior.

Chamou a atenção também a presença do presidente boliviano, Evo Morales. Bachelet já havia conversado com ele sobre um acordo que assegurasse ao país vizinho uma saída para o mar. Acha que, no atual governo, isso pode avançar?

Não creio. Acho que esse episódio pode suscitar uma simpatia entre os dois países, mas diplomaticamente falando creio que foi só um episódio sentimental. Todas as decisões que se fazem em relação aos países vizinhos são discutidas com calma, não são feitas com base em impulsos emocionais. A política externa do Chile é muito consequente, pensada e independente do ciclo político de cada governo. Isso se aplica aos tratados vigentes. Claro, nessa semana houve uma aproximação porque um dos mineiros era boliviano.

O sr. diz que o Chile é um país ainda dividido do ponto de vista político e social. Crê que o sentimento de união que se viu durante o resgate dos mineiros vá permanecer?

Infelizmente, não. São episódios altamente emocionais que provocam uma unidade provisória. Uma vez terminados, os países voltam às suas rotinas. Não creio que deste saia uma grande unidade política nacional. Acho que a direita tem que ver como vai governar o país, porque a Concertação o fez muito bem durante anos. Se querem mostrar algo novo, terão que ser convincentes. Espetáculos emocionais não darão uma unidade ao Chile. Este é um país cujo povo tem maturidade política e razão. Simpatia e emoção são importantes, mas a tradição das estruturas políticas é ainda mais forte. O momento atual é ótimo para Piñera, foi um lucky strike, um lance de sorte, mas não é um capital para toda a vida.

Fonte: O Estadão – http://www.estadao.com.br/

Nova seca causada por La Niña atinge a América do Sul

O La Niña volta a ser assunto na América do Sul. Esse fenômeno climático, que resfria periodicamente em 2 a 3 graus as águas superficiais ao centro e a leste do Oceano Pacífico, e reduz a umidade na atmosfera, vem provocando uma grave seca no sul do continente. A primavera e o verão austrais prometem ser pouco chuvosos. As regiões mais atingidas são o centro da Argentina, o sudoeste do Uruguai, o sul do Paraguai e do Brasil.

Jean-Pierre Langellier

Grama completamente seca em frente ao Congresso Nacional em Brasília

Grama completamente seca em frente ao Congresso Nacional em Brasília

Devido à baixa temperatura no oceano, as “frentes frias”, que normalmente trazem as chuvas ao continente, são mais efêmeras ou permanecem circunscritas às zonas costeiras. As regiões do interior sofrem então de um déficit pluviométrico. O volume das chuvas não irriga suficientemente as terras agrícolas e os pastos, e retarda a germinação das sementes. É isso que vem acontecendo há semanas no Brasil. Por enquanto, a seca atinge sobretudo a pecuária. Isso levou a uma alta de 16% nos preços da carne bovina desde maio. Mesma preocupação no Uruguai, grande exportador de carne, onde o governo anunciou medidas de apoio aos criadores de gado.

O fenômeno é recorrente. Em 2008 e 2009, a Argentina foi a mais afetada, na região, por uma seca que atingiu duramente o continente. O país perdeu de 1,5 a 1,8 milhão de bovinos em pampas de grama amarelada que, além disso, sofria com uma praga de gafanhotos. Muitos criadores venderam terras e sacrificaram suas vacas, por não conseguirem alimentá-las.

Colheitas ameaçadas no Brasil

Hoje no Brasil, a preocupação vem crescendo quanto aos cereais, após uma colheita de grãos em 2009-2010 tida como a melhor da história do país. No sudoeste de São Paulo, não chove há 65 dias, o que muda todo o calendário dos agricultores. Um deles, Paulo Nunes, explicou ao jornal “Estado de São Paulo”: “Meus plantios estão com atraso de um mês. Só fiz 30% das minhas semeaduras. Estou irrigando há 40 dias e meus reservatórios atingiram um nível preocupante”.

O período dos plantios está só começando. Mas os fazendeiros temem que a falta de chuvas vá se prolongar. Eles acompanham em tempo real os radares meteorológicos, que não lhes deixam esperar por nenhuma chuva forte antes de três semanas. A seca vem fazendo com que alguns mudem seus planos de semeadura, para por exemplo privilegiar a soja, mais resistente, no lugar do milho.

A seca atinge o Brasil num momento em que os agricultores previam um ano muito rentável, por causa da alta no preço dos principais produtos: soja, milho, trigo, arroz e algodão. A Rússia, terceira maior exportadora mundial de trigo, atingida por uma onda de calor, anunciou em agosto uma suspensão de suas vendas ao exterior de trigo e produtos derivados até o fim de 2010. O que gerou uma disparada nos preços desse cereal. Outros aumentos foram no preço do algodão (30%) e da soja (15%). A Argentina e o Brasil figuram, junto com os Estados Unidos, no trio dos principais exportadores mundiais de milho e soja. Eles alimentam de forma maciça os mercados do hemisfério Norte durante seus meses de inverno. A alta dos preços, portanto, levará a uma alta dos preços para o consumidor em todo o mundo, inclusive no Brasil.

A Amazônia e seus afluentes minguados

A seca tem outras consequências ecológicas e econômicas. Ela agrava as queimadas tradicionais, especialmente numerosas este ano, que devastam a natureza. 72 mil princípios de incêndio foram registrados desde o início de 2010. Ela diminui as reservas de água nas represas que alimentam as hidrelétricas. O país deverá recorrer com mais frequência às usinas térmicas, mais custosas, o que encarecerá a energia consumida.

A seca não está poupando a região mais úmida do Brasil, a Amazônia. Em Manaus, a capital regional, o Rio Amazonas está em seu nível mais baixo desde 1963. As crianças brincam no leito seco do Quarenta, um afluente do rio que atravessa a cidade. Dentro de algumas semanas, no fim da estação seca, saberemos se o recorde de 1963 foi batido.

A situação é mais grave a cerca de mil quilômetros de lá, na região do Alto Solimões, o afluente que, ao unir-se com o Rio Negro em Manaus, forma o Amazonas. Vários municípios tiveram de fechar seus portos à navegação para preservar a segurança dos passageiros. Alguns cursos d’água estão quase secos, tornando a navegação impossível. Algumas comunidades isoladas estão com falta de água potável.

Essa seca confirma a ampliação dos intervalos sazonais da vazão do Amazonas. Em 2009, o mais potente rio do mundo teve uma cheia histórica, mas é impossível estabelecer uma ligação direta entre a mudança climática mundial e a evolução do Amazonas. Uma coisa é certa, contudo: a variabilidade climática amplifica as situações extremas. Durante uma reunião regional em Bogotá da Organização Meteorológica Mundial (OMM), esta semana, seu secretário-geral, Michel Jarraud, exprimiu uma “grande preocupação” diante da intensificação previsível desses fenômenos extremos e pediu à comunidade internacional que “tome medidas o mais rápido possível”.

Tradução: Lana Lim

Fonte: Le Monde – http://noticias.uol.com.br/

A política econômica do novo presidente

Carlos Lessa

O primeiro turno das eleições não permitiu perceber, com nitidez, qual seria a política econômica que daria sustentação a um projeto brasileiro. Temos, agora, pouco mais de vinte dias para tentar perceber as diferenças político-econômicas dos dois candidates à presidência.

A candidata da continuidade fez a exaltação sistemática dos feitos do governo Lula e prometeu continuar – e mesmo ampliar – os programas estritamente sociais, e enfrentar os temas da educação, saúde e segurança. Fez, de modo parcelado, referências a ferrovias que incluem o trem-bala. Não ouvi referências à reordenação da infraestrutura brasileira e, pelas promessas, a candidata parece fazer repousar na moradia popular o principal e – praticamente único – programa voltado para as redes metropolitanas e urbanas. Li que a candidata, antes do início da disputa, declarou que o Brasil necessitava "de um choque de capitalismo". Se o objetivo é gerar mais empregos de melhor qualidade e renda, estaria (?) atrás da ideia de "choque" uma significativa mudança político-econômica.

Sei que o presidente Lula acompanhou de perto o ingresso do dr. Meirelles no PMDB e houve uma forte campanha para que o PMDB indicasse o nome de Meirelles para vice-presidente. Quando Meirelles abriu mão da candidatura a governador de Goiás, disse que o presidente lhe havia solicitado a permanência no comando da política econômica. Fontes me informam que há um programa de governo em elaboração no PMDB, por um grupo que integra, entre outros, Meirelles e Delfim Netto. Sei que, quando da última viagem aos EUA, Meirelles afirmou que tudo permaneceria como antes e um importante banqueiro declarou que, no caminho certo que o Brasil seguiria, alterações cambiais fariam pouca importância. Dado o silêncio da candidata sobre a política econômica (posso crer que quem cala consente), manteremos a âncora cambial para o processo inflacionário e seguiremos praticando juros primários hiperelevados.

A equação brasileira acumula dólares em busca de uma rentabilidade anual garantida em 11,85% em papel pré-fixado do Tesouro brasileiro com vencimento em 2021. O nosso Banco Central aplica a maior parcela das reservas internacionais brasileira em títulos do Tesouro americano, com vencimento em 2021. É uma brincadeira de mau gosto a decisão de elevar o IOF sobre investimentos externos em renda fixa de 2% para 4%. A continuidade político-econômica levará o Brasil a um crescimento medíocre; apenas uns poucos setores – bancos e instituições do mercado financeiro, bem como concessionários de serviços públicos, com tarifa indexada – terão rentabilidade espetacular.

Os brasileiros endividados pagam mais juros do que a própria prestação. Segundo estudo do Banco Central, as famílias já gastam 13,3% do salário com o pagamento de juros e apenas 10,1% com a dívida principal.

O ponto de inovação mais surpreendente está no destino do pré-sal que, para a candidata, gerará as exportações necessárias "para que a transição do Brasil para uma era cuja economia e produção industrial sejam baseadas na baixa emissão de carbono". Meu espanto decorre de o presidente Lula haver afirmado que "o Brasil não será exportador de óleo cru".

O projeto brasileiro não é nacional e propõe ampliar, pelo produto geopoliticamente mais perigoso – o petróleo -, a densidade das exportações brasileiras. Assim sendo, é de se supor que a globalização, com o real cada vez mais valorizado, irá atrofiar atividades produtivas internas. É de se supor que, para o Nordeste, serão multiplicadas as termelétricas e será confirmada a política de intensificar vendas financiadas de carros bebedores de petróleo e derivados.

O outro candidato também não perfilou que política econômica pretende, nem qual é o seu projeto nacional de desenvolvimento. Ele sabe que o Brasil pode crescer muito mais e de forma sustentada. Certamente, podem ser afastados os riscos de apagões e é possível estimular o mercado interno para produtores instalados no Brasil, se for modificada a política cambial. Porém, o candidate, até agora, pouco falou sobre política econômica. Em um relâmpago de lucidez, afirmou ser contrário à autonomia do Banco Central, porém fez silêncio sobre o que é óbvio: com a massa de juros que o governo federal paga, é impossível tocar para a frente, no tamanho e ritmo necessários, a infraestrutura bem como promover a elevação da qualidade de ensino, saúde e segurança.

Na eleição presidencial anterior, em que Lula derrotou Alckmin, foram realizados dois longos debates na TV. Resumindo o conteúdo, foi algo assim: o tema educação era muito importante para os dois candidatos, Lula disse que recebeu uma condição deteriorada e Alckmin falou maravilhas do que estava sendo feito em São Paulo. Nada de realmente importante foi colocado nos dois debates esterilizados daquele segundo turno.

Espero que agora, ao contrário do que ocorreu, os dois candidatos construam e divulguem proposições mais sólidas. Afinal, a crise mundial está aí e, provavelmente, terá ressurgências. A taxa de investimento macroeconômica (18% do PIB) é ridícula; se o Brasil quiser crescer modestos 5%.a.a, necessita de uma taxa de 22% e duplicação dos gastos de investimento público. A pauta que os brasileiros esperam é o que os candidatos propõem como projeto nacional e que ajustes deverão ser realizados na política econômica. Creio que a candidata Marina conseguiu seu surpreendentes 20% com um discurso muito suave em que afirmava que é necessário pensar um projeto global para o Brasil.

Carlos Francisco Ribeiro de Lessa é professor emérito de economia brasileira e ex-reitor da UFRJ. Foi presidente do BNDES; escreve mensalmente às quartas-feiras

Valor Econômico

O melhor do teatro brasileiro permanece quase oculto

O momento atual comporta uma dialética complexa e semelhante a algo que ocorre no processo social

Kil Abreu

Para entender a grande variedade de experiências vividas hoje na cena teatral, é preciso olhar primeiro para os modos de produção e seu entorno, especialmente no capítulo das políticas públicas. Com isso não se diz, evidentemente, que a diversidade de proposições estéticas que o teatro vive se deve apenas à paulatina mudança de paradigma no modelo de incentivo. É que em nenhuma arte a relação entre investimentos e qualidade de pensamento é muito segura. Às vezes, pelo contrário, processos artísticos altamente subvencionados redundam em obras irrelevantes. Entretanto, tem sido visível que a multiplicação das oportunidades gera um ambiente cultural vivo em proposições. Isso acontece, sobretudo, nos lugares em que o sistema de fomento à produção artística se aproxima mais da subvenção direta do Estado e menos de leis de incentivo, como a Lei Rouanet, que em regra subsidiavam, até poucos anos atrás, apenas o teatro de mercado, de pouco risco estético.

