Daily Archives: 06/06/2012

A maior metáfora do mundo

Verissimo – O Estado de S.Paulo

Faz 100 anos que o “Titanic” foi ao fundo e o aniversário do naufrágio está tendo quase tanta cobertura quanto o próprio naufrágio. Há exposições sobre o navio e seu fim em várias cidades da Europa e discute-se outra vez desde as minúcias do desastre, como a desatenção do comando do navio aos vários alertas de icebergs na rota, até seu significado maior. Um jornal satírico americano fez uma edição inteira lembrando o acidente e seus intérpretes cuja manchete principal era “Maior metáfora do mundo bate em iceberg e afunda”. Que o trágico fim da maior coisa construída pelo homem até então era uma metáfora ninguém discutia. Mas qual, exatamente, a metáfora?

O naufrágio do “Titanic” marcava o fim tardio do século 19 e sua confiança ilimitada no progresso tecnológico. Como um castigo a mais pela pretensão do século que findava, dali a dois anos toda a nova engenhosidade da era estaria engajada nas máquinas de morte da Grande Guerra e a tragédia precursora do “Titanic” simbolizaria um adeus à inocência. Chamado de indestrutível, o “Titanic” desafiara os deuses, como os titãs do mito, e, como os titãs, fora destruído pelos deuses – metaforicamente. Outra metáfora: nada simboliza a divisão de classes como a divisão das classes num navio como o “Titanic!”, onde os viajantes do porão, inclusive as crianças, tiveram poucas chances de escapar com vida. O “Titanic” também era o mundo do privilégio ostensivo e da massa descartável metaforizado.

Cherbourg, na Normandia, tem uma razão especial para lembrar o “Titanic”. Seu porto foi uma das duas escalas feitas pelo navio depois de deixar Southampton. Estivemos há dias na simpática Cherbourg – que também foi um porto importantíssimo durante a Segunda Guerra Mundial e é a terra dos guarda-chuvas filmada por Jacques Demy, com música de Michel Legrand. Fomos visitar sua exposição dedicada ao “Titanic”. Excelente. No rádio do carro, não, não Michel Legrand, mas, juro, Ai Se Eu Te Pego. Simbolizando, pensando bem, nada.

Choque de gerações

Josanildo Dias de Lacerda
Salvador – BA

DIVERSIDADE LINGUÍSTICA E ECOLÓGICA AMEAÇADA

CAROLINA DE ASSIS

70% dos idiomas do mundo são encontrados nas regiões biologicamente mais ricas

Imagem via Wikimedia Commons

Diversidade ecológica e diversidade linguística estão intrisicamente ligadas: é a conclusão de umestudo de quatro pesquisadores estadunidenses, informa o site da revista Mother Jones. Pesquisas anteriores já haviam sugerido a concomitância de áreas de grande diversidade biológica e linguística, mas os dados empíricos eram limitados; neste novo estudo, os autores utilizaram dados recentemente compilados que indicam a localização geográfica de mais de 6900 idiomas, e os compararam com a localização de áreas conhecidas por sua grande biodiversidade, de acordo com a classificação da organização Conservation International.

Os cientistas concluíram que 70% dos idiomas do mundo são encontrados nas regiões biologicamente mais ricas, e que assim como as espécies de plantas e animais ameaçadas, muitos deles também correm risco de extinção. Eles examinaram 35 regiões com um número excepcionalmente alto de espécies endêmicas, que perderam pelo menos 70% do seu habitat. Estas áreas correspondem a apenas 2,3% da superfície terrestre, mas contém mais da metade das plantas vasculares e 43% dos vertebrados terrestres existentes no planeta. Elas também são o berço de 3202 idiomas – quase metade das línguas faladas no mundo todo.

Segundo o site, biólogos estimam que a perda anual de espécies hoje seja mil vezes maior do que as taxas históricas, e linguistas preveem que entre 50 e 90% dos idiomas existentes atualmente desapareçam até o fim deste século. “Aparentemente, as condições que eliminam espécies também eliminam linguagens”, afirma o autor principal do estudo, Larry Gorenflo, da Universidade do Estado da Pensilvânia, nos EUA. “Acredito que esta é uma boa justificativa para que os esforços de conservação sejam integrados para manter a diversidade biológica e cultural.”

Os pesquisadores não sabem explicar a coexistência de áreas com altas concentrações de espécies e idiomas ameaçados, mas acreditam que as culturas indígenas, amparadas por suas línguas nativas, criam as condições ideais para a preservação de espécies e ecossistemas. “Dada a capacidade humana de dominar e frequentemente erradicar outras espécies, a importância da relação entre as pessoas e os ambientes naturais que elas habitam não pode ser subestimada na conservação da biodiversidade”, escrevem os autores.

Fonte: http://www.revistasamuel.com.br/conteudo/view/19846/Diversidade_linguistica_e_ecologica_ameacada.shtml