Wikileaks escancara a terceirização da guerra e coloca a imprensa diante de desafio

A nova leva de documentos secretos publicada pelo site Wikileaks desnudou para o público umarealidade sinistra materializada pelo fenômeno da terceirização da guerra nas mãos de empresas privadas, sobre as quais a sociedade tem pouco ou nenhum controle.

Observatório da Impresa

Muito já foi dito sobre o pacote de quase 400 mil documentos secretos divulgados pelo site especializado em publicar notícias e documentos sem verificação jornalística prévia. Mas o que ainda falta discutir é como o público vai digerir este material e a provável avalancha de outros que certamente congestionarão os fluxos informativos na web nos próximos meses e anos.

Os jornalistas terão um papel essencial neste processo, mas é fácil prever que a verificação de informações tende a se tornar cada vez mais complexa e exigente em matéria de mão de obra. As redações de jornais estão muito enfraquecidas pelos sucessivos cortes impostos pelas indústrias da comunicação para enfrentar as incertezas da digitalização.

Por motivos de espaço no provedor, leia esta matéria na íntegra no site CONTROVÉRSIA. Clique no link abaixo. Obrigado.

http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=7192

Proposta inusitada

A dificuldade de pensar com a própria cabeça

Revista Educação

Nos tempos em que era professor da Unicamp, fui designado presidente da comissão encarregada da seleção dos candidatos ao doutoramento, o que é um sofrimento. Dizer "esse entra", "esse não" é uma responsabilidade dolorida da qual não se sai sem sentimentos de culpa. Como decidir sobre a vida de uma pessoa amedrontada em 20 minutos de conversa? Mas não havia alternativa. Essa era a regra. Os candidatos amontoavam-se no corredor recordando o que haviam lido da imensa lista de livros cuja leitura era exigida.

Aí tive uma ideia que julguei brilhante. Combinei com os meus colegas que faríamos a todos os candidatos uma única pergunta, a mesma pergunta. Assim, quando o candidato entrava trêmulo e se esforçando por parecer confiante, eu lhe fazia a pergunta, a mais deliciosa de todas: "Fale-nos sobre aquilo que você gostaria de falar!".

Pois é claro! Não nos interessávamos por aquilo que ele havia memorizado dos livros. Muitos idiotas têm boa memória. Interessavama-nos por aquilo que ele pensava. Poderia falar sobre o que quisesse, desde que fosse aquilo sobre o que gostaria de falar. Procurávamos as ideias que corriam no seu sangue!

Mas a reação dos candidatos não foi a esperada. Foi o oposto. Pânico. Como se esse campo, aquilo sobre que eles gostariam de falar, lhes fosse totalmente desconhecido, um vazio imenso. Papaguear os pensamentos dos outros, tudo bem. Para isso eles haviam sido treinados durante toda a sua carreira escolar, a partir da infância. Mas falar sobre os próprios pensamentos – ah! isso não lhes tinha sido ensinado. Nunca lhes havia passado pela cabeça que alguém pudesse se interessar por aquilo que estavam pensando. Nunca lhes havia passado pela cabeça que os seus pensamentos pudessem ser importantes.

Uma candidata teve um surto e começou a papaguear compulsivamente a teoria de um autor marxista. Acho que pensou que aquela pergunta não era para valer. Não era possível que estivéssemos falando sério. Deveria ser uma dessas "pegadinhas" sádicas, cujo objetivo é confundir. Por via das dúvidas, optou pelo caminho tradicional e tratou de demonstrar que havia lido a bibliografia. Aí eu a interrompi e disse: "Eu já li esse livro. Sei o que está escrito nele. E você está repetindo direitinho. Mas não queremos ouvir o que já sabemos. Queremos ouvir o que não sabemos. Queremos que você nos conte o que você está pensando, os pensamentos que a ocupam…". Ela não conseguiu. O excesso de leitura a havia feito esquecer e desaprender a arte de pensar.Parece que esse processo de destruição do pensamento individual é uma consequência natural das nossas práticas educativas. Quanto mais se é obrigado a ler, menos se pensa. Schopenhauer tomou consciência disso e o disse de maneira muito simples em alguns textos sobre livros e leitura. O que se toma por óbvio e evidente é que o pensamento está diretamente ligado ao número de livros lidos. Tanto é assim que se criaram técnicas de leitura dinâmica que permitem que se leia Grande Sertão – Veredas em pouco mais de três horas. Ler dinamicamente, como se sabe, é essencial para se preparar para o vestibular e para fazer os clássicos fichamentos exigidos pelos professores. Schopenhauer pensa o contrário: " É por isso que, no que se refere a nossas leituras, a arte de não ler é sumamente importante."

Fonte: Revista Educação – http://revistaeducacao.uol.com.br

A Revolução Mexicana de 1910: de quem e para que?

GUGA DOREA

Nessa série de artigos sobre os 100 anos da Revolução Mexicana estamos chegando ao período em que as forças políticas em jogo demonstraram cada vez mais quais projetos de futuro elas tinham para o México. A data histórica que ficou oficialmente marcada como a da revolução – 20 de novembro de 2010 – deixou, na prática, uma questão em aberto até os dias de hoje.

Qual foi o real significado daquele acontecimento histórico e até que ponto o denominado neozapatismo é uma tentativa de resgatar o passado em um momento presente, tendo em vista transformar as atuais configurações políticas, sociais, econômicas e culturais do México atual? É diante dessas indagações que pretendemos, daqui para frente, buscar compreender como o México pode ser um exemplo significativo de como o capitalismo se desenvolveu entre o final do século XIX e início do XX, até a sua entrada globalizada e supostamente vitoriosa no mundo do cyberespaço, em que o passado é concebido como algo a ser velozmente ultrapassado e desintegrado.

Mas vamos com calma. Como estava o México no ano de sua revolução? Segundo Adolfo Gilly, entre muitos outros autores, algo em torno de 80% de suas terras estavam nas mãos dos grandes fazendeiros, o que não significava ausência de resistência dos camponeses e indígenas, aqueles que foram alijados do que eles próprios intitulavam culturalmente como "madre tierra", já mostrando com esse nome a sua forma diferenciada de lidar e de "olhar" para a natureza.

Para o pensador, o quadro social, econômico, político e cultural do México de 1910 era o de uma face dupla. De um lado, as reformas capitalistas, iniciadas no governo de Benito Juárez e fortalecidas, de forma autoritária, na era Porfírio Díaz, geraram um país marcado pela entrada fulminante das ferrovias nas terras camponesas e indígenas, o que correspondeu à utilização de áreas rurais para a produção de matérias primas a serem exportadas, sobretudo aos mercados dos EUA e da Grã-Bretanha.

No outro lado dessa instigante equação, apesar dos camponeses e indígenas, diante dessa nova realidade, terem se transformado, em sua maioria, em mão de obra útil para os interesses do sistema, foram eles que revelaram o chamado "México profundo", um país que a subjetividade capitalista não conseguiu contaminar e muito menos cooptar por completo. E esse México permanece potencialmente vivo até os dias de hoje.

Luta pelo poder

De um ponto de vista político, Adolfo Gilly nos mostrou ainda como a luta pela manutenção ou conquista do poder se desenvolveu nas vésperas da revolução. No âmbito da situação, o receio de Porfírio Díaz era a de que o avanço de seu opositor mais perigoso, Francisco Madero, viesse a insuflar e a incentivar os camponeses e indígenas a radicalizarem seu desejo por uma transformação verdadeira, que fizesse tremer, de fato, os alicerces de um ainda incipiente, mas poderoso ideologicamente, capitalismo.

Madero, por sua vez, tinha como principal preocupação realizar mudanças pacíficas e burguesas de seu interesse antes que os movimentos camponeses e indígenas radicalizassem a luta. O objetivo, portanto, era o de conter as massas e promover uma "revolução" aos moldes da crença na intitulada modernidade, seguindo caminhos já percorridos pelos grandes centros "desenvolvidos" daquela época.

Foi nessa circunstância que no dia 5 de junho de 1910 Porfírio Díaz venceu as eleições fraudulentas, apesar de seu anúncio de renúncia. Resultado: Madero é preso, enfraquecendo o seu objetivo de realizar uma revolução controlada e supostamente pacífica. Pouco tempo depois (outubro desse mesmo ano), ele é posto em liberdade condicional, escapa para os EUA e, logo na seqüência, retorna ao México para se proclamar presidente provisório do México em San Luis de Potosi, que fica ao norte do país, porém não na fronteira com os estadunidenses.

Nesse momento, Madero lançou o chamado Plano de San Luis em que, além de consagrar-se presidente, negou tanto o princípio da reeleição como o próprio governo de Porfírio Díaz. No artigo 3º do plano, em uma estratégia política, garantiu também a devolução de terras a seus antigos proprietários, sobretudo os indígenas, o que seria a sua única promessa considerada realmente social.

No dia 20 de novembro de 1910, data oficial da revolução, conclamou a "todos os cidadãos mexicanos" a se armarem e defenderem seu plano de tomada de poder. No entanto, Madero só iria promover uma tentativa de entrada definitiva no México em fevereiro de 1911, sendo derrotado no dia 6 de março. Enquanto isso, os camponeses do estado de Morelos, tendo o também camponês Emiliano Zapata à frente, pegam em amas e se apoderam de algumas fazendas, o que assustou Madero, colocando em xeque sua tentativa de promover a revolução burguesa.

Segundo já nos mostrou o próprio Adolfo Gilly, entre outros pensadores, como Madero nunca deixou de acenar para um possível acordo de transição com o governo de Porfírio Díaz, esse avanço camponês acelerou tal processo, surgindo assim, nos bastidores da política, os Acordos da Cidade Juarez (fronteira com os EUA), onde o então presidente Díaz mais uma vez se comprometeu a renunciar e a entregar interinamente o cargo de presidente para Francisco Leon.

Em linhas gerais, continuando na trilha de Adolfo Gilly, o intuito desse acordo era tentar dizer que, com a queda de Porfírio Díaz, a revolução mexicana estava concluída, o que levaria à necessidade e mesmo exigência de os camponeses entregarem as armas, em uma falsa idéia de que, enfim, a paz havia chegado ao México.

Zapata e Villa

A paz burguesa não se concretizou e o estado de Morelos, no sul do México, foi se transformando em um dos eixos principais da resistência aos acordos de Cidade Juarez. A conexão entre os camponeses que não tiveram suas terras confiscadas e os novos proletários agrícolas, cooptados e praticamente escravizados pelos engenhos do açúcar, levou à criação do Exército Libertador do Sul, dirigido por Zapata.

Quando Madero assumiu o poder, logo veio a proposta para que entregasse as armas, solicitação negada por ele. Zapata então exige a aplicação imediata do Plano de Ayala. Firmado em 28 de novembro de 1911, o plano declarou que o acordo da Cidade Juárez havia significado, na prática, o descaso e abandono de Madero em relação ao lema dos movimentos camponeses e indígenas: terra para quem nela trabalha.

Nesse contexto, camponeses e indígenas do sul entraram em guerra e recuperaram parte de suas terras, mantendo viva a revolução. No entanto, segundo Adolfo Gilly, o Exército Libertador do Sul era limitado do ponto de vista da tomada do poder de Estado, não tendo conseguido, portanto, impedir que a solução da revolução, naquele período, fosse burguesa. De um lado, apontou ele, a ala mais à direita da burguesia exigia que governo de Madero reprimisse o movimento camponês e indígena com maior veemência.

De outro, os movimentos organizados e os pequeno burgueses mais radicais, representados sobretudo pelo anarquismo de Ricardo Magón, exigiam a imediata devolução das terras para os camponeses e indígenas. Não acatando as duas exigências, Madero, no meio dessa artilharia ideológica, foi obrigado a amargar um isolamento político, o que levou à sua renúncia, em 25 de maio de 1911.

Apesar de apoiar estrategicamente Madero, na luta contra a ditadura Porfirista, Zapata sempre foi independente em relação à proposta liberal da revolução. Enquanto isso, a posição de Francisco Villa era considerada bem menos politizada. No início, ele era de fato aliado à direção burguesa. Acreditava nas propostas de Madero.

No entanto, esse alinhamento político não significava uma postura pacífica e subalterna. Pelo contrário, internamente Villa preocupava, tanto quanto Zapata, a elite burguesa com seu exército, a Divisão do Norte, sempre atento às reivindicações camponesas e indígenas. A ligação política entre Villa e Zapata, ao contrário, era uma garantia de que a queda de Porfírio Diaz não iria se tornar o passo derradeiro da revolução.

Explicando melhor o quadro político daquele efervescente momento histórico do México, a ala mais conservadora da burguesia não estava acreditando que Madero teria forças políticas suficientes para conter o avanço tanto dos movimentos camponeses e indígenas como da pequena burguesia mais radical. Segundo a interpretação de Adolfo Gilly, entretanto, foi o assassinato de Madero e a subida ao poder do General Victoriano Huerta, representando o grupo conservador e mais autoritário, que incendiou definitivamente a luta da esquerda pela radicalização da revolução. Isso porque caiu por terra o que restava do prestígio de Madero em relação aos movimentos camponeses e indígenas.

Por conta disso, o General Venustiano Carranza foi logo se proclamando seguidor de Madero, acusando Huerta de "usurpador" do poder. Luta entre generais pelo poder, ambos, cada um à sua maneira, querendo alijar ou submeter as massas a seus interesses. Nesse jogo político, Zapata permaneceu independente politicamente, enquanto Villa se alinhou, no início, ao General Carranza. Esse, por sua vez, sabia que sem o apoio logístico das massas organizadas não teria acesso ao poder.

Foi só chegar ao poder, entretanto, para ele recuar em sua posição e passar a reprimir os movimentos sociais organizados de forma contundente, desagradando ao grupo pequeno-burguês desenvolvimentista, representado por Alvaro Obregón, outro general que até então havia atuado como elo de ligação entre a liderança burguesa da revolução e as reivindicações de Zapata e Villa. O projeto político de Obregón era o de garantir o desenvolvimento capitalista, mas com a visão estratégica de que era importante promover concessões aos camponeses e indígenas, sempre tendo em mente o enfraquecimento político dos movimentos revolucionários.

No outro lado dessa realidade extremamente desfavorável para os setores mais oprimidos da sociedade mexicana, o trator capitalista não conseguiu devastar o que Adolfo Gilly denominou como "memória coletiva", sobretudo da cultura indígena, do que aparentemente estava sendo substituído pela crença no progresso e na homogeneização das relações humanas e culturais.

Podemos dizer, nesse entrelaçar de idéias, experiências e projetos políticos, revolucionários e reformistas, que novembro de 1910 sempre esteve bem mais próximo do que Adolfo Gilly chamou de "revolução interrompida". Fica então a pergunta: é possível finalizar essa revolução no mundo contemporâneo? Mas o que é ser revolucionário nos dias de hoje?

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

Náufragos da globalização

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Europa vive da memória de um continente que não existe mais e do papel de predominância ao qual se acostumou

IVAN MARSIGLIA

Após uma semana de confrontos cada vez mais intensos, a guerra chegou ao ápice na sexta-feira, quando o Senado francês finalmente decidiu votar – e aprovar – a reforma da Previdência Social proposta pelo presidente Nicolas Sarkozy. Entre outras mudanças, a idade mínima para a aposentadoria na França passou de 60 para 62 anos. O que para alguns não foi mais que um ajuste necessário em um país de população cada vez mais velha e com maior expectativa de vida, para outros – a maioria, a julgar pelas sondagens de opinião que cravaram 69% de apoio aos grevistas que protestavam contra a reforma – parece continuar inadmissível. Mesmo levando-se em conta a sociedade politicamente aguerrida que é a francesa, como entender o movimento que incendiou as ruas de Paris e Lyon, bloqueou aeroportos, fechou escolas, comprometeu o abastecimento de combustível e impediu até as apresentações da cantora pop Lady Gaga programadas para este final de semana no país?

Eric Gaillard/Reuters

Eric Gaillard/Reuters

Milhares de jovens uniram-se aos aposentados e manifestaram sua insegurança

“Os acontecimentos na França tomaram tal proporção que a questão das aposentadorias não basta para explicá-los.” É o diagnóstico do cientista político parisiense Bertrand Badie, de 60 anos, para quem em um aspecto os atuais distúrbios lembram os que fizeram história em maio de 1968: a estratégia do presidente Sarkozy para recompor sua combalida popularidade. “Naquela época, a revolta estudantil adquiriu tal amplitude que deixou em pânico o eleitorado de direita no país”, lembra o professor, catedrático de Relações Internacionais da Fundação Nacional de Ciências Políticas de Paris (Sciences Po). “Foi o que permitiu ao general De Gaulle ganhar facilmente as eleições.”

Agora, a 18 meses do pleito que irá definir a permanência ou não de Sarkozy no Palácio do Eliseu, nenhuma das partes mostrou-se disposta a ceder.

Na entrevista a seguir, concedida por telefone de Paris, Badie, que também é pesquisador-associado do Centro de Estudos e de Pesquisas Internacionais (CERI), afirma que a reforma aprovada não resolve a equação da Previdência no país: “Ela permitirá um alívio de um ano ou dois nas contas e, após as eleições, será preciso fazer outra reforma.” Para ele, tampouco se deve esperar algum refresco nas tensões sociais expressas nas manifestações estudantis e sindicais dos últimos dias. “A crise vem do fato de que a Europa e em particular a França, está falhando em sua inserção no mundo globalizado.

