Francisco não se atemoriza e retruca duramente aos conservadores em Bolonha

MAURO LOPES – Enganou-se quem supôs que o Papa poderia recuar ou moderar seus posicionamentos depois do agressivo manifesto ultraconservador acusando-o de “heresia”. Francisco esteve sábado e domingo em visita pastoral às cidades de Cesena e Bolonha, no norte da Itália, e foi ainda mais explícito em sua visão da Igreja e do cristianismo, conforme os ensinamentos originais de Jesus.

No lotado estádio de Ara em Bolonha, na missa dominical, ele afirmou que o traço distintivo da identidade cristã é composto por três “P”: Palavra, pão e pobres: “nunca devemos esquecer os alimentos-base que sustentam o nosso caminho: a Palavra, o Pão, os pobres”. No altar, uma faixa enorme: “Se partilhamos o pão do céu, como não partilhar o pão da terra?”. A frase é do cardeal Giacomo Lercaro, nome referencial da Igreja em Bolonha e um dos principais protagonistas do Vaticano II, defensor destemido da centralidade dos pobres na Igreja.  Mais um sinal aos conservadores: a herança do Concílio é intocável e ele é o norte da Igreja.

Ainda na homilia em Bolonha, o Papa, a partir do Evangelho dominical (Mt 21,28-32), deu um duríssimo recado aos contras que desejam ver a Igreja voltar aos tempos do fechamento e do clericalismo.

O Evangelho é sobre a postura de dois filhos que, convocados pelo pai a trabalhar na vinha (a imagem por excelência do povo na Bíblia) têm respostas distintas: o primeiro diz que não vai, arrepende-se, e resolve atender ao pedido do pai; o segundo diz que sim, mas não vai.

Jesus dirige esta parábola, explicou Francisco na homilia, a alguns chefes religiosos da época “que se assemelhavam ao filho de vida dupla, enquanto as pessoas comuns se comportavam frequentemente como o outro filho”. Num trecho aparentemente dedicado aos restauracionistas, o Papa acrescentou: “Estes chefes sabiam e explicavam tudo, em modo formalmente irrepreensível, como verdadeiros intelectuais da religião. Mas não tinham a humildade de escutar, a coragem de interrogar-se, a força de arrepender-se”.

O problema destes chefes religiosos, observou o Papa, é o rigor aparente que apresentam às pessoas, como os líderes conservadores hoje: “Eram, em palavras e com os outros, inflexíveis custódios das tradições humanas, incapazes de compreender que a vida segundo Deus é ‘em caminho’, que pede a humildade de abrir-se, arrepender-se e recomeçar”.

O Papa atacou diretamente um dos centros da visão conservadora, segundo a qual a vida cristã resume-se ao cumprimento de regras de comportamento: “(…) não existe uma vida cristã decidida numa conversa ao redor duma mesa, cientificamente construída, onde basta cumprir alguns ditames para aquietar a consciência”.

O Papa atacou a rigidez de aparência moralista, fundada no clericalismo que em geral esconde uma vida dupla: “A vida cristã é um caminho humilde de uma consciência nunca rígida e sempre em relação com Deus, que sabe arrepender-se e entregar-se a Ele nas suas pobrezas, sem nunca presumir bastar-se a si mesma. Assim, são superadas as edições revistas e atualizadas daquele antigo mal, denunciado por Jesus na parábola: a hipocrisia, a duplicidade de vida, o clericalismo que acompanha o legalismo, a separação das pessoas”.

Foram dois dias muito intensos.

No domingo à tarde, o Papa falou de improviso num encontro com sacerdotes, religiosos e religiosas, seminaristas do Seminário regional e os diáconos permanentes, também em Bolonha. E apresentou aos presentes um perfil de sacerdote e pessoa de vida consagrada que choca-se diretamente com o desenho do padre-padrão conservador.

O Papa atacou o desejo de riqueza: “o dinheiro é realmente uma ruína para a vida consagrada”. Ele voltou a apontar o clericalismo com a falsificação da vida religiosa: “o Pastor que é muito clerical se assemelha àqueles fariseus, àqueles doutores da lei, àqueles saduceus do tempo de Jesus: ‘Somente a minha teologia, o meu pensamento, o que se deve fazer, o que não se deve fazer’, fechado ali e o povo lá, nunca interferindo na realidade de um povo”.

Francisco disse que dois dos maiores vícios da vida consagrada são a fofoca e o carreirismo. A tagarelice quer dizer “sujar a fama do irmão, com as fofocas e as reclamações”. O carreirismo é “o pensar o serviço presbiteral como carreira eclesiástica”. O Papa foi direto: “Me refiro a um verdadeiro comportamento arrivista. Mas isto é uma peste, em um presbítero. (…) Os arrivistas fazem tanto mal para a união do presbitério, tanto mal, porque vivem em comunidade, mas fazendo, mas agindo assim para eles irem em frente”.

No almoço: um Papa próximo das pessoas Francisco ainda teve encontros com trabalhadores, migrantes, presos, ativistas da Igreja e estudantes. Houve um almoço informal na sexta maior igreja da Europa, transformada refeitório para o momento de convívio organizado pela Caritas, com cerca de 1400 detentos, refugiados, pobres e doentes. Um almoço simples e gostoso: lasanha com molho de carne e costeleta de peru à bolonhesa temperada com molho de parmesão, batatas à provençal, uma torta gigante de arroz, um arranjo de mesa com uvas brancas e pretas e ameixas da estação.

Um dos momentos mais tocantes da visita foi um breve discurso aos migrantes e refugiados em Bolonha. O Papa Francisco segurou as lágrimas ao pedir silêncio e oração pelos migrantes que morreram no mar ou no deserto durante a travessia. Veja o vídeo:

Francisco não se atemoriza e retruca duramente aos conservadores em Bolonha

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