Atual momento eleitoral retrata derrota histórica do mundo do trabalho

Mário Maestri

Dilma não é Serra, que não é FHC. No frigir dos ovos, sequer o Fernando Henrique de hoje é o mesmo que governou em 1995-2002. Eles são, todos, diversos, mesmo sendo um a cara do outro, política e socialmente. E se não acreditam, dêem uma olhada nas taxas de juro praticadas pelo Banco Central nesses últimos dezesseis anos, a mais efetiva materialização da principal forma de exploração dos povos e nações nesta fase de domínio pleno de ordem capitalista em senilidade avançada.

O primeiro turno eleitoral, em 3 de outubro, registrou derrota fragorosa e histórica do mundo do trabalho diante do grande capital. É simples expressão patética desse raquitismo social estrutural o esforço empreendido, nesse segundo turno, para transformar Dilma da Silva, com ou sem reticências, com ou sem pedidos de desculpas, na expressão de um Brasil popular, democrático, republicano, social, que o lulismo e o petismo ajudaram a estrangular nos últimos anos.

O um por cento da votação geral obtido pelos candidatos à presidência do PSOL, PSTU, PCB e PCO não registra a "infelizmente" "votação baixa" "das candidaturas identificadas com os partidos de esquerda", como propõe recente manifesto puxado pela direção do MST. Ao contrário, constitui o dramático e incontestável registro da defecção política da população com os partidos e o programa que defendem, bem ou mal, hábil ou inabilmente, as bandeiras da democracia, do laicismo, da república, do socialismo. Ou seja, delimita o desconhecimento geral das únicas e efetivas saídas para a crise histórica e atual de nossa sociedade em ininterrupto agravamento.

E não devemos culpar a grande mídia pela rejeição da população do programa do mundo do trabalho e sua adesão a candidaturas e propostas apoiadas em facções diversas do capital. Repetiremos assim a triste desculpa do capitão do time goleado: "– Nós jogamos ótimo! Eles jogaram melhor!". É da natureza da mídia burguesa sufocar seus inimigos viscerais: o trabalhador organizado e sua luta pela autonomia. O próprio silêncio da grande mídia não impediu, por exemplo, que alguns candidatos ao parlamento pelo PSOL obtivessem altas votações, circunscrevendo em forma inarredável a defecção da população com as políticas estratégicas psolistas.

A votação mais do que pífia dos partidos ancorados no trabalho e no socialismo deveu-se certamente a grave erro conjuntural – a liquidação da unidade dos partidos de esquerda, em favor dos respectivos aparatos, segundo parece. E se houve razões mais profundas para tal divisão, a população jamais foi informada sobre elas. Porém, uma Frente de Esquerda mitigaria, mas não superaria, escore eleitoral que expressou situação estrutural do movimento social, consolidada muito antes das eleições.

Sem o indiscutível carisma e capacidade de comunicação de Plínio Sampaio, um PSOL capitaneado por Heloísa Helena talvez obtivesse igual votação, mas jamais a mesma repercussão. A derrota da ex-senadora em seu estado natal registra o já sabido – enorme parte de sua alta seara eleitoral em 2006 não foi colhida nas terras magnânimas das classes populares, mas nos terrenos inférteis de segmentos médios comumente conservadores. Consequentemente, jamais rebrotaram ou frutificaram. Com Marina Silva desempenhando, com o apoio do capital, a função de ponte para um segundo turno, a ex-senadora assistiria seu antigo escore eleitoral dissolver-se como sorvete sob o sol abrasador do sertão.

Não podemos também responsabilizar Lula da Silva e o petismo pela enorme despolitização e desorganização do movimento social, em boa parte devida à gigantesca cooptação e integração ao Estado, em forma direta ou indireta, de direções sindicais e populares urbanas e rurais, do movimento negro organizado etc. O atrelamento de organismos e lideranças sociais na procura da liquidação da autonomia política, orgânica e ideológica do mundo do trabalho era condição exigida, pela burguesia, para a entrega do governo a Lula da Silva e ao petismo. A própria votação insignificante dos partidos socialistas e classistas qualifica e fortalece a candidatura de Dilma diante do capital. Lula da Silva, Dilma e o petismo mostraram-se negociantes honestos e confiáveis. Entregaram, fresco, como prometido, o peixe que venderam, ainda sendo pescado.

Entretanto, a ação deletéria do lulismo e do petismo sobre um mundo do trabalho historicamente frágil e débil talvez tenha sido tão competente que não poucos segmentos do capital acreditam já desnecessários seus serviços. Não deixa de ser uma ironia que a despolitização e desorganização da população, organizada pelo petismo e sindicalismo colaboracionistas, fertilizaram a adesão multitudinária ao integralismo evangélico. Cooptação política, social, ideológica e econômica profundamente conservadora, através de organização popular horizontal e de proximidade rejeitada pelo petismo quando de sua metamorfose social-liberal, para melhor manter a desmobilização.

O grande tropeço dos partidos da esquerda que se definem como anti-capitalistas – PSOL, PCB, PSTU, PCO – foi indiscutivelmente a não convergência em frente que apontasse para além das eleições, na procura da aglutinação e extensão das vanguardas políticas e sociais, para melhor enfrentarem os dramáticos embates com que a população já se confronta e se confrontará nos próximos tempos, seja qual seja o vencedor do segundo turno. Movimento unitário que impediria ou minoraria que essas organizações saíssem do pleito, como saíram, todas, maltratadas e fragilizadas, mesmo quando aumentaram eventualmente a representação parlamentar, como no caso do PSOL.

O nível dramático da crise de autonomia do mundo do trabalho no Brasil ficou registrado na submissão subjetiva das direções de suas já frágeis organizações. Elas abandonaram incontinenti as posições autonômicas defendidas para aderirem ao setor considerado mais democrático e mais progressista do capital, que acabavam de denunciar no primeiro turno. Cambalhota que registra, no melhor dos casos, as ilusões e dependências político-ideológicas à burguesia e, no pior, acomodação oportunista à estrepitosa votação do lulismo-petismo. Paradoxalmente, essa posição referenda as ilusões dos trabalhadores e da população que optaram pelo voto útil, em Dilma do Lula e no petismo, já no primeiro turno. Se é pra pedir pra deus, pra que rogar pro santo!

A quase totalidade da direção do PSOL abraçou-se com o petismo, deixando no isolamento dos justos seu candidato à presidência e a pequena minoria que manteve seus compromissos com este último e com os princípios que sempre defendeu. Não sabemos qual a dimensão da resistência no PCB, caso tenha ocorrido, a uma decisão que enterrou, no mínimo por um muito longo tempo, qualquer credibilidade à sua proposta de "reconstrução revolucionária". A conclamação automática do PSTU ao voto nulo perde sentido devido à votação liliputiana de Zé Maria, em contradição direta com a tradicional auto-proclamação como vanguarda revolucionária dessa organização, já com trinta anos de história.

O mundo se encontra em fase perigosamente declinante. O pouco que resta da ordem socialista engolfa-se, em ritmo diverso, que tende a se unificar, nas últimas fases de movimento da restauração capitalista: China, Cuba, Vietnã etc. O inevitável domínio da barbárie social, apontada como ogro medonho, a espantar a humanidade no seu horizonte histórico, na antevisão genial de Rosa Luxemburgo, no caso da vitória do capital, aboleta-se já despachado em nossa sala de visita. A luta por reorganização socialista do mundo, denunciada ontem como miragem utópica, apresenta-se hoje como solução necessária e imprescindível para talvez a própria sobrevivência da humanidade.

A solução-superação de uma ordem capitalista globalizada, crescentemente senil e autofágica, se dará, caso se dê, através de processo necessariamente internacional. Os recuos e avanços, através do mundo, das lutas sociais, debilitam ou fortalecem os trabalhadores e seu projeto histórico como um todo. Na Europa, sobretudo na Grécia, na Itália e na França, os trabalhadores levantam-se em respostas duríssimas à ofensiva geral contra as populações, delimitando, nas ruas, a oposição irredutível, entre trabalho e capital, em todas as esferas sociais. A solução positiva dessas jornadas exige a difícil construção de direções e de programas que apontem e organizem, sem concessões de qualquer tipo, a transformação de batalhas ainda defensivas em assaltos às casamatas e quartéis-generais da ordem capitalista.

O Brasil desempenha papel determinante no confronto mundial entre capital e trabalho. O domínio do conservadorismo e do oportunismo no nosso país-continente pesa duramente sobre a América do Sul, em especial, e o mundo, em geral. É de urgência atroz a reagrupação, centralização e intervenção dos núcleos da vanguarda política e social que se buscam a defesa da autonomia do trabalho diante de todas e quaisquer expressões do capital. Reagrupação que, separando o joio e o trigo, facilite a difícil e complexa construção de programa que expresse as necessidades quotidianas e gerais da sociedade. Definição que exige integração organizada e crítica às lutas sociais, ainda que pontuais, ancorada no esforço e na necessidade mundial dos trabalhadores. Um movimento necessariamente estranho ao cretinismo parlamentar, ao propagandismo retórico, ao sindicalismo corporativista, ao autismo e ao dogmatismo partidário.

Mário Maestri, sul-rio-grandense, é historiador. E-mail: maestri@via-rs.net

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

O voto do Nordeste e as elites

Tânia Bacelar de Araujo

A ampla vantagem da candidata Dilma Rousseff no primeiro turno no Nordeste reacende o preconceito de parte de nossas elites e da grande mídia face às camadas mais pobres da sociedade brasileira e em especial face ao voto dos nordestinos. Como se a população mais pobre não fosse capaz de compreender a vida política e nela atuar em favor de seus interesses e em defesa de seus direitos. Não “soubesse” votar.

Desta vez, a correlação com os programas de proteção social, em especial o “Bolsa Família” serviu de lastro para essas análises parciais e eivadas de preconceito. E como a maior parte da população pobre do país está no Nordeste, no Norte e nas periferias das grandes cidades (vale lembrar que o Sudeste abriga 25% das famílias atendidas pelo “Bolsa Família”), os “grotões”- como nos tratam tais analistas ? teriam avermelhado. Mas os beneficiários destes Programas no Nordeste não são suficientemente numerosos para responder pelos percentuais elevados obtidos por Dilma no primeiro turno : mais de 2/3 dos votos no MA, PI e CE, mais de 50% nos demais estados, e cerca de 60% no total ( contra 20% dados a Serra).

A visão simplista e preconceituosa não consegue dar conta do que se passou nesta região nos anos recentes e que explica a tendência do voto para Governadores, parlamentares e candidatos a Presidente no Nordeste.

A marca importante do Governo Lula foi a retomada gradual de políticas nacionais, valendo destacar que elas foram um dos principais focos do desmonte do Estado nos anos 90. Muitas tiveram como norte o combate às desigualdades sociais e regionais do Brasil. E isso é bom para o Nordeste.

Por outro lado, ao invés da opção estratégica pela “inserção competitiva” do Brasil na globalização – que concentra investimentos nas regiões já mais estruturadas e dinâmicas e que marcou os dois governos do PSDB -, os Governos de Lula optaram pela integração nacional ao fundar a estratégia de crescimento na produção e consumo de massa, o que favoreceu enormemente o Nordeste. Na inserção competitiva, o Nordeste era visto apenas por alguns “clusters” (turismo, fruticultura irrigada, agronegócio graneleiro…) enquanto nos anos recentes a maioria dos seus segmentos produtivos se dinamizaram, fazendo a região ser revisitada pelos empreendedores nacionais e internacionais.

Por seu turno, a estratégia de atacar pelo lado da demanda, com políticas sociais, política de reajuste real elevado do salário mínimo e a de ampliação significativa do crédito, teve impacto muito positivo no Nordeste. A região liderou – junto com o Norte – as vendas no comercio varejista do país entre 2003 e 2009. E o dinamismo do consumo atraiu investimentos para a região. Redes de supermercados, grandes magazines, indústrias alimentares e de bebidas, entre outros, expandiram sua presença no Nordeste ao mesmo tempo em que as pequenas e medias empresas locais ampliavam sua produção.

Além disso, mudanças nas políticas da Petrobras influíram muito na dinâmica econômica regional como a decisão de investir em novas refinarias (uma em construção e mais duas previstas) e em patrocinar – via suas compras – a retomada da indústria naval brasileira, o que levou o Nordeste a captar vários estaleiros.

Igualmente importante foi a política de ampliação dos investimentos em infra-estrutura – foco principal do PAC – que beneficiou o Nordeste com recursos que somados tem peso no total dos investimentos previstos superior a participação do Nordeste na economia nacional.

No seu rastro,a construção civil “bombou” na região.

A política de ampliação das Universidades Federais e de expansão da rede de ensino profissional também atingiu favoravelmente o Nordeste, em especial cidades médias de seu interior. Merece destaque ainda a ampliação dos investimentos em C&T que trouxe para Universidades do Nordeste a liderança de Institutos Nacionais ? antes fortemente concentrados no Sudeste – dentre os quais se destaca o Instituto de Fármacos ( na UFPE) e o Instituto de Neurociências instalado na região metropolitana de Natal sob a liderança do cientista brasileiro Miguel Nicolelis que organizará uma verdadeira “cidade da ciência” num dos municípios mais pobres do RN ( Macaíba).

Igualmente importante foi quebrar o mito de que a agricultura familiar era inviável. O PRONAF mais que sextuplicou seus investimentos entre 2002 e 2010 e outros programas e instrumentos de política foram criados ( seguro ? safra , Programa de Compra de Alimentos, estimulo a compras locais pela Merenda Escolar, entre outros) e o recente Censo Agropecuário mostrou que a agropecuária de base familiar gera 3 em cada 4 empregos rurais do país e responde por quase 40% do valor da produção agrícola nacional.

E o Nordeste se beneficiou muito desta política, pois abriga 43% da população economicamente ativa do setor agrícola brasileiro.

Resultado: o Nordeste liderou o crescimento do emprego formal no país com 5,9% de crescimento ao ano entre 2003 e 2009, taxa superior a de 5,4% registrada para o Brasil como um todo, e aos 5,2% do Sudeste, segundo dados da RAIS.

Daí a ampla aprovação do Governo Lula em todos os Estados e nas diversas camadas da sociedade nordestina se refletir na acolhida a Dilma. Não é o voto da submissão – como antes – da desinformação, ou da ignorância. É o voto da auto- confiança recuperada, do reconhecimento do correto direcionamento de políticas estratégicas e da esperança na consolidação de avanços alcançados – alguns ainda incipientes e outros insuficientes. É o voto na aposta de que o Nordeste não é só miséria (e, portanto, “Bolsa Família”), mas uma região plena de potencialidades.

Tânia Bacelar de Araujo é especialista em desenvolvimento regional, economista, socióloga e professora do Departamento de Economia da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco).

Fonte: Outras Palavras – http://www.outraspalavras.net/

Entrevista com Fabio Konder Comparato: “Nós nunca tivemos democracia até hoje”

Professor da Faculdade de Direito da USP, o jurista Fabio Konder Comparato é conhecido por sua longa e firme militância na luta pelos direitos humanos e democráticos no Brasil. Tem contribuído com inúmeras entidades e movimentos sociais na formulação de propostas para a transformação do povo brasileiro no sujeito de sua própria soberania. Nesta entrevista exclusiva para Caros Amigos, ele analisa a questão do poder no Brasil, as várias formas dissimuladas de se adiar a democracia, os instrumentos para aperfeiçoar a participação popular nos destinos do país e outros aspectos da maior relevância para a compreensão da nossa realidade. Os argumentos lúcidos e pedagógicos do professor Fabio Konder Comparato são imperdíveis.

Tatiana Merlino – O senhor nasceu em Santos?

Fabio Konder Comparato – Não me perguntem se eu sou santista… (risos)

Hamilton Octavio de Souza – É santista?

Eu não torço mais para nenhum clube. Futebol é o ópio do povo (risos).

Tatiana Merlino – Mas, o senhor nasceu em Santos, em que ano?

Em 1936, de modo que daqui alguns dias eu farei, com a graça de Deus, 74 anos. Fiquei quatro anos morando no Guarujá, meu pai tinha um hotel lá. Depois, eu vim para São Paulo com a família. Tive uma formação de escola primária excelente. Até hoje tenho uma grande saudade das minhas professoras primárias, que eram professoras daquele tempo antigo, formadas no Elvira Brandão, muito sérias. Depois, eu cursei o Colégio São Luís; de modo que eu fui formado e deformado por jesuítas. Entrei na Faculdade de Direito em 1955, e terminei o curso em 1959. Depois, até 1963 eu fiquei na França, fazendo meu doutorado em Direito. Voltei para o Brasil e fui trabalhar em Brasília, com Evandro Lins e Silva, que era Ministro do Supremo Tribunal Federal. Lá trabalhei como secretário jurídico dele. Saí de Brasília com uma hepatite atroz, provocada pelo golpe de Estado de 1964. Em seguida advoguei, tornei-me livre-docente da Faculdade de Direito da USP e depois professor titular. Comecei lecionando Direito Comercial, mas depois me converti e passei a lecionar Direitos Humanos.

Tatiana Merlino – Na faculdade o senhor teve algum professor que o tenha influenciado?

O professor que mais me impressionou foi exatamente um professor de Direito Comercial. Acho que foi por ele que eu fiz isso…

Hamilton de Souza – Tinha a ver com Direitos Humanos?

Não. Mas, eu não lamento o longo período em que lecionei Direito Comercial, porque me permitiu entrar nos arcanos do capitalismo, desmontar toda a estrutura capitalista que enquadra a nossa vida social.

Tatiana Merlino – Como se deu sua conversão para os Direitos Humanos, por qual influência?

