Brasil é o que tem mais a ganhar com formalização dos BRICs

Américo Martins

A criação oficial de um grupo que reúna os quatro países dos BRICs parece ser mais importante para o Brasil do que para os outros três parceiros do grupo – Rússia, Índia e China.

Líderes de Índia, Rússia, China e Brasil durante encontro em 2008, no Japão

Países pretendem fazer primeira cúpula oficial dos BRICs neste ano.

Os quatro países preparam o primeiro encontro oficial dos BRICs (grupo que até hoje existe apenas como um conceito formulado pelo mercado financeiro para se referir às grandes economias emergentes) para meados deste ano.

A intenção é discutir interesses comuns e uma possível estratégia conjunta para enfrentar a crise econômica mundial.

O grande problema, no entanto, é o fato de que os interesses do grupo são muitas vezes distintos – tanto do ponto de vista econômico, como político. Além disso, não se sabe o grau de importância real que cada país daria ao grupo.

Associação direta

O Brasil, que vem aumentando visivelmente a sua atuação diplomática nos últimos anos e pretende ser reconhecido como muito mais do que uma potência regional, provavelmente vai tratar o grupo como uma de suas prioridades internacionais.

Afinal, o país ganha ainda mais peso ao ser associado diretamente com uma potência econômica como a China ou a um país líder na produção de energia como a Rússia.

Para os outros países, no entanto, o grupo pode acabar não sendo tão prioritário. Mesmo que os três consigam maiores benefícios com uma ação conjunta dos BRICs, eles já têm um envolvimento maior do que o do Brasil em algumas áreas chave da política internacional.

Os três parceiros do Brasil são potências militares estabelecidas e todos possuem a bomba atômica – o que lhes confere um peso diferente na grande maioria das negociações internacionais.

China e Rússia têm assentos permanentes no Conselho de Segurança da ONU, o mais importante fórum de política externa do planeta.

Além disso, a Rússia faz parte do G8 e a economia chinesa já é a terceira maior do mundo.

A Índia é tida como o país mais importante para garantir algum nível de estabilidade no Sul da Ásia, uma das regiões mais voláteis e importantes para a política externa das grandes potências ocidentais, e sua economia é uma das que mais cresce no mundo.

A lista inclui ainda fatores como o tamanho dos mercados consumidores de Índia e China e o fato de a Rússia ser a maior fornecedora de energia para a Europa.

Economia

Ou seja, do ponto de vista da diplomacia internacional, Rússia, China e Índia têm um papel muito maior do que o Brasil.

O que ajuda o Brasil a ganhar mais peso, tanto dentro dos BRICs como em relação ao resto do mundo, é a estabilidade econômica criada na última década e o crescimento do PIB nacional.

Neste quesito, o Brasil está muito melhor, por exemplo, do que a Rússia – que chegou a ser colocada fora do grupo dos BRICs por alguns analistas financeiros internacionais.

E é por isso que a crise econômica mundial veio em péssima hora para o Brasil.

Como os setores mais afetados da economia brasileira são justamente os mais ligados à exportação, dada a queda de demanda internacional, o país perde poder de barganha em negociações comerciais.

A expectativa de estagnação no crescimento do PIB este ano também cria problemas para o Brasil, especialmente se comparado ao crescimento forte que Índia e China registrarão este ano – embora também estejam sofrendo com a crise.

Além disso, a crise afugenta investimentos internacionais e, caso se prolongue por muito tempo, pode afetar inclusive a positiva percepção que a maioria dos países estrangeiros têm do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Com a economia desacelerando, o Brasil fica ainda mais dependente do carisma do próprio presidente Lula no cenário internacional.

Um grande teste será a reunião do G20 em Londres esta semana.

A reunião dá ao presidente uma oportunidade para influenciar os outros chefes de Estado e se colocar como uma espécie de porta-voz de parte do mundo em desenvolvimento.

Caso o presidente seja bem sucedido, o Brasil ganhará mais prestígio tanto no cenário internacional como na relação com os outros países dos BRICs.

Fonte: BBC Brasil – http://www.bbc.co.uk/portuguese/

Desespero pela Cura do Autismo

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Os diagnósticos evoluíram, mas são poucos os tratamentos eficazes. Pais recorrem a terapias alternativas suspeitas e, com frequência, arriscadas.

Nancy Shute

QUANDO SE DIAGNOSTICOU AUTISMO em Benjamin, seu primogênito, Jim Laidler e sua esposa começaram a buscar ajuda. “Os neurologistas diziam: ‘Não sabemos as razões para o autismo nem quais serão as consequências para seu filho’”, relata Laidler. “Ninguém dizia: ‘Essas são as causas; esses, os tratamentos’.”

Mas, ao pesquisarem na internet, os Laidlers, moradores de Portland, no estado americano de Oregon, encontraram dúzias de tratamentos “biomédicos” que prometiam amenizar ou mesmo curar a incapacidade de Benjamin de falar, interagir socialmente ou controlar seus movimentos. E, assim, os Laidlers testaram essas terapias em seus fi lhos; começaram com vitamina B6 e magnésio, dimetilglicina e trimetilglicina – suplementos nutricionais –, vitamina A, dietas livres de glúten e caseína, secretina – hormônio envolvido na digestão – e quelação, terapia medicamentosa destinada a eliminar chumbo e mercúrio presentes no organismo. Aplicaram esses supostos tratamentos a David, irmão caçula de Benjamim, também diagnosticado com autismo. A quelação não pareceu ser de muita ajuda. Foi difícil perceber qualquer efeito decorrente da secretina. As dietas trouxeram esperança; para onde fossem, os Laidlers carregavam a própria comida. E Papai e Mamãe continuaram a alimentar os garotos com inúmeros suplementos, modifi cando as doses de acordo com cada alteração comportamental.

O primeiro sinal de fracasso dessas experiências veio quando a mulher de Laidler, cada vez mais cética, interrompeu a administração dos suplementos a Benjamin. Ela esperou dois meses para revelar esse segredo ao marido. Seu silêncio chegou ao fi m quando Benjamin, em uma viagem da família à Disneylândia, pegou um waffl e de cima de um bufê e o devorou. Os pais observaram a cena horrorizados, convencidos de que o garoto teria uma regressão do quadro no mesmo instante em que sua dieta restrita fosse interrompida. Mas isso não aconteceu.

Jim Laidler tinha o dever de saber disso: é anestesista. Desde o começo, estava ciente de que os tratamentos usados em seus fi lhos não passaram por testes clínicos aleatórios,

o padrão-ouro para terapias médicas. “No princípio, tentei resistir”, justifi ca. Mas a esperança venceu o ceticismo.

Todos os anos, centenas de milhares de pais sucumbem à mesma tentação de encontrar algo capaz de aliviar os sintomas de seus sofridos fi lhos e fi lhas: ausência de fala ou comunicação, interações sociais ineptas, comportamentos repetitivos ou restritos, como bater palmas ou fi xar-se em um objeto. De acordo com alguns estudos, quase 75% das crianças autistas recebem tratamentos “alternativos” não desenvolvidos pela medicina convencional. Além disso, essas terapias frequentemente são enganosas; não passam por testes de segurança ou efi cácia, podem ser caras e, em alguns casos, produzir danos.

SEM CAUSA, SEM CURA

AUMENTA MUITO A DEMANDA PARA O TRATAMENTO DE AUTISMO, pois mais crianças estão sendo diagnosticadas sob critérios cada vez mais amplos. No início dos anos 1970, quando o autismo era conhecido como “psicose infantil” – mistura de défi cits sociais e defi ciência mental –, considerava-se essa condição rara. Os pediatras recomendavam aos pais já afl itos de uma criança de 8 meses que, por exemplo, não fazia contato ocular que “dessem tempo ao tempo”.

Estudos indicavam, nos Estados Unidos, que cerca de 5 crianças em 10 mil apresentavam autismo, mas essa proporção aumentou quando os médicos redefi niram a condição como transtorno do espectro autista, que inclui sintomas mais leves. Com a publicação, em 1994, da versão atualizada da bíblia da psiquiatria, o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, conhecido como DSM, incluíram-se a síndrome de Asperger – condição altamente incapacitante, popularizada pelo fi lme Rain Man – e um grupo abrangente, denominado “transtornos invasivos do desenvolvimento, sem outra especifi cação”. Os médicos também começaram a perceber os benefícios do diagnóstico e tratamento precoces. Em 2007, a Academia Americana de Pediatras recomendava a avaliação universal para autismo de todas as crianças entre 18 e 24 meses. Nessa época, a taxa de incidência de autismo disparou para 1 em 110 crianças.

É controverso dizer que diagnósticos mais sofi sticados refl etem um aumento real dos casos, pois pouco se sabe sobre as causas desse problema. “Na grande maioria dos portadores de autismo, não conseguimos identifi car nenhum fator genético claro”, indigna-se David Amaral, diretor de pesquisa do Instituto Mind, ligado à University of California em Davis, e presidente da Sociedade Internacional de Pesquisa do Autismo. Não há biomarcadores disponíveis para indicar as crianças sob risco nem para aferir a efi cácia dos tratamentos. O conjunto mais substancial de pesquisa está relacionado às intervenções comportamentais destinadas a ensinar interação social e comunicação, que parecem ajudar de várias formas algumas crianças.

A falta de terapias empiricamente comprovadas torna mais fácil “vender a esperança”, trabalho dos vendedores de tratamentos não testados. “O que se tem é uma combinação de pseudociência e fraude”, considera Stephen Barrett, psiquiatra aposentado de Chapel Hill, na Carolina do Norte, que escreve sobre terapias médicas duvidosas em seu site Quackwatch.com. “Os pais estão sob grande estresse. E querem ajudar muito seus fi lhos a melhorar. Com o tempo, percebem uma recuperação, mas dão créditos às coisas erradas.” Esses ganhos não são decorrentes do “tratamento”, elucida o psiquiatra, mas do desenvolvimento da criança com o passar dos anos.

Proliferam na internet os vendedores de fórmulas mágicas. Um site afi rma que os pais podem “combater o autismo de seus fi lhos” ao comprar um livro de US$ 299; outro veicula um vídeo de “uma menina autista que apresenta melhoras após receber injeções de células- tronco”. Muitos pais confessam obter informações da internet e, segundo o cientista associado do Centro de Estudo Infantil de Yale, Brian Reichow, “vários deles se baseiam em relatos fantasiosos, amigos ou outros parentes”. “Quando se trata de autismo, a pesquisa não sobrepujou os tratamentos.”

Ter esperança também não custa barato. Tratamentos alternativos, como a câmara hiperbárica de oxigênio (empregada para reverter a doença da descompressão), que eleva por algum tempo os níveis de oxigênio sanguíneo, custam US$ 100 por hora ou mais, com uma ou duas sessões de uma hora recomendadas diariamente. As terapias de integração sensorial – que podem variar de envolver a criança em cobertores ou acomodá-la em uma máquina de abraçar para brincar com massas de modelar aromatizadas – podem custar até US$ 200 a hora. Os prestadores desses serviços chegam a cobrar US$ 800 a hora por uma consulta e milhares a mais por vitaminas, suplementos e exames laboratoriais. Pais sob monitoramento contínuo da Rede Interativa de Autismo, ligada ao Instituto Kennedy Krieger de Baltimore, relatam gastar uma média de US$ 500 mensais. O único tratamento para autismo que provou ser algo efi caz – a terapia do comportamento – pode também ser o mais caro, pelo menos US$ 33 mil anuais. Embora esses custos geralmente sejam cobertos por programas governamentais de intervenção precoce e pelas redes de escolas públicas, pode ser longa a espera por serviços e avaliações gratuitos. Dito isso, os custos médicos e não médicos do autismo crescem a uma média de US$ 72 mil ao ano, de acordo com a Escola de Saúde Pública de Harvard.

POÇÕES MÁGICAS

A NÃO COMPROVAÇÃO DOS TRATAMENTOS se estende às medicações. Alguns

médicos prescrevem drogas aprovadas para outras doenças. Os compostos incluem Lupron – bloqueador da produção orgânica de testosterona (nos homens) e estrogênio (nas mulheres) –, usado para tratar câncer de próstata e “castrar quimicamente” estupradores. Os médicos também receitam Actos, medicamento utilizado na diabetes, e imunoglobulina G intravenosa, geralmente administrada em pacientes com leucemia e aids pediátrica. Todas as três medicações têm graves efeitos colaterais, e sua efi cácia e segurança no combate ao autismo nunca foram testadas.

Outra terapia médica reconhecida que se transformou em “cura” para o autismo é a quelação, principal tratamento para intoxicação por chumbo. A droga converte chumbo, mercúrio e outros metais em compostos quimicamente inertes, que podem ser excretados pelo corpo via urina. Algumas pessoas acreditam que a exposição a esses metais, em particular o metilmercúrio (usado como conservante em vacinas), pode levar ao autismo, mesmo que nenhum estudo tenha demonstrado essa ligação. Na verdade, a taxa de diagnóstico de autismo continuou a crescer após a retirada do metilmercúrio da maioria das vacinas, em 2001. A quelação pode provocar insufi ciência renal, especialmente na forma intravenosa, a mais indicada para o autismo. Em 2005, um menino autista de 5 anos morreu, na Pensilvânia, após receber a quelação intravenosa.

Em 2006, uma preocupação com esse quadro levou o Instituto Nacional de Saúde Mental (NIMH, na sigla em inglês) a anunciar planos para a realização de experimentos de quelação controlados aleatoriamente para autismo. Mas o Instituto engavetou o estudo em 2008, pois os pesquisadores não conseguiram encontrar “uma evidência clara de benefício direto”, e o tratamento colocava as crianças em um “risco superior ao mínimo”. Em parte, o receio dos cientistas do Instituto surgiu de estudos laboratoriais demonstrando problemas cognitivos em ratos que receberam a quelação e não apresentavam intoxicação por metais. “Não acho que alguém tinha muita fé nesse tratamento como a solução para um grande número de crianças”, adverte o diretor do NIMH, Thomas R. Insel. Seus pesquisadores, acrescenta, estão “mais interessados em testar medicamentos que apresentem uma base mecânica”.

Como era de esperar, o cancelamento do estudo alimentou acusações de que a Grande Ciência ignorava as terapias alternativas. Sempre se injetou mais dinheiro para descobrir novas curas que dão certo que para desacreditar aquelas que não funcionam. Até recentemente, a maior parte das investigações sobre autismo foi conduzida dentro dos campos das ciências sociais e da educação especial, áreas em que os orçamentos para pesquisa são modestos e os protocolos, muito diferentes dos empregados na medicina. Às vezes, há o envolvimento de somente uma criança no estudo. “Nem podemos chamar isso de evidência”, critica Margaret Maglione, diretora- associada do Centro Sul-californiano de Prática baseada em Evidência (ligada à corporação Rand).

