Monthly Archives: maio 2012

Extrema-direita atrai 26% do eleitorado jovem na França

Pesquisas mostram que cerca de 26% dos jovens de idade entre 18 e 24 anos votariam na candidata da extrema-direita, Marine Le Pen. O discurso contra os estrangeiros e, em especial, contra os muçulmanos, da candidata da Frente Nacional, sua defesa da ordem e da França acima de tudo e de todos, além de seus ataques contra o sistema político, estão tocando o coração de aproximadamente um quarto da juventude francesa.

Eduardo Febbro

Paris - Jovens que votam com ideologias cobertas de teia de aranha, antiquadas e xenófobas: esse é o surpreendente quadro que surge das pesquisas de opinião publicadas na França sobre o voto da juventude para a extrema direita. A última síntese das pesquisas que, dia a dia, acompanham a soporífera campanha para as eleições presidenciais de 22 de abril e 6 de maio (primeiro e segundo turno) mostra que cerca de 26% dos jovens de idade entre 18 e 24 anos votariam na candidata do partido de extrema-direita Frente Nacional, Marine Le Pen.

Esse número derruba o mito segundo o qual o eleitorado da extrema direita seria composto essencialmente por pessoas de mais idade. O discurso contra os estrangeiros e, em especial, contra os muçulmanos, da candidata da extrema-direita, sua defesa da ordem e da França acima de tudo e de todos, além de seus ataques contra o sistema político, tocaram o coração da juventude francesa.

Segundo o estudo publica pela empresa CSA, mais de uma quarta parte dos jovens preferem Marine Le Pen, na frente do candidato socialista, François Hollande, com 25%, do presidente conservador Nicolas Sarkozy, com 17%, e do representante da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon. Esse é o quarteto de onde sairão os candidatos para o segundo turno e que terá um papel decisivo na configuração da aliança vitoriosa. O terceiro lugar é disputado por Marine Le Pen e Jean-Luc Mélenchon, enquanto que os dois primeiros estão assegurados para Sarkozy e Hollande, sem que se saiba com certeza qual dos dois passará para o segundo turno em primeiro lugar.

A sociedade assiste a uma campanha telúrica, feita com golpes baixos, com um conteúdo superficial, onde as encenações engolem os temas essenciais e desembocam em esquemas repetitivos. Há alguns dias, o líder do maio de 68 francês e eurodeputado ecologista Daniel Cohn-Bendit disse: “entre nós, como nos aborrecemos! Proponho uma ideia revolucionária: votemos no domingo e pronto”. François Hollande se mantem na mesma linha com a qual iniciou sua campanha, didático, sereno, às vezes demais, com um perfil de homem “normal” que se meteu em uma aposta extraordinária, totalmente fora dos radares até alguns meses atrás.

Ao seu lado, o presidente candidato Nicolas Sarkozy, tornou-se o homem das reencarnações fulgurantes. A cada semana é um homem novo: houve o Sarkozy “candidato do povo”, depois o Sarkozy “candidato do povo contra as elites”, depois o Sarkozy que deu uma guinada para a extrema-direita, quase anti-europeu, partidário das fronteiras, de cortar pela metade o fluxo de estrangeiros, de controlar as “ondas migratórias fora de controle”, ameaçador com sua proposta de suspender os acordos de Schengen que garantiram a livre circulação das pessoas nos países da União Europeia. E, por fim, há alguns dias, o último Sarkozy aterrissou, o candidato centrista que ofereceu seu programa oficial com um credo único: a luta contra os déficits e o endividamento. É precisamente essa velocidade transfiguradora que introduz na campanha a sensação de que tudo gira em um vazio, de que o rastro do anterior ainda não se depositou na consciência e já vem outra figura a substituí-lo, a desconstruir o discurso anterior.

Os meios de comunicação, sem distanciamento e com um medo de criança no escuro, jogam a fundo a carta dos “novos Sarkozys” sem que, até agora, nenhuma pesquisa certifique que essa estratégia da cortina de fumaça tenha reduzido de maneira decisiva a distância que o separa de seu rival socialista nas pesquisas de opinião.

Falta quase um mês para o segundo turno. Talvez o consiga. Quem sabe. A fumaça dificulta a visão e a lucidez. Com 26% do eleitorado jovem seduzido pelas incongruências, aproximações, mentiras e histerias xenófobas da extrema-direita tudo parece possível. O ódio ao outro como programa político em plena colheita geracional é um dado que vai muito mais além do “fascismo senil” descrito pelo demógrafo e ensaísta Emmanuel Todd. Há um quarto de século, a Frente Nacional é um ator eleitoral influente. Desde que a filha do fundador da FN, Jean Marie Le Pen, assumiu a direção do partido, as ideias da extrema-direita deslizaram na sociedade como sabão molhado. A filha de Le Pen normalizou a extrema-direita. Seus resultados entre a juventude consagram sua estratégia.

Camisa e gravata em vez de casacos pretos, discurso envolto em novas formulações e uma maneira direita de dizer em voz alta o que a maioria fala a voz baixa abriram espaço para Marine Le Pen junto às novas gerações. Ao mesmo tempo, as pesquisas constatam um aumento da taxa de abstenção.

Quase uma quarta parte do eleitorado (24%) declarou sua intenção de se abster. O desencanto democrático espreita. A ideia segundo a qual a alternância democrática não traz nenhuma solução alimenta por sua vez o voto para a extrema direita, a qual faz da desqualificação da classe política tradicional – ou seja, os partidos de governo são todos corruptos e ineptos – um de seus argumentos eleitorais favoritos.

A República mais emblemática do sistema democrático mundial atravessa uma zona de desilusão. François Hollande se mantém na linha de não suscitar demasiadas ilusões com promessas mobilizadoras. Nicolas Sarkozy encarna uma promessa distinta a cada semana. Entre a timidez de um e a polifonia volátil do outro, a sociedade oscila entre uma ilusão moderada e um sonho em relação ao qual ela já sabe o que acontece na hora de despertar.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte:  Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

O quanto os jovens devem a Velho

Pesquisador carioca foi o pioneiro da antropologia urbana no país

© CARLOS IVAN / AGÊNCIA O GLOBO

Gilberto Velho

Hoje temas como drogas e sexo são comuns em teses e pesquisas acadêmicas. Mas foi o pioneirismo do antropólogo Gilberto Velho (1945-2012) que permitiu aos jovens estudar a sociedade sem restrições. Foram necessários 113 artigos em periódicos e 28 livros, entre os quais Desvio e divergência (1985), Individualismo e cultura (1987), A utopia urbana (1989),Nobres e anjos (1998), Juventude contemporânea: culturas, gostos e carreiras (2010). Não foi um caminho fácil. Jovem professor, ele ouviu de um intelectual: “Para que estudar prostituta e homossexual? Antropólogo tem que estudar índio”. Gilberto Velho morreu dia 16 de abril no Rio de Janeiro, aos 66 anos.

“Eu tinha o desejo de ampliar, arejar. O meu pioneirismo foi estudar a nossa própria sociedade”, dizia Velho. Filho de um militar intelectual, apaixonou-se pela antropologia no Colégio Aplicação e se interessou pelas camadas médias brasileiras, ignoradas pelas pesquisas. Graduou-se em ciências sociais na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1968, e mudou-se para Copacabana, num conjugado de sala e quarto. “Foi uma obra do acaso, mas era do que eu precisava: consegui viabilizar um estudo de caso no meu prédio, com 500 pessoas. A utopia urbana, meu mestrado, de 1970, nasceu nesse conjugado.”

O mestrado foi concretizado na Universidade do Texas, nos Estados Unidos. Lá conheceu o antropólogo americano Anthony Leeds, um estudioso da antropologia urbana, então desconhecida no Brasil. Gilberto, então, teve a primazia de trazer esse ramo da antropologia para o país com análises da sociedade urbana em rápida modernização. “O que me interessou, então, era a disseminação das drogas nas camadas médias superiores, a ‘aristocracia de status médios’ e a pesquisa rendeu, em 1975, o doutorado Nobres e anjos, que depois saiu em livro, feito na Universidade de São Paulo.” A orientação foi de Ruth Cardoso.

Gilberto Velho focou sua atenção no “trânsito” social entre os brasileiros. “Estudei as relações entre níveis de cultura, entre elite e camadas populares, entre camadas médias e elites, enfim, a questão da mediação, a transição entre vários grupos e domínios. É um fenômeno que existe em toda sociedade, mas que na grande metrópole é uma questão prioritária, importante de ser estudada, em especial no Brasil”, afirmou em uma de suas entrevistas. Vivendo no Rio, estudou também os efeitos da insegurança retratados no livro Mudança, crise e violência.

