Conversas imaginárias com minha filha

GREGORIO DUVIVIER – Tenho conversado o dia inteiro com a minha filha. Há quem diga que isso é muito saudável e há quem ache doentio. As pessoas que acham saudável geralmente não sabem que ela ainda não nasceu e que esses diálogos acontecem dentro da minha cabeça.

Não sei se acontece com todos os pais, mas não paro de falar com uma pessoa que só vai nascer daqui a dois meses. Isso se pontualidade não for herdada geneticamente. Se puxar aos pais, nasce em março.

Hoje de manhã, no metrô, com seus olhos imensos e imaginários, inventou de me perguntar se eu acredito em Deus. Demorei um tempo bom pra responder, me aproveitando do fato de que filhas imaginárias podem esperar todo o tempo do mundo.

Não, filha, papai não acredita em nada. Nada? Ela me pergunta com olhos chorosos. Você não acredita em mim? Não! Claro que acredito! Papai quer dizer que não acredita em alguém que tenha inventado a gente. Então quem inventou a gente?

(Que difícil, isso). Foi a gente, filha. A gente inventou a gente, igual eu te inventei, e meus pais me inventaram, e os pais deles inventaram eles, e daí pra trás, pra sempre.

E quem foram os pais da primeira pessoa que existiu?

(Eita nós). Agora você me pegou. Acho que o pai da primeira pessoa era um macaco.

E o macaco teve um filho gente? O macaco teve um filho macaco mesmo, mas que um dia começou a pensar coisas como essa que você tá pensando, e daí ele deixou de ser macaco e passou a ser gente, porque a gente é um macaco que pensa coisas que não tinham a necessidade de ser pensadas, e acredita em coisas que não existem.

Catarina Bessel/Folhapress
Ilustração Gregorio Duvivier de 23.out.2017
E se você não acredita em nada que não existe por que você tá falando comigo?

(Silêncio). Você existe, filha, dentro da barriga da sua mãe, e da cabeça das pessoas, e já mudou a vida delas, que já te amam, como eu, que falo com você todo dia, então você existe.

Deus também existe na cabeça das pessoas, e as pessoas amam e falam com ele todo dia dentro da cabeça delas. Então Deus existe?

Você ganhou, filha. Deus existe.

As pessoas ao meu redor me olhavam assustadas. Percebi que tinha dito essa última frase em voz alta, fazendo carinho numa cabeça inexistente. Saio do vagão, mas ela continua falando na minha cabeça.

Papai, e a plantinha que você tem casa, por que é que ela é proibida? Por que é que não te prendem? E o Aécio? Por que é que ele ainda tá solto?

Filha, você pode esperar uns meses aí dentro? Papai não tá pronto.

http://m.folha.uol.com.br/colunas/gregorioduvivier/2017/10/1929261-conversas-imaginarias-com-minha-filha.shtml

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