Monthly Archives: julho 2012

Rio lidera ranking de pedágios mais caros no País, diz pesquisa

Segundo o Ipea, a BR-116, no Rio teve o valor de pedágio reajustado em 308% desde 1996. Média brasileira é mais cara que a internacional

iG São Paulo

As rodovias estaduais do Rio de Janeiro que são administradas por concessionárias têm o maior valor médio do pedágio do País, divulgou nesta quinta-feira o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Segundo o estudo, o valor cobrado no Rio de Janeiro é 100% superior do que o cobrado em Minas Gerais, o menor registrado pela pesquisa.

Foto: DivulgaçãoPraça de pedágio da BR-116, no Rio, rodovia que aumentou a tarifa em 308% desde 1996

Segundo o estudo, o maior problema está no primeiro conjunto de rodovias federais concedidas pelo governo à iniciativa privada, entre 1995 e 1997. Essas rodovias tiveram seus pedágios reajustados em valores até 168% maiores do que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulado no período.

O caso mais grave é o da BR-116, no Rio de Janeiro, administrada pela CRT. Desde 1996, quando foi assinado o contrato de concessão, a tarifa de pedágio aumentou 308%. O IPCA acumulou alta de 139% no período. Outras quatro rodovias privatizadas tiveram pedágios reajustados em níveis muito superiores ao da inflação: a Nova Dutra (Rio-São Paulo), a Ponte Rio-Niterói, a BR-290 no Rio Grande do Sul (Concepa) e a BR-040 entre o Rio e Minas (Concer). A tarifa média de pedágio dessas rodovias é de R$ 9,86/km. Já as estradas concedidas no segundo lote, em 2007, têm pedágio médio de R$ 2,96/km.

A diferença se explica, segundo o Ipea, pela falta de experiência do governo na concessão das primeiras rodovias e pelas condições macroeconômicas. Com taxas de juros maiores e risco-país mais alto, a rentabilidade exigida pelos investidores era maior.

Na década de 90, a União optou por licitar as rodovias com preço fixo do pedágio, definindo o vencedor dos leilões pelo maior valor de outorga. A partir de 2007, a definição dos vencedores passou a ser a proposta de menor tarifa.

Os contratos da segunda etapa de concessões também têm o IPCA como índice de reajustes dos pedágios. Na primeira etapa, era uma cesta de preços usados na construção e nas obras rodoviárias.

Média brasileira é maior que a internacional

O estudo do Ipea calculou o que a tarifa média do pedágio no Brasil é de R$ 9,04/100km. Esse valor leva em conta as tarifas cobradas nos pedágios estaduais e federais. O número é maior que a tarifa média internacional, que apresentou um valor de R$ 8,80/100 km, segundo dados do Banco Mundial.

Para os analistas do Ipea, o valor cobrado pelo pedágio das rodovias concedidas brasileiras deveria será até menor do que o praticado no exterior, já que o modelo usado no País é diferente. O Programa de Concessões Rodoviárias no Brasil é um programa de transferência de rodovias do setor público para o privado, enquanto na maioria dos outros países é um programa de criação e construção de rodovias, o que necessita de maior investimento.

Mais por conta da diferença de modelo adotado em cada local, o Ipea acredita não ser razoável comparar o valor da tarifa de pedágio brasileira com o de outros países. A diferença da metodologia aplicada pelos dois estudos também pode interferir na comparação. O cálculo da tarifa média internacional é uma média aritmética simples dos valores apresentados pelo Banco Mundial (US$0,03 e US$0,08 por quilômetro concedido), utilizando-se uma taxa de câmbio de R$1,60/US$ e um trecho de 100 quilômetros.

* Com Valor Online

FHC queria ser ele

Sebastião Nery

Os sábios ensinam que o pior ódio é o da inveja. A ira que em 2002 enfureceu Fernando Henrique contra o relator especial da ONU, Jean Ziegler, que veio ao Brasil ver como estava aqui o “Direito à Alimentação”, não foi apenas porque ele desmoralizou toda a propaganda dos 8 anos da “Era FHC”.

Isso doeu, mas doeu menos do que a butantânica inveja pessoal de Fernando Henrique. É que o suíço Jean Ziegler é tudo que Fernando Henrique gostaria de ser. Sociólogos, os dois são.  Professor de sociologia, o Ziegler foi na Sorbonne e Genebra, Fernando Henrique também já foi no Brasil. O gringo foi deputado socialista na Suíça e no Parlamento Europeu, Fernando Henrique foi senador e presidente no Brasil.

Para Fernando Henrique, até aí estão empatados. Mas o Jean Ziegler é um intelectual de prestígio e sucesso, respeitado na Europa e nas Américas. Foi ele quem promoveu o inquérito sobre o dinheiro sujo, do crime organizado e da corrupção internacional, que há séculos se acoita nos porões dos bancos suíços. E sobre isso escreveu um livro que fez furor mundial.

Depois, foi ele quem começou a campanha, logo apoiada pelos judeus do mundo inteiro, para os bancos suíços devolverem o dinheiro confiscado dos judeus pelos nazistas e lá depositados.

E, finalmente, o imenso sucesso internacional do livro “La Faim Dans le Monde Expliquée à Mon Fils” (A Fome no Mundo Explicada a Meu Filho), que o levou para a Secretaria Geral de Alimentação da ONU, um dos mais importantes postos internacionais.

AS DIFERENÇAS

Enquanto isso, Fernando Henrique teve apenas um livro traduzido em inglês e francês (fora as picaretagens que o Itamaraty fez, traduzindo textos de assessores atribuídos a ele para distribuir nas viagens internacionais, com dinheiro público, como aconteceu em viagens à Rússia e à Eslováquia). A “Teoria da Dependência”, por exemplo, na verdade foi escrito pelo chileno Falleto e coeditado por FHC, como sabe toda a comunidade acadêmica.

E pior. FHC entregou meio Brasil aos banqueiros internacionais e vive ajoelhado diante dos Estados Unidos, para ver se consegue um bico qualquer lá fora. Morre de inveja. Queria ser o suíço.

E o que foi, afinal, que o suíço disse quando veio ao Brasil no final da era FHC? O que o País todo sabia. Que “há uma guerra social no Brasil”. Que “um terço da população brasileira (quase 60 milhões) era afetado pela subalimentação”. E que “no Brasil a fome é um genocídio, não uma fatalidade, e quem morre de fome no Brasil é assassinado”.

www.tribunadaimprensa.com.br

Começa investigação sobre mortes na ditadura

Ministério Público Federal em quatro Estados realizam esforço conjunto para apurar fatos narrados por ex-delegado do DOPS

iG Brasília

O ex-delegado do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), Cláudio Guerra, prestou os primeiros depoimentos durante o processo de investigação instaurado pelo Ministério Público Federal (MPF) e pela Polícia Federal (PF) para averiguar as mortes narradas por ele no livro “Memórias de uma guerra suja”, cuja primeira cópia foi obtida com exclusividade pelo iG.

Foto: Agência PorãEx-delegado Claudio Guerra fez revelações sobre crimes da ditadura em livor

O ex-delegado dá os nomes dos comandantes da operação, “os mesmos de sempre”:

Os primeiros depoimentos aconteceram na sede do Ministério Público Federal em Vitória (ES). Também foi ouvido o ex-sargento do Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) Marival Chaves Dias do Canto. Os primeiros depoimentos são fruto de uma investigação conjunta dos MPF’s dos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo. O teor dos depoimentos não foi divulgado. A investigação ocorre em caráter sigiloso.

O depoimento dos dois agentes da ditadura durou aproximadamente 16 horas nesta segunda e na terça-feira. Há aproximadamente duas semanas, o procurador da República em Campos (Rio de Janeiro), Eduardo de Oliveira, adiantou ao iG que pretendia ouvir Guerra como parte da investigação sobre as mortes.

Também como parte do processo de investigação, devem ser realizadas perícias nos locais citados por Guerra como cemitérios clandestinos de agentes de esquerda, executados durante o regime militar. Há aproximadamente um mês, integrantes da Polícia Federal fizeram uma visita na usina de açúcar Cambahyba, no Rio de Janeiro (onde Guerra afirma ter executado e incinerado dez militantes de esquerda) e em um matagal em Belo Horizonte.

Mães de Maio comemoram vitória contra ‘crimes que lesaram a humanidade’

Líder do grupo de parentes de vítimas de violência policial em São Paulo acredita que exumação do filho pode reabrir investigações sobre crimes ocorridos em 2006

Gisele Brito, da Rede Brasil Atual

Mães de Maio comemoram vitória contra 'crimes que lesaram a humanidade'

Débora protesta com a foto do filho (Foto:CC/Caio Castor/Facebook)

São Paulo – A exumação hoje, a partir das 14h, em Santos (SP), do corpo de Edson  Rogério Silva dos Santos, morto aos 29 anos, é considerada mais uma vitória da luta das Mães de Maio, grupo de mães, pais e parentes de vítimas dos crimes articulados para exigir justiça. Edson era gari e foi assassinado em 2006, numa onda de violência (que resultou em 493 vítimas), ao que tudo indica deflagrada por policiais, em revide às mortes de agentes de segurança pública durante os ataques da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) naquele ano.

Edson estava com um amigo em um posto de gasolina tentando abastecer sua moto quando policiais o abordaram. Eles discutiram e o policial o agrediu. Segundo relatos do amigo que o acompanhava, Edson disse aos policiais que era um trabalhador e um deles respondeu: “Morreu, você é ladrão”. Minutos depois, Edson foi assassinado com três tiros. Um em cada um dos pulmões e outro no coração. Imediatamente, policiais apareceram na cena do crime e, supostamente, o levaram para o hospital ainda com vida. 

Débora Silva Maria, mãe do rapaz e fundadora das Mães de Maio, conseguiu provar que os policiais que “prestaram socorro” ao gari mentiram em relação ao motivo de terem ido até o local do crime. O que garantiu a ela o reconhecimento de que o estado de São Paulo é culpado pela morte do rapaz, além de uma indenização.

Mas a superficialidade da investigação feita pela Polícia Civil não conseguiu responder se os policiais que discutiram com ele, o “resgataram” e se as pessoas que o mataram são as mesmas. Até hoje ninguém foi sequer indiciado pelo crime. O inquérito dela, assim como dos outros crimes ocorridos no período, foram arquivados.

O objetivo da exumação desta tarde é averiguar se o projétil que permanece cravado em sua coluna cervical é compatível com a de uma arma achada recentemente em Cubatão (SP).

Leia entrevista com Débora.

Como você encara o dia de hoje?

É uma vitória. Eu espero que essa dor que eu vou passar, e que venho passando ao longo de seis anos, seja um caminho para a  justiça. A gente luta pela verdade. A gente espera que isso seja a ponta do iceberg, para que seja provado que policiais mataram nossos filhos.

Você irá acompanhar a exumação? 

Não quero perder nenhum segundo, apesar de ser uma coisa muito doída pra mim. Até hoje eu não acredito que meu filho morreu. Eu ainda tenho a lembrança dele chegando em casa e agora eu vou  vê-lo, mas ele não está mais lá. São só os restos mortais dele. Mas, depois de seis anos lutando, sem ninguém dar ouvido para o nosso grito, eles vão ver a o que aconteceu com ele e tentar concluir o que a gente vem lutando para provar há muito tempo. A polícia não investiga a própria polícia. Isso deveria ter tido  um olhar diferente desde o começo. Agora o próprio MP pediu a exumação do corpo. Eles acham que essa arma achada em Cubatão tem a ver com essa história. Esses crimes lesaram a humanidade.

A exumação pode levar a reabertura dos inquéritos?

É o que a gente espera. A gente viu que tudo isso, tudo que aconteceu no inquérito, as fragilidades, os arquivamentos, seja desmascarado. Meu filho foi enterrado com um projetil na espinho. Ou seja, a investigação paliativa começou desde o IML, que alegou que a bala não foi retirada porque os instrumentos estavam quebrados. Ele ser enterrado com a bala é gravíssimo. Foi por isso que pedimos a federalização da investigação. No começo, olhamos com desconfiança a iniciativa do MP. Achamos que poderia ser uma manobra para impedir a federalização, que eles não querem que aconteça. Mas não houve investigação por parte da justiça de São Paulo. Mas estamos otimistas agora. Nossa esperança é que o que vai acontecer hoje abra um proceder para uma verdadeira investigação.

