Monthly Archives: junho 2011

Reconquistar o direito de greve

Se uma greve não pode interromper a produção ou os serviços não tem eficácia

Brasil de Fato

banner_blog_3  Veja este artigo no sítio controvérsia, http://www.controversia.com.br/ , acompanhado de dois vídeo com as canções: “Fábrica”  e “Teatro dos Vampiros” da banda Legião Urbana.

Nas últimas semanas, importantes categorias enfrentaram suas campanhas salariais nas várias regiões do país. Entre elas, os metroviários, eletricitários, urbanitários, condutores de ônibus, ferroviários e trabalhadores em saneamento. Todos enquadrados no conceito de trabalhadores em atividades essenciais. A lei exige que publiquem editais com 72 horas de antecedência avisando a população da greve. Assim que os editais são publicados o Ministério Público do Trabalho ingressa com um pedido de liminar sobre a greve. Antes mesmo da greve se iniciar os Tribunais Regionais do Trabalho concedem liminares exigindo que até 90% dos trabalhadores permaneçam trabalhando, assegurando o atendimento dos serviços considerados “inadiáveis”. Estabelecem multas de até R$ 200 mil reais por dia, caso os sindicatos não cumpram a ordem judicial. O valor da multa e os percentuais variam em cada região, mas sempre determinam que se assegure 100% das atividades em funcionamento.

Como é possível uma greve com apenas 10% dos trabalhadores?

A greve é uma forma de tentar obrigar a empresa a fazer algo que não pretende fazer ou não está obrigada por lei: conceder aos trabalhadores vantagens não necessariamente previstas em lei.

Se uma greve não pode interromper a produção ou os serviços não tem eficácia. Não exerce pressão. Não é greve.

Trata-se de um direito conquistado com muitos sacrifícios pela classe trabalhadora. E ao longo de mais de meio século em que deixou de ser criminalizado e passou a ser admitido em nosso ordenamento constitucional, o Estado sempre buscou suprimi-lo indiretamente através da lei ordinária. Converteu-se numa arma fundamental para derrotar a ditadura a partir do final da década de 1970. Um direito que foi reconquistado enfrentando intervenções sindicais, demissões e até prisões. Foi a grande bandeira da classe trabalhadora nas eleições constituintes de 1986. E assegurou uma conquista decisiva na redação do artigo 9º da Constituição Federal de 1988, inspirada na lei surgida durante a Revolução dos Cravos em Portugal.

“Ter um direito” significa que o Estado deve garantir sua efetivação e que todos os cidadãos devem respeitar esse direito. Porém, ao longo da ofensiva neoliberal iniciada nos anos 1990, gradativamente o direito de greve foi sendo esvaziado, tanto por leis ordinárias como pelo entendimento dos tribunais. Atualmente, para as categorias que integram o que a lei denomina “serviços essenciais” podemos afirmar, sem exagero, que já não existe.

De fato, no campo das chamadas “atividades essenciais” para o setor privado foi baixada uma lista de atividades tidas como tal, e exigida a manutenção de um esquema de emergência durante a paralisação. Esquema este que os tribunais vêm transformando na exigência de 100% de funcionamento. Alimentados continuamente pela intensa campanha dos grandes veículos de comunicação que jogam a população contra os grevistas, impedindo que entenda suas reivindicações enquanto trabalhadores, as greves são estigmatizadas e os que lutam são acusados de privilegiados que querem “chantagear a população”.

Estamos assistindo a uma gradativa retomada da capacidade de luta do movimento sindical. Amplia-se a luta pela conquista de aumentos reais, bem como para recuperar a perda salarial acumulada nos últimos anos. E a cada dia esta retomada se defronta com um direito de greve completamente esvaziado.

Cresce o número de greves, especialmente nas atividades privadas consideradas como “não essenciais”, mas sempre de curta duração. Neste momento, as ameaças de greve e mesmo as paralisações de curta duração têm sido suficientes para firmar acordos onde são assegurados o reajuste salarial e o percentual de aumento real. Mas é um quadro conjuntural que inevitavelmente irá se alterar. Nenhuma categoria se arrisca a enfrentar as multas e restrições que vêm impedindo o exercício do direito de greve e, quase sempre, retornam ao trabalho ante a concessão de uma liminar ou a ameaça de terem seu movimento julgado como “abusivo”.

O curioso é que a bandeira da reconquista do direito de greve não vem sendo empunhada com a ênfase necessária pelos dirigentes sindicais. Muitos sequer se aperceberam destas mudanças, e conduzem as campanhas salariais como se a greve ainda pudesse ser exercida com amparo legal.

Alguns dirigentes sindicais acham que esclarecer para os trabalhadores essa nova situação restritiva pode assustá-los. E como os avestruzes, preferem esconder a realidade e fingir que nada mudou.

Eis um desafio decisivo para a classe trabalhadora. Reconquistar o direito de greve não será obra de apenas uma categoria e exigirá a unidade do movimento sindical, que segue se pulverizando, consumido em disputas internas pela disputa dos aparatos. Pautar a reconquista do direito de greve, denunciar seu esvaziamento é uma tarefa que não pode ser postergada e deve ser priorizada pelos que apostam na construção de uma concepção classista no movimento sindical.

Fonte: http://www.brasildefato.com.br/

Inconformismo e Criatividade

O capitalismo necessita de adversários que atuem como corretivos da sua tendência para a irracionalidade e para a auto-destruição, a qual lhe advém da pulsão para funcionalizar ou destruir tudo o que pode interpor-se no seu inexorável caminho para a acumulação infinita de riqueza, por mais anti-sociais e injustas que sejam as consequências.

Boaventura de Sousa Santos

É hoje consensual que o capitalismo necessita de adversários credíveis que atuem como corretivos da sua tendência para a irracionalidade e para a auto-destruição, a qual lhe advém da pulsão para funcionalizar ou destruir tudo o que pode interpor-se no seu inexorável caminho para a acumulação infinita de riqueza, por mais anti-sociais e injustas que sejam as consequências. Durante o século XX esse corretivo foi a ameaça do comunismo e foi a partir dela que, na Europa, se construiu a social-democracia (o modelo social europeu e o direito laboral). Extinta essa ameaça, não foi até hoje possível construir outro adversário credível anível global.

Nos últimos trinta anos, o FMI, o Banco Mundial, as agências de rating e a desregulação dos mercados financeiros têm sido as manifestações mais agressivas da pulsão irracional do capitalismo. Têm surgido adversários credíveis a nível nacional (muitos países da América Latina) e, sempre que isso ocorre, o capitalismo recua, retoma alguma racionalidade e reorienta a sua pulsão irracional para outros espaços. Na Europa, a social-democracia começou a ruir no dia em que caiu o Muro de Berlim. Como não foi até agora possível reinventá-la, o FMI intervém hoje na Europa como em casa própria.

Poderá surgir em Portugal algum adversário credível capaz de impedir que o país seja levado à bancarrota pela irracionalidade das agências de rating apostadas em produzir a realidade que serve os interesses dos especuladores financeiros que as controlam com o objetivo de pilhar a nossa riqueza e devastar as bases da coesão social? É possível imaginar duas vias por onde pode surgir um tal adversário. A primeira é a via institucional: líderes democraticamente eleitos reúnem o consenso das classes populares (contra os media conservadores e os economistas encartados) para praticar um ato de desobediência civil contra os credores e o FMI, aguentam a turbulência criada e relançam a economia do país com maior inclusão social. Foi isto que fez Nestor Kirchner, Presidente da Argentina, em 2003. Recusou-se a aceitar as condições de austeridade impostas pelo FMI, dispôs-se a pagar aos credores apenas um terço da dívida nominal, obteve um financiamento de três bilhões de dólares da Venezuela e lançou o país num processo de crescimento anual de 8% até 2008. Foi considerado um pária pelo FMI e seus agentes. Quando morreu, em 2010, o mesmo FMI, com inaudita hipocrisia, elogiou-o pela coragem com que assumira os interesses do país e relançara a economia.

Em Portugal, um país integrado na UE e com líderes treinados na ortodoxia neoliberal, não é crível que o adversário credível possa surgir por via institucional. O corretivo terá de ser europeu e Portugal perdeu a esperança de esperar por ele no momento em que o PSD, de maneira irresponsável, pôs os interesses partidários acima dos interesses do país.

A segunda via é extra-institucional e consiste na rebelião dos cidadãos inconformados com o sequestro da democracia por parte dos mercados financeiros e com a queda na miséria de quem já é pobre e na pobreza de quem era remediado. A rebelião ocorre na rua mas visa pressionar as instituições a devolver a democracia aos cidadãos. É isto que está ocorrendo na Islândia. Inconformados com a transformação da dívida de bancos privados em dívida soberana (o que aconteceu entre nós com o escandaloso resgate do BPN), os islandeses mobilizaram-se nas ruas, exigiram uma nova Constituição para defender o país contra aventureiros financeiros e convocaram um referendo em que 93% se manifestaram contra o pagamento da dívida. O parlamento procurou retomar a iniciativa política, adoçando as condições de pagamento mas os cidadãos resolveram voltar a organizar novo referendo, o qual terá lugar a 9 de Abril. Para forçar os islandeses a pagar o que não devem as agências de rating estão a usar contra eles as mesmas técnicas de terror que usam contra os portugueses.

No nosso caso é um terror preventivo dado que os portugueses ainda não se revoltaram. Alguma vez o farão?

 

Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/

Camada profunda da Terra também tem organismos multicelulares

Uma equipe de cientistas detectou pela primeira vez, em uma mina da África do Sul, organismos multicelulares nas camadas mais profundas da biosfera terrestre.

EFE

O estudo, publicado no último número da revista "Nature", apresenta uma nova perspectiva a respeito da biodiversidade sob a superfície do planeta.

Abaixo da crosta terrestre, a biosfera alcança profundidades de até três quilômetros e abriga uma ampla variedade de organismos unicelulares.

Até agora, no entanto, os cientistas pensavam que os organismos multicelulares não sobreviveriam nesse ambiente devido às altas temperaturas, à falta de oxigênio e ao espaço limitado.

No entanto, a equipe do geólogo da universidade de Princeton (EUA) Tullis Onstott detectou diversos vermes nemátodos, incluindo uma espécie desconhecida (batizada de Halicephalobus mephisto), entre 0,9 quilômetro e 3,6 quilômetros abaixo da superfície terrestre, em uma rachadura formada pela água no interior de uma mina.

Essas criaturas, que medem cerca de meio milímetro, suportam altas temperaturas, se reproduzem de maneira assexuada e se alimentam preferencialmente de bactérias.

Os testes com carbono-14 indicam que a rachadura na qual os nemátodos foram encontrados se formou há entre 3.000 e 12 mil anos.

Os resultados da pesquisa indicam que os ecossistemas localizados sob a superfície terrestre são mais complexos do que se acreditava até agora e podem causar grandes implicações na busca de vida em outros planetas.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/

Mundo das Finanças na Berlinda ou Transparência do Mercado?

A crise de 2008 – com suas hipotecas imobiliárias e falência em cadeia de bancos, seguradoras e marcas tradicionais – colocou o sistema financeiro na berlinda.

Paulo Passarinho

Nunca antes, tantas informações, denúncias e fatos abalaram de forma tão grave o prestígio, a imagem e credibilidade de uma das atividades que, no mundo do capital, mais cultiva a discrição e a sobriedade.

Escândalos como os esquemas financeiros de Bernard Madoff, semelhante à pirâmides, inteiramente à margem da legalidade, e em meio à apologia dos ditos controles prudenciais de mercados “auto-regulados”, desmoralizou simultaneamente a tradicional imagem de sisudez de banqueiros, e as instituições de avaliação e de fiscalização e controle do setor.

Veio tudo, em um primeiro momento, abaixo. O impoluto e austero comportamento que um financista tanto preza foi varrido por uma espécie de tsunami. Os G’s 7,8, ou 20, em suas reuniões de urgência para o tratamento da crise, passaram a incluir como prioridade o debate sobre mecanismos de regulação para o setor financeiro. O desafio – formal – de todos seria discutir como controlar, frear e impedir os mecanismos da espiral especulativa de capitais virtuais, em busca permanente de formas de valorização fictícias.

O que ocorreu, contudo, de lá para cá foi apenas o aumento da especulação. Depois da forte queda dos mercados, as terapias adotadas nos Estados Unidos realimentaram com rapidez os mesmos circuitos financeiros responsáveis em sua origem pela crise. O blá-blá-blá da regulação foi substituído por pesada ajuda financeira às empresas, juros zeros ou próximos disso, redução de impostos e uma política monetária francamente expansionista.

Para muitos, esse era o caminho inevitável. Melhor que a opção dos europeus, em aplicar de forma ortodoxa o velho remédio do arrocho fiscal, com corte de gastos, demissões e ataque aos direitos sociais. Entretanto, a resposta dos Estados Unidos à crise, ao manter intocado os intrincados e complexos vasos comunicantes dos mais variados circuitos financeiros especulativos, inundou o mercado internacional de dólares e realimentou como nunca a especulação. As pesadas injeções de liquidez, que as compras de títulos americanos pelo Banco Central de lá tem provocado, aumentou a capacidade dos financistas em produzir novos negócios. A rápida recuperação das bolsas, a explosão dos preços das commodities, a valorização das moedas dos países da periferia são desdobramentos inevitáveis da expansão monetária, combinada com a desregulação financeira e cambial, tão ao gosto dos mercados.

A Europa, em meio a essa conjuntura, sofre os perversos efeitos de sua área de unidade monetária, a zona do euro, em meio aos seus diferentes países e suas heterogêneas especificidades fiscais e diferentes condições de produção e competitividade. As dívidas, assim como nos Estados Unidos, vão sendo socializadas, via Estados nacionais, mas a conta vai também sendo transferida aos elos mais fracos da comunidade européia. Destacando a exceção da pequena, gélida e corajosa Islândia, que repudiou o garrote vil dos financistas, Irlanda, Grécia e Portugal já tiveram de se render aos pacotes de ajuda aos seus credores, em troca de cortes drásticos em seus respectivos orçamentos, desemprego e perda de direitos sociais.

