O Papa contra a pena de morte. Conservadores acusam-no: heresia!

Mauro Lopes – O status institucional da Igreja Católica neste momento é algo como uma queda-de-braço contínua, sem intervalos. A cada gesto do Papa, os conservadores saem a campo para acusá-lo, numa campanha de ódio sem precedentes. Agora, o tema é a pena de morte. O Papa afirmou nesta quarta (11) que a pena de morte é inadmissível nos marcos do cristianismo. Pois os conservadores reagiram imediatamente e, mais uma vez, tentaram intimidar Francisco com o que consideram o pior dos xingamentos: herético! O mais incrível deste episódio é que os mesmos que atacam o Papa pretendem-se radicalmente “pró-vida” (dedicam-se diuturnamente a campanhas para criminalizar o aborto e perseguir as mulheres).

Francisco falou num evento no Vaticano, em torno dos 25 anos do Catecismo da Igreja Católica. Redigido sob o comando do então cardeal Ratzinger, à época prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e promulgado por João Paulo II, o texto admite a pena capital em seu tópico 2267: “A doutrina tradicional da Igreja, desde que não haja a mínima dúvida acerca da identidade e da responsabilidade do culpado, não exclui o recurso à pena de morte, se for esta a única solução possível para defender eficazmente vidas humanas de um injusto agressor.”

É hora de virar essa página, afirmou o Papa: “Deve afirmar-se energicamente que a condenação à pena de morte é uma medida desumana que, independentemente do modo como for realizada, humilha a dignidade pessoal. Em si mesma, é contrária ao Evangelho, porque voluntariamente se decide suprimir uma vida humana que é sempre sagrada aos olhos do Criador e cujo verdadeiro juiz e garante, em última análise, é apenas Deus.” Francisco quer que o tópico seja liminarmente suprimido do Catecismo.

Ele colocou o dedo na ferida, ao referir-se ao fato de a pena de morte já ter sido usada na história pela própria Igreja: “No próprio Estado Pontifício, infelizmente, recorreu-se a este remédio extremo e desumano, descurando o primado da misericórdia sobre a justiça. Assumimos as responsabilidades do passado, reconhecendo que aqueles meios eram ditados por uma mentalidade mais legalista que cristã.”

Sim, a defesa da pena de morte é tão escandalosamente anticristã que desta vez os conservadores não ousaram sair a campo em massa para atacar o Papa –todos os papas do século XX, de maneira mais ou menos explícita condenaram a pena capital, até mesmo Woytila e Ratzinger, apesar de terem produzido o Catecismo.

Mas a retração não significou silêncio:

  • No site católico ultraconservador OnePeterFive, dos EUA, a posição do Papa foi abertamente condenada como herética, pois durante séculos a Igreja defendeu a pena de morte o que, para os editores tornaria o assunto um “ensinamento estabelecido pela Igreja nas Escrituras e pelo Magistério”. Mais ainda: o ensinamento sobre a pena de morte seria oriundo diretamente de ”Revelação Divina”.
  • Outro site estadunidense confrontou o Papa. Ele temo significativo nome de Life Site News (algo como “Site de Notícias sobre a Vida”) e dedica-se exaustivamente ao tema do aborto e a seguidos ataques a Francisco. Para seus redatores, os papas que precederam Francisco teriam “consistentemente reafirmado a legitimidade da pena de morte”.
  • No espanhol Infocatolica, o mesmo tom: “a Sagrada Escritura, os Padres da Igreja, o magistério eclesial e os Doutores da Igreja sempre consideraram a pena de morte como uma possibilidade justa e lícíta” – o autor pinçou trechos de São Tomás de Aquino, Santo Agostinho e papas como Pio X e Leão XIII.

Há dois temas em disputa em torno deste assunto.

O primeiro é como pensar a tradição da Igreja. Para os conservadores, existe um arcabouço ossificado de formulações que servem para manter incólumes suas ideias sobre a Igreja, a moral o controle sobre as pessoas. A isso chamam de “tradição”. Funciona mais ou menos como os pais às vezes fazem com filhos pequenos na idade em que as crianças começam a questionar e perguntam insistentemente: “Por quê? Por quê? Por quê?” E muitos pais respondem: ”Porque sim” ou “Por que sempre foi assim” (é a resposta predileta dos conservadores).

Francisco está destruindo este edifício. Para ele, a Tradição de nada vale se não se conecta ao rio da vida. As afirmações dele sobre o ensinamento da Igreja nunca foram tão explícitas como no discurso da última quarta-feira e representam uma mudança radical:

“A Tradição é uma realidade viva; e somente uma visão parcial pode conceber o ‘depósito da fé’ como algo de estático. A Palavra de Deus não pode ser conservada em naftalina, como se se tratasse de uma velha coberta que é preciso proteger da traça! Não. A Palavra de Deus é uma realidade dinâmica, sempre viva, que progride e cresce, porque tende para uma perfeição que os homens não podem deter. (…) Não se pode conservar a doutrina sem a fazer progredir, nem se pode prendê-la a uma leitura rígida e imutável, sem humilhar a ação do Espírito Santo. Deus que, ‘muitas vezes e de muitos modos, falou aos nossos pais, nos tempos antigos’ (Heb 1, 1), ‘dialoga sem interrupção com a esposa do seu amado Filho’ (Dei Verbum, 8). E nós somos chamados a assumir esta voz com uma atitude de ‘religiosa escuta’ (ibid., 1), para permitir que a nossa existência eclesial progrida, com o mesmo entusiasmo dos primórdios, rumo aos novos horizontes que o Senhor pretende fazer-nos alcançar.”

O segundo tema é exatamente a questão da vida. O ataque dos conservadores ao Papa por sua oposição à pena de morte deita por terra toda a falácia de se apresentarem como “campeões da vida”. Como e possível “defender a vida” de fetos e defender a morte de pessoas adultas? Estão desmascarados: sob a capa de defenderem a vida em suas campanhas intolerantes contra o direito ao aborto, o que desejam mesmo é controlar o corpo das mulheres. O tema dos conservadores é controle –e não a vida.

O Papa contra a pena de morte. Conservadores acusam-no: heresia!

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