Simplesmente não há uma pesquisa científi ca de ponta sobre tratamentos para autismo; quando existe, a quantidade de indivíduos estudados é, em geral, pequena. Em 2007, a Colaboração Cochrane, órgão independente avaliador da pesquisa médica, promoveu uma revisão das dietas livres de glúten e caseína, baseadas na premissa de que os compostos presentes na caseína, uma proteína láctea, e no glúten, uma proteína do trigo, interferem nos receptores cerebrais. A Cochrane identifi cou dois experimentos clínicos muito pequenos, um com 20 participantes e outro com 15. O primeiro estudo revelou certa redução nos sintomas de autismo; o segundo nada encontrou. Um novo exame leatoriamente controlado em 14 crianças, publicado em maio deste ano por Susan Hyman – professora-associada de pediatria da Escola de Medicina e Odontologia da University of Rochester –, não identifi cou alterações nos padrões de atenção, sono e evacuação, nem no comportamento autista característico. “Paulatinamente, acumulam- se indícios de que (a dieta) não traz tantos benefícios quanto o esperado”, explica Susan E. Levy, pediatra do Hospital Infantil de Filadélfi a, que fez a análise das evidências em conjunto com Hyman.

É a primeira vez que Levy sente na pele o nível de esforço necessário para mudar a opinião pública. A secretina tornou-se uma commodity em alta depois de um estudo, em 1998, apontar que três crianças apresentarammelhoras no contato visual, no grau de alerta e no uso signifi cativo da linguagem, após receberem o hormônio durante um procedimento diagnóstico para complicações gastrintestinais. A imprensa, incluindo o Good Morning America e o Ladies’ Home Journal, divulgou relatos exultantes de pais que viram seus fi lhos transformados. O Instituto Nacional de Desenvolvimento Humano e Saúde Infantil se apressou em fi nanciar experimentos clínicos. Até maio de 2005, cinco estudos clínicos aleatórios não haviam conseguido revelar qualquer benefício, e o interesse pela secretina desapareceu. Passaram anos para pôr um ponto fi nal nessa história, revela Levy, que auxiliou na condução de várias dessas experiências: “A pesquisa é muito trabalhosa e o progresso pode ser lento”. Os pais podem se sentir desamparados, acrescenta a pediatra, e “querem esgotar todas as alternativas possíveis”.

A boa notícia é que a maior demanda por terapias comprovadas está atraindo investimentos para pesquisa. Em 2001, quando se realizou o primeiro Encontro Internacional para Pesquisa em Autismo, não havia mais que 250 participantes. Em maio último, na Filadélfi a, 1,7 mil pesquisadores, estudantes de graduação e defensores dos interesses de pais participaram do congresso. Novas tecnologias e uma ampliação da consciência da população ajudaram o autismo a se tornar um objeto de pesquisa mais atrativo. E, em meados dos anos 1990, os pais começaram a adotar sofi sticadas táticas de lobby e arrecadação de fundos, empregadas para aids e câncer de mama, recorrendo a fundações e ao governo federal. Como resultado, na última década o fi nanciamento para pesquisa em autismo nos Estados Unidos subiu 15% ao ano, com ênfase nas aplicações clínicas. Em 2009, os Institutos Nacionais de Saúde alocaram US$ 132 milhões em recursos para o trabalho com autismo, com um adicional de US$ 64 milhões decorrentes da Lei para a Recuperação e Reinvestimento Americanos [American Recovery and Reinvestiment Act]; boa parte dessa verba é destinada ao desenvolvimento de protocolos de pacientes e outras ferramentas investigativas. Em 2008, as fundações privadas, incluindo a Fundação Simons e a Autism Speaks, ontribuíram com US$ 79 milhões. Segundo a Autism Speaks, investiram-se aproximadamente 27% de todos os recursos em tratamentos investigativos; 29%, nas causas; 24%, em biologia básica; 9%, em diagnóstico.

Essas buscas recentes reúnem esforços para descobrir se a intervenção precoce com terapias do comportamento – que ensinam habilidades sociais por meio do reforço e recompensa – pode ser usada de maneira bem-sucedida em crianças muito novas, quando o cérebro é mais fl exível ao aprendizado da linguagem e da interação social. Um estudo conduzido por várias universidades, lançado on-line em novembro de 2009, revelou ganhos substanciais nas habilidades linguísticas, na realização de atividades cotidianas e no QI (17,6 pontos, em comparação com 7 pontos no grupo-controle) de crianças submetidas à terapia comportamental por 31 horas semanais, durante dois anos, começando quando tinham entre 18 e 30 meses. Sete das 24 crianças no grupo de tratamento melhoraram tanto que seu diagnóstico evoluiu de autismo para “sem outra especifi cação”, a forma mais leve; somente uma criança das 24 expostas a outras intervenções recebeu um diagnóstico mais brando. A Rede de Tratamento de Autismo criou um registro de mais de 2,3 mil crianças, a fi m de pesquisar tratamentos para as complicações médicas habitualmente sofridas por autistas (em particular problemas gastrintestinais e difi culdades no sono), e planeja desenvolver guias passíveis de ser usados por pediatras nos Estados Unidos.

POR UMA CIÊNCIA REAL DO AUTISMO NO AFÃ DE ENCONTRAR EDICAMENTOS, incluindo aqueles usado sem outros distúrbios neurológicos, obstáculos mais difíceis devem ser vencidos. As intervenções médicas até agora foram “um pouco desanimadoras”, lamenta Insel. Antidepressivos, por exemplo, que estimulam a produção cerebral de serotonina, um neurotransmissor, são muito efi cazes em reduzir os movimentos de mão repetidos nos transtornos obsessivocompulsivos, mas, em agosto, uma revisão patrocinada pela Colaboração Cochrane revelou que essas drogas não aliviaram os movimentos repetidos típicos do autismo. Entre as novas candidatas estão uma medicação que desencadeia o sono de movimento rápido dos olhos, ausente na criança autista, e a ocitocina, um hormônio indutor do parto e da lactação que, supostamente, estimularia os laços entre mãe e fi lho. Em fevereiro, estudo publicado pelo Centro Nacional de Pesquisa Científi ca francês descobriu que, após inalar ocitocina, 13 adolescentes portadores de Asperger apresentavam um melhor desempenho na identifi cação de imagens faciais. Mas, entre as evidências encontradas em um único estudo e a noção de que essa droga poderia aliviar os sintomas mais devastadores do autismo, há uma enorme distância. Nas palavras de Insel, “temos muito trabalho a fazer”.

E esse trabalho está começando a ser realizado. Em junho, uma associação de pesquisadores analisou os genes de 996 crianças da primeira à quinta série escolar e descobriu novas e raras variações genéticas em autistas. Muitas dessas imperfeições afetam genes que controlam a comunicação através das sinapses – os pontos de contato entre neurônios no cérebro, foco central das investigações sobre autismo. “As presentes mutações são diferentes [entre os indivíduos], mas há algumas vias biológicas em comum”, segundo Daniel Geschwind, um dos coordenadores dessa pesquisa e professor de neurologia e psiquiatria da Escola David Geff en de Medicina da UCLA. Geschwind é também fundador do Autism Genetic Resource Exchange, um banco de dados utilizado no estudo com amostras de DNA de mais de 1,2 mil famílias com casos de autismo. Os exames para confi rmar um culpado – ou comprovar tratamentos que possam corrigir as variações – ainda estão longe de ocorrer.

Por enquanto, os pais devem cada vez mais optar por não fazer experiências em seus fi lhos, isso se conseguirem dormir tranqüilos à noite. Quando seu fi lho, Nicholas, foi diagnosticado aos 2 anos, Michael e Alison Giangregorio, moradores de Merrick (estado de Nova York), decidiram usar somente tratamentos com bases científi cas, como a análise comportamental aplicada. “É muito difícil e desafi ador ajudar meu fi lho”, desabafa Michael. “Não estava disposto a tentar terapias experimentais. Era meu dever aplicar somente aquilo em que médicos e pesquisadores despenderam tempo para comprovar o funcionamento e provar que não causaria nenhum dano adicional.” Hoje, Nicholas tem 9 anos e, embora permaneça não verbal, a terapia do comportamento o ensinou a usar sinais físicos para indicar quando precisa ir ao banheiro. Agora, ele pode lavar suas mãos, sentar-se à mesa em um restaurante e caminhar pelos corredores de uma farmácia sem fi car batendo palmas. “Obviamente, o objetivo da minha e da maioria das famílias é levar a vida mais normal possível”, relata Michael, executivo de Wall Street, de 45 anos. “Normal é sair para jantar com a família.”

Fonte: Scientific American Brasil – http://www2.uol.com.br/sciam/

Reino Unido revela um pacote de austeridade de 81 bilhões de libras

Daniel Pimlott
Chris Giles

A coalizão liderada pelos conservadores do Reino Unido anunciou uma nova era de austeridade no setor público no Reino Unido, descrevendo planos para cortes de 81 bilhões de libras (R$ 215 bi) em gastos do governo, o que supera em muito as medidas tomadas por outras economias avançadas.

Declarando que “hoje é o dia em que o Reino Unido volta da beira do abismo”, George Osborne, chanceler do erário, revelou reduções dramáticas para vários departamentos importantes nos próximos quatro anos, uma queda de 7 bilhões de libras para o bem-estar social e confirmou que cerca de 490.000 empregos serão perdidos no setor público até 2014-15.
Dizendo que as perdas são “inevitáveis quando o governo fica sem dinheiro”, Osborne insistiu que o governo de coalizão ia proteger a maior parte dos orçamentos das escolas e manter seus projetos de saúde e assistência exterior.
“Atacar o déficit do orçamento é inevitável”, disse Osborne ao parlamento. “Parar agora e abandonar nossos planos seria o caminho para a ruína econômica”.
Como parte dos cortes, centenas de diplomatas em Londres perderão suas funções, e a BBC vai assumir todo o custo da administração do World Service, que tem sido subsidiado pelo Ministério de Relações Exteriores.
A própria BBC concordou com um corte de financiamento de ao menos 360 milhões de libras, ou um terço da taxa de licença cobrada para financiar seus serviços. Os cortes equivalem ao orçamento de todos os serviços nacionais de rádio combinados.
O governo vai sofrer mais do que os outros setores, com reduções de quase 30% até o final do parlamento em 2015. Os Ministérios do Interior e de Relações Exteriores terão seus orçamentos reduzidos em 24%. A força policial terá seu orçamento podado em 16%.
Duas áreas –o orçamento de ciência de 4,6 bilhões de libras e a ajuda exterior, que vai atingir 0,7% do PIB até 2013 –tiveram seus gastos protegidos.
Osborne insistiu que o imposto sobre os balanços dos bancos ia levantar mais por ano do que o imposto sobre os bônus dos banqueiros. Introduzido pelo governo trabalhista anterior, este levantou cerca de US$ 2 bilhões líquidos no ano passado.
Ele confirmou que o governo estava aumentando a idade de aposentadoria para 66 a partir de 2020, com o aumento gradual sendo iniciado em 2018. Uma tentativa da França de aumentar a idade de aposentadoria de 60 para 62 anos levou a greves paralisantes.
Na terça-feira (19), cortes de 8% no orçamento de defesa foram descritos separadamente na revisão de defesa estratégica. O Ministério da Defesa e as forças armadas perderão 42.000 empregos até 2015.

Fonte: Financial Times – http://noticias.uol.com.br/

Manuscritos Econômico-Filosóficos

Karl Marx

Terceiro Manuscrito

Propriedade Privada e Comunismo

ad página XXXIX. Todavia, a antítese entre a não-posse de propriedade (*) e propriedade ainda é uma antítese indeterminada, não concebida em sua referência ativa às relações intrínsecas, não concebidas ainda como uma contra dição, desde que não é compreendida como uma antítese entre trabalho e capital. Mesmo sem a expansão evoluída da propriedade privada, p. ex., na Roma antiga, na Turquia, etc., esta antítese pode ser expressa em uma forma primitiva. Nesta forma, ela não aparece ainda como estabelecida pela própria propriedade privada. O trabalho, porém, a essência subjetiva da propriedade privada como exclusão de propriedade, e o capital, trabalho objetivo como exclusão de trabalho, constituempropriedade privada como a relação ampliada da contradição e, pois, uma relação dinâmica que tende a resolver-se.

ad ibidem. A substituição do auto-alheamento segue a mesma marcha do auto-alheamento. A propriedade privada é primeiro considerada somente em seu aspecto objetivo, mas considerado o trabalho como sua essência. Sua maneira de existir, portanto, é o capital, que é necessário abolir, "como tal". (Proudhon.) Ou, então, a forma específica de trabalho (trabalho que é levado a um nível comum, subdividido e, por isso, não-livre) é visto como a fonte da nocividade da propriedade privada e de sua alienação em relação ao homem. Fourier, de acordo com os Fisiocratas, encara o trabalho agrícola como sendo, no mínimo, o tipo exemplar de trabalho. Saint-Simon assevera, pelo contrário, ser o trabalho industrial, como tal, a essência do trabalho, e em conseqüência pleiteia o papel exclusivo dos industriais e um melhoramento da situação dos operários. Finalmente, o comunismo e a expressão positiva da abolição da propriedade privada e, em primeiro lugar, da propriedade privada universal. Entendendo essa relação em seu aspecto universal, o comunismo é (1) em sua primeira forma, apenas a generalização e concretização dessa relação. Como tal, ele aparece numa forma dupla; a ascendência da propriedade material avulta de tal maneira que visa a destruir tudo que for incapaz de ser possuído por todos como propriedade privada. Ele quer abolir o talento, etc., pela força. A posse física imediata parece-lhe a única meta da vida e da existência. O papel do trabalhador não é abolido, mas ampliado a todos os homens. A relação da propriedade privada continua a ser a da comunidade com o mundo das coisas. Por fim, essa tendência a opor a propriedade privada em geral à propriedade privada é expressa de maneira animal; o casamento (que é incontestavelmente a forma de propriedade privada exclusiva) é posto em contraste com a comunidade das mulheres, em que estas se tornam comunais e propriedade comum. Pode-se dizer que essa idéia de comunidade das mulheres é o segredo de Polichinelo desse comunismo inteiramente vulgar e irrefletido. Assim como as mulheres terão de passar do matrimônio para a prostituição universal, igualmente todo o mundo das riquezas (i. é, o mundo objetivo do homem) terá de passar da relação de casamento exclusivo com o proprietário particular para a de prostituição universal com a comunidade. Esse comunismo, que nega a personalidade do homem em todos os setores, é somente a expressão lógica da propriedade privada, que é essa negação. A inveja universal estabelecendo-se como uma potência é apenas uma forma camuflada de cupidez que se reinstaura e satisfaz de maneira diferente. Os pensamentos de toda propriedade privada individual são, pelo menos, dirigidos contra qualquer propriedade privada mais abastada, sob a forma de inveja e do desejo de reduzir tudo a um nível comum; destarte, essa inveja e nivelamento por baixo constituem, de fato, a essência da competição. O comunismo vulgar é apenas o paroxismo de tal inveja e nivelamento por baixo, baseado em um mínimo preconcebido. Quão pouco essa eliminação da propriedade privada representa uma apropriação genuína é demonstrado pela negação abstrata de todo o mundo da cultura e da civilização, e pelo retorno â simplicidade inatural (IV) do pobre e indigente que não só ainda não ultrapassou a propriedade privada, mas nem ainda a atingiu.