Na sexta-feira, o Senado francês aprovou a reforma da Previdência Social proposta por Sarkozy, apesar do acirramento dos protestos. O sr. esperava algum recuo?A grande dificuldade foi que o governo, de um lado, e os sindicatos, de outro, já tinham ido longe demais. Entramos numa situação em que o recuo de um ou de outro seria visto como derrota. E, agora, o risco de vermos uma radicalização de ambas as partes não está descartado. Até a semana passada me parecia ainda possível um acordo, uma solução negociada que acalmasse os ânimos. Ficou mais visível a possibilidade de um confronto sério.

Por quê?Sarkozy joga a carta de maio de 1968 revisitada. Naquele ano, a revolta estudantil adquiriu tal amplitude que deixou em pânico o eleitorado de direita no país. Foi o que, na época, permitiu ao general De Gaulle ganhar facilmente as eleições. O que se passa atualmente com Sarkozy é que ele está com a popularidade lá embaixo, em cerca de 25%, pois metade do eleitorado de direita francês o abandonou. Seu plano, ao permitir esse acirramento de tensões, é que os protestos assustem a direita e a façam cair de novo em seu colo. Uma estratégia, no mínimo, arriscada.

Uma pesquisa divulgada no mesmo dia pelo instituto de opinião pública BVA revelou que 69% dos franceses apoiam a greve.Exato. E, efetivamente, o grande trunfo dos sindicalistas é esse apoio da maioria da opinião pública, o que inclui parte da direita. Aqui na França, os simpatizantes da direita em geral representam 52 ou 53% da população, enquanto a esquerda conta com cerca de 45%. Esses 69% que apoiam as greves comprova que boa parte da direita está ao lado do movimento sindical. O que é um fenômeno novo e importante. Mas há outro elemento: os acontecimentos na França tomaram tal proporção que a questão das aposentadorias não basta para explicá-los. Existe uma espécie de rejeição geral às injustiças sociais, um sentimento de indignação contra o ultraliberalismo de Sarkozy, suas políticas fiscais favoráveis aos mais ricos e o acúmulo de frustrações que causaram. São muitas as dimensões do conflito.

Existe uma insatisfação difusa em relação à crise do Estado de bem-estar social?Os sindicatos falam apenas das aposentadorias. Eles não tratam de outras questões, que no entanto estão visíveis nos slogans, nos cartazes, nos fóruns de discussões. Neles, ao lado da reforma da Previdência, figuram o problema do desemprego, dos salários, das liberdades em geral e mesmo a denúncia da discriminação de minorias culturais e das políticas anti-imigração do governo. Nós assistimos a uma espécie de globalização da contestação, algo que é preciso levar em conta.

Essa ‘globalização da contestação’ explica o engajamento de estudantes secundaristas nos protestos por direitos dos aposentados?Sim. Creio que há um mal-estar profundo entre os nossos jovens, que temem o desemprego e não se identificam com essa ideologia neoliberal que se transformou, na França assim como em muitos países da Europa, numa espécie de pensamento único. Hoje, após a derrocada dos ideais do marxismo, não restou nada além das promessas do neoliberalismo – que igualmente fracassaram. E os jovens sentem-se profundamente inseguros em relação ao futuro que a Europa lhes reserva. Todas as pesquisas de opinião demonstram que eles temem entrar na vida adulta, diante das poucas perspectivas de emprego e bons salários. “Precariedade” é uma palavra que se ouve com frequência nessas pesquisas qualitativas.

Os acontecimentos das últimas semanas têm a ver com os protestos violentos na periferia de Paris em 2006 e 2007?A rebelião de 2006 e 2007 estava mais ligada ao fracasso da integração social na França, a um mal-estar em relação à espécie de exílio em que vivem milhares de jovens das periferias de Paris. Agora, o que está em discussão são temas mais banais, de um certo ponto de vista, e que não dizem respeito especificamente às periferias. Tanto que elas não se mobilizaram significativamente até agora. Claro que isso ainda pode ocorrer.

As políticas de restrição aos imigrantes não estão em pauta, desta vez?

A agenda da imigração e da restrição às minorias culturais entrou como uma espécie de cortina de fumaça do governo para ocultar os problemas econômicos e sociais. E isso é também algo de novo na história francesa. É a primeira vez que um governo se utiliza do argumento da denúncia de minorias culturais – mesmo nos anos 30, quando havia uma onda de anti-semitismo, não era o governo, mas a oposição que lançava mão desses argumentos. Agora, ela vem diretamente do governo e o problema é saber se isso acabará por se voltar contra ele ou não. Ainda é muito cedo para dizer.

É preocupante que o governo tenha recorrido a esse tipo de argumento?Isso me inquieta. Pois é um fenômeno que já afeta quase toda a Europa, talvez não na Inglaterra, mas o vemos na França, na Alemanha, na Suíça, na Itália, nos países da Europa Oriental e mesmo na Suécia, com toda a sua tradição de tolerância e abertura. Está se transformando em um fenômeno europeu, portanto.

Como entendê-lo?Sociedades que se fecham sobre si mesmas e adotam a exclusão, o isolamento, estão manifestando os sintomas de uma doença. Doença que se deve, em minha opinião, ao fato de que a Europa e em particular a França, está falhando em sua inserção no mundo globalizado. O Brasil, por exemplo, é um dos países mais bem-sucedidos nesse processo de globalização. É uma vitória dos países emergentes.

Vitória que não se deve também à menor regulação de seu mercado de trabalho e ao baixo custo de sua mão-de-obra, em comparação com a Europa?É claro que sim, mas os parâmetros econômicos e sociais dos países emergentes também se revelaram mais favoráveis à globalização. Mas não acho que a Europa esteja condenada a perder. Estou convencido de que há outras oportunidades e modos de inserção para nós no mundo globalizado atual. O problema é que a Europa vive na memória de um mundo que não existe mais, ainda não despertou para o fato de que há hoje um sistema internacional, um mundo novo que é preciso aceitar, compartilhar o papel de predominância ao qual se acostumou.

Para alguns, a reforma de Sarkozy foi razoável, pois a população envelheceu e a expectativa de vida aumentou. Para outros, os ganhos em produtividade recentes permitiriam a manutenção dos direitos dos aposentados. Qual é a sua opinião?Tenho uma opinião dupla. Em primeiro lugar, todo mundo está de acordo de que era necessária alguma reforma no regime previdenciário. Já o que não se diz com tanta frequência é que a reforma de Sarkozy, tal como foi proposta, não é suficiente. Ela permitirá um alívio de um ano ou dois nas contas e, após as eleições, será preciso fazer outra. Quer dizer, é um sacrifício que se impôs à população. Em segundo lugar, há outra coisa que deixamos de notar: é verdade que grande parte da população francesa, como a europeia, tem uma expectativa de vida mais elevada há alguns anos. Mas o detalhe é que a saúde não melhorou com a longevidade. Estatisticamente, um trabalhador de 60 anos hoje pode ser tão cansado e desgastado quanto era há 10 anos. Ou seja, junto com o aumento da longevidade ocorreu, por assim dizer, um aumento da duração da doença: você morre aos 100 anos de idade, mas começa a ficar fragilizado aos 60. E será preciso dar suporte a essa população, com asilos, leitos de hospital, estrutura, por quatro décadas.

O anúncio, feito na quarta-feira pelo governo britânico, de um corte de gastos da ordem de £ 83 bilhões e a dispensa de 500 mil funcionários públicos – seguido também de protestos por parte dos sindicatos – reforça o argumento de que a crise é europeia?Sim. A grande diferença é que o corte de gastos, na Inglaterra, se dá logo após as eleições e, aqui, estamos em período pré-eleitoral. As eleições presidenciais na França estão marcadas para daqui a 18 meses – quando Sarkozy poderá ou não ser reeleito. É um dado que não se pode ignorar e explica, talvez, o tom mais estridente dos protestos franceses.

E o que esperar das eleições de 2012? O sr. crê na sobrevivência política de Sarkozy?Até lá, muita coisa pode acontecer. Todas as sondagens eleitorais hoje preveem a vitória da esquerda. Mas, em seu País, elas davam também a vitória em primeiro turno a Dilma Rousseff, não? (Risos) Então, é impossível dizer o que ocorrerá. Com o momento impopular de Sarkozy podemos esperar uma movimentação ativa do candidato que vier da esquerda – algo que, como se vê, já modifica profundamente o panorama político francês.

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

A cor que invadiu o sertão

Luxo místico e riqueza marcam a estética do cangaço

Grupo FAPESP

Corisco, um dos cangaceiros mais vaidosos

"Olê, mulher rendeira/ olê, mulher rendá/ tu me ensina a fazer renda/ que eu te ensino a namorar”, diz a canção-símbolo do cangaço. Sobre moda, Lampião e seus homens tinham pouco a aprender e muito a ensinar. Vestiam-se de forma colorida, cobertos por adornos de ouro e, como bons sertanejos, sabiam confeccionar toda a sorte de objetos e vestimentas sem que por isso se questionasse sua virilidade: o “rei do cangaço” costurava suas roupas e a de seus afilhados e bordava à máquina com perfeição, orgulhando-se da sua habilidade. “O bando de Lampião, sobretudo nos anos 1930, possuía preocupações estéticas mais frequentes e profundas que as do homem urbano moderno”, afirma o historiador Frederico Pernambucano de Mello, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e autor do livro Estrela de couro: a estética do cangaço (Escrituras, 258 páginas, R$ 150), com 300 fotos históricas e 160 reproduções de objetos de uso pessoal dos cangaceiros, muitos pertencentes ao próprio autor. Tamanho apuro visual, pleno de detalhes nas coisas mais cotidianas (cães com coleiras trabalhadas em prata!), servia como proteção ao mau-olhado, instrumento de hierarquia interna, tinha funcionalidade militar e era um poderoso instrumento de propaganda junto às populações pobres, que se admiravam diante de todo aquele luxo, cor e brilho. Era também uma forma de arte que o cangaceiro carregava no seu corpo.

“Havia orgulho em tudo aquilo, um esforço para que se pudesse chegar ao anseio de beleza de cada um dos cabras. Era notável ainda um desprezo sistemático pela ocultação da figura, atitude oposta à de quem se considera criminoso”, explica. “Morando num meio cinzento e pobre, o cangaceiro vestiu-se de cor e riqueza, satisfazendo seu anseio de arte e conforto místico. Era como se os mais esquivos habitantes do cinzento se levantassem contra o despotismo da ausência de cor na caa tinga e proclamassem a folia de tons e de contrastes.” Em vez de procurar camuflagem, os cangaceiros desenvolveram uma estética brilhante e ostensiva com roupas adornadas de espelhos, moedas, metais, botões e recortes multicores que, paradoxalmente, os tornavam alvo fácil até no escuro. “Todos armados de mosquetões, usando trajes bizarramente adornados, entram cantando suas canções de guerra, como se estivessem em plena e diabólica folia carnavalesca”, escreveu o Diário de Notícias, de Salvador, em 1929. “Ainda que o fascínio pelo cangaço tenha existido sempre, fomentado pela literatura de cordel, Lampião soube jogar com todos os registros do visual para ‘magnificar’ a sua vida e transmitir a imagem de um bandido rico e poderoso. Foi o primeiro cangaceiro a cuidar de sua estética, usando modos de comunicação modernos que não faziam parte da sua cultura original, como a imprensa e a fotografia”, explica a historiadora francesa Élise Grunspan-Jasmin, autora de Lampião: senhor do sertão(Edusp).

Após terem seu visual cantado pelo cordel, a fotografia, ao chegar ao sertão na primeira década do século passado, fez a delícia do cangaço. “Essa existência criminal parece ter sido criada para caber numa fotografia, tamanho o cuidado do cangaceiro com o visual, com a imponência e a riqueza do traje guerreiro”, avalia Pernambucano. “As vestimentas dos bandidos foram sendo incrementadas até se tornarem quase fantasias. Esse era um dos aspectos da extrema vaidade daqueles bandoleiros”, observa o historiador Luiz Bernardo Pericás, autor de Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica (Boitempo, 320 páginas, R$ 54). O homem do cangaço era um orgulhoso que se esmerava no traje, até o final, como se pode ver na célebre foto das cabeças de Lampião e seus homens ao lado de seus chapéus: “Dentre os treze, não há dois iguais, tão ricos em tema e valor material quanto o do chefe, prova da imponência da estética, cuja afetação exagerada adjetivou o cangaço em sua etapa final, quando se chegou a incrustar alianças de ouro na boca das armas”, nota Pernambucano. “Havia uma estética rica que conferia uma ‘blindagem mística’ ao cangaceiro, satisfeito com a sua beleza e ainda seguro em meio a uma suposta inviolabilidade.” A ponto de contaminar as roupas dos policiais, que copiaram suas vestimentas, e mudar o foco da guerra. “O contágio inelutável dá a força dessa estética e evidencia a existência de outra luta, travada em paralelo, no plano da representação simbólica. A vingança estética do cangaço contra a eliminação militar se dá quando o ícone principal de sua simbologia se transforma na marca do Nordeste: a meia-lua com estrela do chapéu de Lampião.”

Bandidos – Estimulando essa “gana de ostentação” estava a própria essência política do cangaço. “Os cangaceiros não admitiam ser comparados ou confundidos com bandidos comuns, uma ofensa imperdoável. Viam-se como atores sociais distintos, na mesma estatura dos ‘coronéis’”, explica Pericás. O que lhes permitia usar e abusar dos figurinos: orgulhosos de si mesmos, tinham ainda um gosto pelas patentes militares, promovendo “cabras” a postos de hierarquia militar e considerando membros de seus efetivos como “soldados”. “Observe que todo grupo militar preza os símbolos, as insígnias, as representações de poder. Lembra-se do Brejnev com medalhas que não cabiam no peito no tempo da Rússia soviética? Sujeito inteligentíssimo, Lampião fez da costura e do bordado um critério a mais de promoção e status no seio do bando e ele mesmo costurava as vestimentas de seu bando. Saber prepará-los e conferi-los a seus homens era uma grande vantagem”, salienta Pernambucano. “Não se chama o boi batendo na perneira”, dizia o “rei”, consciente da necessidade de uma política de afagos interna para amenizar a disciplina de que não abria mão. “A estética era uma ferramenta para infundir o orgulho do irredentismo cangaceiro nos recrutas de modo quase instantâneo. Antes desse recurso estético, imagino que essa inoculação devesse ser lenta.”

Cantil decorado e, ao lado, bornal florido

Patrões – “Os bandos de cangaceiros eram estruturas hierarquizadas com claras distinções entre as lideranças e a ‘arraia-miúda’, sem voz de comando em posição claramente subordinada aos chefes. Muitos consideravam os líderes do cangaço como ‘patrões’. E esses comandantes se viam assim, quase como os coronéis, com os quais mantinham boas relações, colocando-se em posição igualitária aos potentados rurais”, afirma Pericás. Na contramão do senso comum, os comandantes cangaceiros eram de famílias tradicionais e relativas posses. Lampião, por exemplo, pertencia à classe dos proprietários de terra e ele próprio foi um criador de gado. Por isso o cangaço não foi, diz o pesquisador, uma luta para reconstruir ou modificar a ordem social sertaneja tradicional, como preconizado por boa parte da literatura sobre o fenômeno. “Eles não lutavam para manter ou mudar nenhuma ordem política, mas para defender seus próprios interesses mediante o uso da violência, indistinta e indiscriminada. Os bandidos procuravam, sim, manter vínculos com os protetores poderosos, o que podia resultar, inclusive, em agressões contra o seu próprio povo”, diz Pericás. Nesse sentido, a famosa justificativa da adesão ao cangaço por motivos de disputas sociais ou vinganças familiares deve ser vista com desconfiança. “Os cangaceiros diziam-se vítimas, obrigados a entrar na luta por honra, mas isso era, na maior parte dos casos, um ‘escudo ético’, um argumento para convencer as populações pobres de que eram movidos por questões elevadas, se diferenciando dos bandidos comuns, o que não era real.” Lampião nunca viu como prioridade ajudar os necessitados. “Em geral, guardavam o dinheiro grande e davam alguns tostões aos pobres e às igrejas. E sempre faziam questão de que isso fosse divulgado para criar uma imagem positiva junto ao povo.”

Na prática, o comportamento dos cangaceiros era parecido com o dos coronéis, que agiam de forma paternalista com aqueles que eram considerados “seus” pobres. “Eles não eram bandidos sociais e se pode mesmo dizer que sua presença foi um obstáculo a um protesto social mais significativo. Apesar disso, como um executor independente da raiva silenciosa da pobreza rural, o cangaceiro tinha o apelo popular de um agente superior. A sua violência era um gesto admirado de afirmação psíquica na ausência de justiça e mudança positiva”, acredita a historiadora Linda Lewin, da Universidade da Califórnia, autora de The oligarchical limitations of social banditry in Brazil. Câmara Cascudo já notara que “o sertanejo não admira o criminoso, mas o homem valente”. “O cangaço pode ser visto como uma continuidade do ambiente violento do sertão, onde era comum que paisanos carregassem e usassem armas no cotidiano, pautando sua vida em questões morais, de honra e prestígio”, diz Pericás. Os cangaceiros construíram a imagem de indivíduos injustiçados que haviam ingressado na criminalidade por bons motivos. Mas, se eram violentos, o mesmo pode ser dito dos soldados que os perseguiam. “A população que sofria violências das volantes se voltava para os bandoleiros como uma resposta ou por vê-los em contraposição aos ‘agentes da lei’”, analisa Pericás.

