Margens da política, fronteiras da violência: uma ação coletiva das periferias de São Paulo

Gabriel de Santis Feltran

O artigo discute a relação contemporânea entre periferias urbanas e mundo político no Brasil, tomando como objeto heurístico a trajetória de mais de duas décadas de uma ação coletiva da zona leste de São Paulo. Argumento que a relação entre periferias e mundo público foi historicamente marcada pelo conflito. O percurso desse conflito, e de suas formas de contenção a partir dos anos 1970, faz ainda hoje coexistirem três dispositivos distintos, que na linha do tempo tiveram ênfases sucessivas: 1) a luta política, cuja lógica interna remeteu à aposta nos direitos da cidadania, central nas ações dos “movimentos sociais” desde os anos 1970 até o início dos 1990; 2) a gestão estatal e civil de grupos sociais das periferias, presente na lógica interna dos “programas sociais” a partir de meados dos anos 1990; e 3) a violência, presente ou latente na força repressiva voltada às periferias e regulada hoje, sobretudo, pelo próprio "mundo do crime".

"Manhã de dezembro. Desço a pé as vielas fechadas de uma favela do Parque Santa Madalena, zona leste de São Paulo. Estou acompanhado de dois militantes do Centro de Direitos Humanos de Sapopemba (CDHS) e de uma freira da Eritreia. Ela me conta que os cristãos são perseguidos em seu país, que se sente em casa nas favelas, que a luta dos movimentos populares ‘é a mesma no mundo todo’. Universalismos… pensei comigo. Pedimos licença a moradores sentados na soleira de suas portas; eles nos abrem caminho sem nenhum entusiasmo. Depois de passarmos, um deles grita: ‘Tempo de política vem todo mundo pagar pau, não é não!?’ . Um ano eleitoral viria pela frente, de fato. No ponto mais baixo e central da favela que ocupa duas encostas íngremes se aglomeravam umas vinte pessoas, alguns rostos conhecidos, formando uma roda.

Valdênia Paulino a militante mais conhecida da região, diretora do CDHS falava aos moradores no microfone: ‘Vamos descer, pessoal, para participar dessa conversa, para mostrar que em Sapopemba a gente sabe receber as visitas com calor humano!’. Explicava que se tratava de um ato contra a violência policial, e citava nomes de adolescentes dali assassinados pela polícia. ‘Lembram do Vandinho? E do Jackson da D. Nenê? [nomes fictícios]. Estamos aqui em nome deles, pela memória deles!’. Valdênia falava com propriedade, conhecia os meninos, suas mães e suas histórias. Era muito respeitada na favela.

O evento lançaria um relatório da Anistia Internacional sobre o policiamento em ‘comunidades’ no Brasil, chamado ‘Eles entram atirando’. As pessoas foram chegando; entre moradores e ‘gente de fora’, já éramos quase cem. A roda crescia e um grupo de samba do Centro de Defesa dos Direitos de Crianças e

Adolescentes (Cedeca) dava o tom. Valdênia começou então a convocar os presentes para fazerem

depoimentos públicos: duas vítimas de violência

policial, depois o coordenador das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) do distrito; em seguida o presidente de honra do CDHS, uma militante do Rio de Janeiro, outra de São Bernardo do Campo e mais uma de Guarulhos. Parentes de vítimas de violência policial de várias cidades brasileiras estavam ali. Um pastor da igreja evangélica também compareceu; representantes do movimento dos sem-teto e de diversas entidades civis de defesa de direitos foram anunciados. Por último, anunciou-se a presença de uma série de parlamentares, todos do Partido dos Trabalhadores (PT): um vereador, dois deputados estaduais e dois federais. Cada uma destas pessoas sentou-se numa roda em torno de milhares de cartas espalhadas pelo chão, que narravam casos de violência policial do mundo todo. Cada um fez uma intervenção curta, seguida de aplausos. A cena era tocante.

Pensei comigo, escrevendo essas notas: Valdênia era o único elo de relação entre toda aquela gente. Eu mesmo estava ali por seu intermédio." (Notas de campo).

Nas últimas três décadas, as ações coletivas de moradores das periferias de São Paulo e de outras grandes cidades brasileiras ocuparam invariavelmente um espaço normativo de mediação entre a população mais pobre da cidade, de um lado, e o mundo das instituições políticas, de outro. O evento na Favela do Madalena e a função nele desempenhada por Valdênia expunham com clareza essa condição. Entretanto, se o lócus de atuação dessas ações coletivas permaneceu o mesmo desde os anos 1970, o sentido da mediação que desempenham modificou-se radicalmente, desde então. Ao menos duas linhas de transformações, associadas, sintetizam essa mudança. De um lado, a da transição do regime político dos anos 1980, que nos anos 1990 inseriu subalternamente os movimentos sociais das periferias na política institucional; e, de outro, a transformação expressiva no perfil da população dessas periferias nas últimas décadas, que questionou a capacidade representativa daqueles atores.

A aposta deste texto é que o estudo da trajetória mediadora de uma dessas ações coletivas permite colocar essas duas linhas de transformação em relação, iluminando as fronteiras (ou margens) da política contemporânea no Brasil1. O artigo toma a trajetória de mais de duas décadas do Cedeca Sapopemba, uma entidade de defesa de direitos da periferia leste de São Paulo, como objeto heurístico dessa reflexão. Argumento que essa relação entre periferias e mundo público foi historicamente marcada pelo conflito. O percurso desse conflito, bem como de suas formas de contenção a partir dos anos 1970, faz ainda hoje coexistirem na cena pública três dispositivos distintos, que na linha do tempo tiveram ênfases sucessivas: 1) a luta política, cuja lógica interna remeteu à aposta nos direitos da cidadania, central nas ações dos "movimentos sociais" dos anos 1980 e início dos 1990; 2) a gestão social, gerenciamento estatal e não governamental de populações específicas das periferias, muito presente na lógica interna dos "programas sociais" a partir de meados dos anos 1990; e 3) a violência, presente ou latente na repressão policial às periferias e regulada hoje, sobretudo, pelo próprio "mundo do crime", em expansão nas periferias da cidade. A diferenciação entre os dispositivos, aqui, é meramente analítica: pretende conferir inteligibilidade a dinâmicas que coexistem, com centralidade sucessiva, na trajetória do Cedeca. A argumentação do texto está amparada em etnografia realizada entre 2005 e 2009 no distrito de Sapopemba, zona leste de São Paulo2.

Como se sabe, há trinta anos o mundo político brasileiro gravitava em torno de um regime ditatorial e, portanto, refratário por definição à participação política pluralista. Ao mesmo tempo, a modernização e o pleno emprego industrial daquele período conhecido como "milagre econômico" atraíam milhões de migrantes de todo país para as periferias das metrópoles. O perfil da população que ocupou essas periferias foi, por essas duas razões, majoritariamente migrante e centrado na família extensa, cuja expectativa era "melhorar de vida" na cidade. A coesão social dessa população se ancorava nos valores católicos e no projeto de mobilidade social ascendente pelo trabalho industrial3. A demanda por integração social e representação política dos interesses desses trabalhadores era intensa, embora reprimida. A promessa pública, no entanto, era a de que a modernização do país inscreveria essas "classes trabalhadoras" na dinâmica salarial, e que a contrapartida social do assalariamento, o acesso a direitos sociais, geraria melhoria objetiva nas condições de vida das famílias.

Para que a promessa se efetivasse, no entanto, não bastava apenas o esforço privado do provedor da família. Era preciso garantia estatal do emprego e dos direitos a ele associados; portanto, exigia-se que um projeto político estivesse associado ao projeto familiar operário. Não por acaso, percebeu-se logo a necessidade de constituição de ações coletivas para representar essa gente: os "novos movimentos sociais" das periferias emergiram, desde o final dos anos 1970, como portadores desse anseio de integração da "classe trabalhadora" na dinâmica da "cidadania" que se anunciava renovada pela abertura do regime4.

Mais de três décadas depois, esses parâmetros da experiência coletiva das periferias urbanas se deslocaram substantivamente5. Do ponto de vista político-institucional, lá se vão 25 anos de regime formalmente democrático e do estabelecimento de um sistema ampliado de participação civil nas políticas públicas a "inovação institucional" da "democracia participativa" brasileira foi enormemente debatida na academia6. Sob o prisma da dinâmica social das periferias, entretanto, as transformações (também nada triviais) são bem menos comentadas. As três últimas décadas foram palco de um câmbio geracional que, concluído, demonstrou uma mudança expressiva nos pilares da vida social desses territórios. Quem reside hoje nas fronteiras da cidade não é mais migrante, é "paulistano". Meus interlocutores de pesquisa com menos de 30 anos se dizem comumente "nascidos e crescidos aqui na zona leste mesmo"; "aqui no Madalena". A organização de suas famílias, mais tipicamente urbanas, também respondeu à tendência de transformação intensa7. No plano religioso, em apenas duas décadas milhões de católicos transitaram à teologia neopentecostal, bastante conectada às transformações em curso nesses territórios8. A capacidade de consumo, já não diretamente vinculada à renda pela expansão do crédito popular, aumentou muito mesmo nas favelas9. Novas tecnologias de informação favoreceram a conexão dos moradores jovens das periferias a espaços de construção identitária renovados, e acesso a universos inimagináveis há alguns anos10.

Oferecendo pano de fundo a essas transformações está o deslocamento no centro de gravitação do projeto operário: o trabalho industrial, radicalmente modificado pelo que se convencionou chamar de "reestruturação produtiva". Crises severas do emprego, sobretudo nos anos 1990, e a estabilização do desemprego estrutural forçaram mudanças significativas do mercado de trabalho popular. Se em 1970 era fácil conseguir um emprego fabril, em 2010 esse emprego é escasso e exige alta escolaridade, além de especialização e flexibilidade; ainda assim, quem chega a ele em geral ocupa postos terceirizados e pouco estáveis. O espaço da fábrica que antes, pela sindicalização crescente, favorecia a construção de identidades e ações coletivas, se traduz nos anos 2000 em espaço competitivo por incentivos seletivos.

A promessa de mobilidade social operária se traduziu, já em época toyotista, no sucesso de uma pequena elite das periferias que apostou no sobretrabalho e na formação escolar dos filhos como alavancas de ascensão à classe média11. Para a grande maioria dos filhos de operários fordistas que encontro em pesquisa, entretanto, a contrapartida social do assalariamento nunca chegou12. Diversas investigações recentes entre jovens moradores das periferias encontram mais frequentemente trajetórias de inserção ocupacional instável, sobretudo no setor de serviços ou em empregos terceirizados. Nas franjas desse mercado de trabalho, aparecem os trabalhos liminares entre o formal, o informal e o ilícito13. Sobretudo entre os moradores de favela, os mercados que se expandem são não apenas desprotegidos, caso da terceirização industrial a domicílio ou da catação de materiais recicláveis, como frequentemente ilegais, caso do varejo de drogas ilícitas. Nesse cenário, o "mundo do crime", antes considerado o oposto diametral dos "trabalhadores", surge recentemente como a atividade melhor remunerada e com alta disponibilidade de "postos de trabalho" para jovens de favela. Além disso, "o crime" passa a ser legitimado progressivamente como instância normativa e fiscal das regras de convívio14.

Em suma, na etnografia em favelas e periferias da cidade tem sido possível reconhecer impactos causados tanto pelas mudanças na institucionalidade política quanto no mercado de trabalho, na família, na religiosidade, no consumo e no projeto de mobilidade social. Em meio a essas transformações, entretanto, a desigualdade entre pobres e ricos atravessa as três últimas décadas intocada. A frustração da perspectiva de "integração" social da população desses territórios na dinâmica de "desenvolvimento" do Brasil é, portanto, inevitável. Nessa frustração, assumida como "realidade" pela geração jovem, é todo um projeto coletivo que deve ser revisto15. E quando o projeto coletivo de "estar no mundo" se modifica, os atores tradicionais de representação desse projeto, como os movimentos sociais, são postos em questão. Se no cenário anterior a mediação das demandas das periferias ao mundo público podia ser feita por um dispositivo de tipo político os "encaixes" entre movimentos sociais e as instâncias estatais de garantia de direitos , a revisão dos conteúdos do projeto coloca em cena, e como protagonistas, outros dispositivos de mediação. Analiso aqui dois deles: a gestão social e a violência.

Se o risco do gerenciamento de populações já estava previsto nos debates em torno da inserção dos movimentos populares no sistema político e, ademais, desde Foucault (2008) , a "expansão do mundo do crime" aparece nos anos 1990 como elemento novo nesse cenário normativo. A lógica instrumental do uso da força reaparece, em plena "democracia", muito intensamente nas relações internas às periferias, a "violência urbana" se torna representação coletiva nas cidades e as taxas de homicídio explodem. Ora, não é necessário dirimir conflitos pessoais pelo uso da força privada, no limite letal, quando indivíduos se sentem inscritos numa ordem regida pelo direito; poder-se-ia recorrer à força pública, que numa ordem assim significaria proteção. Os relatos obtidos em pesquisa de campo, entretanto, partem do pressuposto contrário: pela experiência (em dimensão portanto anterior mesmo à consciência), sabe-se que as polícias não protegem a favela. Assim, seus moradores têm de se proteger por conta própria. A disseminação do uso privado da força não encontra outra explicação mais convincente. A expansão da violência interpessoal e sua especialização recente nas favelas de São Paulo, nas quais tribunais conduzidos pelo "mundo do crime" são legitimados como operação de justiça, parecem-me, pois, intimamente relacionadas à frustração do projeto de inscrição dos "trabalhadores" no mundo do direito16.

Na virada do século, a corda estica. De um lado, tenta-se afrouxá-la pela ampliação das políticas compensatórias e de gestão da segurança, dos territórios e das populações, em geral na forma de convênios entre governos e organizações civis de base muitas vezes antigos movimentos sociais para a implementação de "projetos sociais": profissionalização, apoio familiar, atividades culturais etc. De outro, amplia-se a repressão nas fronteiras, tensionando as margens de filiação social e política e fazendo emergirem nelas mais e mais "suspeitos". O encarceramento de jovens adultos das periferias de São Paulo cresceu quatro vezes desde meados dos anos 199017.

O texto que segue apresenta a trajetória do Cedeca, uma ação coletiva originada em Sapopemba que, há mais de duas décadas, atua nessas tensões entre política, gestão e violência na zona leste de São Paulo. A narrativa do percurso da organização está dividida em quatro partes. Na primeira, contextualizo as origens do Cedeca como movimento popular, na reivindicação basista de garantia de direitos aos moradores do bairro. Na segunda parte, já em período pós-ditadura, aparece sua aposta na inserção institucional e os limites políticos que ela apresenta: a obtenção de convênios de atendimento situa a entidade, ao longo dos anos, numa posição subalterna de "burocracia de base" dependente de governos; as atividades de gestão se expandem na medida em que decresce a autonomia reivindicativa e a garantia dos direitos dos atendidos. Como reação a esse processo, na terceira parte da trajetória narro a tentativa de reativar as ações movimentistas do Cedeca, já nos anos 2000. Para tanto, cria-se outra figura jurídica o Centro de Direitos Humanos de Sapopemba , que daria suporte político a um novo ciclo de protestos, especialmente voltado contra a violência policial nas favelas do distrito. A quarta parte da narrativa apresenta, então, a principal consequência dessa nova atitude: um ciclo de perseguições, ameaças, atentados e exílios de Valdênia, a principal ativista da organização. As notas finais propõem um diagrama de compreensão das relações entre as periferias e o mundo público no Brasil contemporâneo, em que coexistem a política, a gestão social e a violência.

Cedeca e CDHS: uma trajetória

Origens: a aposta nos direitos

Nascido no Parque Santa Madalena em 1991, o Cedeca foi consequência de quase duas décadas de atuação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) no distrito, inspirada na "opção preferencial pelos pobres" característica da teologia da libertação. Sua fundação, amparada pela aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente no ano anterior, já significava um passo avançado na "luta política" dos movimentos populares: sua inscrição na gestão político-institucional, que se aprofundaria na década seguinte. Os quadros da organização, por isso, já contavam em seu nascimento tanto com militantes de base, moradores do bairro e religiosos, quanto com advogados, psicólogos e assistentes sociais profissionais. Antes mesmo de existir formalmente, entretanto, o Cedeca dava seus primeiros passos inspirado pela Campanha da Fraternidade (da CNBB) que, em 1987, teve como tema o "menor"18. A "comunidade" católica de Sapopemba, organizada por padres combonianos, resolveu encampar o tema pautando publicamente a situação de adolescentes do bairro inscritas em circuitos de exploração sexual nas ruas do centro da cidade. Propuseram-se, evidentemente, a "tirar essas meninas da rua". Aos 20 anos, Valdênia capitaneou a iniciativa de criar uma casa de acolhida para essas adolescentes no bairro. Ela própria se mudou para a "Casa das Meninas", como os militantes a chamavam ou a "Casa da Luz Vermelha", como a apelidara o estigma no bairro para iniciar o trabalho.

Dessa atuação de Valdênia e de um grupo de amigos do bairro, alguns anos depois nasceu o Cedeca. Mais ampla agora defendia quaisquer meninos e meninas de Sapopemba que tivessem seus direitos violados , a entidade já nascia tratando especificamente da questão da violência. O próprio nome do Cedeca, "Monica Paião Trevisan", homenageia uma das moradoras da Casa das Meninas, assassinada e esquartejada no final dos anos 1980. Reconhecia-se, no período, que a ação fundamental daqueles militantes era conhecer histórias de privação e violência nas favelas do bairro para denunciá-las em espaços ampliados de articulação política. A publicização da privação ativaria a interrupção do ciclo de violência nesses territórios. As redes dos movimentos sociais do período, em transformação, ainda favoreciam articulações internas e o Cedeca se beneficia delas19. Um evento político narrado por Valdênia, ainda em 1988, dá ideia da dimensão que essa teia de contatos ainda se sustentava no período da Constituinte.

