Os interesses dos EUA na região e as eleições na Venezuela

Joaquin Piñero – Para entender o cenário pós-eleitoral na Venezuela, confira o diário de bordo e análise de nosso militante que acompanhou de perto o processo.

I. CONTEXTO HISTÓRICO

1. Historicamente, essa região a qual se denomina América Latina e Caribenha, e que está localizada desde o México pra baixo até o sul do continente, sempre foi alvo de muitas disputas imperiais.

2. Após o período colonial onde as disputas se davam entre as principais nações europeias como Espanha, Portugal, Inglaterra, Holanda e França , os Estados Unidos da América, passaram a considerar a América Latina e o Caribe como seu quintal. Esse controle e hegemonia foi mantido na base do “pau e prosa”. No dia 2 de dezembro de 1823, o então presidente estadounidense James Monroe, fez o seu famoso pronunciamento em que deixa claro que o continente não deveria aceitar nenhum tipo de intromissão européia sobre quaisquer aspectos, isto é, “ a América é para os americanos”. Essa foi a base da chamada “Doutrina Monroe” e que mais tarde em 1901 com o Presidente Theodore Roosevelt foi colocada em prática através da diplomacia “big stick” ( grande porrete), segundo a qual os EUA deveriam proteger a qualquer custo, seus interesses econômicos e político na região.

3. Quando olhamos para esse continente, percebemos o porquê da sanha capitalista por essas terras e mares. Somos uma região que compreende mais de 20 milhões de quilômetros quadrado de superfície (13,5% da área territorial do planeta); terras férteis, água em abundância, grandes diversidades geográficas e biológicas, portanto geradores de importantes recursos alimentícios, energéticos e minerais. É na região que estão localizados as maiores reservas de petróleo, ferro, cobre, lítio e prata do planeta. Também é daqui que saem a soja, trigo, celulose, etanol, açúcar, algodão, carne e café que são exportados para os países centrais.

4. Com uma população de mais de 600 milhões de habitantes, ou seja, aos olhos do capital, um mercado consumidor de grande porte, a America Latina e Caribe conta ainda com duas das maiores metrópoles do mundo que são Cidade do México e São Paulo.

5. Nas últimas décadas, após um longo período de golpes, invasões e ditaduras (todas apoiadas, direta ou indiretamente pelos EUA), e a implantação da política neoliberal por governos aliados de Washington, houve uma mudança no cenário politico e econômico na região com eleições dos chamados governos progressistas que teve início com a eleição de Hugo Chavez na Venezuela em 1998.

6. Esses governos, eleitos com forte crítica ao neoliberalismo, ainda que alguns não conseguiram se desvencilhar totalmente dessa política, mudaram o panorama da região. Politicamente, fortaleceram o MERCOSUL, criaram a UNASUL, que reuniu todos os países da América do Sul num único espaço e operou positivamente em diversas crises suplantando a Organização dos Estados Americano(OEA) organismo que veladamente serviu como instrumento dos Estados Unidos da América na região para sustentar sua política de intervenção e controle, inclusive legitimando golpes e expulsando países como Cuba de suas fileiras. Mais o feito mais importante que se tem registro, foi a criação da CELAC (Comunidade dos Estados Latinoamericanos e Caribenho), um espaço político que reúne todos os países do continente americano, exceto Estados Unidos da América e o Canadá.

7. Do ponto vista social, seguramente foi o período em que mais se avançou aqui na região. Os programas sociais tiraram da miséria e da pobreza milhões de pessoas, aumentando consideravelmente a renda de uma grande maioria da população. Houve avanços nas áreas de saúde, habitação e educação. Em alguns países como a Venezuela, Equador e Bolívia, com a reforma na constituição se garantiu avanços nos temas da democracia participativa, e mudanças nas leis dos meios e o controle da mídia permitiram quebrar o monopólio desse setor em países como a Venezuela, Equador e Argentina.

II. CRISE

1. Há um novo ciclo de luta de classe na região. Um momento histórico importante e complexo, determinado por uma nova correlação de força entre o capital, os governos e as forças populares.