Mas, a paranóia é grande. A crise pode de fato se estender à Espanha, com seus alavancados bancos, e a própria Itália poderia para muitos analistas ser também arrastada para o olho do furacão. É dentro desse quadro que se tornou premente uma nova ajuda aos credores gregos. O pacote de €$ 110 bilhões, imposto aos trabalhadores gregos por um governo rendido às pressões de alemães e franceses, no ano passado, parece ter sido insuficiente. Para afastar o risco de uma inevitável moratória da Grécia, mais 60 bilhões de euros são novamente articulados para saciar o apetite dos credores de Atenas.

Mas, justo nesse momento, um episódio fora do contexto e das boas tradições cultivadas pelos homens das finanças surpreendeu. O diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Khan, dentro de um avião, onde embarcava para a Paris, tendo como objetivo um encontro, no dia seguinte, com a chanceler alemã Angela Merkel, é simplesmente preso, sob acusação de assédio sexual e tentativa de estupro a uma camareira de hotel.

Afora o ridículo da situação, o episódio, mais uma vez, demonstra a hipocrisia do falso moralismo e da pseudo seriedade da turma da grana fácil da especulação. Assim como as badaladas agências de risco dos anos noventa, consultorias especializadas no negócio das privatizações ou austeros auditores e seus maquiados balanços, agora são elementares princípios de comportamento que deixam nua – em todos os sentidos – a desfaçatez da prática cotidiana dos farsantes.

Aqui no Brasil, por sua vez, o indefectível Antônio Palocci, aquele mesmo que há pouco conseguiu escapar de um indiciamento criminal, pela suspeita de ter sido o mandante da quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo, voltou a ficar na berlinda. O ex-ministro da Fazenda de Lula, e atual chefe da Casa Civil de Dilma, foi denunciado por ter tido uma evolução do seu patrimônio, entre 2006 e 2010, aparentemente incompatível com os seus rendimentos. Em apenas dois imóveis, por exemplo, o ministro investiu R$ 7,4 milhões. E no período citado, suas declarações de imposto de renda mostram um crescimento de 20 vezes do seu patrimônio.

Apesar de, entre 2007 e 2010, Palocci estar exercendo mandato de deputado federal, ele, através de nota de sua assessoria, esclareceu que seus recursos financeiros foram obtidos através dos serviços de uma empresa de consultoria. Mais ainda: lembrou que não há nada demais nisso. Mais de 273 deputados federais e senadores também combinam a sua atividade parlamentar com negócios empresariais. E lembrou outros nomes de prestígio junto à banca, com relevantes serviços prestados à especulação, quando ocupantes de cargos públicos, e que vivem justamente da venda de seus especialíssimos serviços, muito valorizados pelo mercado. Nomes como Malan, Maílson, Arida e André Lara Resende…

Mais claro é impossível, vocês não acham?

Fonte: http://www.chicoalencar.com.br/

Quem era a misteriosa guerrilheira que acompanhou Che Guevara

Em 31 de agosto de 1967, na confluência do rio Masicuri com o rio Grande, na Bolívia, um pelotão de militares aguardava, escondido atrás de arbustos, que um grupo de guerrilheiros cubanos atravessasse as correntezas.

Joseba Elola

Imagem clássica de Che Guevara El Guerrillero Heroico tirada por Alberto Korda em 1960                                    Imagem clássica de Che Guevara "El Guerrillero Heroico" tirada por Alberto Korda em 1960

Eram 17h20, e eles já esperavam há dez horas, cozinhando no calor, com mosquitos lhes comendo vivos. Com a ajuda de um camponês, prepararam uma armadilha para o pelotão de combatentes revolucionários que se aprontava para cruzar o rio.

O “grupo de Joaquín” atravessou o rio em fila indiana, com a água até a metade do corpo, e em alguns trechos, até o queixo. De repente, do meio das águas emergiu o belíssimo corpo de uma mulher magra, com camiseta de manga curta colada ao corpo, uma mecha de cabelos sobre o rosto. Era uma imagem quase irreal para esse grupo de militares que perseguiam Che Guevara pela floresta boliviana. Era ela, sim, a guerrilheira da qual falavam os jornais, a única mulher que fez parte da expedição revolucionária. O capitão Vargas Salinas dá ordem para atirarem e o tiroteio começa, as metralhadoras cuspindo chumbo sobre os corpos que, sobre a água, pareciam pinos de boliche.

Uma bala atravessou o corpo de Tânia, que levou a mão ao peito, à altura do coração e caiu sobre as águas. A correnteza arrastou seu corpo, com a mochila às costas; levou também seus segredos, a infinidade de segredos de uma mulher que teve três nomes, três identidades, que foi sonhadora, mestra do disfarce, artista da mentira, guerrilheira, espiã. Uma mulher cuja vida foi praguejada de mitos e lendas que o prestigioso historiador boliviano Gustavo Rodrigues Ostria se propôs a desvendar.

O reconhecido especialista na guerrilha de Guevara levou três anos para escrever “Tamara, Laura, Tânia – Um mistério na guerrilha de Che” (editado pela RBA), um livro baseado em várias entrevistas com protagonistas daquela época, em informes da Stasi, do exército boliviano, da CIA. A ambiciosa reconstrução, amplamente documentada, desmonta mitos e lendas, e não vacila em derrubar teses sustentadas por autores como John Lee Anderson, Paco Taibo II ou Friedl Zapata.

Sem ir mais longe, a própria cena da morte da guerrilheira foi narrada de maneira diferente. A revolução cubana construiu um mito, de uma versão feminina de Che, da corajosa guerrilheira que tentou disparar sua metralhadora quando os tiros começaram a soar tiros sobre as águas do rio Masicuri. Rodríguez Ostria nega: “ela não disparou nenhum tiro”, disse o autor boliviano em conversa telefônica desde Santiago do Chile, onde está realizando um trabalho de investigação para seu próximo livro. “Na guerrilha, era combatente apenas quem tinha fuzil. Ela tinha uma pistola. Recebia tarefas que não a expunham aos perigos da guerrilha.”

Rosriguez Ostria, autor de uma dúzia de livros, ex-reitor da Universidade Maior de San Simón e ex-vice-ministro de Ensino Superior, Ciência e Tecnologia, refutou também a lenda da suposta relação entre Guevara e Tânia. “Não foi amante de Che. Apenas conviveram um mês na guerrilha”. Foi entre março e abril de 1967. E sua relação, de fato, foi marcada pela reprovação do comandante ao fato de Tânia ter abandonado suas funções de espionagem para se incorporar à guerrilha. Construir uma relação entre dois mitos tão parecidos é uma tentação difícil de superar. Mas não foi assim, segundo sustenta o historiador. “Havia uma razão quase ética para isso: Guevara sabia que ela era companheira de Ulises Estrada. Entre os revolucionários, havia códigos em relação às mulheres dos outros. Che havia se exposto demais, sua liderança moral havia se carcomido.”

A lendária guerrilheira nasceu como Tamara Bunke em 19 de novembro de 1937, em Buenos Aires. Filha de um alemão e de uma russa, ambos comunistas, voltou à pátria paterna em julho de 1952, onde já aos 15 anos entrou para Juventude Livre da Alemanha (JLA). Pertenceu à temível Stasi, o todo-poderoso serviço secreto da Alemanha comunista, e depois de trabalhar para a representação cubana em Berlim, abandonou intempestivamente o serviço secreto para conhecer em primeira mão a experiência socialista da ilha. Rodríguez Ostria, depois de analisar informes de segurança da Alemanha Oriental, desmontou a tese, sustentada por escritores como o uruguaio José Friedl Zapata, de que ela viajou para Havana como espiã da RDA.

Sim, foi espiã, mas para o regime cubano. Sua plena integração à revolução e à sociedade cubanas fez com que ela fosse enviada a La Paz, com a autorização de Ernesto Che Guevara. Lá, ela se transformou em Laura Gutiérrez Bauer, uma mulher discreta e conservadora cuja missão consistia em se infiltrar o máximo que pudesse na sociedade boliviana. Para cumprir a missão ela até mesmo se casou com um engenheiro boliviano para conseguir a nacionalidade, uma coisa que Havana havia exigido dela. E isso porque o amor de sua vida estava na ilha, seu “negrito”, Ulisses Estrada. “Teve que entregar seu corpo por causa de suas ideias”, diz o historiador boliviano, “mas não foi uma Mata Hari.”

Foi uma espiã dormente. Ou seja, não tinha outra missão exceto se integrar e esperar alguma ordem para se colocar em ação. A vida aborrecida da capital boliviana e dos círculos pelos quais andava começou a cansá-la. Quando Che Guevara decidiu desembarcar no país andino com suas tropas guerrilheiras, Laura viu a oportunidade de sua vida, de transformar-se no que sempre quisera ser: Tânia, a guerrilheira corajosa.

“Foi uma mulher que vivia uma rivalidade entre a Laura Gutierrez que devia representar, a Tamara que foi e a Tânia que queria ser.”

Rodrigues Ostria se mostra particularmente satisfeito com a informação que conseguiu nas entrevistas com Paco, o único sobrevivente da emboscada em que Tânia morreu; e com a entrevista com o oficial Barbery, o número 2 do pelotão que a matou. Ele sustenta que Tânia, na verdade, fez mais trabalhos de enfermeira e secretária do que de guerrilheira. Che não queria mulheres na linha de frente.

Mas Tânia se empenhou em estar ali, e morreu metralhada, cruzando um rio. Foi a única mulher num exército de revolucionários barbados. Inevitavelmente, transformou-se em mito.

Tradução: Eloise De Vylder

Fonte: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/elpais/

O PT esqueceu os trabalhadores

A posição da mídia nativa em relação ao Caso Palocci intriga os meus inquietos botões. Há quem claramente pretenda criar confusão. Outros tomam o partido do chefe da Casa Civil. Deste ponto de vista a Veja chega aos píncaros: Palocci em Brasília é o paladino da razão e se puxar seus cadarços vai levitar.

Mino Carta

Ocorre que Antonio Palocci tornou-se um caso à parte ao ocupar um cargo determinante como a chefia da Casa Civil, mas com perfil diferente daqueles que o precederam na Presidência de Lula. José Dirceu acabou pregado na cruz. Dilma foi criticada com extrema aspereza inúmeras vezes e sofreu insinuações e acusações descabidas sem conta. A bem da sacrossanta verdade factual, ainda no Ministério da Fazenda o ex-prefeito de Ribeirão Preto deu para ser apreciado pelo chamado establishment e seu instrumento, a mídia nativa.

As ações de Palocci despencaram quando surgiu em cena o caseiro Francenildo, e talvez nada disso ocorresse em outra circunstância, porque aquele entrecho era lenha no fogo da campanha feroz contra a reeleição de Lula. Sabe-se, e não faltam provas a respeito, de que uma contenda surda desenrolava-se dentro do governo entre Palocci e José Dirceu. Consta que o atual chefe da Casa Civil e Dilma não se bicavam durante o segundo mandato de Lula, o qual seria enfim patrocinador do seu retorno à ribalta.

E com poderes largos, como grande conselheiro, negociador junto à turma graúda, interlocutor privilegiado do mercado financeiro e do empresariado, a contar com a simpatia de amplos setores da mídia nativa. Um ex-trotskista virou figura querida do establishment, vale dizer com todas as letras. Ele trafega com a devida solenidade pelas páginas impressas e nos vídeos, mas é convenientemente escondido quando é preciso, como se envergasse um uniforme mimético a disfarçá-lo na selva da política.

Murmuram os botões, em tom sinistro e ao mesmo tempo conformado: pois é, a política… Está claro que se Lula volta à cena para orquestrar a defesa de Palocci com a colaboração de figuras imponentes como José Sarney, o propósito é interferir no jogo do poder ameaçado e garantir a estabilidade do governo de Dilma Rousseff, fragilizado nesta circunstância.

A explicação basta? Os botões negam. CartaCapital sempre se postou contra a busca do poder pelo poder por entender que a política também há de ser pautada pela moral e pela ética, igual a toda atividade humana. Fatti non foste a viver come bruti, disse Dante Alighieri. Traduzo livremente: vocês não foram criados para praticar, embrutecidos, a lei do mais forte. Nós de CartaCapital poderemos ser tachados de ingênuos, ou iludidos nesta nossa crença, mas a consideramos inerente à prática do jornalismo.

No tempo de FHC, cumprimos a tarefa ao denunciar as mazelas daqueles que Palocci diz imitar, na aparente certeza de que, por causa disso, merece a indulgência plenária. Luiz Carlos Mendonça de Barros, André Lara Rezende, e outros fortemente enriquecidos ao deixarem o governo graças ao uso desabrido da inside information, foram alvo de CartaCapital, e condenados sem apelação. Somos de coerência solar ao mirar agora em Antonio Palocci.

Em outra época, os vilões foram tucanos. Chegou a hora do PT, um partido que, alcançado o poder, se portou como os demais, clubes armados para o deleite dos representantes da minoria privilegiada. Devo dizer que conheço muito bem a história do Partido dos Trabalhadores. A primeira reportagem de capa publicada por uma semanal sobre a liderança nascente de Luiz Inácio da Silva, dito o Lula, remonta a começos de fevereiro de 1978. IstoÉ foi a revista, eu a dirigia. Escrevi a reportagem e em parceria com Bernardo Lerer entrevistei o então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, na vanguarda de um sindicalismo oposto ao dos pelegos.

