O Sahara Ocidental e a maré da história

Devemos exigir que os governos em todo o mundo exerçam pressão diplomática e política sobre aqueles que estão a ignorar os requerimentos estabelecidos sob a lei internacional e a bloquear um referendo de autodeterminação.

Ken Loach e Stefan Simanowitz

"Existem poucas dúvidas de que o povo do Saara Ocidental tem do seu lado tanto a maré da história como a força da justiça"  Ken Loach e Stefan Simanowitz

"Existem poucas dúvidas de que o povo do Saara Ocidental tem do seu lado tanto a maré da história como a força da justiça" Ken Loach e Stefan Simanowitz.

Em 1960, a ONU adoptou a resolução 1514, que estabelece que todos os povos têm direito à autodeterminação e que o colonialismo devia ser conduzido a um final rápido e incondicional. Meio século depois, os leitores podem surpreender-se ao inteirar-se de que ainda há dezasseis territórios no mundo que ainda esperam conseguir a descolonização. Conhecidos como “territórios sem autogoverno”, a lista de lugares ainda regidos por poderes estrangeiros contém nomes familiares: Gibraltar e as Ilhas Falkland (Malvinas), para assinalar apenas duas. Mas enquanto alguns desses territórios, como a pequena ilha de Tokelau no Pacífico, são dependências das quais se poderia dizer que recusaram a independência e escolheram democraticamente manter o seu estatuto territorial, outros casos são mais polémicos. O mais notável é o do Sahara Ocidental, conhecido como a última colónia de África, que lutou pela autodeterminação durante mais de 35 anos contra o vizinho Marrocos.

No início de Outubro, em Nova Iorque, o Quarto Comité sobre Descolonização da ONU ouviu petições de pessoas que falavam em defesa desses territórios sem autogoverno. Tal como em ocasiões anteriores, o encontro deste ano esteve dominado por petições sobre o conflito no Sahara Ocidental, um conflito que se mantém como um dos mais antigos do mundo.

Aproximadamente do tamanho da Grã-Bretanha, o Sahara Ocidental estende-se ao longo da costa atlântica de África. Em 1976, num incumprimento da lei internacional, os espanhóis, de partida, dividiram o Sahara Ocidental entre Marrocos e a Mauritânia a troco de direitos continuados de pesca e da propriedade parcial de interesses mineiros. Seguiu-se uma guerra de 15 anos entre os marroquinos e a Frente Polisário, com a retirada dos mauritanos em 1979. Em 1991, foi declarado um cessar-fogo e, sob os termos de um acordo da ONU, foi prometido um referendo de autodeterminação. Dezanove anos mais tarde, os naturais saharauís ainda esperam esse referendo.

Uns 165.000 saharauís que fugiram do combate permanecem ainda alojados em desolados campos de refugiados no deserto argelino. Apesar da ajuda das Nações Unidas, as condições nos campos são abjectas, com a propagação de problemas de saúde, incluindo a hepatite B, a anemia e a meningite. Um inquérito de 2008 da Organização Mundial de Saúde sugere que um em cada cinco crianças nos campos sofre de desnutrição aguda.

Dentro do ocupado Sahara Ocidental, a população saharauí enfrenta a discriminação e abusos de direitos humanos. Organizações internacionais, entre elas o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, manifestaram sérias preocupações pelas violações dos direitos humanos no território, e um relatório da Human Rights Watch de 2008 revelou que Marrocos tinha violado os direitos de expressão, associação e reunião no Sahara Ocidental. A 15 de Outubro de 2010, devia ter começado o julgamento de três proeminentes defensores dos direitos humanos presos há mais de um ano quando regressavam de uma visita aos campos de refugiados. Apesar de não terem cometido nenhum crime, enfrentam acusações de traição pelas quais poderão enfrentar a pena de morte. A Amnistia Internacional emitiu uma declaração1 programada para coincidir com o início do julgamento, apelando à sua imediata e incondicional libertação, mas, no próprio dia, o julgamento foi cancelado e adiado até 5 de Novembro.

Contra o pano de fundo desta tragédia humanitária, a União Europeia selou um acordo pesqueiro com Marrocos sob o qual as águas do Sahara Ocidental estão a ser exploradas de forma ilegal pelos navios pesqueiros europeus. Muitos governos estrangeiros e companhias estão envolvidos em negócios com Marrocos, que lhes dão acesso aos vastos recursos naturais do Sahara Ocidental, sobretudo fosfatos.

Este mês em Nova Iorque, o Quarto Comité da ONU ouviu mais de 80 petições relativas ao Sahara Ocidental, incluído um apaixonado apelo de Suzanne Scholte, presidente da Defense Forum Foundation. “Não deixeis que a confiança [do povo saharauí] neste comité seja em vão, ou estareis a enviar ao mundo um terrível sinal de que a invasão, a agressão e a violência, como Marrocos empregou, são as vias para atingir os objectivos”, disse.

Apesar de muitas tentativas para romper o longo impasse diplomático, o progresso para uma resolução tem sido tortuosamente lento. Uma solução política pode parecer longínqua com as posições das partes tão afastadas: a Frente Polisário recusa negociar o legítimo direito à autodeterminação; Marrocos rejeita qualquer proposta que contenha mesmo a possibilidade de independência; e o Conselho de Segurança até agora sem vontade de impor as suas próprias resoluções. Mas a história demonstrou que uma solução política é a única via para avançar.

Não obstante, é importante ressaltar que uma solução política para este problema é demasiado importante para ser deixada nas mãos dos políticos. Compete-nos a nós, aos grupos da sociedade civil, activistas e indivíduos, fazer com que as suas vozes se oiçam. Devemos exigir que os nossos governos em todo o mundo exerçam pressão diplomática e política sobre aqueles que estão a ignorar os requerimentos estabelecidos sob a lei internacional e a bloquear um referendo de autodeterminação no Sahara Ocidental.

Como disse Martin Luther King: “O arco da história pode ser longo, mas sempre se curva para a justiça”. Existem poucas dúvidas de que o povo do Saara Ocidental tem do seu lado tanto a maré da história como a força da justiça.

Fonte: Esquerda. Net – http://www.esquerda.net/

O FBI e a criminalização da dissidência

Amy Goodman

Bem cedo na manhã de Sexta-feira, dia 24 de Setembro, em Chicago e nas Cidades Gémeas do Minnesota [Minneapolis-St. Paul], agentes do FBI arrombaram as portas de activistas anti-guerra, brandindo armas e passando horas a revistar as suas casas. O FBI levou computadores, fotografias, cadernos e outros artigos de propriedade pessoal. Os residentes foram intimados a comparecer perante um grande júri em Chicago. Foi apenas o último episódio da repressão continuada da dissidência nos EUA, atacando organizadores da paz como apoiantes de “organizações terroristas estrangeiras.”

Coleen Rowley conhece o FBI. Foi uma agente especial de carreira no FBI que revelou as falhas da instituição no período que precedeu os ataques do 11 de Setembro. A revista Time nomeou-a Pessoa do Ano em 2002. Alguns dias depois das buscas na sua cidade natal de Minneapolis, disse-me: «Esta não é a primeira vez que se vê este viés orwelliano da guerra contra o terrorismo sobre grupos pacifistas e grupos de justiça social […] isso começou logo a seguir ao 11 de Setembro, e havia opiniões do Gabinete de Aconselhamento Legal que diziam que a Primeira Emenda já não controlava a guerra contra o terrorismo [1].

A casa de Jess Sundon foi alvo de buscas. Ela foi a principal organizadora da marcha anti-guerra de St. Paul, Minnesota, no Dia do Trabalhador de 2008, a qual ocorreu enquanto a Convenção Nacional Republicana começava. Ela descreveu as buscas: «Passaram provavelmente cerca de 4 horas a revistar todos os nossos objectos pessoais, cada livro, papel, as nossas roupas, e encheram várias caixas e caixotes com os nossos computadores, os nossos telefones, o meu passaporte […] e foram-se embora da minha casa com eles».

Partiram o aquário do activista Mick Kelly quando invadiram a sua casa. A rede lançada pelo FBI nessa manhã abrangia não só activistas anti-guerra, como aqueles que apoiam activamente uma mudança na política externa em relação a Israel-Palestina e à Colômbia. O mandato para Kelly dizia respeito a todos os registos das suas viagens, não apenas àqueles países, mas também todas as suas viagens domésticas desde 2000, e todos os seus contactos pessoais.

Ninguém foi preso. Ninguém foi acusado de crime. Dias depois, centenas de manifestantes protestaram junto aos escritórios do FBI por todo o país.

As buscas aconteceram apenas dias depois do inspector geral [IG] do Departamento de Justiça dos EUA ter publicado um relatório, “A Review of the FBI’s Investigations of Certain Domestic Advocacy Groups” [“Uma Resenha das Investigações do FBI de Certos Grupos de Apoio Domésticos”. O IG examinou a vigilância e investigação do FBI de, entre outros, o grupo ambientalista Greenpeace, Pessoas pelo Tratamento Ético de Animais e o Centro Thomas Merton com sede em Pittsburgh.

Fundado em 1972 para apoiar a oposição à Guerra do Vietname, o Centro Merton continua a ser um foco de activismo anti-guerra em Pittsburgh. Em 2002, o FBI espiou um comício organizado pelo Centro Merton, alegando que «pessoas com ligações ao terrorismo internacional estariam presentes». Como relata o IG, esta alegação era uma falsificação, a qual foi então transmitida ao Director do FBI, Robert Mueller, que a repetiu, sob juramento, ao Comité Judicial do Senado.

A vigilância ilegal flui, através de “Comandos Conjuntos para o Terrorismo” que englobam autoridades judiciais locais, estaduais e federais, segurança nacional e agências militares, muitas vezes sob o tecto de um “centro de fusão”, o nome dado aos obscuros centros de serviços de informações trans-jurisdicionais. Ali, ao que parece, colocar a etiqueta de “terrorismo doméstico” nos activistas é comum.

Recentemente, o Governador da Pensilvânia, Ed Rendell, pediu desculpa quando foi revelado que o seu director da segurança interna, James Powers, tinha contratado uma empresa privada para pesquisar e distribuir informação sobre grupos de cidadãos dedicados a actividades legais. Por exemplo, grupos que se opõem à extracção de gás natural ambientalmente destrutiva conhecida como “fracking” [fracturação hidráulica], foram referidos como «extremistas ambientais».

O seu crime: apresentar a projecção do documentário que ganhou o Festival de Sundance, Gasland.

Voltando às Cidades Gémeas, o Estado foi forçado a deixar em paz outros oito activistas, conhecidos como os “8 da CNR”, que fizeram parte da organização dos protestos na Convenção Nacional Republicana. Foram todos preventivamente presos antes da convenção começar, e acusados, sob a lei do estado do Minnesota, de terrorismo. A acusação retirou desde então todas as acusações de terrorismo (quatro deles irão a julgamento devido a outras acusações).

Tudo isto acontece enquanto a Administração Obama usa o medo do terrorismo para conseguir uma autoridade alargada para vigiar os utilizadores da Internet, e enquanto fermenta outro escândalo: o Departamento de Justiça também revelou esta semana que agentes do FBI trapacearam regularmente num exame que testa conhecimentos sobre regras adequadas e procedimentos relativos à vigilância doméstica. Isto é mais do que um mero escândalo de trapaças. É sobre as liberdades básicas no cerne da nossa democracia, abuso de poder e erosão das liberdades civis.