2. Se trata de um momento complexo porque se apresenta marcado por uma crise múltipla. Em efeito, estamos frente uma crise do modo de produção capitalista em nível mundial que se anuncia prolongada, com consequências sociais e políticas incontroláveis, cujo peso recai sobre a população mais pobre. Também se agrega a isso a eclosão de uma crise ambiental, que incluso altera as condições climáticas em diversas regiões provocada por esse modelo de espoliação dos bens da natureza.

3. Há também uma crise alimentar, de preços e renda gerada pela especulação das corporações do agro e pelo capital financeiro, transformando-os em meras mercadorias onde quem só pode aceder quem tem dinheiro. Ademais, se registra uma crise de valores civilizatórios, uma crise ética, pois o domínio burguês da vida tem sobressaído as práticas do individualismo, egoísmo e consumismo como se fossem a base da felicidade.

4. O fracasso político do neoliberalismo expõe um vazio de propostas e um descrédito das formas institucionais burguesas. Entretanto, voltam a se intensificam os conflitos bélicos regionais, para aumentar os gastos da industria bélica estadunidense e europeia: a paz esta em crise.

5. Em términos gerais, se pode dizer que estamos vivendo um período de controle e hegemonia do capital mas em crise e sem projeto definido, o que certamente levará a uma maior instabilidade político-institucional e a reações populares. Portanto, vivemos um cenário de transição…mas em que direção?

III. VENEZUELA RESISTE

1. Com todo os avanços dos chamados governos “progressistas” descritos acima, a base estrutural da economia desses países não se alterou, ou não alterou ao ponto de mudar a situação de dependência dos países centrais.

2. No período em que Chávez governou a Venezuela o barril de petróleo chegou a custar 150 dólares, e isso possibilitou o investimento em políticas sociais e o desenvolvimento da infraestrutura do país. No governo de Nicolás Maduro, o barril que chegou a 30 dólares, atualmente está um pouco acima dos 70 dólares. Com a diminuição da entrada de divisas, além de não conseguir manter os mesmos investimentos nas políticas sociais e de infraestrutura, está enfrentando uma crise de desabastecimento provocado pela dependência da importação de alimentos e bens de consumo básicos, pelo boicote de setores da oposição e pela incapacidade de diversificar a economia saindo da dependência do petróleo.

3. Também, se olhamos a conjuntura latino-americana, não há mais governos fortes aliados, como era o caso do Brasil e da Argentina, e a OEA retomou seu papel histórico que sempre foi o de chancelar as políticas neocolonialistas dos EUA na região. Esse conjunto de fatores possibilitaram as atuais sanções aplicadas pelos governos dos EUA e União Européia debilitando ainda mais a estrutura econômica do país.

4. Porém enganam-se aqueles que pensam que há um país derrotado e humilhado. Há um povo em luta, consciente de que o retorno da direita significa a retirada de seus direitos e a entrega das riquezas do país para as grandes corporações estrangeiras.

5. A vitória de Maduro nas eleições de 20 de maio de 2018, foi um duro golpe para os interesses dos EUA na Venezuela e também para a direita golpista e fascista. Primeiro porque apostaram que não ia ter eleições, mas surgiram 3 candidatos além de Maduro; segundo, apostaram no não comparecimento dos eleitores no dia do voto, e mais de 46% dos eleitores foram votar; e por último estão apostando no não reconhecimento dos resultados das eleições, mas dois dos três candidatos de oposição disseram que o processo foi lícito e não há o que reclamar.

6. O fato é que com a vitória de Maduro, o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) amplia sua hegemonia, que ja é maioria dos estados e municípios e na Assembleia Nacional.

7. Em seu discurso, logo após o Conselho Nacional Eleitoral(CNE) oficializar sua vitória, o Presidente Nicolas Maduro, elencou os principais desafios que precisam ser superados para Venezuela voltar ao caminho do desenvolvimento: a) retomar o diálogo com todos os setores que desejam a paz; b) realizar um amplo acordo econômico e produtivo; c) empreender uma luta frontal contra a corrupção e o burocratismo; d) ampliar o sistema de proteção social e de poder popular; e)fortalecer a defesa da Venezuela contra os inimigos externos; f) por último, aprofundar a democracia revolucionária rumo ao socialismo.

http://www.mst.org.br/2018/05/31/os-interesses-dos-eua-na-regiao-e-as-eleicoes-na-venezuela.html

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