Fonte: http://www.redebrasilatual.com.br/temas/cidadania/2012/06/201cesses-crimes-lesaram-a-humanidade201d

OS RASTROS DE MAIO DE 2006

Gisele Brito

“Quando li aquilo, eu comecei a entender o arquivamento dos casos, do caso do meu filho. Foi muito duro. Uma carta dos promotores do Fórum da capital, cheia de carimbos, com 58 assinaturas, dizendo que sentiam muito pelos agentes perdidos e parabenizando o comando por ter restabelecido a ordem.” A carta, citada de cor por Débora Maria da Silva, dizia que os promotores paulistas “reconheciam a eficiência” da polícia e a preocupação da corporação em “restabelecer a ordem pública violada, defendendo intransigentemente a população do nosso estado”. Débora, de 52 anos, é mãe de uma das 493 pessoas mortas entre 12 e 20 de maio de 2006, a maioria durante o período classificado na carta como um retorno da ordem. Mas, para Débora e outras mães que estão no grupo que ela coordena, e para diversas entidades de defesa dos direitos humanos, a suposta defesa “intransigente” da população, na verdade, foi o maior extermínio ocorrido no Brasil no século XXI. Um revide bárbaro executado por agentes de segurança do estado de São Paulo, que permanece impune seis anos depois.

Aquele maio a que Débora se refere entrou para a história de São Paulo. O noticiário foi tomado de imagens de rebeliões simultâneas em presídios, ônibus queimados, batalhões de polícia metralhados e informações sobre a morte de agentes de segurança, entre eles agentes penitenciários, bombeiros, guardas, policiais militares e civis. O caos se espalhou pela capital paulista. Supostos toques de recolher fizeram com que lojas e empresas fechassem mais cedo. No dia 15, segunda-feira após aquele fim de semana do Dia das Mães, 5 mil dos 15 mil ônibus da frota paulistana deixaram de circular, segundo o Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana – São Paulo (Condepe). Às 18 horas, as ruas da maior cidade do país já estavam praticamente vazias em razão do medo que tomou conta da população. Nas primeiras 48 horas da onda de violência, 40 agentes públicos foram assassinados, segundo relatório da Justiça Global e da Clínica Internacional de Direitos Humanos da Faculdade de Direito de Harvard. Até 20 de maio, seriam 43.

Na época, a versão oficial divulgada para explicar os acontecimentos informava que membros do PCC, o Primeiro Comando da Capital, estavam promovendo os ataques em reação à transferência de presídio de alguns de seus principais líderes, entre eles Marcos Willians Herbas Camacho, conhecido como Marcola. Cinco anos depois, o estudo da Justiça Global e da Faculdade de Harvard apontou que, na verdade, as razões para os ataques foram a revolta contra esquemas de corrupção de policiais que extorquiam famílias de membros do PCC e o sequestro do enteado de Marcola, realizado por policiais. Justamente por isso, o título do relatório é “São Paulo sob Achaque”, denunciando um esquema de corrupção e extorsão praticadas por agentes públicos, que deveriam cumprir a função de defender o Estado de Direito.

Os atentados contra agentes de segurança promovidos pelo PCC só teriam cessado depois de um encontro, na tarde do dia 15, entre Marcola e uma advogada e ex-delegada da Polícia Civil, que dizia ter influência sobre a facção. A reunião foi articulada pelo governo do estado, que inclusive providenciou um jato da Polícia Militar para transportar a advogada, como indica o relatório da Justiça Global. No entanto, um acordo entre o governo e a facção criminosa foi veementemente negado pelas autoridades.

Mas assim como a maioria dos civis mortos entre 12 e 20 de maio de 2006, o filho de Débora não morreu no período em que predominaram as ações atribuídas ao PCC. Os relatórios mostram que a morte de civis se intensificou a partir do dia 15, quando as ações da facção já arrefeciam, chegando à chocante marca de 493 pessoas. Parte delas ocorreu em supostos confrontos com a polícia, em muitos casos com indícios de adulteração e forja de provas. Houve também casos de pessoas vítimas de grupos de extermínio, perpetrados por homens encapuzados em carros escuros, em que também havia sinais da participação de policiais. “Foi como se uma nuvem assassina tivesse passado pelo estado”, relembra o médico Henrique Carlos Gonçalves, membro do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp).

O Cremesp teve um papel fundamental para a compreensão dos fatos ocorridos naquele período. Ao tomar conhecimento da violência que se propagava, o conselho se uniu à comissão independente montada pelo Condepe, composta por diversos órgãos de defesa dos direitos humanos, e acompanhou as necrópsias nos Institutos Médicos Legais (IML). “Havia uma grande preocupação em relação às necrópsias que davam entrada. Até por antecedentes históricos – a ditadura, mortes no Carandiru –, a perícia médica legal foi considerada suspeita de falta de imparcialidade. Isso nos chamou a atenção porque a perícia é um ato médico”, explica Gonçalves.

Os laudos eram checados em tempo real. “Recebíamos um rascunho da necrópsia para garantir que não houvesse supressão ou colocação. Só o que o perito viu ali”, relata. “Aquela imensidão de cadáveres, parecia uma guerra. Foi muito marcante para mim. Era trágico, brutal com a vida humana, um enorme desrespeito às leis e cidadania. Para mim, aquela visão só se compara com o acidente da TAM [de 2007], mas com uma característica mais degradante em função de todo o processo de violência”, lembra o médico.

A imagem que marcou o médico para sempre é chocante, mas sua atuação valeu a pena. Graças ao trabalho feito pelo órgão nos IMLs, foi possível constatar que 60% dos 493 corpos registrados no período receberam pelo menos um tiro na cabeça.  Quase 13% dos tiros encontrados em todos os baleados foram dados à curta distância ou à queima-roupa. Em 14,4% dos casos, os tiros atingiram o abdômen; em 30,5%, o tórax e em 27,5%, a cabeça ou pescoço, regiões consideradas de alta letalidade.

Um relatório feito em 2008 pelo Laboratório de Análise da Violência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro chamou atenção, ainda, para o fato de que 27% das vítimas apresentavam pelo menos um disparo na região posterior da cabeça, “região de altíssima letalidade e muito difícil de ser atingida em um confronto genuíno”. E 57% dos cadáveres teriam recebido pelo menos um disparo pelas costas.  Diante dessas evidências, Gonçalves não tem dúvidas: “Dá pra dizer que foram execuções. Tiros de cima para baixo, nas costas, em gente ajoelhada. Foi uma guerra não divulgada, porque na guerra você não fere, não prende porque vai te dar trabalho. Na guerra a intenção é matar, eliminar. E foi isso que ficou caracterizado”, afirma.

Impunidade

Edivaldo Soares de Andrade, filho de Helenita, foi morto na frente do portão de sua casa enquanto conversava com vizinhos, no Parque Bristol, zona sul de São Paulo. Na época, Dona Helenita contou à Fórum que assistia à TV e tinha acabado de se emocionar com a notícia das mortes de policiais, quando ouviu tiros na rua. Seus dois filhos foram baleados com outras duas pessoas. Apenas um deles sobreviveu. Os atiradores estavam encapuzados, mas há indícios de que eram policiais. “Que proteção a gente tem? Só de Deus”, declarou à Fórum em 2006. Hoje, com o inquérito arquivado, ela diz não ter esperança de ver o caso solucionado. “Eu não acredito, não. Quem viu tem medo de falar”, desabafa.

Segundo o defensor público Antônio José Maffezzoli Leite, o caso de Helenita e das outras mães ouvidas pela reportagem não são exceção. Todos foram arquivados. O inquérito do homicídio de Edson Rogério Silva dos Santos, filho de Débora, mencionada no começo da matéria, também foi. O rapaz, de 29 anos, trabalhava como gari na Baixada Santista, e tinha ido com um amigo a um posto de gasolina abastecer uma moto quando um grupo de policiais os abordou, questionando se eles estavam armados. Conforme relatos contados a Débora, Edson respondeu que era trabalhador, e um dos oficiais teria dito: “Morreu, você é ladrão.” Os policiais o agrediram, mas foram embora. Edson foi para outro posto buscar gasolina, quando então foi assassinado com um tiro no coração e um em cada pulmão. Minutos depois, uma viatura chegou ao local do crime, mas Edson não resistiu e morreu.

Débora diz ter implorado aos delegados que cuidaram do inquérito para que as imagens das câmeras de vigilância do posto fossem apreendidas, o que levou meses para ser feito – e só aconteceu quando as filmagens do dia já haviam sido apagadas. Por seu próprio esforço, ela conseguiu demonstrar falhas nas investigações oficiais e provar que os policiais que chegaram à cena do crime logo em seguida tinham apresentado versões contraditórias sobre o que os motivou a ir até lá. Ela desconfia que os homens que discutiram com seu filho, os que o mataram e os que supostamente o socorreram são as mesmas pessoas. A participação de policiais e de grupos parapoliciais foi reconhecida pelo promotor que cuidou do inquérito de Edson, e ela conseguiu uma indenização do Estado, que reconheceu as falhas na investigação, mas a autoria do crime é até hoje desconhecida, e o caso permanece arquivado.

Débora é coordenadora das Mães de Maio, grupo que reúne mães de vítimas dos crimes de maio e luta para que a justiça seja feita. “Eu sou uma mulher amputada. Sou um lixo humano. Tiraram meu filho de mim. A única coisa que me sustenta é a luta”, conta. Antes da morte de Edson, Débora não era engajada em nenhuma causa, mas a perda do filho mudou sua vida. “Eu queria mostrar que a ditadura não acabou. Ela continua até hoje. Mais dura, mais violenta. Em uma semana se matou mais de 400 pessoas, fora as outras que a gente não sabe. A ditadura durou 21 anos e matou menos gente. Nos crimes de maio, eles mataram trabalhadores empobrecidos, estudantes. A periferia está agonizando. O pobre está sendo exterminado no Brasil. A população está sendo exterminada.”

Depois do episódio, Débora ficou doente, deprimida e se afastou do resto da família, mas abriu seus horizontes para a necessidade de lutar. “Esse negócio de paz… Não existe paz se não houver justiça. Eu digo que quem vai para a cadeia é o crime desorganizado, porque o crime organizado está blindado, protegido pelas instituições. Debaixo do capuz que mata está o Estado.”

A história se repete

Quatro anos depois dos crimes de maio, outros eventos com as mesmas características acometeram a Baixada Santista. Pelo menos 26 jovens foram mortos. Entre eles estava Marcos Paulo Soares Canuto, filho de Flávia Gonzaga. O garoto de 18 anos foi a uma festa de aniversário na periferia de São Vicente e, ao voltar para casa, foi abordado por homens encapuzados. Segundo testemunhas, que não quiseram prestar depoimento à polícia por medo de represálias, um dos homens chegou a dizer que haviam pegado a pessoa errada, ao que o outro respondeu: “Está na chuva é para morrer”. Marcos Paulo foi alvejado por dez tiros. O amigo que o acompanhava, por sete.

“O meu filho não era bandido – e mesmo que fosse. Não existe pena de morte no Brasil. Mas as pessoas ficam sempre perguntando o que ele estava fazendo naquele bairro àquela hora, porque nós não moramos na periferia. Quer dizer, você não pode ter um amigo em outro bairro? Só porque ele está em um bairro afastado, pobre, ele é bandido?”, questiona. “Ou seja, quem mora lá é marginalizado. A gente vê que a maioria dos mortos é preto, pobre. Os ataques de abril [de 2010] só cessaram quando o Consulado Americano pediu para que os turistas não viessem para Santos porque estava perigoso. Daí, os prefeitos e o próprio governador disseram que a situação estava sob controle e que os problemas só estavam acontecendo na periferia. Ou seja, se você não mora na orla, você não vale nada”, desabafa. Assim como os demais, o processo da morte de Marcos também está arquivado. “Se eu não correr atrás para provar que ele foi morto pela polícia, ele vira estatística, vai ser criminalizado. E ele não é estatística. Ele é meu filho. Metade do sangue que derramou ali era meu.”