Fonte: Informação Alternativa – http://infoalternativa.org

A social-democracia tem futuro?

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Immanuel Wallerstein

Para o mundo, desde os anos 30, a Suécia foi o modelo ideal da social-democracia, a sua verdadeira história de sucesso. Já não é.

Dois importantes eventos marcaram no mês passado o mundo dos partidos social-democratas. Na Suécia, em 19 de setembro, o partido sofreu uma pesada derrota nas eleições. Obteve 30,9% dos votos, o seu pior resultado desde 1914. Desde 1932, governou o país 80% do tempo, e esta é a primeira vez desde essa data que um partido de centro-direita consegue a reeleição. E para agravar a má exibição, um partido de extrema-direita, anti-imigrante, entrou no parlamento sueco pela primeira vez.

Por que é isto tão dramático? Em 1936, o jornalista norte-americano Marquis Childs escreveu um livro famoso, intituladoSuécia: o Caminho do Meio. Childs apresentava o regime social-democrata da Suécia como uma virtuosa via intermédia entre dois extremos, representados pelos Estados Unidos e pela União Soviética. A Suécia era um país que efetivamente combinava a redistribuição igualitária com a política interna democrática. Pelo menos desde os anos 30, a Suécia foi o modelo mundial da social-democracia, a sua verdadeira história de sucesso. E assim parecia manter-se até há bem pouco tempo. Já não é o modelo mundial.

Entretanto, em 25 de setembro, na Grã-Bretanha, Ed Miliband veio muito de trás para ganhar a liderança do Partido Trabalhista. Com Tony Blair, o Partido Trabalhista envolvera-se na remodelação radical do partido sob o lema de "New Labour" [o novo partido Trabalhista]. Blair argumentara que o partido também devia ser uma via intermédia – não entre o capitalismo e o comunismo, mas entre o que costumava ser o programa social-democrata de nacionalização dos setores-chave da economia e o domínio sem rédeas do mercado. Esta era uma via intermédia bastante diferente daquela da Suécia nos anos 30 e das décadas seguintes.

O fato de o Partido Trabalhista ter escolhido Ed Miliband, em vez do irmão mais velho David Miliband, um sócio-chave de Tony Blair, foi interpretado na Grã-Bretanha e noutros lados como um repúdio a Blair e o regresso a um Partido Trabalhista de certa forma mais “social-democrata” (mais sueco?). Não obstante, poucos dias mais tarde, no seu primeiro discurso na conferência trabalhista, Ed Miliband reafirmou uma posição “centrista”. E apesar de ter ornamentado as suas declarações com alusões à importância da “justiça” e da “solidariedade”, disse: “Devemos livrar-nos do velho pensamento e erguer-nos por quem acha que há vida para lá do lucro”.

O que nos dizem estas duas eleições sobre o futuro da social-democracia? Convencionalmente (e o mais provável é que correctamente) a social-democracia – como movimento e como ideologia – é vinculada ao “revisionismo” de Eduard Bernstein, na Alemanha de finais do século XIX.

Bernstein argumentava em essência que, uma vez obtido o sufrágio universal (que para ele era o voto masculino), os “operários” podiam usar as eleições para ganhar cargos para o seu partido, o Social-democrata (SPD), até tomarem o governo. Uma vez que ganhasse poder parlamentar, o SPD poderia então “decretar” o socialismo. Por isso, concluía, falar de insurreição como via para o poder era desnecessário e de fato uma tolice.

O que Bernstein definia como socialismo era pouco claro em muitos aspectos, mas, ainda assim, parecia na altura incluir a nacionalização dos setores-chave da economia. Desde então, a história da social-democracia como movimento foi de um lento mas contínuo afastamento da política radical para uma orientação muito centrista.

Durante a Primeira Guerra Mundial, os partidos social-democratas repudiaram o seu internacionalismo teórico, ao apoiarem os seus próprios governos em 1914. Depois da Segunda Guerra Mundial, alinharam-se com os Estados Unidos na Guerra Fria contra a União Soviética. E em 1959, na sua conferência em Bad Godesburg, o SPD alemão rejeitou oficialmente o marxismo por completo. Declarou que “de um partido de classe operária, o Partido Social-Democrata transformou-se num partido do povo”.

Na altura, o que o SPD alemão e outros partidos social-democratas defendiam era o compromisso social conhecido como “Estado de bem-estar social”. No período da grande expansão da economia-mundo nos anos 50 e 60, a social-democracia teve bastante sucesso nesse objetivo. E, nesse tempo, manteve-se como um “movimento”, no sentido de que estes partidos impulsionavam o apoio ativo e a adesão de um grande número de pessoas no seu país.

No entanto, quando a economia-mundo entrou na sua longa estagnação a partir dos anos 70, e o mundo entrou no período dominado pela “globalização” neoliberal, os partidos social-democratas começaram a ir mais longe. Puseram de parte a ênfase no Estado de bem-estar para se tornarem nos meros promotores de uma versão mais suave da primazia do mercado. Era este o significado do “new Labour” de Blair. O partido sueco resistiu a esta viragem mais tempo que os outros, mas também acabou por sucumbir.

A consequência disto, no entanto, foi que a social-democracia deixou de ser um “movimento” que conseguia congregar a lealdade e o apoio de grande número de pessoas. Tornou-se uma máquina eleitoral à qual faltava a paixão do passado.

Ainda que a social-democracia já não seja um movimento, continua a ser uma preferência cultural. Os eleitores ainda querem os desbotados benefícios do Estado de bem-estar social. Protestam regularmente quando perdem outro destes benefícios, o que agora ocorre com alguma periodicidade.

Finalmente, uma palavra sobre a entrada do partido anti-imigrantes, de extrema-direita, no Parlamento sueco. Os social-democratas nunca foram muito fortes no que se refere aos direitos das “minorias” étnicas ou outras – muito menos a respeito dos direitos dos imigrantes. Os partidos social-democratas tenderam a ser partidos da maioria étnica da cada país, defendendo o seu território contra outros trabalhadores, que viam como responsáveis por provocar a redução de salários e do emprego. A solidariedade e o internacionalismo eram palavras-de-ordem úteis quando não havia concorrência à vista.

A Suécia não teve de enfrentar este assunto seriamente até há pouco tempo. E quando o fez, um segmento dos eleitores social-democratas simplesmente correu para a extrema-direita.

Tem futuro a social-democracia? Como preferência cultural, sim; como movimento, não.

Fonte: Via Política – http://www.viapolitica.com.br/

Os verdadeiros inimigos do Capitão Nascimento

Nascido há um século e meio no sul da Itália, o crime organizado se tornou um meganegócio global que movimenta cerca de 3 trilhões de dólares por ano e fez do Brasil uma de suas principais bases de operação.

Carlos Amorim

Integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) lideram rebelião em presídio de Sorocaba, em dezembro de 1997.

No verão de 1863, os atores e compositores Giuseppe Rizzotto e Gaetano Mosca apresentaram no Teatro Popular de Palermo, na capital da Sicília, uma ópera que marcou época. O espetéculo Il mafiusi de la Vicaria (“Os mafiosos da prisão de Vicária”) revelou a existência de uma organização criminosa chamada Máfia e mostrou como um grupo de homens comandava as atividades criminosas na Sicília de dentro de uma penitenciária. A montagem descrevia também os rituais de iniciação, os esquemas de proteção e extorsão atrás das grades e o código de silêncio – a Omerta – da quadrilha. Um enredo que conhecemos muito bem e que vemos se repetir no Brasil um século e meio mais tarde.

No dialeto siciliano, a palavra máfia queria dizer belo, audacioso, autoconfiante. No entanto, já em 1864, o nobre italiano Nicoló Turrisi Colonna, o barão de Buonvicino, denunciava a verdadeira natureza do grupo em seu livro A segurança pública na Sicília. Segundo ele, a Máfia era uma organização familiar, armada e secreta, surgida na década de 1840. Além da autoproteção e da cobrança de “taxas de funcionamento” a comerciantes e empresários, os criminosos sicilianos controlavam as plantações de limões e laranjas, principal riqueza da ilha. A cada ano, 400 mil caixas de cítricos italianos eram exportadas para os Estados Unidos.

Nas duas primeiras décadas do século XX, além dos limões, a Máfia exportou para a América dezenas de milhares de homens, mulheres e crianças membros das famílias que fundaram a organização. Em 1930, os mafiosos sicilianos dominavam todas as atividades ilícitas em cidades como Nova York, Seatle, Chicago e Filadélfia. Controlavam a venda e a produção ilegal de bebidas, a prostituição, o jogo e o tráfico de ópio vindo do Extremo Oriente. Em terras do Tio Sam, fundaram a Cosa Nostra (Coisa Nossa).

Um desses jovens e ambiciosos imigrantes era Charles “Lucky” Luciano, nascido na Sicília em 24 de novembro de 1897. Seu nome verdadeiro era Salvatore Lucania e ele organizou e comandou a maior e mais violenta gangue de Nova York (“The Five Points Gang”), especializada em assassinatos por encomenda e cobrança de dívidas. Trabalhava para oscapos da família Genovese, uma das cinco maiores da Máfia nos Estados Unidos, mas não recusava pedidos dos demais chefes do crime, como os Bonanno, os Lucchese, os Gambino e os Colombo. Os Gambino deram origem à trilogia do Poderoso chefão, no cinema, originários que eram da cidade de Corleonne, na Sicília; a família Colombo, por sua vez, inspirou a série de TV Os Sopranos.

Na época, as famílias travavam longas e sangrentas guerras entre si. “Lucky” Luciano não se conformava com essas lutas fratricidas, que considerava uma perda de tempo e de dinheiro. Usando seu prestigio – e suas armas – impôs a criação de uma comissão dirigente na Cosa Nostra, formada por elementos das cinco famílias e capaz de organizar o crime em escala nacional. O comitê existe até hoje.

Visionário, Luciano percebeu que a Máfia podia acompanhar o ritmo acelerado de crescimento dos Estados Unidos. Apostou no controle dos sindicatos de trabalhadores, promovendo ou contendo greves, ganhando dinheiro por meio de filiações, fundos de pensão e extorquindo os capitalistas. Atuando no submundo e nos negócios legais, ele é considerado o “pai” da moderna criminalidade organizada, que se estabelece como empresa.

No início da década de 1950, os Estados Unidos viviam sua “Era de Ouro”, e a Máfia de aproveitou da prosperidade generalizada: faturava centenas de milhões de dólares por ano, não pagava impostos e era tolerada pelas autoridades governamentais. Um dos seus colaboradores mais notáveis era Joseph Kennedy, pai do futuro presidente John Fitzgerald Kennedy. Muitos outros políticos, incluindo governadores e senadores, estavam na folha de pagamento da Máfia.

A prosperidade levou a organização criminosa a investir em outras terras, especialmente no Caribe e na América do Sul. Transformou Cuba na “Disneylândia” do jogo, da prostituição e do tráfico. Colocou dinheiro também nas lavouras de coca na Colômbia e no Peru, inaugurando a etapa dos cartéis da cocaína. O chefe mafioso da operação tinha um nome verdadeiro muito curioso e sugestivo: Johnny Traficantte.

A coisa toda ia muito bem até que Fidel Castro derrubou o governo de Fulgêncio Batista (sócio de Traficantte), expropriou todos os cassinos e acabou com os mafiosos em Havana. A organização criminosa teve um prejuízo de 1 bilhão de dólares em Cuba, e jurou vingança: participou, com a CIA, de oito tentativas de assassinar o líder revolucionário.