© Reprodução do livro Estrela de couro – a estética do cangaço

Jabiracas de tecido inglês, de Lampião

Jabiracas de tecido inglês, de Lampião

“Com seus trajes inconfundíveis e nada tendentes à ocultação, se sentiam investidos de um mandato mais antigo, havido por mais legítimo que a própria lei, esta, a seus olhos, uma intrusão litorânea sobre os domínios rurais”, completa Pernambucano. Os cangaceiros supriram a falta de poder institucionalizado no sertão. “Eles seriam os fiéis da balança em muitos casos, sendo um poder paralelo, mais fluido e inconsistente, mas que tinha apelo para as massas rurais”, diz Pericás. Com o tempo, porém, o cangaço se revelou um negócio, o “Cangaço S/A”, como o descreve Pernambucano. “Era uma ‘profissão’, um ‘meio de vida’. Os bandidos estavam equidistantes do ‘povo’ e dos mandões, ainda que com maior proximidade das elites rurais”, concorda Pericás. Como eram “independentes”, tinham sua imagem dissociada diretamente dos coronéis. “Não sendo empregados de ninguém, eram de certo modo autônomos, tirando das camadas mais ricas e dos governos o monopólio da violência. Mas é sempre bom lembrar que a maioria da população sertaneja, apesar da miséria, da exploração, da falta de emprego e das secas, não ingressou no cangaço.” Segundo o pesquisador, um dos motivos para a longevidade da “boa” recordação dos cangaceiros seria sua contraposição à ordem instituída. “Os policiais representavam o governo, mas usavam a farda para transgredir. Assim, parte dessa sociedade se voltou para os cangaceiros e viu neles o oposto, ou seja, aqueles que lutavam contra a ordem.” Suas atividades crimi nosas, então, eram justificadas no quadro maior da luta entre os dois “partidos”: cangaço e polícia.

Politicamente “reabilitados” e bem vistos, permitiam-se o luxo da ostentação, que se iniciava pelos chapéus, cujas abas levantadas podiam chegar aos 20 cm de raio anular, uma hipérbole em relação ao modelo original dos vaqueiros, de abas viradas, mas curtas. “Experimentei o chapéu de Lampião no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas: o pescoço bambeou. Tanto peso ornamental não teria nada a ver com funcionalidade militar, mas com valores bem mais sutis”, conta Pernambucano. O objeto tem cerca de 70 peças de ouro, entre moedas, medalhas e outros adereços, o que levou um repórter da época a defini-lo como “verdadeira exposição numismática”. O chapéu era o ponto de concentração dos adendos simbólicos que caracterizam o traje do cangaceiro.

Chapéu de couro do rei do cangaço (à esq.) e conjunto de bornais

Amuletos – Coisas comuns eram transformadas em amuletos que, além de reforçar a hierarquia, viravam símbolos de uma crença mística. “A blindagem mística se traduziu nos muitos signos (estrela de davi, flor de lis, signo de salomão e outros) e na profusão do seu uso em todos os ângulos das vestimentas, o que dividia a atenção com o puro anseio estético, a se mesclar a este, conferindo utilitarismo à fusão, pela força de dar vida à crença tradicional numa suposta inviolabilidade em meio a riscos extremos.” Mas não se iluda o espectador ao pensar que os bandos eram “escolas móveis de superstição”. “O grosso da cabroeira, muito jovem, entre os 16 e os 23 anos, pautava-se pela lei da imitação, sem consciência daquilo de que se servia. O chefe usava? Basta.” As mulheres seguiam as modas de perto, mas de forma distinta. “Com alguns traços de valquíria e quase nenhum da amazona, a matuta que se engajou no cangaço jamais adotou o chapéu de couro, coisa de homem. A elas ficou reservado uma cobertura de feltro, de aba média, e a colocação, sobre a cabeça, de toalha ou lenço”, conta Pernambucano. O mesmo se dava com os punhais que podiam chegar a 80 cm para os homens (o tamanho limite era o do punhal de Lampião, que não poderia ser superado), mas não passavam dos 37 cm no caso das mulheres.

Facão com cabo de gavião, de Lampião

Facão com cabo de gavião, de Lampião

As armas brancas, aliás, são paradigmas na vestimenta do cangaceiro. Com função militar quase morta após o advento da espingarda de repetição, os punhais serviam no ritual letal do sangramento nordestino ou como símbolo de status. “Era usado orgulhosamente sobre o abdome, à vista de todos, aço da melhor qualidade europeia com cabo decorado de prata. Desfrutável ao primeiro olhar. Ou à primeira fotografia.” O punhal de Zé Baiano, presente de Lampião, foi avaliado em mais de 1 conto de réis, preço de uma casa. Outros símbolos de prestígio eram a bandoleira, correia para segurar a espingarda no ombro, e a cartucheira trespassada, essa uma necessidade nascida de se prover um adicional de munição: 150 cartuchos de fuzil Mauser presos com enfeites de ouro. Era comum, porém, que as volantes, cientes do prestígio de seu uso, mirassem em quem portasse uma dessas. A seu lado, iam os cantis, decorados com esmero, um espaço surpreendente de arte de projeção. Como as luvas a que, nota Pernambucano, o cangaceiro, no fausto dos anos 1930, juntou um bordado colorido. O lugar privilegiado das cores, porém, eram os bornais, cuja policromia levou um jornalista a descrever os cangaceiros como “ornamentados e ataviados de cores berrantes que mais pareciam fantasiados para um carnaval”. Visíveis por todos os ângulos, os bornais eram responsáveis por mais de dois terços desse “porre de cores”, o resto ficando por conta do lenço de pescoço, a jabiraca, com que também se coava o líquido extraído de plantas da caatinga. “Nela, nada de nós, mas puxadas as duas pontas para a frente, em paralelo, o cangaceiro ia colecionando alianças de ouro, tomando-se como rico quando formava o cartucho. Houve quem tivesse mais de 30 alianças no pescoço”, conta. Viajando por Sergipe, em 1929, Lampião teve os “apetrechos” pesados numa balança de armazém: 29 quilos sem as armas. No total, o peso carregado no calor tórrido da caatinga podia chegar a quase 40 quilos.

Místico – Com menos aprumo, a vestimenta contagiou os policiais. “A sedução da indumentária dos cangaceiros arrebatava pelo funcional, pelo estético e pelo místico. A volante se mimetizou a tal ponto que dela não restou imagem própria”, diz Pernambucano. Para desespero das autoridades, que se sentiam derrotadas também no simbólico. “Cumpre que se adote a proibição de fardamentos exóticos, de berloques, estrelas, punhais alongados e outros exageros notoriamente conhecidos, porque a impressão se faz no cérebro rude e, à primeira oportunidade, o chapéu de couro cobre a testa e o rifle pende a tiracolo”, alertava um relatório oficial. Curiosamente, nota o pesquisador, pintores como Portinari ou Vicente do Rego Monteiro não souberam captar o luxo e o colorido dessa estética em suas reproduções do cangaço, optando, ideologicamente, por uma visão monocromática opaca, para ressaltar o aspecto social do fenômeno, à custa da fidelidade ao real. “Não é exagero dizer que ainda está por surgir, na pintura ou no cinema, quem consiga combinar o ethos e o ethnos dessas comunidades para retratá-las”, avalia Pernambucano. “O cangaço foi o último movimento a viver ‘sem lei nem rei’ em nossos dias, após varar cinco séculos de história. E o último a fazê-lo com tanto orgulho, com tanta cor, com tanta festa e com uma herança visual tão significativa.” Como, aliás, já diziam os versos de Mulher rendeira: “O fuzil de Lampião/ tem cinco laços de fita/ No lugar em que ele habita/ não falta moça bonita”.

Fonte: Revista da FAPESP – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

Marina e o PV, apêndice do PSDB. Entrevista especial com Maria Inês Nassif

INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS

“No regime presidencialista, a gente tende a se concentrar no resultado da votação para presidente da República, quando é tão ou mais importante, inclusive para execução de um programa político, ter condições de lidar com o Congresso”, “Foi muito difícil, principalmente no segundo mandato do Lula, governar com um Congresso hostil. É um equilíbrio necessário nesse regime presidencialista. Se a Dilma for eleita no segundo turno, esse é o lado positivo. Se o Serra ganhar, ele terá dificuldades maiores do que o Lula teve com a oposição”, completou a jornalista.

IHU On-Line – Qual o papel das diferentes religiões no resultado das eleições?

Maria Inês Nassif – É algo que ninguém pôde prever, mas que teve uma importância bastante grande. Houve uma ofensiva organizada tanto da Igreja Católica em São Paulo, que tem um eleitorado mais conservador, como da Igreja Evangélica. Isso foi percebido tardiamente pelo comitê da candidata Dilma Rousseff e a reação também foi tardia. Não foi possível desmontar essa armadilha, que não reflete posições tomadas pela hierarquia da Igreja Católica, que nunca impôs vetos diretos a nenhum partido, embora em alguns momentos tivesse coincidido em termos de ação política com um ou outro partido. Mas a opção partidária nunca havia sido colocada claramente, diferente dessas eleições. Em São Paulo, a Regional da CNBB fez um documento pedindo claramente que os fiéis não votassem na Dilma e em nenhum outro candidato do PT.

IHU On-Line – É correto dizer que o voto do brasileiro é conservador?

Maria Inês Nassif – Já foi mais conservador. Tínhamos uma realidade eleitoral estabelecida de donos de voto. Eram chefes políticos que tinham grande influência sobre a população de baixa renda, semianalfabeta, que dependia dos favores desses políticos, inclusive para comer. Nos últimos dez anos, houve um descolamento considerável desse voto.

Temos uma elite muito conservadora em um país com cultura religiosa muito arraigada que, em alguns momentos, pode favorecer posições conservadoras como essa a respeito do aborto. A elite é muito mais conservadora do que os votos do brasileiro. O primeiro turno foi repleto de reações conservadoras das pessoas e setores que antes tinham domínio sobre a opinião pública. A reação foi muito forte porque a influência é menor, é preciso fazer muito barulho para conseguir algum resultado.

IHU On-Line – Quem foram os vencedores e perdedores dessa primeira fase das eleições?

Maria Inês Nassif – A Dilma foi para o segundo turno, mas as pessoas precisam prestar a atenção que o primeiro turno foi uma grande vitória da aliança que apóia Dilmano Congresso. É um maioria que o Lula não teve. Dilma, se for eleita, contará com essa maioria, apesar de ter de lidar com o PMDB, que é um partido difícil. No regime presidencialista, a gente tende a se concentrar no resultado da votação para presidente da República, quando é tão ou mais importante, inclusive para execução de um programa político, ter condições de lidar com o Congresso. Foi muito difícil, principalmente no segundo mandato do Lula, governar com um Congresso hostil. É um equilíbrio necessário nesse regime presidencialista. Se a Dilma for eleita no segundo turno, esse é o lado positivo. Se o Serra ganhar, ele terá dificuldades maiores do que o Lula teve com a oposição. A melhor coisa é a democracia, tivemos uma eleição que continua esse processo que conquistamos a duras penas. Os candidatos foram livres para falar o que quiseram. Muitos, inclusive, falaram o que não deviam.

IHU On-Line – Quais fatores explicam a queda da candidata Dilma na reta final?

Maria Inês Nassif – Houve uma ofensiva muito forte, inclusive, da própria mídia, que é um desses setores que tinham mais poder de formação de opinião anteriormente e que hoje precisam amplificar muito suas ações para ter algum resultado. Foi uma ofensiva que fugiu dos limites do bom senso e da própria verdade. A questão religiosa, na última hora, também colaborou para que houvesse um segundo turno.

Outro fator que deve ser avaliado é a quantidade enorme de abstenções ocorridas por conta de uma confusão da Justiça Eleitoral, que ajudou muito pouco nesse pleito. As indefinições foram levadas até a véspera das eleições, inclusive a questão dos documentos necessários. Ao contrário dos anos anteriores, houve pouco discernimento em relação às regras eleitorais, ninguém sabia ao certo como funcionava o voto em trânsito, indefinições em relação ao Ficha Limpa, que devem continuar por algum tempo. A Justiça Eleitoral já trabalhou melhor do que nessas eleições.

Outra questão é um certo desconforto em relação a esta polarização que já vem há muito tempo entre PT e PSDB; Marina se apresentou como opção. Se ela não tivesse essa votação considerável, a Dilma certamente teria o primeiro turno garantido. A Marinalevou a eleição para o segundo turno. O tanto que Serra cresceu no final do processo eleitoral não justificaria a não-vitória da Dilma no primeiro turno.

IHU On-Line – Como a senhora acredita que Marina e os eleitores que votaram nela se comportarão no segundo turno?

Maria Inês Nassif – Marina está em uma situação muito difícil. Ela foi para o PV, um partido que não existia, com pouca consistência ideológica. Marina era a estrela do partido e deu conteúdo à candidatura. O PV na maior parte do país é um apêndice do próprio PSDB e a Marina não tem esse perfil, por isso não sei como ela vai se virar. Ela está propondo plenárias e discussões internas, mas esse não é o tipo de coisas que está no cardápio do PV. Não sei se ela consegue essa profundidade de debate para chegar a uma definição sobre o segundo turno. O mais razoável seria pensar que no PV cada um vai para um canto, as decisões acabarão sendo individuais, não partidárias.

IHU On-Line – Quais as estratégias que PT e PSDB devem adotar no segundo turno?

Maria Inês Nassif – Pelo que li nos jornais, parece que caiu a ficha do pessoal doSerra: a agressividade, esse neudenismo sem limites, foi algo que aumentou muito a rejeição a ele. Reitero: não foi o Serra que ganhou mais eleitores no final das eleições, aMarina deu a ele a segunda chance. Agora ele se propõe ao debate, mas isso a gente só irá ver quando começarem os debates. Ao longo do primeiro turno, o Serra foi desorientando à medida que as pesquisas davam o crescimento da Dilma, ele foi perdendo toda a estratégia de campanha e acabou se resumindo a agressões, acusações e boatos espalhados na internet.

A Dilma conseguiu tamanha votação porque é a candidata do presidente Lula, que deixa o governo com o maior índice de aprovação já visto. A maior arma dela continua sendo Lula e um governo que tem bom desempenho. Fora isso, os candidatos a governador do PT acabaram ganhando em quase todos os estados que concorreram no primeiro turno e estão disponíveis para a campanha. O PT está tentando atrair a antiga militância para conter nas bases essa onda de boatos, armadilhas, como a do aborto, e estratégias de desqualificação da candidata. Os movimentos sociais tendem a responder a essa mobilização porque não têm nenhuma afinidade com o PSDB. Mesmo não considerando o ideal, ainda preferem o PT.

IHU On-Line – De que forma as pesquisas influenciam no andamento das campanhas?

Maria Inês Nassif – As pesquisas influenciaram muito o desemprenho do Serra. Ele foi ficando mais agressivo e construindo um discurso mais acirrado. Tanto que a rejeição dele acabou chegando num patamar estratosférico. Hoje ele diz debaterá programas e fazer uma campanha menos agressiva. Não sei como vai reagir às primeiras pesquisas de intenção de voto, se vai conseguir manter esta estratégia. No primeiro turno, não conseguiu.

IHU On-Line – Direita [DEM] e esquerda [PSOL] saem fragilizados das eleições. A política no Brasil se faz cada vez mais pelo centro?

Maria Inês Nassif – Esses partidos estão no linear de um processo de formação partidária que vem de 1979, com o fim do partidarismo, que está se esgotando. É inevitável uma mudança muito grande no quadro partidário a partir do ano que vem. O jeito que está é insustentável. O DEM virou um partido nanico, o PSOL perdeu quase toda a representatividade. A lei restringe cada vez mais a possibilidade de fazer esses acertos partidários no período pós-eleitoral que, bem ou mal, facilitavam depois a reorganização dos partidos.

Uma profunda mudança é necessária e os partidos terão de descobrir o povo. Não dá mais para fazer política achando que basta ter o apoio de uma elite e repercutir o que faz na mídia para ganhar todos os eleitores. Se os partidos não se dedicarem a uma composição orgânica, pensarem ideologicamente e se definirem claramente, será muito difícil manter esse quadro. Não é só uma questão de esquerda, direita e centro, mas de qualidade dos partidos políticos brasileiros. Precisam mudar obrigatoriamente sua qualidade de representação política ou senão vai ficar essa instabilidade toda. O PT é o único que tem alguma consistência e está crescendo muito, o PMDB não tem consistência, mas se mantém pelo poder regional que possui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – http://www.unisinos.br/ihu/

Margens da política, fronteiras da violência: uma ação coletiva das periferias de São Paulo

Gabriel de Santis Feltran

O artigo discute a relação contemporânea entre periferias urbanas e mundo político no Brasil, tomando como objeto heurístico a trajetória de mais de duas décadas de uma ação coletiva da zona leste de São Paulo. Argumento que a relação entre periferias e mundo público foi historicamente marcada pelo conflito. O percurso desse conflito, e de suas formas de contenção a partir dos anos 1970, faz ainda hoje coexistirem três dispositivos distintos, que na linha do tempo tiveram ênfases sucessivas: 1) a luta política, cuja lógica interna remeteu à aposta nos direitos da cidadania, central nas ações dos “movimentos sociais” desde os anos 1970 até o início dos 1990; 2) a gestão estatal e civil de grupos sociais das periferias, presente na lógica interna dos “programas sociais” a partir de meados dos anos 1990; e 3) a violência, presente ou latente na força repressiva voltada às periferias e regulada hoje, sobretudo, pelo próprio "mundo do crime".