O pesquisador estimulou uma geração de antropólogos a pensar o Brasil alternativo dos marginais, do sexo, das religiões populares e da transgressão. Seu diálogo com Georg Simmel inovou o pensamento sobre o individualismo. Ajudou na institucionalização das ciências sociais no Brasil e a consolidar o programa de pós-graduação do Museu Nacional. Era um pensador irrequieto que cultivava a reflexão crítica, a qual sentia estar ameaçada pelo conformismo. “O pensamento mais crítico e amplo, tem sido visto ultimamente como algo pernicioso que deve ser detido. Mas a reflexão crítica não acaba nunca”, afirmou numa de suas últimas entrevistas. Seu trabalho é a prova dessa luta.

Fonte: Revista da FAPESP – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

Cadê a mata?

Neltair Abreu (Santiago)
Porto Alegre – RS

Nota pública sobre o novo Código Florestal Brasileiro

Após análise da medida provisória e a partir do que foi sancionado, o Comitê Brasil em Defesa das Florestas avalia que o veto parcial da Presidenta Dilma Roussef foi insuficiente para o cumprimento de sua promessa, apesar de contrariar interesses dos setores mais arcaicos do latifúndio, e ainda mantém a
anistia e a redução de áreas de proteção (APPs e RLs). Além disto, devolve ao Congresso Nacional a decisão sobre a as florestas, o que será feito apenas após a Rio +20.

Essa situação é fruto da força do agronegócio, que está posicionado de forma hegemônica no Congresso Brasileiro e no próprio Governo Federal. É fundamental a convergência das lutas populares e sociais contra o agronegócio para enfrentá-lo e avançar com as necessidades reais da sociedade brasileira.
O governo brasileiro perdeu a oportunidade de não ceder à pressão ruralista e apontar para o desenvolvimento sustentável e social. A mobilização da sociedade deve continuar a pressionar o Congresso e o Governo Federal contra a anistia aos desmatadores.

- Mantém definição de “área rural consolidada” para ocupações ilegais ocorridas até julho de 2008. Conceito é utilizado como base para todas as ANISTIAS previstas na nova Lei. A última alteração na lei no que se refere às APPs foi
em 1989 e RL (somente na Amazônia) em 1996 (e não em 2008);
- ANISTIA de RL para desmatamentos ilegais em imóveis rurais baseado no tamanho das propriedades e não no modelo de produção familiar (Lei 11.326/06), (art. 67) ANISTIANDO mais de 90% dos imóveis de todo país;
- ANISTIA de recomposição de APPs (Matas ciliares) em até 80% em relação ao patamar até então vigente. Na Lei revogada recomposição de APP variava de 30 a 500m (na Lei 4.771/65). Na nova lei (+MP) a APP a ser recomposta
será de 5m a 100metros;
- ANISTIA total de recomposição de APP de topo de morro e encostas, mantendo inclusive pecuária (art. 63);
- ANISTIA de recomposição de APP de nascentes, olhos d’água, lagos e lagoas naturais entre 80 e 50% (art. 61-A, §5º e 6º);
- ANISTIA OCUPAÇÕES em Manguezal ocupados até julho de 2008 e permite de novas ocupações em até 35% na Mata Atlântica e 10% na Amazônia (art. 11-A);
- ANISTIA para desmatamentos em APP de beira de rio para aquicultura em imóveis c/ até 15 Módulos fiscais, ocupadas até julho de 2008 (art.4º §6º);
- ANISTIA TOTAL DE APP. Nos poucos casos em que deverá haver algum tipo de recomposição em APP esta não será mais com espécies nativas (Art. 61-A, §13, IV);
- REDUÇÃO DE PROTEÇÃO em áreas úmidas (pela alteração da base de medida de APP – leitor regular), com necessidade de declaração do poder executivo e desapropriação por interesse social (Art. 6º, IX);
- REDUÇÃO de RL (NA AMAZÔNIA), inclusive para novos desmatamentos, nos Estados com 65% de UC+TI ou Municípios com mais de 50% de UC+TI (§4º e 5º artigo 12). Esse dispositivo afeta imediatamente 80 municípios na
Amazônia. Afeta imediatamente todos os municípios do Amapá. PARÁ está prestes a atingir 65% de UC+TI;
- REDUÇÃO DE APP DE TOPO DE MORRO com mudança no método de definição da área a ser preservada como APP, reduzindo em até 90% em alguns casos (art.4º);
- VETO ao único incentivo positivo (econômico) concreto para recomposição de APPs (contribuição do setor elétrico) previsto na Lei aprovada pelo Congresso, sob justificativa de que tal medida contraria interesse nacional. – Art. 43 (Vetado);
- Cadastro Ambiental Rural inerte, sem transparência e apenas para consolidar uso ilegal. Diante do exposto, o texto sancionado manteve vários dispositivos com ANISTIAS e REDUÇÃO DE ÁREAS DE PROTEÇÃO (APPs e RLs) aplicáveis em todas as categorias de imóveis e devolve ao Congresso
Nacional a decisão final sobre as alterações, após a Rio+20.

Brasília, 28 de maio de 2012
O Comitê em Defesa das Florestas e do Desenvolvimento Sustentável é coordenado por: ABONG; CNBB; Coalizão SOS Floresta (Amigos da Terra – Amazônia; APREMAVI; FLORESPI; Fundação O Boticário; Greenpeace; ICV; IMAFLORA; IPAM; ISA; SOS Mata Atlântica; WWF-Brasil; Sociedade Chauá; SPVS); Comissão Brasileira de Justiça e Paz – CBJP; CNS; Comitê Inter-Tribal; CONIC; CUT; FETRAF; FNRU; FASE; FBOMS; FETRAF; Fórum de Mudança Climática e Justiça Social; Fórum ex-Ministros Meio Ambiente; GTA; IDS; INESC; Instituto Ethos; Jubileu SUL; OAB; Rede Cerrado; Rede Mata Atlântica; REJUMA; Via Campesina (ABEEF, CIMI, CPT, FEAB, MAB, MMC, MST, MPA, MPP e PJR).

Milico, sempre milico

Josanildo Dias de Lacerda
Salvador – BA

É para comemorar?

Versão do Código Florestal aprovada pela Câmara no fim de abril recebe 12 vetos da presidente Dilma Rousseff. Decisão final está nas mãos do Congresso.

É para comemorar?Pressionada por todos os lados, Dilma veta parcialmente o novo Código Florestal. Ainda é cedo para dizer se o texto sancionado tende a desagradar mais aos ruralistas ou aos ambientalistas. (foto: Adam Stevens/ Sxc.hu)

A novela do Código Florestal parece ter chegado ao fim – ou, pelo menos, ao fim de um capítulo importante. Como já havia adiantado ontem o vice-presidente Michel Temer, a presidente Dilma Rousseff vetou parcialmente o texto aprovado pela Câmara, que institui a reforma da mais importante lei florestal brasileira.

Dos 84 artigos que chegaram às mãos da presidência, 12 foram vetados. Outras 32 modificações foram incorporadas ao texto, 14 delas recuperando pontos da versão aprovada pelo SenadoOs vetos serão publicados na segunda-feira no Diário Oficial da União.

Izabella Teixeira: “anistia aos desmatadores” está definitivamente fora dos planos do governo

Se o texto sancionado tende a desagradar mais aos ruralistas ou aos ambientalistas, ainda é cedo para dizer. Mas, em entrevista coletiva no início da tarde de hoje, a ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira garantiu que “anistia aos desmatadores” está definitivamente fora dos planos do governo. “Os vetos também garantem a não redução das áreas protegidas e inibem qualquer mecanismo que possa impedir a restauração ambiental”, disse a ministra.

Permanecem os mecanismos de apoio ao produtor, como o Cadastro Ambiental Rural (CAR), que deverá auxiliar os agricultores na adequação à nova política ambiental num prazo de cinco anos. “Considero um avanço”, opina o engenheiro agrônomo e perito criminal ambiental Gustavo Geiser. “A obrigatoriedade do CAR é possivelmente a melhor ferramenta já proposta para efetivamente garantir a recomposição das áreas degradadas.”

Já a recomposição das matas ciliares – um dos pontos mais polêmicos da reforma – deverá variar de 5 a 15 metros, conforme o tamanho da propriedade. Para grandes áreas (com mais de quatro módulos fiscais) margeadas por rios com mais de 10 metros de largura, no entanto, a recomposição pode chegar a 100 metros.

“Este não é o código dos ambientalistas, nem dos ruralistas; é o código daqueles que acreditam que o Brasil pode produzir mantendo o respeito ao meio ambiente”, disse o ministro da agricultura Jorge Alberto Mendes Ribeiro Filho, também em entrevista coletiva ontem, em Brasília.

