Daily Archives: 15/05/2012

Veja, como o crime organizado faz jornalismo

A aliança da revista Veja com o crime organizado rendeu denúncias que reverteram em ganhos econômicos para a organização criminosa de Carlinhos Cachoeira e seus aliados políticos

A Operação Monte Carlo, desencadeada pela Policia Federal (PF) para desbaratar a quadrilha comandada pelo bicheiro Carlinhos Cachoeira, já é merecedora de um mérito: publicizou o conluio de setores da grande mídia com o crime organizado para alcançar objetivos econômicos e políticos.

As investigações da PF, com informações documentadas e já amplamente divulgadas, atestam que o bicheiro utilizava a revista Veja, do grupo Abril, para disseminar perseguições políticas, promover suas atividades econômicas ilegais, chantagear, corromper e arregimentar agentes públicos. A revista se prestava a esse esquema de coação e chantagem do bicheiro.

Em troca, a revista da família Civita recebia do contraventor informações, gravações e materiais – na maioria das vezes obtidas de formas criminosas – que alimentavam as páginas da publicação, para destilar seu ódio e preconceito contra seus adversários políticos, principalmente os do campo do PT.

A aliança da revista Veja com o crime organizado rendeu denúncias que reverteram em ganhos econômicos para a organização criminosa de Carlinhos Cachoeira e seus aliados políticos – os contratos da construtora Delta com governos estaduais precisam ser profundamente investigados – e se constituíram em instrumento de pressão e amedrontamento de autoridades públicas. Dessa forma, consolidaram um esquema criminoso, milionário, com ramificações privadas e públicas, nas três esferas da República.

O conluio, mais do que reportagens jornalísticas, rendia conspirações políticas e econômicas.

O acinte à democracia do país alcançou ao nível de planejar a desestabilização e queda do presidente Lula e da presidenta Dilma Rousseff. Enquanto Carlinhos Cachoeira e o senador Demóstenes (ex-Dem) gargalhavam por fogo no país, a revista projetava o senador como o prócer da moralidade pública, com perspectivas de vir a ser candidato à presidência da República. Era o crime organizado, com a participação do Grupo Abril, tramando desestabilizar governos e tomar conta da máquina estatal.

No entanto, a revista Veja era pequena e insignificante para os objetivos que o conluio se propunha alcançar. Precisava de ajuda. Os telejornais da Rede Globo se prestaram a dar a ajudava de que necessitavam. Com sua peculiar e esculachada crítica, o jornalista Paulo Henrique Amorim sintetiza a mútua ajuda que se estabeleceu: “o Jornal Nacional não tem produção própria. A revista Veja não tem repercussão nacional. O crime organizado se organiza na Veja e se expande no Jornal Nacional”. Em um jornalismo sem ética, sem compromisso com a verdade e interesses públicos, que se dane a verdade factual. O que interessa, para esse tipo de jornalismo, é a versão dos fatos que atendam aos interesses dos que mantém o monopólio da informação.

Sempre que é questionada por praticar esse tipo de jornalismo, a mídia se defende afirmando que tem a capacidade de se autorregulamentar. O conluio Veja-crime organizado sepultou essa tese. Até esse momento impera o silencio da mídia burguesa sobre os vínculos da revista com a organização criminosa do bicheiro.

O jornalista Jânio de Freitas, um dos mais renomados colunistas da Folha, fez uma detalhada radiografia da organização montada pelo contraventor e suas extensas ramificações. Não disse uma única palavra das suas ramificações com a mídia. Mais do que escreveu, a sabuja lacuna do seu artigo evidenciou o medo que impera entre o patronato da grande mídia e a capacidade desse lamaçal engolir, inclusive, jornalistas decentes.

Ao pacto de não noticiar a promiscuidade do grupo Abril com o crime organizado juntam-se, agora que a CPMI está instalada, os esforços para evitar que os que se beneficiaram com a organização criminosa do Carlinhos Cachoeira sejam convocados a dar explicações no Congresso Nacional e para sociedade.

O deputado federal Miro Teixeira (PDT/RJ) articula um pretexto jurídico para impedir a convocação de jornalistas e proprietários das empresas de comunicação envolvidas nas atividades criminosas do bicheiro.

Um dos mais altos executivos do grupo Abril já perambulou pelos corredores e gabinetes do Congresso numa tentativa de evitar que seu patrão, Robert Civita, tenha que prestar esclarecimentos na CPMI. A Globo, fato noticiado, enviou um mensageiro para informar (ou seria ameaçar?) o Palácio do Planalto: se o empresário Robert Civita for convocado pela CPMI, os meios de comunicação declaram uma guerra sem limites contra o governo.

É de lamentar que a Rede Globo não tenha a coragem de publicar essa posição política nos editoriais dos seus jornais e divulgá-la em seus telejornais.

