Bicha! A homofobia no futebol como legado da Copa

Importada tardiamente pelas arquibancadas brasileiras, piada sem graça expõe preconceito que afeta quem joga e quem torce, mas que, aos poucos, vai sendo enfrentado por clubes e torcidas

POR BRENO FRANÇA*

Edição: Murilo Basso

Ilustrações: Fransuel Nascimento

O atacante recebe a bola, dribla o zagueiro e chuta pra fora. Junto com a decepção do não-gol, torcedores baixam a cabeça antecipando o que está por vir. O goleiro adversário pega a bola na linha de fundo e se prepara para cobrar o tiro de meta. Nessa hora, o lance mais sem graça do futebol vira piada sem graça. O coro entoado pelo estádio inteiro começa “ôôôô” e, no exato momento em que o adversário toca na bola, segue o grito de “bicha!”. Catarse coletiva que ganhou popularidade após a Copa do Mundo no Brasil, mas que remete ao contexto social que vivemos e, mais, ao ambiente homofóbico que permeia o futebol desde… sempre?

Um passe errado de Willians para Rodriguinho e o São Paulo recupera a bola já no campo de ataque. Chávez toca para Thiago Mendes, que carrega a bola enquanto a zaga corintiana, desprotegida, recua. Um toque de lado e ele encontra Kelvin aberto pela esquerda. O atacante domina com o pé esquerdo, passa o pé direito sobre a bola e puxa novamente pra esquerda, invadindo a área e preparando o chute. Na marcação, Fágner tenta travar, mas a bola passa no meio de suas pernas, cruza a pequena área e sai à direita do gol defendido por Cássio na noite daquele sábado, 5 de novembro de 2016, no clássico majestoso disputado no estádio do Morumbi pela 33ª rodada do Campeonato Brasileiro.

Só há torcida mandante, como em todos os outros clássicos disputados em São Paulo desde 4 de abril de 2016. Na ocasião, Alexandre de Moraes, secretário de Segurança Pública do Estado à época, anunciou a decisão após reunião com representantes do Ministério Público e da Federação Paulista de Futebol. As autoridades acharam que a medida poderia evitar conflitos entre torcedores, como os que ocorreram na véspera da decisão em diversos locais da capital paulista entre organizadas de Palmeiras e Corinthians. O principal deles deixou dezenas de feridos e provocou a morte do transeunte José Sinval Batista de Carvalho, 53, na Praça Padre Aleixo Monteiro Mafra, em São Miguel Paulista, na Zona Leste de São Paulo. Um acidente fatal motivado por confrontos marcados cinco horas antes da partida e a 30 km de distância do estádio do Pacaembu, na Zona Oeste de São Paulo.

O raciocínio é o mesmo que vem sendo reproduzido pouco a pouco desde 1995. Veio a proibição dos apitos, das baterias, das bandeiras, das faixas, da cerveja com álcool, dos sinalizadores, dos ambulantes, até a proibição dos próprios torcedores de irem ao estádio. Mudou tudo ao redor do problema exceto, claro, a causa do problema. Sem saber como controlar, o Estado simplesmente proíbe, caminhando na contramão dos exemplos históricos e entrando em rota de colisão com as torcidas organizadas.

Alheio a tudo isso, Cássio procura por outra bola atrás de seu gol desejando somente mandá-la o mais longe possível de suas traves. Das arquibancadas, ainda em uma tentativa de liberar a tensão acumulada pelo quase gol, começa a emanar um coro que é preenchido com o grito, a plenos pulmões, tão logo o adversário toca na bola: “Ôôôô, bichaaa!” O torcedor atrás de mim chega a tossir tamanho ódio impregnado na sua fala e provavelmente vai deixar o estádio já sem voz. Enquanto isso, uma outra porção de torcedores se esconde na mesma arquibancada já sem a própria voz, ainda que suas cordas vocais estejam intactas. Eles se comportam quase como se fossem adversários infiltrados na multidão apenas resistindo calados pelo direito de assistir ao jogo de futebol do seu próprio time. Eles se calam, se frustram e se lembram a cada finalização errada que o futebol não é um espaço feito para homossexuais.

Memória que Rafael Grohmann, 28, torcedor do São Paulo desde 1993, que acompanhei na partida vencida pela equipe tricolor por 4 a 0, não se esquece. Acostumado a ver títulos do São Paulo nas últimas décadas, Rafael é um exemplar raro do filho que não seguiu o time do pai, nem da mãe, nem de ninguém próximo da família. Escolheu a equipe por influência de amigos na escola e, claro, pelo desempenho do time em campo.

Apesar de frustrações como a derrota do São Paulo para o Cruzeiro na final da Copa do Brasil de 2000 — título que permanece inédito para o tricolor –, ele seguiu firme vendo gerações após gerações conquistarem Paulistas, Brasileiros, Libertadores e Mundiais. A maioria das conquistas, porém, Rafael assistiu longe dos estádios de futebol. Mesmo depois de se mudar para a capital, o Morumbi só foi visitado duas ou três vezes por ano. Culpa da falta de tempo, da dificuldade de acesso e, talvez, da orientação sexual?

“No meu caso, o fato de eu ser homossexual não influencia na minha experiência com o futebol. Mas isso tem mais a ver comigo do que com uma estrutura geral. É lógico que rola um estranhamento, porque as pessoas estão acostumadas a ver o esporte como uma parte do universo hétero. No meu caso, às vezes, sou lido como hétero, embora não faça questão disso. Em um país que mata muitos LGBTs, sou mais a exceção do que a regra de alguém que é homossexual e gosta de futebol. Ainda mais se for são-paulino, com toda a carga de piada homofóbica”

(Rafael Grohmann, torcedor são paulino)

A ressalva de Rafael faz-se justa. Nos mais diversos estados brasileiros, torcedores que consideram a homossexualidade um problema ou uma vergonha usam esse recurso para desqualificar seus adversários. Bem como os cruzeirenses em Minas Gerais e os gremistas no Rio Grande do Sul, os tricolores do Rio de Janeiro e de São Paulo são associados pejorativamente aos gays em seus estados e se acostumaram a ouvir toda espécie de gritos, cânticos e xingamentos fazendo menção ao estigma. O fenômeno do grito de bicha nos tiros de meta que incomoda tantas pessoas como Rafael, porém, veio para provar que o recurso não é exclusividade desta ou daquela torcida, mas de praticamente todas.