Foi, sem dúvida, por causa da Ditadura Militar. E sobretudo, porque fui convidado por Dom Paulo Evaristo Arns para fazer parte da Comissão de Justiça e Paz, da Arquidiocese de São Paulo. E lá foi, realmente, um aprendizado. Dom Paulo foi um dos baluartes da luta pela defesa da dignidade humana. Lembro, apenas para dar uma ilustração, de como ele era, na época, procurado por aqueles que sofriam com os sofrimentos e a morte de seus familiares. O pai do Bernardo Kucinski, por exemplo, nunca se recuperou da morte da filha, Ana Rosa Kucinski. Até hoje não se sabe do paradeiro do cadáver dela. Ele ia procurar Dom Paulo todos os dias. Dom Paulo o recebia nem que fosse por 5 minutos. O objetivo que Dom Paulo deu para a Comissão de Justiça e Paz foi justamente o de divulgar todos os crimes do regime militar que nós soubéssemos. Então, vinham dezenas de pessoas, dizendo: “Meu filho desapareceu, estava na rua e foi preso. Nós anotávamos tudo isso, entregávamos para Dom Paulo, que ia regularmente ao quartel-general II Exército e entregava a lista dos desaparecidos ao General Comandante. Para que eles soubessem que nós sabíamos, e não inventassem mentiras, como fizeram quando mataram sob tortura o Luiz Eduardo Merlino, por exemplo: “Ele tentou fugir quando era conduzido numa viatura militar, foi atropelado e morreu.” A ditadura militar temia, sobretudo, as manifestações no exterior. É por isso que, hoje, nós temos que denunciar sistematicamente, no exterior, o acobertamento dos assassinos e torturadores do regime militar pelo Poder Judiciário. O Estado brasileiro tem receio disso. Quando meus filhos eram bebês, e viajávamos, minha mulher e eu para a França (íamos todos os anos, porque minha mulher é francesa), eu levava documentos nos cueiros deles. Eram relatos de atrocidades e listas de pessoas presas, mortas, desaparecidas. E, naquela época, nós entregávamos isso a um padre francês que morou cinco anos aqui no Brasil. E ele divulgava isso na Igreja Católica. Mas, a Igreja Católica, no Brasil, salvo algumas figuras exemplares, como Dom Paulo e Dom Helder Câmara, continuava firmemente conservadora.

Hamilton Octavio de Souza – Nesse período da Comissão de Justiça e Paz, o senhor já tinha participação em eventos, atos, com relação à Anistia, à luta pela redemocratização do país? Como o senhor atuava, o senhor tinha militância nesse tempo?

Eu não tinha uma participação muito ativa fora da Comissão de Justiça e Paz. Mas participava de alguns eventos públicos. Por exemplo, eu estive na Catedral de São Paulo, quando da celebração ecumênica da morte de Alexandre Vannuchi Leme. Eu lembro que, ao sair da Catedral, havia todo um aparato da polícia militar, com câmeras fotográficas, e ostensivamente abri o guarda-chuva e avancei em direção a eles para que eles não me fotografassem. Mas eles estavam fartos de saber da minha posição política. Eu não fui molestado, porque nunca me aproximei de nenhum partido ou movimento da esquerda. Mas, eles me acompanhavam. Numa certa época, eu comecei a trabalhar em banco, cheguei a diretor adjunto de um banco.

Tatiana Merlino – Simultâneo à Comissão Justiça e Paz?

Exatamente. E uma vez o diretor presidente do banco me chamou e indagou: “O que o senhor acha do terrorismo?” Saquei logo de onde vinha a pergunta. Respondi com outra pergunta: “Mas, qual deles: o oficial ou o outro?” Aí ele riu um pouco….

Tatiana Merlino – Como o senhor avalia o período da redemocratização e a justiça de transição, ou a inexistência de justiça de transição que houve no Brasil?

Esse é apenas um pormenor da manutenção íntegra e até hoje inabalada da oligarquia. Se há uma constante na História do Brasil, é o regime oligárquico. É sempre uma minoria de ricos e poderosos que comanda, mas com uma diferença grande em relação a outros países. Nós, aqui, sempre nos apresentamos como não oligarcas. A nossa política é sempre de duas faces: uma face externa, civilizada, respeitadora dos direitos, e uma face interna, cruel, sem eira nem beira. A meu ver, isto é uma conseqüência do regime escravista que marcou profundamente a nossa mentalidade coletiva. O senhor de engenho, o senhor de escravos, por exemplo, quando vinha à cidade, estava sempre elegantemente trajado, era afável, sorridente e polido com todo mundo. Bastava, no entanto, voltar ao seu domicílio rural, para que ele logo revelasse a sua natureza grosseira e egoísta. Nós mantivemos essa duplicidade de caráter em toda a nossa vida política.

Quando foi feita a Independência, estava em pleno vigor, no Ocidente, a ideologia liberal, e, devido ao nosso complexo colonial, nós não podíamos deixar de ser liberais. Então, iniciou-se o trabalho de elaboração da Constituição, logo em 1823. E os constituintes resolveram instituir no Brasil um regime liberal, com a instituição de freios contra o abuso de poder. Evidentemente, isso foi contado ao Imperador, que imediatamente mandou fechar a Assembléia Constituinte. Mas, qual foi a declaração dele? “Darei ao povo brasileiro uma Constituição duplicadamente mais liberal.” Eles não perceberam a aberrante contradição: uma Constituição outorgada pelo poder que era duplicadamente mais liberal do que aquela que estava sendo feita pelos representantes do povo. Bom, essa Constituição não continha a menor alusão à escravidão e dispunha: “São abolidas as penas cruéis, a tortura, o ferro quente.” Porque todo escravo tinha o corpo marcado por ferro em brasa. Essa marca era dada desde o porto de embarque na África. Pois bem, apesar dessa proibição da Constituição de 1824, durante todo o Império nós continuamos a marcar com ferro em brasa os escravos. A Constituição proibia os açoites, mas seis anos depois foi promulgado o Código Criminal do Império que estabeleceu a pena de açoites no máximo de 50 por dia. E é sabido que essa pena só se aplicava aos escravos e, geralmente, eles recebiam 200 açoites por dia. Houve vários casos de escravos que morreram em razão das chibatadas recebidas. E, aliás, a pena de açoite só foi eliminada no Brasil em 1886, ou seja, às vésperas da abolição da escravatura.

Em 1870, para continuar essa duplicidade típica da nossa política, como vocês sabem, foi lançado o Manifesto Republicano, aqui no estado de São Paulo. Esse manifesto usa da palavra democracia e expressões cognatas – como liberdades democráticas, princípios democráticos – nada menos do que 28 vezes. Não diz uma palavra sobre a escravidão. E, aliás, o partido republicano votou contra a lei do ventre livre no ano seguinte ao manifesto, em 1871, e votou até contra a Lei Áurea. Em 1878, votou a favor da abolição do voto dos analfabetos. A Proclamação da República, todo mundo sabe, foi um “lamentável mal entendido”, para usar a expressão famosa de Sérgio Buarque de Hollanda. E, efetivamente, o Marechal Deodoro não queria a abolição da monarquia, queria derrubar o ministério do Visconde de Ouro Preto. Mas aí, no embalo, os seus amigos positivistas o convenceram que era melhor derrubar a monarquia. Pois bem, até 1930, nós tivemos a República Velha, que, como dizia meu avô, foi substituída pela República Velhaca. E, por que foi feita a Revolução de 1930? Todo mundo sabe. As fraudes eleitorais.

Hamilton Octavio de Souza – São Paulo e Minas que comandavam as fraudes.

Sim, pois é. Foi feita a revolução para isso. Sete anos depois o regime desembocou num golpe de Estado, que suprimiu as eleições. A autoproclamada “Revolução” de 1964 foi feita em nome de quê? Leiam os documentos: a ordem democrática. Hoje, é preciso dizer que não é só no Brasil, mas no mundo todo que a palavra democracia tem um sentido contraditório com o conceito original de democracia. O grande partido da direita na Suécia, que agora chegou ao parlamento sueco, pela primeira vez, um partido xenófobo e racista, chama-se Suécia Democrática. E, num certo país da América Latina, como todo mundo sabe, o partido mais à direita do espectro político chama-se como mesmo?

Hamilton Octavio de Souza – Se chama Democratas.

Então, esta é a nossa realidade. É dentro desse quadro que se pode e se deve analisar o processo eleitoral. Ou seja, nunca dar o poder ao povo, dar-lhe apenas uma aparência de poder. E, se possível, uma aparência festiva, alegre. Essa disputa eleitoral, que nós estamos assistindo, ela só interessa, rigorosamente, ao meio político. O povo não está, absolutamente, acompanhando a campanha eleitoral. Vai votar, maciçamente, na candidata de Lula, mas para ele não tem muito interesse essa campanha eleitoral. Então, as eleições, o que são? São um teatro. Oficialmente, os eleitos representam o povo. É o que está na Constituição. Na realidade, eles representam perante o povo, são atores teatrais. Mas, com um detalhe: eles não se interessam pelas vaias ou pelos aplausos do povo. Eles ficam de olhos postos nos bastidores, onde estão os donos do poder. É isso que é importante.

De modo que, para nós, hoje, é preciso deixar de lado o superficial e encarar o essencial. O que é o essencial? Como está composta, hoje, a oligarquia brasileira. E como eliminá-la. Como está composta a oligarquia brasileira? Obviamente, há um elemento que permanece o mesmo desde 1500: os homens da riqueza. Só que hoje eles são variados: os grandes proprietários rurais, os banqueiros, os empresários comerciais, os grandes comerciantes. Mas o elemento politicamente mais importante da oligarquia atual é o dos donos dos grandes veículos de comunicação de massa: a imprensa, o rádio e a televisão. O povo está excluído desse espaço de comunicação, que é fundamental em uma sociedade de massas. Ora, esse espaço é público, isto é, pertence ao povo. Ele foi apropriado por grandes empresários, que fizeram da sua exploração um formidável instrumento de poder, político e econômico.

Hoje, os oligarcas brasileiros já montaram em esquema que torna as eleições um simples teatro político. É claro que eles não podem, em todas as ocasiões, fazer um presidente da República, por exemplo. Mas eles podem – e já o fizeram – esvaziar o processo eleitoral, tirando do povo todo o poder decisório em última instância e transferindo-o aos eleitos pelo povo; eleitos esses cuja personalidade, na grande maioria dos casos, é inteiramente fabricada pelos marqueteiros através dos meios de comunicação de massa.

O único risco para a oligarquia brasileira (e latino-americana, de modo geral) é a presidência da República, porque a tradição latino-americana é de hegemonia do chefe do Estado em relação aos demais Poderes do Estado. Se o presidente decidir desencadear um processo de transformação das estruturas sócio-econômicas do país, por exemplo, ele porá em perigo a continuidade do poder oligárquico.

Ora, Luiz Inácio Lula da Silva já demonstrou que não encarna esse personagem perigoso para a oligarquia. Ele é o maior talento populista da história política do Brasil, muito superior a Getúlio Vargas. Mas um populista francamente conservador, ao contrário de Getúlio ou de Hugo Chávez, por exemplo.

Mas o que significa ser um político populista? Populista é um político que tem a adesão muitas vezes fanática do povo, que tem um extraordinário carisma popular, mas que mantém o povo perpetuamente longe do poder. O populista conservador pode até, se isso agradar ao povo, fazer críticas aos oligarcas, mas mantém com eles um acordo tácito de permanência do velho esquema de poder.

Ora, isto representa a manutenção do povo brasileiro na condição de menor impúbere, ou seja, de pessoa absolutamente incapaz de tomar decisões válidas. O populista é uma espécie de pai ou tutor, que trata os filhos com o maior carinho, enche-os de presentes, brinquedos, etc, mas nunca lhes dá o essencial: a verdadeira educação para que eles possam, no futuro, tomar sozinhos as suas decisões. É um falso pai. O verdadeiro pai existe para desaparecer. Se o pai não desaparecer, enquanto pai, alguma coisa falhou, uma coisa essencial, que é a educação dos filhos para a maturidade. O fundamental do líder populista é que ele mantém o povo muito satisfeito, mas num estado de perpétua menoridade.

Tatiana Merlino – Por que o senhor acha que ele supera o Getúlio Vargas?

Porque Getúlio Vargas tinha, teve, até o fim, uma oposição ferrenha, raivosa, não de partidos políticos, eles não existiam, mas dos grandes fazendeiros de São Paulo. Aliás, fizeram até uma revolução em 1932. Além disso, ele era autoritário, por convicção positivista: a chamada “ditadura republicana”. Lula não, ao contrário do que se afirmou em um desatinado manifesto recente. Ele tem horror à coação, à violência. Ou seja, ele é o avesso de Getúlio. Basta ler Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos, para se perceber que o regime militar de 64 não inventou nada. Foi uma reedição desse aspecto tenebroso de Getúlio.

Hamilton Octavio de Souza – Esse controle que o Lula exerce, como isso tem sido possível num país carente, com demandas seculares, desigualdade?

A mentalidade do Lula não é de raciocínio frio, ela é quase que toda dominada pela sensibilidade e a intuição. É por isso que ele tem lances geniais no desmonte da oposição. É um talento por assim dizer inato. E é por isso que todo esse pessoal do PT foi atrás dele, porque senão eles não subiriam, jamais. Não preciso dar nomes, mas nenhum deles tem o milésimo do talento político do Lula. Eles foram atrás e chegaram lá. Mas são todos infantis em política. Ao chegarem ao poder, procederam como a criança que nunca comeu mel: foram comer e se lambuzaram todos.

Mas, enfim, esse é o homem. Isso não significa que ele seja totalmente negativo. As boas coisas do governo Lula são mantidas por influência dos seus bons companheiros. E ele sabe ouvi-los, graças a Deus. Em matéria de direitos humanos, nós temos que reconhecer o trabalho admirável do Paulo de Tarso Vannuchi. Em matéria de educação, eu entendo que o Fernando Haddad fez um bom trabalho. Mas isso não compensa o lado extremamente negativo dos maus elementos que pressionam Lula. Sinto, por exemplo, que cede a tudo aquilo que o Nelson Jobim pede. Será preciso relembrar que, na véspera do julgamento da ação movida pelo Conselho Federal da OAB no Supremo Tribunal Federal sobre a abrangência da Lei de Anistia, Lula convidou todos os ministros do Supremo para jantar no Palácio do Planalto? Não é difícil imaginar o assunto que foi objeto de debate durante essa simpática refeição. Aliás, um ministro do Supremo Tribunal Federal me disse: “Comparato, você não imagina as pressões que nós recebemos…”

Tatiana Merlino – Do presidente?

Obviamente que do governo. Digamos que o Lula não tenha feito pessoalmente isso. Mas, ele também não pode ignorar que isto está sendo feito diante dele. Por acaso ele ignorava o esquema do mensalão?

Hamilton Octavio de Souza – A pressão é no sentido de se …

Dar anistia aos torturadores, assassinos e estupradores do regime militar, porque todos eles se declaravam defensores da ordem democrática. Logo após o golpe, em 64, eles se declaravam também defensores da civilização cristã.

Nesse ponto eu sigo o grande método da antiga Ação Católica: “ver, julgar e agir”. Que é, aliás, o método que nós procuramos seguir com os nossos alunos na Escola de Governo, aqui em São Paulo. Justamente, eu me esqueci de dizer que há 20 anos, juntamente com os amigos Maria Victoria Benevides e Claudineu de Melo, e também o saudoso professor Goffredo da Silva Telles Jr., nós criamos uma escola de formação de líderes políticos. No começo, procurávamos formar governantes. Hoje, nós tentamos formar educadores políticos. Pois bem, esse “ver, julgar e agir”, nós temos que utilizar para a situação política atual. Nós só podemos compreender a situação política atual, se tivermos a capacidade de enxergar por dentro as ações políticas, tanto do PT quanto do PSDB e dos demais partidos. E vamos perceber que há, como eu disse, um elemento que permanece incólume na vida política brasileira: é a oligarquia. Nós sempre vivemos sob regime oligárquico, pois o poder soberano sempre pertenceu à minoria dos ricos.

Tatiana Merlino – O senhor disse que as eleições não mudam nada a configuração da oligarquia. O senhor está se referindo às eleições de agora, ou de um modo geral?

De modo geral.

Tatiana Merlino – Como é possível mudar essa configuração?

Nós temos que saber como mudar e quais são os pontos fracos da oligarquia. Porque ela não existe no vácuo. Se ela se mantém, é porque o povo aceita esse estado de coisas. E por que o povo aceita? Em grande parte, porque ele acha que tem participação política através das eleições. Foi por isso, aliás, que o regime militar não as eliminou. Era preciso que o povo se sentisse participante e não mero espectador do teatro político.

Pois bem. Como é que nós podemos mudar isso? Nós temos que seguir dois caminhos convergentes. É preciso, ao mesmo tempo, transformar a mentalidade coletiva e mudar as instituições políticas.

O que significa mudar a mentalidade política? Ainda aí é preciso ver, julgar e agir. Nós temos uma herança de séculos, nas camadas mais pobres do povo, de servilismo e de dificuldade de ação comunitária. Nós sempre somos dispersos, disseminados, não sabemos agir por nós mesmo, e atuar em conjunto. Nós sempre aceitamos uma situação de dependência em relação aos que detêm o poder, esperando que esse senhor todo-poderoso seja benévolo e compreenda as dificuldades de povo. Durante séculos, mais de 80% da população brasileira vivendo no campo, este senhor foi o grande proprietário rural, senhor de escravos. Agora, com a urbanização, 80% da população brasileira é urbana, é uma inversão completa. Com a criação da sociedade de massas, foi preciso que esse poder se transformasse. Ele não é mais local e pessoal. É um poder geral e impessoal, de certa maneira invisível. Os “donos do poder” nunca entram em diálogo pessoal com o povo. Eles se servem do instrumental fantástico dos meios de comunicação de massa, para distração geral; para que o povo não pense em si mesmo e não enxergue o buraco em que está metido. Daí a intoxicação futebolística. Daí o fato de que a novela das oito na Globo ser protegida como um programa sagrado. Mas, concomitantemente, é preciso que exista uma liderança pessoal, e aí vem o populismo. Eu fico pensando que o advento do Lula em nossa vida política atual representou para os nossos oligarcas algo como ganhar o maior prêmio da megasena.