Nada é definitivo

A versão inicial do projeto, aprovada na Câmara dos Deputados em 25 de maio do ano passado, era o pesadelo dos ambientalistas. O Senado, porém, deu conta de “amenizá-la”, o que, na ótica de alguns, o tornava “menos pior”. Mas, ao retornar à Câmara, o texto voltou à sua forma mais conservadora – complacente com os anseios da bancada ruralista. O texto sancionado hoje parece recuperar o tom votado pelo Senado. A discussão no Congresso se arrasta desde 1999.

A decisão ainda deve retornar ao Congresso, que pode utilizar mecanismos políticos para prolongar as incertezas que circundam o tema

Os vetos e ajustes propostos pela Presidência da República deverão agora ser contornados com medida provisória, que também deverá ser publicada no Diário Oficial da União na segunda-feira. Mas nada é definitivo. Afinal, a decisão ainda deve retornar ao Congresso, que pode utilizar mecanismos políticos para prolongar ainda mais as incertezas que circundam o tema.

Nos últimos meses, ampla campanha em favor do veto total tomou conta das redes sociais. Organizações do terceiro setor reuniram mais de dois milhões de assinaturas pedindo o veto total da presidente Dilma Rousseff – até Chico Bento, personagem de Maurício de Sousa, aderiu à campanha no Twitter.

Henrique Kugler

Fonte: Ciência Hoje – http://cienciahoje.uol.com.br/

Que Humanidade é Esta?

José de Sousa Saramago
Se o homem não for capaz de organizar a economia mundial de forma a satisfazer as necessidades de uma humanidade que está a morrer de fome e de tudo, que humanidade é esta? Nós, que enchemos a boca com a palavra humanidade, acho que ainda não chegámos a isso, não somos seres humanos. Talvez cheguemos um dia a sê-lo, mas não somos, falta-nos mesmo muito. Temos aí o espectáculo do mundo e é uma coisa arrepiante. Vivemos ao lado de tudo o que é negativo como se não tivesse qualquer importância, a banalização do horror, a banalização da violência, da morte, sobretudo se for a morte dos outros, claro. Tanto nos faz que esteja a morrer gente em Sarajevo, e também não devemos falar desta cidade, porque o mundo é um imenso Sarajevo. E enquanto a consciência das pessoas não despertar isto continuará igual. Porque muito do que se faz, faz-se para nos manter a todos na abulia, na carência de vontade, para diminuir a nossa capacidade de intervenção cívica. 

José Saramago, in ‘Canarias7 (1994)’

Emprego e salário da indústria recuam em março, aponta IBGE

O emprego industrial recuou 0,4% em março na relação com fevereiro, após ter registrado -0,3% em janeiro e 0,1% em fevereiro. Com o resultado, a média apurada no trimestre também foi de queda, de -0,2%.

O salário real dos trabalhadores da indústria, ajustado sazonalmente, também recuou 0,7% em março, ante fevereiro, após registrar expansão por dois meses consecutivos, período em que acumulou ganho de 6,4%.

As informações foram divulgadas nesta sexta-feira (11) na Pesquisa Industrial Mensal de Emprego e Salário, realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Na comparação com março de 2011, o emprego industrial apresentou queda de 1,2%, com redução no número de vagas em nove das 14 áreas pesquisadas. Este é sexto resultado negativo consecutivo nesta relação e o mais intenso desde dezembro de 2009 (-2,4%).

São Paulo teve um recuo maior do que a média dos Estados, com variação negativa de 3,2%, com redução de emprego em 14 dos 18 setores investigados.

No trimestre, houve recuou de 0,8% ante o primeiro trismeste do ano anterior. Em contrapartida, nos acumulado nos últimos 12 meses, foi registrada alta de 0,2% em março.

Ontem, o IBGE divulgou que a produção industrial de Estado de São Paulo, principal parque fabril do país, teve queda de 6,2% no primeiro trimestre deste ano. Foi o pior resultado para o período desde 2009, quando o Brasil sentiu os efeitos da crise financeira estourada nos EUA.

A queda provocou o declínio de 3% na produção industrial nacional no trimestre, com contribuições menores dos Estados de Santa Catarina (-6%), Rio de Janeiro e Espírito Santo (-2,4%), região Nordeste (-1,4%), Minas Gerais (-0,7%) e Bahia (-0,7%).

Recentemente, o governo lançou o Plano Brasil Maior, pacote de estímulo à indústria com desonerações da folha de pagamentos de diversos setores e crédito ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), da ordem de R$ 45 bilhões. O objetivo é ajudar o país a aquecer a economia brasileira.

SALÁRIO

Além do recuo de 0,7% em março, a pesquisa destaca que na média móvel trimestral (janeiro, fevereiro e março) o número de horas pagas cresceu 0,7% de janeiro a março deste ano, após mostrar taxas negativas por três trimestres consecutivos: -0,4% no segundo trimestre de 2011, -0,2% no trimestre seguinte e -1,4% no último trimestre do ano passado.

Na comparação com março de 2011, o número de horas pagas mostrou queda de 1,5% –a sétima taxa negativa consecutiva nesta comparação e a mais intensa desde novembro (-1,6%).

No acumulado do ano, o resutlado também ficou negativo, com redução de -1,2%, enquanto no acumulado dos últimos 12 meses caiu 0,4% em março, a queda mais intensa desde junho de 2010 (-0,9%).

Em março de 2012, o número de horas pagas recuou 1,5% em relação a março de 2011, com taxas negativas em dez dos 14 locais pesquisados. Em termos setoriais, as principais influências negativas vieram de vestuário (-7,6%), produtos de metal (-6,1%), calçados e couro (-7,0%), têxtil (-5,6%), borracha e plástico (-4,2%), madeira (-8,9%) e papel e gráfica (-3,5%). A contribuição positiva mais relevante sobre o total da indústria veio do setor de alimentos e bebidas (2,9%), seguido por máquinas e equipamentos (2,3%) e indústrias extrativas (4,5%).

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

Tem um só, mesmo.

Maringoni

Liberdade, um princípio universal

Glauco Vilas Boas
Ribeirão Preto – SP

De onde vem o riso?

Esse comportamento é regulado principalmente pelo tronco encefálico, responsável por diversas funções fundamentais para a sobrevivência humana

Com certeza você já ouviu a frase “rir é o melhor remédio” – e em alguns casos parece que é mesmo. Rir é um comportamento que nos insere socialmente, nos aproxima de outras pessoas e nos ajuda a ser aceitos. Pesquisas indicam, por exemplo, que, entrando em uma loja onde dois vendedores atendem, é maior a probabilidade de a pessoa se aproximar do que sorri. Embora o ato geralmente seja associado ao humor, estudos revelam que em mais de 80% das vezes o que faz sorrir é a polidez, o desejo de ser socialmente aceito, a ironia e a tensão.

Um dos pontos que durante anos mais intrigou os cientistas foi o desafio de compreender em que região do cérebro “nascia” o riso. Hoje se sabe que não há um único local dedicado exclusivamente a essa função – o que temos são diversas de regiões que participam desse comportamento. Acredita-se, por exemplo, que o ato físico de rir seja deflagrado por um mecanismo no tronco encefálico que modifica a respiração, garantindo que os sons de uma boa risada sejam produzidos. O curioso é que essa região (a mais antiga do sistema nervoso) regula funções fundamentais, o que nos leva a crer que rir foi fundamental para incluir nossos ancestrais nos grupos – e, assim, ter mais chances de sobreviver e propagar seus genes. Já o humor mais sutil e os jogos verbais requerem trabalho do lobo frontal, desenvolvido bem mais recentemente no cérebro: exames de ressonância magnética mostram que essa área se ilumina quando as pessoas acham uma piada engraçada, indicando que a compreensão mais refinada do humor é de fato um sinal de evolução.

 

Memória e transformação

Nem tão poderoso assim

Luiz Osvaldo Rodrigues (LOR)
Belo Horizonte – MG

“Todos os imigrantes africanos deveriam ser presos”, diz ministro israelense

Segundo Yishai, a decisão “é dura, mas simples: pôr todos eles, sem exceção, em prisões e centros de detenção”

O ministro do Interior de Israel, Eli Yishai, deu polêmicas declarações nesta quarta-feira (16/05) em relação a um dos temas mais debatidos no noticiário internacional nos últimos meses: a imigração. Para Yishai, um ultra-ortodoxo que faz parte do governo de coalizão do primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, todos os imigrantes africanos no país “deveriam ser presos”.

Wikicommons

Eli Yishai é ministro do Interior no governo de coalizão de Netanyahu

Segundo ele, a decisão “é dura, mas simples: pôr todos eles, sem exceção, em prisões e centros de detenção”, afirmou o ministro ao jornal israelense Hayom, em sua versão online.

“Acho que a maioria deles não (cometem delitos). Mas aqueles que cometerem, incluindo o delito mais leve, devem ser presos. Desta forma, eles poderão receber uma bolsa de deportação para ser enviados de volta aos países de origem. Estamos perdendo o país. Estes incidentes não ocorriam há três anos”, completou.