Débora acredita que os crimes de abril de 2010 não teriam acontecido se os de maio de 2006 tivessem sido solucionados. Rose Nogueira, que era presidente do Condepe naquele mês de maio, também avalia que a impunidade em outros processos de crime e tortura no Brasil está na origem das duas séries de crimes. “Há mais de uma centena de casos que foram registrados como resistência seguida de morte. Como uma pessoa pode estar resistindo com tiros na cabeça, na nuca, nas costas? Esses crimes aconteceram porque os crimes da ditadura e os que aconteceram depois da ditadura não foram punidos. Na ditadura, nós tivemos o esquadrão da morte, que trabalhava para a repressão, e os agentes depois foram condecorados. Os métodos que eles usam hoje são os mesmos da ditadura”, aponta.

Federalização

Débora explica que o movimento busca, desde 2010, a federalização dos crimes arquivados. Esse, de acordo com Maffezzoli, é um mecanismo recente da legislação brasileira, que permite o deslocamento de competência para julgar crimes contra os direitos humanos. Isso pode acontecer quando a Justiça local não tem condições para investigar o caso. Pelas circunstâncias dos eventos de maio e de abril, os movimentos acreditam que a Justiça paulista está dando demonstrações de que não tem interesse em investigar a fundo aquelas mortes.

“O ouvidor federal falou para nós que o procurador não ia pedir a federalização porque o estado de São Paulo tinha tecnologia de primeiro mundo para tocar a investigação. Agora, vamos pedir por escrito e denunciar para a OEA [Organização dos Estados Americanos]”, explica Débora. “Eu temo pela minha vida, mas não tenho medo, porque não tenho mais o que perder, o bem maior era meu filho.”

“Estou esperando ela chegar até hoje”

Depoimento de Márcia Aparecida de Almeida Silva Ferreira, mãe de Talita Cristine de Almeida Silva, morta aos 20 anos no Guarujá, em 14 de maio

“Era dia das mães. Estava todo mundo bebendo, farreando na casa do meu sogro. Minha filha estava na casa da avó. Aí eu disse que estava mal, angustiada, e meu marido e eu voltamos para casa. Quando chegamos, tinham tocado fogo em um ônibus aqui perto. E depois tentaram invadir a casa de um policial que morava na vizinhança. Liguei para a minha mãe para ela impedir que a Talita voltasse para casa. Depois de 15 minutos a menina chegou em casa, brava porque eu tinha assustado a avó.

Aí ficamos no portão conversando. Os olhos dela brilhavam, a pele estava limpinha. Estava toda brilhosa. Eu comentei que ela estava linda. Ela se levantou, me deu um beijo e brincou. ‘Sou filha da Márcia, sou gostosa’. Aí um rapaz da frente chamou ela. Ele queria um celular emprestado. Ela pediu para o irmão ir buscar. Nós entramos e ela ficou lá. De repente, eu escutei os cinco pipocos. Parecia que era dentro de casa. Na hora, eu botei a mão na cabeça e gritei: ‘Minha filha!’ Quando olhei, vi meu marido gritando com a mão na cabeça no meio da rua. Ele só disse que ela e o vizinho tinham tomado um tiro de raspão. Só depois minha filha mais velha disse que ela não ia voltar. Ela levou dois tiros na cabeça. Eu entrei em desespero. Quase enlouqueci.

Disseram na rua que um policial viu tudo e só deu um tiro para cima, aí eu reclamei com ele: ‘Só atirou para cima por quê? Era seu colega?’. Depois disso, ele foi embora do bairro. Os outros vizinhos que viram os homens também foram embora do bairro. Eles estavam de capuz, mas só cobriam os olhos e foram reconhecidos pelo rapaz que estava com a Talita. Ele chegou a gritar, antes de ser baleado: ‘Pai, é o fulano!’ Mas ninguém quer falar sobre isso, todos estão com medo. Todos os que viram foram embora do bairro. Ninguém fez nada. Arquivaram o caso. Meu marido foi tentar ver o inquérito e brigaram com ele: ‘O que você quer com isso depois de todo esse tempo?’

Eu quero que seja investigado. Minha filha não era vadia, não era suja. Mesmo que fosse, não merecia isso. Eu só quero justiça. Eu não sou mais a mesma mulher. Eu não tenho mais paz, não tenho mais sossego. O que eu sinto não desejo para mulher nenhuma.

A menina trabalhava. Cuidou de mim quando eu estava doente. Era amada por todos. Ela era muito amada. Isso destruiu minha família. Mas eu quero limpar o nome dela. A gente sabe que ela não devia nada para ninguém. Ela tinha trabalho. Tinha 20 anos, mas era uma criança. Eu estou esperando ela chegar até hoje para pôr ela na cama.”

(*) Reportagem reproduzida da revista Fórum.

A morte não terá domínio

Luis Fernando Verissimo – O Estado de S.Paulo

Li que Samuel Beckett dizia que quem morria passava para outro tempo. Não queria dizer outro mundo, com um presumível outro clima. Referia-se ao tempo do verbo. Entre todas as mudanças provocadas pela morte havia essa: o morto passava irremediavelmente ao pretérito. Era bom pensar assim. A morte acontecia no mundo antisséptico das palavras e das regras gramaticais, nada a ver com a decomposição da carne. O “é” transformava-se em “era” e “foi”, e pronto. A migração do morto, em vez de ser da vida para o nada, era só entre categorias verbais.

A vida vista como uma narrativa literária nos protege do horror incompreensível da morte. Podemos nos imaginar como protagonistas de uma trama, que mesmo quando não é clara indica alguma coerência, em algum lugar. O próprio Beckett só escreveu sobre isso: a busca de uma trama, qualquer trama, por trás do aparente absurdo da experiência humana. E um enredo, ou um sentido que faça sentido, só pode ser buscado na narrativa literária, no encadear de palavras que leva a uma revelação, mesmo que esta não explique nada, muito menos a morte. E se falar, falar, falar sem cessar, como fazem os personagens do Beckett na esperança de que aflore algum sentido não der resultado, pelo menos está-se fazendo barulho e mantendo a morte afastada. A literatura tem essa função, a de uma fogueira no meio da escuridão da qual a morte nos espreita. Ou de uma matraca contra o silêncio final. Vale tudo, mesmo a garrulice incoerente de um personagem do Becket, contra a escuridão e o silêncio.

Num poema que fez sobre seu pai moribundo Dylan Thomas o insta a reagir ferozmente contra o esvaecer da luz – “Rage, rage against the dying of the light” – e a não se entregar à morte sem uma briga. Não sei se o Beckett encontrou o consolo que procurava pelos seus mortos na ideia de que tinham apenas mudado de tempo de verbo mas imagino que, como Dylan Thomas na sua poesia inconformada, tenha recorrido à literatura como um meio de negar à morte o seu triunfo. Ninguém morre. Há apenas uma revisão na narrativa da sua vida para atualizar o tempo dos verbos. Outra vez Dylan Thomas: “And death shall have no dominion”, e a morte não terá domínio.

Diz-se que quem morreu “já era”, o que é o mesmo que dizia o Beckett com mais sensibilidade. Mas Beckett queria dizer mais. Os personagens de narrativas literárias mudam do tempo presente para o tempo passado mas continuam no mundo, mesmo que no mundo restrito dos livros e das estantes. Salvo, talvez, os cupins e as traças, nada ameaça a sua perenidade. “São” eternamente.

ONU cria outra forma de medir riqueza; Brasil fica em 5ª posição

SABINE RIGHETTI
ENVIADA ESPECIAL AO RIO

A ONU lançou no domingo (17) na Rio+20 uma nova forma para avaliar o desempenho econômico dos países. A diferença para os índices existentes, como PIB (Produto Interno Bruto) e IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) é que nesse os recursos naturais entram na conta.

A métrica, batizada de IRI (Índice de Riqueza Inclusiva), inclui, no cálculo do crescimento econômico dos países, recursos como áreas agrícolas, florestas, combustíveis fósseis e reservas minerais.

Eles compõem o indicador de recursos naturais, um dos quatro analisados pelo IRI (veja infográfico).

Editoria de arte/Folhapress

O objetivo, dizem os criadores da fórmula, é analisar o desempenho da economia e abater da conta a quantidade de patrimônio natural que os países perdem, à medida que o PIB cresce.

“Há países que tiveram um crescimento recente do PIB explorando seus recursos naturais. Mas essas fontes são esgotáveis”, explica Anantha Duraiappah, diretor executivo do Programa Internacional de Dimensões Humanas da Universidade das Nações Unidas, que criou o índice.

A equipe da ONU analisou, no período de 1990 a 2008, o desempenho do IRI em 20 países dos cinco continentes –incluindo o Brasil. Esses países somam 56% da população e 72% do PIB mundial.

POSIÇÃO BRASILEIRA

O Brasil está em 5º lugar na média de crescimento do IRI per capita no período avaliado (com crescimento de 0,9%), empatado com Japão, Reino Unido e Índia. Trocando em miúdos: o Brasil obteve o 5º melhor crescimento econômico com sustentabilidade no período.

Mas isso não é exatamente uma boa notícia. De acordo com a ONU, o Brasil perdeu 25% dos seus recursos naturais de 1990 a 2008. Isso significa que o IRI do Brasil pode cair no futuro.

Dos 20 países, 14 estão crescendo no IRI, ou seja, estão conseguindo progredir ao mesmo tempo em que preservam suas riquezas naturais.

O melhor índice foi o da China, com 2,1% de crescimento no período. Já a Nigéria, país com pior desempenho, teve uma queda de 1,8%, mas seu PIB per capita aumentou de 2,5% no mesmo recorte temporal.

“Isso mostra que analisar o PIB per capita não é suficiente para avaliar se a economia de um país é sustentável”, explica Duraiappah.

COMPETIÇÃO

A ideia do IRI, dizem seus criadores, não é “concorrer” com o PIB ou com o IDH, mas sim possibilitar novas formas para analisar o desempenho dos países, principalmente a longo prazo.

“São métricas complementares”, afirmou Pablo Muñoz, diretor científico do UNU-IHDP. O indicador é uma resposta da ONU às críticas de que o PIB, principal métrica econômica vigente, está desatualizado. “O PIB é um pouco defasado, pois foi criado no pós-guerra, em outro contexto histórico”, disse.

O IRI não concorre com alternativas como o FIB (Felicidade Interna Bruta), adotado no Butão, que considera o bem-estar das pessoas. “O FIB avalia as pessoas e não a situação macroeconômica do país. São objetivos diferentes”, diz Duraiappah.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ambiente/1106299-onu-cria-outra-forma-de-medir-riqueza-brasil-fica-em-5-posicao.shtml

É a biologia, estúpido

hélio schwartsman

Não é preciso integrar movimentos como o Occupy Wall Street para chegar à conclusão de que a turma do mercado financeiro cometeu tolices que levaram à crise de 2008, cujas repercussões ainda assombram o mundo. Na verdade, agiram com intemperança semelhante na bolha anterior e em todas as que a antecederam. Como é possível? Eles não aprendem nada?

John Coates, ex-banqueiro convertido à neurociência e à endocrinologia, acaba de publicar o livro “The Hour Between Dog and Wolf”, em que procura explicar o fenômeno recorrendo à biologia, mais especificamente a hormônios e neurônios.

É uma obra interessante. Coates sustenta que as ondas de exuberância irracional e pessimismo que desestabilizam a finança global podem ser fruto de alterações fisiológicas nos corpos dos operadores, em resposta às idas e vindas do mercado.

Quando os ganhos são fartos e o sujeito está por cima, são liberadas substâncias como a testosterona, que favorecem apostas de risco. Nessas horas, o mercado fica cego para a possibilidade de desastre e, amparados por mecanismos altamente abstratos e potencialmente catastróficos, como derivativos, banqueiros criam verdadeiras bolhas financeiras que, mais cedo ou mais tarde, estouram.

E, se as coisas vão mal, sai a testosterona e entram moléculas como o cortisol, que exacerba o pessimismo. Nessas ocasiões, até bons negócios são vistos com as lentes do derrotismo, e o mercado cai ainda mais.

Como é difícil alterar a biologia humana, Coates sugere que mudemos algumas práticas da banca que, em vez de contrabalançar nossas vulnerabilidades fisiológicas, contribuem para realçá-las. Para o autor, deveríamos ter mais mulheres nas mesas de arbitragem.

