Golpe na Fiocruz: Governo Temer nomeia para a presidência candidata derrotada. Será mesmo que a doutora Tania se aliou aos golpistas? A troco de quê?

Nísia Trindade (acima, à esquerda)  teve 59,7% dos votos; Tania Araújo-Jorge (abaixo, à direita), 39,6%

VIOMUNDO

por Conceição Lemes

30 de dezembro de 2016

Fiocruz 2Nísia Trindade (acima, à esquerda)  teve 59,7% dos votos; Tania Araújo-Jorge (abaixo, à direita), 39,6%

Há 25 anos a presidência da Fundação Oswaldo Cruz é escolhida por eleição direta junto a seus trabalhadores, pesquisadores e professores.

De 23 a 25 de novembro, 4.415 servidores  de todas as unidades no Brasil  elegeram a doutora Nísia Trindade, atual vice-presidente de Ensino, Informação e Comunicação, para o mandato 2017-2020.

Houve um comparecimento às urnas de 82,1% da comunidade.

Nísia recebeu 2.556 votos em primeira opção, ou seja, 59,7%.

Em segundo lugar, ficou a doutora Tania Araújo-Jorge, pesquisadora e ex-diretora do Instituto Oswaldo Cruz (IOC). Obteve 1.695 votos em primeira opção (39,6%).

Em 28 de novembro, a comissão eleitoral apresentou o resultado ao Conselho Deliberativo da Fiocruz, que o homologou.

O resultado foi enviado ao ministro da Saúde, o engenheiro Ricardo Barros, que decidiu nomear a candidata derrotada.

É um golpe contra a Fiocruz.

Hoje, às 14h, realizará coletiva de imprensa, para se manifestar sobre a crise institucional que se instalou por conta da possível nomeação da candidata derrotada nas eleições para a presidência da Fiocruz.

Estarão presentes o presidente da Fiocruz, Paulo Gadelha, e diretores de unidades técnico-científicas da fundação.

nisia_principal

Respeite a Democracia na Fiocruz

por Ana Maria Costa, especial para o Viomundo

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) é uma instituição que nos orgulha pela excelência de trabalho nos campos da pesquisa, ensino e tecnologia em saúde.

Há 25 anos a Fiocruz elege seus dirigentes e com isso confere legitimidade e sintonia a um projeto que engrandece e ajuda na soberania do Brasil.

Neste 30 de dezembro de 2016, amanhecemos com a amarga notícia de que o governo ilegítimo, usurpador, golpista, irá nomear a candidata derrotada à presidência da Fiocruz.

Demonstração inequívoca de que o golpe de 2016 à nossa democracia chegou agora à Fiocruz.

Há dois meses, Nísia Trindade foi eleita para presidir a instituição.

Hoje, soubemos que o cargo democraticamente conquistado por Nísia será ocupado pela candidata derrotada no processo eleitoral.

Não acreditamos que uma pesquisadora e acadêmica do porte de Tania tenha se aliado aos golpistas.

Ainda esperamos que, de forma digna e democrática, Tania decline desta designação.

Lamentavelmente, a informação que circula no meio é de que a derrotada trabalhou bastante por essa nomeação, mesmo contra a vontade da maioria dos eleitores.

Só um posicionamento ético, comprometido e democrático de Tania Araújo Jorge poderá desfazer esta nefasta apreciação da comunidade da Fiocruz.

Mas, afinal, o que pode estar em jogo além do profundo desrespeito à democracia ao processo interno da Fiocruz, que é um golpe contra a instituição?

De um lado, o precedente criado por essa arbitrariedade praticada contra a Fiocruz fere a   autonomia universitária conquistada por nossas instituições de ensino e pesquisa .

De outro lado, e não menos importante, os possíveis acordos quanto ao próprio papel almejado para a Fiocruz no bojo da política setorial pretendida pelo atual governo.

A Fiocruz tem tido um papel estratégico na implantação do Sistema Único de Saúde (SUS) tanto como formadora de recursos humanos como na produção de conhecimento, pesquisa e desenvolvimento tecnológico.

Por conta disso, o Brasil tem suficiência de insumos estratégicos em saúde, condição essencial para a soberania e sobrevivência do projeto universalista constitucional definido para a saúde.

Mas as evidências recentes demonstradas no discurso e nas práticas do atual governo não convergem para a consolidação do SUS como sistema universal, integral e de qualidade.

O dramático momento vivido pelo projeto político desenhado para o país expõe a vulnerabilidade  dos princípios do SUS.

Nesse cenário já se falou que a Fiocruz deve voltar-se para o mercado, abandonando sua vocação de produtora de serviços e insumos para o setor publico da saúde.

Difícil acreditar que alguém que fez carreira na instituição, como é o caso de Tania, possa concordar  com o projeto do governo de subverter a missão da Fiocruz  diante da sociedade nacional.

Apenas alguém legitimamente eleito poderia estabelecer um contraponto que mantenha e fortaleça sua vocação institucional.

Adotar a contramão da tradição democrática da Fiocruz construída desde a redemocratização do país desmonta a fortaleza que conduziu a Fiocruz a se tornar o que é hoje: uma instituição virtuosamente nacional e comprometida com a ciência, tecnologia e a saúde pública.

Um orgulho nacional.

Não sobram dúvidas de que estamos diante da ruptura de todas as nossas instituições democráticas. A caixa de Pandora está dilacerada e o País mergulha em incertezas  e obscuridade.

*****

Ana Maria Costa é diretora do Cebes e professora de Medicina da ESCS/DF (Escola Superior de Ciências da Saúde,do Distrito Federal). 

http://www.viomundo.com.br/denuncias/golpe-na-fiocruz-governo-temer-nomeia-para-a-presidencia-candidata-derrotada-a-doutora-tania-se-aliou-mesmo-aos-golpistas-contra-instituicao-a-troco-de-que.html

Be the first to comment

Deixe uma resposta