Para o ministro, os imigrantes ilegais “não respeitam a lei em Israel, e a prisão não assusta. Não possuem trabalho e ainda cometem delitos sexuais e contra a propriedade. Não se pode pôr em perigo a segurança dos cidadãos de Israel”, completou.

Atualmente, cerca de 60 mil imigrantes vivem ilegalmente em Israel, sendo a maioria formada por africanos. Em janeiro, o Parlamento do país já havia criado polêmica ao aprovar uma lei que permite prender por até três anos os imigrantes ilegais e refugiados, ainda que não sejam julgados.

As declarações do ministro ocorrem após quatro imigrantes africanos, que estariam ilegais no país, terem sido detidos acusados de estuprar uma jovem de 19 anos em Tel Aviv.

O tema da imigração foi amplamente debatido nas últimas semanas por conta das eleições presidenciais na França e parlamentares na Grécia. O conservador, e derrotado nas urnas francesas, Nicolas Sarkozy defendia duras medidas de controle das fronteiras para impedir a entrada de imigrantes no país.

Na Grécia, o partido neonazista Amanhecer Dourado garantiu representatividade no Parlamento pela primeira vez com um discurso que prega a expulsão de todos os imigrantes do país.

Palavra do Controvérsia: um racista desavergonhado.

O dia em que Túlio descobriu a África

Como se mata um orgulho?

Mais uma vez o povo haitiano ocupa os noticiários nacionais: multidões buscam refúgio na região amazônica após fuga de um país que, há dois anos, foi arrasado por um terremoto, mas que já era vitimado pela miséria, pela guerra civil, pela violência cotidiana e por más gestões políticas.

Caetano Veloso já associou o nome do país com o que pode ser considerado de pior em nossa sociedade: “…Quase pretos de tão pobres. E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos… O Haiti é aqui”

 
]François-Dominique Toussaint Louverture, líder da revolução escrava na ilha de Saint Domingue

Confesso que sofro com o sofrimento do povo haitiano, lá e aqui, mas prefiro me lembrar de um Haiti que alimenta meu orgulho e de seu grande herói, François-Dominique Toussaint Louverture. Ele liderou a revolução escrava na ilha de Saint Domingue, o nome do país na época – compreendia tanto o atual Haiti, quanto a República Dominicana -, e tornou-se seu governador. Foi o primeiro líder negro a vencer as forças dos impérios coloniais europeus. Louverture – que por sinal é o nome da produtora independente de cinema do ator afro-americano Danny Grover – era escravo. Domador de cavalos e cocheiro, sempre que podia, procurava ler os autores iluministas franceses. Aos 33 anos, conseguiu sua alforria e entrou para o exército, casou-se e se tornou maçom. Fazendo carreira militar, liderou a luta contra os franceses que dominavam a região em que vivia. Depois, enfrentou também os ingleses e os espanhóis, que dominavam as demais regiões. Jamais perdeu o foco: para libertar o país do julgo colonial, há que se libertar o povo negro da escravidão. Com a vitória da Revolução Francesa, em 1789, os já rebelados escravos haitianos ganharam um reforço em sua ambição de liberdade: soldados franceses, acreditando no slogan revolucionário Liberdade, Igualdade e Fraternidade, depuseram armas e se aliaram a eles. Para os senhores de engenho, porém, essa bandeira só valia para a corte francesa. Na colônia, tudo deveria permanecer igual. Assim, multiplicaram-se as rebeliões de escravos. Oficialmente, a revolução no Haiti iniciou-se em 1791. Além dos confrontos militares, ela foi marcada pelos constantes incêndios nos canaviais, a monocultura de sustentação da mais lucrativa colônia francesa.

Foram necessários três anos de combates e negociações para que a abolição fosse concretizada na área francesa. Na parte espanhola, isso só ocorreu em 1801. Diferentemente da Lei Áurea Brasileira, em 1888, a abolição não se restringia à liberdade do escravo, mas visava garantir a igualdade e o direito à propriedade de terras. Napoleão, o imperador francês, confiou a seu cunhado Charles Leclerc, a missão de depor Louverture e reinstaurar a escravidão na ex-colônia. Novas negociações, e o líder negro assinou um acordo deixando o governo, mas exigiu que a declaração de abolição fosse respeitada. Três semanas depois, sua fazenda foi atacada pelas tropas de Leclerc. Juntamente com seus familiares, Toussaint foi deportado para a França, onde morreu um ano depois, numa prisão, vítima de pneumonia. Seu corpo foi sepultado sob a capela do presídio diretamente na terra, sem caixão.

O que todos esquecem é que a Revolução do Haiti desequilibrou a história colonial e escravocrata nas Américas. Desde então, o país viveu infindáveis boicotes políticos e econômicos e também inúmeras ações internas para que não desse certo. Assim, jamais se tornaria (como não se tornou) referência da possibilidade de conquista permanente da liberdade, sem precisar humilhar-se para mantê-la.

No final do ano passado, o noticiário, excepcionalmente, mostrou “como são tratados os pretos”. Mas, anestesiados pelos festejos de fim de ano, os pretos brasileiros se sentiram aliviados: “Sabe como é, né? São refugiados do Haiti. Coitados! Mas já devem estar acostumados com esse sofrimento, esse tratamento… menos mal!”

 Depois do terremoto, a vida no Haiti ficou ainda mais difícil

Apenas o veto integral evitará o maior retrocesso da legislação ambiental brasileira, diz Frente ambientalista

“As florestas brasileiras levaram milhões de anos para se formar, entretanto, uma assinatura errada pode destruí-las em poucos segundos. Apelamos para que a presidente Dilma não ponha em risco, além da natureza, sua própria credibilidade”, afirma a nota do Comitê Brasil em Defesa das Florestas e do Desenvolvimento Sustentável divulgada nessa terça-feira, 22-05-2012.

Eis a nota.

Essa semana encerra o prazo constitucional que a presidente Dilma Rousseff possui para decidir o futuro do Código Florestal brasileiro. O projeto enviado pelo Congresso ao Planalto não atende a princípios elementares de sustentabilidade socioambiental e nem aos anseios da ampla maioria do povo.

Além disso, sua sanção pode significar um empecilho para a produção rural, devido suscitar insegurança jurídica e ampliar impactos negativos das mudanças climáticas, o que poderia afetar os índices de produtividade. Por isso, o projeto deve ser vetado integralmente, visto que, vetos parciais não afastariam o grave perigo.

A sociedade brasileira se engajou fortemente e a campanha popular “Veta Tudo, Dilma!” se transformou em fenômeno social no país. O movimento foi iniciativa do Comitê Brasil em Defesa das Florestas e do Desenvolvimento Sustentável, que reúne cerca de 200 entidades da sociedade civil.

O envolvimento de todas e todos que participaram de alguma forma dos muitos apelos feitos ao Congresso Nacional e à presidente Dilma, sejam nas redes sociais da internet, nas assinaturas ou nas ruas ocupadas pelo movimento de Norte a Sul do Brasil, significam uma forte sinalização que a sociedade não aceitará outros ataques programados, como redução de Unidades de Conservação, Territórios Indígenas e fragilização da agricultura familiar. Quem participou da campanha do Veto está de parabéns e convidado a continuar lutando, pois a batalha é longa e nossa disposição de vitória é maior ainda.

Apesar da dimensão que adquiriu a campanha popular, com cerca de 2,5 milhões de assinaturas em defesa do veto e ações de rua em todo o Brasil, a coordenação nacional da campanha (Comitê Brasil) não foi recebida pela presidente Dilma Rousseff, apesar das inúmeras solicitações de audiência realizadas.

Preocupa-nos o fato da presidente ter recebido a líder ruralista no dia seguinte do envio oficial do projeto ao Palácio do Planalto, tratamento diferente do dispensado a agricultores familiares, extrativistas, pescadores, estudantes, sindicalistas, religiosos, ambientalistas e demais integrantes da campanha nacional pelo Veto, que não foram recebidos pela presidente.

Diante das graves ameaças contra a integridade ecológica de todos os biomas brasileiros, reforçamos o apoio do Comitê Brasil para que a presidente Dilma vete integralmente o projeto. Seria uma sinalização antipedagógica altamente negativa anistiar crimes ambientais, o que possibilitaria novos desmatamentos e desmoralizaria as políticas de comando e controle.

Vetos parciais não resolvem, pois os problemas de remissões entre os dispositivos do projeto são insanáveis pontualmente. A própria presidente Dilma firmou compromisso em não aceitar anistia e permitir novos desmatamentos, o que somente será evitado com o veto integral.

As florestas brasileiras levaram milhões de anos para se formar, entretanto, uma assinatura errada pode destruí-las em poucos segundos. Apelamos para que a presidente Dilma não ponha em risco, além da natureza, sua própria credibilidade. Um Brasil desenvolvido e com potencial de futuro quer dizer um Brasil com florestas e que respeita o seu povo. Diante disso, pedimos: veta tudo, Dilma, que o Brasil apoia.