A comunidade é só uma comunidade de trabalho e de igualdade de salários pagos pelo capital comunal, pela comunidade como capitalista universal. Os dois aspectos da relação são elevados a uma suposta universalidade; o trabalho como uma situação em que todos são colocados, e ocapital como a universalidade e poder admitidos na comunidade.

Na relação com a mulher, como presa e serva da luxúria comunal, manifesta-se a infinita degradação em que o homem existe para si mesmo; pois o segredo dessa relação encontra sua expressão inequívoca, inconteste, franca e patente na relação do homem com a mulher e na maneira pela qual se concebe a relação direta e natural da espécie. A relação imediata, natural e necessária de ser humano como ser humano é também a relação do homem com a mulher. Nesta relação natural da espécie, a relação do homem com a natureza é diretamente sua relação com o homem, e sua relação com o homem é diretamente sua relação com a natureza, com sua própria função natural. Portanto, nessa relação se revela sensorialmente, reduzida a um fato observável, até que ponto a natureza humana se tornou natureza para o homem e a natureza se tornou natureza humana para ele. Dessa relação, pode-se estimar todo o nível de evolução do homem. Conclui-se, do caráter dessa relação, até que ponto o homem se tornou, e se entende assim, um ser-espécie, um ser humano. A relação do homem com a mulher é a mais natural de ser humano com ser humano. Ela indica, por conseguinte, até que ponto o comportamento natural do homem se tornou humano, e até que ponto sua essência humana se tornou uma essência natural para ele, até que ponto sua natureza humana se tornou natureza para ele. Também mostra até que ponto as necessidades do homem se tornaram necessidades humanas e, conseqüentemente, até que ponto a outra pessoa, como pessoa, se tornou uma de suas necessidades, e até que ponto ele é, em sua existência individual, ao mesmo tempo um ser social. A primeira anulação positiva da propriedade privada, o comunismo vulgar, é, portanto, apenas uma forma fenomenal da infâmia da propriedade privada representando-se como comunidade positiva.

(2) O comunismo (a) ainda político em sua natureza, democrático ou despótico; (b) com a abolição do Estado, mas ainda incompleto e influenciado pela propriedade privada, isto é, pela alienação do homem. Em ambas as formas, o comunismo já se dá conta de ser a reintegração do homem, seu retorno a si mesmo, o repúdio da auto-alienação do homem. Porém, como ainda não aprendeu a natureza positiva da propriedade privada, ou a natureza humana das necessidades, ainda se acha cativo e contaminado pela propriedade privada. Compreendeu bem o conceito, mas não a essência.

(3) O comunismo é a abolição positiva da propriedade privada, da auto-alienação humana e, pois, a verdadeira apropriação da natureza humana através do e para o homem. ele é, portanto, o retorno do homem a si mesmo como um ser social, isto é, realmente humano, um regresso completo e consciente que assimila toda a riqueza da evolução prece dente. O comunismo como um naturalismo plenamente desenvolvido é humanismo e como humanismo plenamente desenvolvido é naturalismo. É a resolução definitiva do antagonismo entre o homem e a natureza, e entre o homem e seu semelhante. É a verdadeira solução do conflito entre existência e essência, entre objetificação e auto-afirmação, entre liberdade e necessidade, entre indivíduo e espécie. É a resposta ao enigma da História e tem conhecimento disso.

(V) Assim, todo o desenvolvimento histórico, tanto a gênese real do comunismo (o nascimento de sua existência empírica) quanto sua consciência pensante, e seu processo entendido e consciente de vir-a-ser; ao passo que o outro, o comunismo ainda não desenvolvido procura, em certas formas históricas contrarias a propriedade privada, uma justificação baseada no que já existe e, com esse fito, arranca de seu contexto elementos isolados desse desenvolvimento (Cabet e Villegardelle destacam-se entre os que se dedicam a esse passatempo), apresentando-os como provas de seu pedigree histórico. Ao fazê-lo ele deixa claro que, de longe, a mor parte desse desenvolvimento contradiz suas próprias afirmações e que, se jamais existiu, sua existência pretérita refuta sua pretensão a entidade essencial.

É fácil entender a necessidade que leva todo movimento revolucionário a encontrar sua base empírica, assim como a teórica, na evolução dapropriedade privada e, mais precisamente, do sistema econômico.

Essa propriedade privada material, diretamente perceptível, é a expressão material e sensória da vida humana alienada. Seu movimento produção e consumo – e a manifestação sensória do movimento de toda a produção anterior, i. é, a realização ou realidade do homem. A religião, a família, o Estado, o Direito, a moral, a ciência, a arte, etc., são apenas formas particulares de produção e enquadram-se em sua lei geral. A substituição positiva da propriedade privada como apropriação da vida humana, portanto, é a substituição de toda alienação, e o retorno do homem, da religião, do Estado, da família, etc., para sua vida humana, i.é, social. A alienação religiosa como tal, ocorre somente no campo da consciência, na vida interior do homem, mas a alienação econômica e a da vida real, e por isso, sua substituição afeta ambos os aspectos. Está claro, a evolução em diferentes nações tem início diferente, conforme a vida efetiva e estabelecida das pessoas esteja mais vinculada ao reino da mente ou ao mundo exterior, seja mais uma vida real ou ideal. O comunismo começa onde começa o ateísmo (Owens), mas o ateísmo de início está bem longe de ser comunismo; de fato, ele é, na maior parte, ainda uma abstração. Assim, a filantropia do ateísmo é, a princípio, unicamente uma filantropia filosófica abstrata, enquanto a do comunismo é desde logo real e orientada e voltada para a ação.

Vimos como, na suposição da propriedade privada ter sido positivamente revogada, o homem produz o homem, a si mesmo e a outros homens; como o objeto que é a atividade direta de sua personalidade, ao mesmo tempo é a existência dele para outros homens e a destes para ele. Analogamente, o material do trabalho e o próprio homem como sujeito são o ponto de partida, bem como o resultado, desse movimento (e porque deve haver esse ponto de partida, a propriedade privada é uma necessidade histórica). Por conseguinte, o caráter social e o caráter universal de todo o movimento; da mesma forma que a sociedade produz o homem como homem, também ela é produzida por ele. A atividade e o espírito são sociais em seu conteúdo, assim como em sua origem; eles são atividade social e espírito social. O significado humano da natureza só existe para o homem social, porque só neste caso a natureza é um laço com outros homens, a base de sua existência para outros e da existência destes para ele. Só, então, a natureza e a base da própria experiência humana dele e um elemento vital da realidade humana. A existência natural do homem tornou-se, com isso, sua existência humana, e a própria natureza tornou-se humana para ele. Logo, a sociedade é a união efetiva do homem com a natureza, a verdadeira ressurreição da natureza, o naturalismo realizado do homem e o humanismo realizado da natureza.

(VI) A atividade social e o espírito social não existem apenas, de forma alguma, sob a forma de atividade ou espirito que sela diretamente comunal. Sem embargo, a atividade e o espírito comunais, i. é, atividade e espírito que se exprimem e confirmam diretamente em associação realcom outros homens, ocorrem sempre onde essa expressão direta de sociabilidade brote do conteúdo da atividade ou corresponda à natureza do espírito.

Ainda quando realizo trabalho cientifico, etc., uma atividade que raramente posso conduzir em associação direta com outros homens, efetuo um ato social, por ser humano. Não é só o material de minha atividade – como a própria língua que o pensador utiliza – que me é dado como um produto social. Minha própria existência é uma atividade social. Por essa razão, o que eu próprio produzo, o faço para a sociedade, e com a consciência de agir como um ser social.

Minha consciência universal é apenas a forma teórica daquela cuja forma viva é a comunidade real, a entidade social, embora no presente essa consciência universal seja uma abstração da vida real e oposta a esta como uma inimiga. Por isso é que a atividade de minha consciência universal como tal é minha existência teórica como um ser social.

Acima de tudo, é mister evitar conceber a "sociedade" uma vez mais como uma abstração com que se defronta o indivíduo. O indivíduo é o ser social. A manifestação da vida dele – ainda quando não apareça diretamente sob a forma de manifestação comunal, realizada em associação com outros homens – é, por conseguinte, uma manifestação e afirmação de vida social. A vida humana individual e a vida-espécie não são coisas diferentes, conquanto o modo de existência da vida individual seja um modo mais especifico ou mais geral da vida-espécie, ou da vida-espécie seja um modo mais específico ou mais geral da vida individual.

Em sua consciência como espécie, o homem confirma sua verdadeira vida social, e reproduz sua existência real em pensamento; reciprocamente, a vida-espécie confirma-se na consciência como espécie e existe por si mesma em sua universalidade como ser pensante. Embora o homem seja um indivíduo original, e é justamente esta particularidade que o torna um indivíduo, um ser comunal realmente individual - ele é igualmente o conjunto, o conjunto ideal, a existência subjetiva da sociedade como é imaginada e vivenciada. Ele existe na realidade como a representação e o verdadeiro espirito da existência social, e como a soma da manifestação humana da vida.

Pensar e ser são deveras distintos, mas também formam uma unidade. A morte parece ser uma impiedosa vitória da espécie sobre o indivíduo e contradizer sua unidade; porém, o indivíduo em particular é apenas um determinado ente-espécie, e, como tal, mortal.

(4) Tal e qual a propriedade privada é a mera expressão sensorial do fato de o homem ser ao mesmo tempo um fato objetivo para si mesmo e tornar-se um objeto estranho e não-humano para si mesmo; tal e qual sua manifestação de vida é também sua alienação da vida e sua realização própria uma perda da realidade, o aparecimento de uma realidade estranha, assim também a revogação positiva da propriedade privada, i. é, a apropriação sensorial da essência humana e da vida humana do homem objetivo e das criações humanas, pelo e para o homem, não devem ser consideradas exclusivamente na acepção de fruição imediata e exclusiva, ou na de possuir ou ter. O homem apropria seu ser multiforme de maneira global, e portanto como homem integral. Todas as suas relações humanas com o mundo – ver, ouvir, cheirar, saborear, pensar, observar, sentir, desejar, agir, amar – em suma, todos os órgãos de sua individualidade, como órgãos que são de forma diretamente comunal (VII), são, em sua ação objetiva (sua ação com relação ao objeto) a apropriação desse objeto, a apropriação da realidade humana. A maneira pela qual eles reagem ao objeto é a confirmação da realidade humana. (1) É efetividade humana e sofrimento humano, pois o sofrimento, considerado humanamente, é uma fruição do eu pelo homem.

A propriedade privada tornou-nos tão néscios e parciais que um objeto só e nosso quando o temos, quando existe para nós como capital ou quando é diretamente comido, bebido, vestido, habitado, etc., em síntese, utilizado de alguma forma; apesar de a propriedade privada propriamente dita só conceber essas várias formas de posse como meios de vida e a vida para a qual eles servem como meios ser a vida da propriedade privada - trabalho e criação de capital.

Assim, todos os sentidos físicos e intelectuais foram substituídos pela simples alienação de todos eles, pelo sentido de ter. O ser humano tinha de ser reduzido a essa pobreza absoluta a fim de poder dar à luz toda sua riqueza interior. (Sobre a categoria de ter ver Hess em Einundzwanzig Bogen. )

A anulação da propriedade privada é, pois, a emancipação completa de todos os atributos e sentidos humanos. Ela é essa emancipação porque esses atributos e sentidos tornaram-se humanos, tanto sob o ponto de vista subjetivo quanto sob o objetivo. O olho tornou-se olho humano quando seu objeto passou a ser um objeto humano, social, criado pelo homem e a este destinado. Os sentidos, portanto, tornaram-se direta mente teóricos na prática. Eles se relacionam com a coisa em atenção a esta, mas a própria coisa é uma relação humana objetiva consigo mesma e com o homem, e vice-versa. (2) A necessidade e a fruição, portanto, perderam seu caráter egoísta, e a natureza perdeu sua mera utilidade pelo fato de sua utilização ter-se tornado utilização humana.

Semelhantemente, os sentidos e os espíritos dos outros homens tornaram-se sua própria apropriação. Logo, além desses órgãos diretos, são constituídos órgãos sociais sob a forma de sociedade; por exemplo, a atividade em associação direta com outros tornou-se um órgão para a manifestação da vida e um modo de apropriação da vida humana.

(1) Por conseguinte, ela valia tanto quanto as tendências da natureza e das atividades humanas.

(2) Na prática, só posso relacionar-me de maneira humana com uma coisa quando esta se relaciona de maneira humana com o homem.

É evidente que o olho humano aprecia as coisas de maneira diferente do olho bruto, não-humano, assim como o ouvido humano diferentemente do ouvido bruto. Conforme vimos, é só quando o objeto se torna um objeto humano, ou humanidade objetiva, que o homem não fica perdido nele. Isso somente é possível quando o objeto se torna um objeto social, e quando ele próprio se torna um ser social e a sociedade se torna para ele, nesse objeto, um ser.

Por um lado, é só quando a realidade objetiva em toda parte se torna para o homem-em-sociedade a realidade das faculdades humanas, a realidade humana, e portanto a realidade de suas próprias faculdades, que todos os objetos se tornam para ele a objetificação dele próprio. Os objetos, então, confirmam e realizam a individualidade dele, eles são os objetos dele próprio, i. e, o próprio homem torna-se o objeto. A maneira pela qual esses objetos passam a ser dele, depende da natureza do objeto e da natureza da faculdade correspondente, pois é exatamente o caráter determinado dessa relação que constitui o modo real específico de afirmação. O objeto não e o mesmo para o olho que para o ouvido, para o ouvido que para o olho. O caráter distintivo de cada faculdade é precisamente sua essência característica e, pois, também, o modo característico de sua objetificação, de seu ser objetivamente real, vivo. Portanto, não é apenas em pensamento (VIII), mas por intermédio de todos os sentidos que o homem se afirma no mundo objetivo.