A ponta de lança no processo de redefinição dos rumos do teatro brasileiro é a retomada da cultura de grupo. Ainda que muitos grupos de teatro tenham surgido nos anos 1980, convencionou-se dizer que a década foi marcada pela presença autoral do encenador e por criações que tendiam a ser reconhecidas em uma única assinatura. Não à toa naquele momento era comum se referir a um trabalho, por exemplo, como o espetáculo “do Gerald Thomas”, ou “do Ulysses Cruz”. Em montagens formalistas, como Carmem com Filtro (Thomas, 1986), era recorrente a voz ensimesmada, o esmerado acabamento plástico e o hermetismo que de alguma forma tentavam desideologizar o palco cansado de guerra dos anos 1970.Hoje a perspectiva autoral inverteu-se novamente em direção aos coletivos. Pode-se dizer que o teatro brasileiro atual, ou boa parte do que nele interessa, é uma síntese de época que equilibra as posições do encenador como criador ilhado e do grupo como instância de deliberação coletiva. Mas, em um e outro caso, o teatro já não é mais o mesmo e sofre uma dialética interessante. Por um lado, encenadores da estatura de Antunes Filho e José Celso Martinez Corrêa continuam suas jornadas em que o brilho individual é, como sempre foi, indispensável aos projetos artísticos. Mas também o são suas respectivas companhias. No seu Centro de Pesquisa Teatral (CPT), mantido pelo Sesc e nascedouro de uma geração inteira de grandes intérpretes, Antunes continua dirigindo os espetáculos que desdobram as características de estilo que o notabilizaram, mas manteve durante os últimos dez anos, em pararelo, o projeto Prêt-à-Porter, para a montagem de trabalhos escritos e dirigidos pelos próprios atores. Ali ele se autodenominava apenas “coordenador” e não mais diretor.

Em outra frente, o grupo de teatro atual também já não obedece às mesmas dinâmicas da chamada “criação coletiva” que marcou os anos 1970. Ali, por força da necessidade de agregação diante do momento politicamente adverso e de negação da incômoda figura centralizadora do diretor quando o artista se esforçava por protestar contra a autoridade, o teatro dissolveu as funções criativas e buscou horizontalizar as relações de poder. Hoje, sem a pressão daquela conjuntura e numa época pautada pelo pragmatismo sem culpa na divisão do trabalho, os princípios de criação modificam-se. Nos processos cooperativados da maioria dos grupos há um trânsito mais que razoável e estimulado entre uma e outra função (por exemplo, o ator como criador do texto dramatúrgico, ou o dramaturgo que trabalha criando cenas junto com os atores na sala de ensaio), mas as funções aparecem preservadas, os ofícios particulares são respeitados, havendo apenas um trânsito mais fluido entre eles. De todo modo, entender essa dinâmica, batizada genericamente pelos grupos de teatro como “processos colaborativos”, é fundamental para avaliar a fatura estética que está surgindo nessas bases.

Teatro de grupo e sucesso estético

Sem demérito do chamado “teatro de produção”, em que artistas – atores, diretor, técnicos – são contratados para montar um espetáculo em um tipo de experiência normalmente de curto prazo, é no teatro de grupo, quando colocado em perspectiva experimental, que as condições ideais para o sucesso estético têm sido plantadas. É que o grupo tem a seu favor o fato de contar com um núcleo de trabalho que tende a se afinar cada vez mais com o tempo, em projetos artísticos mais ambiciosos e pensados para um tempo de resolução mais lato, em que os propósitos formais, políticos, de linguagem e de pensamento têm espaço maior para evoluir em sintonia. Isso porque não há para o grupo muitos outros atrativos que justifiquem a agregação. Muitas vezes, ao contrário, do ponto de vista financeiro, a atividade é até inviável, ainda que o rendimento artístico seja promissor.

Tomemos como exemplo um dos últimos espetáculos do Teatro da Vertigem, de São Paulo. BR-3 (2006), dramaturgia de Bernardo Carvalho com direção de Antônio Araújo, é uma tragédia épica que toma como tarefa um passeio pelas questões de identidade do Brasil. Trata-se de um projeto que consumiu dois anos de pesquisas e ensaios e mobilizou a companhia em um percurso que começou na Vila Brasilândia, bairro da periferia de São Paulo, até Brasileia, cidade do Acre. O espetáculo foi representado no trecho urbano do Rio Tietê, na cidade de São Paulo, em barcaças que comportavam menos de 50 espectadores por sessão. Do ponto de vista mercadológico, a empreitada era desde logo inviável. Mas isso era compensado com sobra pelas implicações de ordem política e estética. A proposta de fazer o diá-logo crítico e direto do acontecimento teatral com a cidade através de um dos seus símbolos mais caros, assim como os desdobramentos necessários para que isso tivesse consequência do ponto de vista da coisa cênica (por exemplo, na modulação das interpretações, no trabalho de cenografia e iluminação de um espaço amplo e inusitado como o rio), justificavam a aventura, tornada impossível se as referências de viabilidade fossem as do teatro de mercado.

São grupos como o Vertigem (praticamente anônimos se comparados aos espetáculos comerciais geralmente sustentados na imagem de algum artista televisivo) que têm garantido, por um lado, as possibilidades de reinvenção da linguagem teatral. Por outro, talvez movidos pelo instinto de sobrevivência, são esses coletivos que têm forçado as saídas do círculo vicioso em que o teatro feito para a classe média brasileira se encalacrou, à base de comédias ligeiras e em seus ambientes fechados. O caminhar em direção aos espaços abertos e o contato direto com a cidade deixaram de ser tarefa para o chamado teatro de rua. Companhias como o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos (SP), Ói Nóis Aqui Traveiz (RS), Cia. São Jorge de Variedades (SP), ou o mineiro Galpão, que faz seu retorno às praças depois de vários anos, talham suas dramaturgias à risca para esse contato menos mediado com plateias que na maioria das vezes não os veriam senão nessas circunstâncias.

Caminhos formais

O teatro hegemônico, entretanto, continua sendo o que se sustenta nas variações da teledramaturgia levada ao palco ou, mais recentemente, na fatia dos grandes musicais. É que o público das salas de espetáculo no Brasil é a classe média, e esta majoritariamente se referencia no chamado televisivo ou no modelo dos megaespetáculos norte-americanos. Quanto aos musicais, em que pese um ou outro com mais estofo e inquietação, em geral são espetáculos que impressionam pelo grande volume de produção e excelente aparato técnico. Infelizmente, em contraponto, perdem em originalidade. O país ainda está por ver ampliar, em anos futuros, o incremento de uma dramaturgia de fato brasileira nessa área, sem os arremedos e cacoetes da Broadway.

No caso da televisão, é curioso que o teatro tenha emprestado a ela uma de suas linhagens, o naturalismo, e agora permaneça refém de uma herança que volta na mesma chave, só que mais empobrecida. Talvez por isso a cena experimental tenha se dedicado a uma espécie de desdramatização do teatro, aproximando-o da performance e com isso enxugando o palco de um de seus mais importantes tabus: o da representação em chave mimética, ou seja, da representação como imitação de pessoas ou situações. Salvo engano para artistas que ainda veem na arte alguma possibilidade de contraponto à pasteurização da realidade (e vivemos sem dúvida um realismo mais que excessivo na cultura midiática), é o próprio princípio de imitação do real que está sendo posto em jogo para que possamos saber o que sobrou dele, como o fizeram os primeiros modernos.

Quando assistimos, por exemplo, aos espetáculos da Companhia dos Atores (Ensaio Hamlet), aos do Uzyna Uzona na direção de Zé Celso (Os Sertões), à Companhia do Latão (O Círculo de Giz Caucasiano), às montagens do Teatro Autônomo (Deve Haver Algum Sentido em Mim que Basta) ou às direções de Cristiane Jatahy (A Falta que Nos Move ou Todas as Histórias São Ficção), é esse sentido de assalto às possibilidades da representação do real que estão sendo formulados. Cada qual em sua coordenada, seja ela mais formalista, seja essencialmente de proposição política, são teatros que tateiam a reinvenção do arsenal expressivo que constitui as próprias linguagens do teatro, muitas delas já assimiladas e neutralizadas na cultura de massa.

O momento que comporta essa dialética complexa entre tradição e invenção, entre o herdado e o novo, por sua vez não está longe de algo parecido que ocorre no processo social. Assim como se vive, ilusoriamente ou não, certa euforia com a promessa de um país prestes a se alinhar aos grandes no painel internacional, e, portanto, com alguma perspectiva de autonomia, sem ter superado, no entanto, seus vícios históricos mais elementares, assim também uma parte do teatro brasileiro está deixando de lado as chamadas formas modelares para correr atrás do próprio destino, mesmo que não tenha solidificado uma tradição teatral como é característica de culturas mais antigas. Por vezes os resultados são estranhos, como estranha é nossa própria sociabilidade no que ela tem então de parcial, provisória e incompleta. Mas, de qualquer maneira, temos mais chances de nos reconhecermos como sujeitos nessas experiências “erradas”, que parecem ser francamente mais honestas.Nesse teatro diverso, criado em circunstâncias não favoráveis à mercantilização, mas representando o capital simbólico indispensável à cultura e necessitando, portanto, de um modelo específico de fomento; nessa cena impura e, pode-se dizer, praticamente anônima, paralela aos contextos midiáticos, é lá que a arte do teatro está sobrevivendo e onde o Brasil está sendo pensado. A expectativa e a esperança é que essa parte da produção encontre naquelas condições hoje mais favoráveis citadas no início os meios para sua circulação e inserção mais decisiva no ambiente cultural, sobretudo quanto ao encontro com as plateias. Sem isso, talvez prevaleça a dicotomia perversa que precisa ser desafiada: a de uma arte inofensiva feita para as camadas médias da população e uma arte inquieta que, no entanto, permanece oculta para a maioria.

Kil Abreu é jornalista, pesquisador e crítico de teatro

Revista Trópico

Imagens do corpo e cultura de consumo

Ana Lúcia de Castro

É consensual, dentre os autores que discutem as sociedades contemporâneas, a idéia de que os códigos a serem decifrados para o entendimento da dinâmica sociocultural localizam-se na esfera do consumo, ou seja, para entendermos melhor o mundo que nos cerca, temos que lançar o olhar para a forma como as mercadorias são consumidas, uma vez que a sociedade, que antes girava em torno da esfera da produção, passa agora a produzir-se na esfera do consumo.

Partindo desse pressuposto, a expressão cultura de consumo vem sendo utilizada para enfatizar que os princípios que estruturam o mundo das mercadorias são centrais para a compreensão das sociedades contemporâneas e que na esfera do consumo é que os indivíduos buscam construir suas identidades e tecer suas relações sociais, posicionando-se no mundo e dando sentido às suas vidas.

Uma das modalidades de consumo que mais cresce atualmente está relacionada ao culto ao corpo. Os dados referentes ao faturamento da indústria de alimentos dietéticos apontam que este segmento da indústria alimentícia vem crescendo fortemente, saltando de US$ 200 milhões para U$$ 336 milhões, no período de 1991 a 1994, enquanto no mesmo período o número de fabricantes desses produtos no Brasil cresceu de 12 para 401. De acordo com a Abiad, entre 1991 e 2000, o faturamento dos fabricantes de produtos light e diet foi multiplicado por dez.2

Ao lado da indústria "Diet", coloca-se a dos cosméticos, que também cresce assustadoramente, indicando a "materialidade" do processo em questão. O setor – que envolve três segmentos básicos: higiene pessoal, cosméticos e perfumaria – teve um crescimento acumulado de 126,66% no período de 1991-1995, passando de um faturamento líquido de R$ 4,9 bilhões, em 1996, para R$ 8,3 bilhões em 2001 e alcançando a marca dos R$ 17,3 bilhões em 2005. Na primeira metade da corrente década (entre 2001 e 2005), o crescimento médio do faturamento do setor foi de 10,7% ao ano.

Nada diferente foi o desempenho de outros setores econômicos ligados ao tema da construção da aparência: moda, serviços de beleza, cirurgias plásticas e academias de ginástica constituem, atualmente, ótimos negócios.

Mas o que teria levado as sociedades contemporâneas a intensificar a preocupação com o corpo e colocá-la como um dos elementos centrais na vida dos indivíduos? É possível arriscarmos algumas hipóteses.

A exposição do corpo e, conseqüentemente, preocupação com sua forma e apresentação intensificaram-se no decorrer do século XX. Alguns marcos importantes podem ser apontados, no sentido de elucidarmos a construção dessa tendência. A década de 1920 foi crucial na formulação de um novo ideal físico, tendo a imagem cinematográfica interferido significativamente nessa construção. No fim dessa década, mulheres, sob o impacto combinado das indústrias do cosmético, da moda, da publicidade e de Hollywood, incorporam o uso da maquiagem, principalmente o batom, em seus cotidianos e passam a valorizar o corpo esbelto, esguio.

O pós-guerra trouxe à cena dois importantes elementos: a expansão do tempo de lazer e a explosão publicitária. Movimentar o corpo pela prática do esporte ou da atividade física passa a ser, cada vez mais, um imperativo nas sociedades contemporâneas. E essa tendência de comportamento está, certamente, relacionada à expansão do tempo de lazer: férias remuneradas, a explosão dos campings tornando as praias mais acessíveis, são elementos que contribuirão, a partir da segunda metade dos anos cinqüenta, para a "revolução de veraneio", que imporá um novo conceito de férias de verão, em que a exposição do corpo ocupa espaço de centralidade.