Brasília-DF, 23 de maio de 2012
Comitê Brasil em Defesa das Florestas e do Desenvolvimento Sustentável

Partidos pró-austeridade não conseguem maioria na Grécia

Com 100% dos votos contados, os resultados mostram que o Nova Democracia e o PASOK obtiveram 32%. Alexis Tsipras, o líder do Syriza, a coligação de esquerda que quadriplicou os votos e alcançou o segundo lugar na eleição, propõe um governo de esquerda para romper com o memorando e diz que “Merkel tem de perceber que as políticas de austeridade sofreram uma grande derrota”. “Os gregos querem cancelar o memorando da barbárie”, acrescentou Tsipras.

Esquerda.net

A imprensa internacional fala em reviravolta na Europa e, olhando para a Grécia, não é para menos. O resultado das eleições gregas representa um autêntico terramoto político: os dois partidos da troika (Nova Democracia e PASOK) sofreram uma queda acentuada em relação às eleições de 2009, com os socialistas a baixarem 30% (menos 2.182.019 votos) e os conservadores 14% (1.107.670 votos). Com 95% dos votos contados, os resultados mostram que os partidos da austeridade não conseguiram a maioria, tendo obtido 32,05%, conseguindo 149 dos 300 deputados do Parlamento (a desproporção entre a percentagem e o número de deputados explica-se por um “bônus” que dá 50 deputados extra ao partido vencedor).

A queda estrondosa da Nova Democracia e do PASOK, que ainda nas últimas legislativas de 2009 tinham obtido 77% dos votos, foi contrabalançada por uma espectacular subida do Syriza, coligação de esquerda radical. A coligação Syriza, que se opõe ao memorando da troika, confirma-se como a segunda força política grega e a primeira da esquerda, tendo quadriplicado o número de votos desde a última eleição, conseguindo mais 740.684 votos e 52 lugares no palamento.

“Os gregos querem cancelar o memorando da barbárie”
Alexis Tsipras, o líder da coligação Syriza, afirmou que o resultado de domingo mostra que os gregos e os europeus querem “cancelar o memorando da barbárie” a que a troika tem sujeitado o seu país nos últimos anos. Na sua declaração aos apoiantes, Tsipras propôs a formação de um governo de esquerda e disse que esta eleição é “uma mensagem de derrube” do governo da troika.

“A nossa proposta é a de um governo de esquerda que, com o apoio do povo irá recusar o memorando e pôr fim ao rumo pré-determinado do país para a miséria”, afirmou Tsipras, que disse estar certo que a subida meteórica do Syriza não se deve a uma pessoa ou partido em especial, mas a esta proposta que repetiu na campanha eleitoral. A coligação parceira do Bloco de Esquerda no Parlamento Europeu e no Partido da Esquerda Europeia – de que Tsipras é vice-presidente – venceu as eleições em onze círculos eleitorais, incluindo a capital Atenas.

O líder do PASOK falou antes de Tsipras e reagiu à derrota histórica, dizendo que procurará formar um governo com os partidos que apoiam o memorando. Evangelos Venizelos disse estar certo que os resultados deste domingo “excluem o velho sistema dos dois partidos” no governo. Mais de dois terços dos deputados do PASOK não renovaram o seu mandato, incluindo alguns dos principais quadros, que foram punidos por um eleitorado furioso pelo papel do partido no subjugar da Grécia ao programa da UE e do FMI.

Os que ficaram de fora do parlamento incluem o presidente do Parlamento Philippos Petsalnikos, o ex-ministro do interior Yiannis Ragousis, ex-ministro da cultura Pavlos Geroulanos, a ex-ministra do desenvolvimento Anna Diamantopoulou, o ex-ministro da Justiça Miltiadis Papaioannou, o ex-ministro das Finanças Yiorgos Papaconstantinou, o ex-ministro dos Transportes Dimitris Reppas, e o ex-ministro do Trabalho Yiorgos Koutroumanis, que presidiu à total desregulamentação das relações de trabalho e à abolição, na essência, das negociações de contratos coletivos.

Antonis Samaras, líder do partido mais votado, reagiu aos resultados conhecidos com duas condições para dar início à formação do governo: a manutenção do euro e a mudança das políticas do memorando da troika para “ter crescimento e dar alívio à sociedade grega”.

Em comunicado, o KKE (Partido Comunista) rejeitou a proposta do Syriza, classificando esta força de “social-democrata” e acusando-a de servir para “impedir a radicalização da sociedade grega. Para” a secretária-geral Aleka Papariga, o resultado do partido (teve um ganho eleitoral marginal de 16.650 votos em relação a 2009) não foi uma surpresa, mas a distribuição dos votos indica que o KKE não conseguiu mobilizar o sentimento antitroika do povo grego desta eleição, nem mesmo nos tradicionais bstiões eleitorais comunistas, perdendo votos nas zonas urbanas, onde disputa deputados com os neonazis. O surgimento em força da Aurora Dourada – sobretudo no voto urbano e nos bairros populares – veio abalar a política grega.

Os resultados eleitorais: 18,85% para a Nova Democracia (108 lugares no parlamento), 16,78% para o Syriza (52 lugares), 13,18% para o PASOK (41 lugares), 10,6 para os Gregos Independentes (33 lugares), 8,48% para o KKE -PC grego (26 lugares), 6,97% para os neonazis da Aurora Dourada (21 lugares) e 6,1 % para a Esquerda Democrática (19 lugares). Os Verdes obtiveram 2,93%, não elegendo ninguém. A extrema-direita do LAOS, que participou e depois rompeu com o governo da troika, também não elege deputados, tendo obtido 2,9%. A abstenção foi de 34,91%. A Nova Democracia vence em 38 círculos eleitorais e o Syriza em 13, mas a coligação de esquerda ganha nos mais populosos, incluindo todos os que elegem mais de dez deputados. O PASOK ganha as eleições em quatro círculos e o KKE sai vencedor em apenas um.

Mortalidade materna no Brasil teve queda de 21% de 2010 para 2011

Paula Laboissière
Da Agência Brasil, em Brasília

Segundo o ministro da Saúde, a Meta do Milênio é de alcançar 25% de redução da mortalidade materna até 2015

Segundo o ministro da Saúde, a Meta do Milênio é de alcançar 25% de redução da mortalidade materna até 2015

Pesquisa divulgada nesta sexta-feira (25) pelo Ministério da Saúde indica que a mortalidade materna no Brasil caiu 21%. Entre janeiro e setembro de 2011, as mortes decorrentes por complicações na gravidez e no parto totalizaram 1.038, contra 1.317 no mesmo período de 2010.

“Essa marca histórica de 21% em 2011 não nos permite descansar. Queremos perseguir a Meta do Milênio de chegar a 25% de redução até 2015”, destacou o ministro da Saúde. A pasta associa a queda dos números ao primeiro ano do programa Rede Cegonha, lançado em março do ano passado. Ao todo, foram investidos R$ 2,5 bilhões para qualificar a assistência à mulher e ao bebê. A iniciativa, de acordo com o ministério, já atende a 36% das gestantes do Sistema Único de Saúde (SUS). Em 2011, 1,7 milhão de mulheres fizeram, no mínimo, sete consultas pré-natais.

“Houve uma importante intensificação da redução quando comparada aos anos anteriores. Nos último dez anos, sempre esteve variando entre 5 e 7%. É a primeira vez que a gente chega a reduzir [a mortalidade materna] fortemente, com mais de 20%. E, pelos dados preliminares, essa tendência continua ao longo do último trimestre de 2011”, avaliou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

De 1990 a 2010, o indicador de mortalidade materna no país passou de 141 para 68 óbitos para cada 100 mil nascidos vivos. Também durante o período, houve redução em todas as causas diretas de mortalidade materna: hipertensão arterial (66,1%), hemorragia (69,2%), infecções pós-parto (60,3%), aborto (81,9%), e doenças do aparelho circulatório complicadas pela gravidez, pelo parto ou pelo pós-parto (42,7%).

Desde 2008, o governo realiza uma espécie de gerenciamento das investigações de mortes de mulheres em idade fértil (entre 10 e 49 anos). Os casos são analisados por equipes de vigilância dos estados e municípios, e as informações são repassadas ao ministério. O objetivo é avaliar as causas e as circunstâncias da morte e verificar se os casos foram provocados por complicações gestacionais.

Durante a divulgação do estudo, Padilha disse que um outro levantamento feito pela própria pasta no ano passado indica que, de cada quatro gestantes atendidas pelo SUS, uma se queixa de algum tipo de negligência ou maus-tratos identificados no momento do parto.