Legado da Copa

Dizer que a Copa do Mundo não nos trouxe legado algum é ignorar que o tal grito se popularizou após a participação dos mexicanos no Mundial disputado no Brasil em 2014. Quando eles vieram aos nossos estádios e puxaram o grito de “puto!” nos tiros de meta, os brasileiros ouviram, gostaram e acharam que seria uma boa ideia passar a ofender o goleiro rival em um dos momentos mais sem graça dentro das quatro linhas. Assim, surgiu a adaptação brasileira que ganhou cada vez mais espaço país afora.

Relatos semelhantes nos remetem ao simpático estádio do Juventus da Mooca, na famosa Rua Javari. Se o pequeno clube paulistano se destaca por ser um dos redutos mais tradicionais do futebol na enorme cidade de São Paulo, é de lá também que vem a primeira história de um canto parecido com o dos mexicanos. Testemunhas afirmam que nas acanhadas arquibancadas do estádio já se escuta há alguns anos a derivação “Ôôôô, filho da puta!” na hora que um arqueiro rival caminha na pequena área rumo à reposição de bola.

Depois de ser criada coletivamente nos estádios da Copa, foi rapidamente adotado pela torcida do Corinthians acostumada às ofensas aos são-paulinos, sobretudo ao ídolo tricolor Rogério Ceni. Dessa forma, a adaptação caiu como uma luva para aqueles que desejavam ofender o goleiro que, entre faltas e pênaltis, balançou as redes três vezes contra o Corinthians, incluindo o centésimo de sua contagem pessoal.

Mas assim como os torcedores do Corinthians interessados em provocar o atual técnico tricolor, tantas outras torcidas que reproduzem o gesto se apoiaram no argumento de que esses xingamentos não são formas de preconceito, apenas uma forma de distrair ou desestabilizar os adversários. Quem conviveu com essa situação do lado de dentro do campo, como o ex-jogador e atual comentarista dos canais ESPN, Alex, afirma, porém, que esse argumento pode ser apenas uma muleta, já que o impacto sobre os jogadores dentro de campo pode ser relativizado.

“Sinceramente, [acho que esse tipo de grito] não [pode realmente desestabilizar um adversário] porque culturalmente nós criamos, no Brasil, uma razão de que você pode ir ao estádio e pode falar o que você quiser. Você pode xingar o teu adversário. Você pode xingar o teu treinador. Você pode xingar o teu jogador. Você pode xingar o teu companheiro que tá ali do teu lado… O estádio de futebol é um divã onde você não necessariamente precisa ir ao psicólogo. Isso culturalmente foi criado. Eu particularmente não gosto disso. Acho incorreto. E acho que existem várias [outras] formas de torcer”

(Alex, comentarista e ex-jogador de futebol)

O ídolo de clubes como Cruzeiro e Coritiba, porém, não credita aos gritos que vêm da arquibancada uma forma de preconceito. Apesar de não negar a existência da homofobia no futebol e defender até que algo seja feito a respeito para proteger as pessoas, Alex usa seu próprio exemplo para explicar como lidava com a situação de ser xingado pelas torcidas adversárias:

“Criou-se o hábito, por exemplo, de chamar alguém de viado e geralmente esse cara era o craque do time adversário. Era o cara que mexia com a torcida. E não necessariamente isso era um preconceito. Era uma forma das pessoas se soltarem na arquibancada. No meu caso, eu vi, ouvi, vivi e dava risada. Sinceramente não me preocupo muito com isso. Tenho vários amigos homossexuais e eles também fazem várias brincadeiras nesse sentido, então não consigo carregar muito isso. O problema é que vivemos em um universo onde a relação humana está com a paciência cada vez mais curta, então, normalmente as pessoas buscam que essa paciência curtinha fique cada vez menor. Mas, sinceramente, vivi, ouvi e dava risada e enfrentava isso de uma maneira bem tranquila”, diz o jogador.

 “Criou-se o hábito, por exemplo, de chamar alguém de viado”, diz Alex. Foto: Divulgação.

O problema apontado na fala de Alex é justamente o ponto crucial da questão. Por não se sentirem ofendidos e não imaginarem a dor do outro, torcedores reproduzem a visão de que chamar um adversário de bicha é algo pejorativo. Algo que corrobora a visão homofóbica que, em outros níveis de violência, mata e expulsa homossexuais do ambiente do futebol. Esse pensamento está na origem de gritos como o que a própria torcida do São Paulo entoava antes, durante e depois dos 90 minutos de futebol naquela noite fria no Morumbi. Como quem brinca de batata quente, os são paulinos eufóricos pela goleada de 4 a 0 sobre o rival, tentavam colar o estigma de homossexual aos adversários da noite, usando exemplos recentes de jogadores corintianos. A canção-são paulina repetida quatro ou cinco vezes é inspiração de um outro cântico latino popularizado também durante a própria Copa do Mundo, dessa vez, pelos argentinos. E diz:

“Gambá, me diz como se sente
Por que você gosta de beijar?
Ronaldo saiu com dois travecos
O Sheik selinho ele foi dar
Vampeta posou pra G
Dinei desmunhecou
Na Fazenda de calcinha ele dançou
Não adianta argumentar
Todo mundo já falou
Que o gavião virou um beija-flor”.