Cecília Luedemann – Depois do processo de redemocratização, com a entrada do PT no jogo político, e a transformação do Lula em alguém que poderia ser um Getúlio Vargas mais moderno, poderia ser um populista, foi feito um pacto capital e trabalho? É isso que nós estamos vendo hoje?

Hoje não existe mais organização do trabalho, o poder dos sindicatos é cada vez menor. Por outro lado, como disse, persiste nas camadas mais pobres do povo a mentalidade servil e a ausência de espírito comunitário.

Eu contesto essa palavra: redemocratização. Nós nunca tivemos democracia até hoje, porque democracia significa soberania popular, e soberania popular significa que o povo tem o poder supremo de designar os governantes, de fiscalizar a sua atuação, de responsabilizá-los, de demiti-los e de fixar as grandes diretrizes da ação estatal para o futuro.

É preciso ter instituições políticas para isso. Quais são? São várias. Qual é a lei maior? É a Constituição. A quem compete aprovar uma Constituição? Obviamente, a quem tem o poder supremo. Ora, o povo brasileiro nunca aprovou Constituição alguma. A Constituição atualmente em vigor já foi emendada, ou melhor, remendada até hoje 70 vezes. Em nenhuma dessas ocasiões o povo brasileiro foi chamado para dizer se concordava ou não com a emenda a ser introduzida na Constituição. É preciso começar, portanto, por dar ao povo o direito elementar de manifestar a sua vontade, através de referendos e plebiscitos. Ora, o que fizeram os nossos oligarcas? Puseram na Constituição, para americano ver, que referendos e plebiscitos são manifestações da soberania popular. Mas acrescentaram, em um dispositivo um tanto escondido que o Congresso Nacional tem competência exclusiva para “autorizar referendo e convocar plebiscito” (Constituição Federal, art. 49, inciso XV).

Como vocês veem, a nossa inventividade jurídica é extraordinária. Os deputados e senadores, eleitos pelo povo, são ditos seus representantes ou mandatários. Em lugar algum do mundo, em momento algum da História, o mandante deve obedecer ao mandatário. Bem ao contrário, este tem o dever de cumprir fielmente as instruções recebidas do mandante. Aqui, instituímos exatamente o contrário. O povo, dito soberano, só tem o direito de manifestar a sua vontade, quando autorizado pelos mandatários que escolheu…

Outro instrumento de verdadeira democracia, isto é, de soberania popular autêntica e não retórica, como a que sempre existiu no Brasil, é o recall, isto é, o referendo revocatório de mandatos eletivos. O povo que elege tem o direito de revogar o mandato do eleito, quando bem entender. Por exemplo, alguém se elege Prefeito e, antes de tomar posse, vai a cartório e lavra uma escritura pública pela qual se compromete a não renunciar ao cargo no curso do mandato. Dois anos depois, porém, renuncia ao cargo de Prefeito para se candidatar ao governo do Estado. Pois bem, se existisse entre nós o recall, tal como ocorre em nada menos do que 18 Estados da federação norte-americana, o povo daquele Município teria o direito de destituir o Prefeito que fez aquela falsa promessa.

Hamilton Octavio de Souza – Isso deveria entrar na reforma política que está sendo ensaiada há anos?

Pois, então, essa reforma política não se faz enquanto não se muda o centro de poder. Eu trabalhei seis anos no Conselho Federal da OAB. Isso que eu estou dizendo a vocês: desbloqueio de Plebiscito e de Referendos, facilitação de iniciativa popular, o recall, ou seja, o povo elege, o povo também institui… “Como é, senhor fulano, o senhor quando foi, se candidatou a prefeito e o senhor foi ao tabelião e fez uma declaração de que cumpriria o mandato até o último dia, depois o senhor, no meio do seu mandato de prefeito, o senhor se candidatou a governador do Estado. Pois bem, o senhor não merece a nossa confiança, vamos fazer um abaixo assinado para a realização de nova Consulta Popular. O senhor fulano de tal deve continuar exercendo cargo de prefeito? Não”. Ele é destituído. Isso se chama recall e existe em 18 estados da Federação Americana. Portanto, não se trata de uma manobra, de um instrumento revolucionário. E, aliás, Cuba não tem recall, como todo mundo sabe.

Hamilton Octavio de Souza – O senhor falou do povo ver reconhecidos os seus direitos. Como está esta situação dos direitos no Brasil? O que o senhor acha que funciona e o que não funciona?

Houve, sem dúvida, uma mudança nos últimos 30 anos, a partir do fim do regime militar. Mas, esse progresso é sempre lento, porque se faz sem organização. A função verdadeira dos partidos políticos deveria ser a formação do povo para que ele, povo, exercesse a soberania. É preciso, portanto, começar a criar outra espécie de partido político, que não persiga o poder para si, mas ajude o povo a chegar ao poder.

Nós temos no Brasil duas constituições. Pela Constituição oficial, “todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos, ou diretamente” (art. 1º, parágrafo único). Mas a Constituição real, a efetivamente aplicada, tem uma formulação diferente: “Todo poder emana dos grupos oligárquicos, que o exercem sempre em nome do povo, por meio dos representantes, por este eleitos”. Segundo ambas as fórmulas, o que conta é a impressão geral de que quem manda é o povo.

Hamilton Octavio de Souza – O senhor fala em formar novos partidos?

Exatamente. Hoje, no mundo inteiro, os partidos perderam a confiança popular. Li recentemente os resultados de uma pesquisa de opinião pública sobre confiança do povo em partidos políticos. Segundo essa pesquisa, no Brasil apenas 11% dos cidadãos confiam nos partidos. No mundo inteiro, ou seja, em 19 países onde foi feita a pesquisa, os partidos tinham a confiança de não mais do que 14% do povo. O que decorre, portanto, dessa pesquisa de opinião pública é que o povo passou a reconhecer que os partidos políticos agem em proveito deles próprios e não do povo. É indispensável e urgente, portanto, suscitar a criação de novos partidos políticos, com características verdadeiramente democráticas. Mas, isto é muito difícil, porque pressupõe uma mudança de mentalidade, o propósito de atuar politicamente em proveito do povo e não em benefício próprio.

Hamilton Octavio de Souza – O senhor falou em oligarquia, que nesse processo a oligarquia controla. O senhor chegou a dizer que a oligarquia é composta por empresários…

De militares também…

Hamilton Octavio de Souza – Militares, banqueiros e tal…

E do oligopólio empresarial dos meios de comunicação de massa. Ela conta, episodicamente, com o apoio episódico de algumas instituições, como por exemplo a Igreja Católica.

Hamilton Octávio de Souza – Essa oligarquia, aqui, vem conseguindo se manter com o poder, no Brasil, apesar das mudanças, mas é ela que continua ainda sendo… quer dizer, ela tem um comando, ela tem uma orientação, ela está ligada ao que se chama capital internacional?

Ela tem, evidentemente, uma orientação muito firme. Veja, por exemplo, os meios de comunicação de massa. Quando eu era jovem, alguns professores diziam: “Meninos, vocês têm que ler todos os jornais do dia.” Os jornais eram muito diferentes uns dos outros. Hoje, os grandes jornais dizem exatamente a mesma coisa, têm todos a mesma orientação. Só muda o estilo e muda cada vez menos. O estilo dos grandes jornais tende a ser o mesmo. As revistas: há revistas mais sensacionalistas, há revistas nojentas no que diz respeito à defesa de privilégios, todos nós conhecemos, não é? Mas, todas elas são fundamentalmente defensoras do sistema capitalista e da ausência de democracia autêntica. É óbvio. A rede televisiva controlada pela Igreja Universal do Reino de Deus, por exemplo, entrou recentemente em conflito com um grande jornal de São Paulo. Mas na defesa do sistema capitalista e do regime oligárquico, eles estão unidinhos.

Tatiana Merlino – Eu gostaria que o senhor falasse um pouco sobre a diferença entre os brasileiros e os outros países da América Latina que estão punindo os torturadores da ditadura. Por que o Brasil não consegue julgar esses torturadores da ditadura?

Porque nós somos dissimulados. Os hispânicos, em geral, são abertos e francos. A crueldade deles é aberta. A nossa é sempre dissimulada, sempre oculta, porque nós temos que dar uma aparência de civilização, de democracia… Nos países hispano-americanos, a repressão militar nunca foi escondida e eles tiveram o cuidado de pôr a justiça fora disso. Nós, não. Não só o Poder Judiciário continuou a funcionar normalmente, como a Justiça Militar, que em si mesma é hoje uma aberração, teve a sua competência ampliada. Então, quando houve a reviravolta no Chile, na Argentina, no Uruguai, todos os chefes de Estado do regime repressivo foram processados, julgados e condenados, além de dezenas de outros oficiais militares. No Brasil, em primeiro lugar, nem se sabe exatamente qual é a identidade de 90% dos torturadores, e, em segundo lugar, quanto aos grandes chefes militares é como se eles não soubessem nada disso, nunca ouviram falar de torturas. Vou mais além. No Brasil, os banqueiros e grandes empresários colaboraram claramente com o regime militar. Os banqueiros de São Paulo, como se sabe, fizeram uma reunião em São Paulo para angariar fundos para criar a Operação Bandeirante, que está na origem dos famigerados DOIs CODIs. Não passa pela cabeça de ninguém, hoje, infelizmente, que esses banqueiros são co-autores dos assassinatos, torturas e abusos sexuais de presos políticos, praticados no quadro da Operação Bandeirante e as operações policiais e militares que a sucederam.

Tatiana Merlino – O senhor disse que os casos no Brasil tem que ser denunciados, enfim, nas instituições internacionais. O STF interpretou que a Lei da Anistia anistiou os torturados. Esse caso pode ser levado para a Corte Interamericana de Direitos Humanos?

Ele já está sendo julgado.

Tatiana Merlino – Sim, mas com o caso da Guerrilha do Araguaia.

Sim, mas o caso do Araguaia é um aspecto do total. A Corte Interamericana de Direitos Humanos adiou o julgamento para novembro por causa das eleições no Brasil, para não dar a impressão de interferência nas eleições.

Hamilton Octavio de Souza – Pode haver uma condenação do Brasil nesta corte?

Sim. Aliás, o Estado brasileiro, os nossos dirigentes em geral, temem as acusações no exterior, porque isto porá a nu a nossa dissimulação no plano internacional. O Brasil quer sempre aparecer, na cena mundial, como um defensor intrépido das liberdades democráticas, da dignidade da pessoa humana, e até está aspirando a ser um dos membros permanentes do conselho de segurança da ONU.

Tatiana Merlino – Se o Brasil for condenado na Corte Interamericana de Direitos Humanos, quais as sanções que o Brasil vai sofrer?

Se a Corte Interamericana condenar o Brasil, ela vai exigir que seja revogada a Lei de Anistia de 1979, com a interpretação dada pelo Supremo Tribunal Federal. Mas o Brasil pode não cumprir essa exigência. E ficará, então, fora da lei no plano internacional. As consequências disso são indiretas, ou seja, isso vai ser levado em conta se o Brasil vier a pleitear, por exemplo, um cargo nas Nações Unidas, no Conselho de Segurança. Mas, não há um efeito direto.

De qualquer forma, isso certamente vai ser uma derrota política para a oligarquia brasileira. Há um projeto de lei da deputada Luciana Genro, interpretando a lei 6.683 de 1979, que é a Lei de Anistia. Então, é possível que eles digam: “Vamos aproveitar isso e dar uma nova interpretação, agora legislativa (ou seja, a chamada interpretação autêntica) para a Lei de Anistia.”

Isso, na melhor das hipóteses. Agora, se após essa reinterpretação da Lei de Anistia os criminosos do regime militar vão ser condenados, é outra história. A probabilidade de condenação antes de todos eles passarem desta vida para a melhor é praticamente nula.

Fonte: Caros Amigos – http://carosamigos.terra.com.br/

O poeta da razão

João Cabral de Melo Neto, um dos grandes poetas contemporâneos de Língua Portuguesa, construiu uma obra marcada por um estilo que beirava a poetas contemporâneos

Sergio Amaral Silva

Em seus últimos anos de vida, João Cabral de Melo Neto vinha sendo insistentemente apontado como forte candidato ao Prêmio Nobel de Literatura, escolha que inauguraria a ainda inédita galeria dos brasileiros laureados com o maior dos reconhecimentos literários. Perguntado por um jornalista se desejaria ganhar o Nobel, Cabral respondeu: “Quem é que não desejaria?” Realista, fez questão de acrescentar: “Mas não creio que haja possibilidade”. O poeta, que construiu toda sua obra privilegiando a razão, estava mais uma vez, coberto dela. Afinal, uma crítica frequente é a de que os critérios adotados para concessão do Nobel de Literatura, em geral, parecem não valorizar de forma adequada os aspectos estritamente literários, concentrando-se mais nos políticos. Seja como for, o fato é que em 1998 o primeiro (e até hoje, o único) Nobel concedido a um escritor de língua portuguesa coube ao lusitano José Saramago e, em 1999, ano da morte de Cabral, ao alemão Günter Grass. Como desde 1974 os estatutos da Fundação Nobel vedam os prêmios póstumos, o comitê responsável optou assim por deixar definitivamente de incluir, entre seus premiados, o nome do excelente escritor pernambucano.

A propósito, nas décadas de 1970 e 1980, houve vários debates sobre quem seria “o maior poeta brasileiro vivo”: João Cabral ou Carlos Drummond de Andrade (1902-1983). Desautorizando essa competição, Cabral dizia que era amigo de Drummond desde que se conheceram, no início dos anos 1940, tendo-o inclusive como padrinho de casamento. “Ele foi a grande influência da minha vida. (…) Nunca houve rivalidade entre nós. Sempre o tive como um mestre, de forma que não compreendo isto”, declarou em entrevista.

Cabral é classificado por alguns como “um poeta de poucas palavras e poucos assuntos”, numa definição que combina sua postura pessoal introspectiva e arredia à insistência quase patológica em alguns temas. Um dos mais importantes críticos literários brasileiros contemporâneos, Wilson Martins, sintetizou sobre a repetição temática do poeta: “A psicologia poética de João Cabral enquadra-se nas paralelas de duas séries de metáforas obsessivas, ambas de natureza mineral: a pedra e a água”.

De fato, são duas imagens bastante recorrentes na obra de Cabral. A pedra simboliza a aridez do Nordeste, ao mesmo tempo geográfica e humana. Com ela, o poeta arquiteta suas composições, sempre em busca da forma exata, com geometria, cálculo e clareza, como se fosse um engenheiro. A esse respeito, ele explicava: “Qual a influência? É difícil de dizer. Enquanto você vive, você é influenciado. Em geral, há uma influência essencial, definitiva, que marca a vida da pessoa. Nesse caso, eu posso dizer que filosoficamente foram os livros de arquitetura de Le Corbusier.”

arquitetura de Le Corbusier.” Quanto à água, além de aparecer como elemento de destaque em numerosos poemas, como em Imitação da água, pode-se considerar que entre os temas centrais de três livros que o poeta escreveu, O Cão sem Plumas, O Rio; e Morte e Vida Severina, estejam o rio de sua cidade natal, o Capibaribe, e os habitantes de suas margens, por sua vez fortemente condicionados por sua presença.

A poesia de João Cabral fala diretamente à razão, sua grande emoção consistindo em conter o derramamento lírico e resistir à ênfase, construindo textos descarnados, secos e objetivos. Segundo ele, respondendo aos inconformados com um poeta que não falava do amor, só se pensa em amor subjetivo ou voltado para o corpo. Em seus textos, entre a palavra concreta e a abstrata, fez uma escolha definitiva pela primeira. Embora essencialmente racional, sua poesia passa pelos sentidos, privilegiando a impressão concreta sobre a abstração. Sem renegar o lirismo (um atributo da alma), ele desprezava a lírica cantante, chorosa, os poemas feitos para serem declamados ao som da lira, até por não ter qualquer familiaridade com a música.

Apesar disso, impressionou-o fortemente o ritmo característico da Andaluzia, que motivou muitos de seus poemas. Recusava o verso livre e a forma irregular dos modernistas, preferindo trabalhar com métricas variadas, estrofes tradicionais e rimas toantes, mais sutis e discretas que as consoantes. Ele afirmou: “Para mim, esse negócio de inspiração não funciona. Sou incapaz de em uma sentada produzir um poema definitivo. Morte e Vida Severina, por exemplo, foi reescrito várias vezes. No mais, tenho o vício de leitura, que me coloca sempre como um severo autocrítico de minha obra.”

Curiosamente, no livro A educação pela pedra, Cabral incluiu o poema “Num monumento à aspirina”. Comparando o remédio ao sol, o poeta homenageou o paliativo que usava para suavizar a constante dor de cabeça que o acometeu diariamente, por anos. Chegou a declarar, em entrevista à televisão, que sua inspiração (sempre cerebral) provinha do comprimido, do qual tomava de três a dez unidades por dia.