Dizia a chamada de capa, estampada sobre o rosto volitivo do jovem líder: Lula e os Trabalhadores do Brasil. Já então sabia do seu projeto, criar um partido para defender pobres e miseráveis do País. Acompanhei a trajetória petista passo a passo e ao fundar o Jornal da República, que nasceu e morreu comigo depois de menos de cinco meses de vida, fracasso esculpido por Michelangelo em dia de desbordante inspiração, passei a publicar diariamente uma página dedicada ao trabalho, onde escreviam os novos representantes do sindicalismo brasileiro. Ao longo do caminho, o partido soube retocar seu ideário conforme tempos diferentes, mas permaneceu fiel aos propósitos iniciais e como agremiação distinta das demais surgidas da reforma partidária de 1979, marcado por um senso de honestidade e responsabilidade insólito no nosso cenário.

Antonio Palocci é apenas um exemplo de uma pretensa e lamentável modernidade, transformação que nega o passado digno para mergulhar em um presente que iguala o PT a todos os demais. Parece não haver no Brasil outro exemplo aplicável de partido do poder, é a conclusão inescapável. Perguntam os botões desolados: onde sobraram os trabalhadores? Uma agremiação surgida para fazer do trabalho a sua razão de ser, passa a cuidar dos interesses do lado oposto. Não se trataria, aliás, de fomentar o conflito, pelo contrário, de achar o ponto de encontro, como o próprio Lula conseguiu como atilado negociador na presidência do sindicato.

Há muito tempo, confesso, tenho dúvidas a respeito da realidade de uma esquerda brasileira, ao longo da chamada redemocratização e esgotadas outras épocas em que certos confrontos em andamento no mundo ecoavam por aqui. Tendo a crer, no momento, que a esquerda nativa é uma criação de fantasia, como a marca da Coca-Cola, que, aliás, o mítico Che Guevara bebia ironicamente às talagadas na Conferência da OEA, em 1961, em Punta del Este. Quanto à ideologia, contento-me com a tese de Norberto Bobbio: esquerdista hoje em dia é quem, aspirante à igualdade certo da insuficiência da simples liberdade exposta ao assalto do poderoso, luta a favor dos desvalidos. Incrível: até por razões práticas, a bem de um capitalismo necessitado de consumidores.

Nem a tanto se inclina a atual esquerda verde-amarela, na qual milita, digamos, o ultracomunista Aldo Rebelo, disposto a anistiar os vândalos da desmatação. E como não anistiar o ex-camarada Palocci? Lula fez um bom governo, talvez o melhor da história da República, graças a uma política exterior pela primeira vez independente e ao empenho a favor dos pobres e dos miseráveis, fartamente demonstrado. CartaCapital não regateou louvores a estes desempenhos, embora notasse as divergências que dividem o PT em nome de hipócritas interpretações de uma ideologia primária.

Na opinião de CartaCapital, e dos meus botões, não é tarefa de Lula defender o indefensável Antonio Palocci, e sim de ajudar a presidenta Dilma a repor as coisas em ordem, pelos mesmos caminhos que em 2002 o levaram à Presidência com todos os méritos.

Mino Carta é diretor de redação de CartaCapital. Fundou as revistas Quatro Rodas, Veja e CartaCapital. Foi diretor de Redação das revistas Senhor e IstoÉ. Criou a Edição de Esportes do jornal O Estado de S. Paulo, criou e dirigiu o Jornal da Tarde. redacao@cartacapital.com.br

Fonte: http://www.novae.inf.br/

John Beddington: O Sir da ciência

O conselheiro científico chefe do governo britânico conta como cientistas participam da formulação de políticas públicas

Carlos Fioravanti e Maria Guimarães

                                                       © Eduardo Cesar

John Beddington, conselheiro científico chefe do governo do Reino Unido, combina habilidades de cientista, diplomata, articulador e mobilizador de visão ampla. Ele representa os pesquisadores de universidades e mostra ao governo britânico – começando pelo primeiro-ministro, David Cameron, a quem se reporta – como utilizar o conhecimento científico para embasar suas decisões. Depois de assumir o cargo, em 2008, ele convenceu 17 ministros de Estado a abrirem espaço para conselheiros científicos, hoje atuantes em áreas variadas como educação, ambiente e transportes. Beddington encontra os outros conselheiros toda quarta-feira para um café da manhã: é quando criam estratégias para trabalhar em conjunto. Tão logo surgem emergências, como a gripe suína, o caos aéreo do ano passado, causado pelo espalhamento das cinzas de um vulcão da Islândia, ou o acidente nuclear do Japão, ele monta grupos de especialistas que rapidamente sugerem ao governo formas de agir diante das crises.

Beddington é Professor, o equivalente a professor titular no Brasil, de biologia aplicada no Imperial College London, e Sir, título de nobreza conferido pela própria rainha da Inglaterra. Em seu cargo anterior no governo, como chefe de ciência e tecnologia, ele verificou que não havia registro de quantos engenheiros e cientistas trabalhavam para o governo. Começou então a fazer com que os engenheiros que trabalhavam para o governo se encontrassem, mesmo que fossem de outras áreas. “Formamos uma comunidade de cientistas do governo, com cerca de 4 mil integrantes, nos encontramos várias vezes por ano e temos um site, de modo que todo cientista e engenheiro que trabalha para o governo agora tem a oportunidade de falar um com o outro”, ele contou.

Pouco depois de ter assumido o posto de conselheiro-chefe para assuntos científicos do gabinete de Ciência e Tecnologia do Reino Unido, Beddington visitou o Brasil pela primeira vez em 2008. Voltou em maio deste ano: no dia 10, visitou a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa  Agropecuária) e o Ministério da Ciência e Tecnologia.  No dia seguinte, como parte de uma reunião dos coordenadores dos projetos aprovados no Programa FAPESP de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG), ele fez uma apresentação em São Paulo sobre o que chama de “tempestade perfeita” – a combinação entre o crescimento da população mundial e das cidades, a demanda crescente por alimentos e por energia, e as mudanças climáticas. Em seguida, acompanhado de uma delegação composta por representantes de universidades e agências britânicas de fomento à pesquisa, participou da assinatura de convênios de cooperação científica e tecnológica entre a FAPESP e as universidades de Nottingham e Southampton, e atendeu a dois repórteres desta revista, mostrando como ele e seu grupo de conselheiros científicos resolvem e antecipam problemas.

Cada ministério do governo do Reino Unido tem um conselheiro científico?

Sim. Meu trabalho é complicado, porque ciência e tecnologia é um assunto muito amplo. Então, depois que assumi, tornou-se claro que deveria haver um conselheiro científico em cada ministério. Há um conselheiro científico no Ministério da Energia e Mudanças Climáticas, outro no de Ambiente, de Transportes, de Agropecuária, de Alimentação, no Ministério da Defesa e assim por diante. Há um conselheiro científico no Ministério da Educação. O único ministério que não tem é o das Finanças, e estamos em negociações para que o governo nomeie um. Discutimos com os ministros e adotamos uma definição ampla de conselheiro científico, que inclui pesquisadores sociais, engenheiros, economistas.

Por que o Ministério das Finanças não tem um conselheiro científico?

Boa pergunta. Já levantei esse ponto com o ministro das Finanças, porque já temos conselheiros científicos no Ministério das Relações Exteriores, no da Justiça e no que cuida de assuntos internos, só o de Finanças que não tem. Então estamos discutindo seriamente essa questão. Uma de minhas tarefas é dirigir o programa de antecipação. Por exemplo, que tipo de problemas teremos daqui a cinco ou 10, 20, 50 anos? Terminamos um amplo estudo, de 400 páginas, com 400 pesquisadores de 35 países, sobre o futuro da alimentação e da agricultura, que inclui uma análise do Brasil, da Embrapa. Para mostrar como a ciência é importante para as finanças, outro estudo trata do futuro das negociações financeiras. Há duas preocupações principais nessa área. A primeira é que uma quantidade crescente de negociações financeiras é hoje feita por meio de algoritmos em computadores. A segunda é que a velocidade com que esses negócios são feitos nas bolsas de valores está se tornando mais e mais rápida, apenas milissegundos. Significa que 20 mil operações podem ser feitas em um piscar de olhos, mas esse é um sistema que causa muita instabilidade. Temos aí um novo problema, que traz tanto questões de engenharia quanto questões ecológicas, mais amplas. Em maio de 2010 houve um crash na bolsa de valores de Nova York e muitas centenas de milhões de dólares em ações simplesmente desapareceram em menos de dois minutos. Ninguém sabe explicar o que aconteceu. Parte da explicação é que os algoritmos dos computadores estavam fazendo negócios uns com os outros. Em um estudo patrocinado pelo Ministério das Finanças, apresentamos questões de mercados financeiros a engenheiros, físicos e economistas. Ciência e engenharia vai muito além da ciência e da engenharia.

Como os conselheiros científicos trabalham?

São 17 conselheiros científicos. Eu me encontro com eles toda semana, às quartas-feiras, para um café da manhã. Isso significa que formamos uma rede de pessoas em cada um dos principais ministérios e discutimos problemas comuns que devemos trabalhar juntos. Podemos, por exemplo, ter uma conversa entre nosso departamento de transportes e nosso departamento de energia e o que isso tem a ver com mudanças climáticas. Tentamos manter essa rede. Também nos encontramos a cada dois ou três meses para discutir assuntos específicos; daqui a duas semanas, teremos uma reunião para tratar de alimentos, agricultura e mudanças climáticas. E a cada três meses nos encontramos com os coordenadores dos Conselhos de Pesquisas do Reino Unido para debates durante o dia, com atividades sociais à noite. Dessa forma, todo mundo envolvido com ciência e tecnologia no Reino Unido faz parte dessa rede e se reúne regularmente.

                                                        © Eduardo Cesar

O governo aproveita as ideias que vocês oferecem?

Penso que sim. Todo dia, em cada ministério, os conselheiros científicos avaliam se uma ideia é realmente boa ou inviável enquanto as políticas públicas estão sendo formuladas. Eles também são responsáveis por decidir sobre quanto gastar em cada área dos Conselhos de Pesquisa. Vou dar um exemplo, os biocombustíveis. Há dois anos, o Ministério de Mudanças Climáticas fez uma proposta para aumentar nos combustíveis para transporte a proporção de biocombustíveis. Havia alguma preocupação sobre o impacto disso nos preços dos alimentos e em produtos agrícolas. Então eu reuni um grupo com os conselheiros não só da área de transportes, mas também de alimentos e mudança climática. Chamamos especialistas para ajudar a formular recomendações ao governo e eles mudaram a decisão. Os conselheiros científicos também lidam com emergências. O governo tem um grupo de alto nível dos ministérios que forma a comissão COBR, que quer dizer cabinet office breefing room. É um nome ótimo. Quando há uma emergência, eu convoco um grupo, o Sage, scientific advisory group in emergencies [sage significa “sábio” em inglês]. Quando eclodiu a epidemia de gripe suína, reuni um grupo com conselheiros científicos do governo no departamento de saúde e no social – porque havia questões de emprego – e também especialistas de universidades, para aconselhar o governo sobre o que fazer. Em 2010, quando o espaço aéreo da Europa teve de ser fechado por causa do espalhamento das cinzas de uma erupção vulcânica, formei um grupo com os conselheiros científicos de todos os departamentos e especialistas independentes de universidades e do serviço geológico e meteorológico para recomendar o que poderia permanecer aberto ou não e o que poderia ser mudado nas regulamentações. Acabamos de completar outro sobre o desastre nuclear no Japão, para decidir se era necessário evacuar nossos cidadãos ou fechar a embaixada. Com engenheiros nucleares, meteorologistas e especialistas em radiação e saúde, novamente, de universidades, do governo e da indústria, aconselhamos a comissão COBR. Felizmente, concluímos que não era preciso evacuar, mesmo no pior dos casos os níveis de radiação não seriam muito graves.

O senhor tem de conciliar transparência com segredos, certo? Poderia dar exemplos de coisas que funcionam ou que não funcionam?

Uma área em que estamos trabalhando é segurança nacional. Uma de minhas realizações foi convencer o serviço de segurança a nomear um conselheiro científico… me desculpe, mas não posso contar o nome. Quando mostro, em apresentações, toda a equipe dos conselheiros, na foto aparece apenas a silhueta do que está no departamento de segurança. Os conselheiros científicos estão no coração desses assuntos: temos de pensar sobre as ameaças de terrorismo. Há coisas relativamente mais simples para resolver, como as explosões, mas o terrorismo também implica ataques biológicos ou de radiação. Também precisamos detectar redes de terroristas, por exemplo, rastreando o uso de telefones celulares. Há formas de usar a ciência não só para combater terrorismo, mas também o crime organizado.

Como convencer pessoas de outros grupos?

Esse é sempre um problema, mas o governo está comprometido em produzir políticas com base em evidências, que podem ser científicas, econômicas ou legais. Isso acontece nas altas esferas do governo, eu me reporto diretamente ao primeiro-ministro. Também chefio o Conselho de Ciência e Tecnologia, formado não só por cientistas estabelecidos, mas também por empresários importantes. O conselho também se reporta diretamente ao primeiro-ministro. Por exemplo, no ano passado, o conselho apresentou um relatório sobre a necessidade de desenvolver uma infraestrutura, obviamente de rodovias e ferrovias, mas também em um sentido mais amplo, de redes de computadores e de energia. O primeiro-ministro também se reúne regularmente com o conselho, a última vez foi há seis ou sete semanas, para ver como a ciência e a tecnologia podem se conectar com o coração do governo. O que é interessante é que apenas dois países da União Europeia têm conselheiros científicos chefes que respondem diretamente ao chefe de Estado: um é o Reino Unido e o outro, a República da Irlanda.

Todo país deveria ter conselheiros científicos?