"Manhã de dezembro. Desço a pé as vielas fechadas de uma favela do Parque Santa Madalena, zona leste de São Paulo. Estou acompanhado de dois militantes do Centro de Direitos Humanos de Sapopemba (CDHS) e de uma freira da Eritreia. Ela me conta que os cristãos são perseguidos em seu país, que se sente em casa nas favelas, que a luta dos movimentos populares ‘é a mesma no mundo todo’. Universalismos… pensei comigo. Pedimos licença a moradores sentados na soleira de suas portas; eles nos abrem caminho sem nenhum entusiasmo. Depois de passarmos, um deles grita: ‘Tempo de política vem todo mundo pagar pau, não é não!?’ . Um ano eleitoral viria pela frente, de fato. No ponto mais baixo e central da favela que ocupa duas encostas íngremes se aglomeravam umas vinte pessoas, alguns rostos conhecidos, formando uma roda.

Valdênia Paulino a militante mais conhecida da região, diretora do CDHS falava aos moradores no microfone: ‘Vamos descer, pessoal, para participar dessa conversa, para mostrar que em Sapopemba a gente sabe receber as visitas com calor humano!’. Explicava que se tratava de um ato contra a violência policial, e citava nomes de adolescentes dali assassinados pela polícia. ‘Lembram do Vandinho? E do Jackson da D. Nenê? [nomes fictícios]. Estamos aqui em nome deles, pela memória deles!’. Valdênia falava com propriedade, conhecia os meninos, suas mães e suas histórias. Era muito respeitada na favela.

O evento lançaria um relatório da Anistia Internacional sobre o policiamento em ‘comunidades’ no Brasil, chamado ‘Eles entram atirando’. As pessoas foram chegando; entre moradores e ‘gente de fora’, já éramos quase cem. A roda crescia e um grupo de samba do Centro de Defesa dos Direitos de Crianças e

Adolescentes (Cedeca) dava o tom. Valdênia começou então a convocar os presentes para fazerem

depoimentos públicos: duas vítimas de violência

policial, depois o coordenador das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) do distrito; em seguida o presidente de honra do CDHS, uma militante do Rio de Janeiro, outra de São Bernardo do Campo e mais uma de Guarulhos. Parentes de vítimas de violência policial de várias cidades brasileiras estavam ali. Um pastor da igreja evangélica também compareceu; representantes do movimento dos sem-teto e de diversas entidades civis de defesa de direitos foram anunciados. Por último, anunciou-se a presença de uma série de parlamentares, todos do Partido dos Trabalhadores (PT): um vereador, dois deputados estaduais e dois federais. Cada uma destas pessoas sentou-se numa roda em torno de milhares de cartas espalhadas pelo chão, que narravam casos de violência policial do mundo todo. Cada um fez uma intervenção curta, seguida de aplausos. A cena era tocante.

Pensei comigo, escrevendo essas notas: Valdênia era o único elo de relação entre toda aquela gente. Eu mesmo estava ali por seu intermédio." (Notas de campo).

Nas últimas três décadas, as ações coletivas de moradores das periferias de São Paulo e de outras grandes cidades brasileiras ocuparam invariavelmente um espaço normativo de mediação entre a população mais pobre da cidade, de um lado, e o mundo das instituições políticas, de outro. O evento na Favela do Madalena e a função nele desempenhada por Valdênia expunham com clareza essa condição. Entretanto, se o lócus de atuação dessas ações coletivas permaneceu o mesmo desde os anos 1970, o sentido da mediação que desempenham modificou-se radicalmente, desde então. Ao menos duas linhas de transformações, associadas, sintetizam essa mudança. De um lado, a da transição do regime político dos anos 1980, que nos anos 1990 inseriu subalternamente os movimentos sociais das periferias na política institucional; e, de outro, a transformação expressiva no perfil da população dessas periferias nas últimas décadas, que questionou a capacidade representativa daqueles atores.

A aposta deste texto é que o estudo da trajetória mediadora de uma dessas ações coletivas permite colocar essas duas linhas de transformação em relação, iluminando as fronteiras (ou margens) da política contemporânea no Brasil1. O artigo toma a trajetória de mais de duas décadas do Cedeca Sapopemba, uma entidade de defesa de direitos da periferia leste de São Paulo, como objeto heurístico dessa reflexão. Argumento que essa relação entre periferias e mundo público foi historicamente marcada pelo conflito. O percurso desse conflito, bem como de suas formas de contenção a partir dos anos 1970, faz ainda hoje coexistirem na cena pública três dispositivos distintos, que na linha do tempo tiveram ênfases sucessivas: 1) a luta política, cuja lógica interna remeteu à aposta nos direitos da cidadania, central nas ações dos "movimentos sociais" dos anos 1980 e início dos 1990; 2) a gestão social, gerenciamento estatal e não governamental de populações específicas das periferias, muito presente na lógica interna dos "programas sociais" a partir de meados dos anos 1990; e 3) a violência, presente ou latente na repressão policial às periferias e regulada hoje, sobretudo, pelo próprio "mundo do crime", em expansão nas periferias da cidade. A diferenciação entre os dispositivos, aqui, é meramente analítica: pretende conferir inteligibilidade a dinâmicas que coexistem, com centralidade sucessiva, na trajetória do Cedeca. A argumentação do texto está amparada em etnografia realizada entre 2005 e 2009 no distrito de Sapopemba, zona leste de São Paulo2.

Como se sabe, há trinta anos o mundo político brasileiro gravitava em torno de um regime ditatorial e, portanto, refratário por definição à participação política pluralista. Ao mesmo tempo, a modernização e o pleno emprego industrial daquele período conhecido como "milagre econômico" atraíam milhões de migrantes de todo país para as periferias das metrópoles. O perfil da população que ocupou essas periferias foi, por essas duas razões, majoritariamente migrante e centrado na família extensa, cuja expectativa era "melhorar de vida" na cidade. A coesão social dessa população se ancorava nos valores católicos e no projeto de mobilidade social ascendente pelo trabalho industrial3. A demanda por integração social e representação política dos interesses desses trabalhadores era intensa, embora reprimida. A promessa pública, no entanto, era a de que a modernização do país inscreveria essas "classes trabalhadoras" na dinâmica salarial, e que a contrapartida social do assalariamento, o acesso a direitos sociais, geraria melhoria objetiva nas condições de vida das famílias.

Para que a promessa se efetivasse, no entanto, não bastava apenas o esforço privado do provedor da família. Era preciso garantia estatal do emprego e dos direitos a ele associados; portanto, exigia-se que um projeto político estivesse associado ao projeto familiar operário. Não por acaso, percebeu-se logo a necessidade de constituição de ações coletivas para representar essa gente: os "novos movimentos sociais" das periferias emergiram, desde o final dos anos 1970, como portadores desse anseio de integração da "classe trabalhadora" na dinâmica da "cidadania" que se anunciava renovada pela abertura do regime4.

Mais de três décadas depois, esses parâmetros da experiência coletiva das periferias urbanas se deslocaram substantivamente5. Do ponto de vista político-institucional, lá se vão 25 anos de regime formalmente democrático e do estabelecimento de um sistema ampliado de participação civil nas políticas públicas a "inovação institucional" da "democracia participativa" brasileira foi enormemente debatida na academia6. Sob o prisma da dinâmica social das periferias, entretanto, as transformações (também nada triviais) são bem menos comentadas. As três últimas décadas foram palco de um câmbio geracional que, concluído, demonstrou uma mudança expressiva nos pilares da vida social desses territórios. Quem reside hoje nas fronteiras da cidade não é mais migrante, é "paulistano". Meus interlocutores de pesquisa com menos de 30 anos se dizem comumente "nascidos e crescidos aqui na zona leste mesmo"; "aqui no Madalena". A organização de suas famílias, mais tipicamente urbanas, também respondeu à tendência de transformação intensa7. No plano religioso, em apenas duas décadas milhões de católicos transitaram à teologia neopentecostal, bastante conectada às transformações em curso nesses territórios8. A capacidade de consumo, já não diretamente vinculada à renda pela expansão do crédito popular, aumentou muito mesmo nas favelas9. Novas tecnologias de informação favoreceram a conexão dos moradores jovens das periferias a espaços de construção identitária renovados, e acesso a universos inimagináveis há alguns anos10.

Oferecendo pano de fundo a essas transformações está o deslocamento no centro de gravitação do projeto operário: o trabalho industrial, radicalmente modificado pelo que se convencionou chamar de "reestruturação produtiva". Crises severas do emprego, sobretudo nos anos 1990, e a estabilização do desemprego estrutural forçaram mudanças significativas do mercado de trabalho popular. Se em 1970 era fácil conseguir um emprego fabril, em 2010 esse emprego é escasso e exige alta escolaridade, além de especialização e flexibilidade; ainda assim, quem chega a ele em geral ocupa postos terceirizados e pouco estáveis. O espaço da fábrica que antes, pela sindicalização crescente, favorecia a construção de identidades e ações coletivas, se traduz nos anos 2000 em espaço competitivo por incentivos seletivos.

A promessa de mobilidade social operária se traduziu, já em época toyotista, no sucesso de uma pequena elite das periferias que apostou no sobretrabalho e na formação escolar dos filhos como alavancas de ascensão à classe média11. Para a grande maioria dos filhos de operários fordistas que encontro em pesquisa, entretanto, a contrapartida social do assalariamento nunca chegou12. Diversas investigações recentes entre jovens moradores das periferias encontram mais frequentemente trajetórias de inserção ocupacional instável, sobretudo no setor de serviços ou em empregos terceirizados. Nas franjas desse mercado de trabalho, aparecem os trabalhos liminares entre o formal, o informal e o ilícito13. Sobretudo entre os moradores de favela, os mercados que se expandem são não apenas desprotegidos, caso da terceirização industrial a domicílio ou da catação de materiais recicláveis, como frequentemente ilegais, caso do varejo de drogas ilícitas. Nesse cenário, o "mundo do crime", antes considerado o oposto diametral dos "trabalhadores", surge recentemente como a atividade melhor remunerada e com alta disponibilidade de "postos de trabalho" para jovens de favela. Além disso, "o crime" passa a ser legitimado progressivamente como instância normativa e fiscal das regras de convívio14.

Em suma, na etnografia em favelas e periferias da cidade tem sido possível reconhecer impactos causados tanto pelas mudanças na institucionalidade política quanto no mercado de trabalho, na família, na religiosidade, no consumo e no projeto de mobilidade social. Em meio a essas transformações, entretanto, a desigualdade entre pobres e ricos atravessa as três últimas décadas intocada. A frustração da perspectiva de "integração" social da população desses territórios na dinâmica de "desenvolvimento" do Brasil é, portanto, inevitável. Nessa frustração, assumida como "realidade" pela geração jovem, é todo um projeto coletivo que deve ser revisto15. E quando o projeto coletivo de "estar no mundo" se modifica, os atores tradicionais de representação desse projeto, como os movimentos sociais, são postos em questão. Se no cenário anterior a mediação das demandas das periferias ao mundo público podia ser feita por um dispositivo de tipo político os "encaixes" entre movimentos sociais e as instâncias estatais de garantia de direitos , a revisão dos conteúdos do projeto coloca em cena, e como protagonistas, outros dispositivos de mediação. Analiso aqui dois deles: a gestão social e a violência.

Se o risco do gerenciamento de populações já estava previsto nos debates em torno da inserção dos movimentos populares no sistema político e, ademais, desde Foucault (2008) , a "expansão do mundo do crime" aparece nos anos 1990 como elemento novo nesse cenário normativo. A lógica instrumental do uso da força reaparece, em plena "democracia", muito intensamente nas relações internas às periferias, a "violência urbana" se torna representação coletiva nas cidades e as taxas de homicídio explodem. Ora, não é necessário dirimir conflitos pessoais pelo uso da força privada, no limite letal, quando indivíduos se sentem inscritos numa ordem regida pelo direito; poder-se-ia recorrer à força pública, que numa ordem assim significaria proteção. Os relatos obtidos em pesquisa de campo, entretanto, partem do pressuposto contrário: pela experiência (em dimensão portanto anterior mesmo à consciência), sabe-se que as polícias não protegem a favela. Assim, seus moradores têm de se proteger por conta própria. A disseminação do uso privado da força não encontra outra explicação mais convincente. A expansão da violência interpessoal e sua especialização recente nas favelas de São Paulo, nas quais tribunais conduzidos pelo "mundo do crime" são legitimados como operação de justiça, parecem-me, pois, intimamente relacionadas à frustração do projeto de inscrição dos "trabalhadores" no mundo do direito16.

Na virada do século, a corda estica. De um lado, tenta-se afrouxá-la pela ampliação das políticas compensatórias e de gestão da segurança, dos territórios e das populações, em geral na forma de convênios entre governos e organizações civis de base muitas vezes antigos movimentos sociais para a implementação de "projetos sociais": profissionalização, apoio familiar, atividades culturais etc. De outro, amplia-se a repressão nas fronteiras, tensionando as margens de filiação social e política e fazendo emergirem nelas mais e mais "suspeitos". O encarceramento de jovens adultos das periferias de São Paulo cresceu quatro vezes desde meados dos anos 199017.

O texto que segue apresenta a trajetória do Cedeca, uma ação coletiva originada em Sapopemba que, há mais de duas décadas, atua nessas tensões entre política, gestão e violência na zona leste de São Paulo. A narrativa do percurso da organização está dividida em quatro partes. Na primeira, contextualizo as origens do Cedeca como movimento popular, na reivindicação basista de garantia de direitos aos moradores do bairro. Na segunda parte, já em período pós-ditadura, aparece sua aposta na inserção institucional e os limites políticos que ela apresenta: a obtenção de convênios de atendimento situa a entidade, ao longo dos anos, numa posição subalterna de "burocracia de base" dependente de governos; as atividades de gestão se expandem na medida em que decresce a autonomia reivindicativa e a garantia dos direitos dos atendidos. Como reação a esse processo, na terceira parte da trajetória narro a tentativa de reativar as ações movimentistas do Cedeca, já nos anos 2000. Para tanto, cria-se outra figura jurídica o Centro de Direitos Humanos de Sapopemba , que daria suporte político a um novo ciclo de protestos, especialmente voltado contra a violência policial nas favelas do distrito. A quarta parte da narrativa apresenta, então, a principal consequência dessa nova atitude: um ciclo de perseguições, ameaças, atentados e exílios de Valdênia, a principal ativista da organização. As notas finais propõem um diagrama de compreensão das relações entre as periferias e o mundo público no Brasil contemporâneo, em que coexistem a política, a gestão social e a violência.

Cedeca e CDHS: uma trajetória

Origens: a aposta nos direitos

Nascido no Parque Santa Madalena em 1991, o Cedeca foi consequência de quase duas décadas de atuação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) no distrito, inspirada na "opção preferencial pelos pobres" característica da teologia da libertação. Sua fundação, amparada pela aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente no ano anterior, já significava um passo avançado na "luta política" dos movimentos populares: sua inscrição na gestão político-institucional, que se aprofundaria na década seguinte. Os quadros da organização, por isso, já contavam em seu nascimento tanto com militantes de base, moradores do bairro e religiosos, quanto com advogados, psicólogos e assistentes sociais profissionais. Antes mesmo de existir formalmente, entretanto, o Cedeca dava seus primeiros passos inspirado pela Campanha da Fraternidade (da CNBB) que, em 1987, teve como tema o "menor"18. A "comunidade" católica de Sapopemba, organizada por padres combonianos, resolveu encampar o tema pautando publicamente a situação de adolescentes do bairro inscritas em circuitos de exploração sexual nas ruas do centro da cidade. Propuseram-se, evidentemente, a "tirar essas meninas da rua". Aos 20 anos, Valdênia capitaneou a iniciativa de criar uma casa de acolhida para essas adolescentes no bairro. Ela própria se mudou para a "Casa das Meninas", como os militantes a chamavam ou a "Casa da Luz Vermelha", como a apelidara o estigma no bairro para iniciar o trabalho.

Dessa atuação de Valdênia e de um grupo de amigos do bairro, alguns anos depois nasceu o Cedeca. Mais ampla agora defendia quaisquer meninos e meninas de Sapopemba que tivessem seus direitos violados , a entidade já nascia tratando especificamente da questão da violência. O próprio nome do Cedeca, "Monica Paião Trevisan", homenageia uma das moradoras da Casa das Meninas, assassinada e esquartejada no final dos anos 1980. Reconhecia-se, no período, que a ação fundamental daqueles militantes era conhecer histórias de privação e violência nas favelas do bairro para denunciá-las em espaços ampliados de articulação política. A publicização da privação ativaria a interrupção do ciclo de violência nesses territórios. As redes dos movimentos sociais do período, em transformação, ainda favoreciam articulações internas e o Cedeca se beneficia delas19. Um evento político narrado por Valdênia, ainda em 1988, dá ideia da dimensão que essa teia de contatos ainda se sustentava no período da Constituinte.