Com a morte de Charles “Lucky” Luciano, em 1962, a Cosa Nostra voltou a se dividir: os conservadores queriam continuar com a influência política, o jogo, as mulheres e as bebidas; os “modernos”, no entanto, queriam inaugurar a etapa industrial do tráfico de drogas. E foram eles que ganharam a parada. Nos anos 1960 e 1970, investiram furiosamente nas drogas, assumindo o controle das rotas da heroína do Extremo Oriente para a Europa e da cocaína da América Latina para os Estados unidos e o Canadá.

Um relatório do FBI de 2005 revela que as organizações da Máfia, chamadas de “empresas criminosas” pela polícia federal americana, empregam 250 mil pessoas em todo o mundo. O documento oficial do Departamento de Justiça, assinado por Robert Muller III, então diretor-geral do órgão, informa ainda que tais “empresas criminosas” têm lucro anual de 1 trilhão de dólares. Isso remeteria a um movimento total de 2 ou 3 trilhões de dólares.

O primeiro registro de atuação da Máfia no Brasil data de 1972. O capo mafioso Tommaso Buscheta, o Dom Masino, um dos mais influentes líderes da Máfia siciliana, instalou no litoral de São Paulo a “Conexão Ilha Bela”, destinada a trazer drogas por atacado do porto de Marselha, na França, para os Estados Unidos e o Canadá, passando pelo litoral paulista. Foi preso no Rio de Janeiro, pagou propina, fugiu, foi apanhado novamente pela Polícia Federal e terminou extraditado para a Itália. Durante os anos de chumbo da ditadura militar, as atividades de Tommaso Buscheta não prosperaram. Só uma década depois o crime organizado conseguiria fincar suas garras entre nós.

Na América Latina, um homem poderoso era sócio da Máfia na exportação de cocaína. Em 1982, o megatraficante colombiano Pablo Escobar, chefe do cartel de Medellín, que produzia 60% da cocaína consumida no mundo, decidiu que o Brasil, além de corredor de passagem da droga, poderia se tornar um importante mercado consumidor.

Governado por um general decadente, com um regime militar caindo pelas tabelas, reinando a corrupção e a especulação financeira, o Brasil parecia aos olhos de Escobar um território fértil para implantar o tráfico em níveis comerciais. Com a população concentrada em grandes cidades, uma juventude que despertava de duas décadas de tirania, com uma vida noturna agitada, o país reunia algumas das condições para o consumo de drogas em larga escala.

O traficante entrou em contato com o crime organizado local: os “banqueiros do bicho”, que também tinham um comando unificado, por meio do qual controlavam as apostas, o contrabando, a prostituição, as escolas de samba e as casas noturnas no Rio de Janeiro, São Paulo, Espírito Santo e Bahia. Os grandes “bicheiros”, como Castor de Andrade, Capitão Guimarães e Anísio Abrahão David, no entanto, tinham atividades legais, apoiavam políticos, apareciam na televisão e frequentavam as altas rodas. Como não queriam ser confundidos com traficantes, nossos mafiosos optaram por não se envolver com as drogas.

Das negociações com Pablo Escobar, resultou um acordo por meio do qual um contraventor de segundo escalão, Antônio José Nicolau, o Toninho Turco, fundou uma organização especialmente voltada para o tráfico, uma espécie de interface com o Cartel de Medellín. O problema era: onde colocar as drogas, onde vendê-las? Os melhores lugares, evidentemente, seriam as favelas localizadas na zona sul do Rio e nas proximidades do centro da cidade, onde estariam concentrados os consumidores em potencial.

Essas comunidades pobres, no entanto, estavam sob o controle de uma organização surgida nos porões da penitenciária da Ilha Grande, nos tempos da convivência de presos políticos com detentos comuns nas cadeias da ditadura militar. O nome do grupo era Comando Vermelho (CV). Fortemente influenciado pela opção revolucionária dos anos 1970, o grupo se dedicava ao roubo armado e ao resgate de companheiros presos.

Aos poucos, em virtude de suas ações espetaculares, a organização sentiu o peso da repressão e perdeu alguns dos seus melhores quadros. Nas cadeias, líderes como Willian da Silva Lima, o Professor, fundador do CV e ideólogo da organização, foram substituídos por bandidos como Rogério Lengruber, o Bagulhão, José Carlos dos Reis Encina, o Escadinha, e outros ligados ao tráfico. Estava aberto o caminho para o acordo com Escobar.

Toninho Turco formou uma quadrilha de 90 integrantes, dos quais 61 eram policiais e ex-policiais. Chegou a traficar, junto com o CV, entre 8 e 15 toneladas de cocaína por mês, de acordo com os arquivos da Polícia Federal. A droga era vendida no país ou enviada aos Estados Unidos e Canadá. Toninho foi morto em 11 de fevereiro de 1986, em uma ação conjunta dos federais, do Exército e da polícia estadual do Rio de Janeiro. Seu braço direito, um tenente da Polícia Militar carioca, foi preso, anos depois, em Lugano, na Suíça, durante uma investigação de lavagem de dinheiro.

A morte de Toninho Turco é o fio da meada que nos leva a Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, que o substituiu nas negociações internacionais do tráfico de drogas. Até ser preso na Colômbia, atuando junto ao Bloco 16 das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc.

Agora não sabemos mais quem são os nossos criminosos organizados envolvidos com o tráfico em escala comercial. Os próprios colombianos resolveram morar aqui, como Juan Carlos Abadia, o poderoso chefão do Cartel Del Norte, organização que substituiu Pablo Escobar. Ele foi preso pela Polícia Federal, em 7 de outubro de 2007, a partir de pistas reveladas pelo DEA (Drug Enforcement Administration, agência americana de combate ao tráfico), em Aldeia da Serra, bairro de luxo de São Paulo onde vivem artistas de televisão, empresários e gente acima de qualquer suspeita. Abadia foi extraditado para os Estados Unidos em tempo recorde, mandado para uma prisão no estado de Nova York e jogado em uma cela de vidro blindado, de onde jamais sairá.

Desde a criação do Comando Vermelho, após a anistia de 1979, inúmeras organizações do gênero surgiram no país: o Primeiro Comando da Capital (PCC), o CV Nordeste, a Organização Plataforma Armada (OPA) e mais um incontável número de grupos que seguem o exemplo da primeira organização político-militar do crime, o CV. O PCC, de São Paulo, que se intitula o “Partido do Crime”, sinaliza que pretende atuar no cenário político. Em maio e junho de 2006, durante a campanha para presidente, realizou 295 ataques armados contra “alvos” do poder público no estado.

As previsões de Pablo Escobar, de que o Brasil poderia se transformar em um enorme centro consumidor de drogas, se confirmaram. Hoje somos o segundo maior mercado de entorpecentes do mundo ocidental. A Polícia Federal brasileira, entre as dez melhores do mundo, apreende de 8 a 9 toneladas de cocaína por ano, um recorde continental. Em termos de maconha, são 40 toneladas. Das drogas sintéticas, tipo LSD e Ecstasy, quase duas toneladas são interceptadas por ano. Os especialistas no assunto, no entanto, asseguram que as apreensões representam apenas de 10 a 12% do movimento total do tráfico. Faça as contas, leitor, para ver o quanto passa pelas alfândegas e pelas fronteiras.

Esses números mostram que o Brasil se tornou um dos maiores celeiros do crime organizado mundial, com todas as consequêcias que isso traz em matéria de corrupção das instituições, compra de sentenças, punição apenas para os pobres, violência gratuita e banalizada. Na condição de segundo maior consumidor de drogas do mundo ocidental, temos um futuro duvidoso e alarmante.

Fonte: História Viva – http://www2.uol.com.br/historiaviva/

Crise na Física e na Biologia?

Falta explicar a origem de 96% do material cosmológico e da consciência

José Maria Filardo Bassalo

Em 27 de abril de 1900, na Royal Institution of Great Britain, o matemático e físico escocês William Thomson, Lorde Kelvin de Lars (1824-1907), fez um discurso que se tornou conhecido e resumido pelos historiadores da ciência nos seguintes termos: “Vejo apenas duas pequenas ‘nuvens’ no sereno céu do conhecimento científi co: o experimento de Michelson-Morley, realizado em 1887, e a discordância entre os valores medidos e os valores teóricos previstos pela termodinâmica para os calores específi cos em baixas temperaturas”.

O discurso foi reproduzido pela Philosophical Magazine – Revista Brasileira de Ensino de Física, com o título de “Duas nuvens ainda fazem sombra na reputação de Lorde Kelvin”. Em dois trabalhos que publiquei e escrevi que essas “duas pequenas nuvens” transformaram-se em duas violentas tempestades: 1) A Teoria da Relatividade Restrita de Einstein (1905) e 2) a Teoria Quântica de Planck (1900). Ainda nesses trabalhos, considerei a existência de “outras nuvens” no “sereno céu” da física do fi nal do século 20 que poderão desencadear novas tempestades agora. Uma delas está “ligada à cosmologia, relacionada com a existência da matéria e da energia escuras.” Vejamos a razão disso.

Em 30 de junho de 2001, a Nasa lançou o satélite Wilkinson Microwave Anisotropy Probe (WMAP) com o objetivo de examinar algumas anomalias na radiação cósmica de fundo de micro-onda (RCFM), detectada, em 1965, indicando o resquício da “grande explosão” (Big Bang) observada pelo satélite Cosmic Background Explorer (Cobe), lançado em novembro de 1989. Com o término da missão do WMAP, em setembro de 2003, iniciaram-se as análises dos dados que ele enviou. Em março de 2006, a equipe desse satélite anunciou que o nosso Universo tem a idade aproximada de 13,7 bilhões de anos e é composto de 23% de matéria escura, 73% de energia escura e 4% de matéria bariônica, a matéria convencional.

As análises indicaram ainda que a velocidade de expansão do Universo é de 21,8 km/s, por milhão de anos-luz, e que a densidade de sua massa crítica vale Ω = 1,024, o que signifi ca que a geometria do Universo é quase euclidiana (plana). Esses dados, no entanto, não são explicados pelo Modelo Padrão Cos mológico do Big Bang (MPCBB). Esse modelo foi proposto nos anos 40 e desenvolvido entre 1970 e 2000, supondo que o Universo começou com a “explosão” de uma singularidade.

Assim, creio que a não explicação (até agosto passado) de aproximadamente 96% de material cosmológico (matéria e energia) represente uma crise na cosmologia. Em contraposição, a não descoberta do bóson de Higgs (bH), (previsto em 1964), peça fundamental do Modelo Padrão da Teoria das Partículas Elementares (MPTPE) também ampliará a crise da cosmologia, pois é o bH que explica a origem das massas das partículas elementares, sendo estas os componentes da matéria convencional cosmológica observada.

A crise na física referida anteriormente, no meu entendimento, está associada a uma outra, agora na biologia, particularmente na genética. Vejamos como. A Teoria da Evolução formulada por Charles Robert Darwin (1809-1882) e Alfred Russel Wallace (1823-1913), exposta em 1859, tem como característica básica a evolução do homem em quatro grandes momentos: Homo erectus, Homo habilis, Homo sapiens e Homo sapiens sapiens. Além disso, existe muita controvérsia sobre a evolução do homem a partir dos macacos (principalmente de gorilas e chimpanzés). Mas a grande questão é saber por que o homem é dotado de consciência e os macacos não, considerando que o homem e os chimpanzés e gorilas têm aproximadamente 98% de genes idênticos. A crise na biologia, por intermédio da genética, é explicar se existe algum gene responsável pela consciência humana.