Elas são menos sensíveis aos poderes inebriantes da testosterona. Outra medida urgente é redesenhar o sistema de bônus, que hoje empurra os operadores para riscos pouco razoáveis.

Hélio Schwartsman

Hélio Schwartsman é bacharel em filosofia, publicou “Aquilae Titicans – O Segredo de Avicena – Uma Aventura no Afeganistão” em 2001. Escreve na versão impressa da Página A2 às terças, quartas, sextas, sábados e domingos e às quintas no site.

Partidos e estados campeões em acusações criminais

Mato Grosso, Alagoas, Amazonas e Rondônia têm mais da metade de seus representantes no Congresso sob investigação. PRB, PP, PMDB, PSC e PR estão entre os partidos com maior percentual de investigados

EDSON SARDINHA E SYLVIO COSTA

Claudio Versiani

Mato Grosso é o estado com maior número de políticos processados. E o PMDB o partido com maior número de encrencados

A relação das quase duas centenas de parlamentares que respondem a ações que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF), como mostra levantamento publicado na edição número 3 da Revista Congresso em Foco, que chega às bancas nesta semana, é democrática: reúne desde políticos sem grande expressão, do chamado “baixo clero”, até ocupantes de funções de destaque no Congresso. São 13 presidentes de comissões permanentes, nove líderes partidários, sete titulares ou suplentes da Mesa Diretora, oito membros da CPI do Cachoeira e 20 integrantes do Conselho de Ética da Câmara e do Senado, além de uma infinidade de ex-governadores e ex-prefeitos.

Em quatro estados, mais da metade da bancada federal responde a acusações no STF: Mato Grosso, Alagoas, Amazonas e Rondônia. O caso mais crítico é de Mato Grosso, que tem oito de seus 11 representantes no Congresso (73%) às voltas com denúncias criminais.

Só cinco dos 22 partidos com assento no Parlamento federal não possuem representantes acusados criminalmente, mas são bancadas pouco expressivas do ponto de vista numérico. A maior delas é a do Psol, que tem três deputados e um senador. Proporcionalmente, os partidos mais encrencados são, em ordem decrescente, o PRB, o PP, o PMDB, o PSC e o PR. Varia entre 50 e 40% o percentual de parlamentares desses partidos que estão sob investigação. Isso para não falarmos dos nanicos PMN e PRP, que atingiram 100%. Têm um só deputado cada, e ambos respondem a denúncias no STF. Em números absolutos, o PMDB mantém confortável liderança, seguido por PP, PT, PSDB e PSD.

Fonte: http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/manchetes-anteriores/processos-veja-as-bancadas-mais-enroladas/

O estranho asilo do Cachoeira boliviano

Decisão do Brasil concede ao senador Molina Pinto impunidade contra processos judiciais previstos na Constituição boliviana

Vamos imaginar que, às vésperas de sua prisão pela Polícia Federal, Carlinhos Cachoeira tivesse fugido para Brasília e se abrigado na embaixada boliviana, alegando perseguição política do governo brasileiro por suas notórias ligações com a oposição de direita e a imprensa conservadora. Mais ainda: que a chancelaria do país vizinho, em nome de tradição humanitária, concedesse asilo ao bicheiro.

Pois foi exatamente isso, com os sinais trocados, que fez o Itamaraty, dando proteção diplomática ao senador Roger Pinto Molina, do partido Convergência Nacional. Além de participante em conspirações ilegais para a derrubada do presidente Evo Morales, o parlamentar responde a processos de corrupção quando era governador na província de Pando, além de ser acusado pela matança de índigenas em 2009 e ligações com o narcotráfico.

Temeroso por seu futuro, e no afã de criar um fato que lhe fosse favorável, Pinto bateu às portas da representação brasileira em La Paz, solicitando formalmente status de asilado político. Não é uma operação inédita. Diversos representantes da oligarquia boliviana, cujos laços com o crime organizado são históricos, apelam para o autoexílio e declaram-se “perseguidos”.

Decisão brasileira
A surpresa reside na decisão do Itamaraty.  Ao atender pedido do Cachoeira boliviano, concede-lhe impunidade contra processos judiciais previstos na Constituição de um país sob a vigência do Estado de Direito. O oposto do caso Zelaya, em Honduras, quando um presidente legítimo havia sido derrubado por um golpe institucional, na calada da noite.

Para piorar, além da cumplicidade de fato com um possível criminoso, tal resolução da chancelaria foi tapa na cara do governo boliviano, na prática se alinhando com o discurso reacionário que questiona o caráter democrático do governo de Evo.

A efetivação do asilo, no entanto, depende da Bolívia conceder salvo-conduto para Pinto sair da embaixada e atravessar a fronteira. Mas La Paz não aceita, negando-se a afiançar fuga de um possível delinquente. O Brasil fica, por obra e graça do Itamaraty, em posição escocha.

Agora, quem pariu Mateus que o embale.

Fonte: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/23122/o+estranho+asilo+do+cachoeira+boliviano.shtml

Ativista afirma que discussões sobre futuro de SP favorecem setor imobiliário

Suzana Vier

Ativista afirma que discussões sobre futuro de SP favorecem setor imobiliário

Viaduto do Chá, tradicional ponto do centro de São Paulo, cidade que pode ser transformada para privilegiar mercado imobiliário (Foto: Jefferson PancieriSPTuris/SP2040)

São Paulo – No futuro, a capital paulista poderá ser mais poluída, barulhenta, mais quente e intensamente verticalizada. Esse quadro ainda pior do que os paulistanos vivem na atualidade pode se tornar realidade se a prefeitura da capital paulista colocar em prática alguns conceitos em discussão no “Plano SP 2040”, avalia o diretor de comunicação do Movimento Defenda São Paulo, Sérgio Reze. A ONG faz parte do conselho consultivo que discute o plano – de iniciativa da administração municipal – e vê equívoco nos conceitos que foram escolhidos para nortear a São Paulo do futuro, como a noção de “cidade compacta”. Também há problemas na forma como a consulta à população foi realizada.

“O conceito de cidade compacta foi importado da Alemanha, mas de cidades muito menores, que não têm um milhão de habitantes”, disse Reze. “Mas querem colocar esse conceito em São Paulo, que já é espraiada. É totalmente diferente a necessidade.”

A ideia de cidade compacta foi incorporada à consulta pública que a prefeitura encerrou no final de 2011, por meio de questionário no site do SP2040. Segundo Reze, a administração de Gilberto Kassab (PSD) partiu de conceitos prontos e superficiais que não refletem as necessidades dos moradores de cada região da cidade. “Essa primeira etapa não propiciou discussão da base para cima, dos locais que as pessoas vivem para cima”, afirmou. “É muito genérico quando você pergunta se as pessoas querem chegar em 30 minutos em qualquer lugar, porque afinal todo mundo quer. Indagar se as pessoas querem uma cidade agradável, segura, todo mundo quer.”

Diante das respostas já esperadas da população à consulta, o ativista teme que o conceito de cidade compacta sirva “para legitimar o desejo do setor imobiliário de verticalizar cada vez mais São Paulo. Vai continuar o processo de saturação do meio ambiente inclusive urbano”.

De acordo com o site do projeto, o SP2040 discute um “plano de longo prazo que pretende orientar uma ampla transformação da cidade nas próximas décadas, apontando para formas de organização social, econômica, urbana e ambiental que assegurem o uso inteligente dos seus recursos e promovam melhores condições de vida para a população”. Entre outros planos para o futuro da cidade, “a São Paulo de 2040 deve se tornar uma base eficiente do ponto de vista territorial e funcional garantindo um bom desempenho urbano para exercer um papel decisivo na internacionalização da economia nacional”.

Ainda segundo a descrição do projeto, “os pesados investimentos necessários para atingir esses patamares terão sido realizados com base tanto na prioridade orçamentária quanto na capacidade de antecipar recursos por meio de parcerias público-privadas lastreadas na valorização dos ativos da cidade. Terá sido fundamental São Paulo assumir e intensificar sua vocação histórica de centro financeiro e de negócios constituindo-se em polo global de atração de investimentos e principal referência no hemisfério sul”.

Sem horizonte

O ativista do Movimento Defenda São Paulo analisa que aumentar a verticalização de São Paulo sem resolver problemas de infraestrutura irá piorar a vida na cidade. “A gente não tem infraestrutura de saneamento, rede coletora de esgoto, transporte coletivo. Primeiro a prefeitura deveria resolver esses problemas para reorganizar posteriormente onde for possível”, disse. “Quando você põe muitos prédios juntos cria ilhas de calor e efeito estufa, impede a dispersão de poluentes, cria problemas de ruído, diminui a capacidade de circulação do ar e onde tem muitos prédios concentrados não há linha de horizonte.”

Embora a discussão sobre o futuro de São Paulo seja muito bem vista, a ideia de tentar implantar uma cidade compacta, em uma que já é espraiada, pode significar novo impulso ao setor imobiliário. “Dentro do projeto SP2040 há viés de cidade compacta, apontando que será mal usado, para mais uma vez favorecer o setor imobiliário”, afirma.

Reze já vê traços de aplicação desse conceito na área central da capital paulista, onde a prefeitura tenta emplacar o projeto Nova Luz. A medida, que pretende revitalizar a região da Luz com privatização do bairro, enfrenta resistência de moradores e comerciantes da região. A intervenção prevê a reforma de 45 quarteirões com desapropriação de até 50% dos imóveis da região por empresa privada. Segundo lojistas, a privatização do bairro da Luz abre brechas para a privatização de outros bairros e submissão da população aos interesses da iniciativa privada.

“Não se pode usar o conceito da cidade compacta para pegar lugares da cidade onde tudo já está construído e as pessoas já vivem, para legitimar o que o setor imobiliário quer, como o que está ocorrendo na Nova Luz. A área precisa de uma requalificação, mas não destruir tudo para verticalizar intensamente”, disse Reze.

Fonte: http://www.redebrasilatual.com.br/temas/cidades/2012/05/discussoes-sobre-futuro-de-sao-paulo-favorecem-setor-imobiliario-diz-ativista

O socialismo de Obama

Por 5 votos a 4 e com recurso a todo tipo de sutilezas hermenêuticas, a Suprema Corte dos EUA considerou válidas as linhas mestras da lei de planos de saúde do presidente Barack Obama.

Os EUA vivem a paradoxal situação de ter a melhor medicina do planeta e o pior sistema de saúde do mundo desenvolvido. E a razão para isso, perdoem-me os ultraliberais, é que existem setores em que a regulação estatal é imprescindível. A saúde é um deles. Nela, os desequilíbrios e imperfeições são tantos que deixar as forças de mercado atuarem livremente resulta em perdas para a maioria.

Cerca de 25 milhões de americanos ou não têm seguro ou contam com planos que não cobrem seus gastos. Mas, por lei, os hospitais estão obrigados a atender qualquer pessoa durante emergências. Assim, esse grande contingente de subsegurados “se trata” correndo para os prontos-socorros em situações de crise.

É exatamente o contrário do que preconiza a boa medicina e ainda faz com que as despesas fiquem muito maiores do que seria possível, caso o paciente recebesse atendimento precoce e contínuo. Os hospitais, é claro, repassam esse custo para as seguradoras, que empurram a batata para os consumidores. No fim das contas, estes pagam muito caro para estarem no sistema, e quem não está recebe um tratamento indigente.

A lei de Obama faz o óbvio. Obriga todos a ter plano de saúde (ou pagar uma taxa especial) e oferece subsídios para quem não pode arcar com um. A oposição não gostou. Chamou Obama de socialista (palavrão no dialeto republicanês) e disse que a iniciativa era uma interferência indevida do Estado na vida do cidadão.

É uma reação muito mais ideológica do que lógica. O princípio da contribuição compulsória e da divisão de custos, afinal, paira sobre todas as instituições financiadas por impostos. Entre elas estão alguns xodós dos republicanos, como a polícia, os bombeiros e o Exército.

Hélio Schwartsman

Hélio Schwartsman é bacharel em filosofia, publicou “Aquilae Titicans – O Segredo de Avicena – Uma Aventura no Afeganistão” em 2001. Escreve na versão impressa da Página A2 às terças, quartas, sextas, sábados e domingos e às quintas no site.