Consideremos, a seguir, o aspecto subjetivo. O sentido musical do homem só é despertado pela música. A mais bela musica não tem significado para o ouvido não-musical, não e um objeto para ele, porque meu objeto só pode ser a corroboração de uma de minhas próprias faculdades. Ele só pode existir para mim na medida em que minha faculdade existe por si mesma como capacidade subjetiva, porquanto o significado de um objeto para mim só se estende até onde o sentido se estende (só faz sentido para um sentido adequado). Por essa razão, os sentidos do homem social são diferentes dos do homem não-social. E só por intermédio da riqueza objetivamente desdobrada do ser humano que a riqueza da sensibilidadehumana subjetiva (um ouvido musical, um olho sensível à beleza das formas, em suma, sentidos capazes de satisfação humana e que se confirmam como faculdades humanas) é cultivada ou criada. Pois não são apenas os cinco sentidos, mas igualmente os chamados sentidos espirituais, os sentidos práticos (desejar, amar, etc.), em suma, a sensibilidade humana e o caráter humano dos sentidos, que só podem vingar através da existência de seu objeto, através da natureza humanizada. O cultivo dos cinco sentidos é a obra de toda a história anterior. O sentido subserviente às necessidades grosseiras só tem um significado restrito. Para um homem faminto, a forma humana de alimento não existe, mas apenas seu caráter abstrato como alimento. Poderia muito bem existir na mais tosca forma, e é impossível afirmar de que modo essa atividade de alimentar-se diferia da dos animais. O homem necessitado, assoberbado de cuidados, não é capaz de apreciar o mais belo espetáculo. O vendedor de minerais só vê seu valor comercial, não sua beleza ou suas características particulares; ele não possui senso mineralógico. Assim, a objetificação da essência humana tanto teórica quanto praticamente, é necessária para humanizar os sentidos humanos, e também para criar os sentidos humanoscorrespondentes a toda a riqueza do ser humano e natural.

Exatamente como no início a sociedade encontra, graças ao desenvolvimento da propriedade privada com sua riqueza e pobreza (tanto intelectual quanto material), os materiais necessários para essa evolução cultural, assim também a sociedade plenamente constituída produz o homem em toda a plenitude de seu ser, o homem rico dotado de todos os sen tidos, como uma realidade permanente. E só em um contexto social que subjetivismo e objetivismo, espiritualismo e materialismo, atividade e passividade, deixam de ser antinomias e, assim, deixam de existir como tais antinomias. A resolução das contradições teóricas somente é possível através de meios práticos, somente através da energia prática do homem. Sua resolução não é, de forma alguma, portanto, apenas um problema de conhecimentos, mas um problema real da vida, que a filosofia foi incapaz de solucionar exatamente porque viu nele um problema puramente teórico.

Pode ser notado que a história da indústria, e a indústria como existe objetivamente, é um livro aberto das faculdades humanas, e uma psicologia humana que pode ser apreendida sensorialmente. Essa história não foi até aqui concebida com relação à natureza humana, mas só sob um ponto de vista utilitário superficial, desde que na situação de alienação só era viável conceber faculdades humanas reais e ação da espéciehumana sob a forma de existência humana em geral, como religião, ou como história em seu aspecto geral, abstrato, como política, arte e literatura, etc. A indústria material quotidiana (que pode ser concebida como parte daquela evolução geral; ou igualmente, a evolução geral pode ser concebida como parte específica da industria, visto que toda a atividade humana até agora tem sido trabalho, i. é, indústria, atividade auto-alienação) revela-nos, sob a forma de objetos úteis sensoriais, de maneira alienada, as faculdades humanas essenciais transformadas em objetos. Nenhuma psicologia para a qual esse livro, i. é, parte mais sensivelmente presente e acessível da História, permaneça fechado, pode tornar-se uma ciência de verdade com um conteúdo genuíno. Que se deve pensar de uma ciência que se mantém apartada de todo esse enorme campo do trabalho humano e que não se sente sua própria inadequação, mesmo que essa grande riqueza de atividade humana nada mais signifique para ela senão, quiçá, o que pode ser expresso na simples expressão – "necessidade", "necessidade comum"?

As ciências naturais desenvolveram uma atividade tremenda e reuniram uma sempre crescente massa de dados. Mas a filosofia tem-se mantido alheia a essas ciências, exatamente como elas o têm feito em relação à filosofia. Seu momentâneo rapprochement foi somente uma ilusãofantasiosa. Havia um desejo de união, mas faltou o poder para efetivá-la. A própria historiografia só leva a ciência natural em conta fortuitamente, encarando-a como um fator de esclarecimento, de utilidade prática e de determinados grandes descobrimentos. A ciência natural, contudo, penetrou mais praticamente na vida humana por intermédio da indústria. Ela transformou a vida humana e preparou a emancipação da humanidade, conquanto seu efeito imediato fosse acentuar a desumanização do homem. A indústria é a relação histórica concreta da natureza, e portanto da ciência natural, com o homem. Se a indústria é concebida como a manifestação exotérica das faculdades humanas essenciais, a essência humana da natureza e a essência natural do homem também podem ser entendidas. A ciência natural, então, abandonará sua orientação materialista abstrata, ou melhor, idealista, e se tornará a base de uma ciência humana, tal como já se converteu – malgrado de forma alienada – em base da vida humana prática. Uma base para a vida e outra para a ciência é, a priori , uma falsidade. A natureza, como se desenvolve através da história humana, no ato de gênese da sociedade humana, é a natureza concreta do homem; assim, a natureza, como se desenvolve por intermédio da indústria, embora de forma alienada, é verdadeiramente natureza antropológica.

A experiência dos sentidos (ver Feuerbach) tem de ser a base de toda ciência. A ciência só é ciência genuína quando procede da experiência dos sentidos, nas duas formas de percepção sensorial e necessidade sensória, i. é, só quando procede da natureza. O conjunto da História é uma preparação para o ‘homem" tornar-se um objeto da percepção sensorial, e para o desenvolvimento das necessidades humanas (as necessidades do homem como tal). A própria História é uma parte real da História Natural, do aperfeiçoamento da natureza até chegar ao homem. A ciência natural algum dia incorporará a ciência do homem, exatamente como a ciência do homem incorporará a ciência natural; haverá uma única ciência.

O homem é o objeto direto da ciência natural, porque a natureza diretamente perceptível é para o homem experiência sensorial. Sua própria experiência sensorial só existe como a outra pessoa que lhe é diretamente apresentada de maneira sensorial. Sua própria experiência sensorial só existe como experiência sensorial humana através da outra pessoa. Mas, a natureza é o objeto direto da ciência do homem. O primeiro objeto para o homem – o próprio homem – é a natureza, a experiência sensorial; e as faculdades humanas sensórias em particular, que só podem encontrar realização objetiva em objetos naturais, só podem alcançar o conhecimento próprio na ciência do ser natural. O próprio elemento do pensamento, o elemento da manifestação viva do pensamento, a linguagem, é de natureza sensorial. A realidade social da natureza e ciência natural humana ouciência natural do homem, são expressões idênticas.

A partir daqui, ver-se-á como, em lugar da riqueza e pobreza da Economia Política, teremos o homem rico e a plenitude da necessidade humana. O homem rico é, ao mesmo tempo, aquele que precisa de um complexo de manifestações humanas da vida, e cuja própria auto-realização existe como uma necessidade interior, como uma carência. Não só a riqueza como também a pobreza do homem, adquire, em uma perspectiva socialista, o significado humano, e portanto social. A pobreza é o vinculo passivo que leva o homem a experimentar uma carência da máxima riqueza, a outrapessoa. O ímpeto da entidade objetiva dentro de mim, a rotura sensorial de minha atividade vital, é a paixão que aqui se torna a atividade de meu ser.

(5) Um ser não se encara a si mesmo como independente a menos que seja seu próprio senhor, e ele só é seu próprio senhor quando deve sua existência a si mesmo. Um homem que vive pelo favor de outro, considera-se um ser dependente. Mas, eu vivo completamente por favor de outra pessoa quando lhe devo não apenas a continuação de minha vida, como igualmente sua criação; quando ele é a origem dela. Minha vida tem forçosamente uma causa assim extrínseca quando não é de minha própria criação. A idéia de criação, pois, é difícil de eliminar da consciência popular. Essa consciência e incapaz de conceber a natureza e o homem existindo por sua própria conta, pois tal existência contraria todos os fatos tangíveis da vida prática.

A idéia da criação da Terra recebeu sério golpe da ciência da geogenia, i. é, da ciência que descreve a formação e o desenvolvimento da Terra como um processo de geração espontânea. Generatio aequivoca (geração espontânea) é a única refutação prática da teoria da criação.

É fácil, todavia, deveras, dizer a um indivíduo em particular do que Aristóteles disse: você foi gerado por seu pai e sua mãe, e conseqüentemente foi o coito de dois seres humanos, um ato da espécie humana, que produziu o ser humano. Vê-se, pois, que mesmo em um sentido físico o homem deve sua existência ao homem. Por conseguinte, não basta ter em mente apenas um dos dois aspectos, a progressãoinfinita e perguntar a seguir: quem gerou meu pai e meu avô? Também se tem de ter em vista o movimento circular, perceptível nessa progressão, segundo o qual o homem, no ato da geração, reproduz-se a si mesmo: destarte, o homem sempre permanece como sujeito. Mas, responder-se-á: admito esse movimento circular, mas em troca você deve aceitar a progressão, que leva ainda mais adiante ao ponto onde eu pergunto: quem criou o primeiro homem e a natureza como um todo? Só posso responder: sua pergunta é, em si mesma, um produto da abstração. Pergunte a si mesmo como chegou a essa pergunta. Pergunte-se se sua pergunta não nasce de um ponto de vista a que eu não posso responder por que ele é deturpado. Pergunte-se se essa progressão existe como tal para o pensamento racional. Se você indaga acerca da criação da natureza e do homem, você está abstraindo estes. Você os supõe não-existentes e quer que eu demonstre que eles existem. Replico: desista de sua abstração e ao mesmo tempo você abandonará sua pergunta. Ou então, se você quer manter sua abstração, seja coerente, e se pensa no homem e na natureza como não-existentes (XI) pense também em você como não-existente, pois você também é homem e natureza. Não pense nem formule quaisquer perguntas, pois logo que você o faz sua abstração da existência da natureza e do homem se torna sem sentido. Ou será você tão egoísta que concebe tudo como não-existente, mas quer que você exista?

Você pode retrucar: não quero conceber a inexistência da natureza, etc.; só lhe pergunto acerca do ato de criação dela, tal como indago do anatomista sobre a formação dos ossos, etc.

Como, no entanto, para o socialista, o conjunto do que se chama história mundial nada mais é que a criação do homem pelo trabalho humano, e a emergência da natureza para o homem, ele, portanto, tem a prova evidente e irrefutável de sua autocriação, de suas próprias origens. Uma vez que a essência do homem e da natureza, o homem como um ser natural e a natureza como uma realidade humana, se tenha tornado evidente na vida prática, na experiência sensorial, a busca de um ser estranho, um ser acima do homem e da natureza (busca essa que é uma confissão da irrealidade do homem e da natureza) torna-se praticamente impossível. O ateísmo, como negação desse irrealismo, não mais faz sentido, pois ele é uma negação de Deus e procura afirmar, por essa negação, a existência do homem. O socialismo dispensa esse método assim tão circundante; ele parte da percepção teórica e prática sensorial do homem e da natureza como seres essenciais. É autoconsciência positiva humana, não mais uma autoconsciência alcançada graças à negação da religião; exatamente como a vida real do homem é positiva e não mais alcançada graças à negação da propriedade privada, por meio do comunismo. O comunismo é a fase de negação da negação e é, por conseguinte, para a próxima etapa da evolução histórica, um fator real e necessário na emancipação e reabilitação do homem. O comunismo é a forma necessária e o princípio dinâmico do futuro imediato, mas o comunismo não é em si mesmo a meta da evolução humana – a forma da sociedade humana.

Fonte: Arquivo Marxista na Internet – http://www.marxists.org/

Imposição de um desejo único

O que é a pedofilia? Doença? Falha de caráter? Crime? Qual o perfil do pedófilo? Como se faz o diagnóstico? É possível curá-la? O que a ciência tem a dizer sobre isso? O artigo de capa da CH 275 discute esse tema que mobiliza cada vez mais a sociedade.

Fred Furtado

Imposição de um desejo único

Psiquiatras, psicanalistas, antropólogos, teóricos da comunicação e ativistas políticos ouvidos por nossa reportagem concordam em um ponto: é preciso avaliar e debater o problema da pedofilia para entendê-lo melhor (ilustração: Há Fael).

Nas últimas décadas, a atração sexual patológica por crianças e pré-adolescentes ganhou nome e deixou de ser um assunto reservado das famílias para se tornar um problema social e político que afeta desde questões médicas até criminais.

Chamada pedofilia, um tipo de perversão sexual para a psicanálise e psiquiatria, essa doença passou a representar muito mais que uma condição médica e hoje é um termo que abrange várias manifestações de violência e polui a discussão sobre o tema pela forte carga emocional que o cerca.

A quarta edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM IV-TR, na sigla em inglês), publicação da Associação Americana de Psiquiatria (APA), define a pedofilia como uma parafilia, um tipo de transtorno em que o prazer sexual não é obtido com a cópula, mas por meio de outra atividade ou objeto de desejo sexual.

O termo ‘pedofilia’ abrange várias manifestações de violência e polui a discussão sobre o tema pela forte carga emocional que o cerca

Mais especificamente, ela se caracteriza por interesse sexual por crianças pré-púberes (13 anos ou menos) da parte de indivíduos com 16 anos ou mais ou que sejam pelo menos cinco anos mais velhos, sendo que esse desejo se manifesta por um período mínimo de seis meses. O diagnóstico poderia ser feito se o interesse foi levado a cabo ou se causou acentuado sofrimento ou dificuldades pessoais.

O psiquiatra e psicanalista Luís Alberto Helsinger, coordenador do curso de Teoria e Clínica da Perversão da Sociedade Brasileira de Psicanálise, é critico do DSM. “Os norte-americanos são muito bons para parametrizar e sistematizar as coisas, mas isso nem sempre funciona”, observa. Ele explica a pedofilia sob o ângulo da psicanálise.

“O que faz desse problema uma patologia é o fato de o indivíduo só atingir o gozo, o prazer sexual única e exclusivamente por meio do objeto escolhido, o fetiche. Esse é um dado importante: aquele que sofre de perversão sexual não consegue realizar seu desejo de outra maneira que não seja com seu fetiche”, reitera Helsinger, acrescentando que esse objeto pode ser qualquer coisa, por exemplo, uma bota, um olhar ou uma criança, como no caso da pedofilia.

A definição é importante, pois nem todo caso de violência sexual contra crianças se enquadra na pedofilia. “Um pai que chega bêbado em casa e estupra a própria filha não é um pedófilo se ele consegue ter relações sexuais e obter prazer com mulheres adultas”, explica o psicanalista.

Na mesma linha, alguém que produza material pornográfico contendo crianças não necessariamente sofre de uma perversão, embora possa estar alimentando um público com a doença. Contudo, todos esses exemplos – o pai, o produtor e os clientes – hoje são criminosos perante a lei.

Perfil de um escravo

Mas o que faz alguém se tornar um pedófilo? Seria possível nascer com essa doença? Helsinger afirma que não. A pedofilia seria um problema de cunho psicológico originário de um trauma ou de pressões culturais que levam a pessoa a procurar uma forma de gozo exclusivamente focada em crianças.