A explosão publicitária no pós-guerra, por sua vez, foi, sem dúvida, grande responsável pela difusão de hábitos relativos aos cuidados com o corpo e às práticas de higiene, beleza e esportivas, preconizadas por médicos e moralistas burgueses desde o início do século. É importante ressaltar a mudança de comportamento que se impunha nesse momento: ao colocarem suas imagens (estrelas de cinema com sorriso branco e cabelos brilhantes anunciando creme dental e xampu), esses profissionais da publicidade colocavam em jogo novas práticas, difundiam uma nova maneira de lidar com o próprio corpo e um novo conceito de higiene.

Na contra-cultura dos anos 60 temos a difusão da pílula anticoncepcional, da chamada "revolução sexual" e do movimento feminista, elementos que, associados ao "hippismo" contribuirão para a colocação da corporeidade como importante dimensão no contexto de contestação que marca a década. O corpo é colocado em cena pela contracultura como lócus da transgressão, do delírio e do "transe", através das experiências da droga e do sexo.

Por fim, os anos 80 podem ser entendidos como um marco importante para a temática, na medida em que nessa década a corporeidade ganhou vulto nunca antes alcançado, em termos de visibilidade e espaço no interior da vida social, pois se no período anterior os cuidados com o corpo visavam a sua exposição durante o verão, a partir da década de 80 as práticas físicas passam a ser mais regulares e cotidianas, expressando-se na proliferação das academias de ginástica por todos os centros urbanos. Paralelamente a esse processo temos o advento da chamada "geração saúde", a partir dos anos 80, representativa de certa postura frente à vida que, de certa forma em oposição ao padrão de comportamento representativo da geração de seus pais, levantam a bandeira anti-drogas, com destaque para o tabagismo e o alcoolismo, ao lado da defesa da ecologia, do naturalismo e do chamado "sexo seguro" – fenômeno também fortemente relacionado ao advento da aids – que em alguns casos significa a revalorização da virgindade feminina, não mais até o casamento, mas até a certeza de que o primeiro relacionamento sexual signifique o envolvimento afetivo prolongado com o parceiro.

A centralidade que a preocupação com a corporeidade veio assumindo no decorrer do século XX está ligada, ainda, à própria história da moda, que pode ser entendida como as imagens sociais do corpo, o espelho de uma determinada época e, nesse sentido, é interessante lembrarmos que no século XIX a camisola só podia ser usada no interior do quarto e qualquer referência à ela, em público, seria motivo de rubor. Cabelos soltos, da mesma forma, só eram permitidos no espaço privado, sendo o penteado uma exigência para o espaço da rua. Mostrar o corpo não era também muito comum, as pessoas decentes andavam de luvas e chapéus, mostrando apenas o rosto, com exceção dos trajes de noite femininos, que apresentavam grandes decotes. Gradualmente, a flexibilidade no vestuário vai ganhando espaço frente à rigidez. Os homens passam a usar colarinhos mais flexíveis e chapéus de feltro moles no lugar dos colarinhos duros e chapéus rígidos, enquanto as mulheres vão abandonado os corpetes e as cintas, que cedem lugar a calcinhas e sutiãs. As saias vão se encurtando, as meias valorizam as pernas e os tecidos pesados vão sendo substituídos por mais macios que salientam as curvas do corpo.

Em termos de vestuário, o século XX tem sido marcado pelo desnudamento e flexibilidade cada vez maiores. A aparência física passa a depender cada vez mais do corpo e cuidá-lo torna-se uma necessidade, pois ele deve ser preparado para ser mostrado. Mas cada passo que se deu no sentido de desvendar o corpo não foi livre de constrangimentos, conflitos e escândalos: a bermuda dos escoteiros dos anos 20 foi bastante censurada, uma vez que mostrar as pernas publicamente era um tabu; os biquínis nos anos 1950 gerou muitos conflitos entre pais e filhas; a ousada mini-saia dos anos 1960 escandalizou antes de se tornar moda e o monoquíni dos anos 1970 ainda é tabu. Hoje, nas cidades, os homens adotam a bermuda como traje de passeio, e não raro, usam a camisa aberta ou o tronco nu. É a exposição pública do corpo, que ganha cada vez mais terreno.

Não podemos deixar de ressaltar o papel da mídia como importante agente no processo em pauta. No que diz respeito à mídia impressa, vale destacar que a temática corpo ganha cada vez mais espaço desde os anos 1980, quando nascem as duas maiores revistas voltadas ao tema – Boa forma (1984) e Corpo a corpo (1987) – as quais abriram o caminho para um filão que vem sendo habilmente explorado pelas indústrias editoriais.

Em decorrência do desenvolvimento dos meios de comunicação de massa, a percepção do corpo na sociedade contemporânea é dominada pela existência de um vasto arsenal de imagens visuais. O cinema de Hollywood difundiu novos valores da cultura de consumo e projetou imagens de estilos de vida glamourosos para o mundo inteiro. As estrelas de cinema ajudaram a conformar um ideal de perfeição física, introduzindo novos tipos de maquiagem, cuidados com cabelos, técnicas para corrigir imperfeições.

Vale lembrar o grande interesse, gerado através da máquina publicitária do cinema e da televisão, pelas vidas privadas das estrelas e celebridades, pelos seus conselhos de beleza, seus exercícios e suas dietas. As revistas especializadas, ao publicarem os "segredos das estrelas" oferecem aos seus leitores a chance de se auto-ajudarem, com anúncios chamando a atenção para providências contra acne, seios grandes, seios pequenos, pele oleosa ou ressecada, celulite, etc. Assim, as imagens trazidas pelas revistas sobre os personagens do cinema e da televisão, acabam por provocar uma revisão da auto-imagem dos leitores, num jogo de reconstruções constantes de identidades, característico da modernidade.

Por fim, nesta tentativa de compreendermos o fenômeno do culto ao corpo, cabe ainda ressaltar a tomada da juventude como um valor social. É perceptível a atual busca de juvenilização pelos idosos em seus estilos de vida, pela prática de esportes, alguns radicais, pelo vestir-se de maneira despojada, pela freqüência aos salões de dança, enfim, pelo que o sociólogo inglês Mike Featherstone identifica como transformações no ciclo da vida. Trata-se de um dos traços mais marcantes da cultura contemporânea, em que as barreiras entre juventude e velhice se esgarçam e "ser jovem" coloca-se como um imperativo. Esta idéia nos leva a pensar que a imagem da juventude, associada ao corpo perfeito e ideal – que envolve as noções de saúde, vitalidade, dinamismo e, acima de tudo, beleza – atravessa, contemporaneamente, os diferentes gêneros, todas as faixas etárias e classes sociais, perpassando e compondo, de maneira diferenciada, diversos estilos de vida.

E a fábrica de imagens – cinema, TV e publicidade – tem, certamente, contribuído para isso. Em nenhum outro momento da história houve tão intensa produção e difusão de imagens do corpo humano como hoje podemos perceber. A associação entre a produção de imagens corporais pela mídia (com destaque para o cinema e a televisão) e a percepção dos corpos/construção de auto-imagem, por parte dos indivíduos, é imediata.

É curioso observarmos que o momento em que o culto ao corpo ganha espaço no interior da vida social é, coincidentemente, próximo do apontado como o ponto de inflexão das sociedades capitalistas ocidentais, que passam a ter uma nova configuração. Se a modernidade, a partir do pós-guerra, entra numa nova etapa e ganha contornos diferenciados, o mesmo ocorre ao culto ao corpo, ou à relação dos indivíduos com seus corpos. Evidentemente, a existência de técnicas de manipulação e cuidados com o corpo não é exclusividade das sociedades contemporâneas. Elas existiram em outras espacialidades e temporalidades, como nos atesta Marcel Mauss, autor pioneiro nas ciências sociais a tomar o corpo como objeto de análise. Em seu pioneiro ensaio, Mauss define como técnicas corporais os modos de tratar, usar, lidar com o corpo e lança a idéia de que essas são descobertas pelas sociedades, transmitidas e modificadas no decorrer do tempo. Partindo dessa definição de Mauss, podemos afirmar que a atual busca de cultuar e modelar o próprio corpo é caracterizada por diversas técnicas corporais legitimadas por nossa sociedade e está localizada dentro de um movimento social mais amplo, que vem se acentuando no contexto contemporâneo, no qual a técnica vem representando o principal artifício de controle da natureza e o consumo o espaço privilegiado de constituição de vínculos identitários e de sociabilidade.

Ana Lúcia de Castro é professora do Departamento de Antropologia da Unesp (Campus de Araraquara) e do Programa de Pós-Graduação em Moda, Cultura e Arte do Centro Universitário Senac.

1 Conforme dados divulgados pelo Guia brasileiro de alimentos e bebidas dietéticos (1992) e pela r evista Veja, n. 34, p. 73.

2 VIEIRA, Adriana Carvalho Pinto; CORNÉLIO, Adriana Regia. “Produtos light e diet: o direito a informação ao consumidor”. Jus Navigandi, Teresina, ano 9, n. 530, 19 dez. 2004. Disponível em: . Acesso em: 19 mar. 2007.

ComCiência

Salvador Allende, a Codelco e os mineiros de Copiapó

Em 1971, o Congresso aprovou a nacionalização da grande mineração e a colocou sob a administração da Codelco. A nacionalização era uma medida extraordinária de Allende. Tanto que foi o único projeto legislativo em três anos de governo da Unidade Popular que foi aprovado por unanimidade. Teve a aprovação da esquerda, da Democracia cristã e até da direita. A Codelco era tão poderosa que o ditador Augusto Pinochet manteve o cobre nas mãos do Estado para assegurar uma fonte própria de divisas e canalizou essas divisas para o financiamento do orçamento militar. O artigo é de Martín Granovsky.

Martín Granovsky

Jorge Arrate atende o telefone em Santiago. Como todos no mundo, acompanha a situação dos mineiros de Copiapó. “É óbvio que sou um opositor nítido ao presidente Sebastián Piñera, mas quero que o Estado vá bem no resgate dos mineiros e que eles possam caminhar entre nós”, diz.

Candidato de uma parte da esquerda chilena nas últimas eleições presidenciais, Arrate foi ministro do Trabalho da Concertação e embaixador de Ricardo Lagos na Argentina. É tão difícil esquecer sua notável cozinheira peruana, quanto duas frases suas. Uma, sobre as transições: “São monstros horríveis, disformes”, dizia em tom descritivo. Era um modo de explicar o Chile com realismo, mas, ao mesmo tempo, Arrate reivindicava a marcha chilena para a democracia plena enquanto pedia mais e mais reformas. A outra frase foi dita quando, na Argentina, os partidários da impunidade sonhavam com o silêncio infinito e, falsificando os dados, apontavam o Chile como exemplo para não julgar. “O único ponto final é posto pelas almas”, disse Arrate que sempre esteve de acordo com processar os suspeitos de violação dos direitos humanos.

Em 1970, quando Salvador Allende ganhou as eleições presidenciais, Arrate ainda não tinha 30 anos, era militante socialista, amigo das filhas do presidente e já tinha seu título de economista. Foi assessor presidencial até que um ano depois “Allende me pediu –que pediu!, me ordenou! – que assumisse a presidência da Corporação do Cobre, a Codelco.

Hoje, Arrate lembra que, em 1971, o Congresso aprovou a nacionalização da grande mineração e a colocou sob a administração da Codelco. “Eu tinha apenas 29 anos e assumi o cargo com entusiasmo. A nacionalização era uma medida extraordinária. Tanto que foi o único projeto legislativo em três anos de governo da Unidade Popular que foi aprovado por unanimidade. Teve a aprovação da esquerda, da Democracia cristã e até da direita”.

Arrate descreveu Salvador Allende como “um político em tempo integral que abandonou muito jovem seu trabalho com médico, um homem de relação muito aberta com os demais, que amava muito a vida, carecia de ódios pessoais e tinha uma grande coragem pessoal e política, como demonstrou no 11 de setembro no palácio de La Moneda”.

Em julho de 1971, com o cobre nacionalizado, Allende falou em Rancagua aos “companheiros mineiros”, “aos duros trabalhadores do metal vermelho”. Disse a eles que, com a estatização, o cobre era o “salário do Chile”, “assim como a terra é seu pão”. Arrate estava ali, estreando no cargo de presidente de um dos maiores conglomerados mineiros do mundo.

A Codelco era tão poderosa que o ditador Augusto Pinochet – ao contrário, paradoxalmente, do que fez Carlos Menem, um presidente nascido da democracia que privatizou o petróleo na Argentina – manteve o cobre nas mãos do Estado para assegurar uma fonte própria de divisas e canalizou essas divisas para o financiamento do orçamento militar.

Em setembro de 1973, Arrate acabava de fazer um giro por vários países – entre eles a China – para conseguir novos mercados para o cobre em meio ao movimento decidido pelo presidente Richard Nixon e seu conselheiro Henry Kissinger para castigar o Chile e qualquer país que tivesse a audácia de imitá-lo: estava proibido governar com coalizões de esquerda e centroesquerda, proibido expropriar empresas made in USA, proibido fazê-lo (como fez o Chile) considerando que a indenização estava paga pelos abusos anteriores. Arrate decidiu encurtar a viagem e voltar ao Chile quando o final da democracia era iminente. Mas o vôo chegava a Santiago justamente no dia 11, o dia do golpe, do bombardeio ao Palácio de La Moneda e da morte de Allende, que se suicidou depois de resistir com um capacete na cabeça e uma metralhadora nas mãos. O avião de Arrate sobrevoou Santiago, não pode aterrisar e o presidente da Codelco iniciou seu longo exílio na Europa.

