Pai que perdeu filho de 6 anos em massacre nos EUA luta contra boatos de que a tragédia nunca existiu

Juliana Carpanez – Noah Pozner morreu aos seis anos, em 2012, no massacre de Sandy Hook.

Noah Pozner desceu rapidamente do carro e, também de forma apressada, despediu-se pela última vez: “Esta é uma memória que ainda me assombra”, diz seu pai, Leonard Pozner, 50. O garoto descrito por ele como “um verdadeiro raio de luz” tinha seis anos e aquele era seu último dia de vida. Dali a alguns minutos, um atirador entraria na escola de ensino fundamental Sandy Hook (Newtown, Connecticut, EUA), matando seis adultos e 20 crianças. Entre elas, estava Noah.

Noah Pozner morreu aos seis anos, em 2012, no massacre de Sandy Hook

Isso foi em 14 de dezembro de 2012 e, desde então, as famílias das vítimas lidam com um enorme desafio somado à dor de suas perdas. Elas enfrentam incansáveis ataques e ameaças, inclusive de morte, vindos de pessoas para quem o massacre de Sandy Hook nunca existiu. A morte de 28 pessoas –incluindo aí o atirador e sua mãe– foi rotulada por muitos como sendo uma notícia fraudulenta, antes mesmo de as fake news entrarem no vocabulário global.

Para esses propagadores de teorias conspiratórias, também chamados de “hoaxers”, tudo não passa de um boato criado pelo governo da época –liderado pelo democrata Barack Obama, que fez um pronunciamento no dia dos assassinatos. Um dos motivos, dizem, seria forçar mudanças na segunda emenda da Constituição norte-americana, que garante direito ao porte de armas. Os pais e as próprias vítimas, continuam, seriam atores pagos para encenar toda a tragédia –e aqui cabem inclusive críticas de que os adultos não pareciam estar sofrendo o bastante durante o luto.

“A princípio, fiquei chocado com essas reações”, contou Pozner, em entrevista por email ao UOL. “Ingenuamente, pensei que, se tivessem um diálogo aberto comigo e eu pudesse apresentar os fatos, eles veriam que seu posicionamento era ridículo e nocivo. Divulguei o certificado de óbito do meu filho, o relatório de autópsia, seus boletins escolares e me disponibilizei a responder suas perguntas”, continua. Mas sua estratégia não teve o efeito desejado.

Minha abertura em conversar com os agressores tornou a situação ainda pior: eles procuravam justamente alguém para culpar e vilanizar

Leonard Pozner, pai de garoto morto em Sandy Hook

Noah tinha duas irmãs, que foram levadas por Leonard Pozner à escola naquele mesmo dia e escaparam dos ataques. Sophia, hoje com 13 anos, estudava em uma classe próxima à do irmão aonde o atirador não chegou. Arielle, gêmea de Noah, hoje com 11 anos, foi salva por sua professora: Kaitlin Roig-DeBellis trancou seus 15 alunos no banheiro anexo à sala de aula assim que ouviu os tiros. “Eu poderia ter perdido meus três filhos no massacre”, afirma o pai.

Policiais escoltaram alunos para fora da escola após o massacre de Sandy Hook

Um novo dia, uma nova teoria conspiratória

Os agressores nunca pouparam esforços. Logo após a tragédia, criaram diversos sites, vídeos e páginas em redes sociais “espalhando a verdade”. Alguns ganharam notoriedade e apareceram até em programas de TV contando seu próprio “tudo sobre” Sandy Hook. Cada novo fato reforça suas suspeitas, dando origem a mais e mais teorias conspiratórias.

Noah e Leonard Pozner; após a morte do garoto, família foi ameaçada e teve de se mudar diversas vezes

Alguns exemplos. Após um massacre no Paquistão, em 2014, quando 151 estudantes e funcionários de uma escola de Peshawar morreram, alguém em vigília exibiu uma foto de Noah Pozner. Foi o bastante para os “hoaxers” criarem a “piada” de que aquele mesmo garoto morreu duas vezes.

Mais recentemente, começou a circular um texto que questiona quem limpou o sangue, a urina, as fezes e a sujeira deixada pelos corpos na escola. A suposta autora, que diz ter uma empresa de limpeza, afirma ter feito essa pergunta a colegas, autoridades e jornalista, sem nunca ter obtido uma resposta satisfatória.

Pozner cita mais razões para o surgimento desses ataques, além do receio do desarmamento. Segundo ele, há indivíduos motivados por questões antissemitas (algumas das vítimas eram judias), antigovernamentais e de supremacia branca. Tem ainda quem use as suspeitas como uma forma de lucrar em suas páginas na internet. “Eles usam a atenção para vender vitaminas e até coletes à prova de bala. Independentemente do que comercializam, o público-alvo é o mesmo: quem teme que seus direitos sejam tirados ou que o país esteja mudando.”

