Crônica sobre a crise política no Brasil e a poesia de Sólon

Um encontro casual com um amigo atordoado com a divisão recente da sociedade brasileira em duas facções me levou à citação de alguns versos de Sólon

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Teodoro Rennó Assunção

Um encontro casual, no fim de uma manhã de domingo, junto a uma pizzaria de bairro Zona Sul (eufórica com o impeachment de Dilma) em BH, com um amigo (professor de Filosofia) atordoado com a divisão recente da sociedade brasileira em duas facções, num momento de grave crise política, me levou à citação, imperfeita e de memória, de alguns versos de Sólon, que já indicavam a impossibilidade de fugir, estando na cidade, da guerra civil que a dividia; mas também de outros versos que apontavam a ganância das elites como a maior responsável por esta. Tendo ele me interpelado quanto à importância política de divulgação de informação qualificada, fora do quadro meramente universitário, neste momento brasileiro, e me convidado a tentar escrever uma crônica pra divulgar, de maneira não especializada ou acadêmica, a poesia de Sólon, voltei pra casa, meio perturbado e sem-saída com a insólita concisão demandada (coincidentemente análoga à da poesia proverbial de Sólon).

Pensei, retomando o texto grego das elegias e iambos (presumivelmente do século VI a. C.) do lendário legislador e poeta ateniense Sólon, que só seria possível, em um curto espaço e sem o peso costumeiro da erudição, fazer uma colagem – deliberadamente anacrônica – de passagens exemplares de poemas, que certamente não poderiam ser interpretadas precisamente segundo o seu contexto, mas sim (e apenas) fornecer imagens pensantes para uma bem diferente situação sócio-política de crise, a brasileira de agora. Certamente a tradução (sem firulas nem facilitações) e a edição destes recortes de poemas seriam, então, inteiramente políticas, e a um bom entendedor não restaria dúvida nenhuma quanto à posição política deste editor utilitário em suas apropriações. Ou seja: assumindo uma proibição soloniana em tempo de crise, este fazedor de colagens estaria também claramente tomando partido, deixando de ler uma poesia política apenas pelo prazer literário de conhecê-la bem.

Como um mínimo lembrete inicial para os que deixaram de admitir a possibilidade de uma poesia diretamente política com algum valor literário (mesmo levando em conta exemplos modernos como Brecht, Maiakóvski ou Drummond), seria preciso dizer que a elegia grega arcaica, cuja ocasião preferencial era o banquete, era um gênero muito praticamente voltado para a admoestação moral (a partir da transmissão de uma sabedoria tradicional) e uma eventual mudança de posição ético-política do ouvinte, dificilmente se enquadrando em um conceito moderno de poesia lírica que reivindicasse uma total autonomia literária. Ora, é a uma tal sabedoria tradicional, por vezes bem surpreendente, que estará associado, sobretudo em contexto ateniense, o nome lendário de Sólon, cuja autoria de fato histórica destes poemas (hoje objeto de suspeita e discussão) importa menos do que o que já sugere o emblema de “sábio” (sendo ele considerado um dos sete grandes sábios gregos) contido no nome próprio do grande legislador. Tentemos, enfim, sem maiores preconceitos literários, voltar agora nossa atenção a esta poesia marcadamente ético-política.

A imagem inicial da contaminação política total pela guerra civil (stásis), que despertou a chance desta crônica (e poderia certamente lembrar hoje a impossibilidade de segurança total em condomínios com suas cercas elétricas), diz apenas o seguinte (Sólon 4W, 26-29): “assim o mal público vai para a casa de cada um,/ e as portas do pátio não mais podem contê-lo,/ e ele salta sobre a alta cerca, e de todo modo (o) encontra,/ mesmo se alguém, fugindo, estiver no fundo do quarto.” Uma equivalência entre a guerra civil e a guerra, por seu poder destrutivo, é o que configura esta situação como uma “ferida inevitável” para todos (Sólon 4W, 17-20): “Já chega a toda a cidade esta ferida inevitável,/ e rapidamente vai para a ruim escravidão,/ que desperta a guerra civil e a guerra adormecida,/ a qual destrói a desejável juventude de muitos; (…).” Mas são as classes populares as mais atingidas, inclusive com a perda de cidadania e a escravidão (Sólon 4W, 23-25): “Estes males são revirados no povo: pois dos pobres/ muitos chegam a uma terra estrangeira/ vendidos e atados por grilhões ultrajantes”.