“Alguém que sofreu abusos na infância pode querer, como disse [o médico austríaco Sigmund] Freud [1856-1939], repetir ativamente o que sofreu passivamente. A pedofilia pode surgir também em ambientes supererotizados onde há um estado ambíguo de lei e ausência de lei, como em famílias nas quais há muitos irmãos de pais diferentes”, esclarece o psicanalista.

“Embora se sintam senhores da situação, os pedófilos são escravos de um único desejo. Pior: são escravos que se creem livres”

Ele também informa que, apesar de existirem mulheres que sofrem de pedofilia, o número esmagador de casos é de homens. “As mulheres tendem a usar os bebês e os filhos como bons fetiches, alvos de ternura e amor”, comenta.

Os pedófilos também estão longe de ser um grupo homogêneo, já que apresentam interesses por crianças de idades distintas. Segundo Helsinger, aqueles que procuram as mais jovens, as veem como objetos fracos e totalmente dominados, sobre os quais podem exercer seu poder.

Já os que se interessam pelas mais velhas procuram um ritual de abuso ligado à sedução. “Embora se sintam senhores da situação, a verdade é que os pedófilos, bem como os outros indivíduos com perversões, devido a seu gozo específico, são escravos de um único desejo. Pior: são escravos que se creem livres”, afirma.

Fonte: Ciência Hoje – http://cienciahoje.uol.com.br/

O Japão, ávido por dinheiro, fica perturbado com as compras dos chineses

Hiroko Tabuchi
Misasa (Japão)

Um plano de empreendedores imobiliários chineses de investir nesta pequena cidade serrana revelou uma crise de confiança no Japão.

Para os locais daqui, o empreendimento planejado – casas de férias para chineses ricos – é uma bem-vinda injeção de capital em uma cidade que tem vivido um declínio desde seu auge nos anos 1980 como uma estância de águas termais.

Mas a perspectiva em qualquer outra parte do Japão – a mídia nacional tem noticiado relatos a respeito, nem todos corretos – é de que o investimento é uma ameaça às florestas puras e riachos da região, uma apropriação de terras que ameaça os recursos naturais do país e um lembrete desanimador da sombra cada vez maior projetada pela China, que recentemente ultrapassou o Japão tornando-se a segunda maior economia atrás dos Estados Unidos. “Alvo de dinheiro estrangeiro? As florestas do Japão estão à venda”, foi a ameaçadora manchete neste mês de um noticiário da emissora estatal, NHK.

Por motivos de espaço no provedor, leia esta matéria na íntegra no site CONTROVÉRSIA. Clique no link abaixo. Obrigado.

http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=7163

À mesa com os mestres

Grandes nomes da literatura escreveram sobre gastronomia

Flávia Pinho

Muitos escritores, dramaturgos e poetas, que entraram para a história por seu talento com as palavras, deixaram registros claros de seus hábitos à mesa nas próprias obras. Alguns deles tornaram público o apetite voraz e o apreço por um bom prato. Outros, ao contrário, demonstraram que só comiam por obrigação.

William Shakespeare (1564-1616)
Dramaturgo depurou o paladar ao longo do tempo
A relação do inglês com a comida está presente em boa parte de sua obra e seu gosto foi se apurando com o tempo. "O contato com o mundo elegante de Londres faz com que se refinem as alusões à qualidade dos alimentos", afirma o catalão Néstor Luján no livro Historia de la Gastronomía. Nos trabalhos tardios, o leitor percebe que o autor apreciava a arte de comer bem. Este trecho é de História de Inverno, de 1611: "Três libras de açúcar, cinco de coentro e arroz; é preciso que haja açafrão, para dar cor às tortas de pera (…)"

Vinicius de Moraes (1913-1980)
Poeta gostava de improvisar ao fogão
O poetinha não era só bom de versos. Era ótimo também no forno e no fogão. Craque no improviso, recolhia o que havia na geladeira e acabava deixando os amigos surpresos. Também sabia fazer feijoada. A receita, colocou inteirinha nos versos de Feijoada à Minha Moda, de 1962. Seu talento culinário maior, no entanto, era o preparo de doces – ainda na adolescência, gostava de fazer balinhas à base de ovo e açúcar. A receita predileta era a de papos-de-anjo. Quem conhece Carta ao Tom, de 1964, deve se lembrar.

Monteiro Lobato (1882-1948)
Autor imortalizou receitas do interior do Brasil
Caipira de corpo e alma, o criador da boneca Emília apreciava a culinária do interior brasileiro a ponto de imortalizá-la em seus livros. Até hoje, quem pensa no Sítio do Picapau Amarelo quase sente o cheiro dos bolinhos de chuva preparados por Tia Nastácia. A receita existia de verdade e fazia parte do caderno de sua mulher, dona Purezinha. Anote:
Bolinho de chuva
Ingredientes: 2 xícaras de farinha de trigo; 3 colheres (sopa) de açúcar; 1 pitada de sal; 1 colher (sopa) de fermento em pó; 2 colheres (sopa) de leite; 1 colher (sopa) de manteiga; 3 ovos; 1 colher (sopa) de parmesão; erva-doce; óleo para fritar; açúcar e canela em pó.
Preparo: Misture a manteiga e o açúcar. Acrescente os ovos e coloque aos poucos o trigo com fermento. Misture. Acrescente sal, leite, erva-doce e queijo. Mexa. Frite em óleo quente. Abaixe o fogo quando o óleo estiver muito quente. Salpique os bolinhos com açúcar e canela.

Fernando Pessoa (1888-1935)
O poeta era figura constante nos cafés e restaurantes de Lisboa. Mas não era um gourmet. Ele passava horas à mesa escrevendo, tragando e bebericando café e bagaço (aguardente de uva). Apesar do desprendimento em relação à comida, não faltam registros de receitas em seus versos, de arroz-doce a bife, passando até por sardinhas.

Mário de Andrade (1893-1945)
O escritor registrou na obra O Turista Aprendiz boa parte de seus interesses gastronômicos. Viajando por MG, AM e Nordeste (1924-1929), teve contato com receitas típicas. Os doces, no entanto, eram seu ponto fraco. A receita de batata rosada está entre as 131 anotadas em um caderno.

Gilberto Freyre (1900-1987)
O autor de Açúcar e Casa-Grande e Senzala era bom de garfo e reconhecia as tradições culinárias como um dos aspectos mais fundamentais da cultura de um povo. Frequentava endereços chiques, mas a lista de seus pratos prediletos mostra que ele gostava mesmo era das receitas populares, como cozido de charque e legumes.

Fonte: Aventuras na História – http://historia.abril.com.br/

José Saramago deixa páginas inéditas de um romance sobre o comércio de armas

Juan Cruz
Em Madri (Espanha)

O escritor português José Saramago posa para foto na Suécia (12/7/1997)

O escritor português José Saramago posa para foto na Suécia (12/7/1997)

José Saramago, que morreu há quatro meses em Lanzarote, nas ilhas Canárias (Espanha), leu certa vez (ele acreditava que em um livro de François Mauriac) que durante a Guerra Civil espanhola havia aparecido, sem explodir, uma bomba na Extremadura (oeste da Espanha e Portugal).

Dentro dessa bomba os técnicos em explosivos encontraram esta legenda: "Esta bomba não matará ninguém". O escritor ficou fascinado pela história; sabia de outra parecida que ocorreu na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial; mas dessa vez os artilheiros que montaram a bomba que não mataria foram encontrados pelos fascistas e condenados à morte.

Esses materiais estavam servindo a Saramago para uma nova ficção que ele intitularia "Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas", um verso de Gil Vicente. Seria um romance sobre o comércio de armas, mas só chegou a 50 páginas. Sua morte o encerrou.

Foi o que contou na segunda-feira Pilar del Río, sua viúva, presidente da Fundação Saramago, ao apresentar um livro singular que, como todos os do Nobel português, foi publicado em espanhol pela editora Alfaguara. Trata-se de um compêndio que recolhe todo o pensamento do autor de "Ensaio sobre a Cegueira" disperso em entrevistas que ele deu em todo o mundo.

Essa espécie de vade-mécum, intitulado "José Saramago em suas Palavras", foi realizado por Fernando Gómez Aguilera, diretor da Fundação César Manrique. Ele foi o curador da exposição "A Consistência dos Sonhos", que recolhe em documentos e outros materiais a vida e a obra de Saramago. Essa exposição foi inaugurada na Fundação Saramago em 2008, quando se agravou pela primeira vez a saúde do Nobel, que morreu em 18 de junho deste ano.

A compilação funciona como um dicionário. Cidadania, romance, democracia, ética, ironia… Na capa do livro essa lista é coroada (para satisfação de Pilar del Río, como ela disse) pelo conceito Mulher. É um vade-mécum "do Saramago público, que aglutina todos os Saramagos", disse Aguilera. Ele não era um ensaísta, seus romances eram "ensaios com personagens"; mas neste livro o romancista é apresentado "como o pensador conflituoso que sempre foi". Era "um ser feito de palavras; e essas palavras o mostram em estado puro". Algumas palavras, pois, extraídas de seu livro de quase 600 páginas:

Portugal: "Nós, os portugueses, não sabemos por que pensamos determinadas coisas que cremos que pensamos".

Deus: "Seria mais cômodo crer em Deus, mas escolhi o lugar da incomodidade".

Ser humano: "Creio que Deus Nosso Senhor criou o mundo e também criou as contradições e depois, como não sabia o que fazer com elas, inventou o homem".

Lanzarote: "Digamos, para não dramatizar as coisas, que Lanzarote apareceu quando eu mais precisava de um lugar assim".

Escritor: "Não uso a literatura para fazer política, porque por experiência conheço muito bem os males da demagogia e até que ponto podem prejudicar a causa que eu mesmo defendo. Sempre aplico um cuidado extremo, uma autovigilância, para que a demagogia não entre em nada do que faço".

Mulher: "Sinto que as mulheres são, regra geral, melhores que os homens. Parece que o homem tivesse renunciado a seu ponto de vista viril, sedutor, e agora não soubesse muito bem como deveria ser. A mulher, por sua vez, é e, ao mesmo tempo, sempre está disposta a ser".

Prêmio Nobel: "Quando deixei a sala de embarque (…) senti uma (…) uma serenidade estranhíssima. Tive de atravessar um corredor (…) completamente deserto. E então, o prêmio Nobel, o pobre senhor que ali estava, completamente só, com a mala na mão e a gabardine embaixo do braço, me disse: ‘Pois parece que sou prêmio Nobel’. (…) Senti-me só, muito triste porque minha mulher não estivesse ali comigo".

Jornalismo: "Estabeleceu-se e se orientou uma tendência para a preguiça intelectual, e nessa tendência os meios de comunicação têm uma responsabilidade".

Política: "Sem política não se pode organizar uma sociedade. O problema é que a sociedade está nas mãos de políticos profissionais".

Ontem à noite Pilar del Río e numerosos amigos prestaram homenagem ao Nobel em Rivas Vaciamadrid (Espanha); houve uma leitura de sua obra, além de música e dança.

Fonte: El País – http://www.elpais.com/

Composto pode inibir radicais livres ligados a obesidade

Júlio Bernardes

O CAPE, substância extraída da própolis e testada em pesquisa da Escola de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da USP em Piracicaba, apresenta potencial antioxidante. Os resultados obtidos pela pesquisadora Aline Camila Caetano em experimentos com camundongos revelam que o CAPE  pode combater a formação de radicais-livres associados à obesidade e a doenças como diabetes tipo 2 e hipertensão.

Efeito antioxidante é evidenciado pelo não aumento da atividade de enzimas.

Isolado da própolis produzida pelas abelhas, o CAPE é um composto fenólico que possui várias atividades biológicas, como por exemplo o efeito antiinflamatório e antimicrobiano. “O estudo verificou a propriedade antioxidante em modelo experimental de obesidade e estresse oxidativo em camundongos”, conta a pesquisadora, formada em Ciências dos Alimentos.

Durante a pesquisa, grupos de camundongos tiveram obesidade induzida por uma dieta à base de gordura de porco, por um período de 8 semanas. Em seguida, parte deles recebeu o CAPE por via oral, nas dosagens de 13 e 30 miligramas (mg) por quilo de peso, em período de 15 e 22 dias. Depois desse período, foi verificada a atividade de enzimas associadas ao estresse oxidativo nos tecidos adiposo e hepático.

Nos camundongos que receberam a dosagem de 13 mg, verificou-se no tecido hepático que as enzimas tiveram um comportamento semelhante ao grupo controle, composto por animais não submetidos ao estresse oxidativo gerado pela obesidade. “Não houve aumento da atividade das enzimas, o que evidencia um possível efeito antioxidante do CAPE”,  destaca Aline. “Também foi registrado uma redução da produção de peróxido de hidrogênio e da peroxidação lipídica, outro indício do efeito protetor do composto.”

Radicais-livres

De acordo com Aline, a obesidade, devido ao maior consumo de nutrientes na dieta, leva a um aumento da glicose e de ácidos graxos circulantes no organismo, aumentando a produção de Espécies Reativas de Oxigênio (ERO) e radicais-livres. “Essas espécies estão associadas a doenças como resistência à insulina, diabetes tipo 2, esteatose hepática, hipertensão e risco de problemas cardiovasculares”, ressalta. “O processo é conhecido como síndrome plurimetábolica.”

O fígado, por ser um órgão com alta taxa metabólica, permitiu que o efeito antioxidante do CAPE estivesse mais presente e pudesse ser mais facilmente observado. No tecido adiposo, foram observadas poucas mudanças na atividade das enzimas, inclusive devido a dificuldade em se fazer análises na gordura dos animais”, diz Aline.

A pesquisadora aponta que devido ao peso dos camundongos, a dosagem testada é muito pequena, o que leva a necessidade de novos experimentos com animais antes da utilização do CAPE ser tentada em seres humanos. “É um processo que deve levar alguns anos”, observa. “Também será preciso estudar de que forma o composto seria administrado em humanos.”

A pesquisa é descrita na dissertação de mestrado de Aline, apresentada no Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia de Alimentos, do Departamento de Agroindústria, Alimentos e Nutrição da Esalq. O trabalho teve a orientação do professor Severino Matias de Alencar, da Esalq, e de  Rosângela Maria Neves Bezerra, pesquisadora e pós-doutoranda na Escola.

Fonte: Agência USP de Notícias – http://www.usp.br/

Como os povos do Oriente Médio que bebiam leite conquistaram a Europa

Matthias Schulz

Entre caminhões de entulho e escavadoras, a arqueóloga Birgit Srock está desenhando o contorno do buraco de poste de 7.200 anos de idade. Uma fábrica de misturar concreto é visível ao horizonte. Ela está aqui porque, durante a construção de uma ferrovia de alta velocidade entre as cidades alemãs de Nuremberg e Berlim, os operários encontraram um grande assentamento do neolítico na região da Francônia do Norte no norte da Bavária.