É difícil generalizar. No caso do Brasil, um país comparável, em termos geográficos, são os Estados Unidos. O presidente Obama tem um conselheiro científico, John Holdren, que trabalha na Casa Branca. Os Estados Unidos também têm um Conselho de Ciência e Tecnologia do presidente, que agrupa não só ganhadores do Prêmio Nobel, mas também representantes de empresas. Eles têm cientistas em praticamente todos os departamentos, mas não conseguem se reunir com frequência. Isso é mais fácil em um país pequeno como o Reino Unido do que em um país grande como o Brasil. Todos moramos em Londres, então marcar um café da manhã é bem mais fácil. Não há um modelo que sirva para todos. A França e a Alemanha não têm uma pessoa assim; o Japão tem, os Estados Unidos, a Austrália, a Nova Zelândia, o Canadá também. Há um grupo de conselheiros científicos chefe e ministros de Ciência, Carnegie Group, formado pelos G8+5, que inclui México, Brasil e China, e nos encontramos uma vez por ano. É um encontro em que não podemos tomar notas.

É um encontro secreto?

Não. Significa apenas que não precisaremos ler sobre essas conversas mais tarde. Temos discussões detalhadas sobre alguns temas. No ano passado, por exemplo, falamos muito sobre medicamentos falsos. São gangues criminosas que fazem produtos com menos ou nenhum princípio ativo e embalagens idênticas às dos medicamentos reais, é uma indústria imensa.

E o que decidiram?

Não vou contar!

Quais são suas prioridades como conselheiro científico chefe do Reino Unido?

Como o primeiro-ministro, estou muito preocupado em fazer a ciência e a engenharia ajudarem mais efetivamente no crescimento econômico.

E como usar a ciência para ajudar no crescimento econômico?

É o que estou discutindo com a FAPESP. Por exemplo, podemos pensar em desenvolver técnicas para biorrefinarias, em modos mais eficientes de usar produtos agrícolas ou usar computadores para tornar os processos de manufatura mais eficientes, em qualquer área. No Conselho de Ciência e Tecnologia, que reúne cientistas, engenheiros e empresários de alto nível, estamos reorganizando as formas de financiamento à ciência. Agora, uma pessoa, o diretor-geral de conhecimento e inovação, Sir Adrian Smith, cuida de toda a ciência, todas as universidades e toda a inovação no Reino Unido. Ele é um matemático, dirigiu o Departamento de Matemática do Imperial College, depois esteve à frente do Queen Mary College, uma das universidades de Londres, antes de ingressar no governo. Ele tem agora um orçamento de 16 bilhões de libras esterlinas por ano (cerca de R$ 40 bilhões) para fazer a pesquisa das universidades chegar às empresas.

Outras prioridades?

Outra prioridade em que espero trabalhar: quais são os desastres potenciais que devem acontecer? Uma das áreas que destacamos recentemente é o fato de o Sol estar se movendo para uma fase mais ativa, e mudanças no clima espacial podem causar danos nos satélites e nas redes de comunicações. Escrevi um artigo com John Holdren, dos Estados Unidos, publicado no New York Times, alertando que devemos levar o espaço mais a sério. Não temos pesquisa suficiente para lidar com esses problemas potenciais. Nosso mundo está muito mais vulnerável do que era.

Como estão as negociações sobre mudanças climáticas no Reino Unido?

Vou evitar responder, porque sou um conselheiro científico, não um comentador político. Diria que há evidências crescentes de que a mudança climática é real, está acontecendo, é perigosa e é causada pelo ser humano.

O senhor está conseguindo reunir as pessoas e instituições para trabalhar juntos e lidar com esse problema? 

Sim. No Reino Unido temos o Hadley Center, o departamento de energia e de mudanças climáticas, o de ambiente e alimentação trabalhando juntos. Há um ministério responsável pela adaptação às mudanças climáticas e outro pela adaptação aos efeitos das mudanças climáticas. Há conselhos de pesquisa atuando nessa área, com programas de pesquisa, e estamos desenvolvendo colaborações, por exemplo, com a FAPESP. Também temos colaborações com grupos de pesquisa nos Estados Unidos, Europa, China, Índia, Canadá, Austrália, entre outros. Nossas embaixadas, nos principais países, têm pessoas que integram a rede de ciência e inovação e estão atentas para possibilidades de novas colaborações e de inovações, como aqui em São Paulo, em Délhi, em Pequim e em Washington. Como disse em minha apresentação, colaboração é o caminho do futuro. 

Fonte: http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

Metade dos alunos do ensino médio noturno não trabalha, diz pesquisa

Levantamento realizado pela ONG Parceiros da Educação mostra que estudantes do ensino médio noturno não estão matriculados durante o dia por falta de vagas; rendimento dos alunos da noite é inferior ao dos que fazem parte das turmas diurnas

Ocimara Balmant

Um levantamento da ONG Parceiros da Educação com 3.249 alunos de 18 escolas de São Paulo mostrou que metade dos estudantes do ensino médio que estudam no período noturno não trabalha.

Segundo a pesquisa, que ouviu estudantes e diretores, os adolescentes não estão matriculados no diurno por falta de espaço físico. Um problema, afirmam os diretores, que se agravou com o acréscimo de um ano no ensino fundamental.

"Com mais crianças na escola, ficou mais difícil ter salas disponíveis para atender aos alunos mais velhos durante o dia", diz Celso Teixeira, diretor da Escola Estadual Luis Gonzaga Travassos da Rosa, na zona sul.

É o caso de Daniele Lira de Freitas, de 17 anos, aluna do 3.º ano do ensino médio na Escola Estadual Francisco Brasiliense Fusco, também na zona sul. Ela nunca trabalhou, mas não conseguiu vaga em outras quatro escolas públicas próximas de sua casa que oferecem vagas durante o dia. Resultado: passa o dia todo esperando chegar o horário da aula. "Tenho certeza de que rendo muito menos do que eu renderia se eu estudasse de dia."

Números da pesquisa mostram essa defasagem no aprendizado. Quanto maior a porcentagem de salas à noite, menor o índice no Idesp. Entre as escolas pesquisadas, a nota das que oferecem o ensino médio durante o dia é o dobro do registrado pelas que só têm o curso noturno.

"Não dá nem para comparar. Eles rendem menos, a indisciplina é muito maior, surgem os problemas com drogas e, o pior de tudo, a evasão é muito grande", diz Teixeira. "No começo do ano, a sala está cheia de alunos. Depois de poucos meses, metade já sumiu."

Somente à noite. Por lá, até o ano passado, o ensino médio era oferecido somente à noite, em seis salas. Dos cerca de 200 alunos, apenas 15% trabalhavam. Para o início de 2011, a empresa parceira do colégio construiu duas novas salas e arranjos no espaço administrativo possibilitaram que outras duas classes pudessem receber alunos do ensino médio. Com isso, o diretor conseguiu montar três turmas do 1.º ano e uma do 2.º ano no período da manhã.

A aluna Karina Augusta Roberto de Carvalho, de 16 anos, que está no 2.º ano, conseguiu uma das vagas. Ela volta a estudar pela manhã, depois de cursar o 1.º no noturno. "É muito melhor. Pela manhã, acordo mais disposta. À noite, eu já chegava cansada, menos disposta, apesar de não ter trabalhado durante o dia."

Karina também acha os professores mais animados. "À noite, eles estão exaustos. Alguns dão aulas nos períodos da manhã, tarde e noite. E no dia que o trânsito está ruim, muitos nem conseguem chegar."

Segundo Teixeira, a mudança de horário e os problemas decorrentes dela transformam o aluno. "Quando saíram do fundamental, que cursavam durante o dia, 70% desses adolescentes tinham rendimento satisfatório. Vão para o noturno, e, ao sair, 90% estão abaixo do básico."

Adaptações. Para os especialistas, aumentar a oferta diurna para o ensino médio é uma resposta às mudanças da sociedade.

"O noturno segue uma lógica antiga, a de que o emprego é pleno e de que todos os jovens precisam trabalhar. O fato é que não há trabalho para todos e há aqueles cujos pais podem sustentar sem que entrem cedo no mercado", diz Wagner Antônio dos Santos, coordenador do programa jovens urbanos do Centro de Estudos e Pesquisa de Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).

Uma pesquisa do IBGE mostrou que, no País todo, os jovens de 15 a 17 anos estão estudando mais e trabalhando menos. Dos jovens dessa faixa etária, 18,9% deles faziam parte da população economicamente ativa em 2010. É a menor taxa média nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Recife, Salvador e Porto Alegre. Em 2003, o porcentual era de 26%.

O grande contingente de alunos fora do mercado de trabalho também tem relação com a queda da defasagem entre série e idade. Até há algum tempo, os estudantes chegavam mais velhos ao ensino médio e, portanto, a maioria deles estava empregada. Hoje, os estudantes chegam ao ensino médio com a idade adequada, entre 15 e 18 anos.

A Secretaria Estadual de Educação diz que aumentou a oferta de ensino médio diurno por causa da regularização do fluxo escolar. Segundo o órgão, em 1995, 24,2% dos alunos estudavam no diurno, ao passo que, em 2010, o índice aumentou para 54,9% do total de matrículas.

"É muito. O ensino noturno é uma aberração brasileira. Quando você olha para outros países, é um ensino técnico ou supletivo. Aqui, acabou se institucionalizando o ensino noturno", diz Marcos Magalhães, presidente do Instituto de Corresponsabilidade pela Educação (ICE). "É preciso forçar os professores e escolas a se ajustarem. Temos de atacar e não aprender a conviver com essa distorção."

PARA ENTENDER

Saresp dá "vermelho" ao ensino médio

O resultado do Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp) mostra que o ensino médio vai mal. Ao terminar o terceiro ano, 57,7% dos alunos tiveram desempenho considerado insuficiente em matemática. Em língua portuguesa, o porcentual foi de 37,9%.

Tirar uma nota abaixo do básico – ou insuficiente – significa que o estudante não foi capaz de assimilar o mínimo do conteúdo esperado para aquela disciplina.

Fonte: http://www.estadao.com.br/

Do desenvolvimento à desigualdade social

Tese do do Instituto de Economia aponta contradições do sistema capitalista

CARMO GALLO NETTO

Em uma transcrição livre, na epígrafe da publicação de doutorado lê-se: “Olho adiante, em dias não muito longínquos, para a maior mudança jamais ocorrida na vida material da humanidade. Vejo-nos livres para voltarmos aos princípios mais claros e corretos da religião e da virtude tradicional – em que a avareza é um vicio, a usura um delito e o amor ao dinheiro detestável e que aqueles que trilham o caminho da virtude e da sabedoria conferem menos atenção ao amanhã. Valorizaremos mais os fins do que os meios e preferiremos o bom ao útil. Reverenciaremos aqueles que conseguem nos ensinar como aproveitar as horas e os dias virtuosamente e bem, as encantadoras pessoas capazes de gozar diretamente com as coisas, os lírios do campo que não fiam nem tecem”.

Um leitor menos avisado julgará tratar-se de um texto sagrado ou de uma pregação religiosa. Mas a citação que abre a tese de Davi José Nardy Antunes, apresentada ao Instituto de Economia (IE) da Unicamp, é de um dos mais reverenciados economistas dos tempos modernos, que vislumbrava as possibilidades do emergente capitalismo face às novas conquistas advindas do progresso da ciência e da tecnologia: John Maynard Keynes (1883-1946). Além de revelar admiração por Keynes, o autor faz elogiosas referências ao seu orientador, professor Waldir José de Quadros, e ao professor João Manuel Cardoso de Mello, de quem se revela credor pelas orientações recebidas durante a vida acadêmica.

Ao abordar o tema “Capitalismo e Desigualdade”, o pesquisador defende quanto o desenvolvimento capitalista, que considera contraditório em sua essência, elevou a produtividade do trabalho a níveis tais que reduziram enormemente as necessidades da ação humana. Para ele, o desenvolvimento capitalista foi bastante importante para o futuro do homem em consequência da geração de progresso técnico, poupador de mão de obra. Este fato se revela na colossal ampliação da capacidade de produção agrícola e industrial das sociedades capitalistas mais desenvolvidas nos últimos 200 anos. “Se antes, a baixa produtividade e a lentidão do trabalho mantinham qualquer tipo de bem escasso, a produção industrial permitiu a superação da escassez e a substituição do trabalhador por máquinas”, afirma.

Em vista disso ele considera, concordando com previsões de Keynes sobre as possibilidades sociais e econômicas das futuras gerações, que “o desenvolvimento tecnológico criou verdadeiras possibilidades de emancipação, de ampliação da liberdade e de uma vida mais plena e rica de sentido”. Entende que, com o avanço da mecanização dos trabalhos socialmente necessários, ocorrem condições para a progressiva supressão da divisão social do trabalho, para a conquista da verdadeira igualdade social e para a liberdade individual. Antunes constata que um lampejo destas possibilidades pode ser visto ao longo do pós-guerra, em que foi criado um arcabouço institucional que permitiu o desenvolvimento por algumas décadas de um mundo mais livre em que se verificaram maior igualdade das rendas, redução de carga de trabalho e grande progresso material.

Entretanto, considera ele, que após décadas de grande ascensão das condições de vida nos países desenvolvidos, a volta do liberalismo recolocou a liberdade do capital acima das conquistas sociais e liberou as tendências mais destrutivas do capitalismo, mantidas sob controle durante o pós-guerra até os anos 70. Para o estudioso, disto resultou grande regressão social no mundo altamente desenvolvido nas últimas décadas graças principalmente à evolução tecnológica. Assim, afirma, “sob a ótica neoliberal, o progresso social fica bloqueado pela busca desenfreada e irracional por cada vez mais lucro”.

