Desnacionalização acelerada na indústria brasileira

Carlos Lessa

Esta semana a professora Carmen Garcia divulgou na defesa e aprovação de sua tese de Doutorado em Ciências da Engenharia de Produção na COPPE/UFRJ, a presença de capital estrangeiro na indústria existente no país. A professora teve que fazer um trabalho de paciência chinesa para reconstituir em detalhe esta presença entre 1985 e 2002.

Entre as duas datas foi implantada a adesão político-econômica do Brasil à globalização financeira. Houve o progressivo e acelerado programa de abertura comercial, com redução da proteção à indústria, privatizações e desregulamentações.

Houve a equalização da empresa sob controle de nacionais com a filial estrangeira no acesso ao mercado e aos incentivos públicos. Foi desmantelado o instrumental de política de industrialização que o Estado desenvolveu ao longo das décadas anteriores em busca de um padrão de desenvolvimento apoiado na dinâmica industrial e ampliação do mercado interno.

Duas evidências fortes balizam a trajetória do capital estrangeiro na indústria no período 1985-2002. Em primeiro lugar, a participação de filiais estrangeiras no valor de transformação industrial cresceu de 31% para 40% em 2002. Se forem consideradas apenas as grandes empresas (mais de 500 trabalhadores), a percentagem é de 47%. Isoladas, nas 100 maiores empresas o capital estrangeiro comanda 57% do VTI. Nas médias e pequenas empresas, onde é maior a presença nacional, houve perda de posição entre 1985 e 2002 (caíram de 35% para 29%). Desde o século XIX até 1985, a participação estrangeira atingiu 31%. A partir de então, em apenas 17 anos saltou para 40%.

A segunda evidência é o medíocre crescimento da economia brasileira, que na latino-américa apenas supera o Haiti. A promessa neoliberal falava de “tempos difíceis” com a mudança de modelo, que seriam sucedidos por uma vigorosa expansão da economia.

Em 2007, continuamos na mediocridade, com o desemprego crescente de jovens, com a “exportação” de jovens para o exterior, com a degradação das instituições republicanas.

Ao abandonar a plataforma dinâmica de estruturação do mercado interno, perdemos posição no cenário industrial internacional. Em 1980, o Brasil era a 8ª economia industrial e hoje somos a 13ª.

A professora apurou a lente da indústria extrativa e de transformação, agrupou as indústrias em cinco grupos: indústrias baseadas em ciência (eletrônica, farmacêutica, aeronáutica etc); indústrias de produção contínua em escala (química, siderurgia, automobilística etc); indústrias de produção diferenciada (eletrodomésticos, instrumentos médicos e máquinas e equipamentos); indústrias intensivas em trabalho (têxtil, confecções, calçados, mobiliário etc) e indústrias baseadas em recursos naturais (extrativa mineral, cimento, alimentos, bebida, madeira e extração e refino de petróleo).

Refletindo a abertura comercial, a indústria intensiva em trabalho perdeu 7% de posição no VTI. A indústria diferenciada caiu 2%; a em produção contínua manteve sua colocação. Houve crescimento do peso da indústria intensiva em recursos naturais e da baseada em ciência.

As filiais estrangeiras controlam 82% do setor da indústria baseada em ciência; 73% da diferenciada, e 68% da produção contínua. É particularmente inquietante a progressão da empresa estrangeira na indústria intensiva em recursos naturais. Nestas, a presença das filiais cresceu de 15%, em 1985, para 24%, em 2002.

Em termos estruturais, a indústria brasileira não é muito diferente da chinesa. A diferença é que, na China, a taxa de investimento é de 40% do PIB, enquanto que no Brasil não chega a 20%.

Os arautos da globalização festejam o quadro, pois a presença da filial estrangeira que não desenvolve tecnologia de ponta, que amplia comprometimento cambial com a remessa de lucros, que prefere comprar empresas e suas frações de mercado a construir novas plantas, frente ao cenário medíocre, sugere que o Brasil poderá ocupar uma posição central com as indústrias intensivas em recursos naturais.

Imaginam que uma República Velha reciclada, aonde proteínas brancas e vermelhas, alimentos processados e, provavelmente, etanol e biodiesel seriam os carros-chefes de uma nova economia brasileira. Abriríamos mão do sonho de um sistema industrial integrado para ocuparmos nichos baseados na mãe natureza. Isto pode vir a ocorrer, segundo as tendências detectadas por Carmen Garcia.

Cabe sublinhar que haverá uma mudança fundamental – e para pior – entre o café da República Velha e as commodities relacionadas.

Comparemos o café com a soja. Novas variedades de café eram desenvolvidas pelo IAC – Instituto Agronômico de Campinas. Na soja, a Monsanto domina o negócio das sementes. As máquinas da agropecuária são de filiais; os fertilizantes, após a privatização, idem. Não há nenhum grupo nacional com peso na comercialização da soja, enquanto que na República Velha era de nacionais a exportação de café. Na economia da soja, a produção agrícola e o transporte por caminhão são os refúgios dos nacionais.

Tempo houve em que se falava dos países centro-americanos como “banana-republic”. Foram os exemplos perfeitos de perda de soberania nacional.