O assassinato de Noah representou o pior dia da minha vida. Todo dia desde então empata como sendo o segundo pior 

Leonard Pozner

Há mais detalhes sobre os ataques –tanto aquele que causou as mortes como esses que continuam machucando as famílias–, a serem tratados mais adiante. Antes disso, uma explicação de por que toda essa história ganhou força nos últimos dias.

Carta aberta a Mark Zuckerberg

Em 18 de julho, numa entrevista ao site “Recode”, a jornalista Kara Swisher questionou Mark Zuckerberg sobre esse caso. “‘Sandy Hook não aconteceu’ não é um debate. Essa afirmação é falsa. Você não pode simplesmente tirar isso do ar?”, perguntou. O executivo respondeu: “Concordo que é falsa. Também penso que chegar a uma vítima de Sandy Hook e dizer ‘oi, você é um mentiroso’ é assédio. E, de fato, vamos tirar [a agressão] do ar”.

Uma semana depois, os pais de Noah Pozer publicaram uma carta aberta no site do jornal inglês “The Guardian” com o título “Nosso filho morreu em Sandy Hook: por que deixar as mentiras do Facebook nos machucar ainda mais?”. No texto, Leonard e Veronique de La Rose, hoje divorciados, contestaram a afirmação de Zuckerberg naquela entrevista: “Essa [remoção dos ataques] não é a experiência que temos”.

O Facebook tem um papel gigante de expor o mundo à informação. Esse nível de poder vem com uma tremenda responsabilidade de garantir que sua plataforma não seja usada para machucar o outro ou contribuir para a proliferação do ódio. Mas parece que, sob o disfarce da liberdade da expressão, você dá permissão para quem deseja fazer justamente isso

Leonard Pozner, em carta aberta a Mark Zuckerberg

Eles defendem que a rede social trate as vítimas de tragédias como um grupo protegido, contra quem os ataques violem as políticas de uso do site. Também querem acesso direto a funcionários, para que manifestações de assédio ou de ódio sejam removidas imediatamente. Essas propostas estão alinhadas com as diretrizes da Honr, ONG criada em 2014 por Pozner com a missão de oferecer assistência às vítimas de ataques na internet. “O maior problema não é o Facebook, mas a falta de proteção às vítimas. Os sistemas atuais de denúncia são inadequados.”

O pai afirma que, com a repercussão de sua carta, o Facebook finalmente deixou de ignorá-lo. Ele conta ter recebido um email da empresa, dizendo que estava disposta a ajudar e que uma funcionária poderia conversar com ele ao telefone, se assim preferisse. “Mas não colocaram nenhum número”, desabafa.

Não conseguimos viver um luto apropriado ou seguir em frente, porque você, possivelmente o homem mais poderoso do mundo, considera que os ataques contra nós sejam irrelevantes, que oferecer assistência para remover ameaças é complexo demais e que nossas vidas são menos importantes do que disponibilizar um espaço seguro para o ódio

Leonard Pozner, em carta aberta a Mark Zuckerberg 

‘Quando olhava para esta foto, via Noah brincando. Agora o vejo tornando-se parte da escultura’, escreveu Leonard Pozner. Imagem foi registrada em abril de 2010

Procurada pela reportagem para comentar o caso, a empresa enviou a seguinte mensagem.

“O Facebook lamenta profundamente o tiroteio em Sandy Hook e por todas as famílias que sofreram perdas de entes queridos nesse triste episódio. Não permitimos ataques e comentários ofensivos contra vítimas de tragédias como essa, nem que as pessoas as assediem ou intimidem. Isso inclui alegações como as de que as vítimas seriam atores. Também não permitimos que as pessoas celebrem, justifiquem ou defendam a tragédia. Nos colocamos à disposição de vítimas e de suas famílias, e temos canais onde é possível entrar em contato com pessoas no Facebook. Depois de tragédias, vítimas e seus familiares têm encaminhado conteúdos para nós e também falado conosco para trazer dúvidas e dividir preocupações. É importante que façamos isso da melhor maneira e sabemos que sempre podemos melhorar.”

Denúncias, ameaças de morte e prisão

Os ataques às famílias não se restringem ao ambiente virtual. Pozner conta que, nos EUA, qualquer pessoa pode denunciar um crime a uma agência governamental, dando início a uma investigação. Assim, passou a receber a visita frequente de autoridades como uma forma de “nos assediar e perturbar nossas vidas”. Ele afirma que policiais simpatizantes com as teorias de conspiração chegaram a divulgar informações pessoais dos Pozner, colocando a família em risco.

Leonard Pozner e os filhos gêmeos, Noah e Arielle, em foto de 2010

“A morte de um filho muda uma pessoa de forma que não se pode medir. Mas as consequências de ser alvo dos ‘hoaxers’ e de grupos de ódio, sendo que alguns têm mais de um milhão de seguidores, afetou negativamente todo aspecto da minha vida. Minha família teve de se esconder e mudar de casa várias vezes, um desafio para a sensação de segurança e estabilidade. Temer pela minha segurança e a dos meus filhos, especialmente em se tratando das ameaças de morte, foi debilitador. Continuo trabalhando como desenvolvedor de internet, mas obviamente que virar um alvo teve um efeito devastador em minha carreira”, avaliou Pozner, ao falar sobre os impactos de toda essa situação.

