Proteção garantida por parto normal e amamentação se estende até a vida adulta

Paul Rogers – Estudos alertam para a importância da exposição de crianças a microrganismos.

Muitos estudos sugerem que os trilhões de microrganismos que habitam o corpo humano influenciam nossa saúde atual e futura e podem ser responsáveis pelo aumento da incidência de várias condições médicas graves das quais sofrem os americanos atualmente, tanto os jovens como os mais velhos.

A pesquisa indica que as cesáreas e a amamentação limitada podem alterar a população de microrganismos no intestino do bebê, o que talvez explique um aumento descontrolado de problemas de saúde preocupantes em crianças e adultos, como asma, alergias, doença celíaca, diabetes tipo 1 e obesidade. Essas condições, entre outras, têm maior probabilidade de ocorrer quando o intestino do bebê não foi bem povoado com as bactérias que protegem a saúde.

Um número crescente de pesquisadores e pais passou a prestar atenção à origem de tudo isso, especialmente no modo em que essa grande comunidade de bactérias no nosso corpo, chamada microbioma, é afetada, para o bem e para o mal, pela forma como os bebês nascem e são cuidados.

Conforme essa informação chega às futuras mães, ela pode –e deve– levar a mudanças profundas na obstetrícia, pediatria e maternidade/paternidade, as mais importantes sendo a diminuição do número de cesáreas e o aumento do aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis meses, para garantir que a variedade e a quantidade suficiente de bactérias habitem o intestino dos bebês.

Esses organismos desempenham funções importantes que incluem digerir nutrientes não utilizados, produzir vitaminas, estimular o desenvolvimento da imunidade, conter bactérias prejudiciais e promover a maturação do intestino.

É possível que o desequilíbrio em uma ou mais dessas funções leve a problemas de saúde sérios, que às vezes podem durar para o resto da vida. Por exemplo, se a maturação do intestino for prejudicada ou atrasada, alguns especialistas acreditam que proteínas não digeridas possam vazar para a corrente sanguínea e desencadear uma alergia ou a intolerância ao glúten. Ou um sistema imunológico prejudicado poderia provocar um distúrbio autoimune como diabetes tipo 1, artrite juvenil ou esclerose múltipla.

Os bebês são expostos a alguns organismos ainda no útero, mas outros são adquiridos durante o nascimento, e os primeiros meses de vida tem maior influência sobre aqueles que vão se tornar residentes permanentes em seus intestinos. Estudos recentes mostraram que o parto normal e a amamentação exclusiva podem afetar significativamente os tipos e a quantidade dos micróbios no intestino e o risco de desenvolver vários problemas de saúde.

Por exemplo, um estudo dinamarquês com dois milhões de crianças nascidas entre 1977 e 2012 descobriu que aquelas nascidas por cesárea eram significativamente mais propensas que as nascidas por parto normal a ter asma, distúrbios sistêmicos do tecido conjuntivo, artrite juvenil, inflamações no intestino, deficiências de imunidade e leucemia.

Bebês nascidos no parto normal adquirem principalmente os micróbios presentes na vagina e intestino da mãe. Entretanto, os que nascem cirurgicamente antes da ruptura das membranas e do trabalho de parto começar, adquirem principalmente os micróbios presente na pele da mãe e da equipe médica e do ambiente da maternidade.

Quando uma cesárea de emergência é feita após a ruptura das membranas e do começo do trabalho de parto, o bebê adquire menos micróbios da mãe do que se o parto fosse normal, mas ainda assim mais do que em uma cesárea programada.

Essas diferenças no microbioma persistem até pelo menos os sete anos, de acordo com um estudo finlandês publicado em 2004.

Atualmente, cerca de um a cada três bebês nasce por cesárea, mais do que a proporção de um para cinco nos anos 1990. Obviamente, esse procedimento pode salvar uma vida quando, por exemplo, a mãe ou o bebê correm sério risco de morte em um parto natural.

Mas outras razões para o aumento dos partos por cesariana, incluindo as leituras de um monitor fetal, não são tão claras. Embora muitos bebês com leituras limítrofes possam passar bem por um parto normal, as mães e seus médicos geralmente não estão dispostos a arriscar quando o monitor sugere que o feto pode ter problemas. E as mulheres que passam por uma cesariana, que enfraquece a parede uterina, são mais propensas a passar pelo mesmo procedimento nas gravidezes seguintes, para não arriscar uma ruptura uterina durante o parto.

Para combater os efeitos de um parto cirúrgico no microbioma do bebê, um crescente número de mulheres que dá à luz por cesárea pede à equipe médica que transfira micróbios seus para os filhos logo após o nascimento. Algumas estão fazendo a transferência de micróbios sozinhas. Entretanto, um comitê de especialistas do Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas recentemente alertou que a prática, conhecida como semeadura vaginal, era prematura e possivelmente perigosa.

“Nessa altura, a semeadura vaginal não deveria estar sendo feita fora do contexto de um protocolo de pesquisa aprovado pelo conselho de uma instituição até que os dados adequados sobre segurança e benefício do processo estejam disponíveis”, concluiu o comitê. O grupo ainda citou um risco potencial de transferir organismos patogênicos da mãe para o recém-nascido.

Se a mãe está considerando a semeadura vaginal, deve ser informada dos riscos e passar por exames de doenças infecciosas e bactérias potencialmente patogênicas, incluindo estreptococos do grupo B, vírus da herpes simples, clamídia e gonorreia.

Suchitra Hourigan, gastroenterologista pediátrica e diretora do Inova Translational Medicine Institute em Falls Church, Virgínia, está planejando um estudo de três anos com 800 bebês nascidos por cesárea, metade dos quais vai passar pela semeadura vaginal, para ajudar a determinar se a técnica é segura e benéfica.

Hourigan disse em uma entrevista que “as mulheres não deveriam fazer a semeadura vaginal até os testes mostrarem que é segura e oferece benefícios para a saúde do bebê. Fico preocupada com as mães que estão fazendo isso sem exames e sem a supervisão de um médico que garanta a segurança do procedimento”.

Amamentação é melhor e mais segura

Ela acrescentou que, neste momento, a amamentação é a melhor e mais segura forma de expor os bebês nascidos por cesárea às bactérias da mãe. O leite materno contém várias das mesmas bactérias benéficas encontradas na vagina e os lactantes estão menos sujeitos a alergias, e infecções respiratórias e gastrointestinais do que os alimentados com fórmula. O mesmo vale para doenças crônicas como diabetes, obesidade e inflamações intestinais.

Em um estudo publicado na internet em maio do ano passado em JAMA Pediatrics, pesquisadores afirmaram que bebês alimentados totalmente ou em maior parte com o leite materno tinham o microbioma parecido com o de suas mães.

Grace M. Aldrovandi, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, e os coautores do estudo notaram que “as primeiras bactérias do leite materno que povoam o intestino influenciam e selecionam as bactérias seguintes, deixando uma pegada que pode ser detectada mesmo na idade adulta”. Esses organismos estão relacionados com a redução do risco de desenvolvimento de asma, afirma o estudo.

Entretanto, os bebês que participaram da pesquisa e não eram alimentados primordialmente com leite materno apresentaram abundância de bactérias ligadas ao risco de obesidade. Alguns estudos descobriram que “mesmo uma pequena quantidade de fórmula suplementar” pode mudar o padrão de microbioma criado pelo leite materno.

https://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/the-new-york-times/2018/02/15/protecao-garantida-por-parto-normal-e-amamentacao-se-estende-ate-a-vida-adulta.htm

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