Era época de votação das emendas [à Constituição de 1988]. De todas as articulações feitas, houve vários movimentos da área da infância, em vários estados, e em São Paulo os meninos ocuparam a Sé. E do escritório da Pastoral do Menor, que ficava ali no prédio das Edições Paulinas, na praça da Sé, nós ligamos direto no Congresso para o Hélio Bicudo. Eles ligaram o autofalante do Congresso, durante a votação do artigo 227, e a garotada gritava da Sé! (Valdênia).

A operação simbólica de tradução política das privações, própria das narrativas dos movimentos sociais do período, é evidente: o movimento reunia as vozes dos meninos de Sapopemba àquelas de seus pares, outras tantas crianças e adolescentes brasileiros privados de direitos fundamentais, e daí carreava suas falas ao espaço público-político. A pressão de escutar as vozes dos meninos, naquele contexto de transformação do Congresso Nacional, "arrepiava até os mais conservadores". Essa tradução simbólica traça uma linha de relação, recuperada aqui como nexo analítico, entre o menino da favela e o espaço público-político. Sendo por definição uma relação difícil e efêmera, apostava-se na lei o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o artigo 227 da Constituição etc. como uma forma de conferir-lhe estabilidade. O centro da atividade política dos movimentos sociais do período encerrava-se nessa aposta (Feltran, 2005; 2007).

Nota-se, entretanto, que o Cedeca já foi fundado como um movimento de segunda geração. Se o discurso dos militantes preserva o basismo dos movimentos dos anos 1970, a estruturação das atividades institucionais estava longe da subversão passível de repressão oficial: ela já era prevista em lei20. Se os movimentos pioneiros exigiam a abertura de canais de participação no Estado, o Cedeca já era fruto da "democracia participativa". Se os primeiros queriam derrubar o regime, agora tratava-se, acima de tudo, de fazer cumprir a lei. Tentava-se inscrever o mundo dos adolescentes de favela no universo dos direitos e da democracia, já formalmente assegurados. O equacionamento da questão da violência era bastante peculiar naquele contexto: apostava-se que o "ciclo de violência" no qual os adolescentes atendidos estavam inscritos, nas favelas em que viviam, era fruto da privação de direitos. Esse ciclo seria superado pela aproximação desses sujeitos a uma arena pública em que a medida de existência do indivíduo fosse o direito. Sendo operadores dessa aposta, as ações coletivas como o Cedeca consideravam fundamental aos seus propósitos a articulação de um campo de pressão pela efetivação da cidadania. Os militantes, por isso, deixavam Sapopemba frequentemente para circular no ambiente sindical, partidário e religioso das esquerdas, agrupadas em São Paulo em torno do PT, que oferecia conteúdos programáticos ao campo movimentista. Em 1988, esse campo já obtivera sua primeira vitória significativa, a eleição de Luiza Erundina à prefeitura de São Paulo, sustentada basicamente pelos movimentos das periferias da cidade. O Cedeca já nascia, assim, em cenário extremamente favorável à obtenção de recursos para atendimento direto de meninos e meninas de Sapopemba. Passaria a atuar, na década seguinte, tanto nesses atendimentos quanto em conselhos setoriais de gestão das políticas para a infância e adolescência do município21.

Inserção institucional: a expansão da gestão

A ação coletiva que fundara o Cedeca consolida sua identidade institucional ao longo dos anos 1990. Os princípios da atuação movimentista seguiram operando; no entanto, inserida na lógica das políticas sociais, a perspectiva mais politizada própria de suas origens se traduz, paulatinamente, na consolidação de uma expertise técnica. O Cedeca se tornaria, no final da década de 1990, fundamentalmente um espaço de referência inclusive nacional doatendimento a adolescentes das periferias inscritos no "mundo do crime". A tradução de uma ação coletiva reivindicativa rumo a uma organização que executa políticas sociais foi paulatina.

Como outros Cedecas22, a entidade tendeu à especialização na questão do "adolescente em conflito com a lei" (ou "autor de atos infracionais"). Trata-se daquele indivíduo que, tendo cometido infrações à lei e sido detido pela polícia, já foi julgado, condenado e encaminhado oficialmente pela justiça para o cumprimento de uma "medida socio-educativa"23. Acompanhei esse atendimento, realizado pelo Cedeca para as medidas "em meio aberto", em pesquisa de campo. Descrevi com detalhe suas rotinas nas quais estão em pauta as interações entre profissionais, adolescentes e famílias atendidas, coordenação e equipes, Cedeca e governos; e, portanto, entre os distintos desenhos normativos do atendimento e a complexidade política que os acompanha (Feltran, 2008). Neste texto, será possível apenas apresentar uma síntese analítica desse estudo: em organizações sociais como o Cedeca, o que se chama atendimento consiste na tentativa de aproximar as representações do jovem favelado às do sujeito de direitos, a partir da articulação de uma tríade de conceitos: o vínculo, o encaminhamento e arede de proteção.

O vínculo sintetiza a condição primeira e fundamental do atendimento. Em pesquisa, a atividade do Cedeca já me foi descrita como uma "pedagogia do vínculo". Trata-se do estabelecimento de uma relação específica entre o "educador social" (profissional contratado da entidade) e o adolescente atendido. De característica ao mesmo tempo pessoal e profissional, o vínculo supõe idealmente uma relação desigual: teria conteúdos técnicos na perspectiva do "educador", que manteria um "distanciamento profissional" em relação ao atendido, e de confiança pessoal na perspectiva do adolescente, que se engajaria assim nas atividades propostas. É consenso, entretanto, que o vínculo se ampara em relações densamente pessoais. Fundamentalmente privadas, essas relações conformariam o primeiro passo do adolescente favelado rumo ao mundo público do direito. A pressuposição, portanto, é a da desvinculação prévia entre esses mundos (o do "educador" e o do "adolescente"), exposta nadesconfiança, que aparece como sentimento prévio à relação e conforma a alteridade inicial do encontro24.

Sem o vínculo, o adolescente permaneceria, portanto, alheio ao direito. Construído o vínculo, ele pode ser encaminhado à esfera das garantias públicas. Se o "educador" é a linha de frente do atendimento, em sua retaguarda há psicólogos, assistentes sociais e advogados, que organizam o encaminhamento específico de cada caso. Esses "técnicos" (como são chamados) estudam a situação de cada menino e a partir de um repertório de atividades de educação, saúde, esporte, profissionalização, cultura e acesso à justiça, que responderiam às demandas prementes de seu caso, tentam ativar para ele espaços de chegada na chamada rede de proteção social. O Cedeca seria, portanto, idealmente um lugar de triagem e trânsito de demandas a esferas sociais e políticas mais amplas, um portal de acesso dos jovens às garantias legais do ECA. Nem tudo é assim tão simples, entretanto.

"Há muita contradição no trabalho, não é? Numa realidade como esta, ou como qualquer outra periférica em que o menino está em situação de medida socioeducativa, você não tem muito a oferecer. Você vai encaminhar para um curso, a escolaridade dele não permite. Isso sem contar que eles só falam gíria e muitos deles são tatuados, então ninguém quer receber. E eles estão muito próximos dessa rede do crime, que hoje dá uma grana muito boa… se você pegar aí uma média [de remuneração individual], é de mil reais por mês. É muito dinheiro. E você não consegue uma bolsa que ultrapasse duzentos. A escola também não quer ele… Ela diz que ele não tem perfil, que não se enquadra, que ele é rebelde, tudo cai sobre os meninos da medida, ‘os LA’. Você não tem uma rede de saúde que permita fazer um diagnóstico de por que é que ele usa tanto a droga, por que a droga seduz tanto, você não tem. Você não tem uma clínica, você não tem nada que permita que esse menino possa sonhar ou buscar outra coisa. Então é muito complicado o trabalho." (Roberta, então coordenadora do Cedeca).

O depoimento expõe a fratura. E se confirma pelos anos de observação. O desenho normativo da política de atendimento que convenia o Cedeca encontra obstáculos em dois níveis: num primeiro, propriamente político, percebe-se que a rede de proteção social não funciona, ou melhor, que ela não existe como tal. A oportunidade de emprego exige ficha de antecedentes criminais, o posto de saúde não oferece tratamento para dependência química, o curso de informática é caro, a escola já expulsou aquele menino uma vez, os aprendizes em seleção pela Embratel devem ter o ensino fundamental completo. Na hora da entrevista, o menino só falou gíria. No primeiro dia na Frente de Trabalho, achou o serviço muito pesado. Quando preencheu a ficha do serviço militar, disse que não era voluntário. No exame físico, as tatuagens o barraram. Abandonou a Prestação de Serviços na escola, teve vergonha de varrer o pátio na frente dos colegas. Faltou à audiência no fórum, "vacilo"…

Quando o menino não é encaminhado para a "rede de proteção", o "crime" o desencaminha, como me disse um educador. Foi ao shopping depois de um assalto e torrou mil reais numa tarde. Varou a noite na viela fumando "uns baseados". "Deu fuga" a 120 km/h. na Avenida Sapopemba. Foi ontem "no salão" com a Patrícia. "Pegou" um carro com uma sanfona dentro, vendeu por cinquenta reais. Desceu para a praia em meia hora, numa 1100 (cilindradas, moto esportiva). As frases de caderno de campo, como o depoimento da então coordenadora do Cedeca, dão ideia da disputa simbólica entre os estímulos que um adolescente recebe para se vincular ao atendimento do Cedeca e aqueles que tem para permanecer no "crime".

As consequências dessa disputa na função mediadora do Cedeca são inevitáveis. Para estabelecer o vínculo inicial do atendimento, e sem poder encaminhá-lo, os técnicos têm que criar, no próprio âmbito interno à entidade, atividades que seduzam os adolescentes. É preciso ter ali "atividades" a oferecer: cursos de grafite, viagens à praia, apoio de advogados, oficinas de cavaquinho, sempre amparadas por "bolsas-auxílio" vinculadas à frequência. Ao mesmo tempo, se não for possível enviar o adolescente dependente do crack para um serviço especializado, há uma psicóloga na entidade que pode reunir famílias com problemas similares num grupo e dedicar parte de sua semana a isso. Se o programa de proteção a indivíduos ameaçados não é acessível, os técnicos da entidade auxiliam a família a se mudar para a casa de um parente. Se não há vagas gratuitas para o curso de informática, o Cedeca pode alocar dez computadores doados na salinha do fundo. Um funcionário pode dar aulas à noite, como voluntário. Se os cursos do Senai exigem escolaridade elevada, com recursos da cooperação internacional pode-se montar uma padaria comunitária, um pouco menos equipada.

Assim, o Cedeca se insere num ciclo muito comum entre as entidades sociais das periferias contemporâneas: as organizações tendem a reproduzir internamente, por meio de convênios, o que falta na rede de proteção externa. Elaboram-se projetos de novos atendimentos, que geram novas estruturas de gestão (e nunca suprem sequer a demanda do bairro). Com o tempo, esses atendimentos passam a integrar o organograma da entidade. A pressão por ampliação desses atendimentos se traduz, então, numa pressão por expansão do âmbito gerencial da organização. Mais projetos a escrever, mais gente a contratar, rotinas mais complexas e burocráticas a gerir. Em 1991, o grupo de fundadores do Cedeca comemorou a doação de uma casa para iniciar seus trabalhos. Quando cheguei a Sapopemba, em 2005, esse grupo fundador já administrava cinco núcleos de atendimento no bairro. Em 2008, e a despeito da franca oposição do Cedeca à administração municipal, principal responsável pelo financiamento, seu atendimento já estava desdobrado em nove núcleos. As atividades dessas entidades, espalhadas pelo mapa do distrito, já envolvem hoje plantão jurídico, psicológico, educação de rua, acompanhamento de medidas socioeducativas, apoio familiar, grupo de mães, atividades culturais, atendimento a deficientes físicos, marcenaria, padaria, cabeleireiro, projetos ambientais, qualificação profissional, entre muitas outras.

Cada uma dessas atividades é mantida por um "convênio", firmado junto a governos ou ao chamado "terceiro setor". Sempre amparados por "projetos", esses convênios duram de alguns meses a dois anos, e a intermitência do repasse de recursos é sua marca distintiva. Sempre que cheguei ao Cedeca para um novo período de trabalho de campo, nesses cinco anos, projetos haviam deixado de existir, projetos haviam sido criados e a dificuldade dos encaminhamentos era mais notável.

Mesmo porque a expansão de uma entidade social, como de uma família ou empresa, significa a expansão de seu orçamento. Não necessariamente, entretanto, o número de atendimentos se amplia, pois captar recursos passa a ser prioridade até para manter os empregos de quem, com esforço, conseguiu fazer da militância uma garantia profissional. As atividades de escritório passam a tomar mais tempo; é preciso gerenciar toda a máquina de atendimentos ao mesmo tempo em que se planeja o ano seguinte, e o ciclo gerencial não tem fim. A consequência desse ciclo para as atividades políticas da organização é evidente. A expansão gerencial, nascida da dificuldade de mediar o trânsito ascendente das demandas dos jovens ao mundo público, inscreve o Cedeca em fluxo de vetor oposto. Dependente dos financiamentos, a entidade passa praticamente apenas a executarprojetos cuja pauta é decidida nos editais criados pelos financiadores.

A tendência ao crescimento de organizações como o Cedeca, regular especialmente nas periferias mais consolidadas de São Paulo, desperta uma série de questões analíticas. A literatura já tratou dos contextos externos que condicionam esta expansão profissionalização, setorialização, competição por recursos, "onguização" e tecnificação do associativismo civil sob o marco das relações entre sociedade civil e Estado no período pós-autoritário25. Num outro registro, entretanto, é preciso notar que essa expansão, cuja justificação remete à garantia de direitos, representa de fato a contenção do público atendido aos limites internos às fronteiras das entidades comunitárias. O "projeto" cresce e os meninos, que seriam encaminhados para fora dos limites da organização, acabam circulando pelos núcleos dele próprio. Cria-se internamente um ambiente em que são acolhidos, mesmo que precariamente; ainda assim, é melhor do que fora dali, onde são estrangeiros. Fronteira. Os limites orçamentários impostos pelos convênios criam, portanto, um espaço de ação social específico destinado aos jovens pobres e apartado de circuitos mais amplos. Se o menino não está em prisão ou em entidades de privação de liberdade (unidades de internação, clínicas de desintoxicação ou de saúde mental, abrigos etc.), ele fica contido neste circuito, o dos "programas sociais".

No início dos anos 2000, os limites que essa expansão burocrática do Cedeca trazia foram se tornando evidentes. Estabeleceu-se entre a equipe técnica um conflito que opunha o grupo de militantes fundadores, que apostava num "Cedeca movimento social", e o grupo de funcionários contratados (técnicos das políticas sociais), que enxergavam a organização como um espaço de atendimento, portanto de atuação profissional. O primeiro grupo construía a imagem do Centro de Defesa como uma instância político-representativa da população do bairro: o Cedeca deveria agir como sujeito político, carrear demandas de meninos favelados a espaços públicos26. O segundo considerava o Cedeca como instância capilar de atendimento das políticas sociais, aquela que executaria a demanda técnica dos programas estatais ou privados, não importa, junto ao seu público-alvo27. A tensão entre os grupos se manteve latente até a solução pacificadora ser tomada. Se os convênios são vitais para manter os atendimentos, se os atendimentos exigem formação técnica e se o Cedeca já está inserido em sua lógica, não seria o caso de tentar reverter o quadro. A inércia tendencial de quase duas décadas de evolução institucional já seria difícil de frear. Há, entretanto, que fazer coexistirem o atendimento e a ação política. Para tanto, considerou-se ser preciso criar uma outra organização, de características distintas do Cedeca dos convênios.

Retorno à ação política

Daí nasceu o CDHS, Centro de Direitos Humanos de Sapopemba. A ideia inicial não era a de uma divisão estanque, em que o CDHS fizesse política e o Cedeca a gestão dos atendimentos. No entanto, nos cotidianos do endereço que as entidades compartilham no Parque Santa Madalena, essa divisão de tarefas se processou sem muito alarde: o CDHS herdou, para sua equipe, quadros mais combativos e politizados, além de ter, por não assinar convênios, mais autonomia frente ao Estado para lançar ofensivas no debate público; o Cedeca permaneceu negociando os repasses de verba de convênios com os governos e fazendo atendimentos. Ambos passaram a atuar, portanto, de modo complementar entre ação política e gestão social. Os principais militantes fundadores do Cedeca, entre eles Valdênia, passaram a se dedicar ao CDHS a partir de 2001, e prioritariamente a ele depois de 2003. Quando cheguei a Sapopemba para iniciar minha pesquisa, Valdênia deixava definitivamente a coordenação geral do Cedeca. Desde 2003, o CDHS progressivamente assumiu a tarefa de articular os movimentos de base do distrito, realizar a formação de novas lideranças, promover audiências públicas de denúncia que traziam autoridades do Estado à favela e formular ações judiciais das "violações de direitos" ocorridas no bairro. Reagindo aos constrangimentos da gestão, e ampliando o escopo de atuação do Cedeca por também defender direitos de adultos , o CDHS manteve uma equipe profissional mínima, de característica combativa e remunerada por financiadores politicamente afins28. A estratégia mostrou-se acertada. Um novo ciclo de ações públicas dos militantes de Sapopemba iniciou-se já nos primeiros anos da década, e se consolidou a partir de 2005. O tema eleito para esse ciclo de protestos foi a violência policial, e as ações públicas da entidade alcançaram impacto político relevante nos anos seguintes. "O CDHS gosta de mexer no vespeiro", disse-me uma de suas militantes.

