A Europa desencantada

ANÁLISE Eleições para o Parlamento Europeu, marcadas pela alta abstenção e pelo crescimento da direita, revelam as consequências do rebaixamento da pauta dos social-democratas.


ANÁLISE Eleições para o Parlamento
Europeu, marcadas pela alta abstenção
e pelo crescimento da direita, revelam
as consequências do rebaixamento da
pauta dos social-democratasChristophe Ventura

APESAR DA ampliação contínua de suas prerrogativas e do fato de que ele é a única instituição europeia diretamente eleita pela população, é por uma outra característica que se pode singularizar o Parlamento Europeu: ele é o mais mal-eleito da Europa.
O liderança do inglório ranking tornou-se mais folgada após o pleito realizado entre os dias 4 e 7. Dos 338 milhões de eleitores, dos 27 países membros da União Europeia (UE), apenas 43% compareceram às urnas para escolher os membros da legislatura 2009-2014. Historicamente, cada eleição é marcada por um novo recorde de abstenção: 38% em 1979, 51% em 1999, 55% em 2004 e 57% neste ano.
Essa abstenção constitui o fato maior dessa eleição. Em muitos países, ela atinge níveis superiores a 75% nas classes populares. Em um país como a França, a linha de fratura sociológica é evidente. São as classes médias abastadas e urbanas que se mobilizaram para votar. Operários, empregados, camponeses, jovens, desempregados, precarizados, profissionais intermediários etc. boicotaram amplamente a consulta.
Esse fenômeno parece indicar claramente, no seio desses grupos, a existência de uma profunda indiferença pela construção europeia e confirma que eles não conferem nenhuma legitimidade às instituições e ao modelo político do continente. O quadro, o funcionamento e a classe política e administrativa da União Europeia não dispõem de nenhum reconhecimento e apoio por parte do povos europeus.
Sem alternativa
Esses últimos estão cansados de esperar uma “Europa Social”, prometida à opinião pública pela esquerda socialdemocrata desde que ela trocou seu norte internacionalista pela “ideia europeia”. Uma “Europa Social” é impossível dentro do quadro dos tratados comunitários concebidos, desde suas origens (o primeiro deles, o Tratado de Roma, é de 1957), segundo os princípios liberais, para organizar o controle das sociedades pelo mercado.
Diante de uma crise econômica e social sem precedentes, a União Europeia se revelou incapaz de geri-la: seus planos para relançar a economia e os dos países membros representam apenas 1% do PIB do conjunto das nações, e os países Bálticos e a Romênia foram abandonados ao FMI durante o colapso financeiro. Os povos europeus demonstraram, por suas abstenções massivas, um profundo abandono pela construção europeia. Esta última terá dificuldades para se reerguer e sua existência como modelo político parece comprometida perante a história.
Avanço reacionário
Nesse contexto, outros ensinamentos podem ser tirados. De início, em 21 dos 27 países membros, as direitas europeias chegaram na frente nas eleições. Elas se reorganizam daqui em diante em torno de dois polos: um conservador e liberal tradicional (maioria no PE) e um nacionalista e xenófobo, cujo peso se reforça em vários países, principalmente na Hungria, Finlândia, Grécia, Áustria, Itália, Inglaterra, Romênia, Dinamarca e nos Países Baixos.
Essas direitas, com 490 das 736 cadeiras, vão dominar o Parlamento Europeu. A esquerda social-democrata e a nova esquerda (cuja emergência se confirma nessas condições difíceis em vários países, como na França, na Alemanha ou em Portugal, onde elas contêm o avanço da extrema direita) serão claramente minoritárias.
Social-democracia
A social-democracia carrega uma pesada responsabilidade nessa situação. Ela codirige o Parlamento Europeu com a direita a partir de uma plataforma neoliberal. O Partido Socialista Europeu (PSE), com efeito, votou com ela dois terços das diretivas de liberalização e de privatização durante o mandato de 2004 a 2009.
A social-democracia está em crise profunda e a representação dos partidos originários desta tradição, em queda livre. No nível continental, o PSE é o grupo que conhece a maior redução de seus efetivos. Com 162 dos 736 deputados, ele perde 55 lugares em relação ao período anterior, quando tinha 217 lugares. O PSE não representa mais do que 22% dos deputados europeus, contra 27,6% entre 2004-2009.
Os social-democratas alemães (SPD) obtiveram seu pior resultado em uma eleição europeia, com 20,8% dos votos (contra 21,52% em 2004). Na França, o Partido Socialista perdeu 13% de seu eleitorado e recebeu apenas 16% dos votos. Com 15,31%, o Partido Trabalhista, da Inglaterra, teve seu pior resultado em uma eleição desde 1918. Na Itália, com 26,14% dos votos (contra 31,10% em 2004), o Partido Democrata prolonga sua lenta deriva eleitoral. A situação – com exceção da Suécia e da Grécia, onde os social-democratas obtiveram um resultado comparável ou superior ao de 2004 – é por toda parte quase a mesma.
Esquerda neoliberal?
Em toda a Europa, a conversão da social-democracia à ideologia neoliberal e sua renúncia às políticas de transformação e de defesa dos interesses populares nos últimos 25 anos resultaram na sua desqualificação nas camadas mais populares. Esse fenômeno produziu uma evolução política maior cujas tendências se exprimem em diversos níveis, nos votos nacionais e nos votos europeus: pobres e classes populares se desligam da vida política ou votam para a direita.
E por quê? É um jornal de finanças internacional que nos dá a análise mais séria sobre o assunto. A constatação proposta – em seu editorial sobre o resultado das eleições europeias – pelo Financial Times é irônica e ao mesmo tempo lúcida: “os partidos cuja missão histórica foi a de substituir o capitalismo pelo socialismo não têm filosofia de governo. Suas políticas anticrise são dificilmente distinguidas das propostas por seus rivais”.
Crise de representação
É em relação a essa problemática que devemos procurar as primeiras razões que conduziram largos setores da população a não votar para os partidos supostamente representantes de seus interesses de classe e a desertar da vida política. Essa crise de representação política no nível nacional resulta em um eleitorado popular optando, quando ele ainda vota, pelas formações de direita autoritária que apresentam respostas reacionárias a certas questões, principalmente a proteção face à concorrência imposta pela globalização, por exemplo. Ela é ampliada igualmente por uma indiferença desconfiada por uma construção europeia antidemocrática e antissocial. Combinados, esses dois elementos explicam a situação política europeia e minam a democracia em todos os níveis.
Exemplo
Essas eleições europeias confirmaram o aprofundamento da crise política em todos os países europeus. E isso num contexto de crise econômica, social e ambiental sem precedentes. Os sistemas políticos e seus representantes são cada vez mais desqualificados pelos povos.
A história latino-americana dos últimos 20 anos mostra que a debilidade dos sistemas políticos e institucionais pode oferecer rupturas progressistas quando forças e dirigentes políticos representantes de projetos de interesses populares se revelam. A tarefa é imensa para as forças progressistas europeias.
A questão que se apresenta é se elas sabem que, de agora em diante, não há mais tempo a perder com as falsas promessas desse modelo de Europa.

Christophe Ventura é membro da Associação Mémoire des Luttes e da ATTAC França.

Fonte: Jornal Brasil de Fato – http://www.brasildefato.com.br/