Para Antunes, esta é uma das maiores contradições do nosso tempo, uma vez que o monumental avanço da produtividade poderia liberar o homem do trabalho pesado e de longas jornadas, de forma a ampliar o tempo livre. Para ele, essa contradição se revela e acentua-se na criação de um excedente cada vez maior de pessoas não mais necessárias à produção. Este efeito se torna cada vez mais drástico quando se leva em conta que boa parte dos empregos, embora ligados à produção material, atendem ao consumismo vazio e desnecessário que acelera a devastação do meio ambiente.

Segundo o autor da tese, este modelo de desenvolvimento é ainda permeado por uma desigualdade de rendimentos que acomoda em ocupações precárias a massa crescente de excluídos, que passam a compor e ampliar de forma desmesurada um questionável setor de serviços. Para ele, “os trabalhadores foram deslocados para a provisão de serviços pessoais, o que foi facilitado pela expansão da renda urbana e pela desigualdade social, em grande expansão nas últimas décadas”.

O pesquisador conclui que a grande força ideológica da economia tornou-se um imperativo do qual ninguém pode escapar nas sociedades contemporâneas, assim como aos seus valores de competição, de trabalho e de poupança. E enfatiza: “Se o trabalho socialmente necessário fosse redistribuído, o desemprego, a enorme desigualdade, a pobreza, as péssimas condições de vida e a ausência de sentido da vida poderiam ser radicalmente amainados”. No estudo, Antunes empenhou-se em demonstrar que os homens estão presos às necessidades materiais não apenas por elas mesmas, mas principalmente devido à forma de organização social.

Motivações

A motivação fundamental de Davi Antunes resultou da observação da brutal desigualdade que permeia a sociedade brasileira. Inicialmente, pretendia restringir a pesquisa à desigualdade no Brasil. Mas as discussões que vivenciou como colaborador no Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) da Unicamp e na Facamp, onde atua como professor, o conduziram a abordar as relações entre o desenvolvimento do capitalismo e a desigualdade social no mundo, tomando como base a Inglaterra do século XIX e os EUA desde o início do século XX.

O economista analisa o desenvolvimento do capitalismo, do emprego e do mundo dos serviços no período de 1800 a 1970. Defende a tese de que, nestes quase dois séculos, o desenvolvimento capitalista liquidou progressivamente as ocupações e os trabalhos necessários à produção e à circulação de bens, dado que a lógica do capital implica a poupança de custos em geral e de trabalho em particular. Isto levou à queda maciça das atividades mais penosas, sujas e extenuantes fisicamente, mas até então fundamentais para a sobrevivência do homem.

Paralelamente, desenvolveu-se um mundo cada vez mais urbano, complexo, menos manual e concentrado nos serviços. Por sua vez, a Revolução Industrial acelerou a mecanização das atividades agrícolas que reduziram drasticamente a necessidade do trabalho manual no campo e possibilitou a alimentação dos contingentes concentrados nas cidades. A sempre crescente mecanização provocou ainda a diminuição do trabalho do chão de fábrica, embora a produção de bens se expandisse vertiginosamente.

Antunes lembra também que a industrialização provocou uma revolução de âmbito familiar ao disponibilizar bens de consumo duráveis que permitiram grande presteza na execução de diversos serviços domiciliares geralmente atribuídos à mulher, o que criou condições para sua entrada no mercado de trabalho.

Face ao desenvolvimento das cidades e à criação de novas necessidades, o mundo criado pelo capitalismo se alicerçou em serviços urbanos mais bem pagos e no desenvolvimento de uma classe média que expressa o avanço da divisão social do trabalho e da produtividade. No início, as fábricas e os serviços delas decorrentes demandaram grande quantidade de trabalhadores concentrados em um mesmo local, gerando novas necessidades como segurança pública, assistência médica, destinação de dejetos, limpeza urbana, iluminação pública, acesso à água potável, transporte, planejamento urbano, entre outros.

Essa nova realidade, diz o autor, abriu espaço para que uma parcela enorme da população se dirigisse para a crescente demanda de serviços pessoais, assim chamados por atenderem diretamente às pessoas. E diferentemente do que muitas vezes se acredita, o contingente que abandonava o campo se dividia entre os serviços ligados diretamente à produção e os pessoais. Os gráficos apresentados no trabalho mostram que nos EUA o emprego industrial cresce significativamente até os anos 20, mas daí em diante é sistematicamente superado pelo setor de serviços.

A tese destaca ainda que não ocorreu uma migração direta da agricultura para a indústria e desta para os serviços. Essa mobilidade se deu concomitantemente para a indústria e para os serviços, que com o tempo superam as oportunidades criadas na indústria.

Antunes explica que a produção do aço, do automóvel, dos bens domésticos

duráveis – geladeiras, fogões, liquidificadores, lavadeiras, aspiradores, bicicletas, rádios – ampliaram inicialmente a produção industrial, mas a crescente produtividade reduziu significativamente a necessidade de mão de obra. A propósito, ele lembra que em 1920 nos EUA já se produziam dois milhões de carros/ano – hoje no Brasil se fabricam cerca de três milhões. Antes da crise de 1929 lá se produziam 4,5 milhões de veículos/ano, sem que se verificasse aumento significativo da oferta de emprego industrial. A empresa tem cada vez menos operários e mais colarinhos brancos, assim genericamente denominados os que não trabalham diretamente na produção.

O pesquisador destaca que, a partir dos anos 30, nos EUA, esse desenvolvimento se apoiou na intensa ação estatal e na participação de sindicatos e movimentos sociais ativos, socialapenas possíveis em uma sociedade urbana e industrial baseada em grandes empresas, grandes fábricas e grandes aglomerações de pessoas.

Dos anos 30 a 70 o estado americano teve importante papel no desenvolvimento da sociedade capitalista. A Grande Depressão levou o governo a restringir a liberdade do mercado e impedir que os cidadãos ficassem à sua mercê. O Estado passou a controlar fundamentalmente os mercados financeiros e a incentivar o crescimento da economia e a geração de emprego público, que se tornou uma questão central. Em 1910, o estado americano dispunha de um milhão de funcionários. Entre 1940 e 1950, já tinha dez milhões empregados principalmente na educação, que além de permitir instrução possibilitava ascensão social. O Estado passou também a garantir empréstimos bancários para a aquisição de moradia.

Depois do grande progresso social observado entre os anos 40 a 70 por causa das políticas públicas e do violento progresso econômico, enfatiza Antunes, vem o contraste. Surgiram as crises econômicas provocadas pelo rompimento da ordem internacional, sob a argumentação de que a intervenção do Estado atrapalhava o desenvolvimento. Era o liberalismo que se irradiava novamente por todo o mundo. Para agravar o problema do emprego, surge com a informática a Terceira Revolução Industrial, em que as máquinas computadorizadas substituem os operários. Como piada, diz ele, “a indústria de hoje tem um trabalhador e um cachorro. O cachorro para não deixar ninguém chegar perto e o trabalhador para alimentar o animal”.

Antunes dedica um dos capítulos da tese às explicações e interpretações conservadoras do desenvolvimento do capitalismo no século XX e em outro faz a crítica a essas interpretações e à concorrência individual.

Diante do panorama delineado, o autor da tese considera que o progresso econômico associado à ação do Estado tem um peso enorme na diminuição da desigualdade, como “provam os panoramas observados nas décadas subsequentes ao pós-guerra. Depois dessa fase, os indicadores de renda nos EUA pioraram significativamente. No topo estão os que ganham muito e na base a maioria com baixa remuneração, a que se destinam os serviços duríssimos e penosos”.

Fonte: http://www.unicamp.br/

O PODER DA MÍDIA E A LUTA PELA DEMOCRATIZAÇÃO DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO NO BRASIL

Veja este artigo no sítio: http://www.controversia.com.br/ , acompanhado de dois vídeos extraídos do you tube. Se tratam de trabalhos de sociologia e licenciatura que levam ao fundo canções da banda mineira Skank. O you tube, apesar de também ser privado, tem mais que cenas patéticas, engraçadas, flagrantes do cotidiano (…) ela também é utilizada como instrumento de expressão e manifestação por um público que até então, não tinham acesso aos veículos tradicionais, privados e com editorias segregadoras da comunicação em massa

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Segue abaixo, artigo de Vito Giannotti

Costuma-se iniciar qualquer discussão sobre o fim da Idade Moderna é o início da Idade Contemporânea falando da Revolução Francesa, de 1789. Análises históricas, sociológicas, políticas e culturais tomam este marco como o ponto de partida de inúmeras refl exões. A queda da Bastilha também pode ser tomada como um marco referencial para a discussão sobre a comunicação.

Na França do Rei Luis XIV, a comunicação de qualquer idéia era feita por meio da oratória de padres, bispos ou dos laicos iluministas, ou por meio de livros, caros e raros naqueles tempos. Não havia toda a parafernália que hoje conhecemos, desfrutamos e usamos em profusão. A diferença entre a comunicação dos reis franceses com seus súditos no século XVI e no século XVIII era muito pequena. Luis XVI se vangloriava de que, no seu reino, existia um único jornal. Porém, isto foi assim até 14 de julho de 1789.

A Bastilha caiu e, com ela, a história da França e do mundo mudou. E a comunicação também. Do dia em que a Revolução triunfou, 14 de julho, até 31 de dezembro daquele ano, a França viu nascer cento e oitenta e quatro periódicos, muitos deles, diários. No ano seguinte, quando o novo regime político precisava se fi rmar, em Paris foram criados trezentos e trinta e cinco novos jornais. Dez anos após a derrubada da monarquia francesa, com direito ao corte das cabeças de Luis XV e sua senhora Maria Antonieta, em 1878, uma lista da polícia relacionava cento e sete jornais parisienses e mais sessenta no interior da França. Por que este fl orescimento enorme de jornais com a Revolução Francesa?

Pela mesma razão pela qual, anos depois, Napoleão, ao conquistar reinos e principados, tinha como prioridade montar uma tipografi a e criar um jornal. Precisava difundir os ideais da Revolução e, depois, do novo Império Francês. Os primeiros revolucionários e o regime que nasceu daqueles anos turbulentos sabiam da necessidade de difundir suas idéias, seus ideais, enfi m, sua visão de mundo. Gracco Babeuf, jornalista revolucionário dos primeiros dias, assim nos fala da centralidade da comunicação, num dos seus jornais daqueles anos: É pela opinião pública É pela opinião pública que se pode fazer tudo. Desde que se consiga orientá- la para um sistema qualquer, temse a certeza de fazer prevalecer este sistema. Porque a opinião do povo, como se diz muito bem, é sua força e a força do povo é tudo! (Journal de Laberté de Presse – 27.09.1794). Certamente, se Babeuf, o precursor do socialismo, Babeuf tivesse vivido no século XX, após as experiências das revoluções deste século e após as refl exões de Gramsci sobre a hegemonia, teria matizado mais seu discurso. Teria percebido, com Gramsci, que a hegemonia não se apóia só no convencimento, na propaganda. Ela precisa, junto com o conhecimento, do poder de coerção. Mas isto não vem ao caso neste momento. O que fi ca é a percepção clara da centralidade de comunicação na política moderna.

Naquele tempo, se falava do poder da imprensa, dos jornais e dos já tradicionais livros (embora não na dimensão de massa do tempos hoje). Hoje, século XXI, se fala do poder da mídia, e há várias defi nições sobre este poder. …a mídia não é simplesmente uma força estranha à máquina do poder. Ela é parte integrante dele. Uns chamaram a imprensa, e com maior razão a mídia, de quarto poder.

Algo diferente do clássico poder perfi gurado na distinção escolástica dos três poderes. Na verdade, a mídia não é simplesmente uma força estranha à máquina do poder. Ela é parte integrante dele. Hoje, não há poder sem mídia. A mídia é o que divulga, propagandeia, sustenta ou derruba um sistema, um regime. O que transformou as três mil mortes do atentado terrorista (de não se sabe quem) às Torres Gêmeas de Nova Iorque, em 2001, num fato que infl uenciou tremendamente a política mundial? Qual é o peso da enorme exposição deste atentado pela mídia e a aceitação da invasão americana no Iraque, em seguida? Por outro lado, qual é o peso que a mídia deu ao quase idêntico número de soldados americanos mortos desde a invasão do Iraque em 2003? Quem determina que as dezenas de milhares de mortos daquele país não tenham nenhum peso nos noticiários de jornais, rádios e TVs do mundo todo? A mídia americana, a partir do 11 de setembro de 2001, se tornou parte integrante do poder.

Só agora começou a dar sinais de um leve desconforto com este papel de inbedded (os jornalistas americanos que dormem em instalações militares americanas), com a devastação provocada pelos furacões Katrina e Rita em New Orleans. Em síntese, a mídia, há tempos, assumiu um papel central na política. Um papel determinante na construção e manutenção da hegemonia. É POSSÍVEL DEMOCRATIZAR ESSA MÍDIA? Com a constatação do poder que a mídia possui hoje (não em 1750), surge uma pergunta que necessita de uma resposta clara. Se a mídia é tudo isso, se é uma das duas pernas sobre as quais se baseia a hegemonia, a dominação, será que os donos do poder vão permitir democratizá-la? Ou seja, é possível democratizar a mídia?

Em síntese, a mídia, há tempos, assumiu um papel central na política. Um papel determinante na construção e manutenção da hegemonia. A sociedade está numa guerra. De um lado, os interesses do capital fi nanceiro e industrial; do outro, os interesses dos povos, dos trabalhadores, da imensa maioria. Não há interesses comuns. Há os interesses do grande capital de extrair o máximo de lucros, a qualquer custo. Disso deriva que os EUA não queiram assinar o Protocolo de Kyoto. Não podem se preocupar com questões “secundárias” sobre aquecimento global, limitação de emissão de poluentes e outras questões de ambientalistas, ecologistas e alteromundistas. Ceder a estas pressões seria limitar os lucros. Isso, o FMI, o Banco Mundial, o Pentágono e o comitê central das multinacionais não podem permitir. E então, onde fi ca a mídia dos EUA nesta estória? Do lado de Bush e do complexo industrial-militar que não quer o Protocolo de Kyoto.

