Construção de nova usina nuclear que seria modelo enfrenta problemas na Finlândia

James Kanter
Em Olkiluoto (Finlândia)

A imensa usina elétrica em construção em um terreno lamacento aqui era para ser um modelo da renascença nuclear.

O reator mais poderoso já construído, seu design modular visava permitir que fosse construído rapidamente e com maior certeza em relação aos custos, a tempo de atender ao clamor por fontes mais limpas de energia para combater o aquecimento global. A usina seria a primeira de uma leva de usinas nucleares mais simples e mais seguras.
Mas as coisas não estão saindo como planejado.
Após quatro anos de construção e milhares de defeitos e deficiências registrados, o preço original de 3 bilhões de euros do reator de Olkiluoto aumentou pelo menos 50%. O reator supostamente seria concluído na metade deste ano, mas o trabalho está tão atrasado que a Areva, a empresa francesa que está construindo a instalação, e a Teollisuuden Voima, a companhia elétrica que a encomendou, não estão mais dispostas a prever com certeza quando começará a funcionar.
"As coisas transcorreram facilmente aqui", disse Jouni Silvennoinen, o diretor do projeto em Olkiluoto. Pelo menos é um local geologicamente estável: os riscos de terremoto em locais como a China e Estados Unidos, ou mesmo a ameaça de tempestades, significam que a construção destes novos reatores seria ainda mais difícil em outros lugares, ele disse.
A história provavelmente se repetirá no restante da Europa e nos Estados Unidos, à medida que os governos reabrem a porta para a energia nuclear.
A Areva e aqueles que a apoiam defendem que a nova série de reatores, conhecidos como EPRs, será padronizada até "o carpete e o papel de parede", resultando em benefícios de custo significativos, segundo Michael J. Wallace, o presidente da UniStar Nuclear Energy, um joint venture entre a Constellation Energy, a empresa de energia da costa leste americana, e a Areva.
Mas apesar das aprovações facilitadas, garantias de empréstimo pelos governos e outros incentivos para as companhias elétricas, a experiência inicial sugere que os novos reatores não serão mais fáceis ou mais baratos de construir do que aqueles de um quarto de século atrás, quando grandes estouros de custo -assim como os acidentes em Three Mile Island e Chernobyl- colocaram um fim ao boom de construção.
Um clone do reator finlandês atualmente em construção em Flamanville, França, também está atrasado e estourou seu orçamento, provocando dúvidas sobre o argumento do setor de que a padronização dos projetos levaria a redução de custos à medida que mais reatores fossem construídos.
Nos Estados Unidos, a Flórida e a Geórgia mudaram as leis estaduais para permitir um aumento nas contas da eletricidade, para que os consumidores bancassem parte do preço das novas usinas nucleares antes mesmo da construção delas começar.
"Eu sei que várias empresas americanas olham com trepidação para a situação na Finlândia e para a magnitude do investimento feito lá", disse Paul L. Joskow, um professor de economia do Instituto de Tecnologia de Massachusets, que é coautor de um relatório influente de 2003 sobre o futuro da energia nuclear. "A introdução de novos reatores nucleares será bem mais lenta do que muita gente presumia nos últimos anos."
Para a energia nuclear ter um alto impacto no atendimento da crescente demanda por eletricidade e redução dos gases do efeito estufa, a Agência de Energia Nuclear da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (Ocde), em Paris, estima que uma média de 12 novos reatores precisariam ser construídos a cada ano até 2030, chegando a 54 reatores por ano em 2030-2050. Mas não há reatores suficientes em construção para substituir aqueles que estão chegando ao fim de suas vidas úteis.
Dos 45 reatores sendo construídos ao redor do mundo, 22 tiveram atrasos na construção e nove não têm data oficial para começarem a ser construídos, segundo uma análise preparada neste ano para o governo alemão por Mycle Schneider, um analista de energia e crítico do setor nuclear.
Grande parte da construção está ocorrendo em países como a China e a Rússia, onde governos centrais fortes tornaram a energia nuclear uma prioridade nacional. A Índia também considera a energia nuclear como parte de sua busca pela autossuficiência e está procurando novas tecnologias nucleares para reduzir sua dependência de urânio importado.
Em comparação, "o Estado está por toda parte nos Estados Unidos e na Europa em energia nuclear", disse Joskow.
Os Estados Unidos geram cerca de um quinto de sua eletricidade por meio de 104 reatores, a maioria construída nos anos 60 e 70. O carvão ainda fornece cerca da metade da energia elétrica do país.
Para facilitar as novas construções, a Comissão Reguladora Nuclear em Washington tem trabalhado com a indústria para fornecer um punhado de projetos aprovados. Mesmo assim, a certificação para o modelo mais avançado da Westinghouse, uma unidade da Toshiba do Japão, não foi obtida durante uma revisão de sua capacidade de suportar o impacto de um avião. A comissão disse que adiará a revisão do local de construção do mais recente reator da Areva até que sua certificação para o mercado americano esteja completa.
Neste mês, o Departamento de Energia dos Estados Unidos produziu uma lista curta de quatro projetos de reator com direito a algumas garantias de empréstimo. Mas a esperança do setor de obter US$ 50 bilhões em garantias de empréstimo evaporou quando o dinheiro foi retirado do pacote de estímulo econômico do presidente Obama, em fevereiro.