Os genes são segmentos do composto orgânico chamado DNA, molécula armazenadora de instruções que coordenam o desenvolvimento e o funcionamento de todos os seres vivos. A história dessa molécula começa, em 1869, quando o médico suíço Johann Friedrich Miescher (1844-1895) descobriu uma nova substância localizada no núcleo das células, denominada por ele de nucleína. Em 1889, o patologista alemão Richard Altmann (1852-1900) sugeriu que essa nova substância se chamasse ácido nucleico. Depois de vários estudos sobre os ácidos nucleicos, a estrutura molecular em dupla hélice do DNA foi fi nalmente descoberta, em 1953, pelos biólogos moleculares James Dewey Watson, americano, e Francis Harry Compton Crick, inglês.

Fonte: Scientific American Brasil – http://www2.uol.com.br/sciam/

Liberdade de expressão em risco

Carolina Ribeiro e Oona Castro

"A Associação Nacional de Jornais (ANJ) acompanha, investiga, denuncia, pede providências e se manifesta em defesa da liberdade de expressão." Retirada do site da ANJ, a frase abre o "Programa pela Liberdade de Imprensa" da associação. É curioso que a principal entidade representativa dos jornais comerciais brasileiros ainda não tenha denunciado alguns episódios recentes que colocaram em xeque a liberdade de expressão no país.

O manifesto pela liberdade de expressão da ANJ é repetido incisivamente por todos os donos de jornais brasileiros, em frequentes editoriais e até mesmo reportagens, alertando ainda para a ameaça de censura que ronda o país. Articulados no Brasil com a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (Abert) e com a Associação Nacional dos Editores de Revistas (Aner) eles se empenharam numa forte campanha para desqualificar as conferências setoriais de direitos humanos, cultura e comunicação, espaços de escuta à sociedade para formulação de políticas públicas. Produziram um filme que alertava a população para o monstro da censura que poderia acordar. Na América Latina, estão associados a outras entidades empresariais do setor e combatem, com a Sociedade Interamericana de Prensa (SIP), toda e qualquer política dos governos que apoiam e buscam promover iniciativas de comunicação não comerciais, como aLey dos Medios na Argentina.

Diante de tanta dedicação à defesa da liberdade de expressão, era de se esperar que a ANJ fosse a público contestar e denunciar um dos casos mais escancarados de silenciamento público da história recente do país. Maria Rita Kehl, que escrevia semanalmente para o Estadão, foi demitida depois de um "delito de opinião ". Teria incorrido em um erro ao pensar diferente do jornal, dizer o que pensa, expressar um ponto de vista por meio do artigo "Dois Pesos… ", publicado em 02 de outubro. O jornal, que ocupa a vice-presidência da ANJ, alega que Kehl havia sido contratada para escrever sobre psicanálise, e não política. Como a diversidade temática já era característica de sua coluna, fica difícil acreditar que sua demissão não tenha sido um gesto desesperado para afastar uma formadora de opinião que divergia do jornal. Pior que isso, diante do desespero, calaram uma articulista lúcida e questionadora, restringindo a liberdade de expressão no veículo.

No encerramento do IV Workshop de Inovação da Aner, o representante da Editora Abril afirmou, categórico, que ?os dois pilares da convivência democrática se baseiam, em nosso ramo, na energia da livre iniciativa e no vigor da liberdade de expressão". Mas como explicar a demissão, em maio, do jornalista Felipe Milanez, editor da revista National Geographic Brasil, da empresa dos Civitá? Milanez publicou no Twitter comentários críticos a respeito da reportagem "A farsa da nação indígena", veiculada na revista Veja.

Outro caso recente foi protagonizado pela Folha de S.Paulo, que ocupa a presidência da ANJ. O jornal pediu a retirada do ar do blog Falha de S. Paulo, uma divertida sátira sobre a cobertura da publicação. Processou ainda os irmãos Bocchini, criadores do site, alegando uso indevido da marca, mas evidentemente buscando impedir o contraditório do discurso criado pela Folha. O episódio é agora explorado no novo blog Desculpe a Nossa Falha .

Ora, os guardiões da liberdade de imprensa atuando como censores? Alguma coisa está fora da ordem.

Democracia x monopólio da mídia

Os três episódios revelam que, na verdade, a pior ameaça à liberdade de expressão no Brasil vem justamente dos grandes veículos de comunicação. Ao invés de promover a pluralidade de opiniões de seus profissionais e da sociedade, em vez de respeitar a diversidade de informações que circulam na internet, essa mídia quer garantir o monopólio de sua versão dos fatos. Defende interesses próprios e de seus anunciantes e reproduz um país desigual e sem acesso à informação plural no Brasil.

Não há democracia sem pluralidade de visões, sem espaços para que toda diversidade possível se manifeste. Enquanto formos reféns das nove famílias que controlam os meios de comunicação continuaremos sendo silenciados por uma única versão do modo de experimentar a cultura, a religião, a política, a história, a vida. Os três lamentáveis episódios somente confirmam quem realmente põe em risco a liberdade de expressão no país.

*Carolina Ribeiro e Oona Castro são jornalistas, integrantes do Intervozes e defensoras da liberdade de expressão e do direito à comunicação.

Fonte: Direito à Comunicação – http://www.direitoacomunicacao.org.br/

Wikileaks escancara a terceirização da guerra e coloca a imprensa diante de desafio

A nova leva de documentos secretos publicada pelo site Wikileaks desnudou para o público umarealidade sinistra materializada pelo fenômeno da terceirização da guerra nas mãos de empresas privadas, sobre as quais a sociedade tem pouco ou nenhum controle.

Observatório da Impresa

Muito já foi dito sobre o pacote de quase 400 mil documentos secretos divulgados pelo site especializado em publicar notícias e documentos sem verificação jornalística prévia. Mas o que ainda falta discutir é como o público vai digerir este material e a provável avalancha de outros que certamente congestionarão os fluxos informativos na web nos próximos meses e anos.

Os jornalistas terão um papel essencial neste processo, mas é fácil prever que a verificação de informações tende a se tornar cada vez mais complexa e exigente em matéria de mão de obra. As redações de jornais estão muito enfraquecidas pelos sucessivos cortes impostos pelas indústrias da comunicação para enfrentar as incertezas da digitalização.

Por motivos de espaço no provedor, leia esta matéria na íntegra no site CONTROVÉRSIA. Clique no link abaixo. Obrigado.

http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=7192

Proposta inusitada

A dificuldade de pensar com a própria cabeça

Revista Educação

Nos tempos em que era professor da Unicamp, fui designado presidente da comissão encarregada da seleção dos candidatos ao doutoramento, o que é um sofrimento. Dizer "esse entra", "esse não" é uma responsabilidade dolorida da qual não se sai sem sentimentos de culpa. Como decidir sobre a vida de uma pessoa amedrontada em 20 minutos de conversa? Mas não havia alternativa. Essa era a regra. Os candidatos amontoavam-se no corredor recordando o que haviam lido da imensa lista de livros cuja leitura era exigida.

Aí tive uma ideia que julguei brilhante. Combinei com os meus colegas que faríamos a todos os candidatos uma única pergunta, a mesma pergunta. Assim, quando o candidato entrava trêmulo e se esforçando por parecer confiante, eu lhe fazia a pergunta, a mais deliciosa de todas: "Fale-nos sobre aquilo que você gostaria de falar!".

Pois é claro! Não nos interessávamos por aquilo que ele havia memorizado dos livros. Muitos idiotas têm boa memória. Interessavama-nos por aquilo que ele pensava. Poderia falar sobre o que quisesse, desde que fosse aquilo sobre o que gostaria de falar. Procurávamos as ideias que corriam no seu sangue!

Mas a reação dos candidatos não foi a esperada. Foi o oposto. Pânico. Como se esse campo, aquilo sobre que eles gostariam de falar, lhes fosse totalmente desconhecido, um vazio imenso. Papaguear os pensamentos dos outros, tudo bem. Para isso eles haviam sido treinados durante toda a sua carreira escolar, a partir da infância. Mas falar sobre os próprios pensamentos – ah! isso não lhes tinha sido ensinado. Nunca lhes havia passado pela cabeça que alguém pudesse se interessar por aquilo que estavam pensando. Nunca lhes havia passado pela cabeça que os seus pensamentos pudessem ser importantes.

Uma candidata teve um surto e começou a papaguear compulsivamente a teoria de um autor marxista. Acho que pensou que aquela pergunta não era para valer. Não era possível que estivéssemos falando sério. Deveria ser uma dessas "pegadinhas" sádicas, cujo objetivo é confundir. Por via das dúvidas, optou pelo caminho tradicional e tratou de demonstrar que havia lido a bibliografia. Aí eu a interrompi e disse: "Eu já li esse livro. Sei o que está escrito nele. E você está repetindo direitinho. Mas não queremos ouvir o que já sabemos. Queremos ouvir o que não sabemos. Queremos que você nos conte o que você está pensando, os pensamentos que a ocupam…". Ela não conseguiu. O excesso de leitura a havia feito esquecer e desaprender a arte de pensar.Parece que esse processo de destruição do pensamento individual é uma consequência natural das nossas práticas educativas. Quanto mais se é obrigado a ler, menos se pensa. Schopenhauer tomou consciência disso e o disse de maneira muito simples em alguns textos sobre livros e leitura. O que se toma por óbvio e evidente é que o pensamento está diretamente ligado ao número de livros lidos. Tanto é assim que se criaram técnicas de leitura dinâmica que permitem que se leia Grande Sertão – Veredas em pouco mais de três horas. Ler dinamicamente, como se sabe, é essencial para se preparar para o vestibular e para fazer os clássicos fichamentos exigidos pelos professores. Schopenhauer pensa o contrário: " É por isso que, no que se refere a nossas leituras, a arte de não ler é sumamente importante."

Fonte: Revista Educação – http://revistaeducacao.uol.com.br

A Revolução Mexicana de 1910: de quem e para que?

GUGA DOREA

Nessa série de artigos sobre os 100 anos da Revolução Mexicana estamos chegando ao período em que as forças políticas em jogo demonstraram cada vez mais quais projetos de futuro elas tinham para o México. A data histórica que ficou oficialmente marcada como a da revolução – 20 de novembro de 2010 – deixou, na prática, uma questão em aberto até os dias de hoje.

Qual foi o real significado daquele acontecimento histórico e até que ponto o denominado neozapatismo é uma tentativa de resgatar o passado em um momento presente, tendo em vista transformar as atuais configurações políticas, sociais, econômicas e culturais do México atual? É diante dessas indagações que pretendemos, daqui para frente, buscar compreender como o México pode ser um exemplo significativo de como o capitalismo se desenvolveu entre o final do século XIX e início do XX, até a sua entrada globalizada e supostamente vitoriosa no mundo do cyberespaço, em que o passado é concebido como algo a ser velozmente ultrapassado e desintegrado.

Mas vamos com calma. Como estava o México no ano de sua revolução? Segundo Adolfo Gilly, entre muitos outros autores, algo em torno de 80% de suas terras estavam nas mãos dos grandes fazendeiros, o que não significava ausência de resistência dos camponeses e indígenas, aqueles que foram alijados do que eles próprios intitulavam culturalmente como "madre tierra", já mostrando com esse nome a sua forma diferenciada de lidar e de "olhar" para a natureza.