O repertório contemporâneo de modalidades de ação política do CDHS discutido com mais vagar por mim em outro texto (Feltran, 2010b) elabora um continuum que, num polo, produziu ações autônomas de pressão de governos e da opinião pública nos moldes dos antigos movimentos de protesto e, no polo oposto, propôs ações institucionalizadas, internas ao sistema jurídico-político, nos moldes típicos das ações coletivas dos anos 1990 e 2000. Esse repertório respondia, de um lado, à efemeridade das ações de protesto e, de outro, ao enrijecimento contemporâneo dos canais de participação social na política instituídos pós-Constituição de 1988. A forma mais celebrada da ação política desse movimento no período foi a das "audiências públicas na favela", justamente a que propõe mais radicalmente a mediação entre a população favelada de Sapopemba, que o CDHS quer representar, e o sistema político institucional, do qual ele já é um ator instituído (e subalterno). Promotores, advogados, comandantes de polícia, deputados federais e mesmo o Procurador Geral do Estado chegaram a participar desses eventos, sempre dentro das favelas do bairro. O CDHS cumpria sua tarefa e todos estavam motivados.

Ação política, reação violenta

Mas a história não termina assim, nunca. O ciclo de denúncias políticas lançado pelo CDHS gerou reaçõesviolentas, tanto de policiais denunciados por abusos, quanto de setores do "mundo do crime" local. A partir do estabelecimento desse ciclo intensificaram-se as ameaças de morte a Valdênia, que já forçaram quatro exílios no exterior durante esta década; por medidas de segurança, ainda hoje ela não revela seu endereço nem guarda fotos de seus familiares em casa. Até meados de 2008, quando se mudou definitivamente de Sapopemba, a militante franzina permanecia sob proteção da Secretaria Nacional de Direitos Humanos.

Em sua carreira militante, a cronologia da repressão sofrida por Valdênia é longa. Dois episódios de violência sexual por retaliação a denúncias realizadas e algumas prisões em manifestações políticas já estavam em seu currículo quando fundou o CDHS. Entretanto, comprou suas maiores brigas levando adiante as denúncias de violência policial nas favelas de Sapopemba. Foram três casos de execuções sumárias cometidas por policiais, denunciados entre 1999 e 2003, e um começo de década sob intensas ameaças de morte. Nessa mesma época, chegou a sofrer dois atentados e teve de se exilar no exterior durante três períodos. Valdênia foi a primeira defensora de direitos humanos oficialmente protegida pelo Governo Federal e seu caso mobilizou atores nacionais e internacionais da área: Anistia Internacional e a Secretaria Nacional de Direitos Humanos, além de inúmeros jornalistas de países diferentes. A resistência na militância, mesmo sob repressão, fez dela uma referência entre movimentos da área. Diversas organizações civis, frentes parlamentares de direitos humanos e governos, nos níveis municipal, estadual e federal, lhe prestaram homenagens29. Entre 2004 e 2007 as ameaças diminuíram.

Em setembro de 2007, época em que eu compilava dados sobre sua biografia para minha investigação, liguei a televisão à noite e a primeira imagem que me apareceu foi a de Valdênia. Tive tempo suficiente para ouvir sua última frase e já soube do que se tratava. Uma adolescente de Sapopemba, que cumpria medida socioeducativa no Cedeca, havia sido estuprada por seis policiais no Jardim Elba. O CDHS havia denunciado formalmente o caso em janeiro daquele ano; Valdênia havia acompanhado o andamento do processo e dois dos acusados tinham sido presos. Intimidações pessoais e novas ameaças culminaram com o episódio da reportagem de televisão o nome de Valdênia havia sido encontrado, pela polícia, numa suposta lista de colaboradores do PCC (Primeiro Comando da Capital, principal facção criminosa de São Paulo), em um ponto de venda de drogas30. A informação foi divulgada pela grande imprensa31 e teve que ser desmentida depois:

"Coordenador do Programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, Fernando Matos esteve ontem em São Paulo para manifestar apoio à advogada Valdênia Aparecida Paulino, do Centro de Direitos Humanos de Sapopemba, na zona leste. Matos encontrou-se com autoridades paulistas e também definiu medidas para garantir a proteção da advogada e da entidade que ela preside. No dia 28, policiais da 3ª Companhia do 19º Batalhão da Polícia Militar disseram ter apreendido em uma boca de drogas do Jardim Sinhá, na zona leste, uma agenda onde estaria grafado o nome "Dra. Valdênia", com registro de valores de R$ 2 mil e R$ 3 mil. [...] Uma série de acontecimentos recentes levaram entidades de direitos humanos a suspeitarem da apreensão. Desde 1999, Valdênia já denunciou mais de 20 casos de arbitrariedades envolvendo policiais do 19º Batalhão na zona leste."

(O Estado de S. Paulo, 9/10/2007).

Um ato de desagravo à Valdênia foi imediatamente proposto por um parlamentar petista e mais de trezentas pessoas compareceram. A acusação dirigida a ela foi retirada. A intuição dos organizadores do ato é explícita: politizar a acusação diminui a chance da violência retornar. A dos acusadores também: criminalizar a ação política é um modo de circunscrever seus atores como sujeitos não legítimos. Nas ações judiciais relativas ao episódio ficou reconhecida a falsificação da lista e a tentativa de incriminar Valdênia foi punida: os suspeitos da fraude foram indiciados. Na institucionalidade, a democracia resguarda seus princípios. As ameaças não pararam, entretanto; extra-oficialmente, a violência prossegue mediando as relações. A sede do Cedeca e CDHS foi revirada pela enésima vez no final de 2007, e no ano seguinte. Em janeiro de 2008, Valdênia passou nova temporada no exterior; no final do ano mudou-se definitivamente de Sapopemba para iniciar vida nova longe de tudo aquilo, no interior do nordeste.

Faces de um mesmo conflito: política, gestão e violência

A partir dessas etnografias, tenho definido a política como o jogo de conflitos desencadeados na conformação da cena pública, em sua manutenção e transformação32. Essa noção geral precisa, entretanto, ser especificada quando se trata de um olhar analítico voltado para as margens da política contemporânea. Trajetórias como as do Cedeca auxiliam a tentativa, por demonstrar que, em mundos sociais como o brasileiro, cuja desigualdade é respaldada pelo funcionamento estatal, a política nunca se resume à disputa de poder em terrenos institucionais previamente demarcados (Estado, eleições, sociedade civil, políticas públicas etc.). No modus operandi dos atores, a pressuposição da desigualdade atravessa esses espaços e obriga a ação política a se repensar continuamente33. A política pressupõe nesses contextos, portanto, para além das disputas institucionais, um conflito anterior: aquele que se trava, no tecido social, pela definição dos critérios pelos quais os grupos sociais podem ser considerados legítimos (Ranciène, 1995). Só quem se legitima, e é legitimado, pode participar daqueles espaços. A construção da legitimidade social, portanto, está na base da constituição de um sujeito ou espaço público, e, portanto, do conflito político.

Sob o pano de fundo da trajetória narrada, pode-se perceber que a ação política não se limita às disputas entre ações coletivas constituídas em terrenos previamente demarcados (movimentos, partidos, conselhos, assembleias, prefeituras etc.) ou aos critérios do jogo democrático; ao contrário, a política nesse contexto se assenta também, e fundamentalmente, na disputa subjacente à própria instituição destes terrenos e sujeitos os militantes de favela têm de constantemente forjar sua aparição como sujeitos, lidando com fronteiras impostas pela gestão e, no limite, pela violência. Um evento público como o descrito na abertura do artigo pretende transformar o córrego canalizado da favela do Parque Santa Madalena numa arena de discursos políticos. No entanto, essa arena efêmera só aparece, e por isso é rara, se a ação coletiva que a sustenta tiver sucesso na construção de sua legitimidade tanto entre favelados quanto entre atores centrais do sistema político-institucional, ou seja, na mediação da relação entre a favela e os terrenos políticos instituídos.

Nada simples. Por isso trajetórias como as de Valdênia são objetos analíticos fundamentais sem elas, moradores e deputados federais não ocupariam aquele espaço comum, o que paradoxalmente dificultaria a análise explícita ali das fronteiras que os separam. Sem tal mediação política, não haveria a reflexão deste artigo. Sem a ação da advogada, o lugar da política teria se mantido no território dos especialistas, bem longe da favela, nos escritórios e prédios públicos em que homens de negócio e políticos profissionais decidem. Tenho trabalhado com a noção defronteira como categoria analítica para auxiliar a demarcação destas clivagens entre periferias e política, ou dasmargens da política. Ao mesmo tempo em que denota uma separação, a categoria fronteira preserva a possibilidade de fluxos, controlados, entre as parcelas separadas. A metáfora da fronteira interessa, ainda, por preservar a noção de conflito, latente como política ou gestão em condições de estabilidade da linha que a demarca, mas passível de se tornar violência caso se radicalize, como inúmeros eventos tem demonstrado34.

A demarcação de fronteiras nas margens da política sustenta a restrição da legitimidade de grupos inteiros da população às margens da cidade. A possibilidade de ações coletivas baseadas nesses territórios agirem politicamente, portanto, é desbastada de saída. A história do Cedeca, tal como contada aqui, não é mais que a narrativa dessa busca por legitimidade, que lhe emprestaria estatuto político. O que ela faz notar são as fronteiras de contenção ativa da legitimidade pública, tanto pela gestão "democrática" dos convênios feitos "para pobres" quanto pela violência. Sugere-se, assim, um tipo específico de coexistência, nos planos do regime político e da sociabilidade primária, entre ordenamentos de lógicas internas distintas: o primeiro é o código universalista dos direitos e da política; o segundo é o código técnico da gestão social da diferença; o terceiro é o código instrumental da violência. Todos parecem ser constitutivos da reprodução de uma dinâmica social marcada pela associação entre democracia institucional e extrema hierarquização. Nas últimas décadas, o modo de fazer estes códigos coexistirem foi limitar a vida política a uma parcela da população, que no entanto age, como é próprio da ação de dominação, como se representasse o todo social. Para deixar democraticamente uma outra parcela da população (aqueles que o Cedeca e o CDHS tentam representar) fora da cena pública, ativam-se simultaneamente os mecanismos de gerenciamento das populações e, no limite, de incriminação. Um "bandido", afinal, é o menos legítimo dos cidadãos.

1 Discuto a categoria analítica "fronteira" mais adiante e em Feltran (2008). Das e Poole (2008) utilizam a noção de "margens" do Estado moderno em sentido tanto descritivo quanto crítico, recuperando três usos recorrentes do conceito: margens da legalidade oficial; margens da legibilidade estatal (por referência à burocracia escrita); e margens da normalidade (relação entre corpos, lei e disciplina), tendo por referência o biopoder foucaultiano.

2 Sapopemba é um dos 96 distritos do município de São Paulo e faz fronteira com Santo André. São 300 mil habitantes em região de "periferia consolidada" da cidade (urbanização elevada e crescimento demográfico). Há 37 favelas no distrito e metade dos domicílios tem chefes de família com renda inferior a três salários mínimos.

3 A "família operária" e seus desdobramentos políticos foram estudados exemplarmente por Durham (2005) e Caldeira (1984).

4 Baierle (1992), Doimo (1995) e Paoli (1995) fazem revisões bibliográficas importantes sobre os movimentos sociais do período em São Paulo. Dagnino (1994; 1995) analisa especificamente o papel da noção de cidadania entre eles.

5 Marques e Torres (2005) compilam estudos recentes dessas transformações em São Paulo.

6 Dagnino e Tatagiba (2007) recuperam as linhas gerais desse debate na contemporaneidade.

7 Sobre família e religiosidade nos meios populares contemporâneos, ver Duarte e Helborn (2006) e Duarte e Gomes (2008).

8 Sobre o fenômeno neopentecostal, ver Almeida (2004; 2009).

9 Apenas no ano de 2009 as classes D/E ampliaram em 17% o consumo de produtos não duráveis e em 16,8% o de duráveis. O aumento, mesmo em ano de crise financeira, consolida tendência na década, acelerada nos últimos anos (Aragão, 2009).

10 As lan-houses representam a principal forma de acesso à internet no Brasil. Na última década, a indústria cultural e do entretenimento estabeleceu nichos de produtos voltados especificamente para os jovens das periferias (programas de televisão, sites de relacionamento, música, vestuário, acessórios etc.).

11 A geração é categoria analítica central na excelente análise do mundo operário de Beaud e Pialoux (2003; 2009).

12 As classes D/E ainda somavam 39% da população brasileira em 2008. Sobre a reestruturação produtiva no país, em perspectiva comparada, ver Guimarães (2009a; 2009b); sobre a frustração da promessa operária de mobilidade e a questão da violência, ver Machado da Silva (2004) e Misse (2006).

13 Ver Telles e Cabanes (2006), Ferreira (2003) e Guimarães (2004).

14 Discuto a emergência do "mundo do crime" como instância normativa da "justiça" nas periferias em Feltran (2008; 2010a).

15 Essa frustração é radicalmente notada em depoimentos, recorrentes na pesquisa entre jovens inscritos no "mundo do crime": "trabalhar para ser que nem o meu pai? Prefiro morrer cedo…".

16 Etnografias recentes demonstram que a queda das taxas de homicídio em São Paulo, nos anos 2000, se dá sobretudo por essa regulação interna ao "crime" (Feltran, 2010a; Marques, 2007; Hirata, 2009; Biondi, 2010).

17 A população carcerária do estado de São Paulo passou de cerca de 40 mil em 1996 para mais de 150 mil em 2008. Sobre a associação dos dispositivos assistencial e repressivo, ver Almeida, De Lucca e D’Andrea (2009).

18 Ver http://www.cf.org.br.

19 Embora esse cenário de articulações posteriormente tenha se transformado muito, como discuto em Feltran (2006).

20 "Art. 87 – São linhas de ação da política de atendimento: I – políticas sociais básicas; II – políticas e programas de assistência social, em caráter supletivo, para aqueles que deles necessitem; III – serviços especiais de prevenção e atendimento médico e psicossocial às vítimas de negligência, maus-tratos, exploração, abuso, crueldade e opressão; IV – serviço de identificação e localização de pais, responsável, crianças e adolescentes desaparecidos; V – proteção jurídico-social por entidades de defesa dos direitos da criança e do adolescente". (Brasil, 1990, grifo meu).

21 Relevante notar que essa inserção já segue a setorialização própria da gestão das políticas sociais estatais. Se uma década antes podia-se falar "do movimento popular" ou "do movimento de favela", passa-se a falar agora de "movimento de saúde", "movimento de moradia", "educação", "infância" etc. (Feltran, 2005; 2007).

22 Em 2008 havia nove Cedecas na cidade de São Paulo e outros quinze em diferentes estados do Brasil, articulados em torno de uma entidade nacional. Ver http://www.anced.org.br.

23 O ECA prevê as seguintes medidas socioeducativas: "i) advertência, ii) obrigação em reparar o dano; iii) prestação de serviços à comunidade; iv) liberdade assistida; v) semiliberdade ou vi) internação" (Brasil, 1990).

24 O papel social da entidade de atendimento seria, portanto, de mediação entre o universo privado (da interação face a face, mas também da favela, da violência) e o espaço público do direito (da cidadania, da democracia). Essa concepção do social é, por isso, inteiramente arendtiana (Arendt, 2003). Para a autora, entretanto, não há possibilidade da política nascer daí.

25 Um estado da arte dessa bibliografia está em Dagnino e Tatagiba (2007). Sobre a questão da representatividade dessas associações, ver Gurza-Lavalle, Houtzager e Castello (2006).

26 "Então, o que é que nós estamos falando: nós podemos ter o atendimento, mas esse atendimento tem que estar a serviço da ideologia e da visão da entidade. Porque alguns, até coordenadores, no ano passado falavam assim: ‘mas de repente a gente está com um planejamento na semana, aí tem que lotar ônibus e ir para manifestações políticas. Isso não é massa de manobra?’ Falei: ‘Depende. Se você está só ocupando a garotada, é massa de manobra. Mas se você vem trabalhando a conjuntura com essa garotada, sem perder de vista a vida real deles, não é massa de manobra. Isso é cidadania." (Valdênia).

27 "Você vai contratar um educador, tudo bem. Não tem nem problema se você quer contratar alguém da comunidade para dar uma chance à comunidade. Só que você tem que assumir a responsabilidade de contratar essa pessoa. Porque se essa pessoa não sabe trabalhar, com certeza vai ter alguém sobrecarregado. Entendeu? Agora, para chamar educador de educador, a priori essa pessoa tem que saber Paulo Freire de trás para frente e de frente para trás. Aí você pode começar a pensar em chamar o cara de educador." (Clarice, psicóloga contratada).

28 A principal fonte de financiamento do CDHS foi a cooperação italiana católica, que a rede de contatos com a Congregação dos Combonianos permitia.

29 Entre outras premiações, Valdênia recebeu da Câmara de Vereadores de São Paulo o título de Cidadã Paulistana e o Prêmio Nacional de Direitos Humanos, em 2003. Em 2005, recebeu o Prêmio Santo Dias de Direitos Humanos, oferecido pela Assembleia Legislativa estadual.

30 Valdênia já havia, em 2005, se referido a outras "tentativas de criminalização" pelas quais havia passado.

31 "Advogada aparece em suposta lista do PCC. Um centro de distribuição de drogas, supostamente controlado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), foi estourado anteontem pela polícia no Jardim Sinhá, na zona leste de São Paulo. Os policiais disseram que encontram no local lista de beneficiados. Entre eles o nome de ‘Dra. Valdênia’."(O Estado de S. Paulo, 29/09/2007).

32 As principais referências teóricas para pensar esse conceito estão em Hannah Arendt e Jacques Rancière. Para o que chamo aqui de espaços públicos, ver os trabalhos de Cefaï (1996; 2007); Cefaï e Pasquier (2003); e, para o caso brasileiro, as relações entre cultura e política trabalhadas por Dagnino (2002) e Dagnino, Oliveira e Paufichi (2006).