Em 1972, Arrate havia tomado parte em dois episódios relacionados com a Argentina. Acompanhou Salvador Allende quando o presidente se encontrou com Alejandro Lanusse em Salta. O Chile não queria um isolamento ainda maior. Tratava de evitar que a fronteira ideológica com a Argentina se convertesse em uma armadilha. E conseguiu. Em agosto de 1972, participou das negociações nas quais Allende decidiu não devolver os guerrilheiros argentinos que tinham fugido da prisão de Trelew. Não voltaram a Argentina e deixaram o Chile, onde sua estada teria aumentado a crise que estava em desenvolvimento. Foram para Cuba.

Arrate negociou muito com os mineiros e conhece bem como são. “Há alguns que transmitem o ofício de pai para filho. É como se tivessem uma cultura mineira. E outros vivem de ofícios diferentes. Mas sempre, mais jovens ou maiores, trabalham com espírito coletivo e respeitam o maior conhecimento dos líderes. Ali embaixo, na San José, há um mineiro que tem mais de 30 anos de vida nas profundezas. É muito importante contar com alguém assim”.

O ex-embaixador diz algo que poucos dizem. “A mina San José, onde ocorreu o acidente, foi fechada em 2007 e reaberta em 2008. Em 2010 houve um acidente sério, mas ela voltou a ser autorizada. É um erro muito grave”. E diz algo que ninguém conta: “A ajuda internacional é importantíssima. Mas como a Codelco se ocupa da grande mineração (San José é uma mina intermediária) tem tecnologia de segurança e de resgate e quadros especializados com muitíssima experiência em minas subterrâneas como El Tenienye. Eles e os engenheriso de Codelco foram vitais nos últimos dias e seguirão sendo até que todos os mineiros voltem para a superfície”.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

Em briga de marido e mulher, se mete a colher

A violência de gênero atinge mulheres brasileiras de Norte a Sul do país, de todas as classes sociais, etnias, credos, raças e opção sexual. Seja por culpa do sistema patriarcal, seja pela falta de debate sobre o tema, o fato é que uma mulher é espancada a cada 15 segundos e dez são assassinadas diariamente no Brasil

Maíra Kubík Mano, Mariana Fonseca

Juliana** é paulista e viajou para Minas Gerais, onde iria fazer uma prova. Na noite anterior, decidiu dar uma volta pela cidade onde estava e parou em um bar. Conheceu um rapaz “inteligente, charmoso e com boa aparência”. Juliana acordou num hotel, no dia seguinte, sem lembrar de nada além da cara simpática do moço. Mais uma vítima do “Boa noite, Cinderela!”.  Com vergonha, ela voltou para casa sem contar nada para ninguém. Mas, três semanas depois, a menstruação não veio e ela descobriu que estava grávida do estuprador. “Contei para a minha família. Menos para o meu irmão. Eles me deram apoio e eu procurei ajuda em um hospital.” Juliana estava à porta da 1ª Delegacia de Defesa da Mulher, no centro de São Paulo, para fazer um boletim de ocorrência do estupro. “Faço o aborto ainda esta semana e preciso do B.O. Sempre fui contra o aborto, hoje sou a favor.” Juliana vai interromper a gravidez dentro do hospital, por aspiração, já que seu caso se enquadra na lei e tem menos de 12 semanas de gestação. “Acho muito perigoso essas mulheres que fazem aborto clandestino. Elas compram o remédio por R$ 350 aqui, no centro da cidade, e correm muitos riscos.”

Laura** também está na fila para ser atendida pela delegada. Quando questionada sobre o que a traz ao local, a resposta é enérgica: “Fui traída”. Ela exibe os braços roxos e começa a despejar a história, com revolta. Laura está casada há quatro anos e tem uma filha de 6 meses. Na noite anterior, descobriu que estava sendo traída pelo marido e tentou expulsá-lo de casa. Ele a agrediu no hall do apartamento. “Ele tentava me arrastar para dentro de casa para me bater mais, mas por sorte os vizinhos apareceram e ele foi embora.” Essa não era a primeira agressão do marido. “Quando namorávamos, ele já tinha me agredido na frente da minha sogra. Sempre soube que ele era violento, mas ficava quieta, mesmo quando ele me humilhava em público, falando coisas horríveis.” Por que Laura se casou e manteve uma relação com esse homem? “A gente ama e vai deixando rolar, achando que as coisas vão mudar. Mas, agora que sou mãe, tenho outras prioridades.”

Maria**, de São Paulo, procura ajuda porque seu marido ameaça matá-la caso ela saia de casa. Ela quer se separar, mas ele não quer perdê-la. Depois de muitas brigas e maus-tratos, Maria até chega a avisar que, um dia, é ela quem vai se rebelar e dar uma facada nele, seguindo a regra do “sou eu ou ele”. Mas ela não consegue fazer um boletim de ocorrência porque não existem testemunhas das ameaças. O marido negocia, então, a saída dela de casa: quer R$ 8 mil para deixá-la em paz. Nem agressões, nem dinheiro, Maria pula a etapa do B.O. na delegacia e consegue ser ouvida por um promotor bem-intencionado. Com a autoridade que lhe é garantida, o promotor intima o marido agressor. Com uma boa conversa, ele deixa a residência. Maria é, finalmente, uma mulher separada, livre e, principalmente, em paz.

Enquanto isso, em Roraima, mais especificamente na cidade de Alto Alegre, a história se repete. A mulher quer se separar, mas o marido não concorda. Ele faz ameaças e pressão psicológica. Ela insiste em deixá-lo e acaba agredida. Quando a violência começa a ficar insuportavelmente frequente, ela toma coragem e vai denunciá-lo. Essa é a versão mais comum que a psicóloga do Centro de Referência da Assistência Social da prefeitura da cidade, Beth Urbano, escuta no seu dia a dia no abrigo para mulheres. Por lá, o número de mulheres mortas é de 22 por 100 mil habitantes, o maior índice do país, segundo dados recém-divulgados pelo Mapa da Violência no Brasil 2010. O estudo contabilizou 41.532 vítimas do sexo feminino entre 1997 e 2007, uma média de 10 mulheres assassinadas por dia (ver box).

Urbano conta que são feitas palestras para as mulheres e, principalmente, para os homens do município. Porém, é difícil manter o interesse do público masculino. “Tentamos dar brindes, como kits para moto e bicicleta. Achamos importante que eles reflitam sobre o tema, mas não é fácil.” Para a psicóloga, o número alto de assassinatos não é fruto de nenhuma onda crescente de violência. “A violência continua a mesma de sempre, a diferença é que agora as mulheres estão tendo mais coragem de denunciar. Muito graças à Lei Maria da Penha, que levantou o assunto em todo o estado. A própria Maria da Penha esteve palestrando por aqui. As mulheres passaram a conhecer melhor os seus direitos. As coisas pararam de ser camufladas e as mulheres perderam um pouco o receio de se expor. Acredito que se todas elas superassem o medo das ameaças, os números seriam ainda mais altos.”

E uma coisa é certa em se tratando de violência contra a mulher: ela não discrimina classe social, faixa etária, etnia, opção sexual, credo nem cor. “Os casos atingem mulheres em geral, sem recortes. É uma questão bem mais complexa, que envolve criação e comportamento social. Os agressores também são fruto do meio.” A própria Maria da Penha que o diga: farmacêutica, sofreu duas tentativas de assassinato pelo marido, um professor universitário, em 1983. A primeira, com arma de fogo, deixando-a paraplégica; e a segunda, por choques elétricos e afogamento. Contudo, ele só foi punido depois de 19 anos de julgamento e ficou apenas dois anos cumprindo pena em regime fechado. Não é à toa, portanto, que a lei mais dura contra esse tipo de crime leve seu nome.

A violência também não discrimina região do país e/ou facilidade de acesso a informação. Além de Roraima, entre as dez cidades mais violentas figuram três do Espírito Santo (Serra, Jaguaré e Viana), duas do Rio de Janeiro (Silva Jardim e Macaé), duas do Pará (Tailândia e Rio Branco do Sul), uma do Mato Grosso do Sul (Amambai) e uma de São Paulo (Monte  Mor). De acordo com Márcia Salgado, delegada coordenadora das delegacias de Defesa da Mulher de São Paulo, os casos mais frequentes são de lesões corporais e ameaças. “Em 2009, foram 215.201 atendimentos no estado, contra 195.163 do ano anterior”, aponta.

Violência de gênero

Para ter um olhar mais amplo da situação da mulher no país é preciso entender o que é violência de gênero. A feminista e ativista de Direitos Humanos, Amelinha Teles define: “Violência de gênero é aquela que se dá porque existe uma desigualdade histórica entre homens e mulheres, uma desigualdade nas relações de poder que atinge todas as áreas econômicas, políticas, sociais e religiosas”.

E assim como a psicóloga de Alto Alegre, Teles também alerta para o fato de que a violência de gênero é assunto comum, quotidiano. “Não há nada de extraordinário em mulheres sofrendo agressões ou sendo mortas simplesmente por serem mulheres. Infelizmente, esses são fatos corriqueiros. Se estão na pauta, hoje, e se a mídia fala do assunto é porque existem exemplos que atingem pessoas com certa fama.”

Teles critica a cobertura de casos como o do goleiro do Flamengo, Bruno Souza, e Eliza Samudio ou o da advogada Mércia Nakashima. A feminista alerta para matérias veiculadas na imprensa envoltas em preconceito. “Houve uma overdose de cobertura que, em sua grande maioria, reforçava o estereótipo dos homens violentos. Não vimos muito espaço para outra perspectiva na discussão sobre a violência contra a mulher. Muitos criminalistas foram entrevistados, mas quase nenhuma feminista ou ativista que lida com esses casos no dia a dia. Nós falamos nesse assunto há 30 anos e, até hoje, mesmo mulheres que não sofrem violência direta vivem temerosas de sair à noite, de andarem sozinhas e ser estupradas.”

Se, por um lado, Teles questiona a cobertura dos casos recentes, por outro, acredita que o destaque dado pela mídia e o movimento gerado em torno da Lei tenha surtido efeito. “A Lei Maria da Penha, por levar o nome dessa mulher cadeirante e que está entre nós, tem uma força muito grande. Ela levantou a pauta e fez pessoas comuns discutirem o tema nos mais diferentes cantos do país.”

Para a feminista, a Lei, que faz quatro anos este mês, é bastante completa, de fácil compreensão e atende às demandas. “A Lei tira a mulher da condição de crime passional, do papel de coitadinha. A mulher é tratada como uma pessoa digna. Não é que a Lei coloca todo mundo na cadeia, como se fala por aí, mas o que ela propõe é orientar a vítima e mostrar que ela tem direitos. Que é possível criar medidas protetoras específicas para cada caso, juntamente com a delegada. Pensar junto e construir. A Lei está muito boa. Mas precisa orçamento para colocá-la para funcionar.”

E o diálogo é a receita ideal, segundo Teles. “Nós sabemos que a grande maioria das mulheres não quer separar-se ou deixar seus maridos. Elas têm uma relação afetiva e querem ‘dar um recado’ a eles, uma ‘dura’, para que parem com os maus-tratos, não desejam que eles acabem na cadeia.”

A socióloga e professora Heleieth Saffioti concorda com essa afirmação, mas justamente por isso acredita que a Lei Maria da Penha não vai “pegar”: “É preciso reeducar homens e mulheres. Esta Lei criminalizou o fenômeno, por meio de seu enquadramento judicial”. Autora de inúmeros livros, entre eles Gênero, patriarcado e violência (Fundação Perseu Abramo), Saffioti lembra que, logo no início da implementação da Lei, ela participou de um debate em Mato Grosso do Sul, onde apresentou sua posição contrária ao texto. Ao final, uma delegada da região veio conversar com ela dizendo que discordava, mas que tinha se retirado da palestra para resolver exatamente uma situação que Saffioti havia previsto: uma mulher, que havia denunciado o marido horas antes, voltara à delegacia e tinha conseguido entrar na cela dele, onde o casal fez as pazes.

Saffioti acredita que o homem se torna mais violento quando privado das suas funções de socialização, ou seja, de seu papel na sociedade atual, que, segundo ela, é o de provedor. Por isso, os índices de desemprego estão diretamente associados à violência doméstica. “Não ter um salário, por exemplo, acaba com a masculinidade dele, tal como a conhecemos hoje”, argumenta. A saída? Uma ampla mudança cultural, que tire homens e mulheres dos lugares e papéis em que estão colocados.

Além disso, ressalta, “há a questão do poder, que é central”. Para ela, o possível crime contra Eliza Samudio não foi apenas um ato de sadismo ou de barbárie, mas sim de poder. Saffioti relembra o caso de Doca Street, que em 30 de dezembro de 1976 assassinou Ângela Diniz, então sua companheira e que pretendia deixá-lo. Ele deu quatro tiros no rosto dela, o que para Saffioti foi simbólico: “Era o que ela tinha de mais bonito”. No primeiro julgamento, Street foi absolvido, utilizando o argumento de “defesa da honra”, em que alegava ter sido traído por Ângela. Novamente julgado em 1981, foi condenado a 15 anos de prisão. Saffioti acredita que esse tipo de justificativa não é mais crível.