A indústria teve mais sucesso pressionando os Estados a ajudarem a levantar dinheiro. Neste ano, as autoridades permitiram que a Florida Power & Light começasse a cobrar de milhões de usuários vários dólares por mês para financiar quatro novos reatores. Os usuários da Georgia Power, uma subsidiária da Southern Company, pagarão em média US$ 1,30 por mês a mais em 2011, subindo para US$ 9,10 até 2017, para ajudar a pagar por dois reatores que deverão entrar em operação no mínimo em 2016.
Mas a resistência está começando a se materializar. Em abril, os legisladores do Missouri recuaram diante de um aumento na conta para financiar a construção, levando a maior empresa elétrica do Estado, a Ameren UE, a suspender os planos para uma cópia do reator da Areva na Finlândia, no valor de US$ 6 bilhões.
A Areva, um conglomerado em grande parte de propriedade do Estado francês, é herdeira da grande experiência francesa na construção de usinas nucleares. A França foi o país que foi mais longe na geração de eletricidade a partir de usinas nucleares, obtendo cerca de 80% de sua eletricidade de 58 reatores, a maioria construída nos anos 70 e 80.
Mas mesmo na França, nenhum novo reator nuclear foi concluído desde 1999.
Após projetar uma usina atualizada chamada originalmente de Reator Europeu Pressurizado (EPR, na sigla em inglês) com participação alemã, durante os anos 90, os franceses tiveram problema em vendê-la em casa devido ao mercado saturado de energia assim como por oposição dos membros do Partido Verde, que então integravam a coalizão de governo.
Assim a Areva se voltou para a Finlândia, onde as companhias elétricas e setores intensivos em energia como papel e celulose fazem lobby há 15 anos por mais energia nuclear, assim como pela redução da dependência do gás natural da Rússia. Elas apoiaram fortemente o projeto, que inicialmente foi orçado em US$ 4 bilhões.
Os executivos da Teollisuuden Voima prometeram que ela ficaria pronta a tempo de ajudar o governo finlandês a atingir suas metas de redução dos gases do efeito estufa segundo o tratado de Kyoto, que vai até 2012.
Por sua vez, a Areva disse que a eletricidade de seu reator poderia ser gerada de forma mais barata do que por usinas de gás natural. A Areva também disse que seu modelo forneceria 1.600 megawatts, ou cerca de um terço a mais do que muitos reatores construídos nos anos 70 e 80, cobrindo 10% das necessidades de energia finlandesas.
Em 2001, o Parlamento finlandês aprovou por margem estreita a construção de um reator em Olkiluoto, uma ilha no Mar Báltico.
A construção teve início quatro anos depois. Hoje, o local ainda conta com 4 mil operários que trabalham dia e noite. Bandeiras de dezenas de empresas de toda a Europa flutuam ao vento acima dos escritórios temporários e cantinas improvisadas. Cerca de 10 mil pessoas falando pelo menos oito línguas diferentes trabalham no canteiro desde que as obras começaram. Cerca de 30% da força de trabalho é polonesa, e a comunicação representa desafios significativos.
Problemas sérios surgiram quando a vasta base de concreto da fundação do reator estava sendo construída. Quando a Areva mudou a composição do concreto para auxiliar seu despejo, a laje se tornou mais porosa e propensa a corrosão do que a Autoridade de Segurança Nuclear e Radiação finlandesa dizia ser aceitável.
De lá, a autoridade de segurança culpou a Areva por permitir que empresas subcontratadas inexperientes perfurassem buracos nos locais errados em uma vasta contenção de aço que sela o reator.
O prazo estabelecido pela companhia elétrica finlandesa – e então aceita pela Areva – "era irreal desde o início", escreveu a autoridade em um relatório há dois anos. Em dezembro, a autoridade alertou Anne Lauvergeon, a presidente-executiva da Areva, que a "postura ou falta de conhecimento profissional por parte de algumas pessoas" na Areva estava atrapalhando o trabalho nos sistemas de segurança.
A Areva reconheceu que o custo de um novo reator hoje seria de até 6 bilhões de euros, o dobro do preço oferecido aos finlandeses. Mas a Areva disse não estar fazendo economia imprópria na Finlândia. Os dois lados concordaram em uma arbitragem, onde cada lado busca mais de 1 bilhão de euros em danos.
A Areva anunciou uma queda acentuada nos ganhos no ano passado, que atribuiu aos crescentes prejuízos no projeto. O problema também é potencialmente oneroso para os contribuintes franceses – a derrota na arbitragem "poderia levar a redução de dividendos" para o Estado, reconheceu uma porta-voz da Areva.
Além disso, os inspetores de segurança nuclear na França encontraram rachaduras na base de concreto e reforços de aço nos locais errados nas obras em Flamanville. Eles também alertaram a Électricité de France, a empresa que está construindo o reator, que os soldadores trabalhando na contenção de aço não eram devidamente qualificados.
Somando-se a estes problemas estão a recessão, a menor demanda por energia, o arrocho de crédito e a incerteza em torno das futuras políticas, disse Caren Byrd, uma diretora executiva do grupo de energia elétrica global do Morgan Stanley, em Nova York.
"As luzes de alerta estão piscando mais intensamente agora do que há um ano em relação ao custo da nova energia nuclear", ela disse.
Tradução: George El Khouri Andolfato

Fonte: The New York Times – http://www.nytimes.com