Cabral costumava ficar muito irritado quando era tratado de poeta: “A coisa que me dá mais raiva é alguém me chamar de poeta. Chegam ao cúmulo de me escrever cartas endereçadas ‘ao poeta João Cabral de Melo Neto’. Tenho vontade de devolver tudo com um bilhete: ‘não é aqui’. Ninguém escreve ‘ao engraxate Fulano de Tal’ ou ‘ao romancista Jorge Amado!’ O funcionário da embaixada vem me entregar a carta e eu sinto aquele ar de ironia. Por que poeta? Poeta não tem isenção nenhuma. Nem imunidade.”

Outra curiosidade exemplifica sua personalidade singular: embora houvesse sido escolhido e fosse considerado membro da Academia Pernambucana de Letras, Cabral nunca compareceu como acadêmico a nenhuma sessão daquela Casa: nem sequer para tomar posse…

A exemplo do que já havia acontecido com dois outros grandes autores da literatura universal no século XX, o irlandês James Joyce (1882-1941) e o argentino Jorge Luís Borges (1899-1986), também eles ignorados pelo prêmio Nobel, João Cabral ficou cego para leitura. No seu caso, isso ocorreu por volta de 1992, aos 72 anos, ocasião em que praticamente encerrou sua carreira literária. “Um poema se faz vendo,/ um poema se faz para a vista,/ como fazer o poema ditado/ sem vê-lo na folha inscrita?”, perguntava nos raros versos datados de 1995, ainda inconformado com a cegueira. Apesar dessa grave limitação, o poeta não abandonou completamente os livros: até o fim da vida, costumava pedir à filha que lesse para ele.

OBRAS PUBLICADAS

Em sua sólida carreira literária, João Cabral escreveu e publicou os seguintes livros de poemas:

Pedra do Sono (1942)

Os Três Mal-Amados (1943)

O Engenheiro (1945)

Psicologia da Composição com a Fábula de Anfion e Antiode (1947)

O Cão sem Plumas (1950)

O Rio ou Relato da Viagem que Faz o Capibaribe de sua Nascente até a Cidade do Recife (1954)

Dois Parlamentos (1960)

Quaderna (1960)

A Educação pela Pedra (1966)

Morte e Vida Severina (1966)

Museu de Tudo (1975)

A Escola das Facas (1980)

Auto do Frade (1984)

Agrestes (1985)

Crime na Calle Relator (1987)

Primeiros Poemas (1990)

Sevilha Andando (1990)

Além da poesia, a obra de João Cabral é composta também por 5 livros de ensaios em prosa.

QUEM FOI JOÃO CABRAL DE MELO NETO?

Nascido no Recife em 9 de janeiro de 1920, João Cabral de Melo Neto era primo de Manuel Bandeira e Gilberto Freyre. Passou a infância e adolescência em engenhos de açúcar pernambucanos, conhecendo a literatura de cordel que influenciou toda sua obra. Em 1930, mudou-se com a família, do interior para a capital do Estado. Só então, aos 10 anos, iniciou seus estudos, no Colégio Marista. Aficionado por futebol, chegou a ser campeão estadual juvenil em 1935, jogando pelo Santa Cruz. Com 17 anos, trabalhou na Associação Comercial e em seguida, no Departamento de Estatística de Pernambuco. Aos 18, começou a frequentar a roda literária do Café Lafayette, onde entrou em contato com o realismo francês que, segundo ele, o marcou muito. Em 1940, no Rio de Janeiro, conheceu Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade e os intelectuais que se reuniam no consultório do médico e poeta Jorge de Lima. Em 1941, participou do Primeiro Congresso de Poesia do Recife. No ano seguinte, lançou seu primeiro livro de poemas, dando início a uma série de cerca de vinte volumes, ao longo de quase meio século. Ainda em 1942, no Rio, foi aprovado em concurso para trabalhar no DASP (Departamento de Administração do Serviço Público).

Em 1945, quando saiu seu segundo livro, Cabral prestou concurso para a carreira diplomática. Aprovado, iniciou seu trabalho no Itamaraty em 1946, sendo designado no ano seguinte vice-cônsul em Barcelona. Transferido para Londres, retornou ao Brasil em 1952, para responder a inquérito em que era acusado de subversão. Foi posto em disponibilidade sem vencimentos pelo Itamaraty, e cedido ao Ministério da Fazenda. Porém, recorreu ao Supremo Tribunal Federal e conseguiu anular a decisão, com o arquivamento do processo. Reintegrado, serviu no Departamento Cultural do Itamaraty de novo na Espanha, como cônsul adjunto em Barcelona e em Sevilha. Prosseguindo na carreira, trabalhou em Marselha, Genebra, Berna, Assunção, Dacar, Tegucigalpa e Quito, chegando a embaixador. Em 1978, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, na cadeira 37, cujo patrono é o poeta Tomás Antônio Gonzaga.

Dentre os numerosos prêmios e comendas que recebeu, pode-se mencionar os internacionais Camões (Brasil e Portugal) em 1990, considerado o maior prêmio para um escritor de língua portuguesa pelo conjunto de sua obra, Neustadt (Estados Unidos) em 1992 e Rainha Sofia (Espanha) em 1994. João Cabral morreu no Rio de Janeiro, em 9 de outubro de 1999.

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS.

Acadêmicos. João Cabral de Melo Neto. Disponível em http://www.academia.org.br.

CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA

João Cabral de Melo Neto, Nº 1 Instituto Moreira Salles, março de 1996

LITERATURA COMENTADA

João Cabral de Melo Neto Editora Abril, 1982

Fonte: Revista Língua – http://revistalingua.uol.com.br/

A Espanha vai mal

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Ignacio Ramonet

Acabou-se a paz social. A greve geral do passado dia 29 de Setembro contra a reforma laboral decidida pelo governo de José Luis Rodríguez Zapatero constitui a abertura de um período social provavelmente agitado.

O Governo prometeu apresentar ao Congresso, antes do final do ano, um novo projecto de lei que pretende elevar de 65 para 67 anos a idade legal de aposentação e aumentar o período de cálculo, para fixar a quantia da pensão, dos últimos 15 anos de vida activa para os últimos 20… Somado à reforma laboral e ao decretaço de Maio passado que baixou o salário dos funcionários públicos, congelou as pensões e cortou os gastos em obras públicas, este projecto faz crescer a ira das organizações sindicais e de boa parte dos assalariados.

De antemão, o primieiro-ministro apresentou as suas decisões como irrevogáveis: «No dia a seguir à greve geral – alardeou em Tóquio a 1 de Setembro – continuaremos com a mesma atitude». O que incita os sindicatos a prever já novas jornadas de protesto.

Na sua intransigência, o Executivo espanhol segue o modelo de outros governos europeus. Em França, apesar de três recentes mobilizações massivas contra a reforma das pensões, o presidente Nicolas Sarkozy reiterou que não modificará a lei. Na Grécia, seis greves gerais em seis meses foram ignoradas pelo primeiro-ministro Yorgos Papandreu.

Amparando-se no princípio de que, em democracia, a política se decide no Parlamento e não na rua, estes dirigentes eliminam o descontentamento de amplas categorias sociais obrigadas a recorrer à greve ou à manifestação de rua – expressões da democracia social – para reflectir o seu mal-estar específico [1]. Actuando desse modo, tais governos erram. Comportam-se como se a legitimidade eleitoral se impusesse sobre as demais formas de legitimidade e de representação, e em particular sobre a legitimidade da democracia social [2]. Em qualquer caso, essa atitude inflexível pode alentar as massas descontentes a recusar, numa segunda etapa, o diálogo social e a procurar um confronto frontal.

Sobretudo já que, desde Maio passado com o anúncio do brutal plano de ajuste, o fastio de uma parte importante da sociedade espanhola não parou de se exacerbar [3]. Entre os quase cinco milhões de desempregados, os trabalhadores precários, os jovens sem emprego, as mulheres assalariadas, os pequenos funcionários e as famílias de todos eles estende-se a convicção de que o Executivo os sacrificou.

Ao mesmo tempo, através do fundo de resgate bancário, o governo transferia para as instituições bancárias e de poupanças (responsáveis pela bolha imobiliária) até 90.000 milhões de euros… Não contemplava aumentar significativamente a tributação dos rendimentos mais altos, nem criar um imposto sobre as grandes fortunas, nem reduzir os orçamentos de defesa (uns 8 mil milhões de euros anuais), nem o financiamento da Igreja Católica (uns 6 mil milhões de euros), nem tão pouco a parte orçamental da Casa Real (quase 9 milhões de euros)…

O que inquieta muitos cidadãos é a certeza de que o Executivo adoptou essas medidas regressivas contra os assalariados, mais que por convicção, por ditado da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional. E por pressão dos mercados financeiros que, sob ameaça de não investir, exigem uma queda dos salários e uma redução do nível de vida. De facto, assim o reconheceu perante um grupo de investidores japoneses o próprio primeiro-ministro Zapatero: «Estamos a abordar – confessou – as reformas que mais preocupam os investidores internacionais» [4]. E perante os máximos directores dos principais bancos de negócios e fundos de investimento dos Estados Unidos, repetiu que essas medidas as adoptava «para que os investidores e os mercados valorizem a firme determinação que tenho de fazer com que a economia espanhola seja competitiva» [5].

A reforma laboral não tem nenhuma relação com o corte do déficit público nem com a redução dos orçamentos do Estado, principais exigências dos mercados financeiros. Mas como o governo não pode desvalorizar a moeda para estimular as exportações, decidiu favorecer a queda dos salários para ganhar em competitividade.

O pior é que tão desacertadas medidas têm poucas garantias de sucesso. Os dados do desemprego registados em Agosto passado, com a reforma já em vigor, demonstram que 93,4% dos contratos realizados foram temporários… Ou seja, a precariedade continua a dominar o mercado laboral. A única diferença é que agora, aos empresários, o despedimento resulta-lhes mais barato.

Depois da crise dos anos 1990, o desemprego demorou treze anos a reduzir-se para o nível médio europeu; numa época em que a taxa de crescimento era muito forte e Espanha recebia massivos fundos estruturais europeus. Hoje, com esta reforma laboral e com uma previsão de crescimento raquítico de longa duração, «o emprego em Espanha – segundo a economista estado-unidense Carmen Reinhart – não recuperará os níveis de 2007 até… 2017» [6].

Entretanto, rejeitado pelos seus próprios eleitores, este governo terá provavelmente perdido o poder e cedido a direcção do país à oposição conservadora e populista. Geralmente é o que ocorre – vimo-lo na Alemanha, no Reino Unido e, mais recentemente, na Suécia – quando os partidos de esquerda se renegam a si mesmos e optam por políticas vergonhosamente de direita.

[1] O voto democrático, precisamente por ser geral e universal, nem sempre permite a expressão de sensibilidades particulares.

[2] Leia-se Pierre Rosenvallon, “Le pouvoir contre l’intérêt général”, Le Monde, Paris, 21 de Setembro de 2010.

[3] Segundo uma sondagem recente do Centro de Investigações Sociológicas (CIS), o PSOE perde 3,1 pontos. Só 2,5% dos inquiridos diz que a situação económica é boa ou muito boa, face a 22,6% que a considera assim-assim e 74,4% que a define como má ou muito má.

[4] El País, Madrid, 1 de Setembro de 2010.

[5] Ibid, 21 de Setembro de 2010.

[6] Ibid, 12 de Setembro de 2010.

Fonte: Informação Alternativa – http://infoalternativa.org

As marcas da cidade: a dinâmica da pixação em São Paulo*

Alexandre Barbosa Pereira

O artigo tem como foco os pixadores na cidade de São Paulo. Trata-se de jovens que percorrem as ruas da cidade deixando inscrita em muros, prédios e viadutos a sua marca. Tal prática, porém, não é vista com bons olhos pela população paulistana, que vê na pixação uma forma de degradação da paisagem urbana. Aborda também o modo particular com que estes jovens se apropriam do espaço urbano pelo estabelecimento de pontos de encontro, os seus points. Os pixadores têm uma maneira de conceber o centro e a periferia de São Paulo que dialoga com a dinâmica da metrópole. Embora se identifiquem com a periferia de onde são oriundos, eles têm o centro como importante local de atuação. A pesquisa revelou como eles estabelecem relações de troca, aliança e conflito entre si na cidade.

Numa terça-feira do ano de 2003, caminhando pela Avenida Paulista próximo à Rua da Consolação, encontrei alguns pixadores conhecidos meus, Acusados, DML e Vital, que me convidaram para acompanhá-los ao seu pointna Rua Vergueiro1. Aceitei o convite e segui com eles. Disseram-me que planejavam passar por baixo da catraca do ônibus, sem pagar a passagem. Fomos até o ponto e perguntei se não era complicado passar por baixo da roleta na Avenida Paulista, se ali não era mais difícil conseguir a liberação do cobrador para viajar sem pagar. Eles responderam que não; era só intimar o cobrador e passar. Vital, o mais novo, ainda brincou comigo e disse que, em caso de resistência, eu, com a minha pasta, poderia dizer que roubei um banco e que "tava dando fuga" com o dinheiro e as armas, pois assim o cobrador "ficaria na moral".

Após um tempo de espera, embarcamos. Acusados foi o escolhido para ir à frente e pedir ao cobrador a liberação de nossa passagem. Começou com uma ardilosa encenação de humildade: falando baixo, com gestos contidos, simulando certa vergonha, pediu ao cobrador para "por favor" nos deixar passar por baixo. Tudo com muita educação. O cobrador respondeu que não. Ele insistiu. O diálogo ficou tenso; o cobrador levantou a mão e bateu na caixa onde guarda o dinheiro, dizendo: "Já falei que não vai passar e pronto". Acusados, então, não teve dúvidas em se desfazer do personagem subserviente. Mandou o cobrador abaixar a mão e disse que, se não quisesse deixar passar, tudo bem, mas que "não era pra levantar a mão para ele não!". Começou também a provocar, falando do brinco que o cobrador usava e passou a chamá-lo de "viado". Saímos do ônibus, e Acusados, antes de descer, parou na porta e insultou o cobrador um pouco mais.

Entramos em outro ônibus e, desta vez, DML foi o escolhido para encenar a humildade. Usou da mesma estratégia do colega Acusados, agindo de forma muito parecida. O cobrador ficou meio vacilante, disse que não podia, que tinha câmera no ônibus, fiscal disfarçado etc. DML falou que era só até a estação Paraíso, que nem sentaríamos nos bancos. Insistiu bastante até o cobrador, mesmo contrariado, permitir que viajássemos sem pagar. Passamos todos por baixo da catraca. Em seguida, DML deixou um pouco a humildade de lado e, em solidariedade ao cobrador, disse em voz alta que, caso houvesse mesmo algum fiscal no ônibus, era para vir "trocar ideia"! Que eles "dariam um jeito" nele. Fomos para o fundo do ônibus. Uma senhora, visivelmente assustada, prestava atenção em nossa conversa. Vital, para provocar, ainda brincou comigo mais uma vez, perguntando-me se o dinheiro e as armas estavam na minha bolsa. Rimos, mas a senhora ficou ainda mais assustada.

No restante da viagem pela Avenida Paulista, eles falaram do preço absurdo da passagem de ônibus (na época, R$ 1,70) e, como não podia deixar de ser, de pixação. Na hora de descer, todos agradecemos ao cobrador e lhe desejamos um bom trabalho. Seguimos para o point da Vergueiro o mais importante de então onde pixadores de diversas regiões da cidade se encontrariam.

Minha pesquisa de campo com os pixadores aconteceu fundamentalmente entre os anos de 2001 e 20052. Ela se deu em várias etapas, a principal delas constituiu-se da observação de campo nos seus points, o da Rua Vergueiro em particular. No percurso feito durante a etapa de pesquisa, também participei de festas, fui à casa de alguns adeptos da pixação, percorri as lojas do piso inferior da Galeria do Rock3 que vendem produtos ligados à pixação (como vídeos, tintas spray, revistas e álbuns de figurinhas), realizei entrevistas com vinte jovens e segui com eles, algumas vezes, em seus rolês4 pela cidade. Se os pixadores encontram-se no centro de São Paulo para pixar e para tecer redes de sociabilidade, é na periferia que a maioria deles mora e forma seus grupos de pixo. Dessa maneira, a cidade com as suas centralidades e com as suas periferias foi o campo principal de observação da pesquisa.

Este artigo está organizado em três partes. Na primeira, discute-se o modo como se configura a dinâmica da pixação em São Paulo: as motivações suscitadas, como ela se relaciona com outras manifestações juvenis e a conformação de um circuito dos pixadores na cidade. A segunda parte aborda dois aspectos relevantes da conduta dos pixadores, o da transgressão e o do risco, que não remetem nem direta, nem necessariamente, ao vandalismo e à criminalidade. Por fim, na última parte do artigo, trata-se do modo pelo qual os pixadores articulam-se na cidade e que nos faz pensar melhor os centros e as periferias de São Paulo. Como veremos, se olhar para a cidade nos faz entender um pouco mais os pixadores, olhar para os pixadores também nos ajuda a compreender um pouco mais a cidade. O artigo apresenta, portanto, dois argumentos centrais, a saber: 1) do estudo das dinâmicas da pixação na cidade pode-se compreender, de modo específico, faces da dinâmica da relação urbana centro-periferia na São Paulo contemporânea; 2) essa inversão de perspectiva, que privilegia a pesquisa empírica ao debate normativo, questiona a figuração de senso comum baseada na associação direta de pixação e vandalismo.

O estilo da pixação em São Paulo

A pixação em São Paulo, ou o "pixo", como seus autores costumam também chamá-la, é uma manifestação estética de parte da população jovem das periferias. Trata-se da grafia estilizada de palavras nos espaços públicos da cidade que se referem, quase sempre, à denominação de um grupo de jovens ou ao apelido de um pixador individual. Essa pixação possui um formato bastante peculiar: com traços retos e angulosos, ela diferencia-se do que seria o estilo norte-americano de pixação, designado tag, cujo formato arredondado lembra mais uma rubrica5.

