Estamos cada vez mais doentes e gordos! Devemos falar sério sobre nutrição

Sophie Deram – Acabei de voltar de Buenos Aires, onde participei do 21° Congresso Internacional de Nutrição – ICN que aconteceu dias 15 a 20 de outubro, e preciso fazer um desabafo!

Tenho fugido esses últimos anos dos congressos de Nutrição que, especialmente aqui no Brasil, se tornaram feiras de negócios das grandes indústrias alimentícias, farmacêuticas e de suplementos, com todos os conflitos de interesse que isso pode gerar. Devo aqui mencionar uma notável exceção, o CONBRAN – Congresso Brasileiro de Nutrição, que em 2016, em Porto Alegre, fez questão de não depender de patrocínios dessas empresas.

Estamos cada vez mais doentes e gordos! Quando vamos acordar?

Estamos vivendo uma crise mundial de Saúde. Veja bem o paradoxo: nunca se falou tanto de nutrição e dietas, nunca se investiu tanto nisso, e nunca tivemos tantos problemas de peso e mal-estar com a comida. A obesidade está aumentando em todos os países do mundo, junto com uma epidemia silenciosa de transtornos alimentares. Devemos nos render à constatação de que os métodos atuais de tratamento são um total fracasso pois, em mais de 30 anos de “luta”, nenhum país conseguiu diminuir, ou mesmo estabilizar, a epidemia de obesidade.

O Congresso Internacional de Nutrição que acontece a cada 4 anos é organizado pela IUNS (International Union of Nutrition Sciences). Basicamente todos os grandes nomes da nutrição participam. Viajei então para Argentina muito esperançosa, ansiosa por escutar palestrantes debatendo novas ideias para finalmente sair dessa nutrição reducionista que pouco mudou nos últimos 50 anos.

Mas afinal, o que é saúde? Um número na balança?

A Organização Mundial da Saúde – OMS define a saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades”. Você pode perceber que nem se menciona o peso, embora o número na balança tenha se tornado um dos maiores indicadores de saúde nas últimas décadas nos consultórios.

A nutrição dos últimos 50 anos, que eu qualifico de “reducionista”, tem focado no peso e, como fator de regulação do peso, os nutrientes medidos por calorias. Nosso corpo seria uma simples máquina obedecendo à primeira lei da termodinâmica, a de conservação de energia. Nosso peso, então, seria o resultado do que entra (alimentação), menos o que sai (metabolismo e atividade física). Daí o famoso “fechar a boca e malhar” quando se trata de perder peso.

Isso é uma visão extremamente simplista e reducionista do funcionamento do nosso corpo, que é muito mais complexo.

Esquecemos o comportamento alimentar.

Costumo dizer que “o ser humano se nutre de alimentos e sentimentos”. A alimentação é muito mais do que apenas a ingestão e digestão de nutrientes: é uma função básica para nossa sobrevivência que carrega também fortes elementos psicológicos, afetivos e culturais, e é provavelmente a nossa maior fonte de prazer, sem qual a vida perde muito do seu sabor!

O foco no nutriente e na “necessidade” de controlarmos as calorias que ingerimos tem alimentado negócios bilionários. Entre muitos outros exemplos, a indústria alimentícia inventou e produziu produtos altamente processados e, às vezes, totalmente artificiais para reduzir calorias (diet e light), fornecer o que supostamente precisamos em fórmulas “mágicas” (shakes), enganar os nossos sentidos e nosso cérebro (edulcorantes) e, ultimamente, oferecer alimentos livres de componentes supostamente tóxicos (glúten, lactose). A indústria farmacêutica desenvolveu drogas para cortar o apetite. Vendedores de milagres têm inventado modas, oferecendo alimentos e suplementos para queimar gordura, ou dietas e métodos diversos para emagrecer rapidamente. Não preciso me estender sobre o fato do que até agora nada disso realmente ajudou, e me arriscaria em dizer que em muitos casos o que acontece é justamente o contrário.