Um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) em parceria com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), o Fundo de População das Nações Unidas e o Banco Mundial da Organização das Nações Unidas, divulgado este mês, aponta uma queda de 51% no número de mortes maternas no Brasil entre 1990 e 2010.

TWITTER E A PRIVACIDADE DOS USUÁRIOS

LINDSEY KRATOCHWILL

Site reage a mandado que pede informações da conta de ativista do Occupy Wall Street

Imagem por eldh

Em um ato simbolicamente importante para a liberdade na internet, a rede social Twitter entrou com uma ação contra um mandado da Promotoria do Distrito de Nova York que pede informações sobre um de seus usuários, Malcolm Harris, preso com outras centenas de manifestantes no protesto do movimento Occupy Wall Street que fechou a ponte do Brooklyn, em setembro de 2011. O mandado expedido pela Promotoria exige que o site libere os tweets publicados pela conta de Harris do dia 15 de setembro até o fim de 2011. Os promotores pretendem coletar evidências de que Harris sabia que a polícia havia proibido a marcha sobre a ponte do Brooklyn.

O Twitter se manifestou contra o mandado, entrando com uma ação pedindo a sua suspensão. O advogado de Harris já tinha tentado bloquear o pedido da Promotoria pelas informações da conta do ativista, mas a corte decidiu que, uma vez publicado, o tweet se torna propriedade do site. Mas o Twitter argumenta que o juiz “interpretou errado” e que, como está previsto nos termos de serviço, o usuário “mantém seus direitos sobre qualquer conteúdo que ele enviar, postar ou exibir no ou através do site”. Além disso, o Twitter afirma que a decisão viola também a Lei de Comunicações Armazenadas (Store Communications Act) e a Primeira Emenda à Constituição dos Estados Unidos, que regula a liberdade de expressão.

Para o site da revista In These Times, uma leitura cínica pode inferir que o site quer evitar a possibilidade de ser considerado responsável legalmente por todos os seus 140 milhões de usuários ativos. Mas em janeiro de 2012 o Twitter reagiu a uma sentença que requeria as informações pessoais dos usuários envolvidos com a Wikileaks. Era uma sentença sigilosa, que proibia que a empresa informasse os usuários envolvidos. A reação bem-sucedida do site ao pedido de sigilo fez com que os usuários soubessem da situação, permitindo que eles se defendessem e também reagissem contra o pedido da corte. “Nossa ação reafirma nosso firme compromisso com a defesa dos direitos dos nossos usuários”, declarou Ben Lee, advogado do Twitter.

Bom moço?

Neltair Abreu (Santiago)
Porto Alegre – RS

Brasil: por outra política de drogas

Chega de guerra: queremos saúde, informação, direito ao próprio corpo, autonomia e liberdade, diz manifesto articulado pela Marcha da Maconha

Imagem: Henri MatisseCabeça de Laurette com xícara de café (detalhe)

Sobre o tema: 

> Para assinar o manifesto, individualmente ou em nome de grupos, movimentos e entidades, escreva para saopaulo@marchadamaconha.org

> Para acompanhar e participar da construção da marcha, este ano (37 cidades já inscritas), visite www.marchadamaconha.org

O debate está em jornais, revistas, redes de televisão. Tomou  ruas,  internet, livros, personalidades, políticos e campanhas eleitorais. Ganhou espaço e consistência que mostram cada vez mais a falência da política proibicionista em termos humanos, de segurança, de direitos, liberdades e saúde pública. O Brasil se tornou um dos mais sangrentos campos de batalha da guerra às drogas, um sistema racista, antigo e ineficiente para lidar como uma questão complexa e urgente. Uma lei que redunda em morte e gastos públicos elevados e de nenhuma forma ataca o consumo entre jovens e adultos, muito menos o abuso: apenas desloca-o para uma esfera ainda mais intocável.

O consumo de substâncias alteradoras de consciência é milenar, está imbricado com a própria evolução da humanidade. A tentativa recente de coerção a este hábito, às vezes nocivo à saúde  às vezes não, não só é comprovademente um fracasso como traz em si uma série de efeitos nefastos e que devem preocupar a qualquer um que deseja um mundo menos injusto.

Da mesma forma que uma caneta pode escrever lindos poemas ou perfurar uma jugular, os efeitos das diferentes drogas, com suas diferentes culturas de uso, dependem de seu uso. Assim, ao mesmo tempo em que não cabe demonizá-las a priori, como se fossem dotadas de propriedades metafísicas, tampouco é sensato endeusá-las, acreditar que elas por si sejam transformadoras, revolucionárias ou coisa que o valha. Não defendemos que o uso de drogas traga um mundo melhor, mas não deixamos de ver o evidente: a proibição do consumo de algumas delas torna o mundo muito pior.

Você se importa com o encarceramento em massa? O Brasil já é o terceiro país que mais prende seus cidadãos no mundo, atrás apenas de EUA e China, e dos cerca de 500 mil detidos no país praticamente um quarto deles está nesta situação desumana por conta de crimes relacionados a drogas.

Você se importa com o racismo e a criminalização da pobreza?  A origem da proibição da maconha, e de outras drogas, está altamente conectada com discursos e práticas racistas e xenófobas, em todo o mundo. No Brasil, a primeira lei que criminalizou a maconha tinha como alvo a população negra do Rio de Janeiro, e hoje a maior parte dos afetados pela guerra às drogas tem pele escura e baixas condições econômicas. Enquanto ricos e classe média são identificados como usuários, o pobre é sempre o traficante, com a guerra às drogas servindo como instrumento estatal de segregação e controle social de populações desfavorecidas.

Você se importa com o sofrimento humano e com o avanço da ciência? A proibição das drogas não só impede tratamento efetivo, de qualidade e público aos que fazem uso abusivo como freia também o desenvolvimento da ciência, que pode ter muitos ganhos com as pesquisas sobre psicotrópicos em geral. Já foi provado cientificamente o valor medicinal da cannabis – e de outras drogas transformadas em “tabu” – no tratamento de diversas enfermidades que sofremos, aliviando seus sintomas e preparando a cura: câncer, AIDS, Mal de Parkinson, depressão, ansiedade, enxaqueca e a lista não para de crescer.

Você se importa com informação de qualidade e prevenção ao uso abusivo? Você se importa com direitos civis e liberdades individuais? Você se importa com a situação da mulher e o encarceramento feminino no Brasil?  Você se importa com a corrupção? Você se importa com guerras e conflitos armados ao redor do mundo? Você se importa com a colonização da política e da vida empreendida pelas indústrias armamentista e farmacêutica?

Chegou a hora de ver que isso não interessa só a meia dúzia de maconheiros, chegou a hora de parar de estigmatizar este debate. Chegou a hora de encarar os fatos, olhar nos olhos da realidade e ver que como está não pode ficar. A luta contra o proibicionismo quer colocar seus ombros ao lado de todos que lutam por outro mundo, assim como convidar aqueles e aquelas que dizem um basta à injustiça e à opressão a participar de nossa caminhada. Afinal, quando uma luta avança, nenhuma outra retrocede.

Basta de racismo, moralismo, violência, corrupção e proibição. Queremos o direito à saúde, à informação, ao próprio corpo, à autonomia, à liberdade: é tempo de uma nova política de drogas para o Brasil.

Assinam (até 12/5/2012):

Marcha da Maconha São Paulo

ABESUP – Associação Brasileira de Estudos Sobre Psicoativos
Amparar – Associação de Amigos e Familiares de Presos
ANEL – Assembleia Nacional dos Estudantes Livre
Autônomos & Autônomas Futebol Clube
Bando o texto perdeu-se e o bacalhau também – Grupo de teatro
Bloco Planta na Mente – Rio de Janeiro
Brasil Pelas Florestas
Casa Mafalda
CEDECA Interlagos
Centro de Mídia Independente – CMI/SP
CFP – Conselho Federal de Psicologia
Centro Acadêmico Benevides Paixão – PUC-SP
Centro Acadêmico Ruy Barbosa – EEFE-USP
Cineclube Bordel Sem Paredes
Coletivo Acorda – Diadema
Coletivo Antiproibicionista Cultura Verde
Coletivo CannaCerrado
Coletivo Cultivando uma Ideia – Viçosa (MG)
Coletivo DAR – Desentorpecendo a Razão
Coletivo Feminista Três Rosas
Coletivo Feminista Yabá
Coletivo Plantando Consciência
Coletivo Plantando Informação
Coletivo Revolução Verde
Coletivo Semeando
Coletivo Sem Paredes
Coletivo Tomando o Céu de Assalto
Comitê Nacional pela Legalização do Cânhamo – Plantando a Paz – Curitiba
Construção Coletiva
Enecos – Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social
Fened – Federação Nacional dos Estudantes de Direito
Fora do Eixo
Fórum Mineiro de Saúde Mental
Frente Estadual Antimanicomial/ SP
FUMA – Frente Uspiana de Mobilização Antiproibicionista
Growroom
Hempadão – Laricas de informação
Instituto da Cannabis
Instituto Práxis de Direitos Humanos
Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social
Matilha Cultural
Marcha da Maconha ABC
Marcha da Maconha Blumenau
Marcha da Maconha Fortaleza
Marcha da Maconha Florianópolis
Marcha da Maconha João Pessoa
Marcha da Maconha Juiz de Fora
Marcha da Maconha Niterói
Marcha da Maconha Rio Grande do Norte – Coletivo Potiguar
Marcha da Maconha Viçosa
Movimento Nacional da População de Rua
Movimento Passe Livre – MPL-SP
Movimento Para Todos
MTST – Movimento dos Trabalhadores Sem Teto
NEIP – Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos
ONG Centro de Convivência É de Lei
ONG Plantando Consciência
Outras Palavras
PSTU – Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado
Princípio Ativo – Coletivo Antiproibicionista de Porto Alegre
Projeto Vozes Insurgentes Ressignificando Universos Sofistas (VIRUS) – RN
Psicotropicus-Centro Brasileiro de Politica de Drogas
Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial
Rede Pernambucana de Redução de Danos
Tribunal Popular – O Estado brasileiro no banco dos réus
União de Mulheres de São Paulo