Uma nova pesquisa revelou que a agricultura chegou até a Europa em meio a uma onda de imigração do Oriente Médio durante o período neolítico. Os recém-chegados prevaleceram sobre os locais por causa de sua cultura sofisticada e domínio da agricultura ? e seu alimento milagroso, o leite

Uma nova pesquisa revelou que a agricultura chegou até a Europa em meio a uma onda de imigração do Oriente Médio durante o período neolítico. Os recém-chegados prevaleceram sobre os locais por causa de sua cultura sofisticada e domínio da agricultura ? e seu alimento milagroso, o leite.

Os restos de mais de 40 casas foram escavados, assim como esqueletos, uma roda de fiar, vasilhames de argila, dentes de vaca e peneiras quebradas para a produção de queijo – um típico assentamento da chamada cultura da cerâmica linear (chamada assim por causa dos padrões de sua cerâmica).

Esta antiga cultura nos deu a bênção do pão. Por volta de 5.300 a.C., todo mundo na Europa Central estava de repente cultivando plantas e cuidando de rebanhos. Os membros da cultura da cerâmica linear guardavam as vacas dentro de cercados de madeira, usavam pedras de amolar e cultivavam grãos. Em menos de 300 anos, o estilo de vida sedentário se espalhou pela bacia de Paris.

Os motivos por trás da rápida mudança foram um mistério por muito tempo. Foi uma ideia que se espalhou por toda a Europa Central na época, ou um povo inteiro?

Cooperação pacífica ou invasão?

Muitos acadêmicos acreditam que esta última hipótese é inconcebível. A agricultura foi inventada no Oriente Médio, mas muitos pesquisadores acharam difícil acreditar que as pessoas daquela parte do mundo teriam embarcado numa marcha interminável através do Bósforo em direção ao norte.

Jens Lüning, arqueólogo alemão especializado no período pré-histórico, foi influente e estabeleceu o saber convencional sobre os acontecimentos, a saber que um pequeno grupo de imigrantes induziu os habitantes locais da Europa Central a semear e produzir leite com “zelo missionário”. O novo conhecimento foi logo transmitido para outros grupos. Esse processo continuou num ritmo rápido, num espírito de “cooperação pacífica”, de acordo com Lüning.

Mas agora há dúvidas quanto a essa explicação. Novas escavações na Turquia, assim como análises genéticas de animais domésticos e esqueletos da Idade da Pedra, pintam um quadro totalmente diferente:

• Por volta de 7000 a.C., começou uma migração em massa de fazendeiros do Oriente Médio para a Europa.
• Estes antigos fazendeiros trouxeram consigo gado domesticado e porcos.
• Não houve cruzamento entre os invasores e a população original.

Mutação pelo leite

Os novos moradores também tinham um tipo de alimento milagroso à sua disposição. Eles produziam leite fresco que, como resultado de uma mutação genética, logo puderam beber em grande quantidade. O resultado foi que a população de fazendeiros cresceu e cresceu.

Esses insights surpreendentes vieram por parte dos biólogos e químicos. Numa série de artigos em revistas especializadas como a “Nature” e “BMC Evolutionary Biology”, eles viraram muitas visões existentes de cabeça para baixo ao longo dos últimos três anos.

O grupo mais importante está trabalhando no projeto “Leche” (nome inspirado pela palavra espanhola para leite), uma associação de 13 institutos de pesquisa de vários países da União Europeia. O objetivo do projeto é examinar geneticamente a origem da manteiga, leite e queijo.

Uma circunstância incomum tornou essa pesquisa possível antes de mais nada. O homo sapiens era originalmente incapaz de digerir leite puro. Geralmente, o corpo humano só produz uma enzina capaz de quebrar a lactose no intestino delgado durante os primeiros anos de vida. De fato, a maioria dos adultos na Ásia e na África reagem ao leite de vaca com náusea, flatulência e diarreia.

Mas a situação é diferente na Europa, onde muitas pessoas têm uma diminuta modificação do cromossomo 2 que permite a elas digerirem lactose durante toda sua vida sem ter nenhum problema intestinal. A porcentagem de pessoas com essa modificação é mais alta entre os britânicos e escandinavos.

Há muito se sabe que essas diferenças estão baseadas nas origens primeiras dos europeus. Mas onde vivia o primeiro ser humano que bebia leite? Quem foi o primeiro ser humano a beber o leite de vaca sem sofrer as consequências?

Grupos não se misturaram

Numa tentativa de solucionar o mistério, biólogos moleculares serraram e analisaram incontáveis ossos do período neolítico. A mudança aconteceu no ano passado, quando cientistas descobriram que os primeiros bebedores de leite viveram no território da atual Áustria, Hungria e Eslováquia.

Mas este também era o núcleo onde a cultura da cerâmica linear estava localizada. “A característica de tolerância à lactose logo se estabeleceu na população”, explica Joachim Burger, antropólogo da Universidade de Mainz no sudoeste da Alemanha que é membro da equipe Leche.

Coxas humanas supergeladas estão armazenadas no laboratório de Burger, onde assistentes usando máscaras serram e abrem crânios. Outros examinam pedaços de material genético da Idade da Pedra sob uma luz azul.

O grupo terá uma reunião de trabalho em Uppsala, Suécia, em novembro. Mas mesmo nesse estágio já está claro que grandes números de pessoas do Oriente Médio foram até a Europa Central.

Também há sinais de conflito. Os invasores eram diferentes dos habitantes da Era do Gelo do continente “por meio de linhas genéticas completamente diferentes”, explica Burger. Em outras palavras, os dois grupos não se misturaram.

Parte 2: Tensão entre locais e intrusos

Isto não é exatamente uma surpresa. Os antigos caçadores-coletores do continente já estavam há muito tempo acostumados a caçar e pescar. Seus ancestrais haviam entrado na Europa há 46 mil anos – cedo o suficiente para terem encontrado os homens de Neanderthal.
Os primeiros fazendeiros da Europa Central eram sofisticados em comparação com esses filhos da natureza. Os fazendeiros usavam roupas diferentes, rezavam para outros ídolos e falavam uma língua diferente.

Foram estas diferenças que provavelmente levaram às tensões. Pesquisadores descobriram que incendiários colocaram fogo nos vilarejos da cultura da cerâmica linear. Logo os fazendeiros construíram cercas altas para proteger seus vilarejos. Seu avanço foi bloqueado por um longo tempo através do rio Reno, entretanto.

Há sinais de que a troca e o comércio existiam, mas os dois grupos não se misturavam sexualmente. Burger suspeita que houvesse uma “proibição rígida quanto ao casamento entre os grupos.”

Os fazendeiros até protegiam seus rebanhos de influências externas, determinados a evitar que o boi selvagem conhecido como bisão cruzasse com suas vagas do Oriente Médio. Eles temiam que esses híbridos introduzissem um novo elemento selvagem nas raças domesticadas.

Suas precauções eram totalmente compreensíveis. A ideia revolucionária de que o homem podia subjugar as plantas e animais estava intimamente relacionada com esforços enormes, paciência e engenhosidade. O processo levou milhares de anos.

Mantendo os animais sob controle

O começou pode ser agora relativamente bem delineado. Cerca de 12 mil anos atrás, a área entre as Montanhas Zagros no atual Irã, Palestina e Turquia foi transformada num enorme campo de experimentação.

Os primeiros fazendeiros aprenderam a cultivar o trigo selvagem e o trigo do tipo “einkorn”. Eles então passaram a domesticar animais. Cabras haviam sido domesticadas com sucesso no Irã por volta de 9 mil a.C.. Ovelhas e porcos eram domesticados no sul de Anatólia.

Enormes agrupamentos logo se espalharam pela região conhecida como Crescente Fértil. Çatalhöyük, conhecida como “a primeira metrópole do homem”, tinha cerca de 5 mil habitantes, que viviam em cabanas de lama muito juntas umas das outras. Eles veneravam uma obesa deusa mãe, retratada em estátuas como uma figura sentada num trono decorado com cabeças de animais carnívoros.

Um dos desafios mais difíceis era criar e domesticar o rebanho selvagem do Oriente Médio. Os espécimes machos pesavam até uma tonelada e tinham chifres curvos. As pessoas eventualmente juntaram a coragem para se aproximar dos animais no Vale do Eufrates central.
Elas encontraram formas diferentes de controlar o gado. Uma escultura do neolítico mostra um boi com um buraco em seu septo nasal.

Remover os testículos também foi um método rapidamente reconhecido como uma forma de melhorar o temperamento dos animais. Uma vez que o gado havia sido castrado, eles podiam finalmente ser amarrados.

Os inteligentes fazendeiros perceberam que se dessem bezerros de outras mães para as vagas, suas tetas ficavam sempre cheias de leite.

O gosto pelo leite

É estranho que os fazendeiros mesopotâmios não tocassem o leite fresco. Há algumas semanas, Joachim Burger voltou da Turquia com um saco cheio de ossos neolíticos de novos cemitérios descobertos onde os antigos fazendeiros foram enterrados.

Quando os ossos foram analisados, não houve sinais de tolerância à lactose. “Se essas pessoas bebessem leite, elas passariam mal”, diz Burger. Isso significa que primeiro os fazendeiros só consumiam produtos fermentados do leite como kefir, iogurte e queijo, que contém muito pouca lactose.

Mais surpreendente ainda, como mostram as escavações recentes na Anatólia, é o fato de que os fazendeiros antigos não tenham deixado sua região central por quase 2 mil anos. Eles haviam montado o “pacote cultura do neolítico” completo, desde a pedra de amolar até as sementes, “sem avançar em outras áreas”, diz o arqueólogo Mehmet Özdogan.

As áreas costeiras foram evitadas por muito tempo. As pessoas que lá viviam eram provavelmente pescadores que se defendiam com arpões contra o novo modo de vida.

Assentados renegados

O cruzamento do Bósforo só ocorreu em algum momento entre 7000 e 6.500 a.C.. Os fazendeiros encontraram pouca resistência por parte das culturas de caçadores-coletores, cujos assentamentos costeiros haviam sido inundados por enchente devastadoras na época. Glaciares descongelaram e detonaram um aumento de mais de 100 metros no nível do mar.

Entretanto, o avanço pelos Bálcãs não foi um triunfo. Os assentamentos dos colonos lá pareciam pequenos e pobres. No 47º paralelo norte, próximo ao Lago Balaton na atual Hungria, o avanço foi interrompido por 500 anos.

A cultura da cerâmica linear, que foi a primeira mudança para a marge norte do Lago Balaton, deu nova vida ao movimento. Lüning fala sobre assentados “renegados” que criara um “novo estilo de vida” e um “projeto de reforma” do outro lado do lago.

Com determinação militar, os pioneiros que avançavam constantemente estabeleceram novos assentamentos. Os vilarejos com frequência consistiam de três a seis casas longas sem janelas, alinhadas ao noroeste, próximas aos cercados de rebanho e poços construídos com maestria. Suas ferramentas, picaretas e tigelas (que eram basicamente vasos hemisféricos) eram quase idênticos em toda a Europa Central, desde a Ucrânia até o Reno.

Parte 3: Migração e assassinato em massa

Os assentados, carregando suas foices, continuaram indo cada vez mais para o norte, bem para dentro do território dos povos mais primitivos. Os recém-chegados eram diligentes e acostumados a trabalhar duro nos campos. Estátuas de barro mostram que os homens já usavam calças e se barbeavam. As mulheres tingiam o cabelo de vermelho e o decoravam com conchas de caramujo. Ambos os sexos usavam boinas, e os homens também usavam chapéus triangulares.

Em comparação, os habitantes mais primitivos que existiam no continente usavam peles de animais e viviam em cabanas frugais. Eles viram os recém-chegados com espanto uma vez que estes desmataram o local onde caçavam, cultivavam o solo e plantavam sementes. Isso aparentemente os irritou e os motivou a resistir aos invasores.

Na Bíblia, Caim, o fazendeiro, mata Abel, o pastor. Na Europa da Era Neolítica, as condições deviam ser tão violentas quanto. Uma das descobertas mais repulsivas é uma vala comum que foi apelidada de “Fosso da Morte Talheim”, na cidade alemã de mesmo nome. O fosso foi preenchido com os restos de 34 corpos. Os membros de um clã inteiro foram aparentemente surpreendidos enquanto dormiam e apanharam até a morte com tacapes e machados. Até agora, os arqueólogos não foram capazes de descobrir se os recém-chegados mataram os habitantes existentes, ou vice-versa.

Bebendo leite aos baldes

Esta claro, entretanto, que os fazendeiros de leite ganharam no final. Durante sua migração, eles encontraram pastos cada vez mais verdes, um paraíso para suas vacas. Um benefício a mais de migrar par ao norte era que o leite fresco durava mais por causa do clima mais frio.
Isso provavelmente explica porque as pessoas logo começaram a beber a abundante nova bebida aos baldes. Alguns tinham mutações genéticas que os permitiam beber leite sem passar mal. Eles foram os verdadeiros progenitores do movimento.

Como resultado da “evolução acelerada”, diz Burger, a tolerância à lactose foi selecionada numa larga escala dentro da população no espaço de cerca de 100 gerações. A Europa se tornou a terra do eterno recém-nascido uma vez que as pessoas passaram a beber leite durante a vida inteira.

O novo alimento era especialmente benéfico para as crianças. Na Era Neolítica, muitas crianças pequenas morriam depois de serem desmamadas no quarto ano de vida. “Consumindo leite saudável, isso pode ser bastante reduzido”, especula o biólogo Fritz Höffeler. Tudo isso levou a um crescimento populacional e, como resultado, à uma expansão geográfica ainda maior.

“Revolução branca”

Isso explica por que os inventores da foice e do arado conquistaram a Europa tão rápido, levando ao fim dos antigos caçadores-coletores?
Imagine um vilarejo da cultura da cerâmica linear no meio do inverno. Enquanto a fumaça sobe do topo de uma cabana de madeira, a mesa do lado de dentro está cercada de crianças de bochechas vermelhas, bebendo leite quente com mel, que sua mãe acabou de preparar. É uma imagem que pode ajudar a explicar porque as pessoas adotaram um estilo de vida sedentário.

Burger, entretanto, está convencido de que o leite desempenhou um papel importantíssimo na história, assim como a pólvora fez mais tarde. “Houve uma revolução branca”, diz ele.

Fonte: Der Spiegel – http://www.spiegel.de/

O que é “Brasilização do Ocidente”?

Fabrício Maciel

Nenhum autor norte-americano ou europeu pode ser crítico para a periferia do capitalismo se não apresentar uma ideia básica de uma sociedade mundial do trabalho. Um nacionalismo metodológico, que restringe a análise do sistema produtivo mundial à análise de sociedades nacionais, é um dos problemas centrais que poda na base a maioria das tentativas críticas da ciência social dominante no centro do pensamento contemporâneo (EUA e Europa). O segundo problema é que as análises nacionais, com as quais podemos aprender sobre parte da reprodução e sentido da vida contemporânea, geralmente se generalizam como explicando a totalidade do capitalismo. O nacionalismo metodológico passivo do Brasil por vezes reproduz teorias nacionais do centro como se fossem teorias mundiais do capitalismo.