Para o pensador, o quadro social, econômico, político e cultural do México de 1910 era o de uma face dupla. De um lado, as reformas capitalistas, iniciadas no governo de Benito Juárez e fortalecidas, de forma autoritária, na era Porfírio Díaz, geraram um país marcado pela entrada fulminante das ferrovias nas terras camponesas e indígenas, o que correspondeu à utilização de áreas rurais para a produção de matérias primas a serem exportadas, sobretudo aos mercados dos EUA e da Grã-Bretanha.

No outro lado dessa instigante equação, apesar dos camponeses e indígenas, diante dessa nova realidade, terem se transformado, em sua maioria, em mão de obra útil para os interesses do sistema, foram eles que revelaram o chamado "México profundo", um país que a subjetividade capitalista não conseguiu contaminar e muito menos cooptar por completo. E esse México permanece potencialmente vivo até os dias de hoje.

Luta pelo poder

De um ponto de vista político, Adolfo Gilly nos mostrou ainda como a luta pela manutenção ou conquista do poder se desenvolveu nas vésperas da revolução. No âmbito da situação, o receio de Porfírio Díaz era a de que o avanço de seu opositor mais perigoso, Francisco Madero, viesse a insuflar e a incentivar os camponeses e indígenas a radicalizarem seu desejo por uma transformação verdadeira, que fizesse tremer, de fato, os alicerces de um ainda incipiente, mas poderoso ideologicamente, capitalismo.

Madero, por sua vez, tinha como principal preocupação realizar mudanças pacíficas e burguesas de seu interesse antes que os movimentos camponeses e indígenas radicalizassem a luta. O objetivo, portanto, era o de conter as massas e promover uma "revolução" aos moldes da crença na intitulada modernidade, seguindo caminhos já percorridos pelos grandes centros "desenvolvidos" daquela época.

Foi nessa circunstância que no dia 5 de junho de 1910 Porfírio Díaz venceu as eleições fraudulentas, apesar de seu anúncio de renúncia. Resultado: Madero é preso, enfraquecendo o seu objetivo de realizar uma revolução controlada e supostamente pacífica. Pouco tempo depois (outubro desse mesmo ano), ele é posto em liberdade condicional, escapa para os EUA e, logo na seqüência, retorna ao México para se proclamar presidente provisório do México em San Luis de Potosi, que fica ao norte do país, porém não na fronteira com os estadunidenses.

Nesse momento, Madero lançou o chamado Plano de San Luis em que, além de consagrar-se presidente, negou tanto o princípio da reeleição como o próprio governo de Porfírio Díaz. No artigo 3º do plano, em uma estratégia política, garantiu também a devolução de terras a seus antigos proprietários, sobretudo os indígenas, o que seria a sua única promessa considerada realmente social.

No dia 20 de novembro de 1910, data oficial da revolução, conclamou a "todos os cidadãos mexicanos" a se armarem e defenderem seu plano de tomada de poder. No entanto, Madero só iria promover uma tentativa de entrada definitiva no México em fevereiro de 1911, sendo derrotado no dia 6 de março. Enquanto isso, os camponeses do estado de Morelos, tendo o também camponês Emiliano Zapata à frente, pegam em amas e se apoderam de algumas fazendas, o que assustou Madero, colocando em xeque sua tentativa de promover a revolução burguesa.

Segundo já nos mostrou o próprio Adolfo Gilly, entre outros pensadores, como Madero nunca deixou de acenar para um possível acordo de transição com o governo de Porfírio Díaz, esse avanço camponês acelerou tal processo, surgindo assim, nos bastidores da política, os Acordos da Cidade Juarez (fronteira com os EUA), onde o então presidente Díaz mais uma vez se comprometeu a renunciar e a entregar interinamente o cargo de presidente para Francisco Leon.

Em linhas gerais, continuando na trilha de Adolfo Gilly, o intuito desse acordo era tentar dizer que, com a queda de Porfírio Díaz, a revolução mexicana estava concluída, o que levaria à necessidade e mesmo exigência de os camponeses entregarem as armas, em uma falsa idéia de que, enfim, a paz havia chegado ao México.

Zapata e Villa

A paz burguesa não se concretizou e o estado de Morelos, no sul do México, foi se transformando em um dos eixos principais da resistência aos acordos de Cidade Juarez. A conexão entre os camponeses que não tiveram suas terras confiscadas e os novos proletários agrícolas, cooptados e praticamente escravizados pelos engenhos do açúcar, levou à criação do Exército Libertador do Sul, dirigido por Zapata.

Quando Madero assumiu o poder, logo veio a proposta para que entregasse as armas, solicitação negada por ele. Zapata então exige a aplicação imediata do Plano de Ayala. Firmado em 28 de novembro de 1911, o plano declarou que o acordo da Cidade Juárez havia significado, na prática, o descaso e abandono de Madero em relação ao lema dos movimentos camponeses e indígenas: terra para quem nela trabalha.

Nesse contexto, camponeses e indígenas do sul entraram em guerra e recuperaram parte de suas terras, mantendo viva a revolução. No entanto, segundo Adolfo Gilly, o Exército Libertador do Sul era limitado do ponto de vista da tomada do poder de Estado, não tendo conseguido, portanto, impedir que a solução da revolução, naquele período, fosse burguesa. De um lado, apontou ele, a ala mais à direita da burguesia exigia que governo de Madero reprimisse o movimento camponês e indígena com maior veemência.

De outro, os movimentos organizados e os pequeno burgueses mais radicais, representados sobretudo pelo anarquismo de Ricardo Magón, exigiam a imediata devolução das terras para os camponeses e indígenas. Não acatando as duas exigências, Madero, no meio dessa artilharia ideológica, foi obrigado a amargar um isolamento político, o que levou à sua renúncia, em 25 de maio de 1911.

Apesar de apoiar estrategicamente Madero, na luta contra a ditadura Porfirista, Zapata sempre foi independente em relação à proposta liberal da revolução. Enquanto isso, a posição de Francisco Villa era considerada bem menos politizada. No início, ele era de fato aliado à direção burguesa. Acreditava nas propostas de Madero.

No entanto, esse alinhamento político não significava uma postura pacífica e subalterna. Pelo contrário, internamente Villa preocupava, tanto quanto Zapata, a elite burguesa com seu exército, a Divisão do Norte, sempre atento às reivindicações camponesas e indígenas. A ligação política entre Villa e Zapata, ao contrário, era uma garantia de que a queda de Porfírio Diaz não iria se tornar o passo derradeiro da revolução.

Explicando melhor o quadro político daquele efervescente momento histórico do México, a ala mais conservadora da burguesia não estava acreditando que Madero teria forças políticas suficientes para conter o avanço tanto dos movimentos camponeses e indígenas como da pequena burguesia mais radical. Segundo a interpretação de Adolfo Gilly, entretanto, foi o assassinato de Madero e a subida ao poder do General Victoriano Huerta, representando o grupo conservador e mais autoritário, que incendiou definitivamente a luta da esquerda pela radicalização da revolução. Isso porque caiu por terra o que restava do prestígio de Madero em relação aos movimentos camponeses e indígenas.

Por conta disso, o General Venustiano Carranza foi logo se proclamando seguidor de Madero, acusando Huerta de "usurpador" do poder. Luta entre generais pelo poder, ambos, cada um à sua maneira, querendo alijar ou submeter as massas a seus interesses. Nesse jogo político, Zapata permaneceu independente politicamente, enquanto Villa se alinhou, no início, ao General Carranza. Esse, por sua vez, sabia que sem o apoio logístico das massas organizadas não teria acesso ao poder.

Foi só chegar ao poder, entretanto, para ele recuar em sua posição e passar a reprimir os movimentos sociais organizados de forma contundente, desagradando ao grupo pequeno-burguês desenvolvimentista, representado por Alvaro Obregón, outro general que até então havia atuado como elo de ligação entre a liderança burguesa da revolução e as reivindicações de Zapata e Villa. O projeto político de Obregón era o de garantir o desenvolvimento capitalista, mas com a visão estratégica de que era importante promover concessões aos camponeses e indígenas, sempre tendo em mente o enfraquecimento político dos movimentos revolucionários.

No outro lado dessa realidade extremamente desfavorável para os setores mais oprimidos da sociedade mexicana, o trator capitalista não conseguiu devastar o que Adolfo Gilly denominou como "memória coletiva", sobretudo da cultura indígena, do que aparentemente estava sendo substituído pela crença no progresso e na homogeneização das relações humanas e culturais.

Podemos dizer, nesse entrelaçar de idéias, experiências e projetos políticos, revolucionários e reformistas, que novembro de 1910 sempre esteve bem mais próximo do que Adolfo Gilly chamou de "revolução interrompida". Fica então a pergunta: é possível finalizar essa revolução no mundo contemporâneo? Mas o que é ser revolucionário nos dias de hoje?

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

Náufragos da globalização

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Europa vive da memória de um continente que não existe mais e do papel de predominância ao qual se acostumou

IVAN MARSIGLIA

Após uma semana de confrontos cada vez mais intensos, a guerra chegou ao ápice na sexta-feira, quando o Senado francês finalmente decidiu votar – e aprovar – a reforma da Previdência Social proposta pelo presidente Nicolas Sarkozy. Entre outras mudanças, a idade mínima para a aposentadoria na França passou de 60 para 62 anos. O que para alguns não foi mais que um ajuste necessário em um país de população cada vez mais velha e com maior expectativa de vida, para outros – a maioria, a julgar pelas sondagens de opinião que cravaram 69% de apoio aos grevistas que protestavam contra a reforma – parece continuar inadmissível. Mesmo levando-se em conta a sociedade politicamente aguerrida que é a francesa, como entender o movimento que incendiou as ruas de Paris e Lyon, bloqueou aeroportos, fechou escolas, comprometeu o abastecimento de combustível e impediu até as apresentações da cantora pop Lady Gaga programadas para este final de semana no país?

Eric Gaillard/Reuters

Eric Gaillard/Reuters

Milhares de jovens uniram-se aos aposentados e manifestaram sua insegurança

“Os acontecimentos na França tomaram tal proporção que a questão das aposentadorias não basta para explicá-los.” É o diagnóstico do cientista político parisiense Bertrand Badie, de 60 anos, para quem em um aspecto os atuais distúrbios lembram os que fizeram história em maio de 1968: a estratégia do presidente Sarkozy para recompor sua combalida popularidade. “Naquela época, a revolta estudantil adquiriu tal amplitude que deixou em pânico o eleitorado de direita no país”, lembra o professor, catedrático de Relações Internacionais da Fundação Nacional de Ciências Políticas de Paris (Sciences Po). “Foi o que permitiu ao general De Gaulle ganhar facilmente as eleições.”

Agora, a 18 meses do pleito que irá definir a permanência ou não de Sarkozy no Palácio do Eliseu, nenhuma das partes mostrou-se disposta a ceder.

Na entrevista a seguir, concedida por telefone de Paris, Badie, que também é pesquisador-associado do Centro de Estudos e de Pesquisas Internacionais (CERI), afirma que a reforma aprovada não resolve a equação da Previdência no país: “Ela permitirá um alívio de um ano ou dois nas contas e, após as eleições, será preciso fazer outra reforma.” Para ele, tampouco se deve esperar algum refresco nas tensões sociais expressas nas manifestações estudantis e sindicais dos últimos dias. “A crise vem do fato de que a Europa e em particular a França, está falhando em sua inserção no mundo globalizado.

