Quando Jack Daniel’s não conseguiu honrar um escravo, ela interveio

Clay Risen – Jack Daniel (no centro, de chapéu branco) e um negro não identificado, possivelmente o escravo Nearest Green ou um de seus filhos

Fawn Weaver estava de férias em Cingapura no verão passado quando leu pela primeira vez sobre Nearest Green, o escravo do Tennessee que ensinou Jack Daniel como fazer uísque.

A existência de Green já não é mais segredo faz tempo, mas em 2016 a Brown-Forman, a empresa dona da destilaria do Jack Daniel’s aqui, foi notícia no mundo todo com sua decisão de finalmente abraçar o legado de Green e mudar de forma significativa suas visitas guiadas para enfatizar sua importância.

“Era desconcertante que provavelmente uma das marcas mais conhecidas do mundo tivesse sido criada, em parte, por um escravo”, disse Weaver, 40, uma investidora imobiliária e escritora afroamericana.

Determinada a ver as mudanças com seus próprios olhos, ela logo embarcou em um avião para Nashville saindo de sua cidade, Los Angeles. Mas quando chegou a Lynchburg, ela não encontrou nenhum sinal de Green. “Fiz três visitas guiadas na destilaria e nada, nenhuma menção a ele”, ela disse.

Em vez de ir embora, Weaver se fincou, determinada a descobrir mais sobre Green e a persuadir a Brown-Forman a cumprir sua promessa de reconhecer a importância dele na criação do uísque mais famoso dos Estados Unidos. Ela alugou uma casa no centro de Lynchburg e começou a entrar em contato com os descendentes de Green, dentre os quais dezenas ainda vivem na região.

Vasculhando arquivos no Tennessee, na Georgia e em Washington D.C., ela criou uma linha do tempo da relação de Green com Daniel, mostrando como Green não só havia ensinado ao barão do uísque como destilar, como também foi trabalhar para ele após a Guerra Civil, tornando-se o que Weaver acredita ser o primeiro mestre-destilador negro dos Estados Unidos. Pelas suas contas, ela coletou 10 mil documentos e artefatos relacionados a Daniel e Green, boa parte dos quais ela concordou em doar para o novo Museu Nacional de História e Cultura Afroamericana em Washington.

Através dessa pesquisa, ela também localizou a fazenda onde os dois homens começaram a destilar –e a comprou, juntamente com um lote de quase 2 hectares no centro da cidade que ela pretende transformar em um parque memorial. Ela até descobriu que o nome verdadeiro de Green era Nathan; Nearest (e não Nearis, como se costumava citar) era um apelido.

Fotos e outros itens da história da família que Fawn Weaver recebeu de Annabelle Mammie Green, neta de Nearest Green

Ela está escrevendo um livro sobre Green, e no mês passado apresentou o Uncle Nearest 1856, um uísque produzido por encomenda em outra destilaria do Tennessee; ela diz que investirá a maior parte de qualquer lucro obtido com ele na expansão de sua lista de projetos relacionados a Green.

Contudo, a maior vitória de Weaver veio em maio, quando a Brown-Forman reconheceu oficialmente Green como seu primeiro mestre-destilador, quase um ano depois que a empresa prometeu começar a compartilhar o legado de Green. (Daniel é agora listado como seu segundo mestre-destilador.)

“É absolutamente essencial que a história de Nearest seja incluída na história de Jack Daniel”, disse em uma entrevista Mark I. McCallum, presidente de marcas da Jack Daniel’s na Brown-Forman.

A decisão da empresa de reconhecer sua dívida com um escravo, que foi noticiada pela primeira vez no ano passado pelo “The New York Times”, é uma virada muito importante na história da tradição alimentar do Sul. Ainda que inovadores negros na culinária e na agricultura do Sul estejam começando a receber o devido reconhecimento, a história do uísque americano ainda é contada como sendo um assunto exclusivo de brancos, sobre colonizadores escoceses e irlandeses que trouxeram o conhecimento em destilação do Velho Mundo para os Estados fronteiriços do Tennessee e do Kentucky.

A história de Green muda tudo isso ao mostrar como pessoas escravizadas provavelmente forneceram cérebros além de músculos naquilo que era uma operação árdua, perigosa e extremamente técnica.