Era época de votação das emendas [à Constituição de 1988]. De todas as articulações feitas, houve vários movimentos da área da infância, em vários estados, e em São Paulo os meninos ocuparam a Sé. E do escritório da Pastoral do Menor, que ficava ali no prédio das Edições Paulinas, na praça da Sé, nós ligamos direto no Congresso para o Hélio Bicudo. Eles ligaram o autofalante do Congresso, durante a votação do artigo 227, e a garotada gritava da Sé! (Valdênia).

A operação simbólica de tradução política das privações, própria das narrativas dos movimentos sociais do período, é evidente: o movimento reunia as vozes dos meninos de Sapopemba àquelas de seus pares, outras tantas crianças e adolescentes brasileiros privados de direitos fundamentais, e daí carreava suas falas ao espaço público-político. A pressão de escutar as vozes dos meninos, naquele contexto de transformação do Congresso Nacional, "arrepiava até os mais conservadores". Essa tradução simbólica traça uma linha de relação, recuperada aqui como nexo analítico, entre o menino da favela e o espaço público-político. Sendo por definição uma relação difícil e efêmera, apostava-se na lei o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o artigo 227 da Constituição etc. como uma forma de conferir-lhe estabilidade. O centro da atividade política dos movimentos sociais do período encerrava-se nessa aposta (Feltran, 2005; 2007).

Nota-se, entretanto, que o Cedeca já foi fundado como um movimento de segunda geração. Se o discurso dos militantes preserva o basismo dos movimentos dos anos 1970, a estruturação das atividades institucionais estava longe da subversão passível de repressão oficial: ela já era prevista em lei20. Se os movimentos pioneiros exigiam a abertura de canais de participação no Estado, o Cedeca já era fruto da "democracia participativa". Se os primeiros queriam derrubar o regime, agora tratava-se, acima de tudo, de fazer cumprir a lei. Tentava-se inscrever o mundo dos adolescentes de favela no universo dos direitos e da democracia, já formalmente assegurados. O equacionamento da questão da violência era bastante peculiar naquele contexto: apostava-se que o "ciclo de violência" no qual os adolescentes atendidos estavam inscritos, nas favelas em que viviam, era fruto da privação de direitos. Esse ciclo seria superado pela aproximação desses sujeitos a uma arena pública em que a medida de existência do indivíduo fosse o direito. Sendo operadores dessa aposta, as ações coletivas como o Cedeca consideravam fundamental aos seus propósitos a articulação de um campo de pressão pela efetivação da cidadania. Os militantes, por isso, deixavam Sapopemba frequentemente para circular no ambiente sindical, partidário e religioso das esquerdas, agrupadas em São Paulo em torno do PT, que oferecia conteúdos programáticos ao campo movimentista. Em 1988, esse campo já obtivera sua primeira vitória significativa, a eleição de Luiza Erundina à prefeitura de São Paulo, sustentada basicamente pelos movimentos das periferias da cidade. O Cedeca já nascia, assim, em cenário extremamente favorável à obtenção de recursos para atendimento direto de meninos e meninas de Sapopemba. Passaria a atuar, na década seguinte, tanto nesses atendimentos quanto em conselhos setoriais de gestão das políticas para a infância e adolescência do município21.

Inserção institucional: a expansão da gestão

A ação coletiva que fundara o Cedeca consolida sua identidade institucional ao longo dos anos 1990. Os princípios da atuação movimentista seguiram operando; no entanto, inserida na lógica das políticas sociais, a perspectiva mais politizada própria de suas origens se traduz, paulatinamente, na consolidação de uma expertise técnica. O Cedeca se tornaria, no final da década de 1990, fundamentalmente um espaço de referência inclusive nacional doatendimento a adolescentes das periferias inscritos no "mundo do crime". A tradução de uma ação coletiva reivindicativa rumo a uma organização que executa políticas sociais foi paulatina.

Como outros Cedecas22, a entidade tendeu à especialização na questão do "adolescente em conflito com a lei" (ou "autor de atos infracionais"). Trata-se daquele indivíduo que, tendo cometido infrações à lei e sido detido pela polícia, já foi julgado, condenado e encaminhado oficialmente pela justiça para o cumprimento de uma "medida socio-educativa"23. Acompanhei esse atendimento, realizado pelo Cedeca para as medidas "em meio aberto", em pesquisa de campo. Descrevi com detalhe suas rotinas nas quais estão em pauta as interações entre profissionais, adolescentes e famílias atendidas, coordenação e equipes, Cedeca e governos; e, portanto, entre os distintos desenhos normativos do atendimento e a complexidade política que os acompanha (Feltran, 2008). Neste texto, será possível apenas apresentar uma síntese analítica desse estudo: em organizações sociais como o Cedeca, o que se chama atendimento consiste na tentativa de aproximar as representações do jovem favelado às do sujeito de direitos, a partir da articulação de uma tríade de conceitos: o vínculo, o encaminhamento e arede de proteção.

O vínculo sintetiza a condição primeira e fundamental do atendimento. Em pesquisa, a atividade do Cedeca já me foi descrita como uma "pedagogia do vínculo". Trata-se do estabelecimento de uma relação específica entre o "educador social" (profissional contratado da entidade) e o adolescente atendido. De característica ao mesmo tempo pessoal e profissional, o vínculo supõe idealmente uma relação desigual: teria conteúdos técnicos na perspectiva do "educador", que manteria um "distanciamento profissional" em relação ao atendido, e de confiança pessoal na perspectiva do adolescente, que se engajaria assim nas atividades propostas. É consenso, entretanto, que o vínculo se ampara em relações densamente pessoais. Fundamentalmente privadas, essas relações conformariam o primeiro passo do adolescente favelado rumo ao mundo público do direito. A pressuposição, portanto, é a da desvinculação prévia entre esses mundos (o do "educador" e o do "adolescente"), exposta nadesconfiança, que aparece como sentimento prévio à relação e conforma a alteridade inicial do encontro24.

Sem o vínculo, o adolescente permaneceria, portanto, alheio ao direito. Construído o vínculo, ele pode ser encaminhado à esfera das garantias públicas. Se o "educador" é a linha de frente do atendimento, em sua retaguarda há psicólogos, assistentes sociais e advogados, que organizam o encaminhamento específico de cada caso. Esses "técnicos" (como são chamados) estudam a situação de cada menino e a partir de um repertório de atividades de educação, saúde, esporte, profissionalização, cultura e acesso à justiça, que responderiam às demandas prementes de seu caso, tentam ativar para ele espaços de chegada na chamada rede de proteção social. O Cedeca seria, portanto, idealmente um lugar de triagem e trânsito de demandas a esferas sociais e políticas mais amplas, um portal de acesso dos jovens às garantias legais do ECA. Nem tudo é assim tão simples, entretanto.

"Há muita contradição no trabalho, não é? Numa realidade como esta, ou como qualquer outra periférica em que o menino está em situação de medida socioeducativa, você não tem muito a oferecer. Você vai encaminhar para um curso, a escolaridade dele não permite. Isso sem contar que eles só falam gíria e muitos deles são tatuados, então ninguém quer receber. E eles estão muito próximos dessa rede do crime, que hoje dá uma grana muito boa… se você pegar aí uma média [de remuneração individual], é de mil reais por mês. É muito dinheiro. E você não consegue uma bolsa que ultrapasse duzentos. A escola também não quer ele… Ela diz que ele não tem perfil, que não se enquadra, que ele é rebelde, tudo cai sobre os meninos da medida, ‘os LA’. Você não tem uma rede de saúde que permita fazer um diagnóstico de por que é que ele usa tanto a droga, por que a droga seduz tanto, você não tem. Você não tem uma clínica, você não tem nada que permita que esse menino possa sonhar ou buscar outra coisa. Então é muito complicado o trabalho." (Roberta, então coordenadora do Cedeca).

O depoimento expõe a fratura. E se confirma pelos anos de observação. O desenho normativo da política de atendimento que convenia o Cedeca encontra obstáculos em dois níveis: num primeiro, propriamente político, percebe-se que a rede de proteção social não funciona, ou melhor, que ela não existe como tal. A oportunidade de emprego exige ficha de antecedentes criminais, o posto de saúde não oferece tratamento para dependência química, o curso de informática é caro, a escola já expulsou aquele menino uma vez, os aprendizes em seleção pela Embratel devem ter o ensino fundamental completo. Na hora da entrevista, o menino só falou gíria. No primeiro dia na Frente de Trabalho, achou o serviço muito pesado. Quando preencheu a ficha do serviço militar, disse que não era voluntário. No exame físico, as tatuagens o barraram. Abandonou a Prestação de Serviços na escola, teve vergonha de varrer o pátio na frente dos colegas. Faltou à audiência no fórum, "vacilo"…

Quando o menino não é encaminhado para a "rede de proteção", o "crime" o desencaminha, como me disse um educador. Foi ao shopping depois de um assalto e torrou mil reais numa tarde. Varou a noite na viela fumando "uns baseados". "Deu fuga" a 120 km/h. na Avenida Sapopemba. Foi ontem "no salão" com a Patrícia. "Pegou" um carro com uma sanfona dentro, vendeu por cinquenta reais. Desceu para a praia em meia hora, numa 1100 (cilindradas, moto esportiva). As frases de caderno de campo, como o depoimento da então coordenadora do Cedeca, dão ideia da disputa simbólica entre os estímulos que um adolescente recebe para se vincular ao atendimento do Cedeca e aqueles que tem para permanecer no "crime".

As consequências dessa disputa na função mediadora do Cedeca são inevitáveis. Para estabelecer o vínculo inicial do atendimento, e sem poder encaminhá-lo, os técnicos têm que criar, no próprio âmbito interno à entidade, atividades que seduzam os adolescentes. É preciso ter ali "atividades" a oferecer: cursos de grafite, viagens à praia, apoio de advogados, oficinas de cavaquinho, sempre amparadas por "bolsas-auxílio" vinculadas à frequência. Ao mesmo tempo, se não for possível enviar o adolescente dependente do crack para um serviço especializado, há uma psicóloga na entidade que pode reunir famílias com problemas similares num grupo e dedicar parte de sua semana a isso. Se o programa de proteção a indivíduos ameaçados não é acessível, os técnicos da entidade auxiliam a família a se mudar para a casa de um parente. Se não há vagas gratuitas para o curso de informática, o Cedeca pode alocar dez computadores doados na salinha do fundo. Um funcionário pode dar aulas à noite, como voluntário. Se os cursos do Senai exigem escolaridade elevada, com recursos da cooperação internacional pode-se montar uma padaria comunitária, um pouco menos equipada.

Assim, o Cedeca se insere num ciclo muito comum entre as entidades sociais das periferias contemporâneas: as organizações tendem a reproduzir internamente, por meio de convênios, o que falta na rede de proteção externa. Elaboram-se projetos de novos atendimentos, que geram novas estruturas de gestão (e nunca suprem sequer a demanda do bairro). Com o tempo, esses atendimentos passam a integrar o organograma da entidade. A pressão por ampliação desses atendimentos se traduz, então, numa pressão por expansão do âmbito gerencial da organização. Mais projetos a escrever, mais gente a contratar, rotinas mais complexas e burocráticas a gerir. Em 1991, o grupo de fundadores do Cedeca comemorou a doação de uma casa para iniciar seus trabalhos. Quando cheguei a Sapopemba, em 2005, esse grupo fundador já administrava cinco núcleos de atendimento no bairro. Em 2008, e a despeito da franca oposição do Cedeca à administração municipal, principal responsável pelo financiamento, seu atendimento já estava desdobrado em nove núcleos. As atividades dessas entidades, espalhadas pelo mapa do distrito, já envolvem hoje plantão jurídico, psicológico, educação de rua, acompanhamento de medidas socioeducativas, apoio familiar, grupo de mães, atividades culturais, atendimento a deficientes físicos, marcenaria, padaria, cabeleireiro, projetos ambientais, qualificação profissional, entre muitas outras.

Cada uma dessas atividades é mantida por um "convênio", firmado junto a governos ou ao chamado "terceiro setor". Sempre amparados por "projetos", esses convênios duram de alguns meses a dois anos, e a intermitência do repasse de recursos é sua marca distintiva. Sempre que cheguei ao Cedeca para um novo período de trabalho de campo, nesses cinco anos, projetos haviam deixado de existir, projetos haviam sido criados e a dificuldade dos encaminhamentos era mais notável.

Mesmo porque a expansão de uma entidade social, como de uma família ou empresa, significa a expansão de seu orçamento. Não necessariamente, entretanto, o número de atendimentos se amplia, pois captar recursos passa a ser prioridade até para manter os empregos de quem, com esforço, conseguiu fazer da militância uma garantia profissional. As atividades de escritório passam a tomar mais tempo; é preciso gerenciar toda a máquina de atendimentos ao mesmo tempo em que se planeja o ano seguinte, e o ciclo gerencial não tem fim. A consequência desse ciclo para as atividades políticas da organização é evidente. A expansão gerencial, nascida da dificuldade de mediar o trânsito ascendente das demandas dos jovens ao mundo público, inscreve o Cedeca em fluxo de vetor oposto. Dependente dos financiamentos, a entidade passa praticamente apenas a executarprojetos cuja pauta é decidida nos editais criados pelos financiadores.

A tendência ao crescimento de organizações como o Cedeca, regular especialmente nas periferias mais consolidadas de São Paulo, desperta uma série de questões analíticas. A literatura já tratou dos contextos externos que condicionam esta expansão profissionalização, setorialização, competição por recursos, "onguização" e tecnificação do associativismo civil sob o marco das relações entre sociedade civil e Estado no período pós-autoritário25. Num outro registro, entretanto, é preciso notar que essa expansão, cuja justificação remete à garantia de direitos, representa de fato a contenção do público atendido aos limites internos às fronteiras das entidades comunitárias. O "projeto" cresce e os meninos, que seriam encaminhados para fora dos limites da organização, acabam circulando pelos núcleos dele próprio. Cria-se internamente um ambiente em que são acolhidos, mesmo que precariamente; ainda assim, é melhor do que fora dali, onde são estrangeiros. Fronteira. Os limites orçamentários impostos pelos convênios criam, portanto, um espaço de ação social específico destinado aos jovens pobres e apartado de circuitos mais amplos. Se o menino não está em prisão ou em entidades de privação de liberdade (unidades de internação, clínicas de desintoxicação ou de saúde mental, abrigos etc.), ele fica contido neste circuito, o dos "programas sociais".

No início dos anos 2000, os limites que essa expansão burocrática do Cedeca trazia foram se tornando evidentes. Estabeleceu-se entre a equipe técnica um conflito que opunha o grupo de militantes fundadores, que apostava num "Cedeca movimento social", e o grupo de funcionários contratados (técnicos das políticas sociais), que enxergavam a organização como um espaço de atendimento, portanto de atuação profissional. O primeiro grupo construía a imagem do Centro de Defesa como uma instância político-representativa da população do bairro: o Cedeca deveria agir como sujeito político, carrear demandas de meninos favelados a espaços públicos26. O segundo considerava o Cedeca como instância capilar de atendimento das políticas sociais, aquela que executaria a demanda técnica dos programas estatais ou privados, não importa, junto ao seu público-alvo27. A tensão entre os grupos se manteve latente até a solução pacificadora ser tomada. Se os convênios são vitais para manter os atendimentos, se os atendimentos exigem formação técnica e se o Cedeca já está inserido em sua lógica, não seria o caso de tentar reverter o quadro. A inércia tendencial de quase duas décadas de evolução institucional já seria difícil de frear. Há, entretanto, que fazer coexistirem o atendimento e a ação política. Para tanto, considerou-se ser preciso criar uma outra organização, de características distintas do Cedeca dos convênios.

Retorno à ação política

Daí nasceu o CDHS, Centro de Direitos Humanos de Sapopemba. A ideia inicial não era a de uma divisão estanque, em que o CDHS fizesse política e o Cedeca a gestão dos atendimentos. No entanto, nos cotidianos do endereço que as entidades compartilham no Parque Santa Madalena, essa divisão de tarefas se processou sem muito alarde: o CDHS herdou, para sua equipe, quadros mais combativos e politizados, além de ter, por não assinar convênios, mais autonomia frente ao Estado para lançar ofensivas no debate público; o Cedeca permaneceu negociando os repasses de verba de convênios com os governos e fazendo atendimentos. Ambos passaram a atuar, portanto, de modo complementar entre ação política e gestão social. Os principais militantes fundadores do Cedeca, entre eles Valdênia, passaram a se dedicar ao CDHS a partir de 2001, e prioritariamente a ele depois de 2003. Quando cheguei a Sapopemba para iniciar minha pesquisa, Valdênia deixava definitivamente a coordenação geral do Cedeca. Desde 2003, o CDHS progressivamente assumiu a tarefa de articular os movimentos de base do distrito, realizar a formação de novas lideranças, promover audiências públicas de denúncia que traziam autoridades do Estado à favela e formular ações judiciais das "violações de direitos" ocorridas no bairro. Reagindo aos constrangimentos da gestão, e ampliando o escopo de atuação do Cedeca por também defender direitos de adultos , o CDHS manteve uma equipe profissional mínima, de característica combativa e remunerada por financiadores politicamente afins28. A estratégia mostrou-se acertada. Um novo ciclo de ações públicas dos militantes de Sapopemba iniciou-se já nos primeiros anos da década, e se consolidou a partir de 2005. O tema eleito para esse ciclo de protestos foi a violência policial, e as ações públicas da entidade alcançaram impacto político relevante nos anos seguintes. "O CDHS gosta de mexer no vespeiro", disse-me uma de suas militantes.