As referências são a situações em que jogadores identificados com o Corinthians tiveram suas orientações sexuais colocadas em dúvida, pelo menos na opinião de quem criou tais cantos. A torcida do Corinthians, por sua vez, não deixou barato e cobrou explicações dos jogadores, alguns dos quais, decidiram por ou tiveram que pedir desculpas.

A tal cobrança da torcida é algo comum entre grandes clubes brasileiros. Em uma das ocasiões mais recentes, torcedores do Palmeiras protagonizaram um momento marcante dessa relação da homofobia com o futebol. Diante do interesse na contratação de Richarlysson, talvez o jogador que mais sofreu com piadas homofóbicas no Brasil até hoje, houve protesto em frente ao Centro de Treinamento do clube. Uma faixa dizia: “A homofobia veste verde”. Mas eles estavam errados. A homofobia, na verdade, está em todas as cores, de todos os times.

Assumir a homossexualidade se revelou devastador para a carreira de Justin Fashanu. Ilustração: Fransuel Nascimento.

Preconceito global

Para entender a dimensão do problema e também para acabar com qualquer complexo de vira-lata é preciso olhar além para fora do próprio círculo. As inspirações oriundas de outros países latinos já dão indícios de que manifestações homofóbicas se estendem por todo o nosso continente. Argentina, México, Brasil foram exemplos já citados, mas o preconceito não é uma exclusividade nossa e atravessa até o oceano.

Na Europa, casos como o dos torcedores do Zenit incluem o velho continente nesse trágico mapa. Em 2012, um manifesto pedia ao clube para não contratar mais jogadores negros nem homossexuais, já que estes “não faziam parte da identidade e da tradição do clube”. Porém, o caso recente mais grave dá conta do ataque por parte de um grupo de neonazistas a Showan Ebadi, um torcedor do Malmö, da Suécia, conhecido por seu ativismo gay no futebol, que terminou espancado, esfaqueado e internado em estado grave.

Showan participa do grupo de nome autoexplicativo “Torcedores Contra a Homofobia”, apenas uma das diversas iniciativas de que se tem notícia na Europa para combater o problema. Se os casos de homofobia se repetem tanto lá quanto aqui, ao menos na Europa o movimento contrário que pretende erradicar a homofobia do esporte parece estar mais avançado.

A jornada começou com contornos trágicos em 1990. Na época, o jogador inglês Justin Fashanu assumiu, em entrevista ao jornal The Sun, ser homossexual. A declaração rendeu uma manchete de capa que dizia: “Estrela do futebol de 1 milhão de libras: ‘Sou gay’.”. Mas sair do armário se revelou devastador na vida de Justin. Alguns ex-companheiros chegaram a afirmar que os gays não tinham espaço em um esporte coletivo e, apesar de ter sido bem recebido pelos colegas de time da época, o jogador admitiu mais tarde que eles frequentemente faziam piadas maliciosas sobre o assunto.

O que se sabe é que a carreira de Fashanu definhou pouco a pouco. Dali em diante, ele passou por nove equipes diferentes de baixíssima expressão em um período de cinco anos após sua declaração e foi perseguido em maior ou menor grau em todas elas, até que decidiu sair definitivamente da Europa. Defendeu brevemente, então, o Adelaide City, na Austrália, até se transferir para o Miramar Rangers, da Nova Zelândia. Dois anos depois de começar sua passagem pela Oceania, encerrou a carreira no Atlanta Ruckus, da segunda divisão dos Estados Unidos, em 1997.

Meses depois, em março de 1998, Justin, já aposentado, foi acusado de abuso sexual por um jovem de 17 anos. O ex-atacante chegou a ser interrogado pela polícia, mas nada foi provado contra ele. Mesmo assim, decidiu se mudar novamente para a Inglaterra, até que em 3 de maio do mesmo ano, Fashanu foi encontrado enforcado ao lado de uma carta de suicídio onde dizia:

“Eu percebi que já havia sido condenado e não quero mais ser uma vergonha para meus amigos e parentes. Quero dizer que não abusei sexualmente do garoto. Ele transou comigo e no dia seguinte pediu dinheiro. Quando eu disse ‘não’, ele disse ‘você espera pra ver’. Agora, eu espero que Jesus, que eu amo, me acolha e que assim eu, finalmente, encontre a paz.”

“Não quero ser mais uma vergonha para meus amigos e parentes”, escreveu Fashanu em sua carta de suicídio.

Mas se Fashanu chegou a afirmar que esperava, com sua declaração, incentivar outros jogadores a tomar a mesma atitude, ele provavelmente ajudou a acabar com sua própria vida em vão. Desde 1990, nenhum outro atleta das divisões de elite do futebol europeu assumiu a homossexualidade publicamente enquanto estava em atividade como Fashanu fez. O alemão Thomas Hitzlperger foi quem mais se aproximou de tamanha coragem — ele, porém, só assumiu sua orientação sexual em 2014 após a aposentadoria.

De qualquer forma, ambos os jogadores contribuíram para a causa de diferentes formas. Mesmo de épocas distintas, os dois estão associados à principal medida adotada na Europa em relação ao problema. Enquanto Hitzlperger apoia e divulga ativamente a Football vs Homophobia promovida desde 2010 em diversos países europeus pela ONG Fare Network, Fashanu empresta seu aniversário. Tanto o Dia contra a Homofobia no Esporte quanto o mês para a Ação Internacional contra a Homofobia e Transfobia no Futebol foram escolhidos em alusão a sua data de nascimento: 19 de fevereiro.

Durante o mês, a ONG, com o apoio de diversos grupos independentes de seus respectivos países, promove ações que incluem desde oficinas educativas e mesas redondas, até torneios de futebol temáticos que têm como objetivo enviar uma mensagem unificada de inclusão nos estádios. A iniciativa foi adotada por mais de 20 clubes e diversas ligas do futebol europeu e vem dando tão certo que além de começar a abarcar outros continentes promoveu e ampliou uma série de mudanças já em curso por parte de outros agentes do futebol. Começando pela Alemanha.