Caso os parlamentares da CPMI se rendam às pressões dos grupos empresariais da mídia, estarão sendo coniventes com práticas criminosas e institucionalizado duas categorias de cidadãos nesse país: os que podem ser convocados para depor numa CPMI e os que não devem ser convocados.

Há um enorme volume de informações e provas que atestam que setores da mídia estão envolvidos com atividades de organizações criminosas e que atentaram contra a democracia do nosso país. É inadmissível que os que participaram ativamente na organização criminosa, e dela se beneficiaram, não sentem no banco dos réus alegando, unicamente, a condição de serem patrões.

O Congresso Nacional instalou, atendendo os anseios da sociedade, uma CPMI para investigar as atividades do crime organizado com suas ramificações na mídia e nas três esferas da estrutura do Estado. Os parlamentares que compõe essa CPMI tem a responsabilidade de não frustrar a sociedade, apurar os fatos com profundidade e criar as condições para que seus responsáveis prestem contas à justiça, além de legar ao país uma legislação que, ao menos, iniba essa prática de jornalismo associado com o crime organizado. A Lei dos Meios de Comunicação é cada vez mais necessária e inadiável.

Os presos políticos palestinos e o papel dos intelectuais

Soraya Misleh e Murched Taha

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Neste momento, mais de 2 mil presos políticos palestinos – de um total aproximado de 5 mil, incluindo nove mulheres, 350 menores de 18 anos e 22 parlamentares – encontram-se nos cárceres israelenses. Denominados “prisioneiros administrativos”, sem acusação formal, estão em greve de fome há mais de 15 dias. Eles iniciaram esse movimento em oposição às detenções arbitrárias praticadas pelas forças de ocupação de Israel e as péssimas condições de tratamento a que são submetidos nos cárceres, como o isolamento dentro das celas e o confinamento em solitárias – alguns há anos nessa situação -, a não permissão de estudar, receber visitas de parentes ou do próprio advogado de defesa. Prisioneiros originários da Faixa de Gaza estão proibidos de receber visitas dos parentes há mais de cinco anos. Humilhações, inclusive nas inspeções diárias, são praxe e a tortura, institucionalizada. Em clara violação das Convenções de Genebra e das leis internacionais, estão em prisões dentro de Israel, e não nos territórios palestinos ocupados. Alguns se encontram em situação crítica do ponto de vista da saúde.

As detenções arbitrárias vêm sendo utilizadas por Israel como forma de reprimir a população que se levanta contra a ocupação ilegal de suas terras e numa tentativa de silenciar a crítica desde a criação unilateral do estado sionista, em 15 de maio de 1948 – com a expulsão de cerca de 800 mil habitantes nativos árabes de suas terras e destruição de aproximadamente 530 aldeias, segundo escreve o historiador israelense Ilan Pappé em A história da Palestina moderna (Editorial Caminho, Lisboa, 2007).

Lamentavelmente, a mídia brasileira ou não dá qualquer notícia sobre o assunto ou, quando o faz, distorce totalmente a realidade. Neste último domingo (6 de maio), a Globonews veiculou reportagem em que classificava os palestinos detidos ilegalmente por Israel de terroristas. Nem as crianças, a maioria presa por participar de manifestações ou atirar pedras contra tanques quando tinha apenas dez ou 12 anos, escaparam.

A visão de um oriente repleto de bárbaros, incivilizados, incapazes de ter valores reais, que precisam ser dominados, ante um ocidente lógico e racional – denunciada pelo intelectual palestino Edward Said em sua obra Orientalismo – O Oriente como invenção do Ocidente (Companhia de Bolso, São Paulo, 2007) – está na raiz dessa cobertura. Como ocorre com os demais árabes, os palestinos são identificados com os “orientais”, enquanto Israel o é com os “ocidentais”. Os primeiros, portanto, ou são desumanizados ou invisibilizados.

Esse estilo de pensamento contribuiu para a limpeza étnica promovida na Palestina. É papel dos intelectuais que têm compromisso com a verdade denunciar esse estado de coisas e se colocar ao lado da justiça. Uma boa oportunidade de manifestar sua solidariedade é apoiar o movimento dos presos políticos palestinos, exigindo sua libertação imediata. Essa ação, somada a outras, como a adesão ao boicote acadêmico e cultural – aos moldes do que foi feito para pôr termo ao regime de apartheid na África do Sul -, pode pressionar Israel a cumprir as leis internacionais. Às vésperas da data que lembra a nakba (catástrofe) palestina de 1948, um passo importante rumo ao reconhecimento histórico fundamental para que se ponha fim a 65 anos de colonização e opressão em terras palestinas.

http://www.icarabe.org/artigos/os-presos-politicos-palestinos-e-o-papel-dos-intelectuais

A verdadeira controvérsia