Na sexta-feira, o Senado francês aprovou a reforma da Previdência Social proposta por Sarkozy, apesar do acirramento dos protestos. O sr. esperava algum recuo?A grande dificuldade foi que o governo, de um lado, e os sindicatos, de outro, já tinham ido longe demais. Entramos numa situação em que o recuo de um ou de outro seria visto como derrota. E, agora, o risco de vermos uma radicalização de ambas as partes não está descartado. Até a semana passada me parecia ainda possível um acordo, uma solução negociada que acalmasse os ânimos. Ficou mais visível a possibilidade de um confronto sério.

Por quê?Sarkozy joga a carta de maio de 1968 revisitada. Naquele ano, a revolta estudantil adquiriu tal amplitude que deixou em pânico o eleitorado de direita no país. Foi o que, na época, permitiu ao general De Gaulle ganhar facilmente as eleições. O que se passa atualmente com Sarkozy é que ele está com a popularidade lá embaixo, em cerca de 25%, pois metade do eleitorado de direita francês o abandonou. Seu plano, ao permitir esse acirramento de tensões, é que os protestos assustem a direita e a façam cair de novo em seu colo. Uma estratégia, no mínimo, arriscada.

Uma pesquisa divulgada no mesmo dia pelo instituto de opinião pública BVA revelou que 69% dos franceses apoiam a greve.Exato. E, efetivamente, o grande trunfo dos sindicalistas é esse apoio da maioria da opinião pública, o que inclui parte da direita. Aqui na França, os simpatizantes da direita em geral representam 52 ou 53% da população, enquanto a esquerda conta com cerca de 45%. Esses 69% que apoiam as greves comprova que boa parte da direita está ao lado do movimento sindical. O que é um fenômeno novo e importante. Mas há outro elemento: os acontecimentos na França tomaram tal proporção que a questão das aposentadorias não basta para explicá-los. Existe uma espécie de rejeição geral às injustiças sociais, um sentimento de indignação contra o ultraliberalismo de Sarkozy, suas políticas fiscais favoráveis aos mais ricos e o acúmulo de frustrações que causaram. São muitas as dimensões do conflito.

Existe uma insatisfação difusa em relação à crise do Estado de bem-estar social?Os sindicatos falam apenas das aposentadorias. Eles não tratam de outras questões, que no entanto estão visíveis nos slogans, nos cartazes, nos fóruns de discussões. Neles, ao lado da reforma da Previdência, figuram o problema do desemprego, dos salários, das liberdades em geral e mesmo a denúncia da discriminação de minorias culturais e das políticas anti-imigração do governo. Nós assistimos a uma espécie de globalização da contestação, algo que é preciso levar em conta.

Essa ‘globalização da contestação’ explica o engajamento de estudantes secundaristas nos protestos por direitos dos aposentados?Sim. Creio que há um mal-estar profundo entre os nossos jovens, que temem o desemprego e não se identificam com essa ideologia neoliberal que se transformou, na França assim como em muitos países da Europa, numa espécie de pensamento único. Hoje, após a derrocada dos ideais do marxismo, não restou nada além das promessas do neoliberalismo – que igualmente fracassaram. E os jovens sentem-se profundamente inseguros em relação ao futuro que a Europa lhes reserva. Todas as pesquisas de opinião demonstram que eles temem entrar na vida adulta, diante das poucas perspectivas de emprego e bons salários. “Precariedade” é uma palavra que se ouve com frequência nessas pesquisas qualitativas.

Os acontecimentos das últimas semanas têm a ver com os protestos violentos na periferia de Paris em 2006 e 2007?A rebelião de 2006 e 2007 estava mais ligada ao fracasso da integração social na França, a um mal-estar em relação à espécie de exílio em que vivem milhares de jovens das periferias de Paris. Agora, o que está em discussão são temas mais banais, de um certo ponto de vista, e que não dizem respeito especificamente às periferias. Tanto que elas não se mobilizaram significativamente até agora. Claro que isso ainda pode ocorrer.

As políticas de restrição aos imigrantes não estão em pauta, desta vez?

A agenda da imigração e da restrição às minorias culturais entrou como uma espécie de cortina de fumaça do governo para ocultar os problemas econômicos e sociais. E isso é também algo de novo na história francesa. É a primeira vez que um governo se utiliza do argumento da denúncia de minorias culturais – mesmo nos anos 30, quando havia uma onda de anti-semitismo, não era o governo, mas a oposição que lançava mão desses argumentos. Agora, ela vem diretamente do governo e o problema é saber se isso acabará por se voltar contra ele ou não. Ainda é muito cedo para dizer.

É preocupante que o governo tenha recorrido a esse tipo de argumento?Isso me inquieta. Pois é um fenômeno que já afeta quase toda a Europa, talvez não na Inglaterra, mas o vemos na França, na Alemanha, na Suíça, na Itália, nos países da Europa Oriental e mesmo na Suécia, com toda a sua tradição de tolerância e abertura. Está se transformando em um fenômeno europeu, portanto.

Como entendê-lo?Sociedades que se fecham sobre si mesmas e adotam a exclusão, o isolamento, estão manifestando os sintomas de uma doença. Doença que se deve, em minha opinião, ao fato de que a Europa e em particular a França, está falhando em sua inserção no mundo globalizado. O Brasil, por exemplo, é um dos países mais bem-sucedidos nesse processo de globalização. É uma vitória dos países emergentes.

Vitória que não se deve também à menor regulação de seu mercado de trabalho e ao baixo custo de sua mão-de-obra, em comparação com a Europa?É claro que sim, mas os parâmetros econômicos e sociais dos países emergentes também se revelaram mais favoráveis à globalização. Mas não acho que a Europa esteja condenada a perder. Estou convencido de que há outras oportunidades e modos de inserção para nós no mundo globalizado atual. O problema é que a Europa vive na memória de um mundo que não existe mais, ainda não despertou para o fato de que há hoje um sistema internacional, um mundo novo que é preciso aceitar, compartilhar o papel de predominância ao qual se acostumou.

Para alguns, a reforma de Sarkozy foi razoável, pois a população envelheceu e a expectativa de vida aumentou. Para outros, os ganhos em produtividade recentes permitiriam a manutenção dos direitos dos aposentados. Qual é a sua opinião?Tenho uma opinião dupla. Em primeiro lugar, todo mundo está de acordo de que era necessária alguma reforma no regime previdenciário. Já o que não se diz com tanta frequência é que a reforma de Sarkozy, tal como foi proposta, não é suficiente. Ela permitirá um alívio de um ano ou dois nas contas e, após as eleições, será preciso fazer outra. Quer dizer, é um sacrifício que se impôs à população. Em segundo lugar, há outra coisa que deixamos de notar: é verdade que grande parte da população francesa, como a europeia, tem uma expectativa de vida mais elevada há alguns anos. Mas o detalhe é que a saúde não melhorou com a longevidade. Estatisticamente, um trabalhador de 60 anos hoje pode ser tão cansado e desgastado quanto era há 10 anos. Ou seja, junto com o aumento da longevidade ocorreu, por assim dizer, um aumento da duração da doença: você morre aos 100 anos de idade, mas começa a ficar fragilizado aos 60. E será preciso dar suporte a essa população, com asilos, leitos de hospital, estrutura, por quatro décadas.

O anúncio, feito na quarta-feira pelo governo britânico, de um corte de gastos da ordem de £ 83 bilhões e a dispensa de 500 mil funcionários públicos – seguido também de protestos por parte dos sindicatos – reforça o argumento de que a crise é europeia?Sim. A grande diferença é que o corte de gastos, na Inglaterra, se dá logo após as eleições e, aqui, estamos em período pré-eleitoral. As eleições presidenciais na França estão marcadas para daqui a 18 meses – quando Sarkozy poderá ou não ser reeleito. É um dado que não se pode ignorar e explica, talvez, o tom mais estridente dos protestos franceses.

E o que esperar das eleições de 2012? O sr. crê na sobrevivência política de Sarkozy?Até lá, muita coisa pode acontecer. Todas as sondagens eleitorais hoje preveem a vitória da esquerda. Mas, em seu País, elas davam também a vitória em primeiro turno a Dilma Rousseff, não? (Risos) Então, é impossível dizer o que ocorrerá. Com o momento impopular de Sarkozy podemos esperar uma movimentação ativa do candidato que vier da esquerda – algo que, como se vê, já modifica profundamente o panorama político francês.

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

A cor que invadiu o sertão

Luxo místico e riqueza marcam a estética do cangaço

Grupo FAPESP

Corisco, um dos cangaceiros mais vaidosos

"Olê, mulher rendeira/ olê, mulher rendá/ tu me ensina a fazer renda/ que eu te ensino a namorar”, diz a canção-símbolo do cangaço. Sobre moda, Lampião e seus homens tinham pouco a aprender e muito a ensinar. Vestiam-se de forma colorida, cobertos por adornos de ouro e, como bons sertanejos, sabiam confeccionar toda a sorte de objetos e vestimentas sem que por isso se questionasse sua virilidade: o “rei do cangaço” costurava suas roupas e a de seus afilhados e bordava à máquina com perfeição, orgulhando-se da sua habilidade. “O bando de Lampião, sobretudo nos anos 1930, possuía preocupações estéticas mais frequentes e profundas que as do homem urbano moderno”, afirma o historiador Frederico Pernambucano de Mello, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e autor do livro Estrela de couro: a estética do cangaço (Escrituras, 258 páginas, R$ 150), com 300 fotos históricas e 160 reproduções de objetos de uso pessoal dos cangaceiros, muitos pertencentes ao próprio autor. Tamanho apuro visual, pleno de detalhes nas coisas mais cotidianas (cães com coleiras trabalhadas em prata!), servia como proteção ao mau-olhado, instrumento de hierarquia interna, tinha funcionalidade militar e era um poderoso instrumento de propaganda junto às populações pobres, que se admiravam diante de todo aquele luxo, cor e brilho. Era também uma forma de arte que o cangaceiro carregava no seu corpo.

“Havia orgulho em tudo aquilo, um esforço para que se pudesse chegar ao anseio de beleza de cada um dos cabras. Era notável ainda um desprezo sistemático pela ocultação da figura, atitude oposta à de quem se considera criminoso”, explica. “Morando num meio cinzento e pobre, o cangaceiro vestiu-se de cor e riqueza, satisfazendo seu anseio de arte e conforto místico. Era como se os mais esquivos habitantes do cinzento se levantassem contra o despotismo da ausência de cor na caa tinga e proclamassem a folia de tons e de contrastes.” Em vez de procurar camuflagem, os cangaceiros desenvolveram uma estética brilhante e ostensiva com roupas adornadas de espelhos, moedas, metais, botões e recortes multicores que, paradoxalmente, os tornavam alvo fácil até no escuro. “Todos armados de mosquetões, usando trajes bizarramente adornados, entram cantando suas canções de guerra, como se estivessem em plena e diabólica folia carnavalesca”, escreveu o Diário de Notícias, de Salvador, em 1929. “Ainda que o fascínio pelo cangaço tenha existido sempre, fomentado pela literatura de cordel, Lampião soube jogar com todos os registros do visual para ‘magnificar’ a sua vida e transmitir a imagem de um bandido rico e poderoso. Foi o primeiro cangaceiro a cuidar de sua estética, usando modos de comunicação modernos que não faziam parte da sua cultura original, como a imprensa e a fotografia”, explica a historiadora francesa Élise Grunspan-Jasmin, autora de Lampião: senhor do sertão(Edusp).