Combatendo à homofobia

Sede da criação da rede europeia de clubes LGBT, Queer Football Fan Clubs (QFF), ainda em 2006, o país é palco das principais iniciativas na tentativa de erradicar a homofobia do futebol. Pelo próprio histórico nacional, a Associação Alemã de Futebol é uma das federações mais preocupadas com a proliferação dos insultos racistas, machistas, homofóbicos e xenófobos nos estádios. Professor, antropólogo e principal especialista brasileiro quanto à diversidade de gênero no esporte, Wagner Camargo teve uma experiência in loco na Alemanha e pôde observar não só o impacto direto deste trabalho, como os resultados adjacentes:

“A primeira coisa é que a federação nacional de futebol da Alemanha se envolveu no assunto. Apesar de também ter um histórico machista, ela se envolveu em uma questão político-ideológica de combate ao racismo, ao preconceito e mais especificamente à homofobia. Penso que, aqui no Brasil, seria mais ou menos o papel da CBF fazer algo e isso obviamente se espalharia para outros esportes. É o que tem acontecido na Alemanha e em alguns outros países europeus principalmente os centro-ocidentais como Espanha, França, Inglaterra; e também nos países nórdicos”

(Wagner Camargo, antropólogo)

Dentre as iniciativas práticas da entidade máxima do futebol alemão destaca-se uma cartilha produzida por ela mesma e distribuída entre jogadores, treinadores e dirigentes dos clubes que visava dar o apoio necessário para que os indivíduos pudessem assumir sua orientação sexual publicamente, dando mais suporte e segurança a estes enquanto ensinava os demais a lidar da melhor forma possível com a questão. Na época da formulação do documento, o sociólogo Gerd Dembowski, da Universidade de Hannover e consultor da Federação Alemã, chegou a declarar: “O guia será para os jogadores, para dirigentes e técnicos também. É para mostrar como eles podem sair do armário e como agir com a pressão da mídia. Mas mais do que os jogadores, é para ajudar os dirigentes e técnicos sobre o que eles devem falar e que mensagem devem passar. Acredito que estamos perto de ter mais jogadores assumindo sua homossexualidade”.

A cartilha fazia coro à declaração do goleiro Manuel Neuer que incentivava companheiros a se assumirem desde 2006. Titular do Bayern de Munique e da seleção alemã, Neuer apostou que os torcedores se acostumariam rapidamente com a questão, pois acreditava que “o mais importante é o rendimento em campo dos jogadores, não suas preferências sexuais.” No entanto, a corrente de otimismo liderada pela Federação Alemã teve um choque de realidade após declaração do lateral Phillip Lahm. Colega de time de Neuer e capitão da seleção nacional, Lahm afirmou que “para aquele que o fizer [assumir a homossexualidade], as coisas ficarão muito difíceis. Um jogador conhecido por sua homossexualidade vai acabar se expondo a uma série de comentários depreciativos”.

Apesar de breve, a declaração foi suficiente para causar polêmica. Tanto Neuer quanto Lahm não só tiveram sua orientação sexual colocada em dúvida, como passaram a ser perseguidos com insultos homofóbicos e viram a própria federação alemã sofrer críticas de lideranças e organizações internacionais gays que classificaram a cartilha como um medida “fria demais e pouco humana”.

Hoje, podemos afirmar que a meta traçada a partir da cartilha não foi cumprida. Os líderes da campanha esperavam que em até cinco anos (até 2016), a homossexualidade não seria mais um tabu na Alemanha e teríamos vários jogadores assumidamente gays jogando a Bundesliga, fato que, como sabemos, não aconteceu. Entretanto, após tomar conhecimento da enorme dificuldade de reverter esse quadro, outras iniciativas seguiram sendo tomadas inclusive por entidades independentes e não-oficiais.

“Outra coisa efetiva é que a sociedade civil não fica de braços cruzados lá, como ficamos aqui. A sociedade civil se organiza e não é só através de ONGs. Pessoas se reúnem para proporcionar a prática de esportes para todos, atividades inclusivas para pessoas com deficiência, campeonatos de gêneros divergentes do heteronormativo, etc… Eu mesmo participei de várias dessas campanhas em Berlim. Me lembro da “Berlin for all” e da “Coming out Cup” que seria algo como “Copa fora do armário”. Ali, pessoas iam jogar futebol independentemente de suas orientações sexuais. A gente encontrava lésbicas, gays, punks, pessoas que se designavam transgênero e todo mundo passava uma tarde de domingo ou de sábado fazendo uma atividade física”, diz Wagner.

Sustentada por esse ativismo social, a demanda pública por igualdade no futebol seguiu resistindo às pressões e encontrando seu espaço, como é o caso do St. Pauli. Conhecido por ser um clube com causa, o clube centenário da cidade de Hamburgo que atualmente disputa a segunda divisão alemã foi o primeiro no mundo a eleger um homossexual assumido como presidente. A equipe se destaca por promover uma série de ações que combatem às diversas manifestações preconceituosas no futebol. Com a homofobia, não foi diferente.

St. Pauli se tornou símbolo da luta contra a homofobia. Foto: Divulgação

Além de já ter promovido junto aos seus torcedores uma série de ações na arquibancada com bexigas, faixas e cartazes coloridos que diziam entre outras coisas “Futebol é tudo, até gay”, o clube decidiu hastear permanentemente uma bandeira do arco-íris em seu estádio como um símbolo da luta contra a homofobia e disputou a última temporada inteira com um uniforme em alusão à causa, a exemplo do que os espanhóis Rayo Vallecano e Guadalajara já haviam feito. Os dois últimos, apesar de destinarem parte do dinheiro da venda das camisas às organizações que combatem ao preconceito, não fizeram deste o seu uniforme principal como fez o clube alemão.

Mas se St. Pauli, Rayo Vallecano e o modesto Guadalajara não são equipes de impacto global suficiente, o que dizer então dos ingleses Arsenal e Chelsea?