Ao lado do pixo principal, esses jovens deixam outra inscrição: o símbolo da grife a qual pertencem.

A grife, como o próprio nome sugere, é uma espécie de etiqueta, um acessório que valoriza o pixo. Trata-se de uma modalidade de aliança de grupos de pixadores, por isso não se pixa seu nome por extenso, mas o seu símbolo ao lado da pixação principal. Uma grife congrega diversos grupos de pixadores com diferentes alcunhas. Fazer parte de uma possibilita expandir as relações de troca pela cidade, constituindo, assim, uma rede de grupos de pixadores. Porém, nem todos os indivíduos que pertencem a alguma grife se conhecem devido ao grande número de pixos que podem estar a ela associados. Os pixadores que integram uma mesma grife devem, no entanto, prestar algumas obrigações recíprocas. A mais fundamental é elevar a popularidade da grife, ou seja, espalhar o seu símbolo pelo maior número de locais da cidade. Para garantir que isto seja cumprido, uma das exigências para se ingressar em algumas grifes é já ter certa notoriedade, o que significa já estar inserido no mundo da pixação e com muitas marcas pela cidade. Dessa maneira, os pixadores elevam o prestígio de seu pixo por estarem associados a uma grife e esta, por sua vez, consegue uma maior divulgação. Outros deveres daqueles que ingressam numa grife são o de reverenciar os pixadores daquela aliança que já morreram, mesmo sem tê-los conhecido, e também o de ser inimigo dos pixadores das grifes adversárias. Há uma grande rivalidade e muitos conflitos entre algumas grifes de pixadores.

Em São Paulo, a pixação estabelece uma relação bastante complexa com outra manifestação estética, o grafite. Enquanto em outras cidades do mundo o que aqui se denomina pixação é apenas um estilo dentro do grafite, na capital paulistana ela é vista por uns como o seu oposto o grafite é entendido como arte enquanto ela é considerada sujeira e poluição visual e, por outros, como um estágio inferior do grafite, que seria o patamar mais alto dessa forma de expressão. Por conta dessa aversão à pixação, principalmente pelo poder público e pela imprensa, os grafiteiros conseguiram adquirir até certa notoriedade junto à mídia e à população. Atualmente, muitos deles são contratados para realizar seus trabalhos em portas e fachadas de comércios, escolas e equipamentos públicos como forma de combate e prevenção à pixação. Além daqueles que têm seus trabalhos expostos em importantes galerias de arte da cidade. Contudo, conforme já afirmamos, a pixação e o grafite estabelecem relações que não podem ser resumidas nas fórmulas: grafite versus pixação ou grafite como evolução da pixação. Há momentos entre essas duas manifestações estéticas de maior associação e outros de maior diferenciação.

Os points ajudam a entender muito do modo pelo qual os pixadores se apropriam da cidade. Há vários pontos de encontro de pixadores em São Paulo, mas o mais importante deles é o central. Por conta da repressão policial a esses encontros, ele já teve pelo menos três endereços: o Largo da Memória, no Vale do Anhangabaú, as imediações do Centro Cultural São Paulo e, desde 2005, o entorno da Galeria do Rock e da Galeria Olido, em frente ao Largo do Paissandu todas localidades centrais da cidade de São Paulo.

Os pixadores são, em sua maioria, jovens moradores de bairros periféricos de São Paulo e o seu point central constitui um espaço de encontro de indivíduos de diferentes regiões. Sua localização na região central da cidade deve-se justamente ao fato de esses jovens virem da periferia. O centro é um lugar estratégico por ser um ponto de convergência e também um espaço de passagem para todos. Da mesma forma, ele é estratégico para o próprio ato de pixar o espaço urbano: "dá mais ibope pixar no centro, pois é por onde passam pixadores de todos os lugares", afirmaram-me muitos deles. Em outras palavras, aquele que deixar sua marca nos muros e edifícios das áreas centrais de São Paulo obterá maior visibilidade e, consequentemente, maior notoriedade junto aos seus pares. Na pixação, quem pixa no maior número de lugares, em pontos de maior destaque e em lugares mais arriscados consegue mais status dentro do circuito dos pixadores.

No point central, os pixadores tecem uma vasta e complexa rede de relações de reciprocidade que se expande por toda a região metropolitana de São Paulo. Relações que geralmente se iniciam por uma prática bastante peculiar: a troca de folhinhas. Essa troca é o modo pelo qual jovens que não se conhecem no point podem estabelecer um primeiro contato. Um pixador, geralmente mais novo, aproxima-se de outro, pergunta "o que ele lança", "de qual quebrada ele é"6 e, enfim, pede para que ele assine uma folhinha. O outro, se for da mesma geração deste7, além de assinar a folhinha, solicita uma retribuição e também pede para o primeiro assinar uma folhinha para ele. As folhinhas são folhas de papel com dobras que demarcam linhas, nas quais eles pedem para que os colegas deixem a sua pixação escrita. Elas são colecionadas em pastas e aquele que juntar mais consegue também maior destaque e reconhecimento no circuito da pixação. As folhinhas dos pixadores mais famosos e mais antigos no ofício são as mais valorizadas. Além das folhas de papel, cadernos e agendas são outros suportes utilizados para as assinaturas. A coleção de assinaturas de pixadores constitui um acervo em que suas inscrições, tão efêmeras na cidade, conseguem uma permanência maior, constituindo para muitos deles uma memória da pixação e da própria juventude.

A partir da troca de folhinhas, outras relações de reciprocidade são acionadas. O point é um lugar para se divulgar festas de pixação que ocorrem nos bairros da periferia e produtos ligados à pixação, como vídeos e álbuns de cromos de pixos. Contudo, a principal relação que ali se mobiliza diz respeito às alianças entre os pixadores e ao próprio deslocamento dos pixadores pela cidade. Ao encontrar com pixadores de outras regiões da cidade, distantes do seu local de moradia, eles estabelecem uma dinâmica em que combinam entre si para um acompanhar o outro em pixações nos seus respectivos bairros. O point é um espaço para se fazer um rolê nas quebradas de outros pixadores. Isto permite o acesso a um bairro desconhecido com maior segurança e ainda garante que a pixação seja inscrita no maior número possível de lugares da cidade, o que lhe confere notoriedade. As alianças com outros pixadores para se fazer um rolê em outras quebradas não impede, entretanto, que muitos deles dirijam-se sozinhos a outras regiões da cidade, pois não há uma demarcação de territórios onde um grupo ou outro não possa pixar8. Além disso, quanto mais longe de seu bairro de origem um pixador conseguir chegar e deixar sua marca, maior status ele obterá entre os pares. Para os pixadores paulistanos, não é bem visto alguém que atue apenas nas proximidades de onde mora; é preciso ir para longe, pixar no centro da cidade e em outros bairros distantes para ser considerado um "pixador de verdade"9.

Essa relação com o espaço urbano faz com que os pixadores estabeleçam um modo bem particular de deslocamento pela cidade, pois, em um primeiro momento, há os trajetos dos pixadores de seus bairros na periferia para os seus encontros no point e, em um segundo momento, a partir dos contatos feitos com jovens de outros bairros no point, há os deslocamentos para outros bairros da periferia para pixar ou para participar de alguma festa de pixação.

Além dos points e das festas que acontecem na periferia, outros pontos importantes de encontro de pixadores em São Paulo, mas que não são exclusivamente deles, são as pistas de skate; o piso da Galeria do Rock que concentra ainda as lojas de produtos ligados ao hip-hop e à estética afro sem falar nos shows e nos eventos dehip-hop e de grafite. Todos esses espaços e eventos configuram uma parte do circuito dos pixadores na cidade que, como se pode perceber, perpassa práticas das quais muitos pixadores também são adeptos, como o skate e o hip-hop. Dessa maneira, pode-se afirmar que o circuito dos pixadores em São Paulo dialoga com outros circuitos ou faz parte de um circuito maior, pois ele se insere em dinâmicas que remetem a um estilo de se vestir e de se portar considerado jovem e denominado usualmente como "cultura de rua".

A transgressão pelo risco

Entre os pixadores, o que demonstra ter bastante importância é a dinâmica de criação dos riscos para se produzir excitação, expressas como anseio por adrenalina. Por isso, aquele que realiza a maior proeza e enfrenta os maiores desafios consegue maior reconhecimento. No entanto, é importante observar como esta questão configura-se entre os próprios pixadores, a partir de suas práticas na cidade. Ao invés da noção de delinquência, o melhor termo para analisá-los seria o da transgressão, pois há uma valorização desta ideia e de certa postura marginal, que está presente em diversos momentos de seu cotidiano e não apenas no ato da pixação. O fato de sempre tentarem passar por baixo da catraca do ônibus, o consumo de drogas (principalmente maconha, cola e solventes) são formas de desafio às regras. Há também aqueles que praticam furtos. Esta é, aliás, uma das formas encontradas por alguns para conseguir as latas de tinta spray, seja furtando-as diretamente em lojas de tinta, seja pelo dinheiro conseguido por meio de furtos de pequenos objetos (pilhas, aparelhos de barbear, cosméticos, entre outros) em supermercados e vendidos no centro da cidade. Embora nem todos os pixadores admitam praticar furtos, menções a estes apareceram algumas vezes em suas conversas nos points. Eles se referem a esta prática pelo seu artigo no código penal, o 155. Criou-se até uma grife exaltando o furto, a Love 155.

Há, portanto, um flerte com a criminalidade, que para alguns se encerra nestas ações consideradas leves. Para outros, no entanto, tais atos podem transformar-se em uma participação efetiva em crimes mais graves, como o narcotráfico e os assaltos à mão armada. O modo como a polícia procede com eles nas ruas quase sempre com violência acaba por tornar a opção pela criminalidade ainda mais atraente. Os pixadores relatam muitos casos de agressões verbais e físicas. Quando são flagrados pixando, o mais comum é terem os seus corpos pintados com suas próprias tintas. Poucas vezes, no entanto, são presos. Neste contexto, desafiar ou enganar a polícia, ainda que não seja diretamente por causa da desigualdade de forças, é apontado por eles como um grande fator de motivação para a prática da pixação.

Embora a questão de um certo desacordo com a ordem econômica e política estabelecida apareça de modo bastante vago, as transgressões realizadas por estes jovens, em alguns momentos, adquirem também um caráter contestatório. Muitos afirmam protestar por meio da pixação; poucos, entretanto, sabem dizer claramente contra o quê. Contudo, esta noção de contestação parece representar a ideia de que eles agem de forma negativa, indo contra as regras que regem a vida em sociedade, justamente para mostrar como as coisas estão erradas, como eles não têm oportunidades etc. Por outro lado, esta também se torna uma maneira de justificar suas ações, tão mal vistas pelo restante da população. Ao se afirmarem como protestos, suas ações podem passar a fazer mais sentido para parte dos cidadãos paulistanos. Por isso, ao lado de algumas pixações surgem frases com conteúdo mais político e escrito de maneira legível para a compreensão de quem não pertence à dinâmica, tais como: "ajudando a destruir um país malgovernado" ou "só paro de pixar quando os políticos pararem de roubar". Contudo, o que fazem, muitas vezes, é dizer que todos praticam crimes no país, mas apenas eles são condenados. Assim se posicionam quando são acusados de vândalos, como se sua prática fosse um mal menor se comparada aos outros problemas do país como os políticos corruptos, exemplo sempre levantado. Quando são entrevistados por jornalistas, eles articulam esse discurso do protesto muito bem.

Outra expressão desta relação dos pixadores com a transgressão refere-se aos próprios nomes dos grupos dos pixos, que apontam para algumas regularidades analíticas. Em grande parte, o conteúdo expresso nas marcas pixadas remete a temáticas associadas à transgressão e à marginalidade. Em alguns casos, incorporam-se adjetivos com os quais o senso comum, a imprensa e mesmo o poder público costumam designá-los: vândalos e delinquentes. Essa forma como são tratados em geral também acaba por reforçar a afirmação de uma postura marginal e transgressora. Pode-se perceber, nas denominações das pixações, três grandes conjuntos temáticos: a criminalidade, a sujeira e a loucura, esta última associada às drogas ou ao próprio ato de pixar10.

Além da transgressão e da marginalidade, outra possibilidade de interpretação é a apresentada por Angelina Peralva (2000), que tenta explicar o ingresso de parte da juventude no narcotráfico e na prática do surfe ferroviário11 no Rio de Janeiro a partir da ideia de risco. Segundo esta autora, esses jovens, pobres em sua grande maioria, estariam mais submetidos aos riscos urbanos e, em especial, aos da violência. Por esse motivo, as condutas de risco poderiam se apresentar como forma de resposta ao próprio risco. Segundo Peralva, isto decorreria do fato de já haver uma familiaridade com o risco. No caso dos pixadores, entretanto, a conduta de risco constitui também outra maneira de transgredir, pois o que eles querem é ir além do que as regras impõem e desafiar os perigos. O risco, aliás, parece ser a principal transgressão que estes jovens procuram. Não por acaso, quem pixa em lugares de maior dificuldade, seja pela altura, seja pela vigilância, adquire maior notoriedade.

Para se entender por que esses jovens infringem as normas e buscam como o risco de escalarem edifícios altos, de serem pegos pela polícia e mesmo assassinados por um segurança particular é preciso retomar a principal característica da pixação: a efemeridade. Esta parece ser o maior obstáculo que desejam superar com suas pixações pela cidade. De forma paradoxal, eles tentam imortalizar seus nomes em um suporte extremamente efêmero que é a paisagem urbana. Enquanto fixam suas marcas com letras estilizadas à procura "da fama por outros meios", como costumam afirmar, a cidade tenta arrancá-las da paisagem. As coleções de folhinhas aparecem, nesse sentido, como uma forma de fazer com que os seus pixos permaneçam e não sejam apagados da memória.

Muito mais do que fugir da condição de anônimo, eles querem a permanência de seus nomes para que seus colegas possam admirá-los. Assim, os pixadores aproveitam-se do anonimato proporcionado pela metrópole para estampar seus pseudônimos pela cidade e tornarem-se conhecidos entre os seus pares, sem, no entanto, deixarem de ser anônimos para o restante da cidade. Nos muros, nos prédios, no grupo de amigos, nas revistas e na televisão, nas pastas com as folhinhas, nas histórias das aventuras, o que se busca é uma continuidade, algo que vença a efemeridade característica da pixação e que permita que a sua marca possa ser apreciada por futuras gerações de pixadores. Porém, para eles próprios, a pixação também é algo passageiro em suas vidas. Nenhum deles quer realmente continuar correndo riscos por muito mais tempo. Embora haja pixadores que já chegaram à faixa dos 30 anos, eles são exceções e, em sua maioria, ou não pixam mais, ou pixam com frequência muito menor que os mais novos e, mesmo assim, em lugares que não ofereçam grandes ameaças. A maioria dos mais velhos apenas goza do fato de ter começado a pixar há muito tempo e de, por isso, possuir grande admiração e respeito por parte dos pixadores.

Periferias no centro

No centro de São Paulo, todas as noites, uma vez por semana, jovens de diferentes bairros da periferia de São Paulo encontram-se e articulam um espaço de trocas pautado pelas regras da pixação e por determinados elementos que podem ser atribuídos como sendo característicos de determinados segmentos, majoritariamente juvenis, de moradores da periferia paulistana. "De qual quebrada você é?"; esta é uma das primeiras perguntas que um pixador faz a outro que ainda não conhece. Isto mostra, logo de início, que ser de alguma quebrada é um fator importante ali. Esse termo evoca uma identificação com o espaço da periferia, ou com a representação que estes jovens constroem deste espaço. A quebrada remete ao risco, à violência e à carência, mas também ao sentimento de pertencimento e às relações de solidariedade e companheirismo.

A identificação mais ampla que muitos grupos juvenis têm estabelecido com a periferia faz com que esta, e consequentemente a noção de quebrada, torne-se uma categoria mais ampla que alude à força e à coragem daqueles que dela fazem parte. Magnani (2006) relaciona esta apropriação do conceito de periferia com o movimento descrito por Marshall Sahlins, no qual os atores sociais assumem a cultura como elemento de afirmação e resistência, ao mesmo tempo em que a problematização desse conceito é feita pelos antropólogos. O discurso dos rappers sobre a periferia, por exemplo, deixa o foco no estigma um pouco de lado e direciona sua atenção mais ao pertencimento do que à carência.

Ao se reconhecerem como moradores de bairros considerados quebradas, os pixadores diminuem a distância entre eles, o que propicia contato e trocas. A periferia para eles ultrapassa a referência espacial, torna-se um modo de proceder na cidade em que se deve ter algumas referências comuns, dominar certos códigos tidos como próprios dos seus moradores. Assim, mesmo que um pixador more no bairro de Vila Joaniza, na zona sul, e outro em São Mateus, na zona leste, eles estarão ou se sentirão próximos por serem ambos moradores de quebradas. Percebem-se, então, dois movimentos. O primeiro refere-se a uma universalização desta noção que incorpora a representação da periferia, pois ser de alguma quebrada é morar na periferia da cidade e, portanto, partilhar certos valores comuns. É justamente por conta dessa universalização que a defesa de um território não demonstra grande força na prática cotidiana dos pixadores. Já o segundo movimento trata de uma particularização dessa mesma ideia que valoriza o bairro em que se mora. Quebrada, segundo essa percepção, refere-se ao seu próprio bairro, ao seu "pedaço", conforme a categoria elaborada por Magnani (2000) ao abordar as relações de sociabilidade em bairros da periferia de São Paulo. Nessa acepção, o pixador identifica-se primeiro com o indivíduo que mora no seu pedaço, na sua quebrada, mas sem perder a identificação com os moradores de outras quebradas. Assim, ser de uma quebrada significa pertencer a um bairro específico e fazer parte de uma rede de relações particularizadas, mas também significa ser da periferia de São Paulo e estar inserido em uma rede mais geral de relações.