33 A ordem política não é estável, como a existência da lei poderia fazer crer. Na proposição de Veena Das (2007), a dominação contemporânea atua a partir de uma zona cinzenta entre lei e ilegalidade, contingencial e operada pelo Estado.

34 Em maio de 2006 esses eventos deixaram um saldo de 493 mortos em uma semana, 450 atribuídos à "reação" policial. Ver Adorno e Salla (2007).

Fonte: Lua Nova – http://www.scielo.br/

Pobreza cerca um milhão de madrilenhos

Sixto Mayoralas, oficial de ferraria, diz que não consegue entender a situação. "Não querem a mim, que tenho 60 anos, mas também não querem um de 20 porque dizem que não tem experiência." Na realidade, sim, entende: "O que acontece é que preferem contratar estrangeiros, pagar 5 euros por hora e tê-los na obra de 8 às 8".

E. G. Sevillano

Policial (esq.) ataca ciclista diante da estação de trem Atocha, em Madri, durante greve geral contra reforma trabalhista do governo espanhol

Policial (esq.) ataca ciclista diante da estação de trem Atocha, em Madri, durante greve geral contra reforma trabalhista do governo espanhol

Com a desculpa da crise, ele, que trabalha nesse ramo desde 1973, não encontra quem o contrate. A indenização acabou em março e desde abril ganha o seguro-desemprego: 426 euros, que "não dão para nada".

Por motivos de espaço no provedor, leia esta matéria na íntegra no site CONTROVÉRSIA. Clique no link abaixo. Obrigado.

http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=7185

Longe, mas nem tanto!

Mapa une dados de transporte, relevo e distância, mostrando que algumas áreas que pareciam isoladas da civilização podem ser mais acessíveis do que se pensava

Equipe Planeta

O palácio do Potala, em Lhasa, capital do Tibete, a antiga sede do governo e morada do dalai lama, antes da invasão chinesa.

É oficial: um dos locais mais isolados do mundo é o platô do Tibete. No mesmo país situam-se Lhasa e Korla, locais que ficam a 20 dias a pé e um de carro de distância da cidade grande mais próxima. Essa região faz parte dos 10% do território mundial que é extremamente longe do resto da civilização. Isso de acordo com o mapa de acessibilidade global, que calcula o tempo de viagem de vários pontos do globo às cidades grandes, com mais de 50 mil habitantes.

O mapa, desenvolvido por pesquisadores da Junta de Pesquisa (JRC) da Comissão Europeia em Ispra, na Itália, e do World Bank Group, combina informações sobre o terreno, o acesso a estradas, ferrovias, redes fluviais e marítimas com dados de relevo, como altitude e inclinação, e algumas paradas obrigatórias, como a fiscalização ao atravessar uma fronteira internacional. Ele também mostra como algumas partes do mundo se tornaram acessíveis ao passo que outras ficaram mais remotas.

O Rio Amazonas, com seus habitantes, como o jacaré da foto, era um destino quase mítico de viagem. Hoje, está ao alcance de qualquer turista.

O primeiro propósito do que hoje é o projeto do mapa de acessibilidade era construir um modelo gráfico plano para fazer parte de um programa de monitoramento da biodiversidade. Ele ajudaria a analisar a eficácia das áreas ambientais protegidas. “Foi constatado que quanto mais acessível é a área protegida, mais ela está ameaçada”, afirma Alan Belward, chefe da unidade de monitoramento do ambiente global e responsável pela elaboração do mapa.

O projeto começou a ser desenvolvido em 2008, quando Andrew Nelson (JRC) e Hirotsugu Uchida (World Bank) propuseram o “Índice de Aglomeração” (Agglomeration Index) para medir o nível de concentração urbana mundial. Um dos três componentes usados para calcular tal índice foi o tempo de viagem de um determinado local a um centro urbano. Nelson expandiu a ideia do primeiro mapa para um que calculasse a acessibilidade de determinado local com base no tempo de viagem deles a mais de 8.500 grandes cidades do mundo.

Todo o trabalho foi incorporado ao relatório de desenvolvimento mundial do World Bank no ano seguinte. “A acessibilidade é relevante em todos os níveis de desenvolvimento e esse mapa preenche uma lacuna importante no entendimento do modelo regional de conectividade econômica, física e social”, observa Belward.

Para elaborar o mapa, foram necessárias técnicas avançadas de modelagem geográfica unindo as informações populacionais e as de redes de estradas, rios, ferrovias e de satélite sobre relevo. De acordo com dados do projeto, a acessibilidade é definida pelo tempo de viagem de um local a outro via terra ou água. Ela, por sua vez, é computada por um algoritmo de custodistância que calcula quanto se gasta para viajar em uma grade regular do plano.

No caso do mapa, esse custo é medido por meio da unidade de tempo. Cada célula da grade contém valores que representam o custo requerido para atravessá-la. Além disso, também foi preciso ter um cálculo aproximado do tempo gasto para se passar por uma fronteira internacional. Outro fator incluído no projeto foi o que os pesquisadores chamam de “superfície de fricção”: as informações referentes aos meios de transporte, como ferrovia e estrada, e de relevo, como declives e superfície do terreno.

A confecção do mapa durou um ano e o custo de produção e de agrupamento de todos os dados foi de cerca de meio milhão de euros, o equivalente a mais de R$ 1 milhão. Mas o esforço valeu a pena, porque mais de 2 mil mapas foram impressos e milhares deles foram baixados do website oficial do projeto. “O mapa oferece uma medida consistente e global que permite comparações internacionais e cálculos de urbanização para as regiões do mundo”, diz Belward.

A cratera do vulcão Erta Ale, na Etiópia, é um dos lugares de acesso mais difícil do mundo. Para chegar lá são precisos muitos dias de caminhada, já que não há estradas nem meios de transporte.

O responsável pelo projeto acrescenta que o mapa também pode ser muito útil para situar qualquer país em um contexto global. “Embora os dados ainda não sejam detalhados o suficiente para um trabalho regional, eles podem dar aos líderes políticos uma boa noção da situação do país”, explica. O mapa mostra o grau de acessibilidade de vários lugares do mundo e pode indicar um aumento de oportunidade de viagem, comércio, comunicação e interação. No entanto, o gráfico ainda aponta algumas áreas no mundo que estão sendo deixadas para trás, por serem menos acessíveis.

Outra mensagem importante revelada pelo mapa de acessibilidade é que restam poucas áreas de natureza selvagem no globo. Apenas 10% do território mundial está localizado a mais de 48 horas de viagem de uma cidade grande.

“A área selvagem acabou reduzida e concentrada em montanhas altas, como o platô do Tibete, e em latitudes extremas, como a floresta boreal próxima aos lençóis de gelo. Mesmo os desertos e as florestas tropicais não são mais terrenos inacessíveis como antes”, observa Belward. Para se ter uma noção, apenas 20% da região amazônica fica a mais de 48 horas de uma cidade grande, devido ao aumento de estradas e do melhoramento do sistema de navegação fluvial.

Belward afirma que os pesquisadores continuarão trabalhando na questão da biodiversidade, mas que também há intenção de realizar melhoramentos no mapa de acessibilidade atual. O mapa ainda não pode ser usado para analisar apenas uma região específica, por falta de dados mais detalhados sobre a infraestrutura do transporte e dados populacionais. “Queremos que o modelo de cálculo fique mais sofisticado. Por exemplo, fazendo ajustes sazonais para medir o tempo de viagem em estradas não pavimentadas, que se tornam mais difíceis de atravessar em estações chuvosas, ou o sistema fluvial, que não funciona na época de seca”, finaliza.

Índice de aglomeração

Andrew Nelson e Hirotsugu Uchida propuseram um novo meio de medir o nível de urbanização mundial, uma vez que encontraram inconsistências em sua definição ao redor do mundo. “A raiz do problema está em como se mede a concentração urbana de um modo sistemático e consistente”, escrevem no artigo “Agglomeration Index”. Os autores argumentam que não há um padrão internacional para fazer tal cálculo. Então, muitos dados sobre a população que vive em grandes cidades mudam de país para país. Com esse problema em mente, eles criaram o índice de aglomeração, que é a junção de três fatores básicos: densidade populacional, habitantes de grandes centros urbanos e tempo de viagem de uma cidade menor a uma maior.

Fatores que alteram o tempo de viagem

Segundo Alan Belward, da Comissão Europeia, há dois fatores que mais influenciam em uma mudança do tempo de viagem: a infraestrutura e as fronteiras internacionais. Para explicar o primeiro, é interessante citar o exemplo das categorias de estrada variadas: via expressa (120 km/h), estradas maiores (60 km/h) e trilha (10 km/h). Cruzar fronteiras internacionais é um fator que influencia na acessibilidade, pois depende da fiscalização de cada país. “A área fronteiriça em Schengen, sudeste de Luxemburgo, é praticamente livre de atraso de viagem. Você deve diminuir a velocidade para passar pela fronteira, mas na maioria das vezes não tem de parar o veículo”, diz Belward. Por outro lado, em outras partes do mundo, atravessar a fronteira pode consumir muito tempo.

Tempo de viagem para cidades grandes (em horas e dias) e densidade do corredor marítimo

Mapa de sistema fluvial

O mapa de rios navegáveis foi criado a pedido do governo norte-americano nos anos 1980. Algumas regiões do mundo, como o leste da Colômbia e a Amazônia brasileira, dependem do transporte fluvial para estabelecer comércio e assistência social. A velocidade média de uma viagem em rios navegáveis é de 20 km/h. Mas especialistas dizem que ela depende também do fluxo do rio e da estação do ano.

Mapa de ferrovias

Os dados desse mapa também foram extraídos da Agência Nacional de Imagem e Mapeamento (Nima), dos Estados Unidos. A maior parte das ferrovias se concentra nas nações mais ricas – países europeus e o Japão. Acredita-se que a presença de vias férreas em países menos desenvolvidos representa resquício da colonização europeia.

Mapa de estradas

Esse mapa foi feito a partir de dados da Agência Nacional de Imagem e Mapeamento (Nima), dos Estados Unidos. Ele traz informações como o tempo de viagem estimado a vários tipos de estrada – vias expressas, rodovias e trilhas.

Mapa de navegação em lagos e baías

O mapa com os maiores pontos de água do globo, como lagos e baías, foi extraído do banco de dados de lagos globais e terras alagadas (GLDW), desenvolvido pela World Wildlife Fund em parceria com a Universidade de Kassel, na Alemanha.

Mapa de linha de navegação

Os corredores de tráfego marítimo do Canal da Mancha, do Mediterrâneo e do sul da China são os mais ocupados do mundo. A velocidade de transporte em corredores marítimos é de 40 km/h. Em mar aberto é de 20 km/h.

Mapa de inclinação

Alguns dados do mapa de inclinação auxiliam no cálculo de velocidade de viagem que uma pessoa a pé é capaz de atingir em determinados declives. A fórmula de van Wagtendonk é usada para se ter uma estimativa de velocidade.

Mapa de elevação

A elevação de relevo influencia na velocidade de viagem. Em altitudes inferiores a 2 mil metros, não há efeito na velocidade da caminhada. Já nas alturas acima de 2 mil metros, há uma diminuição da velocidade, devido ao ar rarefeito.

Mapa de áreas urbanas

As áreas urbanas foram parte do Projeto de Mapeamento Rural-Urbano Global (Grump, na sigla em inglês), que compreende um conjunto de dados de cerca de 55 mil cidades com população de mais de mil habitantes. A velocidade de viagem em áreas urbanas é de 30 km.

Mapa de cobertura do território

As categorias de tipo de cobertura terrestre foram feitas pela JRC. O objetivo do projeto é oferecer uma base detalhada de informação sobre a flora e o relevo globais para convenção de mudança climática. A velocidade de viagem depende do tipo de vegetação e da estação do ano.

Mapa de fronteiras internacionais

Esse mapa de fronteiras também foi elaborado pela Agência Nacional de Imagem e Mapeamento dos Estados Unidos. De acordo com dados, uma média de velocidade de viagem ultrapassando fronteiras varia de 0,25 km/h a 60 km/h.

Fonte: Revista Planeta – http://www.terra.com.br/revistaplaneta/

Onde você quer estar daqui a 30 anos?

Pessoas que conseguem se imaginar no futuro tomam decisões financeiras com maior cautela e economizam mais

Flávia Ferreira

Quanto dinheiro você guarda todo mês para quando se aposentar? Talvez tudo o que pode, já sonhando com uma casa na praia ou no interior. Ou, quem sabe, nem sequer consiga imaginar onde estará, como será sua vida ou o que fará com o dinheiro. Essa dificuldade tem razão de ser: pensar em si mesmo em um futuro muito distante é quase como imaginar outra pessoa. Pesquisas sugerem que quanto mais uma pessoa sente que seu “futuro eu” se parece consigo mesmo, mais se preocupa em poupar dinheiro.Um estudo recente realizado pela psicóloga Emily Pronin, pesquisadora da Universidade de Princeton, mostrou que ao tomarmos decisões geralmente tratamos

o futuro eu da mesma forma que o faríamos com outra pessoa. Por exemplo: os voluntários costumavam se esquivar do cumprimento de tarefas desagradáveis, apesar de necessárias, quando tinham de fazê-las exatamente naquele momento. Mas se eram requisitados para cumprir exatamente a mesma tarefa desde que precisassem fazê-lo alguns meses ou até um ano depois, se mostravam mais dispostos a colaborar – curiosamente, como se imaginassem que outra pessoa estaria em seu lugar.

Um experimento realizado pelos psicólogos Hal Ersner- Hershfield e Brian Knutson, da Universidade Stanford, revela que a “distância” a que acreditamos estar de nosso futuro eu varia de um indivíduo para outro. Para chegar a essa conclusão os cientistas pediram aos voluntários que pensassem em si mesmos no presente e após alguns anos, enquanto eram submetidos a um exame de ressonância magnética funcional. Estudos anteriores haviam mostrado que uma área específica do cérebro, o córtex cingulado anterior, é ativada quando pensamos em nós mesmos. O estudo mostrou que essa região entra em maior atividade quando pensamos em nós mesmos no agora, em comparação ao que ocorre quando nos imaginamos daqui a dez anos à frente, por exemplo. Os pesquisadores observaram alterações no padrão de atividade cerebral de alguns dos participantes, sugerindo que se viam, no futuro, mais como “seu próprio eu” que como “outra pessoa”.

Em seguida, foi pedido a cada voluntário que escolhesse entre receber determinada quantia de dinheiro para levar imediatamente ou um valor maior que seria entregue depois de um tempo. Os questionamentos mais frequentes levavam em conta se compensaria esperar para receber um montante maior. Pessoas que ao pensar no seu self no presente e no futuro apresentavam menor variação da atividade cerebral respondiam que precisavam de menos dinheiro imediatamente e acreditavam que a espera valia a pena.

As diferenças individuais também parecem afetar decisões financeiras na vida real. Em outro estudo recente, Ersner-Hershfield e Knutson descobriram que, independentemente de fatores como idade e escolaridade dos participantes, aqueles que imaginavam a si mesmos atualmente e daqui a alguns anos de forma mais parecida lidavam melhor com as finanças e se mostravam propensos a postergar alguns gastos para realizar planos mais vantajosos a médio prazo. Ou seja: se nos identificamos com o futuro self, mais estamos dispostos a poupar porque sabemos que o que decidirmos hoje fará diferença dentro de algum tempo. Essa identificação com o futuro pode nos tornar mais cuidadosos conosco. O mesmo pode valer quando se trata de investir em hábitos saudáveis que possivelmente proporcionarão melhor qualidade de vida e saúde no futuro. Por isso, imaginar como e onde estaremos em alguns anos costuma ser bastante útil.

A idade, porém, não é o único aspecto que influi em nossas complexas relações com o vil metal. Algumas pessoas, por exemplo, parecem ter características de personalidade que as compelem a acumulá-lo enquanto outras não conseguem deixar de estourar seus cartões de crédito e acreditam ser impossível economizar para dias difíceis. Já há algum tempo psicólogos acreditam que o dinheiro tem grande poder simbólico e funciona não só como uma ferramenta que facilita trocas, mas é um recurso de interação cultural, que habilita as pessoas a manipular o meio para obter o que desejam. Nesse sentido, assume o papel de substituto do afeto. Pesquisas mostram, por exemplo, que para algumas pessoas o ato de tocar em notas de dinheiro pode reduzir momentaneamente desconfortos físicos. Faz sentido, portanto, que, ao envelhecer e perder os benefícios da juventude, acumular recursos financeiros possa funcionar como uma espécie de compensação.

Os psicólogos Stephen Lea, da Universidade de Exeter, e Paul Webley, da Universidade de Londres, ambas no Reino Unido, acreditam que o dinheiro age em nossa mente como uma espécie de droga de abuso, fazendo com que alguns joguem compulsivamente e outros trabalhem ou gastem em excesso. Eles propuseram que, como a nicotina e a cocaína, o dinheiro pode ativar centros de prazer no cérebro, criando sensação de recompensa semelhante à de quando fazemos algo benéfico para a espécie, como sexo. Segundo eles, os efeitos cerebrais podem desencadear processos bioquímicos que agem sobre nossas percepções e emoções, estimulando circuitos vinculados a sistemas de recompensa neurais.

Numa tentativa de fornecer uma explicação evolucionária para a motivação na busca por ele nas sociedades atuais, a pesquisadora Barbara Briers, da Escola de Negócios HEC, em Paris, decidiu testar se o interesse humano por dinheiro estava diretamente relacionado ao apetite por comida. Ela e sua equipe fizeram descobertas, publicadas no volume 17 da Psychological Science. Curiosamente, voluntários famintos estavam menos propensos a fazer doações para caridade do que os que estavam satisfeitos. Aqueles que foram preparados para ter grande desejo por dinheiro, imaginando que tivessem ganho na loteria, comeram quase todo o doce do teste; já pessoas com o apetite estimulado por ficar esperando sentadas em uma sala com um cheiro maravilhoso estavam menos inclinadas a dar dinheiro do que aquelas que aguardavam em salas com odor normal. Para Briers, isso indica que nosso cérebro processa ideias sobre dinheiro e comida pelo

mesmo sistema, o que significa que, para a mente, os dois têm capacidade similar de nos satisfazer – ou frustrar.

