O governo faz concessões desde a queda de Ben Ali na Tunísia; os opositores querem mais reformas
Catherine Simon

Manifestantes carregam cartazes e bandeiras durante protesto nas ruas de Rabat, no Marrocos
Há certamente um impasse Ben-Ali na entrada do souk da almedina de Rabat, mas é apenas uma coincidência. A Tunísia e a revolução estão longe. “No Marrocos, o rei vem conduzindo pessoalmente uma revolução contra a pobreza”, avisou o secretário de Estado para Relações Exteriores, Mohammed Ouzzine, na imprensa de língua árabe. As ruas parecem confirmar isso. Tanto em Rabat como em Casablanca, os únicos ruídos de impaciência que se ouvem são aqueles dos carros que buzinam nos engarrafamentos.
Nem revolução, nem contágio: “Nosso país não parece sujeito a ser afetado por esse fenômeno”, comemorou, no jornal “Al-Bayane”, o secretário-geral do Partido Popular Progressista (PPS, ex-comunista), Nabil Ben Abdallah. O importante, afirma o ex-opositor, é ver o Marrocos “se manter pioneiro e líder em matéria de construção democrática”.
Mas a ostensiva apatia com a qual o Marrocos oficial reagiu ao anúncio da queda do regime do presidente Zine el-Abidine Ben Ali, divertiu a mais de uma pessoa. “Assistindo à televisão nacional, poderíamos pensar que a revolução tunisiana estava acontecendo a anos-luz”, ironiza Zineb el-Rhazoui, cofundadora do Movimento Alternativo para as Liberdades Individuais (MALI), que ganhou destaque na imprensa, em setembro de 2009, quando organizou, em pleno Ramadã, um piquenique de “des-jejuadores”.
A jovem, presente no dia 13, véspera da queda do presidente Ben Ali, diante da embaixada da Tunísia, onde uma reunião de apoio estava sendo organizada, se lembra de como os policiais dispersaram, “a golpes de cassetetes”, a centena de manifestantes. E de como, no dia seguinte, em uma nova reunião, esses mesmos policiais, que se tornaram “afáveis e sorridentes” por conta da queda do regime Ben Ali, os deixaram se expressar tranquilamente.
Desde então, todos notaram a discrição das forças de segurança, que deixaram no vestiário os capacetes e cassetetes e agora assistem impassíveis às diversas passeatas de manifestantes, desempregados com curso superior, professores raivosos ou indivíduos solidários com a revolta egípcia, que se revezam nas avenidas do centro da cidade ou diante do Parlamento. Não dizem que mais de 1.800 desempregados com curso superior acabam de ser contratados?
“O medo mudou de lado”, acredita Sion Assidon, fundador da associação Transparency Marrocos. “Aqui, como em outras partes, as pessoas vêm se dando conta de que um Zé-Ninguém pode mudar o curso das coisas”.
“Existem válvulas de escape”
De lá até prever uma onda de revolta sobre o reino, há uma iniciativa que ninguém quer tomar. “No Marrocos, ao contrário da Tunísia de Ben Ali, existem válvulas de escape: eles permitem que as pessoas vociferem”, observa o jornalista Ali Amar. Pelo menos até um certo limite. Ex-dirigente da extinta publicação semanal “Le Journal” e autor de um livro que lhe valeu a fúria do regime, Ali Amar sabe alguma coisa do assunto. Sem trabalho, na espera (incerta) de um visto para a França, pelo menos ele terá evitado a prisão – ao contrário de um outro “vociferador”, presidente da associação do Rif dos Direitos Humanos, Chakib Khyari, condenado, em 2009, a passar três anos atrás das grades.
A liberdade de expressão está “em regressão muito nítida”, nesses três últimos anos, afirma a presidente da Associação Marroquina dos Direitos Humanos, (AMDH), Khadija Ryadi, que se preocupa com o “fracasso de uma justiça mandada” e também observa um aumento no número de protestos, “ sobretudo de natureza social”, nas zonas rurais. “Se a revolução tunisiana resultar numa democracia, nós marroquinos nos beneficiaremos disso. Em compensação, se ela enfraquecer, será uma catástrofe”, prevê Ryadi.
Uma posição à qual se opõe Amina Bouayach, presidente da Organização Marroquina dos Direitos Humanos (OMDH), associação rival e da AMDH. “Os debates que hoje agitam a Tunísia e o Egito já foram conduzidos no Marrocos, com sucesso. Não estamos mais na época das bocas fechadas”, observa Bouayach.
“O Marrocos se encontra em um período delicado de aprendizagem democrática”, comenta por sua vez a acadêmica Houria Alami-Mchichi. O sentimento de pertencimento ao sistema monárquico “nunca foi tão consensual quanto hoje”, diz.
De fato, mesmo os mais virulentos detratores do regime, islâmicos do movimento Justiça e Caridade ou jovens “facebookers” raivosos, não questionam o princípio da realeza. Os primeiros, em um comunicado publicado na segunda-feira (7), denunciam a “benalização vivida pelo Marrocos” e exigem uma “mudança democrática urgente a fim de instaurar a separação dos poderes”. Os segundos trazem de volta à mesa uma reivindicação dos anos 1990: a monarquia parlamentar, “à maneira espanhola ou à inglesa”. Sim, decididamente, a Tunísia está longe.
Tradução: Lana Lim