Mas, mesmo que a condenação se concretize, isso não é garantia de prisão, como demonstra o caso do jornalista Antônio Marcos Pimenta das Neves, assassino confesso da também jornalista Sandra Gomide. O crime ocorreu em agosto de 2000, e Neves permaneceu pouquíssimo tempo na cadeia desde então. Por conta do que é considerado como interpretação extremada da presunção de inocência, o ex-jornalista segue em liberdade, aguardando a palavra final do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o caso.

Patriarcado

“O sistema patriarcal é de dominação. O homem sente-se dono da mulher, a vê como uma propriedade e acha que tem o direito de agredi-la, matá-la, puni-la severamente. Ele é criado para achar que é superior à mulher”, analisa a psicóloga Regina Navarro.  “O crime passional faz parte de uma mentalidade patriarcal. Embora existam mulheres que matam, a diferença é absurda em comparação com homens que matam suas mulheres”, completa.

“O homem fica passional porque, na cultura patriarcal, tem de romper muito cedo com a mãe, enquanto ainda necessita de seus cuidados. Para ser aceito no grupo, o menino tem de fingir não precisar da mãe. Se ele, com 7 anos, se machucar num playground e chorar, é chamado de ‘maricas’. O menino tem de provar que é macho o tempo todo. Assim, a cultura patriarcal também associa masculinidade a heterossexualidade. Menino tem que ser forte, não pode chorar. Mas ele precisa da mãe. Então, ele desenvolve um comportamento em que, por defesa, nega a necessidade que tem dos cuidados maternos e desvaloriza a mulher em geral. Aí esse homem se torna um adulto, e quando entra numa relação estável é impressionante como ele baixa a guarda e se torna um bebê de novo. Vejo inúmeros casos desse tipo no meu consultório. Uma vez, uma mulher me relatou que tinha de dar comida na boca do marido. A dependência é tanta que, quando a mulher vai embora, aperta uma tecla dentro dele de desamparo e ele parte para a agressão, para a violência.

Esse é o caso da Mércia Nakashima”, afirma a psicóloga.

Isso, somado ao sentimento de propriedade que o homem tem sobre a mulher, gera resultados desastrosos. “Junta a fragilidade do homem com a cultura patriarcal e com toda uma mentalidade de dominação, de ter que corresponder ao ideal masculino, e ele se sente ultrajado por não ser mais desejado pela mulher”, diz.

Essa opressão, que já duraria 5 mil anos, começa, porém, a cair: “A pílula foi o golpe fatal. Além disso, muitos homens estão sendo criados por feministas. Achou-se que a cultura patriarcal só oprimia as mulheres, mas agora eles perceberam que também são oprimidos. Os homens estão em crise, porque corresponder a esse ideal é desesperador”, acredita Navarro.

Para ela, “tem que haver a contribuição de todos para as mudanças de mentalidade. A mulher ganhar menos no trabalho, cumprindo a mesma função que o homem, deveria ser proibido por lei, por exemplo. Esse é o resquício dessa mentalidade patriarcal, atuando de forma injusta. Às vezes as pessoas não se dão conta. Os meios de comunicação também podem contribuir para isso, a depender das fontes que utilizam”.

Uma proposta interessante nesse sentido vem sendo desenvolvida pelas jornalistas argentinas Sandra Chaher e Sonia Santoro. Elas acreditam que a mídia tenha dificuldades em abordar questões vinculadas ao tema gênero, e propõem que todas as notícias sejam escritas a partir de uma perspectiva transversal, com preocupação sobre a exposição da mulher.

Em uma pesquisa que realizaram no país vizinho, denominada “Las palabras tienem sexo” (“As palavras têm sexo”), as jornalistas comprovaram que, na maior parte das notícias, as mulheres apareciam em seus papéis mais tradicionais, de mãe e esposa, ou meramente como celebridades e símbolos sexuais. “Se queremos fazer jornalismo a partir de uma perspectiva de gênero, temos que nos perguntar como cada fato relatado afeta homens e mulheres. Quais as diferenças e especificidades? É preciso encontrar uma maneira pela qual os editores comecem a se perguntar qual o impacto de cada questão na vida de homens e mulheres. Aí, sim, começaremos a alterar as coisas”, concluem.

Seja na mídia, seja no dia a dia, a mulher ainda não atingiu o mesmo patamar que o homem na sociedade. Ela não é tratada com o mesmo respeito nem usufrui os mesmos direitos. E, talvez por isso, de acordo com dados da Fundação Perseu Abramo, cerca de 40 delas tenham sido espancadas enquanto você lia este artigo. 

Mortes de mulheres no Brasil  (a cada 100 mil habitantes)

1º Alto Alegre (RR) – 22,0

2º  Silva Jardim (RJ) – 18,8

3º Tailândia (PA) – 17,8

4º Serra (ES) – 17,4

5º Jaguaré (ES) – 15,3

6º Monte Mor (SP) – 15,2

7º Macaé (RJ) – 15,2

8º Viana (ES) – 15,0

9º Amambai (MS) – 15,0

10º Rio Branco do Sul (PA) – 14,9

Fonte: Mapa da Violência no Brasil 2010, Instituto Zangari

Maíra Kubík Mano é jornalista e editora de Le Monde Diplomatique Brasil.

Mariana Fonseca é jornalista e editora-assistente de Le Monde Diplomatique Brasil.

Ilustração: Lollo

Le Monde

Rumo aos novos letramentos

Referência nos estudos de linguagem e na análise do livro didático, pesquisadora da Unicamp crê que está na hora de ampliar a oferta de materiais para uso em sala de aula

Em tempos de mídias digitais, o processo de letramento não deve mais restringir-se apenas aos impressos, diz a professora Roxane Rojo, do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade de Campinas e coordenadora do projeto de pesquisa "Multiletramentos e abordagem da diversidade cultural no ensino de língua materna. O papel dos materiais didáticos".

Apesar dessa restrição, a especialista, que participou da institucionalização do processo de avaliação dos livros didáticos ocorrido a partir da segunda metade dos anos 90, vê um processo de evolução dos materiais à disposição do professor que tem a missão de alfabetizar na escola contemporânea.

Qual a sua avaliação sobre os livros didáticos destinados aos anos da alfabetização e aos subsequentes?

Participo mais do processo de avaliação dos livros do 3º ao 9º ano, mas, ainda assim, se avaliarmos as séries iniciais – o 3º ano, que é um ano de consolidação do processo -, houve uma considerável

melhora no tratamento dos letramentos em 10, 12 anos de política de avaliação do livro didático. Seja para leitura, seja para produção de texto, seja para consolidação da alfabetização e da ortografização. Em leitura e produção textual, por exemplo, os livros ficavam muito centrados nos gêneros estritamente escolares – as historinhas, as narrativas -, não havia diversidade. A leitura era meramente uma leitura de localização de informação, linear, rasa. Na ortografia, se trabalhava de maneira muito transmissiva. Isso no início, lá em 1998. As novas levas de livros são sucessivamente melhores em todos os âmbitos: leitura, produção, análise linguística, ortografização etc. Com variações, é claro. Embora as menções [classificatórias] tenham sido abolidas para o público em geral, os avaliadores ainda operam com elas, ou ao menos com um ranking de pontuação para cada quesito de avaliação. Então há livros classificados que não matam ninguém, mas que são bastante rasos e outros com propostas bem mais ambiciosas, organizados por projetos. A amostra é bastante variada e, dentro dos limites do que um programa como este pode fazer, atingimos um patamar de manutenção.

O que isso significa?

Digo isso por uma série de razões. O livro é limitado. Não pode trazer uma série de letramentos porque ele é um impresso. Na medida em que não se permite nos livros de português, como acontece nos livros de língua estrangeira, que haja satélites – CDs etc. – ficamos limitados a um conjunto de gêneros que circulam nos impressos e que hoje são insuficientes. Diria que a política precisa de uma revisão mais profunda, em termos do que se está entendendo como material que deve circular em sala de aula.

Hoje não basta mais letrar para produzir textos à mão ou para impressos, é preciso lidar com outras linguagens.

Que impacto traz essa nova visão, que incorpora os escritos (as novas linguagens) à escrita alfabética, ao trabalho do professor?

Na alfabetização, isso só traria benefícios e facilidades. Se pensarmos, por exemplo, na educação infantil, o professor trabalha com essas diferentes linguagens – o corpo da criança, a dramatização, o teatro, a hora da rodinha, o que se vai contar, falar e, no meio disso, começa a alfabetizar. Nas escolas privadas que alfabetizam aos 6 anos, ou o 1º ano das públicas do fundamental de nove anos, essa alfabetização se dá num âmbito em que as maneiras de simbolizar ou representar são muito variadas. A criança vai usar o corpo, cantigas, a observação do feijãozinho e a escrita vem dentro desse sistema de atividades como uma modalidade, entre várias. A pesquisa "Retratos da Leitura no Brasil" mostra que as crianças gostam de ler e se engajam nos escritos até o 5º ano. Entre outras coisas porque isso faz parte de uma prática mais global. Quando entra na alfabetização, muitas vezes professores e livros formados de maneira mais tradicional cortam esse processo e focam o código alfabético. E aí há rupturas de processo, que poderiam não acontecer se mantivessem, por exemplo, vídeos, áudios e canções. As crianças trazem um domínio da imagem, via televisão e outras linguagens, muito maior do que o da escrita. A escrita poderia entrar no berço dessa multilinguagem se as práticas fossem modificadas. Nas etapas seguintes, quanto mais à frente você for – por exemplo, no ensino médio – mais há uma valorização do escrito, do impresso e das formas canônicas. No ensino médio, temos literatura canônica escrita e acabou. As práticas letradas vão se afunilando naquilo que a escola julga que deve ser transmitido. E o que apontamos é justamente uma ampliação desses patrimônios. Como eles estão postos hoje, à la século 19, não servem mais à cidadania, nem à vida pessoal e nem ao trabalho. É preciso ampliá-los à imagem, ao áudio. Sem abandonar a escrita, obviamente.

E como ficaria a formação docente?

Outro dia ouvi alguém falar algo genial em um evento. Ele dizia que a escola tem um currículo do século 19, professores do século 20 e necessidades dos alunos do século 21. A formação é complicada, mas é também uma questão geracional. Os meus alunos que estão se formando são quase nativos de uma era digital. Não terão o problema de não querer aprender uma linguagem por não serem usuários. Na hora em que a leva de migrantes – as pessoas que começaram no impresso e terminaram no digital – sair da escola, teremos algo diferente. É uma questão de 20 anos para termos algo diferente. Mas não podemos esperar, temos de investir em formações e materiais e numa pedagogia de projetos.

Mas há também a expectativa das famílias, que é maior quanto à escrita (e não aos escritos). Como lidar com isso?

Depende de qual família, do letramento familiar. Do ponto de vista das famílias analfabetas ou de baixa escolaridade, a criança  decifrar o código e fazer cálculos é um enorme avanço, pois é aquilo que ela não tem. Nem sei se ela é capaz de reconhecer essas outras mídias e maneiras de significar como relevantes. Afinal, essa família também tem a televisão em casa. Se os filhos começarem a ver TV na escola, poderão perguntar que escola é essa que não está ensinando a ler, escrever, literatura e ortografia. Por outro lado, uma família inserida nesses letramentos contemporâneos percebe que seu filho só arruma emprego se dominar ferramentas de edição de áudio e vídeo. Pode pensar ‘ah, que interessante essa escola, não preciso pagar cursos por fora’. Então, para o grosso da população, esse reconhecimento é mais difícil, a não ser como um impacto de minoramento da rejeição do aluno em relação à escola e da violência que impera na escola. No ensino médio, essa distância das práticas entre o que a escola quer – o trovadorismo, por exemplo – e o que o aluno quer – o rap – se traduz muitas vezes em violência interna e externa à escola, em afastamento do alunado da escola.

O que o docente deve incorporar, dos pontos de vista teórico e didático, para trabalhar a partir dessa nova visão?

A proposta dos Parâmetros Curriculares Nacionais, de 1998, do trabalho com gêneros textuais, pavimentou a estrada nos últimos 10, 12 anos. O conceito de gênero – e não o de texto ou de tipo de texto, que é aquele mais escolar – abre as possibilidades de abordagem numa diversidade dos escritos impressos e das outras linguagens. Começou a ser aceito que o professor pode trabalhar com gêneros nos quais nunca antes tinha pensado. Estava corrigindo um material que vai entrar de forma suplementar na rede municipal de São Paulo em que se propõe um volume sobre poemas visuais, inclusive os digitais, e rap. É uma novidade já incorporada por um sistema público municipal na produção de material didático de apoio ao professor. Esse conceito abriu o caminho: começo trabalhando com notícia, artigo de opinião, e depois amplio para charge, tirinha, fanzine e outras coisas.

E como isso mexe com a formação inicial?