Eliminando preconceitos

Sediados na mesma cidade de Londres, as equipes rivais compartilharam um princípio: apoiar a criação de suas próprias torcidas organizadas LGBTs. Os blues anunciaram a criação de seu primeiro grupo de torcedores homossexuais em fevereiro de 2016. Desde então, o clube londrino tem ajudado Ed Connel, presidente da Gay Football Supporters Network e sócio do Chelsea, na criação da torcida. Com mais de 12 anos de ativismo na causa, Connel declarou-se profundamente orgulhoso com o posicionamento do clube e afirmou que essa medida faria com que torcedores gays se sentissem “verdadeiramente bem vindos na equipe que torcem”.

A mesma ideia fundamentou a criação da Gay Gooners três anos antes. A torcida LGBT do Arsenal reuniu nos primeiros oito meses cerca de 100 adeptos e animou o criador Stewart Selby. Ele reconheceu, na ocasião, que a homofobia é um problema geral do esporte, mas afirmou que se sentia um privilegiado por participar de um importante passo para banir esta forma de preconceito, ao menos do futebol, “a exemplo do que estamos fazendo com o racismo”.

Pouco a pouco, os torcedores gays do Arsenal foram ganhando apoio até que o clube reconheceu sua existência e autorizou a instalação da bandeira do grupo no tradicional Emirates Stadium. É que na Inglaterra as bandeiras de torcidas organizadas são permitidas desde que haja autorização prévia dos clubes. Lá, a homofobia dentro dos estádios é reprimida com medidas duras. Enquanto jogadores podem ser punidos com cartões e advertências mais severas, torcedores que fizerem manifestações homofóbicas, a exemplo das racistas, podem ser banidos dos estádios ou até presos. Por esse motivo, não se ouve com frequência xingamentos dessa natureza e a tolerância à diversidade vem se expandindo pouco a pouco.

Torcedores do Arsenal adquiriram reconhecimento do clube. Foto: Divulgação.

O criador da Gay Gooners testemunhou tal mudança e se animou, à época, quando soube que, no Brasil, um time da dimensão do Corinthians também tinha passado a contar com sua própria torcida organizada gay.

O que Selby não sabia é que a história no Brasil não era em nada semelhante a da Inglaterra. A torcida organizada gay do Corinthians a qual ele se referia se tratava da Gaivotas Fiéis. Criada ainda em 2013, a mobilização começou em tom de revolta depois que o criador Felipeh Campos teve o namorado agredido por um grupo de torcedores enquanto caminhava na Avenida Paulista, em São Paulo. Insatisfeito com o rumo do caso na justiça, eles também não queriam virar apenas mais um caso sem desfecho noticiado na mídia, foi então que resolveu chamar a atenção para a intolerância aos homossexuais que existe no meio do futebol fundando a torcida.

Mas Felipeh não esperava que sua iniciativa fosse chamar tanta atenção. A Gaivotas Fiéis recebeu mais de 500 mil pedidos de adesão, despertou o interesse de investidores e houve até pessoas dispostas a fundar braços da torcida em outras parte do país. A repercussão, porém, gerou mais violência e depois de receber diversas ameaças de morte, Felipeh se viu obrigado a abandonar a torcida, pelo menos enquanto não há uma mudança significativa na mentalidade das pessoas.

“Isso tudo começou como um ato de rebeldia muito forte. Foi uma questão colocada para que todo mundo parasse para prestar atenção, mas eu não sabia que isso ia tomar a proporção que tomou. Pensei, daria uma notinha aqui outra ali e tudo bem, mas no final aconteceu o que aconteceu, tanto que você está me ligando hoje, três anos depois, para conversarmos sobre essa história. Na época, muita gente queria investir. Tive reuniões onde tentamos montar uma associação, me procuraram de Manaus para tentar montar um braço da torcida, mas comecei a receber muitas ameaças. Foi uma história que acabou ficando bem perigosa. Então recuei, porque pensei ‘deve ter louco pra tudo’ e achei melhor manter uma posição do tipo ‘fui eu que comecei essa história, ok, beleza, mas daqui pra frente, quando todo mundo tiver uma consciência maior ou melhor, a gente continua. Se não a gente para por aqui’”

(Felipeh Campos, torcedor)

A ideia de Felipeh, contudo, não era inédita. E se a Gaivotas Fiéis não teve tanto sucesso, o mesmo não se pode dizer da verdadeira primeira torcida organizada gay do país. Ainda na década de 1970, torcedores do Grêmio que frequentavam a boate LGBT ‘Coliseu’, na Avenida João Pessoa, em Porto Alegre, acharam por bem se reunir para frequentar o estádio e apoiar o time juntos. Foi quando decidiram criar a Coligay.

Os cerca de 90 membros da organizada não pediram licença para entrar no estádio, até porque a imensa maioria já o frequentava individualmente e pouco tempo depois lá estavam eles usando do deboche e da animação para empurrar o Grêmio. Eles abusavam das faixas e fantasias, mas acima de tudo levavam energia e animação ininterruptas capazes de abafar outras torcidas tricolores mais tradicionais da época. Em um período onde apoiar o time do começo ao fim era fato raro, a Coligay encontrou espaço para resistir às manifestações contrárias a sua existência e ser reconhecida por todos. Um fenômeno brasileiro ainda mais se considerarmos que o Brasil de 1977, ano da fundação, vivia em plena ditadura militar. É o que explica Leo Gerchmann, gremista, jornalista e autor do livro “Coligay — Tricolor e de todas as cores”:

“Eles conseguiram driblar a ditadura porque eles tinham por regra não se envolver em confusão. Então os caras ficavam de olho neles, mas nunca conseguiam motivo para fazer qualquer coisa. Se alguém da Coligay se envolvia em briga era imediatamente expulso da torcida. Então simplesmente não tinha discurso para pegá-los. O Volmar [mentor da torcida] é um cara muito inteligente e conseguiu conduzir isso muito bem. A Coligay conseguiu contornar e enfrentar com inteligência um período de repressão política e de costumes”