Fonte: Mente e Cérebro – http://www2.uol.com.br/vivermente

Uso de drogas não é determinante na prática de crimes, aponta dissertação

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Comportamento criminoso é mais prevalente em portadores de  Transtorno de  Personalidade  Antissocial

CARMO GALLO NETTO

O uso de drogas ilícitas constitui uma das grandes preocupações das sociedades modernas. Se em vários países esse consumo tem diminuído, em outros, caso do Brasil, ele é crescente. O progressivo aumento da criminalidade tem sido imputado aos usuários de drogas psicoativas (SPA) – assim consideradas aquelas que provocam alterações transitórias no funcionamento cerebral levando, por exemplo, à desinibição provocada pelo álcool, à euforia gerada pela cocaína, ou à diminuição da ansiedade, às sensações de anestesia, alegria, embriagues, ou seja, àquelas que em suma são geradoras de prazer.

Estudo mostra que ser usuário ou dependente de substâncias psicoativas – como o álcool, solventes, maconha, cocaína, crack – não se mostrou determinante na prática de crimes. O comportamento criminoso é prevalente em consumidores de drogas portadores de Transtorno de Personalidade Antissocial.

É o que revela dissertação de mestrado orientada pela professora Renata Cruz Soares de Azevedo e apresentada à Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp pela psiquiatra Karina Diniz Oliveira. A pesquisa foi realizada com 183 pessoas maiores de 18 anos usuários ou dependentes de substâncias psicoativas que iniciaram acompanhamento em dois dos serviços de referência no tratamento de dependentes químicos de Campinas: o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS-AD) Independência e o Ambulatório de Substâncias Psicoativas (ASPA) do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp.

Karina revela que a população estudada era constituída em sua maioria de pacientes do gênero masculino, em geral na quarta década de vida, provenientes da região de Campinas, sem companheiro fixo, escolaridade inferior a oito anos, baixa renda e inatividade laboral. O policonsumo – uso concomitante ou alternado – de diferentes SPA foi muito frequente, principalmente álcool, maconha, cocaína e crack.  O potencial de dependência do crack se revelou maior que de outras substâncias.

Segundo ela, delitos foram cometidos por 40% dessa população, em que 28% de indivíduos apresentam Transtorno de Personalidade Antissocial. Os principais crimes cometidos envolvem lesão corporal, homicídio, furto e roubo. Nesses delitos, afirma Karina, estão envolvidos principalmente sujeitos portadores de Transtorno de Personalidade Antissocial, com antecedentes de uso de solventes, sem religião, com poliuso e dependência a múltiplas substâncias psicoativas, principalmente ilícitas.

Na pesquisa, Karina discutiu os fatores relacionados ao cometimento de crimes em dependentes de substâncias psicoativas que procuram tratamento, centrando o levantamento na descrição do perfil sócio-demográfico; na avaliação do padrão de consumo; na determinação da prevalência de comportamento criminoso e os tipos de crimes praticados; na presença do Transtorno de Personalidade Antissocial; e, para finalmente, correlacionar estas variáveis visando discutir as interfaces e associações.

Revelações

No entender das pesquisadoras, o trabalho desenvolvido revela alguns aspectos muito interessantes. Os dois serviços de atendimentos públicos tomados como base de estudo são procurados por mais homens do que mulheres. Renata esclarece que entre os usuários de drogas a relação é de uma mulher para quatro homens e entre os que procuram o tratamento essa relação passar a ser de um para oito ou até doze. Para a docente, as mulheres têm vergonha de procurar tratamento, principalmente as mais velhas, talvez por causa dos preconceitos que enfrenta. Além disso, os tratamentos são em geral estruturados para os homens, não contemplando as especificidades do uso de drogas entre as mulheres.

Karina considera que a procura por tratamento é em geral postergada, pois as pessoas que os procuram encontram-se na faixa de 40 a 50 anos de idade, embora tenham iniciado o uso de drogas na adolescência. Esses usuários e dependentes, constata, enfrentam nessa fase de suas vidas as consequências socioeconômicas decorrentes, como situação financeira precária, desemprego, separações conjugais, relações familiares e sociais comprometidas.

Embora cerca de 40% desses indivíduos exibam comportamento criminoso, essas taxas são bastante diferentes quando considerados separadamente usuários de drogas lícitas e ilícitas, mudando mais quando se leva em consideração a presença de Transtorno de Personalidade Antissocial. Na população em geral, a taxa de indivíduos portadores desse transtorno é de 3% e entres os usuários de drogas chega a 27%, o que evidencia o significado da presença desse transtorno no comportamento criminoso.

Karina lembra que o usuário de drogas ilícitas está em contato com a criminalidade do narcotráfico, o que o aproxima do crime. Ademais, os efeitos psicoativos das substâncias ingeridas diminuem o medo e podem levar a atos que ele normalmente não cometeria. Ela lembra também que a necessidade intensa pela droga o leva a desconsiderar valores adquiridos de tal forma que mesmo indivíduos criados em famílias que lhe permitem introjetar valores conseguem se afastar de certos comportamentos.

A professora Renata destaca ainda a importância da ampliação das interfaces de áreas muito segmentadas como as médicas e jurídicas no encaminhamento dado a esses usuários porque “tratam-se de pessoas que são presas e julgadas”, diz. Ela defende também “a conexão da área médica com muitos outros segmentos porque as respostas médicas resvalam, além do jurídico, em questões sociais, antropológicas, entre outras e o estabelecimento dessas pontes é fundamental para sair do lugar comum e refletir sobre novas formas de enfrentamento do tema”.

Motivações

Ao considerar os objetivos da pesquisa, Renata afirma que o desejo era o de colocar em pauta a associação que se faz no senso comum, em que o usuário de drogas é considerado muito próximo da criminalidade, principalmente quando a droga é ilícita. Daí a necessidade inicial de levantar quantos dos usuários e dependentes tinham comportamento criminoso. Ela explica que a inclusão da avaliação de personalidade antissocial partiu de dados da literatura que considera que a atitude criminosa se manifesta em indivíduos com personalidade que desconsidera normas e regras, que se guia por um comportamento centrado no querer e fazer, independentemente das consequências e apesar das transgressões.

Segundo Karina, o estudo conseguiu confirmar que a droga age como o elemento ativador de uma tendência comportamental criminosa em uma pessoa que desconsidera o crime. Ela lembra que 85% dos que apresentam esse transtorno antissocial cometeram crimes, taxa que cai para 15% entre os que não o tem. E os crimes destes últimos apresentam menor potencial ofensivo e geralmente estão relacionados a furtos.

As pesquisadoras contam que geralmente o dependente de drogas procura o tratamento quando adquire a percepção dos prejuízos que lhe traz a dependência. Antes disso, ele cede à compulsão do prazer. Elas constatam que, quando ele se decide pelo tratamento, deve encontrar as portas escancaradas para atendê-lo porque talvez, depois, não encontre outro momento de resistência. E muitas vezes isso ocorre devido à demora no atendimento, no alongamento do prazo para consulta.

Karina destaca que uma das razões que faz o dependente procurar o atendimento é a perda de tudo, da família, do emprego e o tratamento constitui alguma coisa a que se possa vincular. Muitos são trazidos pela família porque estão em uma situação crítica e nesses casos não existe apenas um desejo, mas circunstâncias decorrentes da droga que se tornaram insustentáveis.

O trabalho

No trabalho de campo foi aplicado um questionário sócio-demográfico para levantar idade, religião, situação laboral, renda, condições de moradia, profissão, enfim, elementos que permitissem determinar o perfil desse usuário de drogas que procura tratamento em um órgão público e que possibilitassem ainda caracterizar seu padrão de consumo. Com ele, determinou-se a substância consumida, frequência, quantidade e papel da substância na vida do usuário. Em decorrência do uso das drogas, a pesquisadora pode levantar a perda social que o usuário teve em relação à manutenção de uma rede social de amigos, ao convívio com a família, ao emprego. No final, o questionário abordou delitos cometidos e problemas judiciais. Nos casos de delitos, procurou caracterizar o papel da droga em relação ao crime para determinar se os delitos foram cometidos por ação da droga ou para conseguir a droga.

Karina diz que a droga mais presente é o álcool – 40% eram seus usuários exclusivos e destes 100% eram dependentes – seguido da cocaína e do crack, mas muitos deles começaram com o uso de solventes cheirando produtos como cola de sapateiro ou benzeno, tolueno e tiner. Com base no universo estudado, Karina afirma que geralmente a dependência se iniciou com álcool e tabaco, passou pelo solvente e maconha e chegou à cocaína e dela ao crack, devido ao preço e à facilidade de encontrar. Embora não tenha feito parte de seu trabalho, ela lembra que hoje ocorre a passagem direta para o crack.

Fonte: Jornal da UNICAMP – http://www.unicamp.br/

Néstor Kirchner e o que vem por aí

Nunca fui kirchnerista. Nunca vi Nestor pessoalmente, jamais estive em um mesmo lugar com ele. Nem sequer votei nele em 2003. Eu lhe disse isso na única vez que me telefonou para pedir-me que aceitasse ser o embaixador argentino em Cuba.

Mempo Giardinelli

Sempre disse e escrevi que não me agradava seu estilo meio descarado, essa informalidade provocadora que o caracterizava. Mas fui o respeitando na medida em que, com um poder que não tinha, tomava velozmente medidas que a Argentina precisava e que quase todos vínhamos pedindo aos gritos. E que enumero agora, porque no futuro imediato me parece que teremos que destacá-las para marcar diferenças. O artigo é de Mempo Giardinelli, escritor e jornalista argentino.

Escrevo esse texto em meio ao calor dos acontecimentos, na mesma manhã do anúncio da morte de Néstor Kirchner, e oxalá esteja errado. Mas sinto dor e medo e necessito expressá-lo.

Penso que estes dias serão muito feios, com um carnaval de hipocrisia no Congresso. Os mortos políticos estarão ali com suas caras impávidas. Os ressuscitados de governos anteriores. Os bajuladores profissionais que agora se dizem “dissidentes”. Os frívolos e os garcas que diariamente desenham Rudi e Dany. Todos eles e elas. Caras de plástico, de ferro fundido, de caca endurecida. Aplaudidos secretamente por aqueles que já estão emitindo sorrisos de alegria feroz.

Os veremos na televisão, eu já os vejo neste meio dia ensolarado que, aqui no Chaco, ao menos, resplandece como que para uma causa melhor.

Nunca fui kirchnerista. Nunca vi Nestor pessoalmente, jamais estive em um mesmo lugar com ele. Nem sequer votei nele em 2003. Eu lhe disse isso na única vez que me telefonou para pedir-me que aceitasse ser o embaixador argentino em Cuba.

Sempre disse e escrevi que não me agradava seu estilo meio descarado, essa informalidade provocadora que o caracterizava. Sua maneira tão peronista de fazer política juntando água clara e azeite usado e viscoso.

Mas fui o respeitando na medida em que, com um poder que não tinha, tomava velozmente medidas que a Argentina precisava e que quase todos vínhamos pedindo aos gritos. E que enumero agora, porque no futuro imediato me parece que teremos que destacá-las para marcar diferenças.

Foi ele, ou seu governo, e agora o de Cristina:

- O que mudou a política de Direitos Humanos na Argentina. Nada menos do que isso. Agora alguns dizem que estão “fartos” do assunto, como outros criticaram sempre que era uma política mais declarativa que outra coisa. Mas Nestor o fez: iniciou a mudança e foi conseqüente. E assim se ganhou o respeito de milhões.

- O que mudou a Corte Suprema de Justiça, e não importa se, depois, a Corte não soube mudar a Justiça Argentina.

- O que abriu os arquivos dos serviços secretos e com isso reorientou o julgamento dos atentados sofridos pela comunidade judia nos anos 90.

- O que recuperou o controle público do Correio, das Águas, da Aerolíneas.

- O que impulsionou e conquistou a nulidade das leis que impediam de se conhecer a verdade e de castigar os culpáveis de genocídio.

- O que mudou nossa política externa terminando com as claudicantes relações carnais e outras palhaçadas.

- O que implementou uma consequente e progressista política educativa como não tivemos por décadas, e que mudou a infame Lei Federal de Educação menemista pela atual, que é democrática e inclusiva.

- O que começou a mudar a política para os professores e os aposentados, que por muitos anos foram os dois setores salarialmente mais atrasados do país.

- O que mudou radicalmente a política de Defesa, de modo que agora este país começa a ter umas Forças Armadas diferentes, democráticas e submetidas ao poder político pela primeira vez na história.

- O que iniciou uma gestão plural na Cultura, que agora atinge todo o país e não somente a cidade de Buenos Aires.

- O que começou a primeira reforma fiscal em décadas, que precisa avançar muito ainda,mas que hoje permite arrecadações recordes.

- O que renegociou a dívida externa e terminou com a estúpida ditadura do FMI. E, pela primeira vez, maneja o Banco Central com uma política nacional e com recorde de divisas.

- O que liquidou o infame negócio das AFJP e recuperou para o Estado a proteção social.

- O que, com a nova Lei de Meios, começou a limitar o poder absoluto da ditadura jornalística privada que provoca distorções na cabeça de milhões de compatriotas.

- O que impulsionou a Lei do matrimônio igualitário e mantém uma política antidiscriminatória como jamais tivemos.

- O que vem obtendo um crescimento econômico dos mais altos do mundo, com recuperação industrial evidente, estabilidade de quase uma década e diminuição do desemprego. Além disso, se aproxima a nova legislação das entidades bancárias, que terminará um dia destes com as heranças de Martinez de Hoz e de Cavallo.

Nestor fez isso. Junto com Cristina, que o segue fazendo. Com muitos erros, diga-se desde já. Com patadas, corruptelas e turvamentos vários e alguns muito irritantes, funcionários não apresentáveis, certa belicosidade inútil e o que se queira reprovar-lhes, tudo isso o que para muitos como eu nos dificulta nos declararmos kirchneristas, ou nos impede.

Mas só os miseráveis esquecem que a corrupção na Argentina é conatural desde que os malditos ditadores a reinventaram mil vezes. E o “riojano” (Menem) idem.

De maneira que, sem justificar o desvio de um centavo sequer, nesta hora é preciso lembrar a nação inteira que ninguém, mas ninguém, e nenhum presidente desde, pelo menos, Juan Perón, entre 46 e 55, produziu tantas e tão profundas mudanças positivas para a vida nacional.

A ver se alguém pode dizer o contrário.

De maneira que estes são os méritos deste zarolho fraco, descarado, contraditório e de andar lateral, como os pingüins.

Sim, escrevo isso dolorido e com medo, nesta fodida manhã de sol, e desolado também, como milhões de argentinos, um pouco por este homem que Estela de Carlotto acaba de definir como “indispensável” e outro poço por nós, por nosso amado e pobre país.

E redobro meu rogo para que Cristina se cuide, e para que cuidemos dela. Temos diante de nós um ano tremendo, com as matilhas sedentas e capazes de qualquer coisa para recuperar o miserável poder que tiveram e perderam graças a quem chamam de modo depreciativo “Os K” e nós, os argentinos comuns, os cidadãos e cidadãs que não comemos os alimentos envenenados pela imprensa e a televisão do sistema midiático privado, provavelmente nos recordaremos deles como “Néstor e Cristina, os que mudaram a Argentina”.

Descanse em paz, Néstor Kirchner, com todos os seus erros, defeitos e misérias, mas sobretudo com seus enormes acertos. E resista Cristina. Você não está sozinha.

E os demais, nós, a enfrentar os desafios. Ou, por acaso, temos feito outra coisa em nossas vidas e em nosso país?

Fonte:  Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

Não tão solitários

Filhos únicos têm seu desenvolvimento cognitivo mais acelerado do que crianças com um irmão ou mais? Estudos recentes respondem esta incógnita

Zoe Corbyn

Shutterstock

É um clichê bastante difundido a ideia de que crianças que crescem sem irmãos podem ser "esquisitas" ou "desajustadas". No entanto, novas pesquisas derrubam essa visão – sugerindo que qualquer deficiência que exista nas habilidades sociais do filho único, quando pequeno, terá desaparecido até a sua adolescência.

Os resultados deste novo estudo também colocam na berlinda as pesquisas das ciências sociais. Qual seria a metodologia correta para se estudar um assunto de cunho tão emocional? E como se espera que os pais possam compreender as mensagens conflitantes desses estudos?

Há muito tempo que se constata que filhos únicos tendem a ter maior capacidade cognitiva do que as crianças com muitos irmãos, mas alguns pesquisadores têm considerado que isso é contrabalanceado por uma habilidade social mais empobrecida – o que potencialmente poderia se tornar um problema para os filhos únicos durante o seu crescimento.

Algumas das evidências mais convincentes a sustentar essa visão, até o presente momento, baseavam-se em um estudo de 2004, realizado com mais de 20 mil crianças americanas do jardim de infância. Esse estudo mostrou que os professores classificavam os filhos únicos como tendo habilidade social inferior à dos coleguinhas que tinham pelo menos um irmão, relatando, ainda, que mostravam menor autocontrole, menores habilidades interpessoais e mais problemas comportamentais.

Para estudar esse fenômeno, na adolescência, os sociólogos Donna Bobbit-Zeher e Douglas Downey, da Universidade Estadual de Ohio, apoiaram-se em dados já existentes do Estudo Longitudinal Americano sobre Saúde do Adolescente. No Encontro Anual da Associação Americana de Sociologia, realizada em agosto de 2010, os autores apresentaram uma análise das respostas de 13.466 alunos do ensino médio americano e do colegial – da sétima série até o terceiro colegial – os quais tinham como tarefa selecionar 5 amigos entre os alunos da escola que constavam em uma lista. Os pesquisadores descobriram que os filhos únicos têm a mesma probabilidade de serem selecionados como amigos pelos seus colegas de classe, que aqueles que possuem irmãos.