Descoberta de calendário maia confirma “data final” em 2012

Descoberta de calendário maia confirma “data final” em 20122

Por Rossella Lorenzi

Uma antigo inscrição foi encontrada em uma floresta da Guatemala, confirmando a “data final” do calendário maia em 21 de dezembro de 2012.

Considerado um dos hieróglifos mais significativos encontrado em décadas, a inscrição de 1.300 anos contém a segunda referência conhecida à “data final”, mas não prevê o fim do mundo.

“O texto versa sobre a história da política daquela época, não uma profecia”, explica Marcello A. Canuto, diretor do Instituto de Pesquisas Mesoamericanas da Universidade de Tulane, em New Orleans.

Esculpida em uma escada de pedra, a inscrição foi encontrada nas ruínas de La Corona, nas selvas densas do noroeste da Guatemala, por uma equipe internacional de arqueólogos chefiados por Canuto e Tomás Barrientos, da Universidade del Valle de Guatemala.

Os arqueólogos fizeram a descoberta quando escavaram diante de um edifício em ruínas, danificado há quase 40 anos por saqueadores que procuravam pedras e túmulos.

“Sabíamos que eles tinham encontrado algo importante, mas acreditávamos que haviam deixado algo para trás”, afirma Barrientos.

De fato, os arqueólogos não só recuperaram dez pedras hieroglíficas descartadas, mas um objeto que os saqueadores sequer notaram: um degrau intocado, com doze pedras primorosamente esculpidas, ainda em sua posição original.

Formada pelo degrau recém-descoberto e os demais blocos saqueados, a escada original continha 264 hieróglifos, o mais longo texto maia conhecido e o maior já encontrado na Guatemala.

Segundo David Stuart, diretor do Centro Mesoamericano da Universidade do Texas em Austin, que decifrou os hieróglifos, a inscrição relata 200 anos da história de Corona.

Com 56 hieróglifos delicadamente esculpidos, a pedra que se refere ao ano de 2012 comemorava uma visita real a La Corona (que os antigos mais chamavam de Saknikte’), realizada pelo governante Yuknoom Yich’aak K’ahk’, da grande capital maia de Calakmul, em 29 de janeiro de 696 d.C.

Também conhecido como Garra de Fogo ou Pata de Jaguar, Yuknoom Yich’aak K’ahk’ havia sofrido uma derrota militar no ano anterior, durante uma guerra com uma inimiga de longa data de Calakmul, a cidade de Tikal (onde hoje situa-se Peten, na Guatemala).

“Os estudiosos acreditavam que o rei de Calakmul havia morrido ou sido capturado nessa batalha, mas o novo texto La Corona revela outra versão”, explica Stuart.

Após a derrota, o governante maia visitou La Corona e talvez outros aliados na tentativa de acalmar seus temores.

Para os arqueólogos, a referência a 2012 seria uma estratégia política do rei de Calakmul para recuperar a confiança de La Corona depois da fragorosa derrota.

A chave para entender a referência a 2012 está em um título peculiar que o rei concedeu a si mesmo, afirmam os pesquisadores.

No texto, ele se intitula “senhor do 13º K’atun”, o rei que presidia e celebrava um importante ciclo do calendário maia no ano de 692.

Para exaltar sua figura e conferir longevidade a seu reinado, o rei maia associou seu nome a uma data no futuro, o próximo período em que o calendário maia retornaria ao número 13: 21 de dezembro de 2012.

Descoberta de calendário maia confirma “data final” em 2012

“Foi uma época de grande turbulência política, e esse rei achou por bem adotar um ciclo de tempo mais longo, que terminava em 2012″, esclarece Stuart.

A descoberta é coerente com a única outra referência à data final nas antigas inscrições maias: o Monumento 6, de Tortuguero, México.

“Essa inscrição revela que, em tempos de crise, os antigos maias utilizavam o calendário para promover a continuidade e a estabilidade, e não para prever o Apocalipse”, conclui Canuto.

Fotos: AP

Fonte: http://blogs.discoverybrasil.uol.com.br/noticias/

Governo destina US$ 10 bilhões para salvar bancos estrangeiros

Para os servidores públicos, reajuste é zero

Estamos de pleno acordo com a presidente Dilma, que, há 10 dias, em Belo Horizonte, declarou que “mais uma vez as autoridades da zona do euro respondem a uma crise que se aprofunda e que se torna uma crise quase crônica com 100 bilhões de euros para financiamento aos bancos. A pergunta é, até quando? Vamos lembrar bem que no fim do ano passado foram 1 trilhão de euros também para os bancos”.

Talvez por isso, nos pareceu estranho o anúncio, na reunião do G-20, em Los Cabos, de que o governo brasileiro se comprometeu a contribuir com US$ 10 bilhões a mais para o FMI. Nos pareceu tão estranho que resolvemos conferir a nota de madame Lagarde, diretora-gerente daquela instituição.

Infelizmente, madame, que fez carreira como advogada de multinacionais norte-americanas (portanto, não bate prego sem estopa), fornece uma lista detalhada dos 12 países – o anúncio diz 37, mas os outros, da “zona do euro”, já haviam se comprometido em abril – que resolveram colocar mais dinheiro no FMI para ser enfiado em bancos europeus, e, por tabela, nos norte-americanos, que são a origem dos “derivativos” em que aqueles se afundaram.

Os EUA não fazem parte dessa lista de desprendidos contribuintes do FMI. Mas o Brasil está lá, com US$ 10 bilhões. Na América Latina, além do nosso governo, somente os do México e da Colômbia subscreveram esse estipêndio (cf. IMF, Press Release Nº 12/231, June 19 2012).

Como o representante do Brasil nas reuniões do FMI é o ministro Mantega (suplente: Tombini), não sabemos ainda o que a presidente Dilma achou dessa filantrópica iniciativa.

Pois, o objetivo desse dinheiro extra para o FMI é tacitamente claro – até porque jamais se ouviu falar que o FMI incentivasse a produção, o emprego ou o crescimento. Madame Lagarde, aliás, esmerou-se em não deixar dúvidas: trata-se de apoiar a “aplicação de sólidas medidas de política econômica – em particular as implementadas pelo Banco Central Europeu – e o fortalecimento da gestão de governo na zona del euro, assim como as reformas e o ajuste aplicado em países como Itália, Espanha e Grécia” (sic).

Em suma, trata-se de saquear os povos da Europa – e os nossos – em prol de bancos falidos (“sistemas financeiros ainda frágeis”, na língua de madame) que colocaram os países centrais no atoleiro atual. Lá pelas tantas, madame Lagarde resolveu consertar um esquecimento. Eis o que saiu: “o desemprego é igualmente preocupante”.

Portanto, diz a sensível senhora, a situação de meia dúzia de banqueiros e a de dezenas de milhões de trabalhadores sem emprego é “igualmente” preocupante.

O que quer dizer – mas isso todo mundo já sabia – que se depender dela, ou do FMI, os desempregados que se danem. Logo em seguida vem uma profissão de fé na pilhagem dos Estados, através dos juros: “a política fiscal – isto é, os estabilizadores automáticos – cumprirá uma função importante”.

Enquanto isso, no Brasil, nós precisamos urgentemente, para voltar a crescer, de expandir o mercado interno – o que significa aumento real de salários. No entanto, há uma greve gigantesca de funcionários públicos federais (ver página 5), e os negociadores do governo parolam sobre a “crise internacional” para não dar nem reajuste, portanto, para reduzir o salário real dos servidores públicos.

Como disse o professor Theotonio dos Santos, como nós um apoiador do governo da presidente Dilma, sobre o problema dos professores universitários, “esta greve é séria. Parece que as autoridades nacionais não estão entendendo o grau de descontentamento salarial existente na universidade. Há algo errado. Talvez seja a falta de diálogo pois não há reivindicações absurdas. Temos muitos inimigos comuns. Não podemos abrir flancos para eles. Não há tempo para hesitações”.

Porém, parece que a equipe econômica prefere aplacar os inimigos com US$ 10 bilhões, ao invés de contemplar as justas reivindicações do funcionalismo – que são apenas uma forma modesta de investir no atendimento público à população.

A auditora fiscal Maria Lúcia Fatorelli demonstrou algo irretorquível – no primeiro quadrimestre, segundo o Tesouro Nacional, o pagamento de salários e encargos sociais do funcionalismo somou o seguinte, neste ano e no ano passado:

- 2011: R$ 58.338.901.000;

- 2012: R$ 59.445.162.000.

A diferença entre um ano e outro é de 2% (a rigor, 1,89%). No entanto, a inflação dos 15 meses que vão de janeiro de 2011 até abril de 2012 foi 8,38% (IPCA). Ou, se usarmos como índice o INPC, 7,81%.

Logo, isso significa que na comparação entre o primeiro quadrimestre deste ano e o mesmo período do ano passado, os servidores saíram perdendo, pelo menos, 6%, se pudéssemos aplicar essa perda linearmente a todos os salários. Como não podemos (há categorias sem reajuste há três anos – entre elas os delegados da PF, os funcionários do Itamaraty e os auditores da Receita) a perda de muitos é maior. “O aumento de apenas 2% no gasto com o conjunto de servidores corresponde apenas a progressões automáticas de carreira e poucas contratações”, diz a auditora, que comenta:

No mesmo período comparado, os gastos com juros e amortizações da dívida pública federal subiram extraordinariamente em 40%, de R$ 263,9 bilhões nos 4 primeiros meses de 2011 para R$ 369,2 bilhões no mesmo período de 2012. O montante de R$ 369,2 bilhões gastos de janeiro a abril/2012 representam nada menos que 6 vezes mais que todos os gastos com pessoal, ativos, aposentados e pensionistas, de todas as carreiras de servidores federais, de todos os poderes”.

Além de tudo isso – US$ 10 bilhões para reforçar o caixa do FMI?

Os montante gasto com salários dos servidores cresceu mais que a inflação até 2010. Aproveitando a ideia da auditora, comparemos o aumento desse montante no primeiro quadrimestre, desde 2004 (em 2003, o orçamento ainda foi elaborado pelo governo Fernando Henrique), em relação ao ano anterior (entre parênteses, a inflação, pelo INPC): 2004: +10,14% (inflação: 6,13%); 2005: +10,32% (inflação: 5,05%); 2006: +13,60% (inflação: 2,81%); 2007: +13,66% (inflação: 5,16%);2008: +6,63% (inflação: 6,48%); 2009: +25,34% (inflação: 4,11%); 2010: +6,50% (inflação: 6,47%).

O montante de pagamentos de salários no primeiro quadrimestre superou a inflação desse período. Embora, não houve uma completa recomposição nos salários, pois o arrocho do governo Fernando Henrique foi tão brutal que “para que os salários retornassem ao mesmo poder de compra de 1º (primeiro) de janeiro de 1995, o reajuste necessário sobre os salários de dezembro/2000 deveria ser de 75,48%” (Dieese, “A questão salarial dos servidores públicos federais”, Brasília, julho de 2001).

No entanto, houve algum esforço para minorar a situação dos servidores – isto é, para melhorar o atendimento ao povo. Mas agora temos uma equipe econômica com um credo de outras épocas: nenhum aumento para os funcionários, US$ 10 bilhões para o FMI, dinheiro a rodo para os bancos  – e estagnação.

CARLOS LOPES

Hora do Povo

Pepe Mujica é o presidente mais pobre do mundo

Como prometido antes da eleição, o presidente do Uruguai José Pepe Mujica ainda mora em sua pequena fazenda em Rincon del Cerro, nos arredores de Montevidéu. A moradia não poderia deixar de ser modesta, já que o dirigente acaba de ser apontado como o presidente mais pobre do mundo.

Mujica

Mujica com seu fusca; presidente doa 90% de seu salário

Pepe recebe 12.500 dólares mensais por seu trabalho à frente do país, mas doa 90% de seu salário, ou seja, fica somente com 1.250 dólares ou 2.538 reais ou ainda 25.824 pesos uruguaios. O restante do dinheiro é distribuído entre pequenas empresas e ONGs que trabalham com habitação.