Esses dois movimentos estão sempre atuando simultaneamente na concepção de quebrada, corrente entre os pixadores. Um valoriza o bairro, o local de moradia, portanto, restringe. O outro universaliza, explicitando uma condição comum: a de moradores dos bairros pobres da periferia, que, neste caso, aponta para uma reversão de estigma, pois se torna valor positivo. Há, entretanto, um receio entre os pixadores dessa valorização da quebrada apenas como bairro onde se mora. Ocorre certo mal-estar quando há uma sobrevalorização da própria quebrada, principalmente quando se aponta para uma rivalidade com outras regiões ou bairros da cidade. Eles, de certa maneira, tentam evitar as disputas que tenham o território e a defesa deste como referência. Quando a valorização do bairro acontece, é de maneira velada e sutil.

Com a valorização da noção de periferia12 entre os pixadores inspirada em grande parte pelo movimento protagonizado pelo hip-hop pode-se perceber nos encontros do point a criação de uma lógica em que não ser da periferia torna-se um elemento de pouco ou nenhum prestígio. Esse fato pode ser comprovado pelo modo como os jovens mais abastados que ingressam na pixação tentam disfarçar sua origem social, escondendo o seu local de moradia ou incorporando certo estilo periférico de se vestir que alude, em grande medida, ao estilo hip-hop. Com isso, periferia passa não apenas a ser uma categoria espacial, como também uma categoria identitária que faz referência à pertença de classe, mas que não se restringe a esse fator. Categoria que também traz consigo modos particulares de se portar e de se relacionar com os pares da periferia.

Um dos elementos relacionais importantes neste contexto e que é bastante forte entre os pixadores é a questão da humildade. Em diversos momentos os pixadores ressaltavam a sua importância. Sobre o estabelecimento de contato inicial com outro pixador no point, diziam, é preciso "saber chegar na humildade". Uma pessoa considerada portadora de humildade é tida como de grande valor entre eles. Porém, não se é humilde quando se rebaixa ao outro, mas quando não se age com superioridade e arrogância. Curiosamente, por meio de uma prática em que se destacar e aparecer mais do que os outros é a regra, os pixadores têm na valorização dessa noção própria de humildade um modo de garantir as relações de troca e aliança que estabelecem em meio às rivalidades e conflitos suscitados pela competição no mundo da pixação.

Entretanto, a humildade para os pixadores pode aparecer com formas e significados diferentes. No instante em que entram em contato com outros personagens da cidade, quando parados pela polícia ou quando precisam viajar de ônibus sem pagar, eles põem em prática, com humildade e com certa subserviência, o modo mais adequado para se portar com esses atores sociais detentores de algum poder. Nesses casos, adota-se uma estratégia para não ser punido ou para se conseguir certos benefícios; trata-se, pois, de uma humildade dissimulada. Na relação com autoridades de menor poder, ou que não detêm o monopólio legítimo da coerção física, a humildade como subserviência pode ser usada como uma estratégia inicial para a obtenção de determinados fins, mas, assim como na relação entre eles, a conduta humilde pode ceder lugar a uma atitude de confronto. Entretanto, eles não assumem que a postura adotada com esses personagens seja a de humildade, pois o que entendem por esse termo apenas se concretiza entre os iguais, entre eles que são pixadores. Tem-se, então, a outra forma de manifestação da humildade, do modo como ela realmente é entendida no contexto da pixação.

Deve-se destacar, contudo, que a valorização da noção de humildade não é exclusividade dos pixadores, mas um elemento muito suscitado por outros grupos juvenis ligados à periferia, como o hip-hop e as torcidas organizadas, mas também no mundo prisional13. A humildade, na verdade, faz parte de um tríptico em que estão presentes, além dela, as ideias de lealdade e de proceder, constituindo um preceito bastante citado entre grupos cuja composição é majoritariamente da periferia da cidade14. A noção de proceder remete a dois significados: o de procedência (de origem, de proveniência) e o de procedimento (de modo de portar-se, enfim, de comportamento). Pode-se afirmar que estes dois sentidos da palavra proceder estão presentes no uso feito pelos pixadores e por estes outros grupos. Assim, para eles, o proceder refere-se a normas de procedimento permeadas por noções de procedência social. Neste sentido, agir com humildade é um procedimento valorizado pelos pixadores em seu circuito e demonstra que aquele que o faz seja considerado alguém que detém proceder, que conhece os códigos e sabe estabelecer relações.

As dinâmicas da relação com a periferia como espaço mais geral de articulação que extravasa o bairro particular e as regras de procedimento relacionais afetam o próprio modo da pixação paulistana, pois, para esses jovens, sair para pixar em outras regiões da cidade é muito mais interessante do que apenas pixar em seu próprio bairro. Para eles, inclusive, é no momento em que deixam de atuar apenas na quebrada onde moram e saem para pixar em outras quebradas, ou mesmo no centro da cidade, que se tornam pixadores de verdade. Quando indagados sobre o ano em que iniciaram, a maioria deles apresenta duas datas, aquela em que começou no bairro de uma forma mais localizada e menos intensa e a data de quando "realmente" iniciou-se na pixação; ou seja, de quando saiu para pixar em outras quebradas, em outras partes da cidade, que não a região próxima ao local de moradia. Desse modo, a pixação em São Paulo não funciona como demarcadora de um território específico, onde outros grupos não podem entrar.

Circular pela cidade e deixar sua marca é a regra principal da pixação. No entanto, é difícil afirmar que os pixadores sejam desterritorializados, conforme apontam muitos estudos sobre grupos juvenis inspirados por autores como Deleuze e Guattari (1997) ou Maffesoli (2001). Na verdade, a partir desta valorização da periferia como categoria de pertencimento e de reconhecimento, pode-se dizer que os pixadores são hiperterritorializados, pois, mesmo em seus encontros no point do centro da cidade, são as relações concebidas sobre e na periferia que estão sendo postas em ação. E nessa dinâmica da pixação, a periferia aparece, simultaneamente, como una e múltipla. Dessa forma, pode-se afirmar que, se toda desterritorialização implica uma reterritorialização em outros termos, conforme apontam Deleuze e Guattari, os pixadores, ao percorrerem a cidade para os encontros nospoints, para ir às festas ou mesmo para deixar sua marca em um muro, estão em um processo constante de reterritorialização da periferia. A pixação é nômade; os pixadores, não.

Referências bibliográficas

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. 1997. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Rio de Janeiro: Ed. 34, vol. 5.       

MAFFESOLI, M. 2001. Sobre o nomadismo: vagabundagens pós-modernas. Rio de Janeiro: Record.        

MAGNANI, J. G. 2000. "Quando o campo é a cidade: fazendo antropologia na metrópole". In: MAGNANI, J. G. C.; TORRES, L. L. (orgs.). Na metrópole. São Paulo: Edusp/Fapesp.        

_____. 2006. "Trajetos e trajetórias: uma perspectiva da antropologia urbana". Sexta-Feira, nº 8, São Paulo: Ed. 34, pp. 30-43.   

MARQUES, A. 2007. "Da ‘bola de meia’ ao triunfo do ‘Partido': dois relatos sobre o ‘proceder’". Ponto urbe: revista do Núcleo de Antropologia Urbana da USP, São Paulo, ano 1, versão 1.0, julho.       

PERALVA, A. T. 2000. Violência e democracia: o paradoxo brasileiro. São Paulo: Paz e Terra.       

PEREIRA, A. B. 2005. De rolê pela cidade: os pixadores da cidade de São Paulo. Dissertação de mestrado em Antropologia. São Paulo: FFLCH-USP.      

NASCIMENTO, E. P. 2006. Literatura marginal: os escritores da periferia entram em cena. Dissertação de mestrado em Antropologia. São Paulo: FFLCH-USP.      

Outros materiais:

HIKIJI, R. S. 2008. Cinema de quebrada. São Paulo: Lisa/Fapesp NTSC (45 min.), color.      

* Adoto aqui a grafia da palavra pixação, com "x", e não com "ch", conforme rege a ortografia oficial, para respeitar o modo como os pixadores escrevem o termo que designa sua prática. Esse modo particular de grafar é apontado por alguns pixadores como uma maneira de diferenciar-se do sentido comum atribuído à norma culta da língua: pichação. "Pixar" seria diferente de "pichar", pois este último termo designaria qualquer intervenção escrita na paisagem urbana, enquanto o primeiro remeteria às práticas desses jovens que deixam inscrições grafadas de forma estilizada no espaço urbano.

1 Point é o espaço onde os pixadores se encontram, em um dia e horário fixos, para conversar sobre a pixação, estabelecer trocas e combinar novas pixações. No caso do point da Rua Vergueiro, que funcionou entre os anos de 2001 e 2005, os encontros aconteciam todas as terças-feiras à noite, em frente ao Centro Cultural São Paulo ou em uma praça na saída da estação Paraíso do metrô. O papel particular que esse point desempenhava no circuito dos pixadores será tratado mais à frente.

2 Essa pesquisa foi objeto da dissertação de mestrado que defendi pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da USP. Ver Pereira (2005).

3 Nome pelo qual é conhecido o centro de compras localizado entre a Rua 24 de Maio e o Largo do Paissandu.

4 Os pixadores denominam as saídas para pixar como rolês.

5 O tag é, mesmo no Brasil, o estilo mais comum de pixação. Ele é, por exemplo, o estilo oficial da pixação no Rio de Janeiro.

6 O termo quebrada é usado para denominar os bairros pobres da periferia de São Paulo. Ele também é muito utilizado pelos jovens do hip-hop. Voltaremos ao assunto mais adiante.

7 Na dinâmica da troca de folhinhas, os pixadores mais novos e menos experientes são os que solicitam as assinaturas dos colegas em suas folhinhas. Já os mais velhos, com mais experiência e reconhecimento no mundo da pixação, são os que geralmente só assinam as folhinhas. Em um point, pode-se constatar que um jovem cercado por outros a lhe solicitarem autógrafos é um pixador mais antigo e, portanto, "mais famoso".

8 A única proibição neste sentido refere-se à não sobreposição de um pixo por outro, prática denominada por eles como atropelo. Os atropelos configuram a maior ofensa na prática da pixação.

9 Esse modo de apropriar-se do espaço urbano demonstra que, em São Paulo, a pixação apresenta características diferentes do modelo de organização de gangues, que demarcam um território que não pode ser invadido por grupos rivais.

10 1 Criminalidade e marginalidade: Acusados; A Máfia; Arsenal; Arteiros; Artigo 12 [artigo do Código Penal que se refere ao tráfico de drogas]; Baderneiros; Bandit’s; Chacina; Delinquentes; Facção; Febem; Fugitivos; Gangsters; Homicidas; Ilegais; Imorais; Justiceiros; Kaloteiros; Kanalhas; Larápios; Marginais; Metralhas; Parasitas; Patifes; Pilantras; Rifle; Sacanas; Sapecas; Skopetas; Suspeitos; Vadios; Vagais; Vândalos; Vítimas. 2 - Sujeira, excremento e poluição: Abutris; Arrotos; Dejetos; Katarro; Lixomania; Os Cata Lixo; Os Dorme Sujo; Perebas; Sujos; Trapos; Vômitos. 3 Loucura, drogas e seus efeitos: Adrenalina; Aloprados; Alucinados; Brisados; Canabis; Chapados; Dopados; Duentes; Hemp’s; Jamaica; Lunáticos; Pirados; Malucos; Marofas; Os Fuma Erva; Psicopatas; Psicose; Vício.

11 Uso "não convencional" dos trens, em que os jovens vão do lado de fora dos vagões, equilibrando-se sobre o teto como se surfassem.

12 Atualmente, esse movimento de valorização da periferia tem tido grande repercussão em outras práticas culturais, como o movimento de literatura periférica e de saraus na periferia. Ver Nascimento (2006) e Hikiji (2008).

13 A esse respeito ver a análise da noção de proceder feita por Marques (2007).

14 Esse é o caso da torcida organizada de futebol do Corinthians, a Gaviões da Fiel, que tem como lema: Lealdade, Humildade e Procedimento.

Fonte: Scielo – www.scielo.br

Jane – 50 anos em Gombe

Em 1960, uma jovem intrépida e sem educação científica montou acampamento para observar chimpanzés na Reserva de Caça Gombe Stream, na Tanganica, atual Tanzânia. Hoje o nome de Jane Goodall é sinônimo de conservação, e inspira um dos mais longos e pormenorizados estudos de uma espécie na natureza.

David Quammen

Foto: Martin Schoeller

Jane - 50 anos em Gombe

Na manhã de 14 de julho de 1960, ela chegou a uma praia pedregosa na costa leste do lago Tanganica. Foram seus primeiros passos na então chamada Reserva de Caça Gombe Stream, uma pequena área protegida que o governo colonial britânico havia demarcado nos idos de 1943. Trazia uma barraca, pratos de flandres, uma caneca sem asa, um binóculo tosco, um cozinheiro africano chamado Dominic, e – como acompanhante, por insistência de pessoas que temiam por sua segurança na selva da Tanganica pré-independente – sua mãe. Vinha estudar os chimpanzés. Ou pelo menos tentar. Quem não a conhecia bem apostava em seu fracasso. Mas uma pessoa, o paleontólogo Louis Leakey, que a recrutara para a tarefa em Nairóbi, acreditava que ela podia ter êxito.

Um grupo de moradores acampados na praia perto de redes de pesca recebeu os recém-chegados e os ajudou a descarregar o equipamento. Por volta das 5 da tarde, alguém anunciou ter visto um chimpanzé. "Lá fomos nós", escreveu Jane depois em seu diário. Foi só um vislumbre distante, vago. "Ele se afastou quando alcançamos o bando de pescadores que o fitava. Escalamos a encosta, mas não o vimos mais." Apesar disso, ela registrou um amontoado de ramos curvados e amassados numa árvore próxima: um ninho de chimpanzé. Esse dado, o primeiro ninho, foi o ponto de partida de uma saga, ainda em andamento e completando agora 50 anos, que viria a ser uma das mais importantes da biologia moderna: o contínuo e minucioso estudo do comportamento dos chimpanzés de Gombe, empreendido por Jane Goodall e outros.

A história da ciência registra alguns dos grandes momentos e detalhes icônicos dessa saga, fascinante como um conto de fada. A jovem senhorita Goodall não tinha credenciais científicas quando começou nem ao menos diploma universitário. Era uma brilhante e motivada inglesa, formada em secretariado, que sempre amara os animais e sonhava em estudá-los na África. Provinha de uma família de mulheres fortes, pouco dinheiro e homens ausentes. Suas primeiras semanas em Gombe foram atribuladas, tateando à procura de uma metodologia, perdendo tempo por causa de uma febre que provavelmente era malária, caminhando muitos quilômetros pela selva montanhosa e avistando poucos chimpanzés. Finalmente, um macho idoso, de barbicha grisalha, deu-lhe uma chance – fez um hesitante e surpreendente gesto de confiança. Jane batizou-o de David Greybeard (David, o Barba Grisalha). Em parte graças a ele, Jane fez três observações que abalaram as confortáveis certezas da antropologia física: chimpanzés comem carne (presumia-se que fossem vegetarianos), usam ferramentas (talos de planta para pescar cupim no ninho) e as fabricam (removendo as folhas do caule), sendo esta última uma característica supostamente única da premeditação humana. Foi um avanço enorme na pesquisa científica: cada uma dessas descobertas reduziu ainda mais a diferença percebida entre a inteligência e a cultura do Homo sapiens e do Pan troglodytes.

A observação sobre a confecção de ferramentas era a mais revolucionária das três e causou furor entre os antropólogos, pois uma definição quase canônica da nossa espécie era "homem, o fabricante de ferramentas". Louis Leakey vibrou com a notícia de Jane e escreveu a ela: "Agora vamos ter de redefinir ‘ferramenta’, redefinir ‘homem’ ou aceitar os chimpanzés como seres humanos". Essa frase memorável marcou uma nova fase, fundamental em nossa concepção, do que constitui a essência humana. Outro aspecto interessante a lembrar é que essas três descobertas mais celebradas, independentemente de trazerem mudanças de paradigmas, foram todas feitas por Jane durante seus quatro primeiros meses em campo. Ela decolou rápido.

O mais extraordinário em Gombe, porém, não é o fato de Jane Goodall ter "redefinido" a espécie humana, e sim ter instituído um novo padrão, muito superior, ao estudo do comportamento de grandes primatas na natureza: a ênfase nas características individuais tanto quanto nas coletivas. Jane criou um programa de estudo, um conjunto de protocolos e princípios éticos, um foco intelectual – na prática, ela estabeleceu uma relação entre o mundo científico e uma comunidade de chimpanzés. O projeto Gombe ampliou-se em muitas dimensões, atravessou crises, evoluiu em função de objetivos que nem ela nem Louis Leakey haviam antevisto e por fim adotou métodos (mapeamento por satélite, endocrinologia, genética molecular) e abordou questões que nos levam muito além do campo do comportamento animal. Por exemplo: técnicas de análise molecular, aplicadas a amostras de fezes e urina que podem ser coletadas sem a necessidade de capturar e manusear os animais, trazem revelações sobre as relações genéticas entre os chimpanzés e a presença de germes patogênicos em alguns deles. Uma dilacerante ironia, contudo, ronda o coração desse triunfo da ciência em seu cinquentenário: quanto mais aprendemos sobre os chimpanzés de Gombe, mais razões temos para nos preocupar com sua sobrevivência.