O melhor exemplo vindo dos Estados Unidos é Richard Sennett. Sua crítica ao advento da “flexibilidade” como prática e como ideologia no que chama de “novo capitalismo” (2000) reflete uma preocupação tipicamente americana. A preocupação com os danos individuais e identitários definidos por ele como “corrosão do caráter” reflete bem o sofrimento de uma sociedade de massa, rica e de consumo intenso. Reproduz a tradição de pensamento sobre o indivíduo “sozinho na multidão”, desde autores como Robert Bellah. Este tipo de crítica nos ensina apenas sobre parte pequena da reprodução social na periferia. Trata de questões de autenticidade e não de dignidade. O problema primário da periferia é a generalização da dignidade para todos [1].

Nossa principal influência no tema do trabalho, entretanto, não vem dos Estados Unidos. Ela é europeia. São autores europeus que declaram o fim da sociedade do trabalho. A reconstrução da narrativa europeia que deságua no manifesto eurocêntrico da “sociedade do conhecimento” pode contribuir para a compreensão de como reproduzimos no Brasil um paradigma do centro do capitalismo como se fosse um paradigma universal. Ou seja, como e por que uma narrativa da trajetória do capitalismo e da classe trabalhadora europeia se transforma em uma narrativa universal das sociedades contemporâneas, que ignora a precarização constante que a periferia do capitalismo sempre sofreu e sua precarização atualizada com o paradigma da sociedade do conhecimento.

A sociedade do conhecimento não é uma mentira completa. Os dados do advento do setor de serviços e do valor diferencial do conhecimento tecnológico e especializado são realidades visíveis em qualquer sociedade capitalista contemporânea. Sua configuração específica na periferia, entretanto, é ofuscada pela edição operada pelo paradigma da sociedade do conhecimento. Mesmo na Europa ele já opera uma edição interna. Como nota Uwe Bittlingmayer (2006) no caso alemão, a partir da compreensão bourdiesiana que articula as condições objetivas dos discursos na ciência e na esfera pública, este paradigma generaliza a realidade de uma parte da sociedade, aquela vivida caricaturalmente pelos managers, como critério normativo e como ideologia para todas as frações da sociedade.

A mesma edição interna a uma sociedade europeia se generaliza em outra dimensão. O centro do capitalismo europeu generaliza sua autocompreensão enquanto “sociedades do conhecimento” para a periferia do capitalismo, apagando a dimensão do trabalho braçal que predomina nesta e que é indispensável para a reprodução do capitalismo contemporâneo enquanto um sistema econômico mundial. Um breve esboço da gênese da ideia do fim da sociedade do trabalho aponta para uma frustração das sociedades europeias com relação a sua grande realização histórica: o alcance do Estado de bem-estar social. O olhar dos pensadores europeus mais influentes nunca escapa totalmente desta narrativa de seu nacionalismo metodológico. A ciência alemã e a francesa são aliadas internas neste ponto na dominação do Atlântico Norte sobre a periferia do capitalismo. Mesmo os franceses mais críticos como André Gorz e Robert Castel não escapam da narrativa europeia na qual o Welfare State é um divisor de águas, ainda que o último explique criticamente o que foi a utopia realizada naquele momento histórico [2]. Muito menos o fazem os alemães que inventam e reproduzem claramente o paradigma do conhecimento, como Claus Offe e uma das maiores sensações do momento, Ulrich Beck, que fala vagamente sobre todos os grandes temas europeus contemporâneos como se fossem universais. Este pensador da onda atual não podia ter deixado de falar sobre a questão do trabalho contemporâneo. Sua perspectiva merece atenção por simbolizar emblematicamente todo o particularismo eurocêntrico e racista que paira sobre o pensamento europeu pós-welfare [3].

O ponto de partida para uma crítica ao eurocentrismo da ideia de fim da sociedade do trabalho e advento da sociedade do conhecimento pode ser a articulação entre as “realizações positivas” do capitalismo mundial durante o século XX e suas “realizações negativas”. A verdade sobre o “mundo do trabalho” atual, como curtem dizer os marxistas ortodoxos atuais, não se explicita sem a re-conexão destas realizações diferenciais que o pensamento do centro insiste em esquecer. Esta re-conexão, fundamental para a crítica ao particularismo europeu pseudouniversalista que edita para fora sua própria história moderna como se fosse a história inteira do capitalismo, precisa de uma ideia que vincule o ápice das sociedades europeias com o fracasso da periferia, escondido atualmente na meia-verdade das “economias emergentes”. A ideia de uma “economia-mundo” enquanto sistema, de Immanuel Wallerstein (1974), pode colaborar neste ponto, mas naturalmente não resolve nada isoladamente. Pode ser útil no sentido de explicitar a totalidade do espaço de ação do capitalismo enquanto sistema produtivo, pelo menos durante o século XX, no qual podemos esboçar uma narrativa europeia que se apresenta como universal e posteriormente uma narrativa brasileira sem a adesão a paradigmas europeus para sua própria interpretação.

A ideia de um sistema econômico mundial é necessária para que a tentativa de crítica do mundo do trabalho atual a partir da periferia também não se resuma a um nacionalismo metodológico. Este só seria ideológico, pois seria uma visão da periferia sobre si mesma que não tematizaria os paradigmas que escondem a “dupla precarização” do trabalho em um país como o Brasil [4]. Wallerstein percebe como uma das principais bases de reprodução e legitimação da “economia-mundo” o papel que os Estados nacionais, enquanto sistemas menores que o econômico-mundial, exercem na opacidade do primeiro. A questão fundamental deste autor é: como uma lógica econômica específica se mantém já há 500 anos no mundo, sem ruir, desmoronar ou se fragmentar? A diferença entre os antigos impérios e o sistema econômico mundial contemporâneo é que os primeiros tinham uma sede local e visível, que podia ser atacada fisicamente. O inimigo dos dominados tinha face e endereço. Revoltas locais eram possíveis e por isso os impérios sempre se rachavam em domínios menores. Na economia-mundo moderna, a dominação não tem face nem endereço. O domínio é tecnológico e descentrado, como mostra também André Gorz (2004) em contexto específico menor. O papel geográfico e político dos Estados nacionais é incisivo para esta invisibilidade da dominação moderna, pois ele faz parecer que as realizações positivas e negativas do capitalismo são questões nacionais e não mundiais.

É claro que nos limites institucionais dos Estados nacionais estes podem e devem fazer política por suas questões sociais internas. Enfrentar questões sociais internas ao Estado nacional é uma atitude corajosa e digna que um estadista pode assumir em um país periférico de desigualdade estrutural. Um governo assim está enfrentando questões que não foram criadas por ele, e nem pelos brasileiros como povo. Trata-se de questões criadas pelo capitalismo mundial. A ciência social da periferia só pode ser crítica se enfrentar a gênese de tais questões. Perceber o capitalismo como uma totalidade escondida nos Estados nacionais contribui para que se veja como os Estados periféricos precisam assumir problemas sociais crônicos que eles não criaram. Uma teoria crítica do trabalho desde a periferia, para mostrar a limitação da aplicação da ideia de uma sociedade do conhecimento entre nós, deve mostrar as realizações para dentro do centro do sistema econômico mundial e para fora dele, ou seja, as realizações positivas para o centro e negativas para a periferia. E mais: os dois tipos de realizações não se operam isoladamente, mas só fazem sentido se pensados juntos.

A ciência social, que ainda é nacional, pode operar para explicitar ou esconder as realizações econômicas e políticas de seu tempo. A própria atuação da ciência faz parte de tais realizações. Na história moderna, não há legitimação sem ela [5]. O primeiro passo para que a ciência da periferia sobre o trabalho seja autêntica e independente é romper com paradigmas centrais que generalizam a narrativa europeia como ocidental e como mundial. O paradigma do fim da sociedade do trabalho vem se atualizando na Europa, e naturalmente tomando novas roupagens. O exemplo mais emblemático e caricatural é o já citado Ulrich Beck. Um de seus livros clichês rapidamente traduzidos para o inglês e publicado em uma das melhores editoras [6] sob o impactante título The brave new world of work é sintomático do tipo de pseudocrítica conservadora que se opera sobre o tema. É nele que se lança a tese da “brasilização” do Ocidente. A partir dela podemos desdobrar o novelo ideológico e racista que esconde a verdade sobre a falácia atual do fim da sociedade do trabalho e do advento da sociedade do conhecimento. Seguindo a trilha do pensamento de Beck podemos ver também os fatos contemporâneos que contribuem para o anúncio apocalíptico do fim da sociedade do trabalho desde a Europa.

A tese de Beck aparentemente tem uma virtude e uma novidade: inclui a periferia no tema do trabalho. A ideia do advento do setor de serviços é retomada, como Jessé Souza (2009) costuma dizer, com um “charminho crítico”. O diagnóstico é realizado a partir do dado recente na Europa, que obrigatoriamente incomoda a todos os seus intelectuais mais influentes: o advento veloz do trabalho informal e precarizado. O interessante é que, na reconstrução pseudocrítica e assumidamente profética de Beck este problema chato e incômodo para um europeu que desconhece as mazelas que o mundo do trabalho opera na sua periferia tem uma origem clara: ele vem do Brasil. Descaradamente, numa inversão ideológica de quem está no centro do poder da ciência social mundial, o produto histórico de mais de um século do sistema econômico mundial se torna a causa do incômodo existencial e político no centro. Quando o capitalismo começa a mostrar ao centro uma ponta do iceberg de desgraça que ele operou e manteve sistematicamente na periferia, os intelectuais do poder no centro se apressam para achar um culpado e declarar o fim da sociedade do trabalho. Esse desespero intelectual europeu só faz sentido hoje se reconstruirmos brevemente a narrativa europeia sobre as sociedades do trabalho. Ela é não-linear em um aspecto específico. O anúncio profético do fim da sociedade do trabalho tem data e contexto exato: ele é a resposta intelectual europeia ao mundo diante do fracasso de sua grande utopia, a realização do Welfare State. Ao mesmo tempo é uma cartada ideológica estratégica, nem sempre explícita e assumida, para refazer o sistema de legitimação da dominação do centro do capitalismo.

O Welfare foi o ápice da realização positiva do capitalismo no século XX. A utopia que se realizou e simbolizou a meta final de todas as “sociedades do trabalho”. O significado do Welfare é o de uma sociedade perfeita, pois concilia as realizações positivas do mundo moderno em suas três dimensões: na economia, na política e na vida social. Na economia significa empregabilidade e renda para toda a população. Na política significa democracia plena e participativa com cidadãos ativos. Na vida social significa segurança física e seguridade social [7]. A narrativa europeia da sociedade do trabalho só fez sentido para os europeus enquanto isso funcionou para eles. As sociedades do trabalho nesta narrativa sempre aparecem como sociedades nacionais e não como um sistema mundial do trabalho, como a velha tese marxista da divisão internacional do trabalho sempre insistiu em enfatizar. Neste aspecto, capitalismo e sistema mundial do trabalho são sinônimos. Quando este sistema total falha em sua lógica mundial, ou seja, de expurgar para a periferia suas realizações negativas enquanto condição necessária para suas realizações positivas no centro, o centro vai tentar dizer que ele agora é “outra coisa”. Esta outra coisa é a sociedade do conhecimento que continua realizando a mesma entropia centro-periferia com dados concretos e meias-verdades novas.

É interessante a forma como a ciência social periférica colonizada compra os paradigmas centrais sem nenhuma crítica, como se estes já estivessem explicando o brave new worldde Beck e bastassem ser apenas aplicados. Esta recepção nem sempre é explícita. Esta leitura da sociedade do conhecimento não está defendida principalmente na sociologia do trabalho brasileira. Esta ainda é marcadamente marxista, no sentido mais ortodoxo da teoria do valor. Por isso ela é o empecilho mais evidente e mais fraco de uma teoria crítica do trabalho desde a periferia. É no campo específico da chamada “teoria social” no Brasil onde o paradigma da sociedade do conhecimento é inteiramente comprado e reproduzido. Um exemplo impressionante desta recepção distorcida e colonizada é achar que a ideia de brasilização do Ocidente significa um elogio e a tematização de uma virada no jogo centro-periferia. Umas das maiores ondas pseudocríticas no Brasil hoje é o discurso da nova ordem mundial “descentrada” ou sua versão “Caetano Veloso” da nova “desordem” mundial.

A nova “desordem” que para nós parece vitória para os europeus significa “perigo” [8]. Não por acaso Offe chamou de capitalismo “desorganizado” o que na verdade é uma reorganização da produção e de seu sistema de legitimação na ciência e na política contemporâneas. O rótulo pseudocrítico de brasilização do Ocidente vem do medo intelectual europeu. Medo do perigo crescente de que todas as realizações negativas que o sistema mundial do trabalho jogou historicamente para debaixo do tapete ideológico europeu (ou seja, a periferia) agora leve a cabo o já iniciado processo de destruição das realizações positivas do capitalismo que sempre foram vistas como realizações nacionais, e principalmente de nações europeias [9]. Falar do medo europeu não significa dizer que estamos oferecendo alguma ameaça da periferia. Pelo contrário. O medo europeu, explícito em Beck [10], um dos mais influentes pensadores alemães hoje, é na verdade uma antecipação do sistema de legitimação dominante diante de mudanças que de fato assolam o mundo atual, visando à autoproteção dos Estados nacionais que historicamente levaram vantagem com as realizações diferenciais do sistema mundial do trabalho [11]. Suas preocupações sociais e suas propostas políticas deixam isso muito claro, e estão explicitando algo que é consenso no pensamento europeu contemporâneo. A questão explícita é unânime: “o que fazer com a sociedade do trabalho contemporânea?”. A questão nem sempre explícita é: “agora que ela está falhando em suas realizações positivas para nós europeus”.

No pensamento europeu pós-welfare, dois inimigos estão constantemente no centro da preocupação e eles vêm da periferia. Isso é explícito em Beck. O diagnóstico do capitalismo desorganizado e a preocupação em consertar o mundo do trabalho incluem a necessidade de lidar com eles. Um inimigo é passivo e o outro é ativo. Um é o imigrante trabalhador e o outro é o terrorista. Ambos condicionam a preocupação com a cidadania europeia e com a reformulação de suas instituições políticas. A chegada crescente do primeiro contribui para o manifesto pseudocrítico da brasilização do Ocidente. O segundo leva Beck e muitos outros a sugerirem sutilmente o fortalecimento dos Estados europeus. As realizações negativas do sistema mundial do trabalho tomaram dimensões que levam agora o seu centro a necessidade de refazer sua economia e sua política. O feitiço começa a virar contra o feiticeiro e este agora já tenta apresentar um contrafeitiço: o manifesto do fim da sociedade do trabalho. Este novo feitiço é poderoso exatamente por sua nebulosidade inebriante: “saímos da sociedade do trabalho para não por nada em seu lugar” (Gorz); “o capitalismo está desorganizado” (Offe); “o que fazer com o problema do trabalho (mas só na Europa)?” (Beck).

