Abandonado, homem cresce, trabalha e se aposenta no mesmo abrigo em SP

JAIRO MARQUES – Há quase sete décadas, Carlos Alberto Araújo, 72, o seu Carlinhos, mora em abrigos para crianças vulneráveis socialmente da cidade de São Paulo. Conhece pouco o mundo fora dos muros institucionais. “Foi ficando” por causa da timidez e da ausência total de referência familiar. Cresceu, envelheceu e continua abrigado.

Da história infantil, Carlinhos lembra-se apenas de ser uma criança muito doente e que percorria, ao lado da mãe, Maria Aparecida de Araújo, vários hospitais como a Santa Casa e o hospital São Paulo. Em um deles, ele acabou sendo entregue.

“Tinha problemas respiratórios graves e era muito tímido. Minha mãe lutou por mim, era uma mulher boa. Com cinco anos, eu já estava no [antigo abrigo, Casa da Infância] Menino Jesus. Nunca mais tive contato com ela”, diz Carlinhos, que se profissionalizou em carpintaria.

Quando tinha entre 11 e 12 anos, Carlinhos foi transferido para o local onde iria passar a maior parte da vida e de onde não pretende mais sair, o Educandário Dom Duarte, então conhecido como “Cidade das Crianças”, que abriga cerca de 500 meninos e meninas abandonados no extremo sul de São Paulo.

“Cheguei aqui numa camionete com outros dez meninos, com a roupa do corpo. Fui morar no pavilhão 23. Eram 25 ao todo, cheios de crianças. Cada um era mantido por uma família [chamados à época de laristas]. Logo, fui aprender carpintaria.”

Sala de jogos na casa de idosos onde Carlinhos, um senhor de 73 anos, mora; abandonado pela mãe, ele sempre viveu em instituições da capital paulista

Atualmente, o local com 470 mil m² ainda presta serviços de atenção a crianças e idosos vulneráveis socialmente, mas não tem mais a função de abrigo. Os pavilhões tornaram-se espaços destinados aos programas sociais.

“Chorava muito nos períodos de festas e férias porque todos iam para a casa de algum parente que restava, algum conhecido, mas eu não tinha ninguém e ficava por aqui mesmo. Tentei ir ao Silvio Santos, ao Chacrinha para ver se me ajudavam a achar alguém, mas não deu certo”.

VELHICE

Sem nenhuma referência familiar, muito introspectivo, ao completar 18 anos, Carlinhos seguiu “institucionalizado”, mas na condição de funcionário da instalação.

Trabalhou na carpintaria por 20 anos e, depois, em funções administrativas. Na vida adulta, ganhou um espaço próprio, dentro do educandário, e vive por lá. Tem poucos móveis, mas em perfeito estado de conservação.

Acorda cedo, almoça às 12h e sai muito pouco. Mas voltou a morar, por três meses, em um hospital, em 2006, para tratar de um problema de saúde. Aos sábados, costuma comprar pizza e depois divide as fatias com os funcionários da portaria, os únicos que também ficam no local aos finais de semana. Alfabetizou-se há pouco mais de dez anos e aposentou-se em 2011.

“Não temos registro de outra pessoa que tenha ficado tanto tempo na instituição. Carlinhos é metódico, amável e tímido. O perfil dele colaborou para que ele fosse ficando, ficando….”, afirma a psicóloga Marli de Oliveira, gestora de projetos da Liga Solidária, mantenedora do educandário.

“A forma de lidar com a criança em abandono hoje é bem diferente do que a que ele viveu”, completa.

Para Simone Vieira Moura Santos, coordenadora do espaço de atividades multidisciplinares de idosos que no passado foi a casa de Carlinhos, ele sofreu uma transformação ao ser alfabetizado.

“Sinto que ao aprender a ler e a escrever ele ganhou outro ânimo para a vida, começou a participar de várias atividades aqui no centro, que é o local onde ele morou parte da vida”, declara.

Carlinhos gosta de dançar, de fazer ginástica e de cuidar da horta do educandário. Nunca se casou e pouco namorou, devido à timidez. Diz que, quando morrer, quer que suas economias fiquem todas para o educandário.

“Tenho muitas amizades aqui, conheço todo mundo. O que tenho quero que fique aqui para ajudar a outras pessoas. Mas estou me cuidando para viver muito.”

Ao ser questionado se sente solidão em algum momento, Carlinhos sorri e apela, cantarolando um trecho da música “A Felicidade”, de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, que diz: “Tristeza não tem fim. Felicidade, sim”.

http://m.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/04/1875520-abandonado-homem-cresce-trabalha-e-se-aposenta-no-mesmo-abrigo-em-sp.shtml

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