Como democratizar a mídia? Um jornalista individualmente poderia desafi ar o establishment? Tomemos o caso dos transgênicos no nosso país. O poder da Monsanto passa pelo Ministério da Agricultura e pelo Banco Central; seus interesses determinam toda uma política agrária no país. E nossa mídia? Ela repete o que a Monsanto e o Império querem! Repete a idéia de que com a soja, o milho, o trigo e tudo que é transgênico será resolvida a fome no nosso país. Nem será preciso mais que haja o Programa Fome Zero.

Tudo será resolvido com sementes Monsanto. Basta analisar todos os jornais do País, da Folha ao Estado, passando pela Veja, Época e companhia. Qual destes veículos se coloca contra os transgênicos? Eles poderiam? Poderiam, sim. Só que não querem! O seu projeto passa pela Monsanto. Este é seu projeto de país. Então, o que signifi ca democratizar a mídia? Fiquemos neste exemplo dos transgênicos. Será que a Folha, a Veja, O Globo vão enfrentar os planos da Monsanto? Claro que não. Isto não se deve apenas a interesses concretos de inserções de propaganda em suas páginas. O motivo é bem maior. É que a política da mídia empresarial é a mesma da Monsanto. É uma política corporativa. Uma política de classe. A mídia sabe muito bem quais são seus interesses de classe. “Seus”, de quem? Dos seus donos.

A MÍDIA TEM DONO, E O DONO TEM CLASSE

Ao discutir a democratização da mídia, é preciso partir do começo da discussão. O que imagina o senso comum? Que a mídia seja uma entidade que paira no ar. Acima das classes. Fora da luta política de todos os dias. Nesse raciocínio, nada é mais natural do que a mídia dar espaços aos seus inimigos. O que imagina o senso comum? Que a mídia seja uma entidade que paira no ar. Acima das classes. Estas idéias simplórias não levam em conta a premissa fundamental de que a mídia tem dono. Quem manda numa fábrica, num banco ou num supermercado é o seu dono. Diretores, gerentes e chefetes podem opinar nas questões menores. Mas a linha central, a última palavra, é do dono – ou dos donos. Este dono ou estes donos têm classe, e interesses de classe a defender. E os defendem muito bem.

É por isso que a revista Veja, durante quatro anos seguidos, escondeu o Fórum Social Mundial (FSM) em suas capas. O Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre, em 2004, e na Índia, em 2005, foi um acontecimento que ia no sentido absolutamente contrário a tudo o que a Veja escreve e propõe. O FSM falou contra o imperialismo americano, contra a Alca, o FMI e o Banco Mundial. Contra os transgênicos e contra as multinacionais que sugam o sangue do Brasil. Falou contra a dívida externa. Falou contra a fl exibilização dos direitos dos trabalhadores. Falou a favor da demarcação das terras indígenas, da proteção das nossas águas, contra a devastação da Amazônia e de muitos outros temas.

Todos esses assuntos foram analisados numa visão diametralmente oposta à da Veja. E aí? Vamos democratizar a Veja? Vamos pedir ou exigir que ela dê voz às minorias? Aos outros? Para nos curar desta ilusão, está aqui a realidade: Veja estampou as seguintes manchetes nas capas das edições que saíram logo após o fi m de cada edição do FSM: – 13.02.2002 – – 13.02.2002 – “Sua idade sexual”; – 29.01.2003 – “Diabetes, o inimigo oculto”; -21.01.2004 – “Atração sexual”; -02.02.2005 – “A verdade sobre os remédios”. Ótimas manchetes para fazer esquecer que acontecem encontros que reúnem dezenas de milhares de pessoas, de mais de cem países, para combater tudo o que a Veja pensa, escreve e propagandeia. Pouco importa se em Porto Alegre, em 2003, o FSM contava com representantes de mais de cento e trinta países. Pouco importa se, em 2004, em Mumbaí, na Índia, mais de duzentas mil pessoas participaram do encontro. Não interessa se houve a presença de personalidades políticas, intelectuais e prêmios Nobel da Paz. Tudo isso não interessa nada. Só uma coisa interessa à Veja e à classe que ela representa: encobrir o fato, escondê- lo, negá-lo. Assim foi feito. Como? Com manchetes como a de 2002: Sua idade sexual. E os outros fóruns, como foram? Que fórum? O leitor da Veja saberá que a diabetes é um perigo oculto, fi cará craque em atração sexual e expert em conhecer a verdade sobre os remédios. O Fórum Social Mundial não tem importância nenhuma. Como democratizar a Veja? Fazendo outra revista melhor. O que vale para o exemplo da Veja vale para todos os outros veículos, do rádio à TV. Mas isto veremos a seguir.

MIL EXEMPLOS DA MÍDIA DE CLASSE

A palavra mídia é uma palavrinha bonita, simpática. Ela, em sua origem grega, não diz quase nada. Mídia são os meios: meios de comunicação. Pronto, acabou. Eles servem para comunicar, o que seria bom, se fosse verdade. Na realidade, a palavrinha simpática esconde que estes meios são de comunicação, sim, mas são direcionadíssimos. Não existe uma mídia que seja puramente mídia, pois ela é o meio para disputar a hegemonia. Para garantir a hegemonia atual ou se contrapor a esta. A mídia tem dono, tem classe e interesses de classe a defender. Estes interesses não são os do povo, obviamente.

A mídia tem dono, tem classe e interesses de classe a defender. Estes interesses não são os do povo, obviamente.

No livro Chatô, o Rei do Brasil, de Fernando Morais, há uma passagem na qual o criador dos Diários Associados, após ter comprado vários jornais, em 1931, explicita sua atitude frente ao novo governo de Getúlio Vargas. Escreve o autor: Prevendo que teria problemas com a censura, deu ordem para que os jornais e a revista mantivéssem uma postura neutra e imparcial diante do governo, apenas noticiando atos. Quem quisesse ter opinião que fifi zesse como ele: comprasse um jornal. Nos Associados, só o dono emitia opiniões. Vejamos o exemplo de Hugo Chávez, na Venezuela. É inútil relembrar aqui o golpe midiático que foi dado contra ele, em abril de 2002.

A palavra já explica. Um golpe orquestrado, coordenado, desejado, planejado e executado pela mídia burguesa venezuelana e por seus donos, com suas poderosas máquinas de TVs, rádios e jornais, com ajuda ideológica do imperialismo americano, que se colocou ao seu dispor. Chávez aprendeu a lição. Neste ano de 2005, centenas de rádios comunitárias foram incentivadas e autorizadas a funcionar. O mesmo vale para as TVs comunitárias. Mas não só com rádios e TVs comunitárias se garante uma disputa contra-hegemônica, numa sociedade totalmente midiatizada. Chávez precisava de algo mais. Assim, em fi nal de julho deste ano, a Venezuela encabeçou a iniciativa de criar uma televisão alternativa às que tentaram derrubar o governo em 2002. Da necessidade concreta de se proteger contra os inimigos de classe e do sonho bolivariano de criar uma integração da América Latina, nasceu a TV-Sul, a Telesur.

Da necessidade concreta de se proteger contra os inimigos de classe e do sonho bolivariano de criar uma integração da América Latina, nasceu a TV-Sul, a Telesur.

Nas palavras do jornalista brasileiro Beto Almeida, diretor internacional da Telesur, o canal nasceu para resgatar e revelar histórias, lutas e tradições da América Latina. Beto Almeida, numa entrevista à Agência Brasil, na véspera da inauguração do canal, deixou claro quais eram os seus objetivos: A Telesur é uma alternativa aos milhões de latino-americanos que queriam ver uma informação diferente, que não seja submetida às televisões comerciais que tem seus critérios determinados pelos interesses de seus grandes anunciantes. Em seguida, esclarece: Nós somos Nós somos uma TV pública que não tem nada a ver com os interesses do mercado ou do lucro. Logo após esta declaração, Almeida entra no cerne do nosso tema: a mídia tem lado! Não existe imparcialidade. As grandes mídias não são imparciais.

Elas são favoráveis à defesa de programas econômicos neoliberais, defendem a continuidade da desnacionalização da economia, de planos econômicos que levaram a América Latina a viver essa situação de miséria. Isto não é imparcialidade. Nós tampouco somos imparciais. Somos independentes porque não temos vinculação com agentes interessados no lucro. Nós defendemos aquilo que está nas constituições dos países: a integração latino-americana. Qual é a prova da parcialidade da mídia empresarial? Da mídia burguesa? Beto Almeida nos dá um exemplo que escancara a falácia do mito da mídia feita para pura e simplesmente informar. Numa entrevista, Almeida conta que, em junho deste ano, a Venezuela foi declarada, pela UNESCO, território livre do analfabetismo. E a mídia brasileira destacou este fato? Não seria uma notícia importante? Seria sim. Se não existissem classes sociais. Se não existissem interesses políticos. Por que a Folha, a Veja e O Globo não falaram nada desta enorme vitória do Governo Chávez? É Simples! Porque toda a nossa mídia é contra esse “péssimo exemplo” da Venezuela. Mas o analfabetismo não é uma praga erradicada do Brasil? Por que a Veja e os outros meios não falaram disso?

A primeira batalha, a mais primitiva e simplória, é garantir o direito de resposta quando alguém se sente atingido…

Beto Almeida arremata:

Da mesma forma que ninguém quer mostrar que a solução encontrada pela Argentina para renegociação de sua dívida externa, que disse que só honraria 70% das suas dívidas. A grande mídia não atuou de forma imparcial. Ela disse que aquilo seria uma catástrofe. Um absurdo. Que a Argentina estava caminhando para o desastre. E não aconteceu nada disso. Ela foi muito bem-sucedida nessa renegociação da dívida. A economia da Argentina está se recuperando. Houve aumento de salário, das pensões dos aposentados. A indústria está tendo uma reanimação muito importante. As grandes mídias não quiseram e não querem dar destaque a essa recuperação. A mídia não tem nenhuma imparcialidade. Ela tem total parcialidade. E a democratização?

DEMOCRATIZAR A MÍDIA: DUAS FRENTES

Numa guerra, há várias frentes de batalha. É preciso ter uma tática para cada uma delas. Cada uma tem a sua importância, mas há aquela que é a central. Na guerra da democratização da mídia, é a mesma coisa. Vamos dar uma olhada em algumas destas frentes. Comecemos pela secundária e, ao mesmo tempo, a mais diretamente lembrada em relação a este assunto. A primeira batalha, a mais primitiva e simplória, é garantir o direito de resposta quando alguém se sente atingido, ofendido por um artigo, ou um programa de rádio ou televisão. É um direito a ser mantido e defendido, mas não atinge minimamente os objetivos de garantir uma disputa de hegemonia. Uma frente que avança na construção de uma mídia que permita disputar com o outro lado é a disputa institucional pela democratização da mídia, a luta para conquistar uma legislação que a garanta. Para garantir o direito de ter seus próprios instrumentos de mídia, livremente, sem ter de enfrentar obstáculos dos atuais donos de todas as mídias.

Direito de liberdade de imprensa e, hoje, direito ao uso das ondas do ar, com todas as suas implicações tecnológicas.

Direito de liberdade de imprensa e, hoje, direito ao uso das ondas do ar, com todas as suas implicações tecnológicas. Fala-se, no Brasil, da necessidade de uma reformulação completa das chamadas “concessões públicas” de rádio e TV. São palavrinhas inócuas e falseadoras da realidade. No sistema de propriedade de rádios e TVs, nada há de público. São absolutamente privadas, como um latifúndio que alguém diz ser seu. São latifúndios absolutamente privados, tanto quanto as terras do Rei da Soja, o Blairo Maggi. No entanto, são chamadas de “concessões públicas”. A luta institucional passa pela reformulação completa deste sistema. Quem disse que as concessões não podem ser democratizadas? Tornadas públicas de verdade? E o que viria a ser este caráter público? Quem disse que estas concessões são intocáveis, praticamente eternas? Que tal uma “reforma agrária” no ar? É impossível? Na discussão sobre a democratização dos meios de comunicação, o tema precisa ser encarado com coragem. Mas nada disso se fará sem uma grande mobilização popular consciente dos seus direitos e disposta a os impor.

Esta é uma linha de luta pela democratização dos meios de comunicação que passa pela luta institucional, jurídica e parlamentar. No entanto, é difícil vislumbrar alguma vitória das forças populares, considerando que quase a metade dos membros da atual Câmara e do Senado são donos de sesmarias do ar. Por que os Sarneys, que controlam praticamente todas as TVs do Maranhão, iriam querer democratizar seu império? Como vão querer rever e, obviamente, perder a mamata, as quarenta e sete rádios que o clã Sarney possui no Estado? Na Bahia, outro estado semelhante ao Maranhão, o PFL, além da TV de ACM, em Salvador, possui cento e cinqüenta e três estações de rádio espalhadas pelo estado inteiro. Este vai querer discutir sobre democratização? Mas é bom tentar. Afi nal, a esperança é a última que morre! Esta frente institucional, que visa a controlar os meios de comunicação e impedir sua concentração nas mãos de poucos donos, é louvável. Quanto à sua efi cácia… é só perguntar para o chefão da Itália, o Berlusconi. Dono de praticamente toda a mídia daquele país, das TVs e de todas as editoras, revistas e jornais. O último jornal a cair nas mãos do “chefão” foi, meses atrás, o mais célebre jornal italiano, o Corriere della Sera. Noutros países, não é muito diferente. É só pensar no antigo Cidadão Kane e no atual Murdock – dono de metade da mídia norteamericana.