A crise social que vem, então, como punição de uma Justiça (Díke) imanente, resulta dos seguintes atos ilícitos de uma elite de governantes (Sólon 4W, 11-13): “e enriquecem, persuadidos por empreendimentos injustos/ (…)/ nem das propriedades sagradas nem das públicas nada/poupando, roubam por rapina, um de um lado e outro de outro,/ (…).” Mas esta ganância, que destrói a cidade, é formulada, numa poesia moral de banquete, como resultando exatamente da incapacidade destes governantes gozarem tranquilamente os prazeres daquele, sem desejar adquirir mais (Sólon 4W, 5-10): “mas destruir a grande cidade por insensatez os próprios/ cidadãos querem, persuadidos pelas riquezas,/e injusta (é) a mente dos líderes do povo, pros quais é iminente/ sofrer muitas dores por causa do grande excesso;/pois não sabem conter a insaciabilidade (kóron), nem as presentes/ alegrias ordenar na tranquilidade do banquete”. Como se prefigurando uma crescente concentração de renda e uma nefasta e ampliada disparidade social, Sólon se pergunta, perplexo, em uma outra grande elegia (Sólon 13W, 73-75): “E da riqueza nenhum limite manifesto aos homens está:/ pois os que de nós agora o máximo têm de recursos,/ duplamente se empenham; quem saciaria a todos?”

E a importância ético-política da noção de medida (métron) reaparece ainda em outro fragmento elegíaco que aconselha a moderação (Sólon 4cW, 1-3): “Que vós, tranquilizando no juízo o mais forte coração,/ vós que forçastes até a insaciabilidade de muitos bens,/ colocai na medida a presunçosa mente (…).” Ou, ainda em uma outra formulação lapidar (Sólon 6W, 3-4): “e insaciabilidade (kóros) gera excesso (húbrin), quando muita fortuna vier/ para homens cuja mente não esteja ajustada.” Mas a sóbria noção de valor que funda esta necessidade de medida – valor que estaria paradoxalmente menos na acumulação de riquezas do que no bom usufruto dos prazeres eróticos do banquete – está condicionada elementarmente pela percepção adequada da mortalidade e do envelhecimento inevitáveis (Sólon 18 G. e P.): “São igualmente ricos quem tem muita prata,/ ouro, campos de terra que dá trigo,/ cavalos e mulas, e quem tem só isto:/ no ventre, nos flancos e nos pés sentir coisas delicadas,/ e de um rapaz e de uma mulher – uma vez que também isto chegue –/ a juventude, pois com o tempo ela se torna ajustada./ Isto a riqueza para mortais; pois a todos excessivos/ bens carregando, ninguém vai para o Hades,/ e, mesmo pagando resgate, não pode evitar a morte, nem pesadas/ doenças, nem a ruim velhice que se aproxima.”

