A poesia de Wittgenstein

Humberto Pereira da Silva

Crítica americana Marjorie Perloff examina relações da obra do filósofo austríaco com as vanguardas literárias do século 20

Wittgenstein exerce um fascínio especial, que não se explica totalmente pela influência de seu pensamento sobre a filosofia no século passado. Ao mesmo tempo muitos acorrem à sua obra e desvinculam-na de sua vida (grande parte da produção especializada sobre seu pensamento olha de soslaio para injunções que se possam fazer entre seu pensamento e sua vida), igualmente muitos acham-na tão fascinante quanto ininteligível seus escritos (artistas que pouco se importavam com meandros de seu pensamento tomaram sua figura como modelo para composições de poemas, caracterização de personagens de romances, pintura de quadros e trechos de sua obra mais conhecida, o “Tractatus”, foi musicada).
Muitos, ainda, procuram estabelece nexo entre o fascínio que sua vida exerce e sua obra. Tentam, com isso, mostrar que os aspectos mais relevantes de suas inquietações, os problemas de lógica e da linguagem com que se deparou e o estilo de seus escritos estão indissoluvelmente atados à sua própria vida e ao universo cultural no qual se formou: a Viena “fin-de-siècle”. A crítica de literatura e arte norte-americana, de origem austríaca, Marjorie Perloff se insere no rol dos que sustentam haver uma “escada” que liga a maneira como Wittgenstein concebe a vida e o estilo peculiar de seus escritos filosóficos.
É isso que ela tem em mira no livro “A Escada de Wittgenstein – A Linguagem Poética e o Estranhamento do Cotidiano” (Edusp, 312 págs.), em que gravita sua exposição em torno da máxima “a filosofia deveria realmente ser escrita como uma forma de poesia”, extraída de “Cultura e Valor”, livro com anotações que Wittgenstein fez ao longo da vida sobre suas impressões acerca da cultura e do valor da obra de arte.
Para tratar do nexo entre vida e obra de Wittgenstein, na qual se entrelaçam problemas de lógica, linguagem e o universo cultural vienense, Perloff realça que “A Escada de Wittgenstein” é seu livro mais pessoal.
Austríaca, ela cresceu e se formou nos Estados Unidos, fugida das perseguições nazistas, e por muito tempo manteve distanciamento proposital do universo cultural vienense. Seus interesses e preocupações, como crítica de literatura, se situavam no orbe de poetas como W. B. Yeats, Robert Lowell e Frank O´Hara. Wittgenstein –e o retorno a Viena– se dá só quando ela fez um estudo sobre John Cage e foi alertada que os escritos do compositor, Gertrude Stein e outros vanguardistas têm a ver com o estilo dos escritos de Wittgenstein.
“A Escada de Wittgenstein” compõe-se de uma introdução, seis ensaios e uma coda. Nos seis ensaios, Perloff trata inicialmente da origem do “Tractatus” e das divergências entre Bertrand Russell e Wittgenstein sobre a “lógica” guerra. Em seguida, ela se volta para a arte das “Investigações Filosóficas”, livro póstumo de Wittgenstein, e para o cotejamento entre proposições de seu pensamento e o estilo de escritores como Gertrude Stein, F. T. Marinetti e Samuel Beckett. O passo seguinte do livro tem por foco o modo como proposições de Wittgenstein são formuladas em romances de Thomas Bernhard (“O Sobrinho de Wittgenstein”) e Ingeborg Bachmann (“Malina”).
No ensaio final, Perloff propõe elementos para que se apreenda o estilo filosófico de Wittgenstein da perspectiva de uma poética. Finalmente na coda, ela examina a exibição que o artista conceitual Joseph Kosuth fez em 1989 no museu Secession, em Viena, “O Jogo do Indizível”, para o centenário de nascimento de Wittgenstein.
O ponto de partida de Perloff na introdução de seu livro é que, para Wittgenstein, nossas afirmações de valor são sempre questionáveis e se inserem, por conseguinte, numa determinada “forma de vida”. À afirmação, por exemplo, de que “a poesia americana agora pertence a uma subcultura”, encontraria como resposta a pergunta sobre o que é “isso” que não tem “importância”, isso que pelo testemunho dos críticos se encontra sem relevância na cultura americana?
Tal afirmação remete a uma “forma de vida”, para a qual as regras que ditam o valor de uma obra de arte têm sentido, e não como enunciado inquestionável e de alcance universal. Escrever “filosofia” como se fosse “poesia” dramatiza, então, o processo de trabalhar questões particulares, de modo a testar o que pode e o que não pode ser dito com sentido sobre formas literárias, conceitos e fatos da vida.
No entanto, como mostra Perloff, Wittgenstein convive com o paradoxo de rejeitar a “poesia” de sua própria época e servir de referência para poetas e artistas vanguardistas: involuntariamente, como as vanguardas, ele prestigia a singularidade artística, na medida em que acentua a importância da personalidade daquele que cria.
O que interessa a ela, contudo, não é examinar ou desatar o paradoxo e sim mostrar que o estilo de escrita de Wittgenstein se insere no cânone de escritores vanguardistas do início do século passado. É a partir da ideia de que a obra e a vida se encontram em algum ponto que Perloff procura detalhar as condições em que foi concebido o “Tractatus”, no front da Primeira Guerra. Foi a experiência da guerra que transformou o “Tractatus” num livro bastante diferente dos tratados de lógica da época. Este livro, ela assevera, está mais próximo das ficções vanguardistas de 1910 e 1920 do que as obras de Bertrand Russell, seu mentor nos anos de Cambridge.