DEMOCRATIZAR A MÍDIA É FAZER A NOSSA

Enquanto não conseguirmos que o parlamento e o Senado façam a suprema concessão de estabelecer alguma lei que democratize a comunicação no nosso país, há uma tarefa que é tão velha quanto… a Revolução Francesa: fazer nossos jornais. Atualmente, não só jornais, mas nosso sistema de mídia, abrangendo todos os domínios: rádio, TV e internet. Essa não é uma tarefa impossível. Acima, falamos da Telesur, um canal de televisão internacional para divulgar o que a Globo, a Veja, a Folha, o Estado de S. de Paulo e os outros veículos menores nunca irão noticiar – nunca, não. Às vezes, vão noticiar, mas omitindo o principal, o que faz a diferença.

O modo de fazer isto é muito simples; é o que mais acontece. É só contar o fato nu e cru, aparentemente imparcial. Mas a omissão sobre como aconteceu e por que aconteceu, a notícia muda completamente. Há dezenas de exemplos, verifi cados todos os dias. Outras vezes, a mídia patronal distorce explicitamente os fatos para não se chocar com suas versões e interpretações diárias, repetidas de mil formas. Às vezes, se não for sufi ciente esconder ou distorcer, mentem, pura e simplesmente. A TV-SUL veio para dar a sua versão dos fatos. Sem disfarces, sem enganações. Ela se propõe a ter lado. Tem lado e assume. É um exemplo do que se pode fazer, o melhor exemplo de democratização da mídia; como Chateaubriand, parar de reclamar e fazer sua própria comunicação.

No Brasil, temos belos exemplos de publicações populares de esquerda vendidas em bancas, para quem quiser comprar. Da nova safra da época da redemocratização, podemos lembrar a revista mensal Reportagem, criada por Raimundo Pereira, o criador de Opinião, Movimento e do jornal diário Retratos do Brasil.

A grande mídia empresarial, evidentemente, publicava o que queria, como queria, quando queria e, não podemos esquecer, mantendo seus acordos com a ditadura militar.

Da mesma época da Reportagem, há também a revista mensal Caros Amigos, coordenada por José Arbex Jr., que também está na origem de um semanário em formato de jornal: Brasil de Fato. Este último existe e persiste há dois anos e meio, levando um resumo dos fatos da semana, do Brasil e do mundo, do ponto de vista dos trabalhadores. Para Brasil de Fato, não há dúvidas de que uma coisa é a visão dos trabalhadores sobre a reforma agrária, e outra é a do FMI e do ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, ou do Deputado Ronaldo Caiado, da UDR.

São visões opostas. É por isso que foi criado o Brasil de Fato. Para dar sua versão dos fatos. Há outras publicações mais restritas de vários agrupamentos da esquerda que também seguem esta mesma tendência a criar seus próprios instrumentos. São várias: Opinião Socialista, O trabalho, Em tempo, Inverta, A Verdade e outras mais. Na história do nosso país, há períodos nos quais a criação de instrumentos de comunicação se intensifi cou. Típica é a época do pós-guerra (1945- 1946), quando o Partido Comunista, recém legalizado, criou dez jornais diários. Um em cada capital dos maiores estados do país. Era a época do famoso “Ouro de Moscou”, mas isso não vem ao caso agora.

O fato é que este “ouro” era muito bem usado… para disputar a hegemonia. Outro momento histórico no qual os que disputavam a hegemonia com a classe dominante criaram uma vasta rede de mídia é o da explosão das greves em l978. A grande mídia empresarial, evidentemente, publicava o que queria, como queria, quando queria e, não podemos esquecer, mantendo seus acordos com a ditadura militar. Continuavam os jornais da Imprensa Alternativa vendidos em bancas e nasciam novos instrumentos intermediários entre o trabalho de bairro e o trabalho de fábrica, com o famoso ABCD Jornal. Nasciam boletins regulares, como o Folha Bancária, da Oposição Bancária, em São Paulo, e boletins feitos de recortes de jornais de grande imprensa, como o mais célebre, o Jornal dos Jornais, vendido de mão em mão nas fábricas de São Paulo. Em sindicatos de luta, como o dos Metalúrgicos do ABC, o jornal do sindicato, Tribuna Metalúrgica, a partir das greves de 1978, passou a ter um papel cada vez mais importante. Foi assim que se tornou diário, e continua até hoje.

Além disso, jornais, sindicatos e oposições sindicais passaram, a partir de 1979, a produzir muitas cartilhas, algumas delas totalmente ilustradas por militantes. Produziam-se cordéis, para uma classe operária migrantes vindos do nordeste para o Sul industrializado. Organizavam- se grupos de teatro, entrosando ainda mais a classe operária e a classe média no projeto que permaneceria atuante durante toda a década de l980. Evidentemente, tentava-se furar o cerco da mídia empresarial, sobretudo por meio de muitos jornalistas simpáticos aos trabalhadores da imprensa empresarial, e forçavam a barra para driblar o bloqueio dos patrões. Mas nem por isso se descuidavam de sua própria imprensa. Assim foram criados vários jornais sindicais diários, como o do Sindicato dos Bancários e dos Químicos de São Paulo, e depois, de Brasília e Salvador. Esta foi a forma de lutar pela democratização da mídia naqueles anos. Ao mesmo tempo, lutava-se em duas frentes. Fazia-se sua própria imprensa e sua comunicação, sem pedir licença a ninguém. Ao mesmo tempo, lutava-se por um país diferente, onde a democratização se tornasse realidade, não só na comunicação, mas em toda a vida política do país. As lições do passado podem nos ajudar na discussão e na luta do presente.

Vito Giannotti: Escritor e Coordenador do Núcleo Piratininga de Comunicação

Fonte: http://www.apropucsp.org.br/

Os heróis da literatura

Nas últimas décadas, tem sido aventada a hipótese do "fim da literatura". Na verdade, trata-se do fim de um tipo de literatura, o da alta modernidade. Ao mesmo tempo, apareceram e multiplicaram-se romances cuja principal personagem é um escritor famoso do fim do século XIX ou primeira metade do XX: Rimbaud, Flaubert, Dostoiévski, Henry James, Virginia Woolf, Pessoa e outros. O objetivo deste artigo é examinar as causas e as características desse tipo de romance.

Leyla Perrone-Moisés

 

Os escritores "pós-modernos" veem seus predecessores como heróis e modelos? Fazem o luto de uma fase áurea da literatura e comparam-na com a literatura atual? Qual a relação desses romances com as antigas biografias? Quais as novidades formais desse novo subgênero?

Declínio da literatura e do herói literário

Em seu último curso no Collège de France (1979-1980), Roland Barthes observava que a "grande literatura" estava definhando na prática e no ensino. Afirmava ainda que o "grande romance" era um gênero impossível para o escritor do fim do século XX, porque o mundo, o saber e o próprio homem estavam fragmentados, e a escrita de ficção não poderia mais recolhê-los no velho modelo do romance. Sobre os grandes escritores do passado, que ele olhava com admiração e inveja, dizia o seguinte:

Desaparecimento dos líderes literários; esta é ainda uma noção social; o líder [é uma] figura na organização da Cultura. Mas, na comunidade dos escritores [...] outra palavra se impõe, menos social, mais mítica: herói. Baudelaire a propósito de Poe: "um dos maiores heróis literários". É essa Figura – ou essa Força – do Herói literário que perde hoje sua vitalidade. (Barthes, 2005-II, p.312-3)

O fim do século XX viu o anúncio de muitos "fins": fim do Homem, fim da História, fim dos grandes relatos, fim das utopias, fim da cultura ocidental, fim dos intelectuais, fim da arte. Felizmente, nenhum desses "fins" se concretizou. Mas é evidente que essas mortes anunciadas eram índices de mutações. A literatura não escapou às mutações da virada, e muitos anunciaram seu fim, cujos principais sintomas seriam o desaparecimento da espécie "grande escritor" e o encolhimento do público leitor de "literatura difícil".

No decorrer do século XX, vários escritores-críticos especularam sobre a possibilidade da morte da literatura: Sartre, Blanchot, Paz. Já no século XXI, essa possibilidade continua a ser aventada por escritores como Vargas Llosa e Milan Kundera. Em 2005, foi publicado na França um ensaio intitulado O adeus à literatura. História de uma desvalorização. E o crítico George Steiner, numa posição especialmente pessimista, diz que os bons livros estão ameaçados de desaparecimento.

É preciso lembrar que, quando se fala em "literatura", estamos aludindo a uma prática e a uma instituição datadas e relativamente recentes. A literatura a que se referem os que anunciam a sua "decadência" ou o seu "fim" é aquela que se instalou em meados do século XVIII, quando deixou de significar o conjunto da cultura letrada para designar uma atividade particular, uma prática de linguagem separada (e considerada superior) às outras, uma arte e um meio de conhecimento. Essa concepção da literatura é própria do romantismo, se considerarmos esse movimento num sentido largo, que iria desde os românticos alemães até sua radicalização, na passagem do século XIX para o XX, com Mallarmé: "Sim, que a literatura existe e, por assim dizer, sozinha, à exceção de tudo" (La musique et les lettres).

A defesa dessa literatura tornou-se, assim, um ato de heroísmo. Na Inglaterra, Thomas Carlyle já havia definido "o Poeta como herói". Em suas famosas conferências, "O herói como homem de letras" e "O Poeta como herói", ambas de 1840, Carlyle observava que os heróis de tipo divino ou profético pertenciam a tempos remotos e já não eram cultuados no mundo moderno. E ele propunha que se considerassem os escritores como os heróis das novas eras. Curiosamente, a primeira conferência, "O herói como homem de letras", contém mais informações sobre a concepção do poeta como herói do que a segunda, intitulada precisamente "O Poeta como herói". Nessa segunda conferência, o ensaísta apenas exemplifica sua tese, apontando Shakespeare, Goethe e Dante como heróis nacionais de seus respectivos países. É na primeira, portanto, que nos deteremos.

As principais ideias expostas por Carlyle são as seguintes: 1) A difusão da imprensa trouxe uma nova forma de heroísmo que se manterá nas eras futuras; 2) O escritor deve ser encarado como a mais importante das pessoas modernas; 3) A vida de um escritor nos permite conhecer melhor o tempo que o produziu e no qual viveu; 4) A função do escritor é a mesma que as eras passadas atribuíam ao Profeta, ao Sacerdote e à Divindade; 5) A Literatura é uma forma de revelação; 6) A sociedade contemporânea oferece condições difíceis para o escritor, do ponto de vista moral e material; no entanto, ela deveria reconhecer sua importância e dar-lhe o governo das nações; 7) O Herói-Homem-de-Letras merece ser adorado e seguido por adoradores; mas permanece tranquilo e indiferente à celebridade; 8) O Herói-Homem-de-Letras não é um vitorioso, mas um herói que tombou ["a fallen Hero"].

Apoiando-se em considerações anteriores de Fichte, Carlyle apontava a difusão da imprensa, na forma do mercado livreiro e do jornalismo, como uma das razões da vulgaridade do tempo em que viveram seus Heróis-Homens-de-Letras, Johnson, Rousseau e Burns: "Aquele não era um tempo de Fé – um tempo de Heróis! A própria possibilidade de Heroísmo tinha sido, como foi, formalmente abandonada em todas as mentes. O Heroísmo foi-se para sempre; Trivialidade, Formulismo e Lugar-Comum vieram para ficar". Carlyle já tinha consciência de que fazia o elogio de uma classe condenada de escritores. Diz ele: "São antes as Tumbas de três Heróis Literários que tenho de mostrar a vocês. Aqui estão os escombros monumentais sob os quais estão enterrados três heróis espirituais. Muito fúnebre, mas também grande e cheio de interesse para nós" (ibidem).

A conferência "O herói como homem de letras" se encerra com esta espantosa metáfora: "Segundo Richter, na ilha de Sumatra há uma espécie de lanterna: grandes pirilampos que as pessoas prendem em espetos, para iluminar com eles o caminho, à noite. Eles podem, assim, deslocar-se com uma agradável radiância, que podem admirar. Honra seja feita aos Pirilampos!" (ibidem). O texto termina com uma adversativa irônica: "Mas -!" ["But !"]. Podemos ler esse "Mas -!" da seguinte maneira: apesar de sua preciosa luminosidade, os homens de letras são desprezados, usados e mesmo sacrificados pela burguesia.

Já na segunda metade do século XIX, Baudelaire classificava como "heroica" a vida de Edgar Allan Poe. Analisando a obra de Baudelaire em "Paris do Segundo Império", Walter Benjamin (1994, p.64-97) usou a palavra "herói" com uma conotação paródica:

Baudelaire conformou sua imagem de artista a uma imagem de herói. [...] O herói é o verdadeiro objeto da modernidade. Isso significa que, para viver a modernidade, é preciso uma constituição heróica. [...] Os poetas encontram o lixo da sociedade nas ruas e no próprio lixo seu assunto heróico.

Esse heroísmo dos poetas modernos, entretanto, é postiço: "Flâneur, apache, dândi e trapeiro, não passavam de papéis entre outros. Pois o herói moderno não é herói – apenas representa o papel de herói. A modernidade heróica se revela como uma tragédia onde o papel de herói está disponível". A partir da segunda metade do século XIX, já não havia lugar para o heroísmo guerreiro, e o público leitor já não considerava os artistas como semideuses.

