O DEBATE SOBRE A CORRUPÇÃO: MORAL OU POLITICO?

Tema recorrente na política brasileira a corrupção ganha destaque nos protestos nacionais. Listas de doações eleitorais que tingem reputações, debates acalorados nas redes sociais transformam amigos em inimigos e o impeachment volta à tona depois de 25 anos. Será ela um tema a ser debatido no campo da moral ou no da política?

 

Por Ricardo Alvarez*   –   28 de março de 2016

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Os protestos contra a presidenta Dilma são profundamente divergentes quanto aos caminhos a serem seguidos após sua eventual queda, mas são amplamente unificados na crítica à corrupção.

O tema, obviamente, não é novo e já foi amplamente debatido e utilizado em outros momentos históricos de forte perrengue política.

Com Getúlio Vargas a corrupção serviu à oposição Lacerdista, que deferia duros golpes contra a inanição governista. JK também foi alvo.

Em ambos os casos a que se destacar que as campanhas eleitorais eram bem mais modestas e o comprometimento com doadores algo distante do que ocorre hoje. Aliás, muito distante.

Jango sintetizou a bipolaridade da Guerra Fria e a tentativa de implantação das reformas de base. Foi golpeado pelos militares e a classe média, que berravam contra o comunismo.

Nos 25 anos de ditadura militar, nem é preciso lembrar, a voz única prevaleceu apesar do ufanismo transformado em grandes obras e em muita tramoia.

Collor anunciou a caça aos marajás. A classe média acreditou. Os marajás não foram caçados e os esquemas de financiamento emergiram originados em denúncias nas próprias vísceras do poder central.

Com FHC a corrupção atingiu um patamar mais sofisticado: as privatizações a preços módicos, sob os aplausos da classe média, renderam apoios significativos nas eleições, a ponto de Sérgio Motta anunciar que os tucanos ficariam 20 anos no poder central. Errou.

Com o PT na dobrada Lula-Dilma, as coisas mantiveram-se nos mesmos moldes de antes: grandes empresas fazendo grandes compras de candidatos nas eleições e, ganhando licitações volumosas depois delas.

Este esquema de sustentação da República se esgotou e o Estado mantido através do presidencialismo de coalização caducou. O que virá?

Eis a questão. Difícil dizer onde este caudal de problemas desembocará, mas pode-se afirmar que um viés importante no debate nacional contra a corrupção segue um caminho tortuoso e sem saída.

Costuma-se apontar a corrupção como resultado de um desvio de ordem pessoal, resultado de fraqueza de caráter dos governantes na cobiça pelo poder. Nada mais obtuso. Não é pela via da moralidade que conseguiremos avanços.

O problema é fundamentalmente político, e é através dela que poderemos lograr algum sucesso neste campo.

Por isso Moro, Joaquim Barbosa, dentre outros, são personagens de fôlego curto diante dos desafios que se colocam à República. Estes servem somente àqueles que acreditam em “Salvadores da Pátria”. Outra bobagem quando as alternativas passam por outros caminhos políticos e a reconstrução do sistema de representação política.

Partidos mais fortes, ideologias mais definidas, impossibilidade de alianças apenas com fins eleitorais, financiamento público de campanha, priorização do debate de projetos e planos e não de temas marginais, ampliação da participação popular nas campanhas, limitação nas regras de criação de partidos, restrições a pesquisas eleitorais e regras democráticas de participação nos debates, etc, são algumas das necessidades.

Evidente que há mais o que fazer, mas este seria um bom começo.

O problema não está na qualidade moral das pessoas, mas no funcionamento das regras eleitorais e na forma da disputa.

É preciso mudar o foco da crítica e apontar para a verdadeira solução, mesmo sabendo que as resistências são grandes e os obstáculos quinhentistas.

Ricardo Alvarez* é pós graduado em geografia urbana pela USP

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http://controversia.com.br/602

Não golpe

 

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