Os currículos das universidades continuam no século 19, início do 20. Os currículos de letras, por exemplo, têm muito pouca análise do discurso, estudo de texto e teoria de enunciação. E, hoje em dia, todas as propostas vão nessas direções – da linguística textual, da teoria da enunciação e das análises de discurso. Então, o campo teórico precisaria incorporar mais da visão da linguagem não como palavra, sílaba, fonologia, frase, sentença, gramática, mas como discurso, texto e enunciado. Se o aluno não tem formação nisso, vai ter de aprender na formação continuada. Em geral há apenas uma ou duas disciplinas e o grosso é gramática, sintaxe, fonologia, um currículo mais clássico de letras. Na pedagogia, isso tem um impacto menor, porque quando tem alguma formação vai para essas disciplinas que estão presentes nos currículos, e não para as coisas mais clássicas da linguística. Outra coisa é que a universidade continua extremamente disciplinar e subdisciplinar. A Capes divide em áreas, subáreas e assim por diante. Isso dificulta uma abordagem como essa, pois se vamos tratar da imagem ou da canção será preciso alguma noção de semiótica de maneira mais geral, de música… Que a discussão da interdisciplinaridade chegasse à universidade seria interessante, o que está apenas começando.

E do ponto de vista da didática?

É mais complicado ainda. O governo fez várias tentativas de integrar melhor a formação docente das licenciaturas entre a educação e as especialidades. Só que cada universidade fez à sua maneira. De fato, na maioria das universidades de letras, didática e conteúdo continuam muito separados. Quando se juntam é só no final e sem conversa entre as unidades de educação e de letras. Na pedagogia, há dois problemas: o primeiro é a recente exigência de que o professor tenha a formação universitária para ser alfabetizador. Mas está sendo cumprida. Fazer essa qualificação a toque de caixa provocou uma série de cursos duvidosos, configurados como uma suplementação, só para que se atribuísse aos professores o grau universitário. Em segundo lugar, muitas vezes a montagem dos cursos na educação dá muito pouco espaço aos conteúdos. Não sei o que é melhor, pois quando trabalho com formação continuada de professores a didatização é muito presente para aqueles que têm formação mais generalista e isso talvez seja prioritário. Eles têm mais sintonia com o que é ensinar, com a forma como o aluno aprende e do que ele precisa. Já o professor especialista é mais resistente, a relação dele é com aquele conteúdo, com esgotá-lo ou transmiti-lo, o que talvez torne mais difícil ensinar. O que falta ao professor alfabetizador são noções de fonologia, de relação oral-escrito, mas acho mais fácil ensinar isso a ele do que mostrar ao especialista a importância de estar sintonizado com o processo do aluno.

Como isso se traduz em termos de habilidades específicas que o professor precisa trabalhar?

Em primeiro lugar, deve saber diagnosticar o que o aluno precisa tanto em termos de aquisição da base alfabética e da própria alfabetização quanto em termos do gênero com que vai trabalhar. Mas para diagnosticar o aluno é preciso conhecer bem o objeto, ver o que ele sabe daquele objeto, para poder ensinar. Então, em primeiro lugar, ter essa percepção de um acompanhamento diagnóstico e formativo, e não de um acompanhamento só avaliativo terminal. E o que seria mais novo na formação, que é ter essa sintonia maior com o multiculturalismo, com o que o aluno traz não só em termos de conhecimentos, mas da cultura da sua comunidade, de como se aproximar dele com menos conflito cultural. Didaticamente, o mais importante é deixar o aluno ser ativo, construir o conhecimento em vez de transmitir.

Nos anos iniciais do fundamental – os da alfabetização propriamente dita – há gêneros textuais que sejam mais fecundos para se trabalhar?

Com certeza. Isso remete a uma ideia de progressão, do que se pode apresentar na série inicial ou mais adiante. Peguemos como exemplo o aluno que está chegando à alfabetização, um menino de 6 anos que está entrando na escola e que não frequentou a educação infantil. Ele está mais familiarizado com os gêneros cotidianos, mais primários, com a oralidade, com a conversa cotidiana, com alguns escritos, mas poucos, como rótulos, dependendo dos letramentos da família e da comunidade. Eu poderia começar pela televisão, pelos programas televisivos que talvez ele nem conheça, mas que existem na televisão aberta com qualidade, como o Rá Tim Bum, e com isso ir introduzindo o domínio da escrita. O princípio é o mesmo: partir do que ele já conhece para acrescentar aquilo que pretendo ensinar, do código alfabético aos gêneros secundários. Estava avaliando propostas para um material de gêneros pertencentes à esfera da divulgação científica. O volume apresentado ao 2º ano é de verbete de curiosidade, do tipo ‘você sabia que o camaleão muda de cor?’, um gênero secundário simples. O de 3º ano parte do verbete de curiosidade para chegar ao verbete de enciclopédia infantil, de dicionário infantil, e apresentar alguns artigos de divulgação científica de revistas como Recreio e, no final, Ciência hoje das Crianças. Então, os gêneros, os veículos e os temas vão se sofisticando, numa progressão em espiral. No material de 5º ano, o último que eu avaliei, temos reportagem, artigo de divulgação científica – revista Superinteressante, Galileu, entra imagem, infográfico. É sempre esse movimento. O Vygotsky dizia que isso é partir do desenvolvimento real da criança, do que ela traz, para o desenvolvimento proximal, que é aquilo que se quer introduzir. 

O livro didático constitui um gênero à parte?

Na minha opinião e na de outros pesquisadores, sim. É uma questão controversa, há quem defenda que é apenas um suporte para outros gêneros. Não concordo, pois tem autor, tem uma proposta didática, uma proposta pedagógica, escolhe objetos, seleciona o que vai ensinar, dá uma dinâmica, ou seja, tanto quanto um romance, ele tem uma história a contar enquanto educador. É um gênero muito particular, pois chama para dentro de si outros gêneros que circulam fora da escola. É intertextual, intercalado, com notícias, poemas da literatura e de fora dela. Não é um gênero multimodal porque é um impresso, não tem CDs com vídeos, áudios etc.

E quais são as características desse gênero? Quais delas deveriam ser necessárias para efetivamente ajudar o professor na tarefa de alfabetizar e letrar?

No caso dos livros de 3º a 5º ano, trazem como objeto de ensino, majoritariamente, os gêneros da esfera artístico-literária: literatura infanto-juvenil, no caso desses livros iniciais, com muitos poemas, gênero mais curto, que cabe na aula, e  pequenos trechos de narrativas de aventura. O resto é divulgação científica e textos escolarizados, como verbetes. Não alcançam a diversidade e a circulação de textos extracurriculares.

E o que mais poderiam ter?

Os referenciais e parâmetros nacionais e internacionais pedem textos diversificados, gêneros variados, de circulação social mais ampla. Seria interessante rever um pouco o leque de gêneros. Por exemplo, os textos que exigem crítica são muito pouco abordados. Quando há textos jornalísticos, é jornalismo de informação. Poderia haver aqueles que pedem o posicionamento da criança, que podem provocar debate. Em segundo lugar, textos multissemióticos,  ou que preservam a configuração multissemiótica. Na divulgação científica, tem bastante, mas tiram a imagem. Em terceiro, trazer mais gêneros que sejam da cultura extraescolar não valorizada, mais canções etc. Ou seja, coisas que levassem a esses três aspectos: leituras multissemiótica, multicultural e crítica. Esse princípio vale também para a fase de alfabetização.

Alfabetização e ortografização são fases distintas?

A maior parte dos professores e dos livros já faz essa divisão entre a alfabetização, que é o domínio básico do sistema, e a ortografização, que é aquilo que prossegue durante um tempo, até o 5º, 6º ano, às vezes a vida inteira, do domínio das exceções do sistema ortográfico do português do Brasil. Mas, para mim, alfabetização é uma fase inicial que foca o grosso do funcionamento do sistema fonológico e do sistema gráfico da língua.

Como isso tem se materializado nos livros da alfabetização e do 3º ao 5º ano?

Em razão das pesquisas do professor Artur Morais, que trabalhou muito bem a descrição para a formação do professor da ortografização do português do Brasil, os livros incorporaram muito isso. Nesses anos, as propostas de ortografia se desenvolvem bem, com conhecimento do objeto, da fonologia e da ortografia do português, e com uma prática didática que, por vezes, acaba resultando no único lugar do livro com práticas efetivamente construtivistas. Ou seja, dá uma mostra de palavras e pede para a criança pensar a regra, em vez de falar ‘a regra é tal’. A alfabetização é outra história, com outras metodologias que quase sempre reduzem muito a organização fono-ortográfica do português. Tende, por exemplo, a trabalhar sílaba simples primeiro, sílaba complexa depois, deixa para o final os dígrafos. Só que quase toda palavra tem dígrafo. Poucas palavras são iguais a peteca. Quando você impede que a criança veja isso, retarda a aprendizagem.

Então, acredito que na alfabetização deve haver mais problema.

Estudos apontam para a fase pós-alfabetização como a mais problemática na questão do desenvolvimento da compreensão do texto. Por quê?

É um problema do desenvolvimento da leitura. Por que eles param numa leitura de localização de poucas informações, inferência global do tema, que é o que dizem os resultados das avaliações. Não sei os livros, porque só avalio os de português, que vão um pouco além. Mas fiz uma pesquisa em uma escola, em 2000, com o ensino dos professores de todas as disciplinas do fundamental. A maior parte das outras disciplinas fica neste procedimento de localizar a informação e repetir. O menino aprende que ler é isso. Quando você faz uma questão que exige uma inferência, comparação, intertextualidade… Isso não é feito, sobretudo nas outras disciplinas. Português vai um pouquinho além. Por exemplo, trabalha com inferência, com resumo – que é generalização -, mas as outras disciplinas trazem sempre perguntas na aula, centradas no conteúdo tal qual está no texto. É isso que o aluno aprende como leitura, é isso que faz nos exames. Há muito pouca leitura na escola. Para ter uma ideia, gravamos 57 aulas dobradas, então eram muitas horas de vídeo, e só 20% desse tempo era dedicado à leitura. Desses 20%, ¾ eram leitura em voz alta e apenas ¼, ou 5% do tempo total, era dedicado a atividades de compreensão.

A perda da habilidade motora da escrita – em detrimento da habilidade de escrever no teclado – representa algum prejuízo para a criança?

Não estamos perdendo uma habilidade motora, e sim desenvolvendo outra, diferente. Talvez passe a tocar piano melhor. Em pouco tempo irá mudar, quando todas as telas forem touch screen, vamos aprender a só apontar. Acho que se trata apenas de mudança de um movimento de pressão fina, no qual a alfabetização dos séculos 19 e 20 se baseou muito, para um outro. A habilidade motora em si não tem nada a ver com a simbolização, por qual gesto se acessa um grafema. Se você pensar, isso aconteceu na história da escrita várias vezes. Escrevia-se com a cunha na escrita cuneiforme, depois carimbando, lascando na pedra lascada, os copistas na Idade Média fazendo pinturas e iluminuras e letras sofisticadíssimas, quase uma arte como no Japão e na China. Depois passamos a escrever mais simples, apenas com o lápis, porque era preciso democratizar o acesso, e agora a máquina escreve por nós.

Revista Educação

Equador Soberano: A experiência da Auditoria Oficial da Dívida Pública equatoriana e a recente tentativa de golpe de Estado

Maria Lucia Fattorelli

No ano de 2007, o presidente Rafael Correa criou a Comissão para a Auditoria Integral do Crédito Público (CAIC), cuja atribuição foi a realização da auditoria oficial da dívida pública do país – tanto interna quanto externa; seus impactos sociais, ambientais e econômicos. Essa atitude soberana foi um passo fundamental em direção à conquista da verdadeira independência da América Latina, ao mesmo tempo em que significou uma vitória dos movimentos sociais que há décadas lutam pela auditoria da dívida pública, que consome a maior parcela dos recursos orçamentários.

            O relatório final da CAIC apresentou ao presidente Rafael Correa o resultado das investigações técnicas, identificando inúmeras irregularidades e indícios de ilegalidades e ilegitimidades no processo de endividamento público equatoriano, tudo devidamente respaldado em documentos e provas. O presidente determinou a suspensão dos pagamentos aos detentores dos títulos da dívida externa e submeteu tal relatório a crivos jurídicos nacionais e internacionais. Após o referendo jurídico às conclusões da CAIC, o presidente anunciou a proposta de acatar somente 25 a 30% do valor dos títulos da dívida externa comercial com a banca privada (Bonos 2012 y 2030). Aqueles detentores que não concordassem com a proposta teriam que recorrer à Justiça, apresentando suas petições contra o Equador. Face às provas contundentes de ilegalidade da dívida, 95% dos detentores dos títulos aceitaram a proposta, demonstrando a importância da auditoria como instrumento capaz de alterar a atual correlação de forças que historicamente tem colocado os governos latino americanos submissos ao mercado.

            A atitude soberana do Equador abriu caminho para as auditorias na América Latina. Na reunião da ALBA realizada em novembro de 2008, o presidente Correa apresentou o tema e, como conseqüência, Bolívia e Venezuela anunciaram também a intenção de realizar auditoria de sua dívida pública.

Ivan Valente

            No Brasil, durante o Seminário Internacional “Auditoría de la Deuda en América Latina” realizado em Brasília em novembro de 2008, especialistas de diversos países realizaram intenso intercâmbio dos resultados da auditoria equatoriana e promoveram reunião entre membros da CAIC com o presidente da Câmara dos Deputados. Algumas semanas depois, foi criada a Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a Dívida Pública Brasileira (CPI da Dívida Pública), que havia sido proposta pelo deputado Ivan Valente (PSOL/SP). 