De acordo com Weaver, Green foi alugado por seus proprietários, uma firma chamada Landis & Green, para fazendeiros nos arredores de Lynchburg, inclusive Dan Call, um rico proprietário de terras e padre que também empregava um adolescente chamado Jack Daniel para ajudar a fazer uísque. Green, que já era especialista em destilação, passou a ser o mentor de Daniel e, depois da Guerra Civil e do fim da escravidão, foi trabalhar para ele em sua incipiente produção de uísque.

Muito provavelmente havia muitos outros homens como Green, espalhados pelo Sul. São inconsistentes os registros, embora referências a escravos hábeis em destilação e em fabricação de uísque surjam em anúncios de vendas de escravos e de escravos fugitivos do início do século 19. Mas somente um deles ajudou a fundar uma marca de uísque que hoje gera cerca de US$3 bilhões (quase R$10 bilhões) anuais em receita.

A empresa pretendia reconhecer a importância de Green como mestre-destilador no ano passado como parte da comemoração de seu 150º aniversário, disse McCallum, mas decidiu adiar qualquer tipo de mudança em meio a um segundo turno marcado por questões raciais nas eleições de 2016. “Achei que nos acusariam de fazer uma grande comoção sobre isso para lucrar”, ele disse.

Não ajudou o fato de que muitas pessoas entenderam errado a história, presumindo que Daniel era dono de Green e que havia roubado sua receita. Na verdade, Daniel nunca teve escravos e falava abertamente sobre o papel de Green como seu mentor.

Então os planos da empresa foram engavetados, e poderiam ter permanecido na gaveta se Fawn Weaver não tivesse aparecido.

“Era algo que minha avó sempre nos contava”, disse Debbie Ann Eady-Staples, uma descendente de Green que vive em Lynchburg e trabalhou para a destilaria por quase 40 anos. “Nós sabíamos entre nossa família, ainda que não tenha vindo da empresa”.

Nada permanece em segredo em Lynchburg (população: 6.319) por muito tempo, especialmente quando envolve o maior empregador da cidade, e no final de março Weaver já estava se encontrando com McCallum, o presidente da marca, no escritório improvisado que ela havia montado em uma casa caindo aos pedaços, em sua fazenda recém-adquirida.

Com uma amostra de seus estimados 10 mil documentos e artefatos espalhada por uma mesa entre eles, logo ficou óbvio que Weaver, que não tinha nenhuma experiência anterior com história do uísque, sabia mais sobre as origens do Jack Daniel’s do que a própria empresa. O que deveria ser uma reunião preliminar acabou virando uma conversa de seis horas.

McCallum diz que saiu revigorado do encontro, e em poucas semanas ele já tinha planos para colocar Green no centro da narrativa da história do Jack Daniel’s. Em uma reunião realizada em maio junto com cem funcionários da destilaria, inclusive vários dos descendentes de Green, ele resumiu como a empresa incorporaria Green à história oficial, e naquele mês a empresa começou a treinar suas duas dezenas de guias.

Eady-Staples, que se encontrou em particular com McCallum antes da grande reunião, disse que ela estava orgulhosa por seu empregador finalmente estar fazendo a coisa certa. “Não culpo a Brown-Forman por não ter agido antes, porque eles não sabiam”, ela disse. “Uma vez que ficaram sabendo, eles logo se envolveram”.

E embora não exista nenhuma fotografia conhecida de Green, a empresa colocou uma foto de Daniel sentado ao lado de um homem negro não identificado –que pode ser Green ou um de seus filhos que também trabalhou para a destilaria– em sua galeria de mestres-destiladores, uma espécie de hall da fama da empresa.

“Queremos deixar claro que Nearest Green foi um mentor para Jack”, disse Steve May, que administra o centro de visitantes e as visitas guiadas da destilaria. “Temos cinco roteiros diferentes de visitas, e todos eles incluem Nearest. Trabalhei durante muitos dias no preparo deles”.

May disse que até o momento foi positiva a resposta dos visitantes aos novos tours que destacam a contribuição de Green. Não é difícil entender por quê: nesses tempos difíceis para as relações raciais nos Estados Unidos, a relação entre Daniel e Green permite que a Brown-Forman conte uma história positiva, ao mesmo tempo em que é a pioneira em uma conversa que já devia ter acontecido há tempos sobre o papel não reconhecido que os negros, tanto como escravos quanto como homens livres posteriormente, tiveram na evolução do uísque americano.

https://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/2017/08/17/quando-a-jack-daniels-nao-conseguiu-honrar-um-escravo-ela-interveio.htm

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