O crescimento da extrema-direita freia o desenvolvimento do leste da Alemanha

Do correspondente em Berlim

Pela primeira vez, o relatório anual do governo alemão sobre a evolução econômica da parte leste da Alemanha expressa preocupação em relação à influência nefasta do crescimento da extrema-direita neonazista naquelas regiões que faziam parte da ex-RDA comunista até a reunificação de 1990. Os partidos que reivindicam esta orientação política são representados em três dos seis parlamentos regionais, enquanto uma série recente de casos de polícia de características xenófobas veio confirmar a sua influência crescente.

“Desdobramentos como estes apresentam todas as condições necessárias para exercer uma influência negativa sobre a continuidade do desenvolvimento dos novos Länder [governos locais]“, apontam os autores deste documento de 159 páginas que foi apresentado em 19 de setembro pelo ministro encarregado de supervisionar a ação em favor do leste, o social-democrata Wolfgang Tiefensee, um antigo prefeito de Leipzig. Ora, o relatório acrescenta que, “para a maioria dos alemães do Leste, ficou claro que a ex-RDA não pode prosseguir com sucesso no caminho das reformas econômicas e sociais, a não ser que ela dê mostras de abertura para o mundo e de tolerância”.

Tiefensee teme que o recrudescimento de atos xenófobos acabe espantando os investidores. Neste sentido, na Saxônia, uma região onde os neonazistas do NPD haviam obtido mais de 10% dos votos nas eleições locais de 2004, com alguns picos de mais de 20% em certas circunscrições, a câmara de comércio e da indústria de Chemnitz relata episódios que revelam esta tendência. Entre outros, diversos pequenos empreendedores estrangeiros, no setor da gastronomia, optaram finalmente por não se estabelecer em lugares onde a extrema-direita havia se destacado negativamente. Os seus militantes, principalmente nas regiões rurais, desenvolvem redes e grupos de simpatizantes que vêm cultivando o medo. Na primavera, vários grupos de turistas cancelaram uma viagem a Halberstadt (Saxônia-Anhalt) depois da agressão sofrida por uma companhia de atores.

Para Lars Viehler, o porta-voz da câmara de comércio e da indústria de Dresden, os investidores estrangeiros continuam a aparecer para se instalar, com ou sem o NPD. Mas o perigo da extrema-direita pode manifestar-se de maneira mais perniciosa. Nesse sentido, vale mencionar eventos como os que ocorreram em Mügeln. Nesta aldeia da Saxônia, oito indianos foram perseguidos por uma multidão enfurecida depois de uma briga durante um baile. Tais ocorrências podem “fazer com que um imigrante hesite a vir se instalar junto com a sua mulher e seus filhos, no momento exato em que a economia alemã está precisando de mão-de-obra estrangeira qualificada”.

Desde a queda do muro de Berlim, em 1989, a Alemanha Oriental, que se beneficiou de ajudas muito importantes por parte do governo federal e da União Européia, viu sua infra-estrutura ser reconstruída em grande parte. Mas, com um desemprego de longa duração e endêmico, e com uma economia na qual os salários e o poder aquisitivo não acompanham a tendência geral, ela permanece longe atrás do oeste do país. Mesmo se esta diferença diminuiu, o relatório estima que será necessário aguardar ainda durante cerca de vinte anos para ver o leste recuperar o seu atraso.

“A diferença está diminuindo”
Contudo, o Estado injetou, desde a reunificação, em 1990, mais de 250 bilhões de euros (o equivalente hoje a R$ 655 bilhões). Ele terá de desembolsar ao menos outros 150 bilhões de euros (cerca de R$ 400 bilhões) para rematar a unidade do país. “A diferença está diminuindo, esta é a boa notícia. Ela não está diminuindo com a rapidez necessária, esta é a má notícia”, resumiu Wolfgang Tiefensee, o único dentre os ministros, com a exceção da chanceler Angela Merkel, que cresceu na ex-RDA, o que constitui um sinal de que os “Ossis”, os ex-alemães do leste, enfrentam muitas dificuldades para alcançar o topo da escada social, quer seja na política ou no mundo dos negócios.

Mesmo se o crescimento do PIB foi, em 2006, em termos relativos, ligeiramente superior no leste em relação ao oeste, estima-se que o desempenho econômico por habitante do leste seja inferior em um terço em relação ao nível do desempenho do oeste. As receitas fiscais são de longe inferiores, enquanto os “Ossis” ganham em média um quarto a menos do que os “Wessis”.

Com a exceção de vários oásis como Dresden, Potsdam ou Iena, a população está diminuindo de maneira preocupante. O desemprego de longa duração, que atinge 14,7% da população ativa (contra 18,3% em 2005) permanece quase duas vezes mais elevado do que no oeste.

Jornal Le monde

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