O repertório contemporâneo de modalidades de ação política do CDHS discutido com mais vagar por mim em outro texto (Feltran, 2010b) elabora um continuum que, num polo, produziu ações autônomas de pressão de governos e da opinião pública nos moldes dos antigos movimentos de protesto e, no polo oposto, propôs ações institucionalizadas, internas ao sistema jurídico-político, nos moldes típicos das ações coletivas dos anos 1990 e 2000. Esse repertório respondia, de um lado, à efemeridade das ações de protesto e, de outro, ao enrijecimento contemporâneo dos canais de participação social na política instituídos pós-Constituição de 1988. A forma mais celebrada da ação política desse movimento no período foi a das "audiências públicas na favela", justamente a que propõe mais radicalmente a mediação entre a população favelada de Sapopemba, que o CDHS quer representar, e o sistema político institucional, do qual ele já é um ator instituído (e subalterno). Promotores, advogados, comandantes de polícia, deputados federais e mesmo o Procurador Geral do Estado chegaram a participar desses eventos, sempre dentro das favelas do bairro. O CDHS cumpria sua tarefa e todos estavam motivados.

Ação política, reação violenta

Mas a história não termina assim, nunca. O ciclo de denúncias políticas lançado pelo CDHS gerou reaçõesviolentas, tanto de policiais denunciados por abusos, quanto de setores do "mundo do crime" local. A partir do estabelecimento desse ciclo intensificaram-se as ameaças de morte a Valdênia, que já forçaram quatro exílios no exterior durante esta década; por medidas de segurança, ainda hoje ela não revela seu endereço nem guarda fotos de seus familiares em casa. Até meados de 2008, quando se mudou definitivamente de Sapopemba, a militante franzina permanecia sob proteção da Secretaria Nacional de Direitos Humanos.

Em sua carreira militante, a cronologia da repressão sofrida por Valdênia é longa. Dois episódios de violência sexual por retaliação a denúncias realizadas e algumas prisões em manifestações políticas já estavam em seu currículo quando fundou o CDHS. Entretanto, comprou suas maiores brigas levando adiante as denúncias de violência policial nas favelas de Sapopemba. Foram três casos de execuções sumárias cometidas por policiais, denunciados entre 1999 e 2003, e um começo de década sob intensas ameaças de morte. Nessa mesma época, chegou a sofrer dois atentados e teve de se exilar no exterior durante três períodos. Valdênia foi a primeira defensora de direitos humanos oficialmente protegida pelo Governo Federal e seu caso mobilizou atores nacionais e internacionais da área: Anistia Internacional e a Secretaria Nacional de Direitos Humanos, além de inúmeros jornalistas de países diferentes. A resistência na militância, mesmo sob repressão, fez dela uma referência entre movimentos da área. Diversas organizações civis, frentes parlamentares de direitos humanos e governos, nos níveis municipal, estadual e federal, lhe prestaram homenagens29. Entre 2004 e 2007 as ameaças diminuíram.

Em setembro de 2007, época em que eu compilava dados sobre sua biografia para minha investigação, liguei a televisão à noite e a primeira imagem que me apareceu foi a de Valdênia. Tive tempo suficiente para ouvir sua última frase e já soube do que se tratava. Uma adolescente de Sapopemba, que cumpria medida socioeducativa no Cedeca, havia sido estuprada por seis policiais no Jardim Elba. O CDHS havia denunciado formalmente o caso em janeiro daquele ano; Valdênia havia acompanhado o andamento do processo e dois dos acusados tinham sido presos. Intimidações pessoais e novas ameaças culminaram com o episódio da reportagem de televisão o nome de Valdênia havia sido encontrado, pela polícia, numa suposta lista de colaboradores do PCC (Primeiro Comando da Capital, principal facção criminosa de São Paulo), em um ponto de venda de drogas30. A informação foi divulgada pela grande imprensa31 e teve que ser desmentida depois:

"Coordenador do Programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, Fernando Matos esteve ontem em São Paulo para manifestar apoio à advogada Valdênia Aparecida Paulino, do Centro de Direitos Humanos de Sapopemba, na zona leste. Matos encontrou-se com autoridades paulistas e também definiu medidas para garantir a proteção da advogada e da entidade que ela preside. No dia 28, policiais da 3ª Companhia do 19º Batalhão da Polícia Militar disseram ter apreendido em uma boca de drogas do Jardim Sinhá, na zona leste, uma agenda onde estaria grafado o nome "Dra. Valdênia", com registro de valores de R$ 2 mil e R$ 3 mil. […] Uma série de acontecimentos recentes levaram entidades de direitos humanos a suspeitarem da apreensão. Desde 1999, Valdênia já denunciou mais de 20 casos de arbitrariedades envolvendo policiais do 19º Batalhão na zona leste."

(O Estado de S. Paulo, 9/10/2007).

Um ato de desagravo à Valdênia foi imediatamente proposto por um parlamentar petista e mais de trezentas pessoas compareceram. A acusação dirigida a ela foi retirada. A intuição dos organizadores do ato é explícita: politizar a acusação diminui a chance da violência retornar. A dos acusadores também: criminalizar a ação política é um modo de circunscrever seus atores como sujeitos não legítimos. Nas ações judiciais relativas ao episódio ficou reconhecida a falsificação da lista e a tentativa de incriminar Valdênia foi punida: os suspeitos da fraude foram indiciados. Na institucionalidade, a democracia resguarda seus princípios. As ameaças não pararam, entretanto; extra-oficialmente, a violência prossegue mediando as relações. A sede do Cedeca e CDHS foi revirada pela enésima vez no final de 2007, e no ano seguinte. Em janeiro de 2008, Valdênia passou nova temporada no exterior; no final do ano mudou-se definitivamente de Sapopemba para iniciar vida nova longe de tudo aquilo, no interior do nordeste.

Faces de um mesmo conflito: política, gestão e violência

A partir dessas etnografias, tenho definido a política como o jogo de conflitos desencadeados na conformação da cena pública, em sua manutenção e transformação32. Essa noção geral precisa, entretanto, ser especificada quando se trata de um olhar analítico voltado para as margens da política contemporânea. Trajetórias como as do Cedeca auxiliam a tentativa, por demonstrar que, em mundos sociais como o brasileiro, cuja desigualdade é respaldada pelo funcionamento estatal, a política nunca se resume à disputa de poder em terrenos institucionais previamente demarcados (Estado, eleições, sociedade civil, políticas públicas etc.). No modus operandi dos atores, a pressuposição da desigualdade atravessa esses espaços e obriga a ação política a se repensar continuamente33. A política pressupõe nesses contextos, portanto, para além das disputas institucionais, um conflito anterior: aquele que se trava, no tecido social, pela definição dos critérios pelos quais os grupos sociais podem ser considerados legítimos (Ranciène, 1995). Só quem se legitima, e é legitimado, pode participar daqueles espaços. A construção da legitimidade social, portanto, está na base da constituição de um sujeito ou espaço público, e, portanto, do conflito político.

Sob o pano de fundo da trajetória narrada, pode-se perceber que a ação política não se limita às disputas entre ações coletivas constituídas em terrenos previamente demarcados (movimentos, partidos, conselhos, assembleias, prefeituras etc.) ou aos critérios do jogo democrático; ao contrário, a política nesse contexto se assenta também, e fundamentalmente, na disputa subjacente à própria instituição destes terrenos e sujeitos os militantes de favela têm de constantemente forjar sua aparição como sujeitos, lidando com fronteiras impostas pela gestão e, no limite, pela violência. Um evento público como o descrito na abertura do artigo pretende transformar o córrego canalizado da favela do Parque Santa Madalena numa arena de discursos políticos. No entanto, essa arena efêmera só aparece, e por isso é rara, se a ação coletiva que a sustenta tiver sucesso na construção de sua legitimidade tanto entre favelados quanto entre atores centrais do sistema político-institucional, ou seja, na mediação da relação entre a favela e os terrenos políticos instituídos.

Nada simples. Por isso trajetórias como as de Valdênia são objetos analíticos fundamentais sem elas, moradores e deputados federais não ocupariam aquele espaço comum, o que paradoxalmente dificultaria a análise explícita ali das fronteiras que os separam. Sem tal mediação política, não haveria a reflexão deste artigo. Sem a ação da advogada, o lugar da política teria se mantido no território dos especialistas, bem longe da favela, nos escritórios e prédios públicos em que homens de negócio e políticos profissionais decidem. Tenho trabalhado com a noção defronteira como categoria analítica para auxiliar a demarcação destas clivagens entre periferias e política, ou dasmargens da política. Ao mesmo tempo em que denota uma separação, a categoria fronteira preserva a possibilidade de fluxos, controlados, entre as parcelas separadas. A metáfora da fronteira interessa, ainda, por preservar a noção de conflito, latente como política ou gestão em condições de estabilidade da linha que a demarca, mas passível de se tornar violência caso se radicalize, como inúmeros eventos tem demonstrado34.

A demarcação de fronteiras nas margens da política sustenta a restrição da legitimidade de grupos inteiros da população às margens da cidade. A possibilidade de ações coletivas baseadas nesses territórios agirem politicamente, portanto, é desbastada de saída. A história do Cedeca, tal como contada aqui, não é mais que a narrativa dessa busca por legitimidade, que lhe emprestaria estatuto político. O que ela faz notar são as fronteiras de contenção ativa da legitimidade pública, tanto pela gestão "democrática" dos convênios feitos "para pobres" quanto pela violência. Sugere-se, assim, um tipo específico de coexistência, nos planos do regime político e da sociabilidade primária, entre ordenamentos de lógicas internas distintas: o primeiro é o código universalista dos direitos e da política; o segundo é o código técnico da gestão social da diferença; o terceiro é o código instrumental da violência. Todos parecem ser constitutivos da reprodução de uma dinâmica social marcada pela associação entre democracia institucional e extrema hierarquização. Nas últimas décadas, o modo de fazer estes códigos coexistirem foi limitar a vida política a uma parcela da população, que no entanto age, como é próprio da ação de dominação, como se representasse o todo social. Para deixar democraticamente uma outra parcela da população (aqueles que o Cedeca e o CDHS tentam representar) fora da cena pública, ativam-se simultaneamente os mecanismos de gerenciamento das populações e, no limite, de incriminação. Um "bandido", afinal, é o menos legítimo dos cidadãos.

1 Discuto a categoria analítica "fronteira" mais adiante e em Feltran (2008). Das e Poole (2008) utilizam a noção de "margens" do Estado moderno em sentido tanto descritivo quanto crítico, recuperando três usos recorrentes do conceito: margens da legalidade oficial; margens da legibilidade estatal (por referência à burocracia escrita); e margens da normalidade (relação entre corpos, lei e disciplina), tendo por referência o biopoder foucaultiano.

2 Sapopemba é um dos 96 distritos do município de São Paulo e faz fronteira com Santo André. São 300 mil habitantes em região de "periferia consolidada" da cidade (urbanização elevada e crescimento demográfico). Há 37 favelas no distrito e metade dos domicílios tem chefes de família com renda inferior a três salários mínimos.

3 A "família operária" e seus desdobramentos políticos foram estudados exemplarmente por Durham (2005) e Caldeira (1984).

4 Baierle (1992), Doimo (1995) e Paoli (1995) fazem revisões bibliográficas importantes sobre os movimentos sociais do período em São Paulo. Dagnino (1994; 1995) analisa especificamente o papel da noção de cidadania entre eles.

5 Marques e Torres (2005) compilam estudos recentes dessas transformações em São Paulo.

6 Dagnino e Tatagiba (2007) recuperam as linhas gerais desse debate na contemporaneidade.

7 Sobre família e religiosidade nos meios populares contemporâneos, ver Duarte e Helborn (2006) e Duarte e Gomes (2008).

8 Sobre o fenômeno neopentecostal, ver Almeida (2004; 2009).

9 Apenas no ano de 2009 as classes D/E ampliaram em 17% o consumo de produtos não duráveis e em 16,8% o de duráveis. O aumento, mesmo em ano de crise financeira, consolida tendência na década, acelerada nos últimos anos (Aragão, 2009).

10 As lan-houses representam a principal forma de acesso à internet no Brasil. Na última década, a indústria cultural e do entretenimento estabeleceu nichos de produtos voltados especificamente para os jovens das periferias (programas de televisão, sites de relacionamento, música, vestuário, acessórios etc.).

11 A geração é categoria analítica central na excelente análise do mundo operário de Beaud e Pialoux (2003; 2009).

12 As classes D/E ainda somavam 39% da população brasileira em 2008. Sobre a reestruturação produtiva no país, em perspectiva comparada, ver Guimarães (2009a; 2009b); sobre a frustração da promessa operária de mobilidade e a questão da violência, ver Machado da Silva (2004) e Misse (2006).

13 Ver Telles e Cabanes (2006), Ferreira (2003) e Guimarães (2004).

14 Discuto a emergência do "mundo do crime" como instância normativa da "justiça" nas periferias em Feltran (2008; 2010a).

15 Essa frustração é radicalmente notada em depoimentos, recorrentes na pesquisa entre jovens inscritos no "mundo do crime": "trabalhar para ser que nem o meu pai? Prefiro morrer cedo…".

16 Etnografias recentes demonstram que a queda das taxas de homicídio em São Paulo, nos anos 2000, se dá sobretudo por essa regulação interna ao "crime" (Feltran, 2010a; Marques, 2007; Hirata, 2009; Biondi, 2010).

17 A população carcerária do estado de São Paulo passou de cerca de 40 mil em 1996 para mais de 150 mil em 2008. Sobre a associação dos dispositivos assistencial e repressivo, ver Almeida, De Lucca e D’Andrea (2009).

18 Ver http://www.cf.org.br.

19 Embora esse cenário de articulações posteriormente tenha se transformado muito, como discuto em Feltran (2006).

20 "Art. 87 – São linhas de ação da política de atendimento: I – políticas sociais básicas; II – políticas e programas de assistência social, em caráter supletivo, para aqueles que deles necessitem; III – serviços especiais de prevenção e atendimento médico e psicossocial às vítimas de negligência, maus-tratos, exploração, abuso, crueldade e opressão; IV – serviço de identificação e localização de pais, responsável, crianças e adolescentes desaparecidos; V – proteção jurídico-social por entidades de defesa dos direitos da criança e do adolescente". (Brasil, 1990, grifo meu).

21 Relevante notar que essa inserção já segue a setorialização própria da gestão das políticas sociais estatais. Se uma década antes podia-se falar "do movimento popular" ou "do movimento de favela", passa-se a falar agora de "movimento de saúde", "movimento de moradia", "educação", "infância" etc. (Feltran, 2005; 2007).

22 Em 2008 havia nove Cedecas na cidade de São Paulo e outros quinze em diferentes estados do Brasil, articulados em torno de uma entidade nacional. Ver http://www.anced.org.br.

23 O ECA prevê as seguintes medidas socioeducativas: "i) advertência, ii) obrigação em reparar o dano; iii) prestação de serviços à comunidade; iv) liberdade assistida; v) semiliberdade ou vi) internação" (Brasil, 1990).

24 O papel social da entidade de atendimento seria, portanto, de mediação entre o universo privado (da interação face a face, mas também da favela, da violência) e o espaço público do direito (da cidadania, da democracia). Essa concepção do social é, por isso, inteiramente arendtiana (Arendt, 2003). Para a autora, entretanto, não há possibilidade da política nascer daí.

25 Um estado da arte dessa bibliografia está em Dagnino e Tatagiba (2007). Sobre a questão da representatividade dessas associações, ver Gurza-Lavalle, Houtzager e Castello (2006).

26 "Então, o que é que nós estamos falando: nós podemos ter o atendimento, mas esse atendimento tem que estar a serviço da ideologia e da visão da entidade. Porque alguns, até coordenadores, no ano passado falavam assim: ‘mas de repente a gente está com um planejamento na semana, aí tem que lotar ônibus e ir para manifestações políticas. Isso não é massa de manobra?’ Falei: ‘Depende. Se você está só ocupando a garotada, é massa de manobra. Mas se você vem trabalhando a conjuntura com essa garotada, sem perder de vista a vida real deles, não é massa de manobra. Isso é cidadania." (Valdênia).

27 "Você vai contratar um educador, tudo bem. Não tem nem problema se você quer contratar alguém da comunidade para dar uma chance à comunidade. Só que você tem que assumir a responsabilidade de contratar essa pessoa. Porque se essa pessoa não sabe trabalhar, com certeza vai ter alguém sobrecarregado. Entendeu? Agora, para chamar educador de educador, a priori essa pessoa tem que saber Paulo Freire de trás para frente e de frente para trás. Aí você pode começar a pensar em chamar o cara de educador." (Clarice, psicóloga contratada).

28 A principal fonte de financiamento do CDHS foi a cooperação italiana católica, que a rede de contatos com a Congregação dos Combonianos permitia.

29 Entre outras premiações, Valdênia recebeu da Câmara de Vereadores de São Paulo o título de Cidadã Paulistana e o Prêmio Nacional de Direitos Humanos, em 2003. Em 2005, recebeu o Prêmio Santo Dias de Direitos Humanos, oferecido pela Assembleia Legislativa estadual.