Uma pessoa chegou a ser punida por ameaçá-los de morte: Lucy Richards, moradora de Tampa (Flórida). Em junho de 2017, aos 57 anos, ela admitiu ter feito isso em janeiro de 2016, alegando que a história de Sandy Hook não passava de boato. A mulher pegou cinco meses de detenção, seguidos por cinco meses de prisão domiciliar e três anos de liberdade supervisionada.

O próximo alvo das vítimas é Alex Jones, famoso nos Estados Unidos por espalhar teorias da conspiração em seu popular site Inforwars, em dezenas de emissoras de rádio que transmitem seu programa e também em plataformas digitais (recentemente, foi banido de várias delas). Em abril, foi processado por difamação pelas famílias de três vítimas –entre elas, Noah Pozner. Em agosto, mais seis famílias se juntaram ao processo. O advogado de Jones alega que seu cliente, um comentarista político, expressa seu ponto de vista.

‘Leu o nome de meu filho, falou que estava morto e foi embora’

Às 9h40 do dia 14 de dezembro de 2012, cerca de meia hora após Leonard Pozner despedir-se dos filhos, a polícia de Newtown recebeu a primeira ligação avisando sobre um tiroteio na escola de ensino fundamental Sandy Hook. Adam Lanza, então com 20 anos, atirou nas janelas da frente para conseguir acesso ao prédio, em seguida abrindo fogo contra crianças e funcionários nas salas de aula.

Arielle visita o túmulo de seu irmão gêmeo, Noah; registro foi feito em 2014

Pozner conta que, depois de passar na escola, foi à academia. Quando terminou os exercícios e pegou seus objetos no armário, encontrou diversas mensagens no celular sobre um tiroteio em Sandy Hook. Foi até o local, mas não conseguiu chegar: os pais ficaram em um posto de bombeiro, a um quarteirão de onde os filhos estudavam, esperando notícias.

“Foi uma agonia. Até que uma assistente social com uma lista de vítimas, acompanhada por um policial, leu o nome de meu filho, falou que estava morto e foi embora. De maneira muito direta e abrupta. Fiquei em negação, estávamos em choque.”

Segundo o FBI (Polícia Federal norte-americana), dois policiais chegaram ainda durante a ação de Lanza, que atirou em sua própria cabeça e acabou morrendo no local. Ele foi à escola dirigindo o Honda Civic 2010 de sua mãe, Nancy Lanza, encontrada morta –também com tiros na cabeça– no segundo andar da casa onde os dois moravam.

Adam Lanza, em foto sem data divulgada; atirador tinha 20 anos

Lá, a polícia achou o computador do atirador, com disco rígido destruído e removido da máquina. Sua mãe havia comprado essas peças, em novembro daquele ano, para que o filho montasse uma nova máquina. Segundo uma testemunha mantida em anonimato pelo FBI, a mulher fez isso porque o jovem estava recluso em seu quarto havia três meses: a bateria de seu carro nem funcionava mais, devido à falta de uso.

Lanza estudou em Sandy Hook até a quarta série e mudou de escola algumas vezes, em parte por causa da dificuldade em se relacionar, até concluir o ensino médio. Ainda no período letivo, foi diagnosticado com transtornos psicológicos e com síndrome de Asperger, mas se recusava a tomar remédios. Seus pais se separaram em 2009 e Adam tinha um irmão, Ryan, que foi considerado inicialmente suspeito, pois o atirador carregava sua identidade no momento do massacre.

Leonard Pozner afirma nunca pensar sobre o atirador, pois suas ações não podem ser desfeitas: “Ele não ocupa nenhum espaço em minha cabeça”. Já os propagadores de teorias conspiratórias não saem de seus pensamentos, como ele descreve a seguir.

“Minha responsabilidade como pai é proteger meus filhos. Não somente a memória de Noah, mas também proteger suas irmãs desses predadores que não têm limites nem empatia. Minha responsabilidade é desarraigar esse vírus que fica de tocaia na escuridão, ameaçando inocentes com assédio, intimidação e medo. É colocar luz sobre esses boatos e a defesa do ódio. É fazer com essas plataformas sociais respondam por permitir que os ‘hoaxers’ espalhem esse vírus. Essa é minha missão, pois sou o pai de uma criança assassinada e de duas garotas que sobreviveram ao massacre. Algum dia, quando meu objetivo for concluído, poderei viver o luto apropriado pela morte de Noah.”

https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2018/09/01/meu-filho-morreu-em-sandy-hook-noticias-falsas-e-mentiras-do-facebook.htm

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