Curiosidade, problema afetivo e drama familiar levaram usuários ao crack

LEANDRO MACHADO – “Por que você começou a usar crack?”, pergunta um pesquisador do Datafolha, na praça Princesa Isabel, novo endereço da cracolândia no centro de São Paulo. Roberto, 38, descalço, roupas sujas e esfarrapadas, olha para o repórter. Parece procurar alguma ajuda para responder.

“Conflitos familiares”, diz, finalmente. “Qual tipo de conflito?”, quer saber o pesquisador. “Um belo dia cheguei em casa e encontrei minha mulher na cama com meu irmão. Foi isso. Nunca esqueci, está na minha cabeça até hoje, foi onde tudo começou”, responde Roberto.

Ele foi um dos 245 usuários de crack entrevistados pelo Datafolha em 2 e 3 de junho, dez dias após operação policial comandada pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), com apoio do prefeito, o também tucano João Doria.

A ação prendeu dezenas de traficantes e dispersou usuários da antiga cracolândia, a cerca de 400 metros de onde estão concentrados agora.

A reportagem vestiu um colete do Datafolha e acompanhou pesquisadores no centro de SP —todos os nomes citados neste texto foram trocados para preservar o sigilo da pesquisa. A margem de erro é de seis pontos percentuais.

Para 31% dos entrevistados, conflitos familiares ou problemas afetivos foram o principal motivo para o início do uso de crack. “Curiosidade” (30%) e “influência dos amigos” (18%) são outras explicações apontadas.

Essa parecia ser a pergunta mais difícil. Marcos, 60, morador de rua, pensa por alguns segundos. “Comecei por causa da solidão, da tristeza, da falta de perspectiva”.

Armando, 40, artista de rua, tem outro motivo: “Uso crack para desestabilizar o sistema capitalista”.

A ex-bancária Maria, 47, primeiro diz que não vai responder. Então, pensa um pouco e afirma: “Comecei depois que meu filho foi estuprado”. Mãe de sete filhos já adultos, ela mora sozinha em um quarto de pensão.

Maria veste um short curto e um casaquinho vermelho, na manhã fria de sexta (2). Na mão esquerda, três anéis e um cachimbo para fumar pedra. Na direita, carrega um exemplar do caderno “Cotidiano”, da Folha. A página mostra uma notícia sobre a decisão da Justiça que impediu Doria de retirar pessoas da cracolândia à força.

“Trabalhei sete anos no Itaú”, acrescenta Maria. Atualmente, diz, faz programas para manter o vício que custa R$ 100 por dia.

Segundo o Datafolha, diariamente os usuários da cracolândia gastam em média R$ 89 com a droga, em um consumo médio de 11 pedras. Seis em cada dez entrevistados (62%) disseram fumar até 10 pedras por dia —16% usam de 11 a 20 unidades.

“Viciado em crack é assim: se ganha R$ 100, gasta tudo em pedra. Se for R$ 300, também”, diz Roberto. Ele começou na droga há 14 anos, quando foi para as ruas ao descobrir o adultério da mulher com o irmão.

Esse longo tempo na droga não é algo incomum. A pesquisa Datafolha aponta que 46% dos usuários de São Paulo fumam crack há mais de uma década -outros 22% têm entre seis e dez anos de uso.

Em média, eles começaram no crack com 22 anos de idade. Dos 245 entrevistados, 48% se disseram pardos, 20% pretos e 19% brancos.

A maioria (80%) disse morar na rua ou em praças. Três em cada quatro não concordam que usuários de crack devem ser internados à força —64% já procuraram tratamento contra o vício.

LIBERDADE

Os pesquisadores do Datafolha só continuavam o questionário se a pessoa se declarasse usuária de crack na primeira pergunta. Uma das dificuldades foi terminar o roteiro de 50 questões, em uma média de 10 minutos para cada pesquisa.

Algumas pessoas interromperam a sessão de repente -nesses casos, o questionário foi desconsiderado.
Um rapaz de 20 anos, descalço e cabelo desengonçado, pergunta se pode fumar uma pedra enquanto responde. Logo se arrepende e pede desculpas. “É que o bagulho é louco”, diz, sobre o vício, sem terminar as questões.

Às vezes, usuários falavam de forma monossilábica. Em outras, queriam explicar seus motivos para o consumo.

“Na cracolândia, ninguém é alienado. Aqui há pessoas que escolheram se alienar”, afirma Armando, artista de rua. Para ele, a cracolândia é o extremo da liberdade. Nela, é possível se desprender de tudo e optar por se tornar um excluído, que é o caso dele, diz. “Uso crack por opção, não por falta dela.”

O feirante Joaquim, 46, há duas décadas no crack, se emociona com uma pergunta sobre filhos (59% do entrevistados têm pelo menos um). Primeiro, ele fica calado, surpreso com a questão. Quando responde, diz que há 20 anos deixou uma mulher grávida no interior da Bahia.

Ele coloca a mão no ombro do repórter e começa a chorar. Joaquim não conheceu o filho. “Você me desculpa? Tenho vergonha de falar disso. É que nunca nem soube se ele é homem ou mulher”, diz.

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/06/1891953-curiosidade-problema-afetivo-e-drama-familiar-levaram-usuarios-ao-crack.shtml

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