Dívida espanhola atinge 165% do PIB, Igreja e rei não sofrem com austeridade

Os dados foram divulgados pelo Banco de Espanha no mesmo dia em que o governo de Rajoy anunciou mais cortes na despesa pública, atingindo a saúde pública e a educação.

Publicado por BE Internacional 

A relação entre a dívida externa e o PIB em Espanha é das mais altas do mundo. As normas da União Europeia estabelecem uma dívida externa máxima de 60% do PIB; quando se iniciou a intervenção na Grécia a dívida grega era de 120% do PIB, verificando-se que a política de austeridade adotada a fez subir em menos de dois anos para quase 170% do PIB. O governo direitista de Rajoy, em associação com a senhora Merkel e a Comissão Europeia, segue essa mesma política na Espanha, que poderá significar um em cada quatro espanhóis desempregados no fim deste ano. A dívida externa espanhola é sobretudo privada; só 16% correspondem a dívida pública.

Na segunda-feira, o governo de Mariano Rajoy anunciou novos cortes no valor de 10 bilhões de euros na saúde pública e na educação. Apesar do anúncio do aprofundamento da austeridade, os juros da dívida espanhola continuam aumentando, provocando o que a comunicação social qualifica como “a desconfiança dos mercados”. O mesmo acontece com as dívidas da Itália e da Grécia, revelando estas situações o fracasso contínuo das políticas de austeridade.

Mariano Rajoy anunciou já cortes de despesas em três etapas: a primeira de 16 bilhões de euros; a segunda de 40 bilhões; e agora a terceira, de 10 bilhões, sem dar mais explicações.

Entretanto, a revista Europa Laica anunciou recentemente que o Estado Espanhol, que a Constituição proclama laico, contribui anualmente com cerca de 10 bilhões de euros para a Igreja Católica, verba equivalente à terceira fatia de cortes incidindo sobre saúde e educação. Os gastos do Estado com a casa real, segundo informações desta instituição, atingem 16 bilhões de euros anuais, correspondentes ao valor da primeira fatia de cortes.

Amizade patronal

Santiago Arturo Scott Rojas
Rio de Janeiro – RJ

Só 10% dos autores de homicídio são condenados

A estimativa é do presidente da Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais, Hélio Buchmüller. Para ele, grande parte do problema decorre de deficiências na perícia

RUDOLFO LAGO

Para o presidente da APCF, Hélio Buchmüller, previsão constitucional da perícia seria uma forma de valorizar a atividade

Cerca de 90% dos casos de homicídio ocorridos no Brasil não são esclarecidos a ponto de levar seus autores à condenação. O dado é do presidente da Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF), Hélio Buchmüller. Em entrevista aoCongresso em Foco, Buchmüller avalia que essa situação decorre de vários problemas, mas especialmente de deficiências ocorridas na investigação e na elucidação dos crimes. Deficiências relacionadas especialmente com os trabalhos de perícia. “É vinte vezes mais provável o cidadão cometer um homicídio e não pagar do que o contrário”, diz Buchmüller.

“A perícia é, sem dúvida, um dos componentes mais importantes para a existência desse quadro”, aponta o presidente da APCF. “Não na Polícia Federal, mas especialmente nas delegacias espalhadas pelo país, há diversos problemas. Faltam profissionais, faltam equipamentos”, diz Buchmüller.

Muitas vezes, diz Buchmüller, aspectos do crime acabam ignorados por esses problemas na investigação. As cenas do crime são alteradas por desconhecimento, ou certos exames acabam não sendo feitos por falta de profissionais ou de material. É ainda precária também a informatização dos dados policiais, dificultando uma integração de cadastros e troca de informações, diz Buchüller. Para ele, há ainda no país um quadro de desvalorização do trabalho da perícia policial.

Previsão constitucional

Por conta desse quadro, uma das principais bandeiras da APCF é estabelecer de alguma forma uma previsão constitucional para o trabalho da perícia policial no âmbito da segurança pública. “Acreditamos que a formulação de algum preceito constitucional seria uma forma de garantir a valorização do trabalho da perícia”, avalia Buchmüller.

O formato dessa previsão constitucional ainda não é um consenso entre os peritos. Duas correntes competem. A primeira busca estabelecer a perícia como “função essencial da Justiça”. Nessa linha, tramita na Câmara uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), do deputado Valtemir Pereira (PSB-MT). Além de estabelecer a perícia como “função essencial da Justiça”, a PEC também estabelece critérios para a nomeação e formação de peritos, obrigando, por exemplo, que a contratação dos profissionais seja feita por concurso público. “A perícia oficial de natureza criminal é de fundamental importância ao bom andamento e à eficácia do sistema judiciário, na medida em que tem por finalidade fornecer elementos, indícios e provas de ocorrência de infrações penais que subsidiam material para o devido processo judicial e o desate da questão criminal”, escreve Valtemir Pereira, na justificativa da PEC.

Clique aqui para ler a PEC na íntegra

Outra linha defende que a perícia seja incluída entre os órgãos fundamentais da segurança pública, ao lado de outros organismos policiais previstos na Constituição, como a Polícia Federal ou a Polícia Rodoviária. Da mesma forma, tramita na Câmara PEC do deputado Paulo Pimenta com essa previsão. “A perícia oficial é imprescindível à segurança pública, pois se trata de função complexa que exige qualificação, formação específica e especialização”, diz Paulo Pimenta, na justificativa.

Leia aqui a íntegra da PEC

“Nós temos nos reunido com aliados do Congresso e do governo na discussão de qual seria o melhor formato”, diz o presidente da APCF. “O importante é que a perícia seja de alguma forma reconhecida como função constitucional, como algo fundamental para o Estado e para a sociedade brasileira, porque aí conseguiríamos argumentos mais fortes para alavancar investimentos e garantir a boa formação de profissionais na área”, considera.

‘Esse crime compensa’, diz promotor sobre fraude em licitação do metrô

Folha de S. Paulo 

Se existe um crime que compensa no Brasil, é formação de cartel para fraudar licitação. Essa é a opinião do promotor Marcelo Batlouni Mendroni, responsável pela denúncia contra 14 executivos ligados a empreiteiras que foram acusados de fraudarem a licitação bilionária para obras de ampliação da linha 5-lilás do metrô de São Paulo.

Na lista estão funcionários da Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Mendes Júnior, OAS e Queiroz Galvão.

Segundo o promotor, a pena neste tipo de crime é tão “excessivamente baixa” que o fraudador pode ser condenado (se for pego) ao pagamento de apenas uma multa. Essa é a maioria das penas aplicadas para esse crime.

“O que o empresário pensa? ‘Se for pego em uma [fraude], eu tenho que pagar uma multa. Vou pagar essa multa com o dinheiro que já roubei’”, disse.

“Isso faz com que pelo menos o crime de cartel compense”, afirmou.

O promotor disse ainda que isso é um estímulo para a multiplicação desse tipo de crime. “Essa forma de agir, de cartéis e fraudes em licitações, infelizmente é a regra neste país. A exceção é que não existam fraudes nas licitações.”

Mendroni defende uma mudança na lei para que as penas sejam aumentadas, como ocorre em grande parte do mundo. Para ele, esse dinheiro público desviado ajudaria a evitar que muita gente acabe no crime por não ter tido oportunidades.

“Gente desse tipo não precisa de ressocialização, porque já estão integrados à sociedade. Eles precisam é de punição. Quem precisa de ressocialização são os pobres que cometem os crimes de bagatela pelas ruas do país”, disse.