Após terem seu visual cantado pelo cordel, a fotografia, ao chegar ao sertão na primeira década do século passado, fez a delícia do cangaço. “Essa existência criminal parece ter sido criada para caber numa fotografia, tamanho o cuidado do cangaceiro com o visual, com a imponência e a riqueza do traje guerreiro”, avalia Pernambucano. “As vestimentas dos bandidos foram sendo incrementadas até se tornarem quase fantasias. Esse era um dos aspectos da extrema vaidade daqueles bandoleiros”, observa o historiador Luiz Bernardo Pericás, autor de Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica (Boitempo, 320 páginas, R$ 54). O homem do cangaço era um orgulhoso que se esmerava no traje, até o final, como se pode ver na célebre foto das cabeças de Lampião e seus homens ao lado de seus chapéus: “Dentre os treze, não há dois iguais, tão ricos em tema e valor material quanto o do chefe, prova da imponência da estética, cuja afetação exagerada adjetivou o cangaço em sua etapa final, quando se chegou a incrustar alianças de ouro na boca das armas”, nota Pernambucano. “Havia uma estética rica que conferia uma ‘blindagem mística’ ao cangaceiro, satisfeito com a sua beleza e ainda seguro em meio a uma suposta inviolabilidade.” A ponto de contaminar as roupas dos policiais, que copiaram suas vestimentas, e mudar o foco da guerra. “O contágio inelutável dá a força dessa estética e evidencia a existência de outra luta, travada em paralelo, no plano da representação simbólica. A vingança estética do cangaço contra a eliminação militar se dá quando o ícone principal de sua simbologia se transforma na marca do Nordeste: a meia-lua com estrela do chapéu de Lampião.”

Bandidos – Estimulando essa “gana de ostentação” estava a própria essência política do cangaço. “Os cangaceiros não admitiam ser comparados ou confundidos com bandidos comuns, uma ofensa imperdoável. Viam-se como atores sociais distintos, na mesma estatura dos ‘coronéis’”, explica Pericás. O que lhes permitia usar e abusar dos figurinos: orgulhosos de si mesmos, tinham ainda um gosto pelas patentes militares, promovendo “cabras” a postos de hierarquia militar e considerando membros de seus efetivos como “soldados”. “Observe que todo grupo militar preza os símbolos, as insígnias, as representações de poder. Lembra-se do Brejnev com medalhas que não cabiam no peito no tempo da Rússia soviética? Sujeito inteligentíssimo, Lampião fez da costura e do bordado um critério a mais de promoção e status no seio do bando e ele mesmo costurava as vestimentas de seu bando. Saber prepará-los e conferi-los a seus homens era uma grande vantagem”, salienta Pernambucano. “Não se chama o boi batendo na perneira”, dizia o “rei”, consciente da necessidade de uma política de afagos interna para amenizar a disciplina de que não abria mão. “A estética era uma ferramenta para infundir o orgulho do irredentismo cangaceiro nos recrutas de modo quase instantâneo. Antes desse recurso estético, imagino que essa inoculação devesse ser lenta.”

Cantil decorado e, ao lado, bornal florido

Patrões – “Os bandos de cangaceiros eram estruturas hierarquizadas com claras distinções entre as lideranças e a ‘arraia-miúda’, sem voz de comando em posição claramente subordinada aos chefes. Muitos consideravam os líderes do cangaço como ‘patrões’. E esses comandantes se viam assim, quase como os coronéis, com os quais mantinham boas relações, colocando-se em posição igualitária aos potentados rurais”, afirma Pericás. Na contramão do senso comum, os comandantes cangaceiros eram de famílias tradicionais e relativas posses. Lampião, por exemplo, pertencia à classe dos proprietários de terra e ele próprio foi um criador de gado. Por isso o cangaço não foi, diz o pesquisador, uma luta para reconstruir ou modificar a ordem social sertaneja tradicional, como preconizado por boa parte da literatura sobre o fenômeno. “Eles não lutavam para manter ou mudar nenhuma ordem política, mas para defender seus próprios interesses mediante o uso da violência, indistinta e indiscriminada. Os bandidos procuravam, sim, manter vínculos com os protetores poderosos, o que podia resultar, inclusive, em agressões contra o seu próprio povo”, diz Pericás. Nesse sentido, a famosa justificativa da adesão ao cangaço por motivos de disputas sociais ou vinganças familiares deve ser vista com desconfiança. “Os cangaceiros diziam-se vítimas, obrigados a entrar na luta por honra, mas isso era, na maior parte dos casos, um ‘escudo ético’, um argumento para convencer as populações pobres de que eram movidos por questões elevadas, se diferenciando dos bandidos comuns, o que não era real.” Lampião nunca viu como prioridade ajudar os necessitados. “Em geral, guardavam o dinheiro grande e davam alguns tostões aos pobres e às igrejas. E sempre faziam questão de que isso fosse divulgado para criar uma imagem positiva junto ao povo.”

Na prática, o comportamento dos cangaceiros era parecido com o dos coronéis, que agiam de forma paternalista com aqueles que eram considerados “seus” pobres. “Eles não eram bandidos sociais e se pode mesmo dizer que sua presença foi um obstáculo a um protesto social mais significativo. Apesar disso, como um executor independente da raiva silenciosa da pobreza rural, o cangaceiro tinha o apelo popular de um agente superior. A sua violência era um gesto admirado de afirmação psíquica na ausência de justiça e mudança positiva”, acredita a historiadora Linda Lewin, da Universidade da Califórnia, autora de The oligarchical limitations of social banditry in Brazil. Câmara Cascudo já notara que “o sertanejo não admira o criminoso, mas o homem valente”. “O cangaço pode ser visto como uma continuidade do ambiente violento do sertão, onde era comum que paisanos carregassem e usassem armas no cotidiano, pautando sua vida em questões morais, de honra e prestígio”, diz Pericás. Os cangaceiros construíram a imagem de indivíduos injustiçados que haviam ingressado na criminalidade por bons motivos. Mas, se eram violentos, o mesmo pode ser dito dos soldados que os perseguiam. “A população que sofria violências das volantes se voltava para os bandoleiros como uma resposta ou por vê-los em contraposição aos ‘agentes da lei’”, analisa Pericás.

© Reprodução do livro Estrela de couro – a estética do cangaço

Jabiracas de tecido inglês, de Lampião

Jabiracas de tecido inglês, de Lampião

“Com seus trajes inconfundíveis e nada tendentes à ocultação, se sentiam investidos de um mandato mais antigo, havido por mais legítimo que a própria lei, esta, a seus olhos, uma intrusão litorânea sobre os domínios rurais”, completa Pernambucano. Os cangaceiros supriram a falta de poder institucionalizado no sertão. “Eles seriam os fiéis da balança em muitos casos, sendo um poder paralelo, mais fluido e inconsistente, mas que tinha apelo para as massas rurais”, diz Pericás. Com o tempo, porém, o cangaço se revelou um negócio, o “Cangaço S/A”, como o descreve Pernambucano. “Era uma ‘profissão’, um ‘meio de vida’. Os bandidos estavam equidistantes do ‘povo’ e dos mandões, ainda que com maior proximidade das elites rurais”, concorda Pericás. Como eram “independentes”, tinham sua imagem dissociada diretamente dos coronéis. “Não sendo empregados de ninguém, eram de certo modo autônomos, tirando das camadas mais ricas e dos governos o monopólio da violência. Mas é sempre bom lembrar que a maioria da população sertaneja, apesar da miséria, da exploração, da falta de emprego e das secas, não ingressou no cangaço.” Segundo o pesquisador, um dos motivos para a longevidade da “boa” recordação dos cangaceiros seria sua contraposição à ordem instituída. “Os policiais representavam o governo, mas usavam a farda para transgredir. Assim, parte dessa sociedade se voltou para os cangaceiros e viu neles o oposto, ou seja, aqueles que lutavam contra a ordem.” Suas atividades crimi nosas, então, eram justificadas no quadro maior da luta entre os dois “partidos”: cangaço e polícia.

Politicamente “reabilitados” e bem vistos, permitiam-se o luxo da ostentação, que se iniciava pelos chapéus, cujas abas levantadas podiam chegar aos 20 cm de raio anular, uma hipérbole em relação ao modelo original dos vaqueiros, de abas viradas, mas curtas. “Experimentei o chapéu de Lampião no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas: o pescoço bambeou. Tanto peso ornamental não teria nada a ver com funcionalidade militar, mas com valores bem mais sutis”, conta Pernambucano. O objeto tem cerca de 70 peças de ouro, entre moedas, medalhas e outros adereços, o que levou um repórter da época a defini-lo como “verdadeira exposição numismática”. O chapéu era o ponto de concentração dos adendos simbólicos que caracterizam o traje do cangaceiro.

Chapéu de couro do rei do cangaço (à esq.) e conjunto de bornais

Amuletos – Coisas comuns eram transformadas em amuletos que, além de reforçar a hierarquia, viravam símbolos de uma crença mística. “A blindagem mística se traduziu nos muitos signos (estrela de davi, flor de lis, signo de salomão e outros) e na profusão do seu uso em todos os ângulos das vestimentas, o que dividia a atenção com o puro anseio estético, a se mesclar a este, conferindo utilitarismo à fusão, pela força de dar vida à crença tradicional numa suposta inviolabilidade em meio a riscos extremos.” Mas não se iluda o espectador ao pensar que os bandos eram “escolas móveis de superstição”. “O grosso da cabroeira, muito jovem, entre os 16 e os 23 anos, pautava-se pela lei da imitação, sem consciência daquilo de que se servia. O chefe usava? Basta.” As mulheres seguiam as modas de perto, mas de forma distinta. “Com alguns traços de valquíria e quase nenhum da amazona, a matuta que se engajou no cangaço jamais adotou o chapéu de couro, coisa de homem. A elas ficou reservado uma cobertura de feltro, de aba média, e a colocação, sobre a cabeça, de toalha ou lenço”, conta Pernambucano. O mesmo se dava com os punhais que podiam chegar a 80 cm para os homens (o tamanho limite era o do punhal de Lampião, que não poderia ser superado), mas não passavam dos 37 cm no caso das mulheres.

Facão com cabo de gavião, de Lampião

Facão com cabo de gavião, de Lampião

As armas brancas, aliás, são paradigmas na vestimenta do cangaceiro. Com função militar quase morta após o advento da espingarda de repetição, os punhais serviam no ritual letal do sangramento nordestino ou como símbolo de status. “Era usado orgulhosamente sobre o abdome, à vista de todos, aço da melhor qualidade europeia com cabo decorado de prata. Desfrutável ao primeiro olhar. Ou à primeira fotografia.” O punhal de Zé Baiano, presente de Lampião, foi avaliado em mais de 1 conto de réis, preço de uma casa. Outros símbolos de prestígio eram a bandoleira, correia para segurar a espingarda no ombro, e a cartucheira trespassada, essa uma necessidade nascida de se prover um adicional de munição: 150 cartuchos de fuzil Mauser presos com enfeites de ouro. Era comum, porém, que as volantes, cientes do prestígio de seu uso, mirassem em quem portasse uma dessas. A seu lado, iam os cantis, decorados com esmero, um espaço surpreendente de arte de projeção. Como as luvas a que, nota Pernambucano, o cangaceiro, no fausto dos anos 1930, juntou um bordado colorido. O lugar privilegiado das cores, porém, eram os bornais, cuja policromia levou um jornalista a descrever os cangaceiros como “ornamentados e ataviados de cores berrantes que mais pareciam fantasiados para um carnaval”. Visíveis por todos os ângulos, os bornais eram responsáveis por mais de dois terços desse “porre de cores”, o resto ficando por conta do lenço de pescoço, a jabiraca, com que também se coava o líquido extraído de plantas da caatinga. “Nela, nada de nós, mas puxadas as duas pontas para a frente, em paralelo, o cangaceiro ia colecionando alianças de ouro, tomando-se como rico quando formava o cartucho. Houve quem tivesse mais de 30 alianças no pescoço”, conta. Viajando por Sergipe, em 1929, Lampião teve os “apetrechos” pesados numa balança de armazém: 29 quilos sem as armas. No total, o peso carregado no calor tórrido da caatinga podia chegar a quase 40 quilos.