“Este dinheiro me basta, e tem que bastar porque há outros uruguaios que vivem com menos”, diz o presidente.

Aos 77 anos, Mujica vive de forma simples, usando as mesmas roupas e desfrutando a companhia dos mesmos amigos de antes de chegar ao poder.

Além de sua casa, seu único patrimônio é um velho Volkswagen cor celeste avaliado em pouco mais de mil dólares. Como transporte oficial, usa apenas um Chevrolet Corsa. Sua esposa, a senadora Lucía Topolansky também doa a maior parte de seus rendimentos.

Sem contas bancárias ou dívidas, Mujica disse ao jornal El Mundo, da Espanha, que espera concluir seu mandato para descansar sossegado em Rincon del Cerro.

Com El Guia Latino

São Paulo tem só 2,6 metros quadrados de verde por pessoa

Algumas áreas da cidade tem apenas 0,29 metros quadrados de praças e parques por habitante

AE

Ibirapuera: Apesar de ter a segunda maior área de Mata Atlântica do País , São Paulo tem resultado geral menor do que Curitiba com 64,2 metros quadrados por cidadão

A mancha urbana de São Paulo tem 2,6 metros quadrados, em média, de área verde pública de lazer – que engloba praças e parques – por pessoa, segundo estudo da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente. A média geral já é considerada baixa por especialistas, mas alguns bairros, na região central e na periferia, enfrentam paisagens ainda mais cinzentas. Mesmo com a maior área de mata da cidade, Parelheiros, por exemplo, tem 0,29 metros quadrados de praças e parques por habitante, pior resultado.

Para medir o verde da cidade, a Prefeitura usa dois índices diferentes. No primeiro, composto apenas por áreas públicas que podem ser frequentadas pela população, a capital deixa a desejar. O segundo, que inclui grandes áreas de preservação ambiental fora do perímetro urbano e nos extremos da cidade, como as Serras do Mar e da Cantareira, é de 12,5 metros quadrados de área verde por pessoa, atingindo a meta internacional de 12 metros quadrados por habitante.

Apesar de ter a segunda maior área de Mata Atlântica do País (atrás de Santa Catarina), São Paulo tem resultado geral menor do que Curitiba, por exemplo, com 64,2 metros quadrados por cidadão.

Os critérios de medição criam polêmica entre os especialistas. "O problema de São Paulo é distribuição espacial de cobertura vegetal, com índices bons em áreas rurais e em bairros como Pacaembu e Jardim Europa, e baixíssimos no centro", afirma a geóloga Patrícia Sepe, do Departamento de Planejamento Ambiental da Secretaria do Verde.

A Mooca, na zona leste, por exemplo, é um dos locais que apresentam situação crítica. Lá, o índice de verde por habitante é de 0,35 metros quadrados. Como na maioria da cidade, a falta de planejamento é responsável pelo excesso de concreto.

Fonte: Agência Estado

Dois terços dos brasileiros não sabem o que é consumo sustentável

Pesquisa divulgada hoje pelo Ministério do meio ambiente mostrou também que a maioria dos brasileiros nunca ouvido falar sobre Rio+20

iG São Paulo

Uso de sacolas retornáveis e separação de lixo são apontadas como ações para ajudar na proteção do meio ambiente

Dois em cada três brasileiros não sabe o que significa o termo consumo sustentável. A constatação é da pesquisa O Que o Brasileiro Pensa do Meio Ambiente e do Consumo Sustentável, divulgada nesta quarta-feira (6) pelo Ministério do Meio Ambiente. Um terço acha que consumo sustentável significa evitar desperdício de água e energia, enquanto que 9% acreditam que se trata de consumir produtos que façam bem à saúde e 3% que seja comprar produtos mais baratos.

Entre aqueles que disseram saber do que se trata, 54% disseram que consumo sustentável é consumir produtos que não agridam o meio ambiente nem a saúde humana.

A pesquisa mostrou que 81% dos brasileiros ficariam motivados para comprar produtos cultivados organicamente e 85% para adquirir produtos fabricados de forma ambientalmente correta. Mas não faria diferença para 14% das pessoas comprar produtos orgânicos ou, para 12%, adquirir produtos ambientalmente corretos.

Sobre a coleta seletiva de resíduos, a pesquisa constatou que 52% dos entrevistados disseram não fazer separação de lixo em suas casas para reciclagem. Um número muito maior (86%) de brasileiros, no entanto, entende que separar o lixo pode ajudar na proteção do meio ambiente.

Os brasileiros também disseram ter conhecimento de outras medidas importantes para ajudar na proteção do ambiente: reduzir o consumo de energia elétrica (61% dos brasileiros), eliminar o desperdício de água (58%), reduzir o consumo de gás em casa (22%) e participar de mutirões de reflorestamento ou limpeza (15%) entre outros.

A sondagem ainda mostrou que 63% dos brasileiros dizem economizar bastante água, 29% adotam algumas medidas para reduzir o consumo de água e 6% pretendem fazer economia desse bem. A pesquisa O Que o Brasileiro Pensa do Meio Ambiente e do Consumo Sustentável foi realizada pelo instituto CP2 em abril deste ano.
Preocupação com o meio ambiente
 Aproximadamente 13% dos brasileiros dizem ter preocupação com o meio ambiente. O percentual é mais do que o dobro do registrado há seis anos (6%). De acordo com o levantamento, o meio ambiente está em sexto lugar na lista de preocupações dos brasileiros, ficando atrás de saúde/hospitais (81%), violência/criminalidade (65%), desemprego (34%), educação (32%) e políticos (23%). Há seis anos, o meio ambiente aparecia na 12ª colocação, à frente apenas de reforma agrária e dívida externa. Em 1992, ano da primeira pesquisa, o tema era sequer citado.

"Isso é resultado de um maior acesso à informação. Mas o meio ambiente também é visto como problema, e não como uma oportunidade", disse a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira.

O principal problema ambiental citado pelos brasileiros é, desde a primeira pesquisa, o desmatamento de florestas (neste ano, com 67%). Outros principais problemas são a poluição de rios e lagoas (47%), a poluição do ar (36%), o aumento do volume do lixo (28%), o desperdício de água (10%), a camada de ozônio (9%) e mudanças do clima (6%).

Também são citados como problemas: extinção de animais/plantas (6%), falta de saneamento (3%), poluição por fertilizantes (3%), consumo exagerado de sacolas plásticas (3%) e falta de conscientização ambiental da população (2%).

Rio+20 e o desconhecimento
A menos de duas semanas para o início da Conferência da ONU Rio+20, 78% dos brasileiros afirmaram nunca terem ouvido falar sobre o evento. De acordo com a mesma pesquisa, 53% dos entrevistados nunca tinham ouvido falar sobre o termo desenvolvimento sustentável, tema da conferência que reunirá uma centena de chefes de Estado e de Governos nos próximos dias 20, 21 e 22, no Rio de Janeiro.

A Rio+20 será realizada 20 anos depois da Cúpula da Terra de 1992, que sentou as bases do desenvolvimento sustentável e também foi realizada no Rio de Janeiro.

(Com informações da EFE e da Agência Brasil)

Nariz de pinóquio ou de tucano?

Waldemar Rossi

Uma feliz coincidência a publicação pelo Diário de São Paulo de reportagem sobre a precariedade da Saúde Pública no estado e na cidade de São Paulo. Coincidência porque o início da série de reportagens de Fábio Pagotto se deu no primeiro domingo da quaresma, início da CF-2012 (Campanha da Fraternidade de 2012). A CF deste ano tem como tema “Fraternidade e Saúde Pública” e como lema “Que a Saúde se difunda sobre a Terra", frase extraída do livro Eclesiástico (38, 8)*.

O repórter visitou três AMAs (Assistência Médica Ambulatorial) na capital paulista e, em resumo, detectou o seguinte: filas enormes, carência de médicos e de funcionários. Em Parelheiros, a espera é em média de 4 horas para o atendimento, consultas sem os devidos exames e receita de medicamentos sem o diagnóstico preciso. No Jardim Mirna não havia clínico geral e no Jardim Campinas não havia médico.

Entrevistado, o cardiologista Paulo Zuppo Júnior revelou que trabalhou para o SUS por três meses, mas saiu por falta de condições, pois precisava atender mais de 80 pacientes em plantão de apenas 12 horas, além da falta de remédios, de insumos e de mais profissionais e agentes de segurança. “Não posso colocar a vida dos pacientes em risco dessa maneira!”, afirmou. Revelou ainda que o AME (Ambulatório Médico de Especialidades) de Guaianazes ficou sem pediatra por quatro meses.

Segundo o presidente do Simesp (Sindicato dos Médicos de São Paulo), é uma vergonha a situação de alguns hospitais, comentando as mortes que ocorrem no Hospital das Clínicas. Revelou ainda que dos 55 mil médicos da cidade de São Paulo, 2/3 (mais de 37.000) estão no centro expandido, enquanto a periferia é carente desses profissionais. Por contradição, é justamente na periferia que moram os principais construtores desta cidade.

O governador Geraldo Alckmin reconheceu que faltam médicos nos hospitais da rede pública do estado e da cidade. Fez mais uma das suas tradicionais promessas, afirmando que irá apresentar um pacote para estimular a presença de médicos no SUS. Enquanto isso vai intensificando a terceirização do atendimento nos hospitais do estado e até no Hospital do Servidor Público Estadual. Colocou setores do Hospital das Clínicas – criado para atender gratuitamente a população do estado – a serviço de pacientes de convênios particulares, oferecendo-lhes o melhor e mais rápido atendimento, enquanto os mais necessitados esperam em longas filas, seja para o atendimento, seja para diagnósticos mais exigentes. E quantos morrem antes de serem diagnosticados?

Quanto ao pacote prometido para estimular a presença de médicos no SUS, nada mais é que um paliativo, pois todo o sistema de Saúde Pública está com carências estruturais e precisa ser reestruturado. A reestruturação exige investimentos que estão sendo canalizados para empresas particulares (OS – Organizações Sociais), que recebem1/3 do orçamento da saúde na cidade (mais de R$ 2 bilhões). Essas OSs deveriam aprimorar o sistema de saúde, entretanto, fazem dele uma fonte de lucro particular. Enquanto essa reestruturação não vem, as famílias dos trabalhadores de baixa renda padecem pela falta de atendimento adequado.

É bom lembrar que Geraldo Alckmin, médico, e seu partido (PSDB) estão no governo paulista desde 1994, portanto, há 17 anos. Foi vice de Covas, foi titular quando Covas faleceu e eleito governador em seguida. Seu sucessor, Serra, é do mesmo partido e seguiu a mesma política de precarização. Eleito em 2010, Alckmin cumpre nada menos que 13 anos à frente do estado de São Paulo. A decadência da Saúde Pública estadual é, portanto, de sua inteira responsabilidade. Os desmandos e desvios de verbas para outros fins são também de sua responsabilidade. Se a Justiça do estado – e do país – agisse conforme a boa ética, ele e tantos outros estariam respondendo por crimes contra a vida.

A Campanha da Fraternidade, portanto, encontrou uma boa alavanca no estado e na cidade de São Paulo, pois as denúncias circuladas por parte da imprensa vêm dar suporte às suas propostas: chamar a atenção da população para o caos na saúde pública no Brasil, incentivar à participação popular nos órgãos de controle do sistema de saúde e reforçar o movimento popular que luta para a implantação de uma política de investimentos públicos em áreas vitais para o povo. A saúde em primeiríssimo lugar.

Quanto às promessas do governador, que as vem repetindo há anos, dá pra acreditar? Alguns exemplos para elucidar o assunto: durante a campanha eleitoral de 2010, prometeu publicamente que iria decretar a redução nos pedágios nas estradas de rodagem do estado. Porém, autorizou novos aumentos já no ano de 2011. Na área da saúde, vem afirmando com freqüência que o convênio com as OSs melhorou o atendimento. Entretanto, impera o descaso total, sobretudo na periferia. Não é o nariz do Pinóquio que está crescendo, é o do tucanato.

*O Livro Eclesiástico não consta das traduções das igrejas protestantes

Waldemar Rossi é metalúrgico aposentado e coordenador da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo.