(Leo Gerchmann, jornalista)

O exemplo da Coligay acabou inspirando torcedores de outros times a começarem seus próprios movimentos. Emergiram e sucumbiram com a mesma velocidade torcidas como a Flugay, do Fluminense, a Raposões Independentes, do Cruzeiro, e a Flagay, do Flamengo, mas nenhuma delas contou com a irreverência, o apoio e, por que não dizer, a sorte da Coligay. Nas palavras do criador e presidente da torcida organizada, Volmar Santos, “a torcida era pé quente”. Se não se negavam a apoiar o time durante os 90 minutos, os torcedores gays se destacaram justamente em um período de sete anos no qual o time tricolor saiu da fila e conquistou os estaduais de 1979 e 1980, o brasileiro de 1981, além da Libertadores e do Mundial de 1983.

A fama foi tão longe que o supersticioso presidente do Corinthians, Vicente Matheus, pediu o apoio dos gremistas para também acabar com a fila do time do Parque São Jorge, em 1977. Na final do Campeonato Paulista contra a Ponte Preta, às vésperas de completar 23 anos sem títulos, cerca de 20 torcedores tiveram transporte pago pelo Corinthians para ir de Porto Alegre à São Paulo.

“O fato é que o Vicente Matheus telefonou para o Volmar e ele não entendeu nada. Era o Vicente telefonando pra perguntar pro Volmar: vocês vêm? Em 1977, o Grêmio armou um time muito bom, era um belo time, eles conseguiram superar o Inter que era um time absurdo de bom. Se tu falar com qualquer pessoa que viveu o futebol na década de 1970, ela vai te dizer que aquele Inter era um dos maiores times da história do futebol brasileiro, um timaço que foi tricampeão brasileiro: 1975, 1976 e 1979. Mas aí o Telê Santana, técnico do Grêmio na época, armou o time que derrotou o Inter e retomou a hegemonia do futebol gaúcho. A partir dali o Grêmio ganhou grandes títulos: foi Campeão Brasileiro em 1981, vice em 1982, ganhou a Libertadores em 1983 e depois foi Campeão do Mundo. E a Coligay foi justamente de 1977 a 1983. Então parece que eles cumpriram uma missão mesmo. Foram realmente uma torcida pé quente”, diz Leo.

40 anos depois, nossos estádios mudaram, nossas torcidas mudaram, mas nada disso foi capaz de mudar a condição extremamente hostil aos homossexuais dentro e fora do campo de jogo. As iniciativas de combate ao preconceito, porém, seguem aparecendo.

Novas iniciativas

Além da Gaivotas Fiéis, pelo menos uma dezena de coletivos surgiram nos últimos anos, trata-se de um movimento ainda incipiente que tem buscado combater todas as formas de preconceito nos estádios. No caso mais recente, torcedores e torcedoras palmeirenses organizados em movimentos como o Porcomunas, o Palmeiras Livre, o Palmeiras Antifascista e o Movimento 20–9 foram responsáveis por um dos avanços recentes mais sensíveis na questão. Incomodados com o grito homofóbico entoado nos tiros de meta, deflagaram uma campanha que propunha a substituição dos gritos de “Bicha!” pelos gritos de “Porco!”.

A iniciativa ganhou força nas redes sociais, mas saiu do papel mesmo após uma conversa com representantes da Mancha Alviverde, principal organizada do Palmeiras. Juntos, os coletivos foram responsáveis por erradicar tal manifestação das partidas no Allianz Parque enquanto criavam mais uma forma de empurrar o time rumo à conquista do título do Campeonato Brasileiro depois de 22 anos.

“Recentemente, na junção de várias torcidas amigas do Palmeiras, a galera conseguiu se reunir com o pessoal da Mancha o que acabou abolindo o grito de ‘bicha’ na cobrança de tiro de meta dos goleiros adversários dentro do Allianz. E acho que essa é uma das partes mais importantes das conquistas das torcidas progressistas e a gente deixa muito claro que não foi o coletivo da Palmeiras Livre sozinho que teve essa conquista. Mas a Palmeiras Antifascista, Porcomunas, uma galera que tem um contato maior dentro da Mancha e conseguiu explicar e reverter esse grito homofóbico importado do México”

(Thaís Nozue, membro do coletivo Palmeiras Livre)

Iniciativa propôs substituição do grito “Bicha” por incentivos ao Palmeiras. Foto: Reprodução.

A iniciativa dos palmeirenses dialoga com a nova postura da entidade máxima do futebol. Se a FIFA, agora presidida pelo ítalo-suíço Gianni Infantino, conviveu com as críticas por conta de seus casos de corrupção, falta de transparência, conservadorismo, declarações polêmicas e omissões em diversas questões que exigiam posicionamento, muito recentemente resolveu ela mesma punir seleções que tenham protagonizado comportamentos homofóbicos por parte de sua torcida.

Desde a entrada em vigor da medida nos jogos desse ano das eliminatórias para a Copa do Mundo da Rússia 2018, mais de uma dezena de países já foram punidos. Estão na listinha da vergonha Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai, Peru, El Salvador, Honduras, México, Canadá, Itália, Albânia, Kosovo, Croácia, Estônia, Ucrânia e o reincidente Brasil, punido por contar com torcedores entoando cantos homofóbicos em partidas sem torcidas organizadas e longe de grandes centros, como a disputada contra a Colômbia em Manaus. Mais um sinal de que a cultura preconceituosa está longe de ser uma prerrogativa apenas das organizadas do centro-sul do país.