"Em cada combinação que testamos, a existência ou não de irmãos não tinha impacto sobre o grau de popularidade de um aluno entre seus pares, afirmou Bobbit-Zeher. "Acredito que ninguém precisa se preocupar com o fato de que se você não tem irmãos, não vai aprender as habilidades sociais necessárias para se relacionar bem com os outros alunos, no colegial".

Mensagens Confusas

Mas os resultados diferentes nesses dois estudos levantam uma série de perguntas. O estudo realizado com os adolescentes se baseia nas indicações dos colegas, quanto ao quesito amizade, para avaliar as habilidades sociais; enquanto que o estudo de 2004, também realizado por Downey, pedia para que os professores avaliassem as habilidades sociais das crianças. Estariam os filhos únicos se tornando mais hábeis socialmente, à medida em que amadurecem e passam mais tempo com seus colegas? Ou os resultados diferentes se devem, simplesmente, ao fato de serem dois métodos de avaliação diferentes?

"Os professores classificavam os filhos únicos como tendo habilidade social inferior a dos coleguinhas que tinham pelo menos um irmão"

A resposta, diz Downey, está na primeira alternativa e, para comprovar esse ponto de vista, ele cita uma análise do acompanhamento feito com as crianças do jardim de infância, que ele planeja publicar em breve. Ao alcançar a quinta série, as habilidades sociais do grupo de 2004 foram novamente avaliadas pelos professores e apresentaram resultados iguais ao do estudo com o grupo de adolescentes (baseado na amizade): não havia diferenças nas habilidades sociais entre os filhos únicos e os que tinham irmãos.

"O argumento de que a desvantagem de não ter irmãos não está presente lá na quinta série, usando-se o mesmo critério, nos dá maior confiança de que, embora haja uma certa diferença na maneira como estamos medindo as habilidades sociais, o fator que realmente importa é a idade das crianças", afirmou Downey.

Em 2004 eu teria dito: "Estamos vendo uma evidência modesta de que talvez haja alguns deficits nas habilidades sociais dos filhos únicos e não sabemos o que acontecerá mais tarde na vida…" Hoje eu diria: "Parece que o deficit original que vimos no jardim de infância não se sustenta por muito tempo e é superado provavelmente pela maior interação com os colegas".

Sem surpresas

Guang Guo, sociólogo da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill, está familiarizado com os dados usados no estudo dos adolescentes. Ele descreve as novas descobertas como "aceitáveis" e concorda que "não há necessariamente" um conflito com estudos anteriores. "As pessoas se adaptam às situações e isto não surpreende", afirmou.

Downey nega, também, que as divergências nos resultados apresentem mensagens conflitantes para os pais. "Nós seguimos as evidências para onde elas nos levam, e as estamos avaliando da maneira mais cuidadosa possível."

O estudo de 2004 é um dos poucos a sugerir algo do tipo: "Olha aí, talvez haja alguma coisinha ocorrendo com os filhos únicos". E agora as evidências estão descobrindo mais do que aquilo que é consenso geral entre os sociólogos.

Downey acrescentou que no momento em que ele e seus colegas pesquisadores descobriram o pequeno deficit na socialização das crianças do jardim de infância, eles não recomendaram que os pais tivessem um segundo filho para "melhorar as habilidades sociais de seu primogênito".

"As diferenças simplesmente não eram grandes o suficiente a ponto de os pais tomarem decisões sobre reprodução baseadas nelas", ele complementou.

Fonte: Portal Ciência e Vida – http://sociologiacienciaevida.uol.com.br

Os segredos internacionais por trás da “Revolução do Ódio” no Brasil

Mauro Carrara

O PSDB, o partido neoliberal de José Chirico Serra e Fernando Henrique Cardoso, montou ainda em outubro de 2009 um eficiente sistema capaz de disparar diariamente mais de 152 milhões de e-mails para brasileiros de todas as regiões.

Esse sistema é preferencialmente utilizado para disseminar peças de calúnia e difamação contra Dilma Rousseff, Luiz Inácio Lula da Silva e qualquer figura pública que ouse tomar partido do projeto da esquerda no Brasil. Funcionando também nas redes sociais, essa é uma das principais frentes da "Revolução do Ódio" em curso no país.

Até o primeiro turno da eleição presidencial, havia mais de 650 militantes, quase todos bem remunerados, para difundir material venenoso contra o governo federal. Neste segundo turno, essa super tropa de terrorismo virtual, recrutada por Eduardo Graeff, conta com mais de 1.000 militantes.

Esse, no entanto, é apenas um braço do movimento de golpismo midiático financiado por entidades ultra-conservadoras, sobretudo norte-americanas, empenhadas em desestabilizar movimentos de esquerda pelo mundo e assumir o controle das fontes de riqueza nos países emergentes.

O enigma das “revoluções coloridas”

Há 15 anos, a Internet vem sendo utilizada como ferramenta de sabotagem por esses grupos. Dentre eles, destacam-se o poderoso National Endowment for Democracy (NED), a United States Agency for International Development (USAID) e inúmeras entidades parceiras, como a Fundação Soros.

O NED, por exemplo, financia várias organizações-satélite, como o World Movement for Democracy, o International Fórum for Democratic Studies e o Reagan-Fascell Fellowship Program, que atuam direta ou indiretamente em todos os continentes.

Grupos ligados ao NED, por exemplo, tiveram comprovada atuação nos episódios políticos que desestabilizaram a coalizão de centro-esquerda na Itália, em 2007 e 2008. Acabaram derrubando o primeiro-ministro Romano Prodi e, em seguida, reconduziram ao poder o magnata Silvio Berlusconi.

A ação envolveu treinamento de jornalistas, divulgação massiva de boatos na Internet, dirigidos sobretudo aos jovens, e distribuição seletiva de caríssimos “estímulos” a senadores de centro.

Mas, afinal, o que é o NED?

Criada em 1983, por iniciativa do presidente estadunidense Ronald Reagan, trata-se oficialmente de uma entidade privada, mas abastecida de forma majoritária por fundos públicos.

Ainda que seus dirigentes a qualifiquem como um centro de incentivo à democracia, trabalha sempre no apoio a movimentos de direita, com forte ênfase no liberalismo, no individualismo, no privatismo e no pressuposto de que os interesses do mercado devem prevalecer sobre os interesses sociais.

Segundo o conceituado escritor e ativista norte-americano Bill Berkowitz, do movimento Working for Change, o objetivo do NED tem sido “desestabilizar movimentos progressistas pelo mundo, principalmente aqueles de viés socialista ou socialista democrático”.

O NED e suas entidades parceiras figuram na origem das chamadas “Revoluções Coloridas” que se espalharam pelo mundo nesta década.

A primeira operação virtual-midiática de grandes proporções foi a chamada Revolução Bulldozer, em 2000, no que ainda restava da Iugoslávia.

O nome do movimento se deve ao ato violento de um certo “Joe” (na verdade, Ljubisav Dokic) que atacou uma emissora de rádio e TV com uma escavadeira. Logo, foi transformado num emblema da sedição.

Na época, especialistas em mobilização de entidades financiadas pelo NED concederam apoio técnico e treinamento intensivo aos membros do Otpor, grupo estudantil se tornaria fundamental na campanha de desestabilização do governo central.

Talvez o melhor exemplo desse trabalho de corrosão política tenha ocorrido em 2003, na Geórgia, na chamada Revolução das Rosas, que culminou com a derrubada do presidente Eduard Shevardnadze.

Novamente, havia uma organização juvenil envolvida na disseminação de boatos, denúncias e incitações, a Kmara (Basta!), além de várias ONGs multinacionais como o Liberty Institute.

A Revolução das Rosas não teria ocorrido sem o apoio das associações ligadas ao bilionário húngaro-americano George Soros. A Foundation for the Defense of Democracies, instituto neoconservador com sede em Washington D.C., revelou que Soros investiu cerca de US$ 42 milhões nas operações para derrubar Shevardnadze.

O roteiro se repetiu em vários outros movimentos, como a Revolução Laranja, na Ucrânia, em 2004, e a Revolução das Tulipas, no Quirguistão, no ano seguinte.

Levantes dessa natureza ainda têm sido estimulados por esses grupos e seus agentes, que visitam os países-alvo em épocas de crise ou durante processos eleitorais.

Observadores internacionais estimam, por exemplo, que NED e USAID investiram US$ 50 milhões anuais no suporte às entidades que desestabilizaram e derrubaram o governo de Manuel Zelaya, em Honduras.

Nem sempre, porém, as “revoluções“ patrocinadas por essas entidades são coroadas de pleno êxito. É o caso da chamada “Revolução Twitter”, ocorrida na Moldávia, em 2009, e das frequentes operações de terrorismo midiático e virtual desenvolvidas pela oposição venezuelana.

Em todos esses episódios, há um procedimento estratégico que vem sendo seguido pelos grupos de sabotagem. Podemos sintetizá-lo em dez mandamentos operativos:

1) Difunda o ódio. Ele é mais rápido que o amor.

2) Comece pela juventude. Ela esta multiconectada e pode ser mais facilmente mobilizada para destruir do que para construir.

3) Perceba que destruir é “divertido”, ao passo que “construir” pode ser cansativo e chato.

4) A veracidade do conteúdo é menos relevante do que o potencial impacto de uma mensagem construída a partir da aparência ou do senso comum.

5) Trabalhe em sintonia com a mídia tradicional, mas simule distanciamento dos partidos tradicionais.

6) Utilize âncoras “morais” para as campanhas. Criminalize diariamente o adversário. Faça-o com vigor e intensidade, de forma a reduzir as chances de defesa.

7) Gere vítimas do oponente. Questões como carga tributária, tráfico de drogas e violência urbana servem para mobilizar e indignar a classe média.

8) Eleja sempre um vilão-referência em cada atividade. Cole nele todos os vícios e defeitos morais possíveis.

9) Utilize referências sensoriais para a campanha. Escolha uma cor ou um objeto que sirva de convergência sígnica para a operação.

10) Trabalhe ativamente para incompatibilizar o político-alvo com os grupos religiosos locais.

Várias dessas agências internacionais de desestabilização enviaram emissários ao Brasil, especialmente a partir do ano passado.

A ação-teste no Brasil foi desencadeada por meio do movimento “Fora Sarney”, organizado pelo movimento denominado “Rir para Não Chorar”, ou simplesmente RPNC.

Os "indignados moralistas" de direita escolheram o político maranhense como alvo, mesmo depois de tolerá-lo durante 45 anos em instâncias decisórias do país.

O líder da vez era um certo Sérgio Morisson, que se dizia consultor de ONGs e “fashionista”. Na época, vivia na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), atuando no Comitê de Jovens Executivos.

Na verdade, Sarney serviu apenas como um pretexto de ensaio golpista. O objetivo do grupo era canalizar o ódio da jovem classe média contra o governo Lula.

Distribuíram 50 mil narizes de palhaço, seguindo disciplinadamente a cartilha de simbologia dos movimentos patrocinados pelo NED.

Na verdade, muitos dos “palhacentos” já tinham atuado em outro levante do tipo, o famigerado “Cansei”, que dois anos antes tentara se aproveitar do acidente com o avião da TAM para fomentar uma revolta popular contra o governo federal.

Na presente eleição presidencial brasileira, todo o receituário estratégico e simbólico das revoluções coloridas foi empregado no fortalecimento da candidatura da ex-petista Marina Silva.

A chamada “onda verde”, que impediu a vitória de Dilma Rousseff no primeiro turno, foi vigorosamente apoiada por expressivos setores da direita brasileira, inclusive com suporte mal disfarçado de parte da militância oficial do PSDB.

A direita estrangeira e o golpe em curso no Brasil

A principal entidade articuladora da “Revolução do Ódio” no Brasil é o Instituto Millenium (IM), que dispensa apresentações ao leitor da blogosfera.

O IM tem uma fixação especial por Ayn Rand, uma escritora, roteirista e pseudo-filósofa russa que viveu a maior parte da vida nos Estados Unidos.

Rand defendia fanaticamente o uso de uma suposta razão objetiva, o individualismo, o egoísmo e o capitalismo. Segundo a base de sua “filosofia”, o homem deve viver por amor a si próprio, sem se sacrificar pelos demais e sem deles esperar qualquer solidariedade.

Para os seguidores de Rand, o espírito altruísta cooperativo é visto como fraqueza e como destruidor da energia humana empreendedora.

Rezam pela cartilha de Rand, por exemplo, o articulista de Veja Reinaldo Azevedo e o economista Rodrigo Constantino, membro do Conselho de Fundadores e Curadores do IM, autor de livros barra-pesada como “Estrela Cadente: As Contradições e Trapalhadas do PT” e “Egoísmo Racional – o Individualismo de Ayn Rand”.

O conselho editorial do instituto é liderado por Eurípedes Alcântara, diretor da revista Veja, tão conhecido pela barriguda matéria do Boimate (o anúncio da fusão genética do boi com o tomate) quanto por sua devoção fanática pelos Estados Unidos e pelo neoliberalismo radical.

Participante ativo de programas de entidades financiadas pelo NED, Alcântara frequenta simpósios e atividades de treinamento destinadas a impor na América Latina o pensamento da direita corporativa norte-americana.

A Internet ainda exibe uma conversa tão estranha quando reveladora entre o executivo da Editora Abril e Donald “Tamiflu” Rumsfeld, ex-secretário do Departamento de Defesa dos EUA. Segue aqui uma fala entusiasmada do entrevistador.

QUESTION (Alcântara): Yeah, that would be my pleasure. I have been watching close your role in the United States and I must say that I admire you. You are so firm since the beginning. When they said they were going there for the oil and then they said you were going there for your own interests, and then, well, we see democracy spreading throughout the Arab world. This is not a small thing, right?

As relações entre o Millenium e entidades estrangeiras seguem diversas rotas de financiamentos e apadrinhamentos, mas um pouco dessa complexa malha de articulações pode ser visualizada aqui:

Hoje, os apoiadores estrangeiros do Instituto Millenium e dos partidos da direita brasileira têm um olho ansioso na eleição e outro faminto na compensação exigida. O principal balconista desse negócio é o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que recentemente, em Foz do Iguaçu (PR), tentou acalmar sua inquieta freguesia.

Caso José Serra vença o pleito em 31 de Outubro, o pagamento prometido está garantido: a entrega do Banco do Brasil, da Petrobrás e de Itaipu aos patrocinadores da “Revolução do Ódio”. Mais estarrecedor que esse acordo é o silêncio até agora das forças progressistas.

Fonte: NovaE – http://www.novae.inf.br

Saída à direita da crise econômica somente acirrará o caos social

OTTO FILGUEIRAS

A crise econômica que atingiu os Estados Unidos em 2008 e se irradiou ao resto do mundo, inclusive ao Brasil, não acabou. Trata-se de uma crise de super-acumulação de capital, que se manifesta, ao mesmo tempo, em superprodução, subconsumo e desproporção setoriais, sendo nessa dimensão semelhante às grandes crises do capitalismo, a exemplo daquela de 1929.

De acordo com Luiz Filgueiras, "a saída implica um processo de desvalorização e destruição da riqueza existente, realizada pela própria crise e arbitrada pelos Estados capitalistas, por meio de empréstimos, aquisições (nacionalizações de empresas) e associações". Mas a atuação estatal, socorrendo o grande capital, implicou um enorme endividamento dos governos. Assim, os atuais acontecimentos na Europa, "com governos propondo e efetivando cortes de despesas, demissão de funcionários, redução de salários, reformas das previdências, são a continuação da crise, agora atingindo, em cheio, o Estado e, como conseqüência, os seus trabalhadores". O capítulo seguinte, diz o economista, deverá ser uma recessão nesses países, com o aprofundamento do desemprego.

Por motivos de espaço no provedor, leia esta matéria na íntegra no site CONTROVÉRSIA. Clique no link abaixo. Obrigado.

http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=7178

As esquerdas na América Latina

A VEZ DA ESQUERDA NA AMÉRICA LATINA

Cristiano Catarin

O século XXI revela um domínio curioso de regimes governamentais chamados de esquerda nos principais países do continente americano como: Brasil, Venezuela, Argentina, Colômbia e Chile. Esta preferência está ligada, muitas vezes, a um forte desgaste nos partidos políticos tradicionais, ditos de direita.Sustentado por movimentos de resistência, os países latino-americanos estão experimentando a liderança estabelecida por regimes governamentais (reconhecidos pela forte oposição praticada aos modelos neoliberais do século XX) com objetivo de avançarem rumo ao desenvolvimento político-econômico sólido e equilibrado.

A década de 1980 representou um cenário de desenvolvimento do modelo neoliberal, adotado por muitos países latino-americanos. O neoliberalismo gerou grande expectativa para a América Latina que estava em busca de estabilidade política e consolidação da economia.

Por outro lado, nesse mesmo período iniciou-se uma grande resistência social estabelecendo forte oposição ao modelo neoliberal. Entretanto, a crescente presença de oposição ao neoliberalismo não conseguiu frear a quebra econômica de países como Brasil, Chile, Colômbia, etc. Em 1975 os Estados Unidos perderam a guerra do Vietnã, fato que abalou sensivelmente o governo americano. Em 1976, o então presidente dos EUA, Jimmy Carter mostrou-se defensor do fim da ditadura militar na América Latina e favorável ao regime democrático com objetivo de estabelecer novas diplomacias político-econômicas.

Na verdade, quando um país está sob regime de ditadura militar, um dos primeiros sintomas negativos a ser revelado fica por conta do aumento significativo na dívida externa e também, uma gradual redução salarial do trabalhador (perda do poder de compra). As “páginas da História” revelam que o período pós-ditadura representou aos latino-americanos forte expectativa pela democracia e surgimento de características como: liberdade de imprensa, fortalecimento do sindicalismo, greves freqüentes e a criação de novos órgãos, novos partidos políticos.