Místico – Com menos aprumo, a vestimenta contagiou os policiais. “A sedução da indumentária dos cangaceiros arrebatava pelo funcional, pelo estético e pelo místico. A volante se mimetizou a tal ponto que dela não restou imagem própria”, diz Pernambucano. Para desespero das autoridades, que se sentiam derrotadas também no simbólico. “Cumpre que se adote a proibição de fardamentos exóticos, de berloques, estrelas, punhais alongados e outros exageros notoriamente conhecidos, porque a impressão se faz no cérebro rude e, à primeira oportunidade, o chapéu de couro cobre a testa e o rifle pende a tiracolo”, alertava um relatório oficial. Curiosamente, nota o pesquisador, pintores como Portinari ou Vicente do Rego Monteiro não souberam captar o luxo e o colorido dessa estética em suas reproduções do cangaço, optando, ideologicamente, por uma visão monocromática opaca, para ressaltar o aspecto social do fenômeno, à custa da fidelidade ao real. “Não é exagero dizer que ainda está por surgir, na pintura ou no cinema, quem consiga combinar o ethos e o ethnos dessas comunidades para retratá-las”, avalia Pernambucano. “O cangaço foi o último movimento a viver ‘sem lei nem rei’ em nossos dias, após varar cinco séculos de história. E o último a fazê-lo com tanto orgulho, com tanta cor, com tanta festa e com uma herança visual tão significativa.” Como, aliás, já diziam os versos de Mulher rendeira: “O fuzil de Lampião/ tem cinco laços de fita/ No lugar em que ele habita/ não falta moça bonita”.

Fonte: Revista da FAPESP – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

Marina e o PV, apêndice do PSDB. Entrevista especial com Maria Inês Nassif

INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS

“No regime presidencialista, a gente tende a se concentrar no resultado da votação para presidente da República, quando é tão ou mais importante, inclusive para execução de um programa político, ter condições de lidar com o Congresso”, “Foi muito difícil, principalmente no segundo mandato do Lula, governar com um Congresso hostil. É um equilíbrio necessário nesse regime presidencialista. Se a Dilma for eleita no segundo turno, esse é o lado positivo. Se o Serra ganhar, ele terá dificuldades maiores do que o Lula teve com a oposição”, completou a jornalista.

IHU On-Line – Qual o papel das diferentes religiões no resultado das eleições?

Maria Inês Nassif – É algo que ninguém pôde prever, mas que teve uma importância bastante grande. Houve uma ofensiva organizada tanto da Igreja Católica em São Paulo, que tem um eleitorado mais conservador, como da Igreja Evangélica. Isso foi percebido tardiamente pelo comitê da candidata Dilma Rousseff e a reação também foi tardia. Não foi possível desmontar essa armadilha, que não reflete posições tomadas pela hierarquia da Igreja Católica, que nunca impôs vetos diretos a nenhum partido, embora em alguns momentos tivesse coincidido em termos de ação política com um ou outro partido. Mas a opção partidária nunca havia sido colocada claramente, diferente dessas eleições. Em São Paulo, a Regional da CNBB fez um documento pedindo claramente que os fiéis não votassem na Dilma e em nenhum outro candidato do PT.

IHU On-Line – É correto dizer que o voto do brasileiro é conservador?

Maria Inês Nassif – Já foi mais conservador. Tínhamos uma realidade eleitoral estabelecida de donos de voto. Eram chefes políticos que tinham grande influência sobre a população de baixa renda, semianalfabeta, que dependia dos favores desses políticos, inclusive para comer. Nos últimos dez anos, houve um descolamento considerável desse voto.

Temos uma elite muito conservadora em um país com cultura religiosa muito arraigada que, em alguns momentos, pode favorecer posições conservadoras como essa a respeito do aborto. A elite é muito mais conservadora do que os votos do brasileiro. O primeiro turno foi repleto de reações conservadoras das pessoas e setores que antes tinham domínio sobre a opinião pública. A reação foi muito forte porque a influência é menor, é preciso fazer muito barulho para conseguir algum resultado.

IHU On-Line – Quem foram os vencedores e perdedores dessa primeira fase das eleições?

Maria Inês Nassif – A Dilma foi para o segundo turno, mas as pessoas precisam prestar a atenção que o primeiro turno foi uma grande vitória da aliança que apóia Dilmano Congresso. É um maioria que o Lula não teve. Dilma, se for eleita, contará com essa maioria, apesar de ter de lidar com o PMDB, que é um partido difícil. No regime presidencialista, a gente tende a se concentrar no resultado da votação para presidente da República, quando é tão ou mais importante, inclusive para execução de um programa político, ter condições de lidar com o Congresso. Foi muito difícil, principalmente no segundo mandato do Lula, governar com um Congresso hostil. É um equilíbrio necessário nesse regime presidencialista. Se a Dilma for eleita no segundo turno, esse é o lado positivo. Se o Serra ganhar, ele terá dificuldades maiores do que o Lula teve com a oposição. A melhor coisa é a democracia, tivemos uma eleição que continua esse processo que conquistamos a duras penas. Os candidatos foram livres para falar o que quiseram. Muitos, inclusive, falaram o que não deviam.

IHU On-Line – Quais fatores explicam a queda da candidata Dilma na reta final?

Maria Inês Nassif – Houve uma ofensiva muito forte, inclusive, da própria mídia, que é um desses setores que tinham mais poder de formação de opinião anteriormente e que hoje precisam amplificar muito suas ações para ter algum resultado. Foi uma ofensiva que fugiu dos limites do bom senso e da própria verdade. A questão religiosa, na última hora, também colaborou para que houvesse um segundo turno.

Outro fator que deve ser avaliado é a quantidade enorme de abstenções ocorridas por conta de uma confusão da Justiça Eleitoral, que ajudou muito pouco nesse pleito. As indefinições foram levadas até a véspera das eleições, inclusive a questão dos documentos necessários. Ao contrário dos anos anteriores, houve pouco discernimento em relação às regras eleitorais, ninguém sabia ao certo como funcionava o voto em trânsito, indefinições em relação ao Ficha Limpa, que devem continuar por algum tempo. A Justiça Eleitoral já trabalhou melhor do que nessas eleições.

Outra questão é um certo desconforto em relação a esta polarização que já vem há muito tempo entre PT e PSDB; Marina se apresentou como opção. Se ela não tivesse essa votação considerável, a Dilma certamente teria o primeiro turno garantido. A Marinalevou a eleição para o segundo turno. O tanto que Serra cresceu no final do processo eleitoral não justificaria a não-vitória da Dilma no primeiro turno.

IHU On-Line – Como a senhora acredita que Marina e os eleitores que votaram nela se comportarão no segundo turno?

Maria Inês Nassif – Marina está em uma situação muito difícil. Ela foi para o PV, um partido que não existia, com pouca consistência ideológica. Marina era a estrela do partido e deu conteúdo à candidatura. O PV na maior parte do país é um apêndice do próprio PSDB e a Marina não tem esse perfil, por isso não sei como ela vai se virar. Ela está propondo plenárias e discussões internas, mas esse não é o tipo de coisas que está no cardápio do PV. Não sei se ela consegue essa profundidade de debate para chegar a uma definição sobre o segundo turno. O mais razoável seria pensar que no PV cada um vai para um canto, as decisões acabarão sendo individuais, não partidárias.

IHU On-Line – Quais as estratégias que PT e PSDB devem adotar no segundo turno?

Maria Inês Nassif – Pelo que li nos jornais, parece que caiu a ficha do pessoal doSerra: a agressividade, esse neudenismo sem limites, foi algo que aumentou muito a rejeição a ele. Reitero: não foi o Serra que ganhou mais eleitores no final das eleições, aMarina deu a ele a segunda chance. Agora ele se propõe ao debate, mas isso a gente só irá ver quando começarem os debates. Ao longo do primeiro turno, o Serra foi desorientando à medida que as pesquisas davam o crescimento da Dilma, ele foi perdendo toda a estratégia de campanha e acabou se resumindo a agressões, acusações e boatos espalhados na internet.

A Dilma conseguiu tamanha votação porque é a candidata do presidente Lula, que deixa o governo com o maior índice de aprovação já visto. A maior arma dela continua sendo Lula e um governo que tem bom desempenho. Fora isso, os candidatos a governador do PT acabaram ganhando em quase todos os estados que concorreram no primeiro turno e estão disponíveis para a campanha. O PT está tentando atrair a antiga militância para conter nas bases essa onda de boatos, armadilhas, como a do aborto, e estratégias de desqualificação da candidata. Os movimentos sociais tendem a responder a essa mobilização porque não têm nenhuma afinidade com o PSDB. Mesmo não considerando o ideal, ainda preferem o PT.

IHU On-Line – De que forma as pesquisas influenciam no andamento das campanhas?

Maria Inês Nassif – As pesquisas influenciaram muito o desemprenho do Serra. Ele foi ficando mais agressivo e construindo um discurso mais acirrado. Tanto que a rejeição dele acabou chegando num patamar estratosférico. Hoje ele diz debaterá programas e fazer uma campanha menos agressiva. Não sei como vai reagir às primeiras pesquisas de intenção de voto, se vai conseguir manter esta estratégia. No primeiro turno, não conseguiu.

IHU On-Line – Direita [DEM] e esquerda [PSOL] saem fragilizados das eleições. A política no Brasil se faz cada vez mais pelo centro?

Maria Inês Nassif – Esses partidos estão no linear de um processo de formação partidária que vem de 1979, com o fim do partidarismo, que está se esgotando. É inevitável uma mudança muito grande no quadro partidário a partir do ano que vem. O jeito que está é insustentável. O DEM virou um partido nanico, o PSOL perdeu quase toda a representatividade. A lei restringe cada vez mais a possibilidade de fazer esses acertos partidários no período pós-eleitoral que, bem ou mal, facilitavam depois a reorganização dos partidos.

Uma profunda mudança é necessária e os partidos terão de descobrir o povo. Não dá mais para fazer política achando que basta ter o apoio de uma elite e repercutir o que faz na mídia para ganhar todos os eleitores. Se os partidos não se dedicarem a uma composição orgânica, pensarem ideologicamente e se definirem claramente, será muito difícil manter esse quadro. Não é só uma questão de esquerda, direita e centro, mas de qualidade dos partidos políticos brasileiros. Precisam mudar obrigatoriamente sua qualidade de representação política ou senão vai ficar essa instabilidade toda. O PT é o único que tem alguma consistência e está crescendo muito, o PMDB não tem consistência, mas se mantém pelo poder regional que possui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – http://www.unisinos.br/ihu/