A decisão, porém, levantou polêmica e incitou até um movimento reativo por parte da Conmebol pedindo a anulação das multas já que seus dirigentes consideravam que os tais insultos “são parte da cultura do futebol sul-americano e não devem ser interpretados como uma forma de discriminação, pois não passam de mera provocação, como outros gritos e xingamentos corriqueiros na arquibancada.” Mas como quem depende da Conmebol quase sempre quebra a cara, a decisão da FIFA foi mantida e acarretou em multa superior a R$ 150 mil só no caso do Brasil — uma das punições mais brandas dentre os filiados da entidade.

Apesar das reclamações, autoridades e especialistas classificaram a atitude da FIFA como um bom primeiro passo. Se ela ainda é incapaz de criar campanhas como a que faz contra o racismo no futebol, o consenso foi de que ao menos deveria usar sua autoridade para punir seus membros filiados e incitá-los a algum tipo de mudança a favor do fim das opressões.

“A FIFA como órgão diretor, dirigente de uma das modalidades mais praticadas do mundo que é o futebol, precisa ter esse papel. Ela tem que ser esse elemento agregador, fiscalizador, controlador. E ela está em um momento muito sensível onde precisa se mostrar muito transparente e ética, principalmente por causa dos escândalos de corrupção, de envolvimento de seus dirigentes em questões nebulosas. Então vejo essas punições como um reflexo disso, uma tentativa de transparência da FIFA. Elas são acertadas? Creio que sim. São um caminho”

(Wagner Camargo, especialista em diversidade de gênero no esporte)

O especialista ainda ressalta que medida punitivas como essa precisam ser completadas por outras iniciativas para darem conta de uma mudança efetiva na cultura futebolística. “A FIFA está desenvolvendo um papel importante e ela tem que fazer isso para mostrar transparência, seriedade e ética, mas isso vai resolver tudo? Não. Isso vai ser parte da solução. Mesmo que ela continue fazendo isso, as torcidas vão continuar sendo homofóbicas. Sobre isso não tenha dúvida”, diz Wagner.

Tema tabu

Há pouco mais de duas semanas o Rio Claro Futebol Clube decidiu se posicionar. O clube do interior paulista e que está na segunda divisão do estadual local, postou um texto em suas redes sociais trazendo a discussão sobre homofobia nas arquibancadas para os holofotes: o manifesto enfocava os gritos de “bicha” nas cobranças de tiro de meta.

“Encorajamos a todos que se identificam com a causa à comparecerem aos jogos no Estádio Dr. Augusto Schmidt Filho, aqui você não vai ouvir “bixa” quando o goleiro cobrar tiro de meta em tom de ‘ofensa’, aqui, somos todos iguais, todos irmãos”, dizia o texto.

A mensagem vai além da torcida do pequeno clube do interior de São Paulo: graças ao gesto simples do Rio Claro, é possível refletir sobre o tema e fazer com que esta conversa extrapole o mundo online.

E, independentemente da relevância do time, apenas evidencia os receios que o tema traz aos principais personagens do futebol nacional: durante o processo de produção desta reportagem, em torno de três meses, diversos atletas renomados, quando procurados, se recusaram a falar sobre a homofobia no futebol brasileiro, assim como representantes das maiores torcidas organizadas do país.

Letargia brasileira

Mas se as autoridades internacionais têm tomado medidas de combate à homofobia internacionalmente, ainda carecemos de algo feito aqui no Brasil. No caso mais próximo que tivemos disso, dirigentes do Corinthians foram alertados por representantes do Tribunal de Justiça Desportiva de São Paulo que os cantos homofóbicos de sua torcida poderiam gerar punições caso uma denúncia fosse feita por alguém que se sentisse ofendido em uma de suas partidas.

O medo da punição provocou reações e o clube divulgou um manifesto em suas redes sociais onde pedia o fim do grito homofóbico nos tiros de meta. No comunicado, o alvinegro recorre às raízes históricas do clube “pioneiro na inclusão racial e social” no futebol. A partir desse momento, a torcida organizada que ajudou a popularizar tal cultura parou de puxar o canto com medo de ver seu time prejudicado, mas seguiu passiva diante da recorrência espontânea. De lá pra cá, nem mais uma palavra foi dita sobre o assunto por parte do Corinthians que, apesar disso, segue sendo o único clube brasileiro a tomar qualquer atitude nessa direção.

Manifesto do Corinthians pede o fim dos gritos homofóbicos nas arquibancadas. Foto: Reprodução

Não era para menos. No Brasil, nem mesmo o Estatuto do Torcedor, considerado o documento mais completo do país quanto aos direitos dos frequentadores dos estádios de futebol, dedica uma linha sequer à homofobia no futebol. O documento que se manifesta na forma da lei 10.671 foi elaborado em 15 de maio de 2003. Ainda assim, somente em uma revisão feita pelo Congresso Nacional em 27 de julho de 2010, um parágrafo que se dedica aos cantos discriminatórios (sem especificar a homofobia) foi incluído na redação do artigo 13:

“Art. 13-A. São condições de acesso e permanência do torcedor no recinto esportivo, sem prejuízo de outras condições previstas em lei:
[…]
V — não entoar cânticos discriminatórios, racistas ou xenófobos;”

A ausência da citação nominal da homofobia no trecho pode parecer uma questão menor, mas é representativa e sintomática. Segundo um dos maiores especialistas em violência no futebol do país, o professor, sociólogo e autor do livro “Para entender: A violência no futebol”, Maurício Murad, o problema é reflexo de uma condição mais ampla da sociedade brasileira que esbarra inclusive em questões legais em tramitação no Congresso Nacional.

“A intolerância que se manifesta através do preconceito é, infelizmente, estrutural e histórica na formação social brasileira. As manifestações nos estádios de futebol são uma expressão dos preconceitos gerais da sociedade brasileira, como o machismo e o racismo. O racismo, porém, já é considerado crime no Brasil desde 1989 e antes mesmo disso, desde 1951, já era considerado contravenção. A homofobia, no entanto, ainda não é crime no Brasil. Embora haja um projeto de lei tramitando no Congresso Nacional há muito tempo e sem grandes avanços”

(Maurício Murad, sociólogo)

Ciente da falta de perspectiva de mudança na legislação brasileira que criminalize a homofobia, Murad ressalta outros aspectos possíveis e mais acessíveis. Ele revela que apenas 3% dos casos de violência no futebol foram punidos nos últimos anos e levanta a questão da impunidade como um problema fundamental a ser resolvido na tentativa de solucioná-lo, além de indicar o caráter educativo que uma mudança como essa poderia revelar.

