Estado de São Paulo fecha sete salas de aula por dia

GUILHERME BALZA – Professores dizem que faltam materiais básicos e que eles precisam usar o próprio dinheiro para suprir as carências. Grande parte das unidades nem sequer conta com refeitório, laboratório de ciências e biblioteca. Ouça o terceiro capítulo da série ”Desafios do próximo governo – São Paulo’ sobre educação.

A maior crise na educação na história recente de São Paulo aconteceu quando estudantes do Ensino Médio ocuparam mais de 200 escolas.

O protesto era contra a chamada reorganização escolar. Em outras palavras, contra o fechamento de escolas, que obrigava muitos alunos a se deslocar por mais tempo para estudar.

A mobilização terminou com a queda do então secretário de Educação, Herman Voorwald. O governo parou de fechar escolas. Mas a reorganização continua, agora com o fechamento de salas de aula.

Segundo dados da Apeoesp, sindicato dos professores da rede estadual, 9.300 salas foram fechadas entre 2015 e 2018. São sete salas a menos a cada dia.

O professor de Artes Pedro Braga diz que isso acaba expondo o professor.

“Você fecha as salas, e aumenta o número de alunos por sala de aula. Isso é pra não contratar mais funcionários. Aí tem o número excessivo de alunos por sala de aula, que nos torna mais expostos ainda a situações de indisciplina e violência.”

Mas os problemas não param aí. Relatórios do Tribunal de Contas do Estado feitos em 2017 apontaram várias deficiências nas escolas. Só 8% das unidades visitadas tinham laboratório de ciências; dois terços não contavam com sala de vídeo; metade não tinha um simples refeitório; 15% não dispunham de biblioteca ou sala de leitura; e mais de 90% das escolas não têm auto de vistoria dos bombeiros.

Fábio Santos de Moraes, presidente em exercício da Apeoesp, afirma que as escolas estão completamente defasadas.

“Hoje nós temos na escola o professor, quando tem, a carteira e o aluno. É a escola de Dom João. Não avançamos nada. Infelizmente, educação é prioridade na hora do debate eleitoral. Passou a hora do debate eleitoral, como é uma secretaria grande é robusta, é onde eles buscam fazer economia.”

A Escola Estadual do Distrito de Maylaski, em São Roque, no interior, foi inaugurada em 2014, ano eleitoral. A unidade foi entregue com problemas de tubulação e infiltrações.

Ruan Serafim da Silva estava no segundo ano quando a escola começou a funcionar e relembra o caos.

“Abriram essa escola de qualuqer forma. Sem sala de informática, sem biblioteca, sem estrutura, sem professores. No dia da inauguração da escola estava chovendo, e as salas alagavam, porque foi feito de qualquer jeito.”

É comum relatos de professores dizendo que usam parte do salário para comprar materiais de ensino. O professor de Geografia Gabriel Freitas dá aulas em uma escola estadual na Zona Sul de São Paulo e conta que até a verba do xerox sai do bolso dele.

“Estou dando aula numa escola que tem dois buracos no teto. No ano passado tive que juntar duas cadeiras pequenas porque na minha escola na maior parte das salas o professor não tinha mesa. Nós não temos xerox nas escolas estaduais. Nós temos que tirar dinheiro do bolso pra tirar xerox e dar uma avaliação decente pros alunos.”

Por trás dos problemas, estão os cortes nas verbas da educação nos anos de crise econômica.

No segundo mandato de Geraldo Alckmin, o orçamento para educação aumentou 14%, menos da metade da inflação do período, que foi de 29%. Ou seja, uma redução de 15 pontos percentuais na verba destinado à educação no estado.

OUTRO LADO

A Secretaria de Educação informou que o relatório do Tribunal de Contas citado na reportagem refere-se a fiscalizações em apenas 1,7% das escolas do estado. Sobre a ausência de laboratórios, a pasta sustenta que as aulas práticas podem ocorrer em diferentes contextos, utilizando inclusive outros espaços e tecnologia como alternativas. A pasta ainda informa que todas as escolas têm acervo de livros à disposição dos alunos. Com relação aos autos de vistoria dos bombeiros, a secretaria afirma que vai regularizar todas as unidades até 2030.

http://cbn.globoradio.globo.com/media/audio/203649/estado-de-sao-paulo-fecha-sete-salas-de-aula-por-d.htm

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