Criação de gado é pior para o clima do que os transportes

ANA FERNANDES – Relatório da FAO indica que a pecuária tem grandes impactos ambientais e sugere que se alterem as dietas dos animais para reduzir os gases intestinais

Surpresa! É desta forma que a Agência das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) anuncia os resultados de um relatório sobre a contribuição da criação de gado para as alterações climáticas. A novidade é que a actividade pecuária emite mais gases com efeito de estufa – 18 por cento – do que os transportes, sector que é apontado como uma das principais causas do problema.

A acusação é lapidar: “A criação de gado é um dos maiores contribuintes para o mais sério problema ambiental dos nossos dias, pelo que é urgente uma acção eficaz para solucionar a situação”, disse Henning Steinfeld, responsável pela delegação da FAO para a pecuária. Além de que é uma actividade que tem um grande impacto sobre o solo e a água.

No relatório A longa sombra da criação de gado, os autores concluem que, se se introduzir nas contas da criação de gado o uso do solo e as alterações nesse uso – como a desflorestação -, o sector é responsável por nove por cento do dióxido de carbono emitido pelas actividades humanas. Mas o problema é que emite outros gases com efeito de estufa mais potentes que o carbono. À pecuária cabe a fatia de 65 por cento do óxido nitroso (N2O) que é lançado para a atmosfera pelo homem, um gás que é 296 vezes mais potente do que o CO2 em termos de efeito de estufa.

Além disso, na estratosfera pode originar óxidos de azoto que destroem o ozono e que são responsáveis pelas chuvas ácidas e o nevoeiro fotoquímico. O N2O é libertado sobretudo pelo estrume.

Por outro lado, o sector emite 37 por cento do total de metano – que é 23 vezes mais potente que o CO2 e tem origem principalmente nos gases emitidos pelo sistema digestivo dos ruminantes – e por 64 por cento do amoníaco, que contribui também para as chuvas ácidas.

Produção pode duplicar o consumo crescente de carne e produtos lácteos, a nível mundial, levou a uma importante expansão do sector. E prevê-se que esta evolução continue, podendo a produção mundial de carne duplicar dos 229 milhões de toneladas obtidos em 1999/2001 para 465 milhões em 2050, enquanto a produção de leite poderá aumentar, nesse período, de 580 para 1043 milhões de toneladas.

Hoje, a criação de gado é feita em 30 por cento da superfície terrestre, ocupada sobretudo com pastagens. Tem sido apontada como um dos grandes responsáveis pela destruição das florestas tropicais, sobretudo na América do Sul.

Mas as consequências ambientais desta actividade passam também pela degradação do solo devido ao sobrepastoreio e à erosão, por exemplo. É igualmente das actividades humanas que mais impacto têm nos recursos hídricos devido à poluição que gera através das fezes dos animais, os antibióticos e hormonas usados, os químicos dos curtumes e os fertilizantes e pesticidas utilizados nas culturas forrageiras.

Os dados agora apresentados pela FAO dão uma nova perspectiva aos inventários das fontes de emissões de gases com efeito de estufa.

Nos relatórios da Convenção das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, as principais fontes são agregadas por sectores como a energia, os transportes, a indústria, os resíduos, a agricultura e as alterações do uso do solo e floresta, entre outros.

Para conseguir os dados sobre a pecuária, o estudo da FAO vai buscar informação que está dispersa nas diferentes categorias (agricultura e alterações do uso do solo, por exemplo), reagrupando-as para conseguir este retrato do sector.

https://www.publico.pt/2006/12/01/jornal/criacao-de-gado-e-pior-para–o-clima-do-que-os-transportes-110294

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