“Reduzir drasticamente a impunidade seria fundamental [para resolver o problema], mesmo que não houvesse alteração na lei. Nos últimos três anos somente 3% das transgressões cometidas no universo do futebol brasileiro foram punidas até o fim e aqui se enquadram também as violências e agressões contra homossexuais. Creio que uma mudança na redação do Estatuto do Torcedor poderia ter um efeito de natureza não exatamente jurídica, mas pedagógica, ou seja, poderia contribuir para um processo de reeducação no sentido de combater esse horror, essa violência que é a homofobia”, pondera Murad.

Alinhada com essa perspectiva, uma tentativa mais concreta e aparentemente mais avançada pode ser observada novamente na Europa. Líderes da Federação Estatal LGBT, uma organização governamental espanhola em defesa da causa LGBT, vem lutando há alguns anos pela mudança da lei 19/2007 contra a violência, o racismo, a xenofobia e a intolerância no esporte. Eles desejam que a discriminação por orientação sexual seja incluída na lei para que manifestações dessa espécie passem a ser passíveis de punição, a exemplo do que já ocorre na Inglaterra.

Observando tudo isso ainda que de longe e interessado em qualquer medida que se mostre capaz de tornar o ambiente do futebol mais acolhedor a todos os públicos, o torcedor são paulino que viveu a experiência daquela noite no estádio do Morumbi também faz suas pontuações sobre o assunto. Apesar de ser um dos possíveis alvos da intolerância nos estádios, Rafael Grohmann entende que a questão é mais complexa do que, às vezes, parece. Para ele, individualizar a punição é um erro, dado que se trata de uma questão social maior.

“Não dá para individualizar a homofobia. Essa intolerância aos homossexuais é fruto de uma estrutura maior. Tudo isso faz parte de uma cultura heteronormativa que dita o que seria um comportamento considerado gay, o que seria um comportamento hétero. E essa heteronormatividade acaba colocando como se um gay que gostasse de futebol fosse menos gay do que qualquer outro. Esse comportamento é muito presente, ainda mais se tratando de um esporte como o futebol”, reflete o torcedor são-paulino.

A complexidade da questão vai, portanto, além das relações desiguais de gênero e sexualidade, ela dialoga com preconceitos diversos e integra um grupo mais amplo de pessoas que se aproveitam do ambiente esportivo para reproduzi-los em larga escala.

“Acho que são várias frentes de ações. As punições tem que continuar, o controle das ligas tem que continuar, a mudança na legislação dos clubes e dos campeonatos tem que continuar acontecendo, o Estatuto do Torcedor tem que ser rígido com relação às manifestações desse tipo nas arquibancadas, inclusive criando espaço para outros coletivos que queiram estar nas arquibancadas. Os gays, as lésbicas, ou mesmo os idosos, as mulheres, as feministas, todos esses grupos estão alijados das arquibancadas que são ambientes extremamente masculinistas, machistas, homofóbicos, sexistas e então fica bastante complicado quando aparece alguém que queira torcer e que seja avesso ao que é empregado como expressão hegemônica. Basta chegar um grupo de mulheres com camisetas do tipo ‘somos feministas e gostamos de futebol’ que elas vão sofrer assédio. Basta chegar um grupo com a bandeira do arco-íris, supondo uma provocação, que, se duvidar, eles vão apanhar. E isso falo desde o Hertha Berlim, ao Borussia Dortmund, passando pelo Manchester United até qualquer clube brasileiro de qualquer divisão. Eles vão sofrer forte repressão. Então a questão, pra ser resolvida, não passa por uma ação, mas por várias ações”, diz Wagner Camargo.

Assim, complexa, difícil e incompreensível é a homofobia no futebol. Que ganhou forma criativa após a Copa do Mundo no Brasil, mas que já se manifestava antes no futebol e no espectro maior da sociedade brasileira. Mas se o futebol já se provou tantas outras vezes capaz de dar exemplos positivos, por que não acreditar que é possível dar esse exemplo também? Se o futebol é capaz de se aproveitar da sua simplicidade para reunir pessoas de diferentes idades, raças, nacionalidades, sexos e gêneros em torno do objetivo único em comum de colocar a bola entre duas traves mais vezes do que o adversário, por que não acreditar que seria possível reunir pessoas em torno desse objetivo também?

“Eu, no meu time, gostaria de ter jogadores de futebol comprometidos, de boa qualidade, bons jogadores. E a sexualidade deles não me importa nada, até porque isso é uma escolha pessoal e na frente de qualquer opção sexual basta olhar a qualidade e o comprometimento do jogador”, diz Alex. Tudo isso para que lá no fim, recuperemos a essência de torcer lado a lado unidos pela semelhança talvez única de ter escolhido o mesmo time. Nesse dia o futebol realmente voltará a ser de todos.

* Breno França está no último semestre de graduação em jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), é ex-atleta federado e um torcedor apaixonado. Trocou o litoral pela capital, administrou a Jornalismo Júnior, organizou campeonatos da ECAtlética e presidiu o JUCA. Trabalhou nas revistas Exame PME e VIP, antes de se tornar editor no portal PapodeHomem. Esta é a primeira reportagem a ser publicada entre as selecionadas na chamada pública realizada pelo Puntero Izquierdo em 2016.

https://medium.com/puntero-izquierdo/bicha-a-homofobia-no-futebol-como-legado-da-copa-9cbe4bc18df2#.socjuqqzw

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