Como discussões banais na rua podem virar assassinatos brutais?

No mesmo final de semana, o promotor de eventos Henri Seraphini e o turista argentino Matias Sebastian Carena foram vítimas de uma barbárie. Os dois morreram após terem sido brutalmente espancados nas duas maiores cidades do país.

Seraphini, 35, se envolveu em uma briga após um personal trainer assediar sua namorada em um posto de gasolina na avenida Paulista, em São Paulo.

A confusão terminou com o promotor de eventos dando entrada em coma em um hospital. Ele teve traumatismo craniano e um edema na coluna cervical. Depois de uma semana internado, teve morte cerebral.

Já na capital fluminense, Matias Carena, 28, foi violentamente agredido por quatro brasileiros na saída de um bar na zona sul do Rio. Segundo a polícia, um esbarrão deu início à desavença, que terminou com o argentino desmaiado na calçada. Mesmo caído no chão, o jovem continuou a ser ferido, até com uma muleta. Ele morreu no local.

O argentino Matias Carena, morto no Rio

Casos como os de Seraphini e Carena têm sido recorrentes. Por motivos fúteis, iniciam-se desentendimentos que terminam em mortes. Mas o que leva uma pessoa a tirar a vida de outra com as próprias mãos?O professor Luiz Vicente de Mello, médico do programa de ansiedade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, atribui os episódios de agressões por motivos banais a falhas na formação educacional.

“Todos os indivíduos têm um potencial homicida e este instinto é modulado por valores e pela educação social apresentados durante o período de formação da personalidade”, diz.

“Podemos ser preparados para a paz ou para a guerra. Os homicídios por motivo fútil ou banal estão fortemente ligados à quebra de valorização do ser como humano. A perda de parâmetro afetivo na relação entre pais e filhos leva à banalização da vida.”

O antropólogo e professor da PUC-Rio Bernardo Conde concorda e considera que os episódios de violência mostram que o ser humano tem falhado na construção de uma sociedade. “As agressões acontecem depois de uma série de pequenas afirmações no cotidiano destes indivíduos que ninguém percebeu ou exerceu uma discussão de valores com ele. Hoje em dia, as famílias perderam a capacidade de dar limites e de ensinar a superar frustrações e rejeições. Vivemos numa sociedade destreinada para isso, impaciente e intolerante”, afirma.

O antropólogo avalia ainda que, mesmo com os avanços tecnológicos, como as redes sociais, as discussões sobre pluralidade e diferenças culturais, políticas e sociais estão muito aquém do necessário. “As pessoas têm se fechado, se escondido em grupos que as representam e evitam o debate de ideias, evitam o novo. Pior: reagem com violência ao diferente. A gente observa pessoas ofendendo outras simplesmente por opiniões contrárias. Existe um grau de intolerância elevado”, diz.

O perfil dos agressores

Uma pesquisa do Núcleo de Estudos de Violência da USP (Universidade de São Paulo) mostra, a partir da análise de uma série de inquéritos policiais abertos na década de 1990 em decorrência de homicídios considerados fúteis, que grande parte dos atos envolve indivíduos com perfis semelhantes. “A maioria dos casos acontece entre jovens com no máximo 30 anos e que têm uma posição de instabilidade econômica”, conta o pesquisador Renan Theodoro de Oliveira.

De acordo com ele, nos casos observados também é possível notar a ausência de mediadores para ajudar a resolver os conflitos, além da sensação de desconfiança em interlocutores disponíveis.

“Não me refiro somente à força policial. Por exemplo, há casos em que a mulher é ofendida por um desconhecido ao passar em um determinado lugar. A quem se deve recorrer nesta hora? O indivíduo não encontra amparo. Logo, alguém que esteja ao lado desta mulher pode tirar satisfações, o que pode iniciar uma briga, uma situação que pode se agravar.”

Para os especialistas, a presença do homem na maioria dos episódios violentos também pode ser explicada pelo processo de educação atual, que ainda incentiva a figura masculina a ser protetora e ao mesmo tempo temida na sociedade.

O psiquiatra Vicente de Mello diz que isso retoma a evolução humana: “O homem tinha maior necessidade de desempenho físico e potencial agressivo para atacar, se defender e defender a prole nos ambientes naturais. Portanto suas estruturas, física e psicológica, foram mais adaptadas para maior agressividade. Já a idade está proporcionalmente ligada ao vigor físico e mental da juventude e a instabilidade econômica determina o estresse que desencadeia maior ativação dos sistemas ligados à sobrevivência”.

“Somente” dois socos

“Não sabia como ele tinha ficado”, disse o personal trainer Vinícius Moreira ao ser preso pela morte de Henri Seraphini.

O fisiculturista chegou a postar uma foto nas redes sociais com a mão fechada e arranhada, após a briga que deixou o promotor de eventos em coma. A legenda era: “depois do rolê”.

À polícia, o agressor disse que havia dado “somente” dois socos na vítima. Mas a família afirma que Seraphini foi brutalmente espancado. Amiga da vítima, Claudia Guedes fala sobre a personalidade pacífica do promotor.

“Henri jamais mataria uma mosca. Você não vê no vídeo em momento algum ele revidando. Henri simplesmente sai. Nosso amigo não é apenas mais um nas estatísticas. Foi uma morte, mas várias pessoas foram junto com ele. O impacto não é só na vida de parentes e amigos. É na vida das pessoas que ele ajudava também. Tantas pessoas desmontaram com a morte dele. Várias pessoas contavam com ele. Esse monstro [o agressor] vai responder apenas por uma vida, mas várias vidas foram afetadas com a perda do Henri.”

A arquiteta conta ainda que Seraphini era profissional de tecnologia e começou a trabalhar com festas recentemente, após ficar desempregado. Ele morava com a mãe de 66 anos e era responsável pelo sustento da casa. “A família da irmã é de outra cidade e para piorar a sobrinha foi internada. Ela está no hospital com a filha. A mãe ficou sozinha. Como vai ser agora? Como a gente faz com a vida que ficou?”

“A gente não consegue entender como ele foi embora. Henri era uma pessoa iluminada, solidário, da paz. Nunca se envolvia em confusão. Gostava de ajudar os outros.”

Foragidos

No Rio, a Justiça decretou a prisão preventiva dos quatro homens envolvidos na morte do turista argentino. Um deles já foi preso: Pedro Henrique Marciano, o PH, 25. Ele foi encontrado em uma casa na favela da Coreia, em Senador Camará, na zona oeste da cidade. Os outros continuam foragidos.

No mesmo dia das agressões, Walterson Cantuária, ex-integrante do grupo de pagode Karametade, pegou um voo para Madri, na Espanha. A Interpol foi acionada.

Em entrevista ao “Fantástico”, da TV Globo, a mãe do jovem argentino, Monica, pediu justiça. “Não gostaria que ficassem livres, tendo uma vida que meu filho não pode ter. Eles podem comer, passear, ter namorada, e meu filho não pode mais.”

Segundo a família, ele era fascinado por futebol. Herdou a paixão do pai e do tio, que foram jogadores. Começou a dar seus primeiros chutes aos cinco anos de idade. O jovem estava há três meses em um novo clube da Argentina, mas a carreira foi interrompida. Por quatro brasileiros.

Para o antropólogo Bernardo Conde, a sociedade vive um momento de impor padrões e posturas. “Perdemos a capacidade de se colocar no lugar do outro, de respeitar as diferenças. Temos mais informações, mas isso não significa que temos mais educação.”

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