A CPI foi finalmente instalada em agosto de 2009 e, tal como na auditoria equatoriana, tive a oportunidade de contribuir com as investigações técnicas da CPI, que identificou inúmeros indícios de ilegalidades da dívida pública brasileira – tanto interna quanto externa. A grande diferença foi a ausência de vontade política de levar adiante tais resultados no Brasil, apesar de a auditoria da dívida estar prevista na Constituição Federal de 1988 – art. 26 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias – até hoje não cumprido.

            Após o enfrentamento do problema da dívida pública equatoriana, os investimentos em saúde e educação naquele país quadruplicaram; os investimentos públicos são visíveis, cabendo citar o exemplo das recentes rodovias de concreto; diversos setores estão sendo recuperados, ressaltando-se a melhoria nas condições de vida do sofrido povo equatoriano.

            Evidentemente a atitude soberana do governo equatoriano e a ética que marca as ações do presidente Correa estão provocando profundo incômodo a setores financeiros, aos que se locupletavam da corrupção antes instalada, aos amantes do imperialismo e que servem a setores da direita elitista que foi varrida do poder.

            A recém tentativa de golpe de estado é, sem sombra de dúvidas, uma das evidências desse incômodo. O próprio presidente Corrêa declarou imediatamente que estava ocorrendo uma “conspiração”, a fim de perpetrar um “golpe de estado”.

Segundo informações colhidas junto aos próprios equatorianos, as manifestações de policiais se mostraram como mero pretexto para a tentativa de golpe, conforme relato do economista Franklin Canelos, que foi o vice-presidente da Comissão de Auditoria da Dívida Pública do Equador(CAIC):

“Te comento además que hasta 2006, es decir inmediatamente antes del gobierno del Presidente Correa, la policía nacional era “la última rueda del coche” entre las instituciones del estado. Es el Presidente Correa quien ha mejorado notablemente la imagen y gestión de la policía con la dotación de vehículos, armamento, mejores remuneraciones, formación etc. Un policía razo, hasta 2006 tenía un sueldo de US $ 250, hoy es de US $ 720, en un proceso de aumento sostenido de sus sueldos. Un sargento de la policía que tenía un sueldo de US $ 450 hoy recibe US $ 1.200. Un oficial de la policía que tenía un sueldo de US $ 600 hoy recibe US $ casi US $ 800.

Esto muestra que la insurrección policial por sueldos y salarios no es sino un pretexto para intentar un golpe de estado. La nueva Ley de Servidores Públicos, que incluye FF.AA. Policía y Bomberos establece pago de horas extraordinarias a esos servidores, cosa que nunca  antes se había considerado aún cuando su trabajo se extiende por más de las 8 horas reglamentarias.

A cambio de estabilidad laboral y pago de horas extraordinarias, amén de las remuneraciones que se han elevado sustancialmente, la Ley deroga el pago de US $ 800 cada 5 años por ascensos y pago de bonos por juguetes en navidad, anillos de oro por tiempo de servicio, etc.

Nunca antes la policía ha tenido cuarteles decentes, los policías, en ciudades pequeñas y en el campo, dormían en colchones prestados, en el suelo. Hoy el gobierno les entrega cuarteles modernos y  y bien habilitados así como viviendas decentes para sus familias.

Insisto, se trató de llevar adelante un golpe de estado con el pretexto de las remuneraciones de los policías.”

               A melhoria das instituições estatais, dos servidores públicos e da prestação de serviços à sociedade em geral tem sido possibilitada no Equador devido ao alívio decorrente dos pagamentos de juros e amortizações de uma dívida que era decisivamente ilegal, ou seja, os recursos antes destinados ao serviço da dívida agora são destinados para beneficiar o povo equatoriano.

               O catedrático argentino Dr. Atilio A. Boron, diretor do Programa Latinoamericano de Educación a Distancia en Ciencias Sociales (PLED) de Buenos Aires, também manifestou seu entendimento sobre o episódio recentemente ocorrido no Equador, tendo declarado que houve uma tentativa de golpe de estado e não uma crise institucional, como veiculado por vários meios de comunicação.

               Boron destacou a realização da auditoria da dívida externa dentre as causas para a tentativa de golpe:

“Conclusión: no fue un pequeño grupo aislado dentro de la policía quien intentó dar el golpe sino un conjunto de actores sociales y políticos al servicio de la oligarquía local y el imperialismo, que jamás le va a perdonar a Correa haber ordenado el desalojo de la base que Estados Unidos tenía en Manta, la auditoría de la deuda externa del Ecuador y su incorporación al ALBA, entre muchas otras causas.

Incidentalmente, la policía ecuatoriana hace ya muchos años que, al igual que otras de la región, viene siendo instruida y adiestrada por su contraparte estadounidense. ¿Habrán incluido alguna clase de educación cívica, o sobre la necesaria subordinación de las fuerzas armadas y policiales al poder civil? No parece. Más bien, actualiza la necesidad de poner fin, sin más dilaciones, a la “cooperación” entre las fuerzas de seguridad de la mayoría de los países latinoamericanos y las de Estados Unidos. Ya se sabe que es lo que enseñan en esos cursos.”

                              Para Boron, o golpe não teve sucesso devido a três fatores que se fizeram presentes imediatamente à tentativa que acabou frustrada: intensa mobilização social interna, uma vez que o povo equatoriano ocupou ruas para manifestar seu apoio ao presidente Correa; solidariedade internacional vinda dos países da América Latina e Europa e, principalmente, a valentia do presidente, que resistiu de pé e corajosamente, apesar do eminente risco que corria.  No entanto, Boron alerta para o risco de outros golpes aos governos que não se curvam ante os interesses imperialistas:

“La combinación de estos tres factores: la movilización popular interna, la solidaridad internacional y la valentía del presidente terminó por producir el aislamiento de los sediciosos, debilitando su fuerza y facilitando la operación de rescate efectuada por el Ejército ecuatoriano.”

“Pero no hay que hacerse ilusiones: la oligarquía y el imperialismo volverán a intentar, tal vez por otras vías, derribar a los gobiernos que no se doblegan ante sus intereses.”

            Tive a honra de ser nomeada pelo presidente Correa para auxiliar no processo de auditoria oficial da dívida pública ao integrar a CAIC no Equador, tendo também sido requisitada pela Câmara dos Deputados para auxiliar as investigações da CPI da Dívida Pública no Brasil. As semelhanças do processo de endividamento de nossos países desde a década de 70 são impressionantes e os documentos a que tivemos acesso comprovam que a dívida externa faz parte de um mesmo processo de dominação financeira do continente, em detrimento das necessidades mais urgentes de nossos povos.

Algumas semelhanças merecem ser destacadas, por serem flagrantemente ilegais:

             Tanto a CAIC equatoriana como a CPI brasileira identificaram que a dívida externa de nossos países surgiu nos anos 70, contratada por governos ilegítimos (ditaduras), e apresentaram excessivo crescimento a partir da elevação unilateral das taxas de juros pelos bancos privados internacionais que controlavam a taxa Prime nos Estados Unidos e a taxa Libor na Inglaterra. Esses bancos privados eram ao mesmo tempo os maiores credores daquela dívida ilegítima, ou seja, atuaram unilateralmente e em benefício próprio. Tal atitude é legalmente questionável, segundo o disposto  na Convenção de Viena a respeito do Direito dos Tratados (1969), em seu artigo 62, que trata do “Cambio fundamental de circunstancias”.

             As investigações comprovaram que essa elevação unilateral das taxas de juros provocou a crise da dívida dos anos 80, levando a uma situação que obrigou ao Banco Central de nossos países a assumir questionáveis dívidas de entidades públicas e privadas, tornando-se o responsável perante os bancos privados internacionais. Os contratos firmados pelo Brasil e Equador em 1983, 1984 e emenda em 1986 são extremamente semelhantes, variando apenas cifras e pequenos detalhes, mas a essência imperialista e o desrespeito à nossa soberania são idênticos. Em 1992 houve renúncia a prescrição da dívida externa equatoriana com bancos privados, enquanto que no Brasil se apurou a realização de obscuras operações no Canadá, onde também foram firmadas solicitações de renúncias que não chegaram a ser devidamente esclarecidas à CPI. Em 1994, ambos os países se submeteram ao Plano Brady, transformando aquela questionável dívida que já poderia inclusive estar prescrita em títulos que depois foram aceitos no processo de privatizações para adquirir nossas empresas estatais estratégicas e lucrativas. Posteriormente, houve a transformação em títulos denominados Global, tanto no Equador como no Brasil.

             Elaboramos uma simulação para demonstrar o impacto provocado pela elevação das taxas de juros, chegando ao impressionante resultado que demonstra que caso as taxas tivessem sido mantidas em 6%, tal como contratadas, a dívida externa estaria completamente paga e ainda haveria crédito a ser ressarcido tanto ao Brasil como ao Equador:

Outra importante conclusão foi possibilitada pela comparação entre os ingressos de recursos e saídas, demonstrando-se que o processo de endividamento não foi uma fonte de financiamento, mas sim um mecanismo de extração de recursos de nossas nações em favor do setor financeiro privado. As transferências líquidas efetuadas pelo Equador aos rentistas foi de US$ 7,13 bilhões (1976 – 2006) e pelo Brasil foi de US$ 144 bilhões (1971 – 2008). Apesar desse impressionante volume de pagamentos, as dívidas dos dois países continuaram crescendo.

Esses são apenas alguns exemplos, mas inúmeras foram as irregularidades encontradas nas duas investigações. A grande diferença é que o Equador reagiu diante das ilegalidades apontadas pelas investigações, enquanto no Brasil as dívidas interna e externa estão crescendo aceleradamente: a dívida interna já supera R$ 2,1 trilhão e a externa US$ 282 bilhões. Adicionalmente, a cada ano o pagamento do serviço da dívida tem exigido um volume de recursos cada vez mais relevante: em 2008 foram destinados 30,5% dos recursos do Orçamento Geral da União para o pagamento de juros e amortizações. Em 2009, esse percentual saltou para 36%, enquanto áreas sociais fundamentais receberam quantias várias vezes menores, como a saúde (4,64%), educação (2,88%), assistência social (3,09%).

Ao enfrentar essas ilegalidades e priorizar os interesses sociais, o Equador deu ao mundo uma lição de soberania, demonstrando respeito à sua gente e à sua condição de nação independente. A tentativa de golpe de estado certamente visou a retaliar a atuação daquele presidente que ao invés de seguir contentando às exigências do império financeiro, teve coragem e altivez para mudar o rumo da história de seu país.

O golpe foi frustrado. Adelante, Correa!

Maria Lucia Fattorelli é coordenadora da Auditoria Cidadã da Dívida

PSOL – Secretaria de Relações Internacionais

A importância da greve geral

Vicenç Navarro

Espanha: greve geral

Espanha: greve geral

Agradeço à direcção do Público [espanhol] que me permita adiantar esta semana a coluna que escrevo cada quinta-feira neste diário com a finalidade de alentar o leitor, hoje quarta-feira 29 de Setembro, a que se some à Greve Geral, um evento de extraordinária importância, com amplas repercussões sobre o bem-estar da população em Espanha, e muito em particular, das suas classes populares. O establishment espanhol (as instituições, forças políticas, grupos empresariais e financeiros e maiores meios de informação que dominam a vida política, económica, financeira e mediática do país) está a impor políticas com o objectivo último de diminuir os salários dos trabalhadores e cortar o financiamento do já pouco desenvolvido estado de bem-estar (a despesa pública social por habitante continua na cauda da UE-15, o grupo de países da UE mais próximos de nós pelo seu nível de desenvolvimento económico). A única diferença entre os diferentes sectores do establishment é a intensidade dos cortes. As direitas na oposição estão inclusive a pedir mais cortes. O PP, CIU e PNV estão a pedir mais reduções do número de trabalhadores nos serviços públicos do estado de bem-estar (saúde, educação, serviços domiciliários, jardins de infância, entre outros), no país que tem menos funcionários públicos da UE-15 (10% da população adulta, comparado com 15% na UE-15 e 25% na Suécia). Nunca antes durante a democracia, o estado de bem-estar e a qualidade de vida da população tinham estado tão ameaçados. Não há dúvida que estas políticas afectarão negativamente a grande maioria dos leitores e os seus descendentes.

O establishment espanhol está consciente de que estas medidas são impopulares, mas defende-as como necessárias e como as únicas possíveis, indicando que não há alternativas. São necessárias – diz tal establishment – para acalmar os mercados financeiros, que compram a dívida soberana espanhola. E vimos a visita do primeiro-ministro Zapatero a Wall Street (o centro financeiro dos EUA) como um acto de vassalagem à banca estado-unidense, para lhe assegurar que será duro e não vacilará em impor medidas impopulares ao povo espanhol. E assim foi promovido pelos meios de comunicação de maior difusão, sublinhando que tais medidas são o remédio amargo para salvar o doente – a economia espanhola. E tomam como prova de recuperação os fracos indicadores de um minúsculo crescimento económico.

Estas explicações são erróneas. Em primeiro lugar, o maior problema que Espanha tem é o desemprego, o mais elevado da UE-15. O número do desemprego (19% da população activa) é conhecido. Mas o que não se conhece é que 46% da população empregada tem medo de perder o posto de trabalho. Daí que o critério de avaliação das políticas públicas devesse ser a sua capacidade de criação de emprego. E as políticas de austeridade de despesa pública estão a destruir emprego.