Restaria, no entanto, indicar o quanto a ação política e legislativa de Sólon indispôs contra ele as duas partes em que estava dividida a cidade de Atenas em crise: os ricos e os pobres, sem que tenhamos que pensá-lo – seguindo Aristóteles – como um representante moderado da classe média, que, como uma diferenciada terceira parte, jamais é nomeada em sua poesia. No iambo de defesa de sua obra política, após relatar a sua liberação da terra dos marcos de hipoteca, assim como a liberação dos homens atenienses que não só perderam sua terra como também venderam sua liberdade para pagar as dívidas, ele, “Sólon”, diz na primeira pessoa (Sólon 36W, 18-25): “E leis, igualmente para o pobre e para o rico,/ correta para cada um ajustando a sentença,/ escrevi. E um outro que, como eu, tivesse pegado o aguilhão,/ um homem mal intencionado e ávido de aquisições,/ não teria contido o povo; pois se eu quisesse/ o que a uns dos contrários agradava então,/ ou o que, por sua vez, os outros pensavam,/ de muitos homens estaria viúva esta cidade.” Mas o incômodo maior de sua posição moderadora – bem expressa na frase proverbial de um fragmento (Sólon 7W): “Em grandes empreendimentos, agradar a todos (é) difícil.” – é formulado de maneira surpreendente na conclusão do iambo (Sólon 36W, 26-27): “Por isso, fazendo resistência de todo lado,/ me revirei, como entre muitas cadelas um lobo.” Pois se, nas comparações da Ilíada, o lobo aparece geralmente em bando, e com um eventual apetite sanguinário, neste iambo, ele aparece solitário, em posição difícil contra uma matilha de cadelas (que atacam), figurando antes um tipo anti-social. Semelhantemente, em outro fragmento elegíaco, ele aparece como um hoplita (guerreiro armado que luta em grupo) solitário, defendendo com seu escudo não um companheiro de armas, mas as duas facções de subjugarem uma à outra (Sólon 5W, 5-6): “e pus-me, em torno lançando um mais forte escudo pra ambos os lados,/ e não deixei nenhum dos dois lados vencer injustamente.”

É, porém, na conclusão de um outro fragmento de iambo, que “Sólon” aparece em um espaço mediano muito tenso entre o povo e os ricos (Sólon 37W, 9-10): “Mas eu, no meio do combate destes, como/ um marco me pus.” Ainda mais surpreendente do que o ter se colocado como um “marco” (hóros), termo que no iambo maior indicava o signo de uma hipoteca, e que aqui estaria marcando um limite ou fronteira, é o modo como é definido o espaço que ele ocupa e demarcará: “no meio do combate destes”, onde este espaço deixa de ser um “meio” (méson) pacífico onde pontos de vista opostos se afrontam, tal como na assembleia, e passa a ser literalmente (en metaikhmíoi) um espaço entre dois exércitos (designados pelas lanças) que combatem entre si. Ou seja: o espaço público, que não poderia, em princípio, ser apropriado por nenhuma das duas facções, pois é, por definição, comum, é aqui ocupado apenas por Sólon, em uma posição duplamente ameaçada e frágil, para não dizer simplesmente impossível. Sólon configura, assim, um (talvez mais verossímil) modelo de cidade, em que, em vez da abstrata unidade do conjunto em que cada qual tem sua parte equivalente, a divisão entre duas partes antagônicas que não cedem e se digladiam a atravessa toda.

Para, enfim, evidenciar melhor o quanto, nesta divisão da cidade em duas facções opostas, a posição de neutralidade (ou mesmo de mediação) é insustentável, seria preciso sair um momento do contexto estrito da poesia de Sólon e lembrar o que diz Aristóteles sobre uma lei proposta por Sólon exatamente para uma tal situação de crise: “Observando que frequentemente a cidade estava em guerra civil e que alguns dos cidadãos aceitavam por comodidade o que acontecesse, promulgou uma lei específica contra eles: ‘aquele que, quando a cidade estiver em guerra civil, não colocar suas armas para nenhum dos dois lados, perde as prerrogativas e não participa da cidade.’” (Aristóteles, A Constituição de Atenas VIII, 5; tradução de F. Murari Pires modificada).  Ora, o próprio Sólon, mesmo quando propõe esta lei, não poderia estar acima ou fora desta cidade dividida em duas, deixando ver o quão paradoxal é a posição do legislador e o quanto a justiça apenas idealmente não se compromete com nenhum dos dois lados.


Teodoro Rennó Assunção é professor da Faculdade de Letras da UFMG

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