Daily Archives: 05/06/2012

“Deixando pistas da repressão”

Yosimaro Sakita
Bastos – SP

Estudo da OIT identifica quase 21 milhões de pessoas vítimas de trabalho forçado no mundo

O combate ao trabalho escravo é uma das prioridades da agenda da OIT de promoção dos direitos humanos no Brasil. Foto de João Roberto Ripper (1999).

Quase 21 milhões de pessoas são vítimas de trabalho forçado no mundo, sendo 90% delas exploradas em atividades da economia privada, por indivíduos ou empresas, revela um estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT) lançado hoje (1/07). Já a participação de Estados foi identificada na exploração do trabalho forçado em 2,2 milhões dos casos, em prisões que violam normas internacionais ou atividades impostas por forças armadas rebeldes ou exércitos nacionais.

O estudo, intitulado “Estimativa Global da OIT sobre Trabalho Forçado 2012″, detalha as diferentes violações e a incidência nos setores da economia: 4,5 milhões (22%) são vítimas de exploração sexual forçada e 14,2 milhões (68%) são vítimas de exploração do trabalho forçado em atividades econômicas como agricultura, construção civil, trabalho doméstico ou industrial.

“Percorremos um longo caminho nos últimos sete anos desde quando apresentamos as primeiras estimativas sobre o número de pessoas em trabalho ou serviços forçados no mundo. Também tivemos progresso ao assegurar que a maioria dos países tenham uma legislação que penalize o trabalho forçado, o tráfico de seres humanos e as práticas análogas à escravidão”, declarou Diretora do Programa Especial de Ação para Combater o Trabalho Forçado da OIT, Beate Andrees.

Observando a idade dos trabalhadores forçados, 5,5 milhões (26%) estão abaixo de 18 anos. A região de Ásia e Pacífico apresenta o número mais alto de trabalhadores forçados no mundo, com 11,7 milhões de vítimas (56 % do total geral), seguida pela África, com 3,7 milhões (18%) e América Latina, com 1,8 milhão (9%).

Acesse aqui o estudo completo da OIT e clique aqui para ler o resumo com os principais fatos.

Fonte: http://www.onu.org.br/estudo-da-oit-identifica-quase-21-milhoes-de-pessoas-vitimas-de-trabalho-forcado-no-mundo/

A CPI do escárnio

FREI BETTO

Escárnio s.m. 1- o que é feito ou dito com intenção de provocar riso ou hilaridade acerca de alguém ou algo; caçoada, troça, zombaria 2- atitude ou manifestação ostensiva de desdém, de menosprezo, por vezes indignada 3- aquilo que é objeto de desdém, ironia ou sarcasmo (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa).

A CPI do Cachoeira ameaça, com perdão da redundância, se transformar em pura cascata… A impressão que se tem é de mero palanque para políticos em busca de holofotes.

A função precípua – apurar a extensa malha de corrupção envolvendo empresas privadas, empresas de fachada (“laranjas”) e poder público – não se sobressai como prioridade e empenho da maioria dos parlamentares responsáveis pelo inquérito.

Tudo que se sabe, até agora, é graças à investigação da Polícia Federal. Felizmente ela vazou e ficamos a par das conversas telefônicas entabuladas à sombra da ilegalidade. E de como mandatos senatoriais são monitorados pelo crime organizado.

Ocorre que nem os advogados dos réus se mostram interessados em se debruçar sobre as peças acusatórias reunidas pela Polícia Federal. É inócua a sala que guarda, a sete chaves, os documentos. As provas adormecem nos bastidores, enquanto os parlamentares buscam o brilho dos palcos.

Já não se trata de apurar, e sim de blindar. O silêncio clamoroso de Carlinhos Cachoeira encontra eco no silêncio cúmplice das bancadas representadas na CPI e vinculadas a governadores suspeitos. “Se tu descartas o meu, haverei de livrar o teu”, parece dizer um partido ao outro.

Não demora, Cachoeira volta às ruas. Como tantos corruptores e corruptos cujas façanhas assombraram a nação e, no entanto, encontraram em nosso falido sistema judiciário, feito para assegurar imunidade e impunidade à Casa Grande e punir a senzala, brechas para não pagar por seus crimes, e muito menos devolver aos cofres públicos a dinheirama surrupiada.

Até a Delta, empresa de alcance nacional, logrou blindagem ao decidir a CPI investigá-la em restrito âmbito regional. Temem os parlamentares balançar o coqueiro e ter suas cabeças rachadas pelo coco?

Os governadores suspeitos deveriam se adiantar à CPI e se prontificar a depor e abrir o sigilo de suas contas bancárias e ligações telefônicas. Esta é a atitude que se espera de um estadista que zela por seu nome e reafirma sua postura ética. A política é a mais pública das atividades humanas e deveria estar respaldada na transparência de quem se reveste de um mandato concedido pelo voto popular.

A CPI não tem poder para quebrar o silêncio dos depoentes. Todos haverão de entrar mudos e sair calados. Porém, é-lhe facultado o direito e o dever de investigar, cruzar informações, analisar processos e quebrar sigilos telefônicos e bancários.

Resta saber se ela está interessada em sanar a vida pública brasileira de agentes e políticos criminosos ou apenas fingir investigar o que não convém apurar e a quem não se deve incriminar.

Frei Betto é escritor, autor de “Alfabetto – autobiografia escolar” (Ática), entre outros livros.

Website: http://www.freibetto.org