Jogador negro é comparado a King Kong

Gianni Carta

Balotelli (à dir.) disputa lance com Ashley Cole, da Inglaterra. Foto: Damien Meyer / AFP

Balotelli (à dir.) disputa lance com Ashley Cole, da Inglaterra. Foto: Damien Meyer / AFP

Em cima do Big Ben jaz Mario Balotelli, o atacante da equipe italiana de futebol. Ele não desfere bofetadas em aviões como King Kong no topo do arranha-céu novaiorquino Empire State Building, mas chuta bolas de futebol.

É o que vemos na inoportuna caricatura de Valerio Marini na edição de terça-feira do diário italiano Gazetta dello Sport.

Segundo Marini, a ideia era mostrar Balotelli, que joga pelo Manchester City, a dominar a equipe inglesa nas quartas de final da Eurocopa, ou Copa da UEFA, a competição entre clubes europeus. Isso no domingo, em Kiev, quando os italianos venceram os ingleses nos pênaltis.

Marini não convence.

E nem os editores do Gazetta dello Sport, diário de maior tiragem da Bota. Eles publicaram as seguintes linhas: “Nesses tempos precisamos ser mais cautelosos e moderados, mas sempre lutamos contra o racismo, sempre julgamos inaceitável quando Balotelli é vaiado”.

No entanto, Marini e o diário sequer pediram desculpas a Balotelli pela infeliz caricatura.

Balotelli, nascido em Palermo e adotado aos dois anos por uma família italiana, é o primeiro jogador negro da equipe nacional italiana. Costuma provocar controvérsia por onde passa, mas ao mesmo tempo esse filho de pais biológicos ganenses é sempre vítima de ataques racistas.

Na primeira vez em que adentrou o campo com uma camisa da equipe nacional italiana num jogo contra a Romênia leu numa faixa: “Não para um time multiétnico”.

Na Eurocopa torcedores espanhóis e croatas fizeram imitações de macaco ao ver Balotelli. Um croata jogou uma banana em campo.

Balotelli avisou antes do evento que sairia de campo se fosse vítima de ataques racistas. Michel Platini, presidente da União das Federações Europeias de Futebol (UEFA, na sigla em inglês), retrucou: “Se ele fizer isso receberá cartão amarelo”.

Platini deixou transparente que o racismo não será erradicado do futebol europeu.

Fonte:

http://www.cartacapital.com.br/internacional/balotelli-jogador-negro-e-comparado-a-king-kong/#.T-21qb6md3g.facebook

Vinho de 3 mil anos é encontrado em tumba na China

Um vinho de 3 mil anos foi descoberto na China, de acordo com a agência de informações Xinhua News. Os arqueologistas acharam a bebida, ainda em estado liquido, em um recipiente, enterrada em uma tumba na montanha Shigushan, em Baoji, na Província de Shaanxi.

divulgação

Vinho de 3 mil anos de idade encontrado em uma tumba na China

A tumba é da Dinástia Zhou, de 1046 a 771 A.C., segundo o líder do projeto, Liu Jun, que também é diretor da equipe do Instituto de Arqueologia de Baoji. Ele disse que  recipiente, um dos 6 descobertos na tumba, ainda não foi aberto, mas é possível perceber o líquido quando chacoalhado.

De acordo com o relatório, a descoberta mais importante na tumba, foi uma placa de aviso, que lembrava os cidadãos de beberem com moderação, já que durante a Dinástia Shang, antes da Dinástia Zhou, o vinho se tornou um símbolo de corrupção e excesso.

Fonte: http://revistaadega.uol.com.br/Edicoes/0/Artigo262359-1.asp

Fóssil jurídico

Não sou de dar razão aos iranianos, mas, se um país prevê a pena de morte em sua legislação e a aplica, execuções públicas são a consequência racional. Na verdade, as autoridades de Teerã poderiam ser recriminadas por não televisionar em horário nobre os enforcamentos, tão horripilantemente relatados por meu amigo Samy Adghirni na Folha de domingo.

Se há uma posição que não faz sentido é a dos EUA, de utilizar a sanção capital, mas aplicá-la quase envergonhadamente, mantendo-a tão asséptica quanto possível. Para entender melhor o que está em jogo, é preciso voltar às duas concepções básicas de Justiça. A mais antiga é a lei de talião, o "olho por olho, dente por dente" da Bíblia. Tecnicamente, leva o nome de justiça retributiva. Não difere muito da vingança. Aplica-se a pena porque o réu a "merece", noção que só faz sentido quando se dispõe de Deus ou outra muleta metafísica que sustente uma ideia de justiça perigosamente platônica.

Esse conceito começou a ser questionado no século 18 por autores como Cesare Beccaria e Jeremy Bentham. A partir daí ganhou força a noção utilitarista de que a pena tem como objetivo não a punição pela punição, mas a manutenção da ordem. O criminoso até pode ser isolado da sociedade para não voltar a delinquir, mas o propósito da sanção é desencorajar outras pessoas de imitá-lo. Daí a necessidade de processos públicos.

O problema com a pena capital é que ela não passa de um fóssil jurídico. Pesquisas nessa área são um campo minado ideológico, mas os melhores trabalhos sugerem que seu valor dissuasório, se existe, é muito baixo. Quando se considera a probabilidade de erros judiciais e irrevogabilidade da morte, o menor lampejo de racionalidade recomenda aboli-la.

Essa, aliás, seria uma proposta interessante para o governo enviar ao Congresso, já que, tecnicamente, a pena de morte ainda existe no Brasil em caso de guerra declarada.

Hélio Schwartsman

Hélio Schwartsman é bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans – O Segredo de Avicena – Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve na versão impressa da Página A2 às terças, quartas, sextas, sábados e domingos e às quintas no site.

Abaixo-assinado SOS Carlos Gomes: pela paralisação imediata das obras do Cine-Theatro

SOS Carlos Gomes
Caminhando pelo centro de Santo André e mais uma vez nos surpreendemos com o estado das obras de reforma do Cine Teatro Carlos Gomes.
Um patrimônio cultural está sendo destruído e não há aprovação do COMDEPHAAPASA (conselho formado pela sociedade civil e representantes do governo municipal que cuida da defesa do patrimônio cultural de Santo André), não há consideração à memória do lugar, não há responsável técnico pela obra, não há detalhamento do que se vai fazer, não há cuidado com o bem. Já soubemos que a estrela central de gesso foi retirada do forro e se quebrou, certamente devido à falta de profissionais tecnicamente gabaritados para removê-la com o cuidado que mereceria.
A aprovação do COMDEPHAAPASA é uma obrigação legal para a intervenção em um bem tombado. É o momento em que se discute a intervenção e se negocia a melhor forma para que um lugar pleno de memória receba um uso adequado à preservação dos valores culturais. É o que se exige do proprietário particular. Ter um projeto é exigência para qualquer obra – particular ou pública. Como explicar uma intervenção pública sem projeto, uma licitação sem orçamento ou uma intervenção em um bem tombado sem uma empresa especializada?
Por notícias de jornal, vamos conhecendo detalhes da intervenção: a justificativa da obra é criar um espaço exclusivo para a Orquestra Sinfônica de Santo André a um custo que se iniciou com 2,6 milhões de reais, depois a soma chegou a 3,5 milhões de reais e hoje versa em 5 milhões de reais. Como avaliam o valor de uma obra sem um projeto arquitetônico?
Um projeto dessa envergadura e que remete a uma obra em um local de importante significado simbólico para a cidade como é o Cine Theatro Carlos Gomes, mais antigo teatro da região e um dos mais antigos do país, deve ser apresentado e debatido coletivamente. Além do dever legal de aprová-lo junto ao Comdephaapasa, deveria, antes do início das obras, ser apresentado em audiência pública a todos interessados que queiram ter ciência dos rumos que este bem cultural tomará a partir de uma proposta de reforma, readequação ou restauro. Essa atitude seria o mínimo para uma gestão pública preocupada com a memória da cidade e a história desse equipamento cultural.
Destacamos que no passado o Cine Theatro Carlos Gomes já esteve na berlinda, com o risco de uma demolição iminente quando o cinema foi fechado e o movimento SOS Carlos Gomes conquistou a preservação deste edifício e de suas memórias, nossas memórias, envolvendo cerca de 25 mil pessoas que assinaram um manifesto pela recuperação do cinema. Foi esta movimentação que fez com que o velho cinema fosse reconhecido por seu valor cultural, com o de tombamento homologado pelo Prefeito em 1992.
Novamente é hora de retomar o movimento de preservação do nosso Cine-Theatro em REPÚDIO À FORMA AUTORITÁRIA E IRRESPONSÁVEL que a Prefeitura de Santo André age nesse espaço que tantas lembranças guarda para o desenvolvimento de Santo André e do Grande ABC. Pelo fim imediato das obras!
Pela salvaguarda da memória de toda a região ABC!

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Abelhas Ocupadas

Polinizadoras de orquídeas são tão promíscuas quanto suas plantas preferidas

Rose Eveleth

Há muito biólogos acreditam que abelhas e orquídeas são igualmente interdependentes. Os insetos polinizam orquídeas em troca do aromas das flores que os machos usam para atrair fêmeas. Acreditava-se que os dois organismos evoluíram juntamente, mas um estudo conduzido por Santiago Ramírez, biólogo evolucionista da University of California em Berkeley, publicado na Science no final de 2011, revelou que as abelhas surgiram antes, propondo que as duas são mais independentes do que se pensava anteriormente.

O texto de Ramírez mostra que, embora as orquídeas pareçam bem adaptadas às abelhas – tendo desenvolvido odores que as abelhas apreciam e mecanismos para depositar pólen no corpo dos insetos –, as abelhas são muito menos especializadas. Elas coletam aromas de mais de 700 espécies de plantas e polinizam várias delas. “As abelhas e plantas interagem, mas sabemos pouco sobre como essas redes de interação evoluem”, segundo Ramírez.

Maior conhecimento sobre as abelhas poderia ajudar cientistas a entender seu papel na polinização de orquídeas tropicais, muitas delas em perigo de extinção. As abelhas correm perigo, ameaçadas pelo desmatamento e degradação da terra nativa nas Américas do Sul e Central, e são pressionadas também por processos que dizimam o hábitat e fontes de alimento. André Nemésio, pesquisador da Universidade Federal de Uberlândia, que estuda essas criaturas esquivas, preocupa-se que esse aprendizado sobre as abelhas não será rápido o suficiente para salvá-las. “Abelhas de orquídeas são solitárias e tímidas; quase não são vistas na floresta”, observa ele. Além disso, como ninguém sabe exatamente a importância das abelhas para as plantas polinizadas por elas ou para seus predadores, as consequências de perdê-las são outro mistério.

De areia

Luiz Fernando Verissimo

Início do conteúdoLuiz Fernando Verissimo – O Estado de S.Paulo

O homem estava caminhando na praia e passou por um garoto que fazia uma construção de areia. Parou para olhar. Lembrou-se do seu tempo de garoto, quando também gostava de fazer aquilo.

- Bonito, o seu castelo de areia – disse o homem para o garoto.

O garoto olhou para o homem. Depois falou:

- Não é castelo.

- O que é então?

- Condomínio fechado.

Mais tarde, no grupo que se reunia para um papo à beira-mar, todos mais ou menos da mesma idade, o homem contou que o que lhe parecera serem as torres do muro do castelo na verdade eram guaritas para os guardas do condomínio, segundo o garoto.

- Vejam vocês. Que fim levaram os castelos de areia da nossa infância?

- A realidade do garoto é essa – disse alguém. – No outro dia minha neta quis saber por que a Cinderela não deu o número do celular dela pro príncipe.

- O curioso é o pulo, de castelo para condomínio fechado. Do feudalismo para a paranoia contemporânea, sem etapas intermediárias.

Quinhentos anos de arquitetura ignorados.

- Mas os castelos feudais não deixavam de ser condomínios fechados.

E os condomínios fechados não deixam de ser fortalezas medievais.

- Portanto o garoto, na verdade, é um gênio da síntese.

No dia seguinte o homem avistou o garoto no mesmo lugar da praia. Viu com satisfação que ele dava os retoques finais na sua obra, fazendo escorrer areia molhada da mão nos pontos mais altos da sua construção. Talvez ele tivesse decidido a fazer um castelo, afinal. Castelos eram irresistíveis, seu fascínio atravessava o tempo e as gerações. O homem perguntou se o que o garoto estava fazendo era ornamentos para os torreões do castelo.