O problema económico que Espanha enfrenta deve-se à diminuição dos rendimentos do trabalho como percentagem do rendimento nacional durante estes quinze anos, com o concomitante endividamento das famílias espanholas que, ao desmoronar-se o crédito, criou o enorme problema da falta de capacidade de consumo, caindo a procura a pique e disparando o desemprego. E, por outro lado, o enorme crescimento dos rendimentos do capital, facilitado pelos comportamentos especulativos da banca, determinou uma série de bolhas, a última a imobiliária, que ao rebentarem criaram o enorme problema da falta de crédito. Os dados seguintes sintetizam esta realidade. Entre 1995 e 2005, os custos laborais em Espanha aumentaram apenas 3,7% (cinco vezes menos que na UE-15, 18,2%). Entretanto, as empresas espanholas viram aumentar os seus lucros netos 73% (mais do dobro da média da UE-15, 33%), sendo as empresas bancárias espanholas as que tinham e têm mais lucros da UE-15, ao mesmo tempo sendo as que mais dificultam o acesso ao crédito.

Esta polarização dos rendimentos criou um enorme problema de procura, consequência da enorme diminuição da capacidade aquisitiva da população e da escassez de crédito, problemas que requerem uma expansão muito notável da despesa pública na criação de emprego (e muito em particular nas áreas deficitárias de emprego, como são os serviços do estado de bem-estar) e em novas indústrias como as verdes e ecológicas. O problema que dificulta a aplicação de tais políticas expansivas é que, resultado da enorme redução de impostos (destes últimos vinte anos), que beneficiou os rendimentos do capital e os rendimentos superiores, o estado está também profundamente endividado. Esta diminuição dos impostos foi uma das causas da diminuição dos rendimentos para o estado, passando de representar 41% do PIB em 2007 a 34% em 2009, crescendo além do mais o défice do estado e o seu endividamento. Ora bem, estas políticas fiscais regressivas podem e devem ser corrigidas. Técnicos do Ministério das Finanças (Gestha) calcularam que o estado poderia ingressar 38.000 milhões de euros facilmente e imediatamente (uma quantia maior que a conseguida com os cortes de direitos), corrigindo algumas destas medidas regressivas, sem tocar no bolso da maioria da cidadania.

Em lugar disso, o governo fez correcções claramente minúsculas sem mostrar nenhuma vontade de corrigir a polarização dos rendimentos. E os partidos conservadores estão inclusive a pedir maiores cortes de impostos que favorecem aos ricos. Tais políticas, além de serem profundamente injustas, são contrárias às que são necessárias para sair da crise. Nunca um país saiu de uma grande recessão seguindo políticas de austeridade de despesa pública.

Daí a enorme necessidade de a população se mobilizar contra tais políticas. E podem mudá-las. Assim ocorreu na União Europeia, quando o establishment europeu tinha proposto prolongar a semana laboral para 65 horas. As mobilizações travaram aquela directiva. E o mesmo ocorreu em Espanha. As greves gerais anteriores travaram reformas negativas e estimularam o crescimento da despesa pública. E o mesmo pode e deve ocorrer agora.

Fonte: Fundação Lauro Campos – http://www.socialismo.com.br

Próximo alvo: desertificação

Conter a desertificação que ameaça um bilhão de pessoas no planeta é a meta da ONU para a próxima década. O plano de combate deve contemplar o semiárido no Nordeste e norte de MG, mas os solos sem cobertura vegetal no pampa ficam de fora: entenda por quê.

Bruna Ventura

Próximo alvo: desertificação

O risco de desertificação que ameaça centenas de milhões de pessoas se deve à degradação do solo motivada pela intervenção humana (foto: Pamela Ceron/UNDDD).

Um terço da população mundial vive em terras secas em mais de 100 países – a maioria deles em desenvolvimento. De acordo com a estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU), mais de um bilhão de pessoas têm sua subsistência ameaçada pelo risco da desertificação, que pode levar ao rompimento de quase metade dos sistemas de cultivo de todo o mundo.

A gravidade da ameaça levou a ONU a lançar um plano de combate à desertificação, que busca a proteção e o manejo responsável das terras secas nos próximos dez anos. A Década para os Desertos e a Luta contra a Desertificação foi anunciada no último mês de agosto, simultaneamente no Brasil e na África.

No Brasil, a ameaça da desertificação costuma ser associada a duas regiões distintas – o semiárido do Nordeste e os pampas gaúchos. No entanto, o que se verifica em cada uma dessas áreas são fenômenos causados por fatores de natureza diversa – tanto que alguns especialistas preferem usar termos diferentes para designá-los.

Assista a um vídeo institucional da ONU que alerta para os riscos da desertificação.

O caso do semiárido

Em grande parte da região Nordeste e no norte de Minas Gerais, as áreas suscetíveis à desertificação cobrem mais de um milhão de quilômetros quadrados segundo as estimativas oficiais  do Ministério do Meio Ambiente (que incluem ainda nessa estatística uma área do noroeste do Espírito Santo, contestadas por alguns pesquisadores por não apresentar clima seco).

O risco de desertificação é associado a um processo de degradação do solo motivado pela intervenção humana. “O desmatamento, o pastoreio em excesso e a irrigação mal feita são responsáveis por essa degradação”, resume Bartolomeu Israel de Souza, estudioso do tema na Universidade Federal da Paraíba.

“O desmatamento, o pastoreio em excesso e a irrigação mal feita são responsáveis pela degradação dos solos”

“Os principais prejuízos são a redução da biodiversidade, a compactação, erosão e diminuição da fertilidade dos solos, o assoreamento dos rios e a extinção de nascentes de água.”

O geógrafo lembra também que o aquecimento global também pode ter sua parcela de culpa. “De acordo com a definição oficial da ONU para desertificação, as mudanças climáticas também podem gerar esse tipo de impacto ambiental, mas ainda não existem provas de que isso aconteça no Brasil”, afirma.

Souza considera bem-vinda a campanha contra a desertificação no semiárido brasileiro. “O plano da ONU pode canalizar investimentos nacionais e internacionais para o uso sustentável das terras. Outras medidas de combate são o reflorestamento e a contenção da erosão”, destaca o pesquisador.

Ele também alerta para a necessidade de investimentos em educação, assistência técnica para os pequenos e médios produtores da zona rural, revisão política da distribuição de terras, mapeamento de unidades de conservação ambiental e incentivo ao turismo rural e ao ecoturismo na região.

Arenização vs. desertificação

A outra região do Brasil que vem à mente quando se fala em desertificação é o pampa da região Sul. As áreas de solo exposto nesse bioma já foram consideradas vítimas em potencial da desertificação em decorrência da monocultura de soja, que enfraquece o solo e elimina a vegetação original. No entanto, essas áreas não estão contempladas no plano da ONU, e alguns especialistas relutam em falar de desertificação para definir o que ocorre ali.

“Para que uma área seja considerada desertificada, o solo em questão deve estar localizado em regiões áridas, semiáridas ou semiúmidas. O pampa é úmido”, explica a geógrafa Dirce Maria Suertegaray, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Nas áreas em que a erosão do solo não se deve à interferência humana, é mais adequado falar em arenização

“O que vemos, principalmente na porção sudoeste do Rio Grande do Sul, são dois processos diferentes de erosão do solo. Um corresponde à ação humana, enquanto o outro é um fenômeno natural que, portanto, não deveria ser combatido”, diferencia.

Segundo a pesquisadora, que estudou dez cidades no sudoeste do Rio Grande do Sul, existem áreas onde a erosão do solo não tem está vinculada à interferência humana. Nesse caso, o conceito mais adequado para denominar o processo é arenização.

Pampa gaúcho

Panorama do pampa gaúcho. Esse bioma conta com várias áreas em que o solo sofreu um processo natural de erosão do solo, que os especialistas preferem chamar de arenização, em vez de desertificação (foto: Eduardo Amorim – CC 2.0 BY-NC-SA).

“O solo dessas regiões está associado a depósitos superficiais arenosos que podem ter origem vinculada a processos fluviais e eólicos de clima semiárido. Há cerca de 3 mil anos, esse local era dominado por um clima semiárido, e não úmido, como conhecemos hoje, e as dunas que constituem parte desses depósitos superficiais são uma herança desse tempo”, diz Suertegaray.

De acordo com a geógrafa, o clima se tornou úmido com o passar do tempo, o que fez com que a vegetação se expandisse. “A umidificação do clima e os processos decorrentes da ação das águas, como o escoamento concentrado na forma de ravinas e voçorocas, formaram sulcos no solo que, em alguns casos atingiram os lençóis freáticos. Estes processos promoveram e a remobilização das areias. Com isso, os depósitos superficiais foram parcialmente removidos e originaram os areais”, explica.

Pampas de fora

Por causa dessa diferença, o Ministério do Meio Ambiente, assim como a ONU, não inclui o pampa gaúcho no plano de combate à desertificação que estabeleceu em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Em vez disso, o órgão classifica o sudoeste do Rio Grande do Sul como uma área de atenção especial.

“Existem interesses políticos e administrativos em receber aporte internacional para recuperar estes biomas, mas, no caso do pampa, está comprovado que o processo de arenização promoveu um ecossistema particular, de origem antiga, com espécies vegetais e animais adaptadas aos areais", avalia Suertegaray.

"Então, a verba recebida seria destinada a quê? A destruir esse ecossistema particular? Não seria melhor investir na reconstituição das áreas que efetivamente foram erodidas pelas atividades humanas?”, questiona a geógrafa.

Bruna Ventura

Ciência Hoje On-line

Para os pobres, mercado

Atilio A. Boron

'Cartoon de Fontevila.

São muitas as provas que, actualmente, demonstram a inviabilidade do capitalismo como modo de organização da vida económica. Um dos seus máximos apologistas, o economista austríaco-americano Joseph Schumpeter, gostava de argumentar que o que o caracterizava era um processo contínuo de "destruição criadora": velhas formas de produção ou de organização da vida económica eram substituídas por outras num processo virtuoso e de ascensão ininterrupta para níveis de prosperidade e bem-estar crescentes. Contudo, as duras réplicas da história demonstram que se produziu um desequilíbrio cada vez mais acentuado na equação schumpeteriana, em resultado do qual os aspectos destrutivos tendem a prevalecer, cada vez com mais força, sobre os criativos: destruição cada vez mais acelerada do meio ambiente e do tecido social; dos Estado e instituições democráticas e, também, dos produtos da actividade económica mediante guerra, a obsolescência planificada de quase todas as mercadorias e o desperdício sistemático dos recursos produtivos.

Uma prova desta inviabilidade do capitalismo, não a longo mas sim a médio prazo, é a sua escandalosa incapacidade para resolver o problema da pobreza, temas agora se discute no âmbito da Assembleia-Geral da ONU. Apesar dos modestos objectivos colocados pelas chamadas "Metas do Milénio" para o ano 2015 – dentro os quais destaca-se a redução da população mundial a viver com menos de 1,25 dólar por dia –, o certo é que nem sequer êxitos tão austeros (para não dizer insignificantes) poderão ser garantidos. De facto, se a nível mundial se verificou uma relativa melhoria isto deve ser atribuído às políticas seguidas pela China e Índia, que se afastaram consideravelmente das recomendações emanadas do Consenso de Washington. Além disto, seria interessante que os tecnocratas do Banco Mundial e do FMI explicassem como poderia qualificar-se uma pessoa que tendo superado o fatídico limiar de 1,25 dólar por dia ganha, por exemplo, 1,50. Deixou de ser pobre? É por isso um "não pobre"? E que dizer da estabilidade dos seus misérrimos rendimentos num mundo onde aquelas instituições apregoam as virtudes da flexibilização do mercado laboral?

Esta incapacidade para enfrentar um problema que afecta mais de mil milhões de habitantes – número que cresceria extraordinariamente si, ainda a partir de uma visão economicista, situássemos a linha da pobreza nos 2 dólares diários – torna-se motivo de escândalo e abominação quando se recorda a celeridade y generosidade com que os governos do capitalismo avançado avançaram com centenas de milhares de milhões de dólares para o resgate dos grandes oligopólios, lançado pela borda fora todo o palavrório vazio do neoliberalismo. O resgate dos grandes oligopólios financeiros e industriais, segundo informa a Agência Bloomberg, de clara identificação com a "comunidade de negócios" norte-americana, até finais do ano passado custava "um total de 12,8 milhões de milhões de dólares, uma quantia que se aproxima muito do Produto Interno Bruto (PIB) do país". Em contrapartida, a "Ajuda Oficial ao Desenvolvimento" (AOD), que havia sido fixada pela ONU nuns irrisórios 0,7 por cento do PIB dos países desenvolvidos, é respeitada apenas pelos países escandinavos e a Holanda. Dados dos últimos anos revelam que, por exemplo, os Estados Unidos destinaram à AOD só uma fracção do acordado: 0,17 por cento do seu PIB, ao passo que a Espanha contribuía com 0,24 e a Itália com 0,15 por cento.

Os principais países da economia mundial, agrupados no G-7, dedicaram à cooperação internacional apenas 0,22 por cento do PIB. Ao contrário do que ocorreu com as grandes empresas oligopolistas, o "resgate" dos pobres fica nas mãos do mercado. Para os ricos há Estado, os pobres terão que desembrulhar-se com o mercado. E se aparece o Estado é para reprimir ou desorganizar o protesto social. Alguém disse uma vez que as crises ensinam. Tinha razão.

[*] Politólogo.

O original encontra-se em www.pagina12.com.ar/…

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Fonte: Resitir – http://resistir.info/