Duas revelações nos últimos tempos, em especial, são inquietantes. Uma envolve a geografia; a outra, doenças. A mais querida e mais bem estudada população de chimpanzés do planeta está isolada em uma ilha de hábitat que é pequena demais para sua viabilidade no longo prazo. E, pior, agora parece que uma versão símia da aids está matando alguns dos primatas de Gombe.

A questão do método de estudo dos chimpanzés e do que se pode inferir das observações de seu comportamento absorve Jane desde o início da carreira. Começou a ganhar foco depois de sua primeira temporada em campo, quando Louis Leakey lhe anunciou sua próxima ideia brilhante: conseguir para Jane admissão em um programa de PhD em etologia na Universidade de Cambridge.

O doutorado parecia despropositado em dois sentidos. Primeiro, Jane não tinha diploma universitário. Segundo, ela sempre desejara ser naturalista ou talvez jornalista – jamais cientista. "Eu nem sabia o que era etologia", me disse Jane pouco tempo atrás. "Demorou até eu descobrir que significava simplesmente o estudo do comportamento." Aceita em Cambridge, ela viu-se em conflito com as certezas então prevalecentes em sua área de estudo. "Fiquei chocada quando me disseram que eu tinha feito tudo errado. Tudo." Jane já tinha 15 meses de dados de campo, a maior parte coletada à custa de paciente observação de indivíduos que ela conhecia pelos apelidos, como David Greybeard, Mike, Olly e Fifi. Essa personificação foi malvista em Cambridge; atribuir individualidade e emoção a animais não humanos era antropomorfismo, não etologia. "Lembrei-me de meu primeiro professor na infância, que me ensinou que isso não era verdade", conta ela. Seu primeiro professor fora seu cachorro, Rusty. "É impossível compartilhar a vida de modo significativo com qualquer tipo de animal dotado de cérebro razoavelmente bem desenvolvido e deixar de perceber que eles têm personalidade." Ela transgrediu a visão predominante – transgredir é uma característica de Jane – e, em 9 de fevereiro de 1966, tornou-se doutora Jane Goodall.

Em 1968, a reserva de caça também se graduou, tornando-se o Parque Nacional Gombe, na Tanzânia. Na época, Jane recebia subvenção da National Geographic Society. Era esposa, mãe e famosa, graças em parte a seus artigos para a revista e a sua bela presença em um filme para televisão, Miss Goodall and the Wild Chimpanzees. Para conseguir verba e dar continuidade a seu acampamento em Gombe, ela o transformou em uma instituição, o Centro de Pesquisa Gombe Stream (GSRC, na sigla em inglês). No início dos anos 1970, ela começou a receber pesquisadores – estudantes e pós-graduados – para ajudá-la na coleta de dados dos chimpanzés e em outros estudos em Gombe. Sua influência sobre a primatologia moderna, trombeteada aos quatro ventos por Leakey, é mais discretamente indicada pela longa lista de ex-alunos de Gombe que mais tarde se destacaram nos meios científicos, entre eles Richard Wrangham, Caroline Tutin, Craig Packer, Tim Clutton-Brock, Geza Teleki, William McGrew, Anthony Collins, Shadrack Kamenya, Jim Moore e Anne Pusey. Esta última, hoje titular na cátedra de antropologia evolucionária da Universidade Duke, é também diretora do Centro de Estudos de Primatas do Instituto Jane Goodall (fundado em 1977). Uma de suas tarefas é zelar pelos 22 abarrotados arquivos de dados de campo – cadernos, páginas de diários e listas de verificação, alguns em inglês, outros em suaíli -, produto de 50 anos de estudos de campo em Gombe.

Essa jornada de cinco décadas sofreu uma traumatizante interrupção. Na noite de 19 de maio de 1975, três jovens americanos e uma holandesa foram sequestrados por soldados rebeldes que haviam atravessado o lago Tanganica vindos do Zaire. Os quatro reféns acabaram sendo libertados, mas já não parecia prudente o Centro de Pesquisa Gombe Stream receber pesquisadores estrangeiros – como Anthony Collins me explicou.

Collins era na época um jovem biólogo britânico interessado em babuínos, a outra espécie de primata na berlinda em Gombe. Além de seus estudos, há quase 40 anos ele continua a exercer funções administrativas no Instituto Jane Goodall e no próprio GSRC. Collins recorda aquele 19 de maio de 1975 como "o dia em que o mundo mudou, no que diz respeito a Gombe". Os pesquisadores estrangeiros não puderam mais trabalhar em Gombe; a própria Jane precisou de uma escolta militar durante alguns anos. "O lado positivo foi que a responsabilidade pela coleta de dados passou diretamente, no dia seguinte, aos pesquisadores tanzanianos", diz ele. Cada um deles havia recebido no mínimo um ano de treinamento em coleta de dados, mas ainda trabalhavam, em parte, como rastreadores: ajudavam a localizar os chimpanzés, identificar plantas e garantir que os mzungu (brancos) voltassem em segurança ao acampamento antes de escurecer. Depois do sequestro, os tanzanianos deram um passo à frente "e o bastão foi passado a eles", diz Collins. Hoje o chefe dos pesquisadores de chimpanzés em Gombe é Gabo Paulo, que supervisiona as observações de campo e a coleta de dados, feitas por Methodi Vyampi, Magombe Yahaya, Amri Yahaya e outros 20 tanzanianos.

Conflitos humanos que transbordavam dos países vizinhos não foram as únicas calamidades que afetaram Gombe. A política dos chimpanzés também teve suas violências. A partir de 1974, a comunidade Kasekela (principal alvo dos estudos em Gombe) desferiu uma série de ataques sangrentos contra um subgrupo menor, batizado de Kahama. Esse período de agressões, conhecido nos anais de Gombe como Guerra dos Quatro Anos, causou a morte de alguns indivíduos, a aniquilação do subgrupo Kahama e a anexação de seu território pelos kasekelas. Enquanto as lutas entre machos pela posição alfa são políticas e físicas, entre as fêmeas foram registrados casos de mães que mataram o bebê de uma rival. "Quando cheguei a Gombe", escreveu Jane, "pensava que os chimpanzés fossem mais gentis que nós. O tempo me desenganou. Eles podem ser tão terríveis quanto os seres humanos."

Gombe nunca foi um éden. Doenças também causaram estragos. Em 1966 ocorreu um surto de uma moléstia virulenta (provavelmente pólio, contraída de seres humanos) e seis chimpanzés morreram. Outros seis ficaram paralíticos. Dois anos depois, David Greybeard e mais quatro primatas sumiram, vitimados por algum germe do aparelho respiratório (influenza? pneumonia bacteriana?). Mais nove chimpanzés morreram, no começo de 1987, de pneumonia. Esses episódios, que refletem a suscetibilidade dos chimpanzés a patógenos trazidos pelos seres humanos, ajudam a explicar a grande preocupação dos cientistas de Gombe com o tema das doenças infecciosas.

Essa preocupação aumentou com as mudanças na paisagem fronteiriça do parque. Ao longo de décadas, o povo dos vilarejos vizinhos esforçou-se para levar uma vida comum – cortando lenha e plantando nas encostas íngremes, queimando o mato durante a estação seca para obter cinza fertilizante. Mas, no começo dos anos 1990, o desmatamento e a erosão haviam transformado o Parque Nacional Gombe numa ilha ecológica, cercada em três lados pelo impacto humano e no outro pelo lago Tanganica. Nessa ilha viviam apenas uns 100 chimpanzés. Por todos os critérios da biologia conservacionista, isso não basta para constituir uma população viável no longo prazo – não garante sua sobrevivência contra os efeitos negativos da endogamia nem quando vier

o ataque do próximo vírus perigoso. Era preciso fazer alguma coisa, Jane concluiu, além de continuar o estudo de uma benquista população de grandes primatas que podia estar condenada. E era preciso fazer algo também pelas pessoas, não só pelos chimpanzés.

Em uma cidade próxima, ela conheceu George Struden, um agricultor nascido na Alemanha, e com ele criou o projeto Educação e Reflorestamento da Bacia do Lago Tanganica (Tacare, na sigla em inglês), cuja primeira iniciativa, em 1995, foi a construção de três viveiros em 24 vilarejos. Os objetivos eram reverter o desmatamento das encostas, proteger as vertentes nos povoados e talvez, por fim, religar Gombe a trechos de mata fora do parque, ajudando os moradores a plantar árvores. Existe uma pequena população de chimpanzés em um retalho de floresta chamado Kwitanga, a 16 quilômetros de Gombe. Uns 80 quilômetros a sudeste, um ecossistema conhecido como Masito-Ugalla sustenta mais de 500 desses primatas. Se qualquer uma dessas áreas pudesse ser conectada a Gombe por corredores reflorestados, os chimpanzés seriam beneficiados com o aumento do fluxo gênico e das populações. Por outro lado, poderiam ser prejudicados por doenças contagiosas

De qualquer ângulo, vencer esse desafio é quase impossível. Com cautela e paciência, Jane e sua equipe alcançaram alguns êxitos alentadores nos aspectos de cooperação da comunidade, diminuição das queimadas e regeneração da floresta natural.

Na segunda manhã da minha visita a Gombe, em uma trilha não muito acima da casa em que Jane viveu de tempos em tempos desde os anos 1970, encontro um grupo de chimpanzés. Os animais perambulam pela encosta em busca do café da manhã. Eles deslocam-se sobretudo no chão, mas ocasionalmente sobem em alguma árvore do gênero Vitex para comer frutinhas roxas. Parecem indiferentes à minha presença e a dos pesquisadores tanzanianos. Entre eles há alguns indivíduos cujos nomes, ou pelo menos a história familiar, são conhecidos. Lá estão Gremlin (filha de Melissa, que era uma jovem fêmea quando Jane chegou), Gaia, filha de Gremlin (com um bebê agarrado ao pelo), Golden, irmã mais nova de Gaia, Pax (filho do famigerado canibal Passion) e Fudge (filho de Fanni, neto de Fifi, bisneto de Flo, a querida matriarca de nariz feioso, famosa por figurar nos primeiros livros de Jane). Lá está também Titan, um macho de 15 anos, grandalhão. As regras do Parque Nacional Gombe mandam que não nos aproximemos de nenhum chimpanzé, mas em geral o difícil é impedir que eles se aproximem de nós. Quando o robusto Titan vem andando todo confiante pela trilha em nossa direção, nos esprememos nas laterais e deixamos que o fanfarrão passe a centímetros de nós. Depois de toda uma vida de familiaridade com pesquisadores humanos inofensivos munidos de cadernos e folhas de verificação, nossa presença lhe causa o maior tédio.

Outro reflexo da despreocupação deles: Gremlin defeca na trilha não muito longe de nós, e depois Golden faz o mesmo. Quando eles se afastam, um pesquisador chamado Samson Shadrack Pindu calça luvas amarelas de látex, pega uma pequena pá de plástico e vai até o local. Agacha-se, recolhe um bocado do excremento esverdeado e fibroso de Gremlin e o transfere para um tubo de amostra. Registra nele a hora, a data, o local e o nome de Gremlin. O tubo contém um líquido estabilizador chamado RNAlater, que preserva qualquer RNA (por exemplo, o de um retrovírus) para análises genéticas posteriores. Esse tubo, e outros como ele, representando uma amostra fecal mensal do maior número possível de chimpanzés, irá para o laboratório de Beatrice Hahn na Universidade do Alabama em Birmingham. Há dez anos ela estuda o vírus da imunodeficiência símia em Gombe.

O vírus da imunodeficiência símia dos chimpanzés, tecnicamente conhecido como SIVcpz, é o precursor e a origem do HIV-1, o vírus responsável pela maioria dos casos de aids no mundo (há também o HIV-2). Apesar do nome, nunca fora constatado que o SIVcpz houvesse causado danos ao sistema imunológico de chimpanzés selvagens, até que os conhecimentos de genética molecular da doutora Beatrice encontraram os dados de observações de longos períodos em Gombe. Pensava-se que o SIVcpz fosse inócuo aos chimpanzés, e essa suposição levara à questão de como ou por que ele causava uma pandemia letal entre os seres humanos. Será que umas poucas mutações fatídicas teriam transformado um inofensivo vírus de chimpanzé em assassino de seres humanos? Essa perspectiva teve de mudar depois da publicação de um artigo na revista Nature em 2009. Seu principal autor é Brandon F. Keele (que na época trabalhava no laboratório de Beatrice) e entre os coautores estão Beatrice Hahn e Jane Goodall. O artigo de Keele informava que chimpanzés SIV-positivos em Gombe apresentavam entre dez e 16 vezes mais risco de morte em determinada idade que os chimpanzés SIV-negativos. E três carcaças de chimpanzes SIV-positivos tiveram seus tecidos examinados (em laboratório, em nível molecular) e mostraram sinais de danos análogos aos da aids. Ou seja: uma doença semelhante à aids parece estar matando os chimpanzés de Gombe.

De todos os laços, características em comum e semelhanças que ligam nossa espécie à deles, essa revelação talvez seja a mais inquietante. "É assustador saber que os chimpanzés parecem estar morrendo mais cedo", me diz Jane. "Há quanto tempo isso está ocorrendo? De onde vem? Como afeta outras populações?" Pelo bem da sobrevivência dos chimpanzés de toda a África, essas questões demandam estudos urgentes.

Essa funesta descoberta também pode ser imensamente importante à pesquisa da aids em seres humanos. Anthony Collins ressalta que, embora o SIV seja encontrado em comunidades de chimpanzés de outras áreas, "nenhuma delas é uma população em estudo, habituada a observadores humanos, e nenhuma nos deu informações genealógicas ininterruptas por tanto tempo nem é tão dócil que nos permita obter amostras de cada indivíduo todo mês". E acrescenta: "É muito triste que o vírus esteja aqui, mas isso pode nos trazer conhecimento. E compreensão".

Os avançados métodos da genética molecular trazem mais que medonhas revelações sobre doenças. Eles também nos dão a empolgante capacidade de investigar alguns antigos mistérios sobre a dinâmica social e a evolução dos chimpanzés. Por exemplo: quem são os pais em Gombe? A maternidade é óbvia, e as íntimas relações entre mães e bebês foram bem estudadas pela própria Jane, além de Anne Pusey e outros. Mas, como as fêmeas tendem a se acasalar promiscuamente com vários machos, é bem mais difícil determinar a paternidade. E a questão de identidade paterna relaciona-se a outra: como a competição entre os machos por status na hierarquia – toda aquela espalhafatosa demonstração de valentia para obter e manter a posição de macho alfa – se correlaciona com o êxito reprodutivo? Uma jovem cientista, Emily Wroblewski, analisou o DNA de amostras fecais coletadas pela equipe de campo e chegou a uma resposta. Ela concluiu que os machos de posição mais elevada realmente têm mais filhos – mas os machos subalternos também não se saem nada mal. A estratégia consiste em investir na relação: passar um período exclusivo como casal, viajar na companhia da fêmea e acasalar-se – o mais das vezes com uma fêmea das mais jovens, que são menos desejáveis.

Jane previra essa conclusão duas décadas antes, com base em dados de observação. "O macho que consegue iniciar e manter uma relação de parceria com uma fêmea fértil", escreveu ela, "provavelmente tem mais chance de ser pai do filho dela do que teria na situação grupal, mesmo se ele fosse o alfa."

Imperativos maiores impeliram Jane a encerrar sua carreira como bióloga de campo em 1986. Desde então, ela atua como defensora e conferencista itinerante, uma mulher movida por um sentimento de missão pública. Que missão? Sua primeira causa, nascida de seus anos em Gombe, foi melhorar o péssimo tratamento infligido aos chimpanzés mantidos em laboratórios de pesquisas médicas. Combinando firmeza e indignação moral com sua simpatia e disposição para interagir com afabilidade, ela conseguiu alguns acordos favoráveis. Também fundou santuários para chimpanzés que podem ser libertados do cativeiro, entre eles muitos órfãos que perderam a mãe para a caça. Esse trabalho despertou sua preocupação com a conduta humana em relação a outras espécies. Ela criou um programa que incentiva jovens do mundo todo a militar em projetos para despertar o interesse pelos animais, o meio ambiente e a comunidade humana. Durante esse período, ela tornou-se exploradora associada da National Geographic Society. Atualmente, passa cerca de 300 dias por ano na estrada, dando inúmeras entrevistas e palestras em escolas, fazendo conferências, conversando com autoridades, angariando fundos para mover as engrenagens do Instituto Jane Goodall. De vez em quando foge para alguma floresta ou pradaria, talvez com alguns amigos, para observar chimpanzés, grous-canadenses ou furões, e restaurar sua energia e sanidade.

Cinquenta anos atrás, Louis Leakey mandou-a estudar os chimpanzés, por achar que o comportamento deles poderia lançar alguma luz sobre os ancestrais humanos, seu tema de estudo. Jane desconsiderou essa parte da incumbência e estudou os chimpanzés por si mesmos, pelo interesse que eles mereciam, por seu valor. Ao longo do caminho, criou instituições e oportunidades que frutificaram no trabalho de outros cientistas, e foi um luminoso exemplo pessoal que atraiu jovens à ciência e ao conservacionismo. Vale lembrar que o significado de Gombe, depois de meio século, é maior que a vida e o trabalho de Jane Goodall. Mas não se engane: a vida e o trabalho dela foram grandiosos.

Fonte: National Geographic – http://www.natgeo.com.br/

Em que sentido se pode falar da significação internacional da Revolução Russa?