Diagnóstico pós moderno

Marcos Coelho Benjamin
Belo Horizonte – MG

A vitória de François Hollande na França

Eleito presidente, o socialista terá o desafio de encarar a crise econômica européia

Carlos Latuff/Opera Mundi

O cartunista e ativista Carlos Latuff é colaborador do Opera Mundi. Seu trabalho, que já foi divulgado em diversos países, é conhecido por se dedicar a diversas causas políticas e sociais, tanto no Brasil quanto no exterior. Muitas de suas charges podem ser encontradas nohttp://latuffcartoons.wordpress.com/.

Emissões de CO2 batem recorde em 2010

CLAUDIO ANGELO

As emissões globais de gás carbônico bateram seu recorde histórico em 2010, crescendo 5,9% em relação ao ano anterior. A disparada se deve à recuperação rápida da economia mundial após a crise de 2008/2009, especialmente nos países em desenvolvimento.

Segundo estudo do Centro Internacional de Pesquisa Climática e Ambiental, em Oslo, o mundo emitiu num único ano 9,1 bilhões de toneladas de carbono, ou 32 bilhões de toneladas de CO2, somente por queima de combustíveis fósseis e produção de cimento.

“Este é o maior crescimento total já registrado, e a maior taxa de crescimento desde 2003″, afirma o estudo, dizendo ainda que o pico nas emissões mais do que compensou a queda de 1,4% devida à crise econômica em 2009.

A cifra tende a não se repetir no ano que vem, mas os autores do estudo temem que ela signifique um novo patamar no crescimento anual das emissões de CO2. Isso deve colocar o mundo ainda mais longe do rumo de evitar que o aquecimento global neste século ultrapasse a perigosa marca dos 2°C em relação à era pré-industrial.

Em seu artigo no periódico “Nature Climate Change”, o grupo de pesquisadores liderados por Glen Peters aponta três fatores principais para a explosão das emissões: o reaquecimento da economia, maior nos países em desenvolvimento; a retomada das emissões nos países desenvolvidos; e a reversão da tendência de redução da intensidade de carbono (ou seja, o total emitido por dólar gerado) no PIB mundial, vista com a aceleração do setor de serviços a partir dos anos 1990.

“A crise financeira global foi uma oportunidade de empurrar a economia para longe de uma trajetória de altas emissões. Nossos resultados não dão nenhuma indicação de que isso esteja acontecendo”, afirma o grupo.

O comportamento dos países em desenvolvimento foi crucial para isso. Pacotes de estímulo como o adotado pelo Brasil, aumentando o consumo de carros e eletrodomésticos, aliados a uma queda no comércio internacional, fizeram com que o carbono que os países emergentes lançam no ar para alimentar o próprio consumo (em vez de para alimentar o dos países ricos via exportações) tivesse um crescimento maior no lado de cá do mundo do que no hemisfério Norte pela primeira vez na história.

Políticas adotadas pelos países ricos (os mais atingidos pela crise), por sua vez, também contribuíram para a escalada: em vez de iniciar mudanças estruturais na economia, eles passaram a aliviar restrições ao consumo de combustíveis fósseis, como o petróleo extraído das areias betuminosas do Canadá e exportado para os EUA.

Os pacotes de “estímulo verde” à economia aprovados em vários países desenvolvidos e em emergentes como a Coreia do Sul ainda não tiveram efeito nas emissões.

É neste cenário que ministros de 190 países devem decidir nesta semana, na conferência do clima de Durban, África do Sul, se estabelecem um “mapa do caminho” para um acordo global que force ricos e emergentes a cortar suas emissões, a ser forjado nos próximos anos.

Nesta segunda-feira (5), o ministro da Economia da Polônia, Marcin Korolec, admitiu que existe um “hiato de ambição” nas negociações. A comissária europeia do Clima, Connie Hedegaard, defendeu que o novo acordo entre logo em vigor, fez críticas veladas aos EUA e endureceu a posição europeia de só embarcar numa segunda fase do Protocolo de Kyoto caso um acordo global legalmente vinculante seja delineado até o final desta semana. “Precisamos que nos asseguram que, se construirmos uma ponte para o futuro, os outros seguirão”, afirmou.

Veta Dilma

Caros amigos do Brasil,

Há alguns dias, o Congresso aprovou um projeto de lei catastrófico que dá aos madeireiros e fazendeiros carta branca para desmatar enormes faixas de nossas preciosas florestas, da Amazônia à Mata Atlântica. Agora, somente a presidenta Dilma pode barrar essa lei.

O universo está conspirando a nosso favor. Em algumas semanas, Dilma será anfitriã da maior conferência ambiental do mundo. Informantes nos disseram que ela não aceita pagar o preço de ser considerada a líder que aprovou a devastação da Amazônia. Dezenas de pessoas já foram assassinadas por serem contra o desmatamento – agora é a nossa vez de fazer pressão e forçar Dilma a escolher a opção do veto.

Não temos tempo a perder – ela pode tomar uma decisão a qualquer momento. Vamos dar mais força à nossa petição de 1.7 milhão de assinaturas. Clique abaixo para salvar a Amazônia e divulgue essa campanha para todos – quando alcançarmos 2 milhões de assinaturas a Avaaz juntará forças com ex-ministros do Meio Ambiente para entregar a petição diretamente para Dilma:

http://www.avaaz.org/po/brasil_veta_dilma/?vl

Na última década, o Brasil conseguiu reduzir amplamente os índices de desmatamento, chegando a 78% de redução entre 2004 e 2011. A razão? Uma legislação florestal aclamada mundialmente, aplicada pela polícia federal, e o monitoramento via satélite. Mas esse novo e perigoso código ameaça desfazer esse progresso e provocar o desmatamento total.

Os assassinos de florestas estão festejando – não somente essa nova lei vai possibilitar o desmatamento de uma área do tamanho dos estados de Minas Gerais e São Paulo juntos, como também concede anistia para todos os crimes de desmatamento do passado.

Dilma já disse que quer chegar a um “acordo” entre o lobby pró-desmatamento e os defensores ambientais. Entretanto sabemos que o acordo não é necessário – no Brasil, o desenvolvimento econômico e a proteção de nosso meio ambiente andam de mãos dadas. Estudos confirmam que a incrível transformação da agricultura do Brasil está fortemente baseada no aumento da produtividade e não na expansão de terras. Enquanto isso, na Rússia, a proteção branda das florestas levou a consequências desastrosas – o aumento enorme dos incêndios em florestas e uma redução de 20% na produção de trigo do país.

79% dos brasileiros em todo o país rejeitam a mudança na legislação florestal. Vamos garantir que sejamos escutados antes que seja tarde demais. Assine agora a petição para Dilma vetar imediatamente o Código Florestal e, em seguida, encaminhe esse email para todos:

http://www.avaaz.org/po/brasil_veta_dilma/?vl

Nos últimos 3 anos, membros brasileiros da Avaaz deram grandes saltos em direção ao mundo que todos nós queremos: ajudamos a aprovar a Ficha Limpa contra todos os desafios e pressionamos nosso governo a assumir um papel de liderança na ONU, proteger os direitos humanos ao redor do mundo, e intervir em apoio à democracia no Oriente Médio. Agora, mais uma vez, é hora de preservarmos o nosso mais precioso tesouro natural para o bem de nossos filhos e netos.

Com esperança e determinação,

Luis, Pedro, Diego, Alice, Ricken, Maria Paz e toda a equipe da Avaaz

Mais informações:

‘Dilma disse que não vai nos decepcionar’, diz Minc sobre Código Florestal (Folha de S. Paulo)
http://www1.folha.uol.com.br/poder/1081843-dilma-disse-que-nao-vai-nos-decepcionar-diz-minc-sobre-codigo-florestal.shtml

Dilma deve vetar partes do Código Florestal que levem a anistia, diz Ideli (G1)
http://g1.globo.com/politica/noticia/2012/04/dilma-deve-vetar-partes-do-codigo-florestal-que-levem-anistia-diz-ideli.html

Código Florestal foi votado, mas batalha continua (Reuters)
http://br.reuters.com/article/topNews/idBRSPE83P0AX20120426

Código Florestal: os principais pontos do texto aprovado (O Globo)
http://oglobo.globo.com/pais/codigo-florestal-os-principais-pontos-do-texto-aprovado-4738934#ixzz1tEoUD3xV

Para ambientalistas, texto aprovado do Código Florestal ampliará o desmate (O Estado de S. Paulo)
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,para-ambientalistas-texto-aprovado-do-codigo-florestal-ampliara-o-desmate,865403,0.htm

Comunicado IPEA 96
http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/comunicado/110616_comunicadoipea96.pdf

Código florestal em roleta russa
http://www.zeeli.pro.br/Novo/Arquivos/Artigos/Valor/2012/Codigo_florestal_em_roleta_russa.aspx