As preocupações de Ulrich Beck sobre o que fazer com o problema do trabalho na Europa são interessantes para se pensar em como se monta a narrativa europeia pós-welfare state e como a narrativa do trabalho na periferia precisa apresentar outra peculiaridade. A breve reconstrução aqui desta tese de Beck sobre o admirável novo mundo do trabalho, no sentido de “espantoso” novo mundo, e espantoso principalmente para o europeu [12], é importante para que fique claro como o início das realizações negativas do capitalismo em seu centro logo se tornam questões de preocupação quando ameaçam a dignidade nacional [13] conquistada historicamente apenas em sua vinculação com a indignidade generalizada na periferia. O que é um problema estrutural e sempre foi naturalizado na periferia do capitalismo logo se torna motivo de alarde no centro, quando se apresenta ainda que de forma residual (não podemos especular que se torne estrutural, como já se faz atualmente. Quem tenta fazer previsões são ideólogos como Beck).

A lista de preocupações com a organização do trabalho na Europa são questões de ordem secundária, e não questões de ordem primária como as da periferia. Tomando apenas um exemplo da lista do próprio Beck, ele coloca como questão básica que cada trabalhador tenha uma refeição no trabalho. A questão básica na periferia é anterior: que cada pessoa simplesmente tenha trabalho. As questões de “vida ou morte”, como diria Bourdieu, da periferia ainda precisam ter a dignidade para toda a população no horizonte. As do centro já estão transformando questões de autenticidade, de realização pessoal — apenas possíveis de se imaginar quando a dignidade pelo trabalho está garantida para toda a população — em questões de dignidade. As preocupações de Beck sobre o novo mundo do trabalho, para se defender da “brasilização” criada pelo mesmo sistema mundial que só beneficiou o velho mundo, sugerem a criação de uma sociedade civil com cidadãos ativos e participativos, como se estes fossem garantir por si mesmos uma estabilidade no mundo do trabalho europeu que na verdade já está garantida e agora é administrada, dentre outros meios, pelo discurso parcial da “sociedade do conhecimento”.

Notas

[1] A reconstrução para a periferia, a partir de Charles Taylor, dos conceitos de autenticidade e dignidade vem sendo feita por Jessé Souza desde 2003.

[2] Gorz é austríaco, mas seu pensamento público e sua carreira se desenvolvem na França.

[3] A tradição alemã monta a ideia de sociedade do conhecimento desde Adorno e Horkheimer (Ver Bittlingmayer, 2006) passando por Darhendorf e Habermas (Ver Silva, 2008).

[4] Trata-se da precarização histórica, estrutural, que um país periférico como o nosso sempre sofreu, e da precarização contemporanea, conjuntural, que otimiza a primeira pontualmente em todas as crises pontuais sofridas pelo capitalismo mundial.

[5] Como Jessé Souza vem mostrando. Ver Souza, 2009.

[6] Blackwell Publishers.

[7] Tomo esta excelente explicação de Robert Castel em seu grandioso livro From manual workers to wage laborers. New Jersey: Transaction Publishers, 2003.

[8] Não é outra coisa que dizem sociólogos influentes como Giddens e Beck com a amplamente aceita ideia de “sociedade de risco”.

[9] Os Estados Unidos realizaram a sociedade do trabalho e seus imperialismos por outro caminho, mas nunca puderam evocar o orgulho de um Estado de Bem-Estar.

[10] Em textos de jornal ele fala diretamente ao povo alemão e assume a superioridade das instituições europeias e a necessidade de defendê-las.

[11] Não por acaso Beck é autor de um texto intitulado “A sociedade civil e seus inimigos”.

[12] O título original parece irônico: Schöne neue Arbeitwelt.

[13] Jessé enfrenta a questão da generalização da dignidade desde seu Modernização seletiva (2000). Ver especialmente sobre a periferia o seu A construção social da subcidadania (2003).

Bibliografia

ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho? São Paulo: Cortez, 2000.

BECK, Ulrich. The Brave New World of Work. Cambridge: Blackwell Publishers, 2000.

BITTLINGMAYER, Uwe; BAUER, Ulrich (Orgs). Die Wissensgesellschaft. Mythos,ideologie oder realität?. Wiesbaden: VS Verlag, 2006.

BOURDIEU, Pierre. A distinção. Crítica social do julgamento. São Paulo; Porto Alegre: Edusp; Zouk, 2007.

CASTEL, Robert. From manual workers to wage laborers: transformation of the social question. New Brunswick: New Jersey: Transaction Publishers, 2003.

GORZ, André. Misérias do presente, riqueza do possível. São Paulo: Annablume, 2004.

——. O imaterial. São Paulo: Annablume, 2005.

HONNETH, Axel; HARTMANN, Martin. “Paradoxes of capitalism”. Constellations, v. 13, n 1, 2006.

OFFE, Claus. Capitalismo desorganizado. São Paulo: Brasiliense, 1994.

SENNETT, Richard. A corrosão do caráter. Rio de Janeiro: Record, 2000.

SILVA, Josué Pereira da. Trabalho, cidadania e reconhecimento. São Paulo: Annablume, 2008.

SOUZA, Jessé. A construção social da subcidadania. Belo Horizonte: UFMG; Rio de janeiro; Iuperj, 2003. (Segunda edição, 2006).

——. A modernização seletiva. Brasília: UnB, 2000.

——. A ralé brasileira. Quem é e como vive. Belo Horizonte: UFMG, 2009.

——. Os batalhadores brasileiros. Nova classe média ou nova classe trabalhadora? Belo Horizonte: UFMG, 2010.

WALLERSTEIN, Immanuel. The Modern World-System. New York: Academic Press, 1976.

Fonte: Acessa – http://www.acessa.com/

A natureza parasitária do actual sistema monetário

Amanda Morales

Mesmo as pessoas mais educadas, por vezes enganadas pelos media dominantes e os chamados "peritos", deixam de identificar a causa básica da actual retracção económica e tendem a confundir o sintoma (inflação, desemprego, etc) com a causa. Outros factores incorrectos do seu desencadeamento muitas vezes são atribuídos à inerente cobiça humana, à super-população, aos baby boomers [NT 1] , ao abandono do padrão ouro, à reserva bancária fraccionária [NT 2] , às divisas fiduciárias, ao super-consumo e até mesmo à tecnologia.

O sistema monetário tornou-se a jaula global da escravização alimentada pela dívida que hoje conhecemos através de uma série de eventos: invenção da usura (conceder empréstimo em dinheiro a juros compostos), estabelecimento da reserva fraccionária na concessão de crédito, privatização da oferta monetária, criação de bancos centrais, abolição do padrão ouro e imposição legal de divisas fiduciárias.

Actualmente cerca de 96% do dinheiro nos países ocidentais vêm à existência como dívida (dinheiro-crédito) criada por bancos comerciais na forma de promessas de pagamento (IOUs) [NT 3] . Os montantes depositados no banco e emprestados são simples registos na contabilidade, não apoiados por quaisquer activos reais (como o ouro, por exemplo). O que dá valor a estes montes de papéis normalmente sem valor é o trabalho humano. Só quando paramos para pensar acerca disto podemos começar a apreender a natureza profundamente fraudulenta da concessão de empréstimos bancários: o tomador do empréstimo compromete como colateral pelo empréstimo algo que ele ainda não possui (isto é, o carro que ele compra a crédito) em troca do dinheiro que o prestamista realmente não tem nas suas reservas.
Vamos resumidamente examinar como são criadas bolhas especulativas e o efeito que elas têm sobre a economia real. As baixas taxas de juros estabelecidas pelos Bancos Centrais desencadeiam uma farra de crédito que atrai pessoas à dívida. Os bancos criam dinheiro ex-nihilo (a partir do nada) e emprestam-no a juro, inchando bolhas alimentadas pelo crédito (dot-com, habitação, imobiliário comercial, etc) que torna banqueiros e outros especuladores ultrajantemente ricos. Por definição, temos uma bolha quando o preço de um activo eleva-se para além do que o rendimento médio pode permitir. Vamos tomar a actual bolha habitacional como um exemplo. Quando a bolha finalmente explode, o valor do activo afunda com desastrosas repercussões nos balanços dos bancos e igualmente dos proprietários das casas: bancos retomam casas cujo valor está em queda rápida e proprietários descobrem-se em situação líquida negativa (o valor de mercado da sua casa é mais baixo do que o que eles estão a pagar ao banco a cada mês). Uma vez que foi permitido aos bancos tornarem-se "demasiado grandes para falirem", através de fusões e aquisições, as elites financeiras instruem seus políticos fantoches a salvarem-nos, a expensas dos contribuintes. Utilizando doses maciças de propaganda nos media e de instilação do medo, as elites lavam o cérebro das massas levando-as a acreditar que a prosperidade dos bancos é vital para a estabilidade social e a prosperidade económica. Por outras palavras, seguir-se-á o caos generalizado se permitirmos os grandes bancos irem à falência. Inicialmente, a maior parte dos cidadãos parece acreditar na mentira e aceitam pagar os custos através de aumentos de impostos e um conjunto de cortes e privatizações de serviços públicos (educação, previdência, infraestrutura, cuidados de saúde, etc).
Depois de garantirem o salvamento, os banqueiros premiavam-se a si próprios com bónus maciços e tentavam reverter aos negócios de sempre. Mas há um problema: o mundo esgotou-se de pessoas com crédito respeitável (o idiota seguinte no esquema de Ponzi). A maior parte dos indivíduos e negócios estão a naufragar em dívidas e a perspectiva é demasiado negra para prever qualquer lucro. Portanto os bancos não concedem empréstimos (credit crunch) e os devedores, quando podem, pagam à vista seu saldo em dívida, drenando dinheiro da economia real. Inicia-se assim uma perigosa espiral de deflação do dinheiro, provocando bancarrotas, desemprego, arrestos, definhamento de receitas fiscais e inquietação social. Enquanto isso o défice do governo dispara, inchando uma dívida pública já enorme e levando à espécie de crise de dívida soberana verificada em países como a Grécia, Islândia e Irlanda, para mencionar uns poucos.
Como chegámos a isto? Vamos dar um passo atrás e ponderar. Um sistema monetário baseado na usura exige crescimento sem fim, pois o juro composto cresce exponencialmente ao longo do tempo. Sob esta nova luz é mais fácil ver porque o establishment está tão obcecado com o aumento do PIB, um crescimento exponencial que simplesmente não é viável num planeta finito. Não há escapatória: se a economia não cresceu, não pode ser emitido novo dinheiro-dívida para estender no futuro os passivos de dívidas existentes. Uma vez que virtualmente toda a oferta monetária é criada pelos próprios bancos como dívida, novo dinheiro deve continuamente ser concedido como empréstimo só para pagar os juros devidos aos banqueiros. Analogamente, um crescimento zero ou negativo assinala o funeral do sistema monetário que estamos a testemunhar exactamente agora.
Considerações éticas acerca do parasitismo inerente à usura certamente seriam apropriadas nesta altura: possuidores de dinheiro emprestam-no àqueles a quem ele falta, os quais por sua vez tornam-se seus escravos. Mas a usura também apresenta um problema matemático prático: os bancos criam só o principal mas não o juro necessário para reembolsar os seus empréstimos. Isto resulta numa escassez de dinheiro crónica que afecta todos os actores do sistema, pois o dinheiro para pagar de volta o juro sobre todos os empréstimos não existe. Em consequência, todos nós devemos competir num jogo de soma zero para ganhar alguma coisa que simplesmente não existe. O dinheiro é ganho por alguns em detrimento de outros que ficam sem, o que se parece cada vez mais como uma competição implacável que amplifica grandemente o conflito social e os desequilíbrios de riqueza.
A constante expansão da oferta monetária necessária para aliviar uma escassez crónica de dinheiro é a causa principal da inflação, um confisco furtivo de riqueza dos possuidores de dinheiro. O sistema monetário poderia ser comparado a um jogo de cadeiras musical: enquanto a música toca (tanto a oferta monetária como a economia expandem-se) aparentemente não há perdedores [1] .
O montante do dinheiro-dívida no sistema deve crescer continuamente para minimizar o risco de uma deflação perigosa. Podemos agora entender como todas as conversas que ouvimos nos media dominantes acerca da necessidade de reduzir dívida são de facto apenas um disfarce enganoso. A dívida está destinada a ser mantida porque todo o sistema está baseado sobre ela. Qualquer redução de dívida (tanto pelo reembolso como pelo cancelamento) aumentaria a escassez de dinheiro, com consequências catastróficas numa economia disfuncional como a nossa.
Apesar de todos os esforços dos banqueiros centrais para manter o jogo em andamento, a oferta de dinheiro em muitas economias ocidentais actualmente está a contrair-se e milhões de pessoas são relegadas ao frio permanente.
Quando dívida é reembolsada, o falso principal é progressivamente destruído e o juro permanece como um lucro para o banco. Se considerarmos que sobre grandes empréstimos reembolsados ao longo de períodos de tempo muito longos (tais como hipotecas) o montante do juro cobrado pode facilmente exceder o principal, podemos começar a apreender a proporção colossal desta fraude bem como a sua natureza intrinsecamente parasitária.
Armados com este conhecimento, torna-se claro que o sistema monetário imposto sobre nós está em bancarrota estrutural. Um sistema de concessão de empréstimos baseado em juro só poderia funcionar se todo o dinheiro ganho através do juro fosse gasto em bens e serviços (de modo a que o tomador do empréstimo pudesse ganhá-lo outra vez), não entesourado ou emprestado outra vez. Entesourar dinheiro ou emprestá-lo a diferentes tomadores ao mesmo tempo (como os bancos fazem hoje) provoca a escassez do mesmo e finalmente leva a incumprimentos em massa.
Penso que a privatização do dinheiro é a principal causa subjacente da pobreza, escravatura económica, sub-financiamento do governo e de uma classe dirigente oligárquica que frustra toda tentativa de arrancá-la das rédeas do poder.

[1] Há realmente um perdedor: é o ambiente destruído pelo desenvolvimento insustentável exigido por uma economia conduzida pelo lucro.
NT
[1] Baby-boomers: pessoas nascidas num período de aumento da naturalidade (em especial os anos 1946-1965)
[2] Reserva fraccionária: a prática bancária de emitir mais crédito do que o banco possui como reserva, aumentando assim a massa monetária em circulação.
[3] IOUs (I owe you): acordo escrito para devolução de uma dívida.

Fonte: Resitir – http://resistir.info/