O experimento da democracia trouxe paradigmas aos países da América Latina. A expectativa certa de justiça mostrou-se insuficiente para provocar melhorias no cenário econômico desses países. A democracia não evitou, por exemplo, o aparecimento de moratórias, crise financeira e aumento considerável do desemprego.

Diante deste panorama, os partidos tidos como tradicionais (em sua grande maioria conhecidos como de “direita”) começaram a perder espaço e a apresentar enfraquecimento de sua credibilidade no cenário político. Esse mesmo desgaste acabaria fornecendo elementos que mais tarde explicariam a presença de partidos políticos de “esquerda” ou ditos de esquerda sagrando-se vitoriosos em diversos processos eleitorais.

O neoliberalismo somou-se à democracia e abriu espaço para um crescimento muito freqüente de movimentos sociais. A resistência popular passou a fazer parte de maneira mais presente na história da América Latina. Na Argentina de 2001 pôde-se ter uma idéia desta reação popular frente à crise econômica e política instalada no país.

A Venezuela, sob governo de Chávez, é um exemplo de governo de esquerda que beneficiou-se do desgaste de partidos ditos tradicionais venezuelanos. Mesmo com a tentativa do Golpe de Estado sofrido 1992, o presidente venezuelano mostrou-se ainda mais forte após ter ficado por 72 horas preso. Chávez procurou popularizar às “diretrizes oficiais do Estado”, fornecendo acesso da informação as classes mais pobres do país. O presidente venezuelano também traçou um plano de melhor distribuição de renda baseado na redefinição dos lucros obtidos pela PDVSA (uma espécie de Petrobrás da Venezuela). Vale lembrar que a Venezuela é o atual 4º produtor de petróleo mundial. O maciço apoio manifestado pela população na época da tentativa de Golpe ficou conhecido como chavismo.

Parte dos recursos da empresa petrolífera foram destinados a programas sociais. Chávez conseguiu aliar sua proposta política a satisfação da massa populacional mais necessitada (certa de 79% da população) reduzindo o índice de analfabetismo e de pobreza dos venezuelanos.

O Brasil do século XXI é outro modelo onde revela também o desgaste de partidos tradicionais como PSDB, PFL, PL, dentre outros. Diante do enfraquecimento da credibilidade desses partidos, o PT – partido dos trabalhadores (tido como principal oposição à direita) sagrou-se vitorioso ao conseguir eleger seu candidato, Luis Inácio Lula da Silva, a presidente da república em 2002. Sua eleição mostrou superioridade constante em comparação aos principais adversários, ganhou com folga de 62% dos votos válidos em relação ao principal candidato do PSDB, José Serra. Em 2006, Lula foi reeleito e mais uma vez venceu com tranqüilidade seu adversário mais “perigoso”, também do PSDB, Geraldo Alkimin.

Em meados de 2001 a Argentina foi protagonista de um fracasso político liderado pelo então presidente De la Rúa, defensor do regime neoliberal amparado pelo programa de ampla privatização das empresas estatais. Em 2001, cerca de 80% da população argentina estava mergulhada na miséria e 20% detinham toda riqueza produzida pelo país. A privatização da petrolífera YPF foi o maior golpe proferido ainda pelo governo de Carlos Saul Menem ao país. Com a privatização, milhares de empregos foram fechados e o endividamento externo da Argentina aumentou de maneira impressionante. Néstor Kirchner pegou a “batata quente” e tomou varias medidas com objetivo de conter a crise argentina. Uma das primeiras medidas foi negociar o pagamento da dívida externa do país. Kirchner apostou nas exportações de grãos, setor que movimenta bilhões de dólares para o país devido à super valorização dos produtos comercializados.

As providências tomadas por Néstor podem não terem sido suficientes, mas foi o bastante para “ganhar” a aprovação do povo, tanto que desde 10 de dezembro de 2007, Cristina Kirchner passou a ser presidente da Argentina e ninguém tem dúvidas de que ela dará continuidade ao programa político e econômico iniciado anteriormente.

Há 60 anos que a América Latina não apresentava freqüente reação social, freqüente oposição aos governos. A política de “esquerda”, ou dita esquerda, nunca tomou tanto espaço no cenário político dos países latino-americanos. Isto não quer dizer que seja o caminho certo, ou o caminho da reação da democracia. As enormes reservas de dólares no Brasil atual não refletem uma melhora na condição da população mais carente. Talvez reflita sim, numa redução da dívida externa, que seria tão bom senão tivesse aumentando significativamente a dívida interna do país.

Fonte: História Net – http://www.historianet.com.br

Os últimos dias de Hailê Selassiê

Ele poderia voltar amanhã e encontraria tudo como deixou. Nada foi mudado no palácio do "rei dos reis" desde aquele dia 27 de agosto de 1975, no qual Selassiê foi encontrado morto. Agora, pela primeira vez, um fotógrafo conseguiu obter permissão para entrar no reino pessoal de um dos governantes mais famosos da África. Ele viu lembranças aprisionadas, um mundo congelado no tempo

Hauke Friederichs e Ariel Hauptmeier

UMA REPÓRTER DESCREVE O IMPERADOR: SOB UMA CABEÇA DE AVE, COM ROSTO DE FARAÓ, ENCONTRA-SE O CORPO FRANZINO DE UMA CRIANÇA ENVELHECIDA

Pascal Maitre

Leões simbolizavam o poder imperial. Selassiê gostava de alimentar os felinos que mantinha nos jardins do palácio. Depois de morrerem, a maioria acabava empalhada, como enfeite diante do trono

UM HOMEM AGUARDA A CHEGADA DA MORTE.Ele está sentado no chão de terra, suas costelas protuberantes por baixo de sua pele seca, incapaz de se levantar. Aninhado entre seus joelhos, seu filhinho de 2 anos. Os outros filhos, sua mulher e mais algumas dezenas de pessoas em Arabati, uma remota aldeia no norte da Etiópia, morreram todos de fome.

As mulheres sobreviventes rasparam as ervas daninhas das frestas das casas e com elas cozinharam uma sopa rala. Mas agora já não há mais ervas daninhas em Arabati.

Centenas de milhares de pessoas estão ameaçadas de morte por inanição na Etiópia em 1973.

Mas o imperador Hailê Selassiê, encastelado como um deus na distante Adis Abeba, silencia.

No último ano, nenhuma gota d’água caiu do céu; três colheitas foram perdidas. Quando a chuva finalmente chega, em meados de 1974, ela cai com tanta fúria que as enxurradas carregam as sementes dos campos. Agora tudo está perdido.

As pessoas descobrem suas casas para alimentar bois e burros com a palha; elas consomem as últimas sementes, abatem os derradeiros animais. Mas nada disso é suficiente. Primeiro morre o gado, depois as crianças, as mulheres, os velhos, e, por fim, os homens.

Oficialmente, porém, o país não é assolado pela fome. Durante meses, os governadores das províncias atingidas acobertam a catástrofe, por medo de enfurecer Hailê Selassiê.

Mas então começam a circular boatos na capital sobre esqueletos vivos que mendigam pão à beira das estradas. Os primeiros jornais ocidentais informam. O governo etíope desmente.

Por fim, organizações internacionais oferecem enviar socorristas às regiões flageladas. Adis Abeba concorda, com uma condição: a calamidade tem que permanecer secreta.

Pascal Maitre

O imperador em uniforme de gala. Ele se via como o "rei dos reis" e o 225º sucessor do rei israelita Salomão. Hailê Selassiê significa literalmente "Poder da Santíssima Trindade"

MIRRADO, MEDINDO APENAS 1,62M e ainda assim um gigante. Hailê Selassiê é tido como um dos governantes mais significativos da África; o único que enfrenta, olhos nos olhos, os presidentes das nações industrializadas.

"Seu rosto é encovado, descarnado, desairoso, com manchas marrons", escreve uma repórter italiana. E prossegue: "Um nariz e dois olhos dominam suas feições. Uma cabeça de ave. O nariz é pronunciado, adunco, longo, quase aquilino. Ele parece não ter fim. Sob essa cabeça de ave com rosto de faraó, encontra-se o corpo franzino de uma criança envelhecida".

Finalmente, em dezembro de 1973, quase um ano após o início da catástrofe, o imperador age. Ele viaja de avião até o norte da Etiópia e visita um acampamento de lavradores que fugiram da terrível estiagem.

Uma enfermeira conduz o imperador pelo local. Em uma sala há fileiras de caixas de papelão. Elas abrigam bebês adormecidos. Órfãos; seus pais morreram. Hailê Selassiê fica comovido. Ele isenta os camponeses da província de todos os impostos.

Nesse calamitoso ano de 1973, Hailê Selassiê já governa a Etiópia há meio século. O mundo mudou, mas ele continua regendo como monarca absoluto. Jamais lhe ocorreria que sua política pudesse ser responsável pela fome. As coisas acontecem como Deus quer; o que ele pode fazer além de distribuir esmolas?

Mas tudo o que é rígido, tudo o que é autoritário, decai após certo tempo. Também na Etiópia a monarquia absolutista cairá. Não demorará e estudantes e jovens oficiais se insurgirão, exigindo o direito de voto e a Democracia. Daqui a nove meses soldados invadirão o Palácio do Jubileu, e prenderão Hailê Selassiê. E dentro de um ano e meio eles irão assassiná-lo.

Os seguidores do imperador mergulharão a Etiópia em confusões cada vez mais graves. E um dos países mais antigos de nossa História, cristão desde o século IV d.C., nunca colonizado depois disso, irá se encaixar na memória do mundo como uma nação de mortos de fome, fracos demais para se levantarem do chão.

Pascal Maitre

90% DO PAÍS PERTENCIA AO IMPERADOR, À ARISTOCRACIA,

À IGREJA. OS LAVRADORES SÃO OBRIGADOS A CEDER

UM TERÇO DA COLHEITA COMO IMPOSTOS

Pascal Maitre

Concluído em 1960, o palácio em Adis Abeba era apenas um entre muitos outros. O imperador possuía pelo menos uma residência oficial em cada província; entre outros, no Deserto do Ogaden

HAILÊ SELASSIÊ nasce no dia 23 de julho de 1892 com o nome de Tafari Makonnen, filho de um governador provinciano. É um príncipe delicado e suave, de mãos finas e incomum instinto de poder. Cedo na vida ele aprende a jogar inimigos contra inimigos e a descartar os amigos nas horas certas. Aos 14 anos se torna governador; aos 18, regente da rica província de Harar.

Ele não é um descendente direto da família imperial governante; apenas um sobrinho-neto do imperador. Intrigas, talvez até um assassinato, dão-lhe acesso ao poder. Em 1916 ele lidera uma camarilha que depõe o enfraquecido imperador Iyasu, e instala uma outra do líder deposto no trono. Mas ela morre em circunstâncias misteriosas no ano de 1930. Teria o ras (príncipe) Tafari, sedento de poder, mandado envenená-la? Essa é a suspeita que o médico particular da imperatriz protocola perante os representantes da Liga das Nações, em Genebra.

Tafari espera durante 7 meses; bajula, ameaça e suborna os poderosos. Depois disso, seu caminho para o trono está livre. No dia 2 de novembro de 1930, ele se faz coroar como negusa nagast (rei dos reis) e adota o nome de Hailê Selassiê: ‘Poder da Santíssima Trindade’.

O embaixador dos Estados Unidos o presenteia com uma geladeira; o Império Alemão envia 500 garrafas de vinho do Reno. O líder de uma seita jamaicana tem a visão de que este imperador é um deus; futuramente, seus seguidores o endeusarão e se chamarão pelo seu nome: rastafáris.

Mas em pouco mais de cinco anos, Hailê Selassiê é obrigado a abandonar seu país. Um corpo expedicionário italiano derrotou o exército etíope. Selassiê foge para a Inglaterra, mas não desiste.

Em 1936, ele pronuncia um discurso eloquente na Liga: "Catástrofes são infalíveis quando Estados grandes e poderosos toleram a violação de um país pequeno", dispara ele contra os delegados. No ano anterior, a revista americana Time o havia escolhido como o "Homem do Ano".

Em 1941 tropas britânicas expulsam os italianos, e o imperador retorna ao seu trono. Ele abole definitivamente a escravidão, funda universidades e uma companhia aérea; manda instalar redes elétricas e linhas telefônicas, e abre hospitais. Também mantém encontros de trabalho com Mao tsé-Tung e Kennedy, Kruchev e Nehru; além disso, media conflitos africanos, é um estadista respeitado.

A Guerra Fria tem início e a África se divide: de um lado, os países próximos ao bloco soviético; do outro, os simpatizantes do Ocidente. Quando a Organização de Unidade Africana (OUA) é fundada, em 1963, na tentativa de superar a fragmentação do continente, somente um líder é cogitado para atuar como patrono da nova entidade: Hailê Selassiê. Ele demonstra que a África está em condições de se autogovernar. E é considerado um homem moderno.

Pascal Maitre

A penteadeira do imperador Selassiê tornou-se o ideal de um movimento de orientação cristã do Antigo Testamento, os rastafári, doutrina que postula a deidade que envolve Hailê Selassiê. O sinal característico de seus seguidores são os chamados dreadlocks, cachos de cabelo emaranhados

Pascal Maitre

Uma luminária com motivo bíblico. Como imperador da Etiópia, Selassiê era simultaneamente chefe supremo da igreja ortodoxa etíope, cujas raízes remontam ao século VI d.C.; já naquela época o Estado e a Igreja eram estreitamente vinculados

Pascal Maitre

MAS EM SEU PAÍS, a atmosfera na corte é feudal. Os súditos se aproximam do imperador arrastando-se pelo chão; eles chafurdam a testa na poeira quando lhe entregam petições. Pode-se ver de longe quando Selassiê anda pela cidade em uma de suas 27 carruagens: uma onda humana, como uma ola em um estádio de futebol, percorre as alas dos súditos, pois estes vão se ajoelhando à medida que o veículo se aproxima.

Partidos políticos são proibidos; no "Parlamento" encontram- se apenas os protegidos do imperador e os jornais são censurados. Cerca de 90% das terras nacionais pertencem ao imperador, à aristocracia e à igreja ortodoxa cristã. Os camponeses são obrigados a entregar pelo menos 30% de suas colheitas ao governo, como impostos. Falta-lhes todo e qualquer estímulo para investir ou produzir excedentes.

Pascal Maitre

Hailê Selassiê I nasceu na Província de Harar e dirigiu o governo da imperatriz Zauditu desde 1916. Em 1928, foi coroado rei e, após as vitórias sobre os aristocratas insurgentes, fez coroar-se imperador em 1930 (foto)

Como nos tempos bíblicos, eles afofam a terra manualmente, com ganchos; como em anos de estiagem, ou quando nuvens de insetos devastam suas lavouras, passam fome. Apenas 5% dos etíopes sabe ler e escrever; e uma em cada duas crianças morre antes de completar cinco anos.

Selassiê só não economiza com o seu exército: o contingente ativo e armado é de cerca de 50.000 homens, uma das tropas mais modernas do continente, treinada por oficiais americanos. Desde 1961, os soldados lutam contra o movimento separatista da Eritreia, que em 1962 Hailê Selassiê rebaixou à categoria de província etíope com cidadãos de segunda classe. Os Estados Unidos lhe fornecem ajuda militar; em troca, Washington é autorizada a instalar uma base de apoio em Asmará.

Hailê Selassiê é um déspota, mas não um açougueiro. Mais parece um sutil e refinado ditador, que não manda torturar seus opositores, antes os envia a uma província infestada de malária. Ou então os arruína. Como fez com o empreendedor suíço André Evalet.

Este caiu em desgraça na corte e foi obrigado a indenizar o governo com uma soma que equivale ao valor de sua serraria em Adis Abeba. Evalet está quebrado. Ele solicita uma audiência com o imperador. Entra na longa fila de peticionários e adentra a sala do trono, quando um serviçal lhe faz um sinal. Sob mesuras e com a cabeça abaixada, ajoelhando–se uma vez no meio do salão, ele se aproxima do trono dourado, no qual Hailê Selassiê repousa em seu uniforme cáqui de marechal. Evalet solicita uma redução de sua dívida.

Selassiê se cala. Por fim, murmura: "Ischi". Está certo.

André Evalet se curva e deixa o salão andando para trás. Mas então comete um erro: ele ergue a cabeça, ainda que nenhum súdito possa olhar diretamente nos olhos do imperador! Evalet ainda vê como Hailê Selassiê balança a cabeça quase imperceptivelmente, olhando para o "Ministro da Pena", aquele que anota todas as instruções e decisões. Pouco depois, Evalet recebe uma carta: sua petição fora negada.

HAILÊ SELASSIÊ É UM DÉSPOTA, MAS NÃO UM AÇOUGUEIRO.

ELE NÃO MANDA TORTURAR SEUS OPONENTES,

APENAS OS ENVIA A UMA PROVÍNCIA INFESTADA DE MALÁRIA

Pascal Maitre

Em 1935, tropas italianas ocuparam a Etiópia e o imperador fugiu para a Grã-Bretanha. Seis anos depois, tropas britânicas libertaram o país. Desde então, Hailê Selassiê tinha grande predileção por tudo o que era inglês, inclusive uniformes e sapatos

HAILÊ SELASSIÊ é o chefe supremo da Igreja, comandante-em-chefe do Exército, juiz supremo. Tudo gira em torno dele; ele é a constelação da qual emana todo o poder. O imperador promove gente do povo e os transforma em poderosos funcionários públicos, encarregados de vigiar e controlar a aristocracia. Esses arrivistas devem tudo ao rei dos reis, que poderia destruí-los num piscar de olhos. Portanto são incondicionalmente fiéis.