Lênin

Nos primeiros meses que se seguiram à conquista do Poder político pelo proletariado na Rússia (25 de outubro/7 de novembro de 1917), poder-se-ia acreditar que, em virtude das enormes diferenças existentes entre a Rússia atrasada e os países adiantados da Europa Ocidental, a revolução proletária nesses países seria muito pouco parecida com a nossa. Atualmente, já possuímos uma experiência internacional bastante considerável, experiência que demonstra, com absoluta clareza, que alguns dos aspectos fundamentais da nossa revolução não têm apenas significação local, particularmente nacional, russa, mas revestem-se, também, de significação internacional. E não me refiro à significação internacional no sentido amplo da palavra: não são apenas alguns, mas sim todos os aspectos fundamentais — e muitos secundários — da nossa revolução que têm significação internacional quanto à influência que exercem sobre todos os países. Refiro-me ao sentido mais estrito da palavra, isto é, entendendo por significação internacional a sua transcendência mundial ou a inevitabilidade histórica de que se repita em escala universal o que aconteceu em nosso país, significação que deve ser reconhecida em alguns dos aspectos fundamentais da nossa revolução.

Naturalmente, seria o maior dos erros exagerar o alcance dessa verdade, aplicando-a a outros aspectos da nossa revolução além de alguns dos fundamentais. Também seria errado não ter em conta que depois da vitória da revolução proletária, mesmo que seja em apenas um dos países adiantados, se produzirá, com toda certeza, uma radical transformação: a Rússia, logo depois disso, transformar-se-á não em país modelo, e sim, de novo, em país atrasado (do ponto de vista “soviético” e socialista).

Por motivos de espaço no provedor, leia esta matéria na íntegra no site CONTROVÉRSIA. Clique no link abaixo. Obrigado.

http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=7226

A verdade desnuda no Iraque

Os árabes sabiam de tudo sobre as torturas em massa, os assassinatos de civis, o uso escandaloso do poderio aéreo contra casas de famílias, dos crimes cometidos por mercenários. Todo o Iraque o sabia. Porque eles eram as vítimas. Só nós, no Ocidente, podíamos fingir que não sabíamos, podíamos fazer de conta que acreditávamos nas mentiras de algum digno general ou secretário de Estado. Mas, desde o começo, sabíamos o que estava acontecendo no Iraque. O artigo é de Robert Fisk.

Robert Fisk

Como de costume, os árabes sabiam. Sabiam tudo das torturas em massa, do promíscuo assassinato de civis, do escandaloso uso do poderio aéreo contra casas de famílias, dos impiedosos mercenários estadunidenses e britânicos, dos cemitérios de mortos inocentes. Todo o Iraque o sabia. Porque eles eram as vítimas.

Só nós podíamos fingir que não sabíamos. Só nós no Ocidente podíamos rechaçar cada acusação, cada afirmação contra os estadunidenses ou britânicos, pondo algum digno general – vem à mente o porta-voz militar estadunidense Mark Kimmitt e o terrível chefe do estado maior conjunto Peter Pace – a nos rodear de mentiras. Se encontrássemos um homem que tinha sido torturado nos diziam que era propaganda terrorista, se descobríssemos uma casa cheia de crianças mortas num bombardeio aéreo norteamericano também era propaganda terrorista, ou “dano colateral”, ou uma simples frase: “não temos informação disso”.

Desde o começo sabíamos que sempre tinham. E o oceano de memorandos militares que se revelou este sábado voltou a demonstrá-lo. A Al Jazeera chegou a extremos para rastrear as famílias iraquianas cujos homens e mulheres foram assassinados em detenções estadunidenses – eu identifiquei uma porque a reportei em 2004, o veículo crivado de balas, os dois jornalistas mortos, até o nome do capitão local estadunidense – e foi oThe Independent em edição dominical o primeiro a alertar ao mundo sobre as hordas de pistoleiros indisciplinados que eram levados a Bagdá para proteger diplomatas e generais. Esses mercenários, que abriram caminho assassinando, nas cidades do Iraque, insultaram-me quando eu lhes disse que estava escrevendo sobre eles, ainda em 2003.

É sempre tentador desacreditar uma história dizendo que “não há nada de novo”. A idéia da “velha história” é usada pelos governos para esfriar o interesse jornalísticos, pois serve para encobrir a inatividade jornalística. E é certo que os repórteres já viram antes algo assim. A “evidência” da participação iraniana na fabricação de bombas no sul do Iraque foi filtrada pelo Pentágono para Michael Gordon, do New York Times, em fevereiro de 2007. A matéria prima, que agora podemos ler é muito mais duvidosa que a versão gerada pelo Pentágono. Por todo o Iraque havia material militar da guerra Irã-Iraque de 1980-1988, e a maioria dos ataques contra os estadunidenses foram levados a cabo nesta etapa por insurgentes sunitas. Por certo os informes que sugerem que a Síria permitiu a travessia de insurgentes por seu território são corretos. Falei com famílias de terroristas suicidas palestinos cujos filhos chegaram ao Iraque a partir do Líbano, por meio da cidade libanesa de Majdal e depois pela cidade do norte da Síria, Aleppo, para atacar os estadunidenses.

No entanto, embora escrita em linguagem militar sucinta, aqui está a evidência da vergonha estadunidense. É um material que pode ser usado por advogados em juízo. Se 66.081 – me encantou este “81” – é a cifra mais alta disponível de civis mortos, então a cifra real é infinitamente mais alta, pois este registro só corresponde aos civis dos quais os estadunidenses tiveram informação. Alguns foram levados ao necrotério em Bagdá em minha presença e foi o oficial encarregado quem me disse que o Ministério da Saúde iraquiano havia proibido os médicos de praticar necropsias dos civis levados por soldados estadunidenses. Por que se deu essa ordem? Teria algo a ver com os 1300 informes independentes estadunidenses sobre tortura nos postos policiais iraquianos?

Eu, no entanto, suspeito que esta revelação massiva de material da guerra do Iraque tenha sérias implicações para jornalistas e exércitos. Por que diabos se envia equipes de repórteres para investigar crimes de guerra, reunindo-se com "gargantas profundas" militares se, em seguida, quase meio milhão de documentos secretos vão acabar flutuando numa tela de computador?

Ainda não chegamos ao fundo da história de Wikileaks e, melhor, suspeito que há ainda vários soldados estadunidenses implicados nessa última revelação. Quem sabe se não chega ao mais alto escalão? Em suas investigações, por exemplo, a Al Jazeera encontrou um extrato de uma coletiva de imprensa de rotina do Pentágono em novembro de 2005. Peter Pace, o nada inspirador chefe de estado maior conjunto, informa aos jornalistas como os soldados devem reagir ante o tratamento cruel de prisioneiros, assinalando com orgulho que o dever de um soldado estadunidense é intervir caso encontre evidência de tortura. Depois a câmera se move em direção da figura muito mais sinistra do secretário de Defesa Donald Rumsfeld, que de pronto interrompe quase num murmúrio, para a grande consternação de Pace: “Não acredito que você queira dizer que os soldados estejam obrigados a detê-la fisicamente. Seu dever é reportá-la”.

Desde então a significação deste comentário – cifradamente sádico a seu modo – perdeu-se nos jornais. Mas agora o memorando secreto Frago 242 traz muito mais luz sobre essa coletiva de imprensa. Enviada presumivelmente pelo general Ricardo Sánchez, a instrução aos soldados é: “Suposto que o informe inicial confirme que as forças estadunidenses não tiveram a ver com o abuso contra os detidos, não se realizará maior investigação, a menos que o alto comando o ordene”. Abu Ghraib ocorreu sob a supervisão de Sánchez no Iraque. Foi também Sánchez, por certo, quem não pôde explicar-me durante uma coletiva de imprensa por que seus homens mataram os filhos de Saddam Hussein em Mosul, em vez de capturá-los.

A mensagem de Sanchez, segundo parece, deve ter tido a aprovação de Rumsfeld. Do mesmo modo, o general David Petraeus – tão amado pelos jornalistas estadounidenses– foi supostamente responsável pelo dramático aumento nos ataques aéreos ao longo de dois anos: de 229 sobre o Iraque em 2006 para 1447 em 2007. Resulta interessante que os ataques aéreos dos Estados Unidos no Afeganistão tenham sido elevados em 172% desde que Petraeus assumiu o comando militar da região.

Tudo isso torna ainda mais assombroso que o Pentágono agora se escandalize porque a Wikileaks poderia ter sangue nas mãos. O Pentágono tem estado manchado de sangue desde que deixou cair uma bomba atômica sobre Hiroshima em 1945, e para uma instituição que ordenou a invasão ilegal em 2003 – por acaso a cifra de civis mortos não foi ali de 66 mil, segundo suas próprias contas, de uns 109 mil registrados? – torna-se ridículo afirmar que Wikileaks é culpada de homicídio.

A verdade, é claro, é que se este vasto tesouro de informes secretos tivesse demonstrado que a quantidade de mortos era muito menor do que a aquilo que a imprensa informava, que os soldados estadunidenses nunca toleraram a tortura por policiais iraquianos, que raras foram as vezes em que dispararam em civis detidos e sempre levaram os mercenários assassinos a juízo, os generais estadunidenses teriam entregue esses expedientes à imprensa sem peso algum nas escadarias do Pentágono. Não só estão furiosos porque se rompeu o segredo ou porque se tenha derramado sangue, mas também porque pegaram-lhes dizendo as mentiras que sempre souberam que diziam.

Fonte:  Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

PRÉMIO NOBEL PARA O HARTZ IV

Robert Kurz

O ex-chanceler Helmut Kohl foi este ano mais uma vez preterido na concessão do Prémio Nobel da Paz, que ele certamente teria merecido, segundo a doutrina predominante entre gente bem, pelo seu papel na unificação da ex-RDA com a RFA. Nem sequer o presidente iraniano Ahmadinejad foi a última escolha pelos seus esforços para a estabilidade do Médio Oriente.

Por razões políticas, desta vez o vencedor teve de ser um dissidente chinês. O alvoroço com tal decisão fez com que passasse um pouco para segundo plano outra subtileza do Comité Nobel, designadamente a atribuição na área da economia. O mais político de todos os prémios Nobel é recebido em geral por quem apresentou uma prestação intelectual com o nobre propósito de atrelar a humanidade ainda mais às rédeas do capitalismo. Neste sentido foram distinguidos em 2010 os norte-americanos Peter Diamond e Dale Mortensen e o britânico Christopher Pissarides.

À primeira vista, as pesquisas dos vencedores deste ano movem-se num território relativamente neutro. O seu tema são os chamados custos de ajustamento. Trata-se de um fenómeno banal do quotidiano: compradores e vendedores precisam frequentemente de muito tempo para encontrarem o produto adequado ou o comprador certo; e, como é sabido, tempo é dinheiro, neste que é o melhor dos mundos. Estes custos de ajustamento, no entanto, não aparecem nos modelos da economia. Os economistas agora distinguidos chegam à conclusão de que o mecanismo da oferta e da procura nem sempre funciona e talvez a ajuda do Estado pudesse reduzir os custos de ajustamento. Keynesianismo de primeira, portanto, ao gosto da esquerda agarrada ao Estado. Também o Comité em Oslo parece ter dito adeus ao neoliberalismo.

A coisa torna-se um pouco mais clara quando se percebe que o famoso problema dos custos de ajustamento seria importante sobretudo nos mercados de trabalho. Os pesquisadores teriam mostrado, essa a fundamentação, que o desemprego seria provocado não apenas (!) por altos salários, mas também pelo facto de que os desempregados não se aplicariam com suficiente determinação na procura de trabalho, ou teriam “pretensões demasiado elevadas” para o novo emprego. Em linguagem clara: cortes de salários pelo livre jogo da oferta e da procura não seriam suficientes nos mercados da mercadoria força de trabalho; seriam necessárias também medidas coercivas estatais, para que os desempregados não causassem custos de ajustamento demasiado elevados com a sua “atitude reivindicativa”. Tudo isto será obviamente do mais genuíno interesse das pessoas afectadas, já que elas só poderão ser felizes quando, finalmente, chamarem seu um mísero trabalho mal pago. O que era para ser provado "cientificamente".

Não é de estranhar que o "Handelsblatt" [Jornal de Negócios] deixe escapar que os trabalhos dos laureados do Nobel deste ano teriam lançado "o fundamento intelectual" da "estratégia de exigir e apoiar", incluindo, portanto, Hartz IV. Lamentavelmente o prático e padrinho da aplicação destes conhecimentos, Peter Hartz, não pôde ser classificado entre os homenageados. Mas talvez possa ser o "vencedor dos corações", uma vez que se reconhece que ele, com a sua reforma, cobriu realmente o flanco ao neo-liberalismo. A "mão invisível" do mercado não é suficiente para disciplinar os assalariados, é preciso acrescentar ainda a "mão visível" da administração do trabalho. Paul Krugman, o bem conhecido keynesiano dos EUA, descreveu os seus colegas premiados como "pensadores incrivelmente profundos”. Assim terá ficado claro de uma vez por todas o que devemos esperar ainda do keynesianismo de crise.

Fonte: O Beco – http://o-beco.planetaclix.pt

Dinamarca quer ser verde com cobrança de imposto que inibe uso de carro e luz

SABINE RIGHETTI

O fracasso das negociações para um acordo global do clima, que passaram no ano passado pela Dinamarca, não foram suficientes para que o país desistisse de ser líder mundial em ideias verdes. Nem que isso seja feito com base em altos impostos.

Com taxas bastante gordas, o governo dinamarquês está conseguindo, por exemplo, reduzir a emissão de CO2 nos transportes e diminuir o consumo de energia elétrica pela população.

Copenhague, a capital do país, possui 350 km de ciclovias. Hoje, 37% dos moradores de Copenhague percorrem de bicicleta por cerca de 1,2 milhão de km pelas ruas da cidade todos os dias. A meta é chegar a 50% em 2015.

Sabine Righetti/Folhapress

Usinas de energia eólica na Dinamarca, cujos impostos para carros e luz são altos para incentivar uso de bicicletas

Usinas de energia eólica na Dinamarca, cujos impostos para carros e luz são altos para incentivar uso de bicicletas

O motivo de tantas bikes nas ruas é simples: um carro na Dinamarca custa caro, e cerca de 60% do valor dos automóveis vai em impostos.

"Temos uma política de impostos agressiva. É uma maneira de atrair as pessoas economicamente para a questão ambiental", diz Lars Hansen, da Associação de Energia Dinamarquesa- espécie de conselheira do governo para assuntos verdes.

Também há incentivos para deixar os carros movidos a combustíveis fósseis na garagem.

"Os veículos elétricos têm menos impostos e a partir do ano que vem estarão mais baratos", diz Hansen. Boa parte dos táxis dinamarqueses também é elétrica e identificada com uma espécie de selo verde.

PARA APAGAR A LUZ

As contas de consumo de energia elétrica, por sua vez, têm uma incidência de 50% de impostos. O objetivo é motivar os dinamarqueses a evitarem desperdício.

Um casal tira da carteira cerca de R$170,00 (cerca de 70 euros) por trimestre para pagar a conta de energia- o que é considerado bastante caro no país.

Mas, de acordo com Hansen, os dinamarqueses decidiram se tornar "verdes" independentemente dos impostos. "É uma questão de opção de vida", analisa.

Um exemplo disso, na opinião dele, é o alto consumo de produtos orgânicos no país: mais da metade do que se come na Dinamarca tem origem orgânica- trata-se de um recorde mundial. E esses produtos custam de 10 a 20% a mais do que aquele que utilizam agrotóxicos.

A onda verde atingiu também hotéis e restaurantes locais, e fez com que a rede de supermercados Irma, fundada em 1886, aumentasse significativamente seu faturamento quando passou a ter foco em produtos orgânicos.

A meta do governo dinamarquês é que 80% do total consumido no país seja orgânico em 2015.

Os dinamarqueses também podem optar pelo consumo de energia renovável, como a eólica, pagando cerca de R$ 45,00 (20 euros) a mais por trimestre nas suas contas de luz. "Cada vez mais pessoas fazem essa opção", afirma Hansen.

QUESTÃO CULTURAL

O aumento de impostos para incentivar, por exemplo, o uso de bicicletas poderia não dar certo no Brasil.

"Nos países com distribuição desigual de renda, os mais ricos pagariam as contas altas e os mais pobres simplesmente não teriam como pagar", diz Kristian Wederkinck Olesen, do Consórcio Climático da Dinamarca.

Na opinião dele, cada país deve analisar como implementar políticas ambientais de acordo com sua história e cultura da sua população. "Na China, pode ser que o governo teria de fiscalizar e punir quem não seja verde", exemplifica ele.

"Por causa dessas diferenças culturais, é muito difícil chegar num acordo entre países em reuniões como a que aconteceu na Dinamarca ano passado", conclui Olesen.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

Darwin do Brasil á Patagônia

A evolução das espécies e sua diversidade foram os mistérios que o naturalista inglês Charles Darwin começou a solucionar quando iniciou sua viagem de pesquisa em 1831

Jürgen Neffe

Por dias a fio Darwin cavalga perto do Rio de Janeiro por mata fechada. A imensa variedade dos organismos lhe aparece como uma total confusão. Mas para onde ele olhe, vê exemplos de um importante princípio biológico: o da coevolução

A expedição que trouxe Charles Darwin (nascido em Shrewsbury, Inglaterra, em 12 de fevereiro de 1809) aos trópicos tinha como propósito o levantamento cartográfico das costas marítimas do sul da América, uma continuidade de trabalhos anteriores, com medições mais exatas que proporcionassem maior segurança para guerras navais e navegação comercial, incluindo o levantamento próximo às Ilhas Malvinas e Ilhas Galápagos. Darwin tinha apenas 22 anos de idade quando partiu no navio HMS Beagle, em 27 de dezembro de1831, para uma viagem planejada para se completar em dois anos, mas que acabou durando quase cinco.

Por motivos de espaço no provedor, leia esta matéria na íntegra no site CONTROVÉRSIA. Clique no link abaixo. Obrigado.

http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=7220