“Nós não existimos”: a vida nas enormes favelas da Mongólia

Javier C. Hernández – A terra embaixo da casa de Dolgor Dashnyam é úmida e granulada, cheirando a decomposição. Aqui, no topo de um dos maiores depósitos de lixo de Ulan Bator, Dashnyam vive sob um teto feito de colchões rasgados. Ela passa os dias vasculhando pilhas de garrafas de gim e ossos de animais descartados, pegando pedaços de metal para vender para comprar água e pão.

Dashnyam, 55, já foi uma pessoa ambiciosa, formada na faculdade, que sonhava com ter uma fazenda e enriquecer. Mas a escassez de moradias acessíveis a empurrou, com milhares de moradores de baixa renda, às margens de Ulan Bator, cidade de 1,4 milhão de habitantes que é a capital da Mongólia, onde eles lutam pelas necessidades básicas como comida e água potável.

“Ninguém se importa com a gente”, disse Dashnyam, que ganha cerca de US$ 3 por dia (menos de R$ 10) e diz que não conseguiu uma moradia subsidiada pelo governo. Ela foi demitida de um emprego na agricultura. “Nós não existimos.”

Centenas de milhares de pessoas acorreram a Ulan Bator nos últimos anos, atraídas pela promessa de empregos bem remunerados e um caminho para a classe média. Muitas estão fugindo de condições severas no campo causadas pela mudança climática, com secas e duros invernos devastando os campos e o gado.

Mas a vida na cidade se tornou cada vez mais árida. Enquanto há muitos arranha-céus de luxo nas ruas elegantes do centro da cidade, as moradias de baixo custo são raras.

Aumenta o número de pessoas sem teto, segundo grupos de ajuda aos pobres, enquanto a desaceleração econômica prejudica empregos e salários. A poluição está piorando, e o acesso a recursos públicos como eletricidade e esgoto é difícil.

Garotos se apoiam em cerca em um dos subúrbios de Ulan Bator, na Mongólia

Aninhada em um vale a cerca de 1.300 metros acima do nível do mar, Ulan Bator não foi projetada para abrigar mais que algumas centenas de milhares de residentes. Hoje ela está no rumo de uma expansão indefinida, aumentando os temores de que o governo não consiga acompanhar o fluxo de migrantes.

As autoridades locais, citando preocupações com a falta de espaço nas escolas e um sistema de benefícios sociais sobrecarregado, disse neste ano que Ulan Bator não aceitará mais migrantes rurais. O governo advertiu contra a construção de casas em certas áreas devido aos perigos de superlotação.

Mas muitos mongóis são ousados. Em encostas escarpadas ou planícies rochosas, eles estão montando barracas improvisadas e gers, ou yurts, as tendas circulares tradicionais onde moram os mongóis nômades.

Em um morro escondido ao norte de Ulan Bator, Enkh-amgalan Tserendorj, 50, lavava roupas diante do yurt da família, onde ela e seu marido vivem desde o ano passado. Tserendorj disse que não queria morar tão longe do centro, mas não teve escolha. Pela lei mongol, os cidadãos têm direito a reivindicar pequenos terrenos com cerca de 700 m2, o que deixou muitas famílias em dificuldades para encontrar espaços interessantes.

“É injusto”, disse ela. “Todos os bons terrenos estão ocupados.”

O filho de Tserendorj, de 26 anos, tem tuberculose, e ela disse que o isolamento da família dificulta encontrar tratamento médico. Ela afirma que também se preocupa com a falta de eletricidade confiável e a ameaça de desastres naturais, como avalanches.

O governo de Ulan Bator prometeu investir bilhões em habitação acessível até 2030 e começar a transformar vários bairros de yurts em complexos residenciais. O governo espera que 70% dos cidadãos estejam vivendo em apartamentos até 2030, comparados com cerca de 40% hoje. Calcula-se que a população da cidade crescerá para 1,6 milhão até 2020 e 2,1 milhões até 2030, contra 1,4 milhão em 2015.

Mas ativistas dizem que o plano habitacional do governo é insuficiente. E alguns temem que a cidade não faça o bastante para proteger os moradores que são obrigados pelo governo a deixar suas casas para dar lugar a novas construções.

“As famílias estão vivendo com medo de ficar sem casa”, disse Nicholas Bequelin, diretor para o Extremo Oriente da Anistia Internacional em Hong Kong. “As autoridades não cumprem sua responsabilidade de proteger os direitos dos cidadãos.”

A mudança climática aumentou a pressão para resolver a crise habitacional. A Mongólia foi atingida com muita força, com uma série de secas devastadoras. As temperaturas também estão aumentando, e este verão foi o mais quente em mais de 50 anos.