O imperador adora deixar as pessoas que o cercam inseguras; ele as obriga, constantemente, a interpretar seus mínimos gestos. Jamais se compromete e nunca fornece nada por escrito. Fala sempre em um tom de voz tão baixo que é quase inaudível: será que agora ele disse sim, ou não? Selassiê sempre dá razão aos dois únicos partidos, sabendo que apenas um poderá se impor. E, no fim, sempre fica do lado do vencedor.

Em todas essas condutas, sempre demonstra cordialidade absoluta e intenso charme. Os que lhe são próximos declaram amá-lo. O imperador dispõe de uma memória excelente. Ele se lembra de minúcias, e surpreende os dignitários com seus conhecimentos. "Como vão seus olhos?", perguntou certa vez ao diretor do Banco Nacional para a imensa alegria deste. "O senhor tem que beber muito suco de cenoura", aconselha.

Em contrapartida, o "Ministro da Pena", a autoridade do governo obrigada a traduzir em instruções os murmúrios incompreensíveis do imperador, é odiado em todo o país. Ele é sempre o culpado quando as pessoas não recebem o que esperavam ganhar, ou o que o imperador talvez tenha prometido.

"O povo precisa ser educado", explica Selassiê a um diplomata. "Ele não sabe do que necessita. O rei sabe".

Delegar poder é algo impensável para Hailê Selassiê. Ele tirou Adis Abeba da Idade Média, mas nas províncias o tempo congelou no tempo. Em 1960, a insatisfação com esse quadro já havia desembocado em uma tentativa de golpe perpetrada pela guarnição de guarda-costas imperiais.

A insurgência é esmagada, seus líderes são enforcados e seus cadáveres balançam durante dias em cadafalsos que Hailê Selassiê mandou erguer bem no centro da capital. Mas o anseio pela Democracia só aumenta.

Pascal Maitre

21.07.1959, em visita oficial ao presidente francês Charles de Gaulle. Muito hábil em política exterior, o imperador desfrutou durante muito tempo de grande respeito

O PROTESTO COMEÇA SILENCIOSO, quase imperceptivelmente, na planície de Borana, no sul da Etiópia. No dia 12 de janeiro de 1974, os soldados da 4ª Divisão prendem seus superiores na caserna. Quase todos os poços d’água da região secaram;apenas uma nascente ainda jorra, mas ela é reservada, exclusivamente, à sede dos oficiais.

Aos mesmos homens que durante anos desviaram para os próprios bolsos o dinheiro destinado ao abastecimento e à manutenção das tropas. Agora, eles são forçados a consumir a "lavagem" servida às patentes mais baixas. Os 200.000 sacerdotes da igreja etíope ameaçam entrar em greve, ao lado das 50.000 prostitutas de Adis Abeba.

Em fevereiro, o motim se espalha pelo exército. Em panfletos, os soldados convocam à luta contra os "aproveitadores do regime".

Pouco depois, os professores saem às ruas da capital etíope em manifestações por salários melhores e uma reforma agrária. Os motoristas de táxi protestam contra os elevados preços do combustível. Os estudantes também invadem as vias públicas, e por toda a parte colam cartazes com fotos de compatriotas esquálidos; até ocupam o hotel de um latifundiário. Os sindicatos decretam uma greve geral; estudantes são assassinados pela polícia, e a corporação acaba se insurgindo contra seus superiores.

Hailê Selassiê tenta impedir, uma última vez, sua derrocada. Ele promete o controle dos preços, e um soldo melhor. Chega a acenar com a possibilidade de uma Constituição, que limitaria seu poder. Em meados de abril, ele nomeia seu sucessor: Zera Yacob Asfa Wossen, um neto de 20 anos de idade.

Pascal Maitre

Um telefone de baquelita, rádio, lanterna, velas e símbolos do Cristianismo: os aposentos imperiais permaneceram inalterados após a morte de Selassiê. Somente o novo governante socialista, major Mengistu Haile Mariam, utilizava-os de vez em quando

Pascal Maitre

O vagão-sala do trem imperial, encostado em um trilho secundário da Estação Ferroviária de Adis Abeba. Era deste hotel sobre rodas que Selassiê apresentava a sua Etiópia a chefes de Estado visitantes, como o presidente Tito da Iugoslávia ou o imperador Hiroito do Japão

Pascal Maitre

Foto de família de 1954: Hailê Selassiê, sua mulher Menen Asfaw, e os netos. O casal imperial havia se casado aos 20 anos de idade

É TUDO EM VÃO. O ressentimento e a insatisfação só aumentam. A menos de 2km de distância do Palácio do Jubileu, residência oficial do imperador, 120 oficiais de todas as armas se reúnem secretamente, em uma velha e decrépita caserna da 4ª Divisão. Eles se denominam derg (sombra). É principalmente a fome que os deixa revoltados, pois no país há pão e cereais suficientes nos campos. Os armazéns estão cheios, mas tudo é muito mal distribuído. E os protegidos do imperador ainda saem ganhando com a catástrofe.

Mas Hailê Selassiê é popular no mundo inteiro, respeitado no exterior, o escolhido de Deus, senhor de todas as almas. Será que se pode erguer a mão contra ele?

Os homens da derg fazem uma provocação: no final de abril, eles detêm diversos ex-membros do governo e os acusam de corrupção.

Sua majestade silencia. E isso desanima os rebeldes. Começa então o "golpe latente", o paulatino desmantelamento da corte e de seus dignitários.

Indefeso, Selassiê não intervém. Ele permite que seu conselheiro mais próximo seja preso, bem como o ex-ministro do Exterior e até o seu confessor de anos.

Ao mesmo tempo, os oficiais a seguram sua fidelidade ao imperador, e ousam até a declarar publicamente que estão agindo em seu nome. Hailê Selassiê não desmente.

As pessoas mais próximas ao imperador imploram, insistem para que ele se empenhe na luta contra os golpistas. Ainda há tropas leais. Por que ele não assume seu comando? Por que não grita "Mentira!", quando os homens da derg alegam estar operando em seu nome?

Mas o imperador simplesmente não faz nada. Ele recebe diplomatas estrangeiros na sala do trono, inaugura fábricas e escolas. Festeja seu 82º aniversário como se nada estivesse acontecendo. Altivo, retraído e fechado em si, permite que os acontecimentos sigam o seu rumo.

Será que ele pensa poder se colocar mais uma vez, uma última vez, à frente de um movimento rebelde? Estaria ele senil?

No fim de junho de 1974, os tanques rolam pelas ruas de Adis Abeba. Soldados cercam os bancos e o aeroporto. A ninguém é deixada a possibilidade de colocar sua fortuna em segurança. Até o fim de julho, os militares assumiram grande parte do aparato estatal. Apenas o próprio Hailê Selassiê se mantém intocável.

Pascal Maitre

Quarto imperial, no Palácio do Jubileu. A construção da residência teve início em 1955, por ocasião dos 25 anos da ascensão de Hailê Selassiê ao trono. No mesmo ano, o imperador introduziu hesitantes reformas eleitorais e educacionais para a população

120 OFICIAIS CONSPIRAM CONTRA O IMPERADOR. ELES SE DENOMINAM DERG (SOMBRA). O GOLPE DE ESTADO TEM INÍCIO

Pascal Maitre

A escrivaninha do governante. Selassiê preferia dar suas ordens verbalmente; em um tom de voz tão baixo que seus cortesãos sempre tinham que adivinhar o que ele sussurrava: "O que o imperador quis dizer dessa vez com seus murmúrios?"

Pascal Maitre

Um extensor do imperador ao lado de quatro de seus cetros de pelos de crinas e rabos de cavalo. No exterior, Hailê Selassiê foi considerado durante muito tempo como um regente moderno e esclarecido. Mas na corte, a atmosfera era altamente feudal: súditos se aproximavam dele arrastando-se pelo chão

Pascal Maitre

Hailê Selassiê era um leitor ávido e culto, diversão em que se viu potencialmente sozinho: apenas 5% de seus súditos sabiam ler e escrever

11 DE SETEMBRO DE 1974. Nesta noite, provavelmente não existe na Etiópia um único aparelho de televisão que não esteja ligado. Hailê Selassiê também assiste à TV, em companhia de um criado. Mais tarde, o imperador mergulhará em um silêncio profundo e deprimido. Só que não pregará os olhos.

A mando da derg, a emissora transmite o documentário inglêsA fome desconhecida. O filme, polêmico e até brutal, foi rodado pelo jovem jornalista britânico Jonathan Dimbleby. Ele mostra ruas de aldeias semeadas de corpos. Corte. Caviar echampagne sendo entregues no palácio imperial. Corte.

Aqui um esqueleto esquálido, ali um gigantesco bolo de casamento.

Agora o país está pronto para dar o último passo.

Na manhã do dia seguinte, os portões das casernas da 4ª Divisão se abrem. Tanques e caminhões militares saem; soldados ocupam todos os pontos nevrálgicos da cidade. Um jipe militar freia na frente do Palácio do Jubileu. Dez oficiais armados com metralhadoras invadem a residência, sem enfrentar resistência.

Trajando um terno preto, Hailê Selassiê os recebe na biblioteca. O líder dos oficiais faz uma mesura e então lê o seguinte texto: "Hailê Selassiê I usou a autoridade, dignidade e honra do trono para suas metas pessoais. Em consequência disso, nosso país se encontra assolado pela pobreza e pela decadência. Por isso, sua alteza imperial está sendo deposta e o poder transferido para um conselho militar provisório. Etiópia acima de tudo!".

Durante alguns momentos ninguém fala nada.

O imperador quebra o silêncio. "Nós servimos ao nosso país na guerra e na paz", afirma ele. Em seguida, ele agradece a todos e declara que o Exército jamais o decepcionou: se a revolução é boa para o povo, então ele também está a favor da revolução.

Um fusca azul-claro estaciona diante do palácio. "Entrar nisso?", pergunta Hailê Selassiê, enfurecido com a humilhação. Seu único protesto nesta manhã. Mas então se senta no banco traseiro do carro. A caravana se põe em movimento.

Na frente do palácio, estudantes gritam: "Ladrão! Ladrão!" e "Enforquem-no!".

OFICIAIS DETÊM O IMPERADOR. COMEÇA O "TERROR VERMELHO". E SEGUEM-SE EPIDEMIAS DE FOME MUITO PIORES AINDA

Pascal Maitre

Até hoje, o palácio é mantido impecavelmente arrumado. Ele já deveria ter sido transformado em museu, mas a Etiópia ainda reluta em render-se à complexa herança do imperador

Pascal Maitre

Em 1994, a Etiópia transformou-se em uma República Federal Democrática; desde então, o presidente, atualmente Girma Woldegiorgis, utiliza o antigo gabinete de trabalho imperial para ocasionais audiências

Pascal Maitre

Um desfile socialista em Adis Abeba em memória do "Dia da Vitória", 12 de setembro de 1974. Na época, a meta dos (golpistas) era estabelecer uma "República Democrática Popular" sob orientação proletária

HAILÊ SELASSIÊ É TRANCAFIADO em um barraco miserável no interior do quartel da 4ª Divisão. Os militares interrogam o velho soberano, e o acusam do desvio de US$ 15 bilhões. Ele também teria enviado milhares de quilos de ouro para a Suíça. Se devolver esses bens, será libertado.

"Tudo o que o país possui já lhes pertence", retruca o imperador monotonamente durante os interrogatórios. Ele não tem contas bancárias no exterior, garante.

Agora, finalmente, o povo descobre quem se impôs nas lutas pelo poder na derg: Mengistu Haile Mariam, um jovem major, esbelto e fisicamente delicado, controlado, mas cheio de tensão reprimida. Sua mãe era empregada na corte; o imperador o mandou para uma academia militar nos Estados Unidos. Curiosamente, foi lá que ele soube das ideias comunistas.

Em novembro de 1974, 59 governadores, ministros e generais são fuzilados. Pouco antes do Natal, a derg manda decretar o Socialismo como base da reforma estatal na Etiópia. Todos os títulos de nobreza são anulados. Agora tem início o "Terror Vermelho": dezenas de milhares de pessoas são assassinadas. Em Kotebe são encontrados 30 cadáveres com cordas de náilon verde ao redor dos pescoços. O povo as chama de "gravatas de Mengistu".

O dinheiro que Hailê Selassiê teria mandado transferir para o exterior não é encontrado. Para que, então, ainda se precisa do imperador?

Na noite de 26 de agosto de 1975, os guardas mandam o criado Eshetu, o único com permissão de acesso a Hailê Selassiê, para casa. Este retorna bem cedo na manhã seguinte. Os guardas lhe dão livre passagem.

Ele bate à porta dos aposentos, mas ninguém responde. Após algum tempo, ele abre a porta. A primeira coisa que nota é um forte cheiro de éter. O rosto do imperador, geralmente marrom claro, está na cor cinza. Sua cabeça não repousa sobre e sim ao lado do travesseiro. Tudo indica que Hailê Selessiê foi anestesiado durante o sono e sufocado.

Assim termina a história do rei dos reis, do leão de Judá.

Em 1991, a União Soviética implode e, com isso, cai o único apoio do regime de Mengistu. O balanço de seu governo é catastrófico: desde a década de 80, cerca de um milhão de etíopes morreram na pior epidemia de fome da era recente.

Ocasionalmente podia se ver Mengistu Haile Mariam sentado no trono dourado de Hailê Selassiê em cerimônias oficiais.

Pascal Maitre, 55 anos, trabalha há tempos para GEO e foi o primeiro fotógrafo a conseguir acesso ao Palácio do Jubileu. O redator de GEO Ariel Hauptmeier, 40, reconstruiu junto com Hauke Friederichs, 29, os últimos meses de Hailê Selassiê. O famoso livro O Imperador, do repórter polonês Ryszard Kapuscinski, não lhes foi de ajuda, pois revelou ser uma obra literária, na qual muita coisa foi inventada livremente.

Fonte: Revista GEO – http://revistageo.uol.com.br/

A ditamole

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Boaventura de Sousa Santos

Se nada fizermos para corrigir o curso das coisas, dentro de alguns anos se dirá que a sociedade portuguesa viveu, entre o final do século XX e começo do século XXI, um luminoso mas breve interregno democrático. Durou menos de quarenta anos, entre 1974 e 2010. Nos quarenta e oito anos que precederam a revolução de 25 de Abril de 1974, viveu sob uma ditadura civil nacionalista, personalizada na figura de Oliveira Salazar.

A partir de 2010, entrou num outro período de ditadura civil, desta vez internacionalista e despersonalizada, conduzida por uma entidade abstracta chamada “mercado”. As duas ditaduras começaram por razões financeiras e depois criaram as suas próprias razões para se manterem. Ambas conduziram ao empobrecimento do povo português, que deixaram na cauda dos povos europeus. Mas enquanto a primeira eliminou o jogo democrático, destruiu as liberdades e instaurou um regime de fascismo político, a segunda manteve o jogo democrático mas reduziu ao mínimo as opções ideológicas, manteve as liberdades mas destruiu as possibilidades de serem efectivamente exercidas e instaurou um regime de democracia política combinado com fascismo social. Por esta razão, a segunda ditadura pode ser designada como ditamole.

Os sinais mais preocupantes da actual conjuntura são os seguintes. Primeiro, está a aumentar a desigualdade social numa sociedade que é já a mais desigual da Europa. Entre 2006 e 2009 aumentou em 38,5% o número de trabalhadores por conta de outrém abrangidos pelo salário mínimo (450 euros): são agora 804.000, isto é, cerca de 15% da população activa; em 2008, um pequeno grupo de cidadãos ricos (4051 agregados fiscais) tinham um rendimento semelhante ao de um vastíssimo número de cidadãos pobres (634.836 agregados fiscais). Se é verdade que as democracias europeias valem o que valem as suas classes médias, a democracia portuguesa pode estar a cometer suicídio.

Segundo, o Estado social, que permite corrigir em parte os efeitos sociais da desigualdade, é em Portugal muito débil e mesmo assim está sob ataque cerrado. A opinião pública portuguesa está a ser intoxicada por comentaristas políticos e económicos conservadores – dominam os meios de comunicação como em nenhum outro país europeu – para quem o Estado social se reduz a impostos: os seus filhos são educados em colégios privados, têm bons seguros de saúde, sentir-se-iam em perigo de vida se tivessem que recorrer “à choldra dos hospitais públicos”, não usam transportes públicos, auferem chorudos salários ou acumulam chorudas pensões. O Estado social deve ser abatido. Com um sadismo revoltante e um monolitismo ensurdecedor, vão insultando os portugueses empobrecidos com as ladainhas liberais de que vivem acima das suas posses e que a festa acabou. Como se aspirar a uma vida digna e decente e comer três refeições mediterrânicas por dia fosse um luxo repreensível.

Terceiro, Portugal transformou-se numa pequena ilha de luxo para especuladores internacionais. Fazem outro sentido os actuais juros da dívida soberana num país do euro e membro da UE? Onde está o princípio da coesão do projecto europeu? Para gáudio dos trauliteiros da desgraça nacional, o FMI já está cá dentro, e em breve, aquando do PEC 4 ou 5, anunciará o que os governantes não querem anunciar: que este projecto europeu acabou.

Inverter este curso é difícil mas possível. Muito terá de ser feito a nível europeu e a médio prazo. A curto prazo, os cidadãos terão de dizer basta! Ao fascismo difuso instalado nas suas vidas e reaprender a defender a democracia e a solidariedade tanto nas ruas como nos parlamentos. A greve geral será tanto mais eficaz quanto mais gente vier para a rua manifestar o seu protesto. O crescimento ambientalmente sustentável, a promoção do emprego, o investimento público, a justiça fiscal, a defesa do Estado social terão de voltar ao vocabulário político através de entendimentos eficazes entre o Bloco de Esquerda, o PCP e os socialistas que apoiam convictamente o projecto alternativo de Manuel Alegre.

Fonte: Informação Alternativa – http://infoalternativa.org