E nesse ponto de “A Escada de Wittgenstein” Perloff procura acentuar justamente as diferenças de visão da guerra –e por conseqüência da composição de uma obra filosófica- entre Wittgenstein e Russell: a guerra afasta Russell da filosofia, e ele passa a “escrever sobre guerra e paz”; já Wittgenstein vê na guerra um dos motivos principais de sua filosofia, pois da experiência da guerra ele escreve as proposições místicas do final do “Tractatus”.
A se observar que Perloff afasta-se do debate acerca dos problemas que levam a uma ruptura no pensamento de Wittgenstein: há um primeiro Wittgenstein, o do “Tractatus”, e um segundo, cujos escritos (coligidos por seus alunos e publicados após sua morte e que têm nas “Investigações Filosóficas” seu acabamento mais aceito) consistiram em grande medida na correção do que seria nas palavras do próprio Wittgenstein, “erros de sua filosofia anterior”.
É que o interesse dela é pelo estilo de escrita de Wittgenstein, a maneira como ele escreve consiste na descrição e não na tentativa de explicar o uso das palavras. É desse ponto então que Perloff empreende uma longa comparação entre excertos das “Investigações Filosóficas” e as poesias de Gertrude Stein, inicialmente, e em seguida as diversas peças e romances de Samuel Beckett.
Tanto quanto Wittgenstein, o duplo comprometimento com uma língua que não é a sua de origem produziu em Gertrude Stein (ela nasceu nos Estados Unidos, foi criada na Áustria e traduziu seus poemas do alemão para o inglês) um relacionamento especial com a linguagem. Perloff traça um paralelo entre ambos quando observa que tanto um como outro continuam a escrever em suas línguas nativas, mas mesmo o alemão de ambos não é mais o alemão austríaco de alguém que vive de fato em Viena, mas uma linguagem distanciada, falada e escrita de forma autoconsciente.
Perloff se atém então em pequenos detalhes do uso de verbos e frases que em ambos não é tida como correta pela maioria dos escritores que estão “em casa” em sua própria língua. Gertrude Stein tinha uma predileção por jogos de linguagem que exploravam precisamente, no inglês, diferenças sutis entre pronomes, substantivos e adjetivos.
Como a escrita filosófica de Wittgenstein, Gertrude Stein testa os limites da linguagem não por predileção pelo “nonsense”, mas para extrair implicações semânticas específicas. Enquanto no estudo sobre Gertrude Stein a crítica tem como alvo a questão dos limites da linguagem: o que pode e o que não pode ser dito com sentido, seu estudo que enlaça Wittgenstein e Samuel Beckett é centrado na visão de mundo que ambos partilhariam: um e outro guardam uma visão de mundo que se explicita principalmente por meio de subentendidos.
No prefácio às “Investigações Filosóficas”, Wittgenstein faz menção à “escuridão de nosso tempo”, sem, contudo, em seu estilo, especificar a que está se referindo. Os personagens nas peças principais de Beckett estão sempre diante de impasses que os dificultam a fazer os movimentos físicos mais cotidianos.
Perloff exemplifica que um personagem da peça “Watt”, Mr. Hackett, não sabe se deve ir para frente ou para trás, por não saber de onde tirar proveito de sua escolha. Wittgenstein em passagem das “Investigações Filosóficas” coloca a questão de não se saber se numa ação voluntária, como quando levantamos o braço, está excluído o desejo de levantar o braço.
No ensaio final de “A Escada de Wittgenstein”, Perloff examina como a poética wittgensteiniana é explorada por experimentos poéticos recentes que visam articular uma poética do cotidiano e o questionamento da linguagem. São apresentados então excertos de poemas de Robert Creeley, Ron Silliman, Lyn Hejinian e Rosmarie Waldrop.
Nesses autores, a poesia pode ser entendida como uma compreensão tácita de que, nas palavras de Wittgenstein, “não há nada de errado com a linguagem usual”, naquilo que a linguagem permite contemplar os enigmas e mistérios da comunicação cotidiana.
É importante destacar que o estudo empreendido por Marjorie Perloff em “A Escada de Wittgenstein” não se atém de modo específico à maneira como Wittgenstein concebe o valor de uma obra de arte, e sim em traçar comparações e influências, quando se leva em conta o estilo da escrita wittgensteiniana. O que está em pauta para ela é a assunção de Wittgenstein de que “a filosofia deveria ser verdadeiramente escrita como uma forma de poesia”.
Sendo assim, Perloff, ao mesmo tempo em que põe à prova esse pressuposto de Wittgenstein –e eleva seus escritos a uma poética–, realiza um estudo comparativo pormenorizado, ao cotejar o estilo de Wittgenstein com poetas, romancistas e dramaturgos. Para concluir, não se segue em seu estudo uma recíproca da máxima: “A poesia deveria ser escrita como uma forma de filosofia”. É o estilo e seu nexo com a vida que a interessa; as implicações filosóficas das proposições de Wittgenstein estão distantes de sua atenção.

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