- Não – disse o garoto.

- O que é então?

- Antenas parabólicas.

O homem seguiu seu caminho, suspirando.

Ranking: USP aparece entre as 50 melhores do mundo em 6 disciplinas

A Universidade de São Paulo (USP) apareceu entre as 50 melhores do mundo em seis das 29 disciplinas avaliadas no ranking publicado nesta quarta-feira pela Quacquarelli Symonds University Rankings (QS), organização internacional que avalia o desempenho de instituições de ensino. A melhor colocação da instituição foi na disciplina de comunicação e mídia, em que conquistou o 11º lugar. A USP também ficou bem colocada em Filosofia (44º), Geografia (31º), História (27º) Estatística e Pesquisa Operacional (48º) e Educação (43º).

Veja outros rankings de universidades

O QS World University Rankings by Subject 2012 elaborou listas divididas em cinco grandes áreas: Arte e Humanidades, Engenharia e Tecnologia, Ciências da Vida e Medicina, Ciências Naturais e Ciências Sociais e Gerenciamento. Cada disciplina inclui um total de 200 instituições.

Em comunicação, a USP ficou com 85 pontos, enquanto a primeira da lista, a Stanford University, nos Estados Unidos, teve média de 94,8. A instituição, que liderou o QS University Rankings: Latin America, divulgado em junho, aparece no ranking de todas as disciplinas, com exceção de Direito e Contabilidade e Finanças, que não contam com nenhuma universidade do Brasil.

As outras instituições brasileiras que aparecem na lista são Universidade Estadual de Campinas, Fundação Getulio Vargas, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade Federal do Rio Grande Do Sul, Universidade de Brasilia, Universidade Federal de Minas Gerais, Pontificia Universidade Católica de São Paulo, Universidade Federal de São Carlos, Universidade Federal de São Paulo.

Fonte: http://noticias.terra.com.br/educacao/noticias/0,,OI5876632-EI8266,00-Ranking+USP+aparece+entre+as+melhores+do+mundo+em+disciplinas.html

A lista de Schindler brasileira

REDAÇÃO

“A lista de Schindler” é um filme comovente, acerca de um alemão que salvou a vida de centenas de judeus, empregando-os em suas fábricas de armamento destinado aos exércitos de Hitler.

Pois bem, há uma brasileira que fez o mesmo que Schindler e em circunstâncias bem mais difíceis e perigosas do que ele, posto que, enquanto Schindler atuava às claras, protegido pelos altos militares a quem subornava, a brasileira realizava atividade ilegal, suscetível de severa punição caso fosse descoberta.

Esta brava compatriota, nascida no Paraná, veio a falecer em 2011. Chamava-se Aracy Moebius Guimarães Rosa e era mulher do famoso autor do “Grande Sertão, Veredas”. A ela, Guimarães dedicou essa obra prima.

Nos anos trinta do século passado, Guimarães ocupava o cargo de cônsul no Consulado Brasileiro de Hamburgo. Em razão disso, Dona Aracy, sua mulher, tinha acesso ao local. Com a cumplicidade do cônsul, seu marido, ela fornecia passaportes falsos a judeus, o que lhes permitia passar incólumes pela fiscalização dos nazistas na hora em que embarcavam nos navios que os conduziriam ao exterior.

Essa extraordinária pessoa, chamada pelos judeus de “O anjo de Hamburgo”, é a única brasileira que recebeu a honra de figurar, junto com apenas outras dezoito pessoas, no Museu do Holocausto em Jerusalém. No entanto, essa excepcional figura não obteve, até hoje, uma única homenagem pública em sua terra natal.

De se lembrar ainda que, de volta ao Brasil, escondeu em sua casa, durante o pior período da repressão dos militares contra opositores do regime, Geraldo Vandré e Franklin de Oliveira.

Felizmente a omissão poderá ser, em breve, corrigida: o deputado Paulo Teixeira (PT-SP) solicitará das autoridades do Ministério da Educação a colocação do nome de Da. Aracy em uma das Escolas Técnicas do país. Além disso, solicitará da Petrobrás, BNDES, ou outra autarquia do governo federal, verba para realizar um filme sobre a vida e a empreitada salvadora de Da. Aracy na Alemanha.

Fonte: Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

Tarifas de contas bancárias sobem até 41% em um ano

Por: Redação da Rede Brasil Atual

Estudo divulgado pela Fundação Procon de São Paulo mostrou que os sete maiores bancos de varejo subiram as tarifas cobradas pelos serviços de contas bancárias em até 41% entre maio de 2011 e maio de 2012.

A principal elevação se deu no pacote Itaú Econômico, que foi de R$ 9,50 para R$ 13,45 ao mês. No geral, o Itaú foi a instituição financeira que mais aumentou os preços de seus serviços, em 20 dos 27 pacotes analisados – 17 deles já não permitem novas contratações. Em termos percentuais, o Bradesco veio a seguir, com elevação de 30,6% no Cesta Fácil, que em maio de 2011 custava R$ 13,40 e agora sai por R$ 17,50. A mesma elevação recaiu sobre a Cesta Bradesco Prime Básica, que tem o mesmo custo. A Cesta Celular (29,41%), a Cesta Básica de Serviços (22,94%), a Cesta Completa (20,95%) e a Cesta Universitária (14,29%) também sofreram reajustes.

Na Caixa Econômica Federal, com cinco variações de serviços, a conta Fácil teve o maior reajuste na tarifa, de 30,61%, chegando a R$ 12,80. O pacote Super subiu 20%, chegando a R$ 15 ao mês. No caso do Banco do Brasil, dos 28 pacotes comercializados, oito são novos, dois continuam isentos, 12 não sofreram alteração e seis aumentaram o valor da mensalidade. As maiores variações foram de 10%, sobre os pacotes Modalidade 5 e Modalidade 10, que passaram a custar, respectivamente, R$ 9,90 e R$ 11.

O HSBC aumentou o valor de quatro dos nove pacotes comercializados. Em termos percentuais, a maior elevação se deu no Básico, que foi de R$ 15 a R$ 18 por conta do ajuste de 20%. Já os clientes do Banco Safra viram o maior reajuste sobre o pacote Básico, de 27,78%, com custo de R$ 46. No Santander, o único serviço que sofreu variação foi o Especial Max, de 3,07%, indo de R$ 32,60 para R$ 33,60.

A orientação dada pelo Procon ao consumidor é verificar se os serviços isentos de tarifa são suficientes para suas necessidades, evitando o pagamento de uma tarifa. Caso o cliente tenha de recorrer a um pacote, é preciso ver aquele que melhor se adequa aos serviços que são efetivamente utilizados – há muitos itens que não são necessários. “A quantidade de pacotes é muito grande, com nomenclaturas e composição distintas, o que dificulta a comparação e a escolha que o consumidor deve fazer ” , disse o diretor executivo da Fundação Procon-SP, Paulo Arthur Góes, em comunicado emitido pela entidade.

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Nas cavernas do Danúbio, as primeiras notas

JOHN NOBLE WILFORD

Nos últimos anos, arqueólogos descobriram no sudoeste alemão os primeiros resquícios de arte e música deixados pelos humanos modernos que migraram da África para a Europa. Agora, novos estudos revelam que os mais antigos instrumentos musicais do mundo -flautas feitas de ossos de aves e marfim de mamute- são mais velhos do que se pensava.

A equipe de Thomas Higham, da Universidade de Oxford, divulgou em maio o aprimoramento dos testes de radiocarbono, o que permitiu datar os ossos das flautas em 42 a 43 mil anos. A idade coincide com a época em que os primeiros humanos de anatomia moderna se espalhavam pela Europa Central, presumivelmente ao longo do vale do Danúbio.

Os testes anteriores apontavam uma idade de 35 mil anos para as flautas, assim como outros artefatos encontrados em cavernas perto de Ulm (Alemanha) e nas cabeceiras do Danúbio, como estatuetas de marfim de mulheres voluptuosas. A flauta de osso mais bem preservada, com cinco furos para os dedos, foi recolhida na caverna de Hohle Fels. A nova análise com radiocarbono se baseou em um material recolhido na caverna Geissenklösterle.

Diante dos primeiros relatos sobre a flauta de 35 mil anos, alguns acadêmicos demoraram para rever suas avaliações sobre as mudanças culturais decorrentes da chegada dos humanos modernos, que substituiriam os neandertais nativos, 30 mil anos atrás.

Isso porque datações por radiocarbono anteriores a 30 mil anos podem não ser confiáveis.

No entanto, Nicholas Conard, arqueólogo da Universidade de Tübingen, na Alemanha, um dos autores do estudo, diz que as novas descobertas são “consistentes com a ampla gama de inovações vindas do Alto Danúbio”,

Após a descoberta de vários pedaços de flautas, amostras de arte figurativa e notáveis decorações nas cavernas, Conard disse que as novas datas amparam a tese de que o Danúbio foi “um importante corredor de migrações humanas e transmissões tecnológicas rumo à Europa Central entre 40 mil e 45 mil anos atrás”.

Segundo as pesquisas feitas por Higham, os ossos submetidos à datação foram enterrados nas mesmas camadas de terreno que as flautas da caverna de Geissenklösterle. Eles foram tratados contra contaminações por uma ultrafiltração avançada.

Os resultados, escreveram os pesquisadores, “implicam que as datas anteriores se deveram a uma descontaminação insuficiente do colágeno ósseo”.

Se as novas datas estiverem corretas, dizem os cientistas, os humanos modernos passaram pela região do Alto Danúbio -fazendo música- antes da Era do Gelo, há 39 mil anos.

Na cronologia baseada nas datas mais recentes para as flautas, supunha-se que eles tivessem esperado o clima melhorar antes de percorrer o Danúbio.

Vaticano diz que escândalo de corrupção abala confiança na Igreja

DA REUTERS, EM ROMA

O Vaticano negou na segunda-feira, em meio à maior crise no pontificado de Bento 16, notícias de que cardeais seriam suspeitos em uma investigação sobre o vazamento de documentos, num caso que já levou à prisão do mordomo do papa.

De acordo com a imprensa italiana, o mordomo Paolo Gabriele era apenas um “leva-e-traz” numa disputa de poderes na Santa Sé. O escândalo estourou na semana passada, quando o chefe do banco do Vaticano foi repentinamente demitido, o mordomo foi detido por acusações de furto de documentos, e foi publicado um livro apontando conspirações entre os cardeais.

Os documentos vazados para os jornalistas denunciam corrupção no vasto relacionamento financeiro entre a Igreja e empresas italianas.

Embora negando a veracidade dos relatos, o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, disse numa entrevista coletiva que “isso é naturalmente algo que pode afetar a Igreja, e testar a confiança nela e na Santa Sé”.

Lombardi negou que “qualquer cardeal, italiano ou não, seja suspeito”. Ele acrescentou que o papa está sendo informado do assunto, e que “continua no seu caminho de serenidade, na sua posição de fé e moral que está acima da refrega”.

Carlo Fusco, advogado do mordomo, disse que ele está “muito sereno e tranquilo”, e que pretende colaborar com as investigações.

BODE EXPIATÓRIO

Uma fonte anônima e responsável pelo vazamento de alguns documentos disse ao jornal italiano “La Reppublica” que o mordomo está sendo usado como bode expiatório, porque a Igreja não ousa implicar os cardeais responsáveis pelos vazamentos.

“Há vazadores entre os cardeais, mas o Secretariado de Estado não podia dizer isso, então prenderam o servidor, Paolo, que estava só entregando as cartas em nome de outros”.

Ao “La Stampa”, o responsável por um dos vazamentos afirmou que o objetivo das denúncias é ajudar o papa a erradicar a corrupção.

O Secretariado de Estado, órgão administrativo do Vaticano, é comandado pelo cardeal Tarcisio Bertone, poderoso braço-direito do papa, e o escândalo parece envolver uma disputa de poder entre seus aliados e inimigos, evocando as conspirações renascentistas na Santa Sé.

www1.folha.uol.com.br/mundo

Dupla (e pesada) jornada

Jorge Grosso
Colômbia