Os xenófobos deveriam se preocupar com a mudança climática

William Saletan – A mudança climática é uma farsa. Se não for uma farsa, é exagerada. Se não for exagerada, é um problema para outros países, não para nós. É apenas a questão queridinha de liberais em pânico.

Se você acredita em qualquer uma dessas coisas, tenho más notícias: o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês), basicamente os melhores cientistas de clima e Terra do planeta, acabou de divulgar um relatório sobre a elevação das temperaturas e os problemas que ela está causando em todo o mundo. Um dos problemas é a migração. As pessoas estão fugindo das partes mais quentes do mundo. Se continuarmos queimando carvão e petróleo, não seremos capazes de construir um muro alto o suficiente para manter de fora os milhões de refugiados a caminho do norte.

O relatório do IPCC apresenta essa ameaça e a pesquisa por trás dela. De 2008 a 2015, mais de 100 milhões de pessoas foram deslocadas por inundações, 60 milhões por tempestades e quase 1 milhão por temperaturas extremas. Ao longo das últimas quatro décadas, a taxa desses deslocamentos aumentou em 60%. O número projetado de prováveis “migrantes climáticos” ou “refugiados ambientais” é entre 50 milhões e 200 milhões.

Os cientistas estão documentando os efeitos precisos da temperatura sobre as migrações. Há dois anos, um estudo mundial baseado em 30 anos de dados apontou que em países dependentes da agricultura, cada 1˚C de aumento na temperatura está correlacionado a um aumento de 5% na emigração para outros países. Um estudo publicado em 2015 apontou que em 142 países, um aumento de 1˚C estava “associado a um aumento 1,9% nos fluxos de migração” para os Estados Unidos, Europa Ocidental e alguns poucos outros países altamente industrializados.

O principal parece ser a agricultura. “O calor extremo está correlacionado tanto a um menor rendimento das plantações quanto a maiores fluxos migratórios”, diz o estudo de 2016. Um relatório separado, publicado no ano passado por cientistas na Alemanha, explica que o calor destrói o arroz e o trigo, causa doenças nos animais e acelera a degradação do solo. No Paquistão, um estudo publicado há quatro anos apontou que temperaturas elevadas provocam migração por “eliminarem mais de um terço da renda agrícola”.

As temperaturas no Paquistão provocaram um aumento em 11 vezes na migração dentro daquele país, com frequência de vilarejos para as cidades, com os homens à procura de lugares mais fáceis para ganhar a vida. Efeitos semelhantes, apesar de menos dramáticos, foram relatados em Bangladesh, Índia, Indonésia e na África sub-saariana. As fronteiras podem conter esses movimentos, mas não podem impedi-lo. Em 2010, pesquisadores apontaram que um declínio de 10% nas safras mexicanas estava correlacionado com um aumento de 2% na emigração. Com base nas projeções climáticas, eles calculam que até 2080, os efeitos provocados pelo clima na agricultura farão com que uma parcela significativa da população em idade de trabalho do México, de 2% a 10%, deixe o país. Isso além do número daqueles que deixariam o México por outros motivos. E não seguirão para o sul.

O estudo global de 2015 calculou que em uma base anual, cada grau de aumento na temperatura produziria 100 mil emigrantes adicionais com destino aos Estados Unidos, Europa e outros países altamente industrializados. Mas esse número não leva em consideração os imigrantes ilegais, já que seus movimentos não foram documentados. Estimativas de migração também subestimam os efeitos de “desastres naturais de início lento”, como aumento do calor, seca e elevação do nível dos mares, já que, como nota o relatório alemão, esses problemas “fazem as pessoas migrarem sozinhas ou em pequenos grupos, dificultando identificá-las como migrantes ambientais”.

Os efeitos da temperatura sobre os movimentos da população global provavelmente acelerarão por vários motivos. Um é por já termos solo degradado em grande parte do mundo e um calor ainda maior poderia concluir o trabalho. Cinquenta milhões de pessoas vivem na África perto do lago Chade, que foi quase esgotado há 30 anos e permanece ameaçado pelo “avanço da desertificação em toda a região do Sahel”. Vinte milhões vivem em áreas propensas a secas no leste da África (na Etiópia, Quênia, Somália, Sudão do Sul e Iêmen). A projeção é de que essas regiões sofram alguns dos piores estragos e violência com o agravamento das secas. Grande parte dos habitantes partirá.

Outro motivo para esperar uma aceleração e a segunda migração. Hoje, a maioria das pessoas que fogem da mudança climática se muda para cidades próximas, particularmente as costeiras. Mas à medida que as temperaturas e os níveis do mar subirem, podemos esperar que muitas dessas pessoas, que já migraram dentro de seus países, serão levadas a deixá-los. Uma ameaça emergente a essas cidades de refúgio temporário é a inundação costeira, que já é uma grande motivadora da migração climática. Outra ameaça é o diferencial de calor urbano. Devido à densidade populacional, uso de energia e vegetação esparsa, todas essas coisas exacerbadas pela mudança climática, as cidades se tornam mais quentes que as áreas ao redor. As ondas de calor ali podem ser ameaçadoras à vida. Mesmo se limitarmos a elevação média da temperatura global a 2˚C, o aumento em algumas cidades será o dobro disso.

Todos esses fatores (erosão do solo, densidade populacional, inundações costeiras e o aumento exponencial da miséria da elevação da temperatura) implicam que a taxa com que a mudança climática provocará migração internacional sofrerá uma escalada. As pessoas que não conseguirem ganhar a vida nas planícies, montanhas ou cidades próximas partirão para outros países. Provavelmente para o seu país, caso o seu já seja um destino preferido. Esse é o padrão exibido nos estudos de migração climática.

Diferentemente de pessoas que fogem de secas temporárias ou enchentes no passado, esses migrantes permanecerão. “Os refugiados de desastres climáticos costumam migrar de volta para as regiões que foram forçados a deixar assim que as condições permitem”, diz um relatório de 2015 da Universidade de Hamburgo. Mas quando o “ambiente físico está desaparecendo ou se tornando inabitável de modo permanente”, devido, por exemplo, à desertificação ou elevação do nível do mar, as pessoas deslocadas se tornam “refugiadas permanentes de desastre”.

Assim, se você se preocupa, como o presidente Donald Trump, com pessoas “entrando em nosso país”, é hora de acordar. Um aumento de 2˚C nas temperaturas globais poderia causar “significativo deslocamento populacional concentrado nos trópicos”, diz o relatório do IPCC. “As populações dos trópicos poderão ter que se mudar para distâncias maiores de 1.000 km” e uma “rápida evacuação dos trópicos poderia levar a uma concentração de população às margens dos trópicos e subtrópicos, onde as densidades populacionais podem aumentar em 300% ou mais”. À medida que as temperaturas continuarem a aumentar, essas pessoas não pararão nos subtrópicos superpovoados. E nenhum muro as manterá de fora.

https://noticias.uol.com.br/midiaglobal/slate/2018/10/14/opiniao-os-xenofobos-deveriam-se-preocupar-com-a-mudanca-climatica.htm?news=true&skin=conteudo/uol

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