30 Valdênia já havia, em 2005, se referido a outras "tentativas de criminalização" pelas quais havia passado.

31 "Advogada aparece em suposta lista do PCC. Um centro de distribuição de drogas, supostamente controlado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), foi estourado anteontem pela polícia no Jardim Sinhá, na zona leste de São Paulo. Os policiais disseram que encontram no local lista de beneficiados. Entre eles o nome de ‘Dra. Valdênia’."(O Estado de S. Paulo, 29/09/2007).

32 As principais referências teóricas para pensar esse conceito estão em Hannah Arendt e Jacques Rancière. Para o que chamo aqui de espaços públicos, ver os trabalhos de Cefaï (1996; 2007); Cefaï e Pasquier (2003); e, para o caso brasileiro, as relações entre cultura e política trabalhadas por Dagnino (2002) e Dagnino, Oliveira e Paufichi (2006).

33 A ordem política não é estável, como a existência da lei poderia fazer crer. Na proposição de Veena Das (2007), a dominação contemporânea atua a partir de uma zona cinzenta entre lei e ilegalidade, contingencial e operada pelo Estado.

34 Em maio de 2006 esses eventos deixaram um saldo de 493 mortos em uma semana, 450 atribuídos à "reação" policial. Ver Adorno e Salla (2007).

Fonte: Lua Nova – http://www.scielo.br/

Pobreza cerca um milhão de madrilenhos

Sixto Mayoralas, oficial de ferraria, diz que não consegue entender a situação. "Não querem a mim, que tenho 60 anos, mas também não querem um de 20 porque dizem que não tem experiência." Na realidade, sim, entende: "O que acontece é que preferem contratar estrangeiros, pagar 5 euros por hora e tê-los na obra de 8 às 8".

E. G. Sevillano

Policial (esq.) ataca ciclista diante da estação de trem Atocha, em Madri, durante greve geral contra reforma trabalhista do governo espanhol

Policial (esq.) ataca ciclista diante da estação de trem Atocha, em Madri, durante greve geral contra reforma trabalhista do governo espanhol

Com a desculpa da crise, ele, que trabalha nesse ramo desde 1973, não encontra quem o contrate. A indenização acabou em março e desde abril ganha o seguro-desemprego: 426 euros, que "não dão para nada".

Por motivos de espaço no provedor, leia esta matéria na íntegra no site CONTROVÉRSIA. Clique no link abaixo. Obrigado.

http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=7185

Longe, mas nem tanto!

Mapa une dados de transporte, relevo e distância, mostrando que algumas áreas que pareciam isoladas da civilização podem ser mais acessíveis do que se pensava

Equipe Planeta

O palácio do Potala, em Lhasa, capital do Tibete, a antiga sede do governo e morada do dalai lama, antes da invasão chinesa.

É oficial: um dos locais mais isolados do mundo é o platô do Tibete. No mesmo país situam-se Lhasa e Korla, locais que ficam a 20 dias a pé e um de carro de distância da cidade grande mais próxima. Essa região faz parte dos 10% do território mundial que é extremamente longe do resto da civilização. Isso de acordo com o mapa de acessibilidade global, que calcula o tempo de viagem de vários pontos do globo às cidades grandes, com mais de 50 mil habitantes.

O mapa, desenvolvido por pesquisadores da Junta de Pesquisa (JRC) da Comissão Europeia em Ispra, na Itália, e do World Bank Group, combina informações sobre o terreno, o acesso a estradas, ferrovias, redes fluviais e marítimas com dados de relevo, como altitude e inclinação, e algumas paradas obrigatórias, como a fiscalização ao atravessar uma fronteira internacional. Ele também mostra como algumas partes do mundo se tornaram acessíveis ao passo que outras ficaram mais remotas.

O Rio Amazonas, com seus habitantes, como o jacaré da foto, era um destino quase mítico de viagem. Hoje, está ao alcance de qualquer turista.

O primeiro propósito do que hoje é o projeto do mapa de acessibilidade era construir um modelo gráfico plano para fazer parte de um programa de monitoramento da biodiversidade. Ele ajudaria a analisar a eficácia das áreas ambientais protegidas. “Foi constatado que quanto mais acessível é a área protegida, mais ela está ameaçada”, afirma Alan Belward, chefe da unidade de monitoramento do ambiente global e responsável pela elaboração do mapa.

O projeto começou a ser desenvolvido em 2008, quando Andrew Nelson (JRC) e Hirotsugu Uchida (World Bank) propuseram o “Índice de Aglomeração” (Agglomeration Index) para medir o nível de concentração urbana mundial. Um dos três componentes usados para calcular tal índice foi o tempo de viagem de um determinado local a um centro urbano. Nelson expandiu a ideia do primeiro mapa para um que calculasse a acessibilidade de determinado local com base no tempo de viagem deles a mais de 8.500 grandes cidades do mundo.

Todo o trabalho foi incorporado ao relatório de desenvolvimento mundial do World Bank no ano seguinte. “A acessibilidade é relevante em todos os níveis de desenvolvimento e esse mapa preenche uma lacuna importante no entendimento do modelo regional de conectividade econômica, física e social”, observa Belward.

Para elaborar o mapa, foram necessárias técnicas avançadas de modelagem geográfica unindo as informações populacionais e as de redes de estradas, rios, ferrovias e de satélite sobre relevo. De acordo com dados do projeto, a acessibilidade é definida pelo tempo de viagem de um local a outro via terra ou água. Ela, por sua vez, é computada por um algoritmo de custodistância que calcula quanto se gasta para viajar em uma grade regular do plano.

No caso do mapa, esse custo é medido por meio da unidade de tempo. Cada célula da grade contém valores que representam o custo requerido para atravessá-la. Além disso, também foi preciso ter um cálculo aproximado do tempo gasto para se passar por uma fronteira internacional. Outro fator incluído no projeto foi o que os pesquisadores chamam de “superfície de fricção”: as informações referentes aos meios de transporte, como ferrovia e estrada, e de relevo, como declives e superfície do terreno.

A confecção do mapa durou um ano e o custo de produção e de agrupamento de todos os dados foi de cerca de meio milhão de euros, o equivalente a mais de R$ 1 milhão. Mas o esforço valeu a pena, porque mais de 2 mil mapas foram impressos e milhares deles foram baixados do website oficial do projeto. “O mapa oferece uma medida consistente e global que permite comparações internacionais e cálculos de urbanização para as regiões do mundo”, diz Belward.

A cratera do vulcão Erta Ale, na Etiópia, é um dos lugares de acesso mais difícil do mundo. Para chegar lá são precisos muitos dias de caminhada, já que não há estradas nem meios de transporte.

O responsável pelo projeto acrescenta que o mapa também pode ser muito útil para situar qualquer país em um contexto global. “Embora os dados ainda não sejam detalhados o suficiente para um trabalho regional, eles podem dar aos líderes políticos uma boa noção da situação do país”, explica. O mapa mostra o grau de acessibilidade de vários lugares do mundo e pode indicar um aumento de oportunidade de viagem, comércio, comunicação e interação. No entanto, o gráfico ainda aponta algumas áreas no mundo que estão sendo deixadas para trás, por serem menos acessíveis.

Outra mensagem importante revelada pelo mapa de acessibilidade é que restam poucas áreas de natureza selvagem no globo. Apenas 10% do território mundial está localizado a mais de 48 horas de viagem de uma cidade grande.

“A área selvagem acabou reduzida e concentrada em montanhas altas, como o platô do Tibete, e em latitudes extremas, como a floresta boreal próxima aos lençóis de gelo. Mesmo os desertos e as florestas tropicais não são mais terrenos inacessíveis como antes”, observa Belward. Para se ter uma noção, apenas 20% da região amazônica fica a mais de 48 horas de uma cidade grande, devido ao aumento de estradas e do melhoramento do sistema de navegação fluvial.

Belward afirma que os pesquisadores continuarão trabalhando na questão da biodiversidade, mas que também há intenção de realizar melhoramentos no mapa de acessibilidade atual. O mapa ainda não pode ser usado para analisar apenas uma região específica, por falta de dados mais detalhados sobre a infraestrutura do transporte e dados populacionais. “Queremos que o modelo de cálculo fique mais sofisticado. Por exemplo, fazendo ajustes sazonais para medir o tempo de viagem em estradas não pavimentadas, que se tornam mais difíceis de atravessar em estações chuvosas, ou o sistema fluvial, que não funciona na época de seca”, finaliza.

Índice de aglomeração

Andrew Nelson e Hirotsugu Uchida propuseram um novo meio de medir o nível de urbanização mundial, uma vez que encontraram inconsistências em sua definição ao redor do mundo. “A raiz do problema está em como se mede a concentração urbana de um modo sistemático e consistente”, escrevem no artigo “Agglomeration Index”. Os autores argumentam que não há um padrão internacional para fazer tal cálculo. Então, muitos dados sobre a população que vive em grandes cidades mudam de país para país. Com esse problema em mente, eles criaram o índice de aglomeração, que é a junção de três fatores básicos: densidade populacional, habitantes de grandes centros urbanos e tempo de viagem de uma cidade menor a uma maior.

Fatores que alteram o tempo de viagem

Segundo Alan Belward, da Comissão Europeia, há dois fatores que mais influenciam em uma mudança do tempo de viagem: a infraestrutura e as fronteiras internacionais. Para explicar o primeiro, é interessante citar o exemplo das categorias de estrada variadas: via expressa (120 km/h), estradas maiores (60 km/h) e trilha (10 km/h). Cruzar fronteiras internacionais é um fator que influencia na acessibilidade, pois depende da fiscalização de cada país. “A área fronteiriça em Schengen, sudeste de Luxemburgo, é praticamente livre de atraso de viagem. Você deve diminuir a velocidade para passar pela fronteira, mas na maioria das vezes não tem de parar o veículo”, diz Belward. Por outro lado, em outras partes do mundo, atravessar a fronteira pode consumir muito tempo.

Tempo de viagem para cidades grandes (em horas e dias) e densidade do corredor marítimo

Mapa de sistema fluvial

O mapa de rios navegáveis foi criado a pedido do governo norte-americano nos anos 1980. Algumas regiões do mundo, como o leste da Colômbia e a Amazônia brasileira, dependem do transporte fluvial para estabelecer comércio e assistência social. A velocidade média de uma viagem em rios navegáveis é de 20 km/h. Mas especialistas dizem que ela depende também do fluxo do rio e da estação do ano.

Mapa de ferrovias

Os dados desse mapa também foram extraídos da Agência Nacional de Imagem e Mapeamento (Nima), dos Estados Unidos. A maior parte das ferrovias se concentra nas nações mais ricas – países europeus e o Japão. Acredita-se que a presença de vias férreas em países menos desenvolvidos representa resquício da colonização europeia.

Mapa de estradas

Esse mapa foi feito a partir de dados da Agência Nacional de Imagem e Mapeamento (Nima), dos Estados Unidos. Ele traz informações como o tempo de viagem estimado a vários tipos de estrada – vias expressas, rodovias e trilhas.

Mapa de navegação em lagos e baías

O mapa com os maiores pontos de água do globo, como lagos e baías, foi extraído do banco de dados de lagos globais e terras alagadas (GLDW), desenvolvido pela World Wildlife Fund em parceria com a Universidade de Kassel, na Alemanha.

Mapa de linha de navegação

Os corredores de tráfego marítimo do Canal da Mancha, do Mediterrâneo e do sul da China são os mais ocupados do mundo. A velocidade de transporte em corredores marítimos é de 40 km/h. Em mar aberto é de 20 km/h.

Mapa de inclinação

Alguns dados do mapa de inclinação auxiliam no cálculo de velocidade de viagem que uma pessoa a pé é capaz de atingir em determinados declives. A fórmula de van Wagtendonk é usada para se ter uma estimativa de velocidade.

Mapa de elevação

A elevação de relevo influencia na velocidade de viagem. Em altitudes inferiores a 2 mil metros, não há efeito na velocidade da caminhada. Já nas alturas acima de 2 mil metros, há uma diminuição da velocidade, devido ao ar rarefeito.

Mapa de áreas urbanas

As áreas urbanas foram parte do Projeto de Mapeamento Rural-Urbano Global (Grump, na sigla em inglês), que compreende um conjunto de dados de cerca de 55 mil cidades com população de mais de mil habitantes. A velocidade de viagem em áreas urbanas é de 30 km.

Mapa de cobertura do território

As categorias de tipo de cobertura terrestre foram feitas pela JRC. O objetivo do projeto é oferecer uma base detalhada de informação sobre a flora e o relevo globais para convenção de mudança climática. A velocidade de viagem depende do tipo de vegetação e da estação do ano.

Mapa de fronteiras internacionais

Esse mapa de fronteiras também foi elaborado pela Agência Nacional de Imagem e Mapeamento dos Estados Unidos. De acordo com dados, uma média de velocidade de viagem ultrapassando fronteiras varia de 0,25 km/h a 60 km/h.

Fonte: Revista Planeta – http://www.terra.com.br/revistaplaneta/

Onde você quer estar daqui a 30 anos?

Pessoas que conseguem se imaginar no futuro tomam decisões financeiras com maior cautela e economizam mais

Flávia Ferreira

Quanto dinheiro você guarda todo mês para quando se aposentar? Talvez tudo o que pode, já sonhando com uma casa na praia ou no interior. Ou, quem sabe, nem sequer consiga imaginar onde estará, como será sua vida ou o que fará com o dinheiro. Essa dificuldade tem razão de ser: pensar em si mesmo em um futuro muito distante é quase como imaginar outra pessoa. Pesquisas sugerem que quanto mais uma pessoa sente que seu “futuro eu” se parece consigo mesmo, mais se preocupa em poupar dinheiro.Um estudo recente realizado pela psicóloga Emily Pronin, pesquisadora da Universidade de Princeton, mostrou que ao tomarmos decisões geralmente tratamos

o futuro eu da mesma forma que o faríamos com outra pessoa. Por exemplo: os voluntários costumavam se esquivar do cumprimento de tarefas desagradáveis, apesar de necessárias, quando tinham de fazê-las exatamente naquele momento. Mas se eram requisitados para cumprir exatamente a mesma tarefa desde que precisassem fazê-lo alguns meses ou até um ano depois, se mostravam mais dispostos a colaborar – curiosamente, como se imaginassem que outra pessoa estaria em seu lugar.

Um experimento realizado pelos psicólogos Hal Ersner- Hershfield e Brian Knutson, da Universidade Stanford, revela que a “distância” a que acreditamos estar de nosso futuro eu varia de um indivíduo para outro. Para chegar a essa conclusão os cientistas pediram aos voluntários que pensassem em si mesmos no presente e após alguns anos, enquanto eram submetidos a um exame de ressonância magnética funcional. Estudos anteriores haviam mostrado que uma área específica do cérebro, o córtex cingulado anterior, é ativada quando pensamos em nós mesmos. O estudo mostrou que essa região entra em maior atividade quando pensamos em nós mesmos no agora, em comparação ao que ocorre quando nos imaginamos daqui a dez anos à frente, por exemplo. Os pesquisadores observaram alterações no padrão de atividade cerebral de alguns dos participantes, sugerindo que se viam, no futuro, mais como “seu próprio eu” que como “outra pessoa”.

Em seguida, foi pedido a cada voluntário que escolhesse entre receber determinada quantia de dinheiro para levar imediatamente ou um valor maior que seria entregue depois de um tempo. Os questionamentos mais frequentes levavam em conta se compensaria esperar para receber um montante maior. Pessoas que ao pensar no seu self no presente e no futuro apresentavam menor variação da atividade cerebral respondiam que precisavam de menos dinheiro imediatamente e acreditavam que a espera valia a pena.

As diferenças individuais também parecem afetar decisões financeiras na vida real. Em outro estudo recente, Ersner-Hershfield e Knutson descobriram que, independentemente de fatores como idade e escolaridade dos participantes, aqueles que imaginavam a si mesmos atualmente e daqui a alguns anos de forma mais parecida lidavam melhor com as finanças e se mostravam propensos a postergar alguns gastos para realizar planos mais vantajosos a médio prazo. Ou seja: se nos identificamos com o futuro self, mais estamos dispostos a poupar porque sabemos que o que decidirmos hoje fará diferença dentro de algum tempo. Essa identificação com o futuro pode nos tornar mais cuidadosos conosco. O mesmo pode valer quando se trata de investir em hábitos saudáveis que possivelmente proporcionarão melhor qualidade de vida e saúde no futuro. Por isso, imaginar como e onde estaremos em alguns anos costuma ser bastante útil.

A idade, porém, não é o único aspecto que influi em nossas complexas relações com o vil metal. Algumas pessoas, por exemplo, parecem ter características de personalidade que as compelem a acumulá-lo enquanto outras não conseguem deixar de estourar seus cartões de crédito e acreditam ser impossível economizar para dias difíceis. Já há algum tempo psicólogos acreditam que o dinheiro tem grande poder simbólico e funciona não só como uma ferramenta que facilita trocas, mas é um recurso de interação cultural, que habilita as pessoas a manipular o meio para obter o que desejam. Nesse sentido, assume o papel de substituto do afeto. Pesquisas mostram, por exemplo, que para algumas pessoas o ato de tocar em notas de dinheiro pode reduzir momentaneamente desconfortos físicos. Faz sentido, portanto, que, ao envelhecer e perder os benefícios da juventude, acumular recursos financeiros possa funcionar como uma espécie de compensação.