Primeiro choque: a presença asfixiante da indústria

Cheguei feliz no local do congresso e tive minha primeira surpresa: reparei em muita gente carregando bolsas estampadas com a marca da maior multinacional de shakes do mundo. Fui pegar os meus credências e recebi a bolsa com o maior desgosto! Muitas das grandes multinacionais alimentícias e de suplementos estavam lá com os seus estandes oferecendo os mesmos produtos de sempre.

É verdade que os organizadores do congresso fizeram um esforço para claramente diferenciar as palestras patrocinadas por essas marcas daquelas promovidas por universidades e centros de pesquisa. Mas a presença forte da indústria fez com que os temas que mais tivessem repercussão fossem ditados por ela.

Precisamos da indústria para nos fornecer produtos higienizados e de fácil acesso. Dito isso, não podemos esperar uma reflexão realmente livre, por exemplo, sobre os prós e contras dos edulcorantes quando a viagem e o cachê do palestrante são pagos por empresas que os usam massivamente nos seus produtos. Onde estão as polêmicas atuais sobre como eles afetam nosso apetite, sobre a vontade aumentada de comer doces, sobre o risco de alterações metabólicas e um aumento da resistência à insulina?

Segundo choque: a visão reducionista da nutrição continua firme e forte …

O congresso era bem organizado e os temas eram muito diversos, de Agricultura para Saúde pública, passando pela Educação, Cultura, Doenças, Alimentos Funcionais e Compostos Bioativos. Era impossível assistir a todos porque aconteciam simultaneamente.

Infelizmente, o que novamente eu mais pude presenciar foi uma dramatização da obesidade e uma supervalorização da nutrição reducionista focada no nutriente. Vi muito cientificismo ou nutricionismo, seguindo a descrição de Gyorgy Scrinis. Faltou espaço para falar sobre temas do comportamento alimentar, para mim um elemento crítico para melhorar a saúde e reduzir os índices de sobrepeso e obesidade. Todas palestras sobre esse tema foram organizadas e patrocinadas pela indústria.

… apesar de alguns avanços.

Felizmente tivemos algumas palestras incríveis, como as do professor W. Philip T. James, um grande nome da má nutrição infantil, e do professor Benjamin Caballero, outro grande nome internacional, que fizeram excelentes apresentações mostrando que não devemos focar no peso, mas numa nutrição de qualidade para melhorar a saúde, ou seja comer melhor.

A Universidade de São Paulo também organizou um simpósio muito relevante sobre a importância de considerar o grau de processamento dos alimentos. O professor Carlos Monteiro, coordenador do Novo Guia Alimentar para a População Brasileira (2014) elogiado no mundo inteiro, mostrou com apoio dos resultados de pesquisas em vários países a importância para saúde de comer alimentos verdadeiros, cozinhar e diminuir o consumo de alimentos processados e ultraprocessados. Eu concordo com essa abordagem que procura reabilitar a comida versus o nutriente. Esse simpósio foi bem recebido por muitos, mas também muito criticado como sendo um ato político contra a indústria e o mundo capitalista.

Parece que precisamos escolher entre apoiar a indústria ou militar contra. Eu acredito no meio-termo: incentivar as pessoas a comer mais alimentos verdadeiros e diminuir o consumo de alimentos processados, e ao mesmo tempo incentivar a indústria a melhorar a oferta.

Apesar de tudo, tive o prazer de encontrar ou reencontrar muitos cientistas cujos trabalhos eu admiro e que certamente estão contribuindo para divulgar uma visão mais holística e mais humanista da nutrição: W. Philip T. James (UK), Claude Fischler (França), Gyorgy Scrinis (Austrália), Jean Claude Moubarac (Canadá), Daiana Estevez (OMS-Genebra), Anthony Fardet (França) e muito mais! A IUNS pelo menos cumpriu parte da sua missão que é: “Incentivar a comunicação e a colaboração entre cientistas da nutrição”.

O próximo congresso será no Japão em 2021, e o seguinte, em 2025, na França, em Paris! Eu não podia ficar mais feliz porque será também o último ano da década de Nutrição da ONU e, com certeza, teremos mais do comportamento alimentar, do alimento verdadeiro e da importância do prazer de comer na nossa saúde!
Bon appétit!

https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br/2017/10/25/estamos-cada-vez-mais-doentes-e-gordos-devemos-falar-serio-sobre-nutricao/

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