Os psicólogos Stephen Lea, da Universidade de Exeter, e Paul Webley, da Universidade de Londres, ambas no Reino Unido, acreditam que o dinheiro age em nossa mente como uma espécie de droga de abuso, fazendo com que alguns joguem compulsivamente e outros trabalhem ou gastem em excesso. Eles propuseram que, como a nicotina e a cocaína, o dinheiro pode ativar centros de prazer no cérebro, criando sensação de recompensa semelhante à de quando fazemos algo benéfico para a espécie, como sexo. Segundo eles, os efeitos cerebrais podem desencadear processos bioquímicos que agem sobre nossas percepções e emoções, estimulando circuitos vinculados a sistemas de recompensa neurais.

Numa tentativa de fornecer uma explicação evolucionária para a motivação na busca por ele nas sociedades atuais, a pesquisadora Barbara Briers, da Escola de Negócios HEC, em Paris, decidiu testar se o interesse humano por dinheiro estava diretamente relacionado ao apetite por comida. Ela e sua equipe fizeram descobertas, publicadas no volume 17 da Psychological Science. Curiosamente, voluntários famintos estavam menos propensos a fazer doações para caridade do que os que estavam satisfeitos. Aqueles que foram preparados para ter grande desejo por dinheiro, imaginando que tivessem ganho na loteria, comeram quase todo o doce do teste; já pessoas com o apetite estimulado por ficar esperando sentadas em uma sala com um cheiro maravilhoso estavam menos inclinadas a dar dinheiro do que aquelas que aguardavam em salas com odor normal. Para Briers, isso indica que nosso cérebro processa ideias sobre dinheiro e comida pelo

mesmo sistema, o que significa que, para a mente, os dois têm capacidade similar de nos satisfazer – ou frustrar.

Fonte: Mente e Cérebro – http://www2.uol.com.br/vivermente

Uso de drogas não é determinante na prática de crimes, aponta dissertação

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Comportamento criminoso é mais prevalente em portadores de  Transtorno de  Personalidade  Antissocial

CARMO GALLO NETTO

O uso de drogas ilícitas constitui uma das grandes preocupações das sociedades modernas. Se em vários países esse consumo tem diminuído, em outros, caso do Brasil, ele é crescente. O progressivo aumento da criminalidade tem sido imputado aos usuários de drogas psicoativas (SPA) – assim consideradas aquelas que provocam alterações transitórias no funcionamento cerebral levando, por exemplo, à desinibição provocada pelo álcool, à euforia gerada pela cocaína, ou à diminuição da ansiedade, às sensações de anestesia, alegria, embriagues, ou seja, àquelas que em suma são geradoras de prazer.

Estudo mostra que ser usuário ou dependente de substâncias psicoativas – como o álcool, solventes, maconha, cocaína, crack – não se mostrou determinante na prática de crimes. O comportamento criminoso é prevalente em consumidores de drogas portadores de Transtorno de Personalidade Antissocial.

É o que revela dissertação de mestrado orientada pela professora Renata Cruz Soares de Azevedo e apresentada à Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp pela psiquiatra Karina Diniz Oliveira. A pesquisa foi realizada com 183 pessoas maiores de 18 anos usuários ou dependentes de substâncias psicoativas que iniciaram acompanhamento em dois dos serviços de referência no tratamento de dependentes químicos de Campinas: o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS-AD) Independência e o Ambulatório de Substâncias Psicoativas (ASPA) do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp.

Karina revela que a população estudada era constituída em sua maioria de pacientes do gênero masculino, em geral na quarta década de vida, provenientes da região de Campinas, sem companheiro fixo, escolaridade inferior a oito anos, baixa renda e inatividade laboral. O policonsumo – uso concomitante ou alternado – de diferentes SPA foi muito frequente, principalmente álcool, maconha, cocaína e crack.  O potencial de dependência do crack se revelou maior que de outras substâncias.

Segundo ela, delitos foram cometidos por 40% dessa população, em que 28% de indivíduos apresentam Transtorno de Personalidade Antissocial. Os principais crimes cometidos envolvem lesão corporal, homicídio, furto e roubo. Nesses delitos, afirma Karina, estão envolvidos principalmente sujeitos portadores de Transtorno de Personalidade Antissocial, com antecedentes de uso de solventes, sem religião, com poliuso e dependência a múltiplas substâncias psicoativas, principalmente ilícitas.

Na pesquisa, Karina discutiu os fatores relacionados ao cometimento de crimes em dependentes de substâncias psicoativas que procuram tratamento, centrando o levantamento na descrição do perfil sócio-demográfico; na avaliação do padrão de consumo; na determinação da prevalência de comportamento criminoso e os tipos de crimes praticados; na presença do Transtorno de Personalidade Antissocial; e, para finalmente, correlacionar estas variáveis visando discutir as interfaces e associações.

Revelações

No entender das pesquisadoras, o trabalho desenvolvido revela alguns aspectos muito interessantes. Os dois serviços de atendimentos públicos tomados como base de estudo são procurados por mais homens do que mulheres. Renata esclarece que entre os usuários de drogas a relação é de uma mulher para quatro homens e entre os que procuram o tratamento essa relação passar a ser de um para oito ou até doze. Para a docente, as mulheres têm vergonha de procurar tratamento, principalmente as mais velhas, talvez por causa dos preconceitos que enfrenta. Além disso, os tratamentos são em geral estruturados para os homens, não contemplando as especificidades do uso de drogas entre as mulheres.

Karina considera que a procura por tratamento é em geral postergada, pois as pessoas que os procuram encontram-se na faixa de 40 a 50 anos de idade, embora tenham iniciado o uso de drogas na adolescência. Esses usuários e dependentes, constata, enfrentam nessa fase de suas vidas as consequências socioeconômicas decorrentes, como situação financeira precária, desemprego, separações conjugais, relações familiares e sociais comprometidas.

Embora cerca de 40% desses indivíduos exibam comportamento criminoso, essas taxas são bastante diferentes quando considerados separadamente usuários de drogas lícitas e ilícitas, mudando mais quando se leva em consideração a presença de Transtorno de Personalidade Antissocial. Na população em geral, a taxa de indivíduos portadores desse transtorno é de 3% e entres os usuários de drogas chega a 27%, o que evidencia o significado da presença desse transtorno no comportamento criminoso.

Karina lembra que o usuário de drogas ilícitas está em contato com a criminalidade do narcotráfico, o que o aproxima do crime. Ademais, os efeitos psicoativos das substâncias ingeridas diminuem o medo e podem levar a atos que ele normalmente não cometeria. Ela lembra também que a necessidade intensa pela droga o leva a desconsiderar valores adquiridos de tal forma que mesmo indivíduos criados em famílias que lhe permitem introjetar valores conseguem se afastar de certos comportamentos.

A professora Renata destaca ainda a importância da ampliação das interfaces de áreas muito segmentadas como as médicas e jurídicas no encaminhamento dado a esses usuários porque “tratam-se de pessoas que são presas e julgadas”, diz. Ela defende também “a conexão da área médica com muitos outros segmentos porque as respostas médicas resvalam, além do jurídico, em questões sociais, antropológicas, entre outras e o estabelecimento dessas pontes é fundamental para sair do lugar comum e refletir sobre novas formas de enfrentamento do tema”.

Motivações

Ao considerar os objetivos da pesquisa, Renata afirma que o desejo era o de colocar em pauta a associação que se faz no senso comum, em que o usuário de drogas é considerado muito próximo da criminalidade, principalmente quando a droga é ilícita. Daí a necessidade inicial de levantar quantos dos usuários e dependentes tinham comportamento criminoso. Ela explica que a inclusão da avaliação de personalidade antissocial partiu de dados da literatura que considera que a atitude criminosa se manifesta em indivíduos com personalidade que desconsidera normas e regras, que se guia por um comportamento centrado no querer e fazer, independentemente das consequências e apesar das transgressões.

Segundo Karina, o estudo conseguiu confirmar que a droga age como o elemento ativador de uma tendência comportamental criminosa em uma pessoa que desconsidera o crime. Ela lembra que 85% dos que apresentam esse transtorno antissocial cometeram crimes, taxa que cai para 15% entre os que não o tem. E os crimes destes últimos apresentam menor potencial ofensivo e geralmente estão relacionados a furtos.

As pesquisadoras contam que geralmente o dependente de drogas procura o tratamento quando adquire a percepção dos prejuízos que lhe traz a dependência. Antes disso, ele cede à compulsão do prazer. Elas constatam que, quando ele se decide pelo tratamento, deve encontrar as portas escancaradas para atendê-lo porque talvez, depois, não encontre outro momento de resistência. E muitas vezes isso ocorre devido à demora no atendimento, no alongamento do prazo para consulta.

Karina destaca que uma das razões que faz o dependente procurar o atendimento é a perda de tudo, da família, do emprego e o tratamento constitui alguma coisa a que se possa vincular. Muitos são trazidos pela família porque estão em uma situação crítica e nesses casos não existe apenas um desejo, mas circunstâncias decorrentes da droga que se tornaram insustentáveis.

O trabalho

No trabalho de campo foi aplicado um questionário sócio-demográfico para levantar idade, religião, situação laboral, renda, condições de moradia, profissão, enfim, elementos que permitissem determinar o perfil desse usuário de drogas que procura tratamento em um órgão público e que possibilitassem ainda caracterizar seu padrão de consumo. Com ele, determinou-se a substância consumida, frequência, quantidade e papel da substância na vida do usuário. Em decorrência do uso das drogas, a pesquisadora pode levantar a perda social que o usuário teve em relação à manutenção de uma rede social de amigos, ao convívio com a família, ao emprego. No final, o questionário abordou delitos cometidos e problemas judiciais. Nos casos de delitos, procurou caracterizar o papel da droga em relação ao crime para determinar se os delitos foram cometidos por ação da droga ou para conseguir a droga.

Karina diz que a droga mais presente é o álcool – 40% eram seus usuários exclusivos e destes 100% eram dependentes – seguido da cocaína e do crack, mas muitos deles começaram com o uso de solventes cheirando produtos como cola de sapateiro ou benzeno, tolueno e tiner. Com base no universo estudado, Karina afirma que geralmente a dependência se iniciou com álcool e tabaco, passou pelo solvente e maconha e chegou à cocaína e dela ao crack, devido ao preço e à facilidade de encontrar. Embora não tenha feito parte de seu trabalho, ela lembra que hoje ocorre a passagem direta para o crack.

Fonte: Jornal da UNICAMP – http://www.unicamp.br/

Néstor Kirchner e o que vem por aí

Nunca fui kirchnerista. Nunca vi Nestor pessoalmente, jamais estive em um mesmo lugar com ele. Nem sequer votei nele em 2003. Eu lhe disse isso na única vez que me telefonou para pedir-me que aceitasse ser o embaixador argentino em Cuba.

Mempo Giardinelli

Sempre disse e escrevi que não me agradava seu estilo meio descarado, essa informalidade provocadora que o caracterizava. Mas fui o respeitando na medida em que, com um poder que não tinha, tomava velozmente medidas que a Argentina precisava e que quase todos vínhamos pedindo aos gritos. E que enumero agora, porque no futuro imediato me parece que teremos que destacá-las para marcar diferenças. O artigo é de Mempo Giardinelli, escritor e jornalista argentino.

Escrevo esse texto em meio ao calor dos acontecimentos, na mesma manhã do anúncio da morte de Néstor Kirchner, e oxalá esteja errado. Mas sinto dor e medo e necessito expressá-lo.

Penso que estes dias serão muito feios, com um carnaval de hipocrisia no Congresso. Os mortos políticos estarão ali com suas caras impávidas. Os ressuscitados de governos anteriores. Os bajuladores profissionais que agora se dizem “dissidentes”. Os frívolos e os garcas que diariamente desenham Rudi e Dany. Todos eles e elas. Caras de plástico, de ferro fundido, de caca endurecida. Aplaudidos secretamente por aqueles que já estão emitindo sorrisos de alegria feroz.

Os veremos na televisão, eu já os vejo neste meio dia ensolarado que, aqui no Chaco, ao menos, resplandece como que para uma causa melhor.

Nunca fui kirchnerista. Nunca vi Nestor pessoalmente, jamais estive em um mesmo lugar com ele. Nem sequer votei nele em 2003. Eu lhe disse isso na única vez que me telefonou para pedir-me que aceitasse ser o embaixador argentino em Cuba.

Sempre disse e escrevi que não me agradava seu estilo meio descarado, essa informalidade provocadora que o caracterizava. Sua maneira tão peronista de fazer política juntando água clara e azeite usado e viscoso.

Mas fui o respeitando na medida em que, com um poder que não tinha, tomava velozmente medidas que a Argentina precisava e que quase todos vínhamos pedindo aos gritos. E que enumero agora, porque no futuro imediato me parece que teremos que destacá-las para marcar diferenças.

Foi ele, ou seu governo, e agora o de Cristina:

- O que mudou a política de Direitos Humanos na Argentina. Nada menos do que isso. Agora alguns dizem que estão “fartos” do assunto, como outros criticaram sempre que era uma política mais declarativa que outra coisa. Mas Nestor o fez: iniciou a mudança e foi conseqüente. E assim se ganhou o respeito de milhões.

- O que mudou a Corte Suprema de Justiça, e não importa se, depois, a Corte não soube mudar a Justiça Argentina.

- O que abriu os arquivos dos serviços secretos e com isso reorientou o julgamento dos atentados sofridos pela comunidade judia nos anos 90.

- O que recuperou o controle público do Correio, das Águas, da Aerolíneas.

- O que impulsionou e conquistou a nulidade das leis que impediam de se conhecer a verdade e de castigar os culpáveis de genocídio.

- O que mudou nossa política externa terminando com as claudicantes relações carnais e outras palhaçadas.

- O que implementou uma consequente e progressista política educativa como não tivemos por décadas, e que mudou a infame Lei Federal de Educação menemista pela atual, que é democrática e inclusiva.

- O que começou a mudar a política para os professores e os aposentados, que por muitos anos foram os dois setores salarialmente mais atrasados do país.

- O que mudou radicalmente a política de Defesa, de modo que agora este país começa a ter umas Forças Armadas diferentes, democráticas e submetidas ao poder político pela primeira vez na história.

- O que iniciou uma gestão plural na Cultura, que agora atinge todo o país e não somente a cidade de Buenos Aires.

- O que começou a primeira reforma fiscal em décadas, que precisa avançar muito ainda,mas que hoje permite arrecadações recordes.

- O que renegociou a dívida externa e terminou com a estúpida ditadura do FMI. E, pela primeira vez, maneja o Banco Central com uma política nacional e com recorde de divisas.

- O que liquidou o infame negócio das AFJP e recuperou para o Estado a proteção social.

- O que, com a nova Lei de Meios, começou a limitar o poder absoluto da ditadura jornalística privada que provoca distorções na cabeça de milhões de compatriotas.

- O que impulsionou a Lei do matrimônio igualitário e mantém uma política antidiscriminatória como jamais tivemos.

- O que vem obtendo um crescimento econômico dos mais altos do mundo, com recuperação industrial evidente, estabilidade de quase uma década e diminuição do desemprego. Além disso, se aproxima a nova legislação das entidades bancárias, que terminará um dia destes com as heranças de Martinez de Hoz e de Cavallo.

Nestor fez isso. Junto com Cristina, que o segue fazendo. Com muitos erros, diga-se desde já. Com patadas, corruptelas e turvamentos vários e alguns muito irritantes, funcionários não apresentáveis, certa belicosidade inútil e o que se queira reprovar-lhes, tudo isso o que para muitos como eu nos dificulta nos declararmos kirchneristas, ou nos impede.

Mas só os miseráveis esquecem que a corrupção na Argentina é conatural desde que os malditos ditadores a reinventaram mil vezes. E o “riojano” (Menem) idem.

De maneira que, sem justificar o desvio de um centavo sequer, nesta hora é preciso lembrar a nação inteira que ninguém, mas ninguém, e nenhum presidente desde, pelo menos, Juan Perón, entre 46 e 55, produziu tantas e tão profundas mudanças positivas para a vida nacional.

A ver se alguém pode dizer o contrário.

De maneira que estes são os méritos deste zarolho fraco, descarado, contraditório e de andar lateral, como os pingüins.

Sim, escrevo isso dolorido e com medo, nesta fodida manhã de sol, e desolado também, como milhões de argentinos, um pouco por este homem que Estela de Carlotto acaba de definir como “indispensável” e outro poço por nós, por nosso amado e pobre país.

E redobro meu rogo para que Cristina se cuide, e para que cuidemos dela. Temos diante de nós um ano tremendo, com as matilhas sedentas e capazes de qualquer coisa para recuperar o miserável poder que tiveram e perderam graças a quem chamam de modo depreciativo “Os K” e nós, os argentinos comuns, os cidadãos e cidadãs que não comemos os alimentos envenenados pela imprensa e a televisão do sistema midiático privado, provavelmente nos recordaremos deles como “Néstor e Cristina, os que mudaram a Argentina”.

Descanse em paz, Néstor Kirchner, com todos os seus erros, defeitos e misérias, mas sobretudo com seus enormes acertos. E resista Cristina. Você não está sozinha.

E os demais, nós, a enfrentar os desafios. Ou, por acaso, temos feito outra coisa em nossas vidas e em nosso país?

Fonte:  Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br