Não obstante, o ideal heroico persistiria na mente dos escritores, com leves modificações, até o início do século XX. Para os últimos "românticos" da modernidade, a literatura era sagrada, e merecia o sacrifício de tudo o mais, incluindo a própria vida pessoal. O maior exemplo dessa entrega à literatura, segundo Jorge Luis Borges (1957), teria sido Flaubert, "que foi o primeiro Adão de uma nova espécie: a do homem de letras como sacerdote, como asceta e quase como mártir". À semelhança de Flaubert, outros escritores modernos "deram suas vidas" pela literatura: Mallarmé, Virginia Woolf, Proust, Kafka, Fernando Pessoa…

Em 1903, Rilke (2005, p.26) aconselhava a um jovem poeta: "Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever?". Tanto Rilke como os anteriormente citados falam da vocação literária como missão irrecusável, difícil de ser assumida, implicando solidão, trabalho insano, desamparo e abdicação dolorosa à normalidade social, mas, ao mesmo tempo, como intensamente compensadora num plano superior ao da vida individual.

As vidas desses escritores devotados à literatura foram moldadas pela entrega total de suas pessoas à prática artística e à reflexão filosófica, de tal forma que adquiriram um caráter heroico. Stefan Zweig dedicou um livro, intitulado O combate com o demônio, a três desses heróis: Kleist, Holderlin e Nietzsche. Romântico tardio, diz Zweig (1983, p.8):

Sem ligação com seu tempo, incompreendidos por sua geração, eles passam como meteoros, brilhando com uma breve luz nas trevas de sua missão. Eles mesmos ignoram o que são e o caminho que trilham, porque vêm do infinito, para ir ao infinito: na ascensão e queda rápidas que constituem sua vida, mal tocam o mundo real. Algo de extra-humano age neles, uma força maior do que eles e à qual se sentem submetidos; eles não obedecem à sua vontade, são possuídos, escravos de uma potência superior, de um demônio.

Meio século mais tarde, Tzvetan Todorov (2006) lançou-se numa empresa semelhante à de Zweig, publicando um livro intitulado Os aventureiros do absoluto. Diz ele:

Três grandes artistas do passado recente, Oscar Wilde, Rainer Maria Rilke, Marina Tsvetaeva colocaram essa aventura no coração de suas existências. Não contentes de criar obras de arte inesquecíveis, quiseram colocar suas próprias vidas a serviço do belo e da perfeição. Entretanto, essa busca levou o primeiro à decadência física e psíquica, o segundo à depressão dolorosa, e a terceira ao suicídio. (ibidem, 4ª capa)

Diferentemente de Zweig, Todorov não manifesta admiração por essa escolha de vida, porque seu objetivo não é estético, é moral: "A experiência de Wilde, Rilke e Tsvetaeva nos leva a refletir: em que consiste uma vida bela e rica de sentido?". Trata-se pois, aqui, de uma "reflexão sobre a arte de viver" que, segundo Todorov (2006, p.242), esses artistas não souberam praticar, já que todos, a seu ver, acabaram mal. As conclusões de seu livro são moralistas, a favor de "outra via: a busca da qualidade de vida, do aperfeiçoamento pessoal, do amor" (ibidem). Não interessa, ao ensaísta, que esses "infelizes" tenham deixado, em suas obras, valores maiores do que os da felicidade individual. Ao contrário de Zweig, que escrevia: "é somente graças aos espíritos desmesurados que a humanidade reconhece sua medida extrema".

Relidos hoje, os testemunhos dos escritores da alta modernidade sobre o alto preço pago por sua "vocação" nos parecem muito antigos, na medida em que atualmente a escolha e a assunção da "profissão" de escritor não tem, para a maioria deles, nada de radical e muito menos de trágico. Escrever não intimida mais ninguém. Publicar não é mais objeto de dúvidas metafísicas e existenciais, é apenas uma questão de achar editor, de editar por conta própria ou de colocar o texto na internet.

Ter êxito também não tem mais a ver com a realização de um grande projeto (a Obra, o Livro). Ao contrário do "solipsismo do gênio" de que falava Adorno, do recolhimento na "torre de marfim" assumido pelos heróis da alta modernidade, a maioria dos escritores da modernidade tardia busca o reconhecimento imediato sob a forma da fama. O aplauso da crítica é bem-vindo, embora dispensável. Não é recebido como uma confirmação de que os "tormentos" de escrita valeram a pena, é apenas um afago no ego. Ter êxito é sobretudo uma questão de tiragem (quantos milhares ou milhões de exemplares vendidos) e, consequentemente, uma questão de publicidade. A publicidade não é apenas a das editoras, mas passa pela contratação de agentes literários, pela mídia, pelos prêmios, e exige do escritor constantes aparições públicas, em entrevistas, salões do livro, festas literárias, numa ubiquidade global. O tempo dedicado à escrita e à solidão dessa prática fica, assim, bastante reduzido. Quanto ao sofrimento de escrever, não se ouvem mais queixas.

A volta do herói literário na ficção

Ao concluir seu curso, Barthes (2005-II, p.359) expunha as razões pelas quais ele mesmo não podia escrever o romance anunciado:

Então, essa obra, por que não a faço – imediatamente, ainda não? [...] Talvez certo embaraço "moral": o curso o diz suficientemente, estando todo encerrado na consideração desejante das obras do Romantismo largo (Flaubert, Mallarmé, Kafka, Proust). Colocação entre parênteses das obras da Modernidade contemporânea. Espécie de Fixação, de Regressão a um Desejo de certo passado; cegueira para o contemporâneo, reporte do Desejo para formas que ignoram mil trabalhos atuais.

Ora, entre os "mil trabalhos atuais", destaca-se um subgênero romanesco que tem crescido visivelmente desde os anos 80 do século XX: o romance que tem por personagem principal um "grande escritor", isto é, um daqueles "heróis" da literatura em sua época áurea. Não se trata de biografia, no sentido estrito, mas de invenção ficcional que joga tanto com os dados biográficos como com dados colhidos na obra desses escritores. Por terem uma grande parte de invenção, mas invenção fundamentada em pesquisa biográfica e conhecimento das obras, esses romances têm uma função crítica implícita (escolha, interpretação, ênfase em determinados temas, alusões e intertextos).

Citemos, somente a título de exemplo e em ordem cronológica de publicação: Leonid Tsípkin, Verão em Baden-Baden (1981); Julian Barnes, O papagaio de Flaubert (1984); José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis (1984); J. M. Coetzee, Foe (1986); Bernard-Henry Lévy, Les derniers jours de Charles Baudelaire (1988); Bernard Pingaud, Adieu Kafka (1989); Pierre Michon, Rimbaud o filho (1991); Jeremy Reed, Isidore (1991); Antonio Tabucchi, Requiem (1992) e Os três últimos dias de Fernando Pessoa (1994); J. M. Coetzee, O mestre de Petersburgo (1994); John Crowley, Lord Byron’s Novel (1995); J. M. Le Clézio, La quarantaine (1995); Guy Goffette, Verlaine d’ardoise et de pluie; Alícia Jimenez Bartlett, A casa de Virginia W. (1997); Michael Cunningham, As horas (1998); Colm Tóibín, O mestre (2004); David Lodge, Author, author (2004). Escritores brasileiros também têm dedicado romances a "heróis da literatura". Alguns exemplos: Silviano Santiago, Em liberdade (1981); Luis Antonio de Assis Brasil, Os cães da província (1986); Ana Miranda, Boca do Inferno (1989), A última quimera (1995) e Dias e dias (2002); Ruy Câmara, Cantos de outono. O romance da vida de Lautréamont (2003); Antonio Fernando Borges, Memorial de Buenos Aires (2006); Lúcia Bettencourt, A secretária de Borges (2006); Wilson Bueno, O copista de Kafka (2007); Julián Fuks, Histórias de literatura e cegueira (Borges, João Cabral e Joyce) (2007).

Por que essa tendência crescente dos escritores atuais a transformar os escritores em personagens? Pastiches, reescrituras ou continuações de obras célebres são práticas antigas. O que é relevante, aqui, é o fato de os escritores se tornarem personagens centrais de ficção. Note-se que a palavra "herói" (hèros), na Antiguidade grega, significava "semideus", autor de grandes feitos. Na era Moderna, passou a ser empregada no sentido de "protagonista de uma obra de ficção". Os dois sentidos se aplicam ao subgênero aqui estudado.

Qual a relação desse tipo de obra com a biografia? A biografia, como gênero literário, é também um gênero híbrido, misturando dados históricos e ficção, e por isso, durante muito tempo, foi vista com desconfiança pelos historiadores e com certo desdém pelos críticos literários. Nas últimas décadas, entretanto, as biografias têm conquistado o apreço do grande público, e o respeito dos historiadores. Em seu livro O desafio biográfico, o historiador François Dosse (2009, p.13) diz que, desde o começo dos anos 1980, "assistimos a uma verdadeira explosão biográfica, que se apodera dos autores assim como do público, numa febre coletiva não desmentida até esta data". E Dosse (2009, p.448) explica essa explosão:

A humanização das ciências humanas, a era do testemunho, a busca de uma unidade entre o pensar e o existir, o questionamento dos sistemas holísticos, assim como a perda da capacidade estruturante dos grandes paradigmas, todos esses elementos contribuem para o entusiasmo atual pelo biográfico.

A diferença entre o subgênero aqui focalizado e a biografia é, no entanto, clara. Embora fatalmente contaminada de ficção, a biografia tem um compromisso com a verdade dos fatos documentados. "O gênero implica um pacto de verdade, como aquele que Philippe Lejeune define como ‘o pacto autobiográfico’", diz François Dosse. Mesmo aquelas que se autodeclaram "biografias romanceadas" respeitam esse pacto. O leitor espera informações autênticas e o biógrafo se compromete a fornecê-las. No caso das obras que nos ocupam, elas se apresentam claramente como ficção (muitas delas têm, abaixo do título, a menção "romance"). Vários dos escritores agora transformados em personagens foram objeto de alentadas biografias que, às vezes, serviram de base aos romances. Mas esses não pretendem se ater à biografia conhecida de seus heróis; pelo contrário, inventam outros episódios ou tratam livremente episódios conhecidos. Muitos deles relatam os últimos dias e a morte do escritor em pauta, provavelmente porque esses últimos momentos permitem um balanço de sua existência e de suas obras.

Em geral, os romancistas desse subgênero não narram a vida toda de um escritor. Escolhem um período de sua biografia, às vezes apenas determinados acontecimentos e desenvolvem, a partir desses, considerações psicológicas, filosóficas, políticas etc. São ficções metaliterárias, que pressupõem pesquisa histórica e conhecimento literário da parte do autor, e um público já familiarizado, por outras vias, com a obra do escritor escolhido. O grau de liberdade com relação à verdade histórica é variável, as maneiras como os diferentes escritores atuais trabalham esse material biobibliográfico são diversas e a qualidade literária do resultado, evidentemente desigual.

Um dos pioneiros do subgênero, e até esta data, dos mais notáveis, é O papagaio de Flaubert, de Julian Barnes (1988). Esse livro, que se autoqualifica de "romance", contém várias das possibilidades de explorar a vida e a obra de um escritor. A narrativa é conduzida por uma linha claramente ficcional, que podemos resumir assim: um médico inglês apaixonado pela obra de Flaubert vai à Normandia para buscar mais precisões sobre seu ídolo; o objetivo inicial de sua busca é saber qual dos dois papagaios empalhados, o do Museu de Rouen ou o de Croisset, foi de fato aquele que Flaubert teve em sua mesa quando escreveu "Um coração simples". Essa busca se desdobra em várias outras linhas, que dificilmente poderiam ser desenvolvidas por um mero amador da obra flaubertiana, o "médico fictício", mas que indiciam o verdadeiro autor do romance como um especialista do assunto. A riqueza de informação e de invenção é espantosa. De uma "Cronologia" biográfica bastante fiel e tradicional, Barnes passa a uma cronologia fundamentada apenas em fragmentos de textos de Flaubert. Segue-se a isso um "Bestiário de Flaubert", uma crítica da crítica que discute a cor dos olhos de Emma Bovary, até uma ficção dentro da ficção: um suposto depoimento de Louise Colet sobre suas relações com o escritor. Temos ainda um dicionário dos lugares-comuns sobre Flaubert, um "discurso de acusação" contra o escritor, algumas propostas de temas para uma "prova escrita" sobre sua obra.

O livro de Barnes mescla vários gêneros – biografia, romance, ensaio, depoimento fictício, dicionário, texto escolar – e permite, mais do que qualquer outro, uma reflexão sobre os limites do biografismo e da própria crítica literária. E essa reflexão não é explicitada por Barnes, mas fica a cargo do leitor. Entre os "não ditos" irônicos do autor: ao revelar sua própria biografia de marido traído, o médico personagem se transforma numa versão moderna do Dr. Charles Bovary. E a questão da "verdadeira" cor dos olhos de Emma, assim como o mistério do "verdadeiro" papagaio terminam sem solução porque não têm a menor importância, e porque, de qualquer maneira, a crítica nunca tem a palavra final.

Modalidades

Podemos detectar, nesse já vasto corpus de romances sobre escritores, algumas "modalidades" relevantes. Quanto ao tipo do subgênero, eles assumem as diversas faces do romance moderno: romance, psicológico, filosófico, político, policial, diário, confissão, depoimento, pastiche etc. Quanto à postura do narrador com relação a seu "herói", encontramos várias atitudes, que vão da veneração, do epigonismo e da reabilitação, até a desvalorização e a contestação. Quanto à matéria narrada, as escolhas também variam: prioridade da biografia do escritor, prioridade da obra do escritor, prioridade do autor-narrador. Entretanto, essas modalidades aparecem mescladas em cada um dos romances referidos. O simples fato de eleger um escritor do passado como protagonista de romance já é uma homenagem e uma celebração, mesmo que o romance contenha críticas e objeções ao herói. Vou exemplificar com alguns romances paradigmáticos do subgênero, adotando um viés comparatista: o confronto de diferentes romances que têm por herói o mesmo escritor.

A breve e surpreendente vida de Rimbaud tem inspirado mais de um romancista. Não por acaso, já que o poeta das Iluminações, ao abandonar a literatura, tornou-se um marco-limite da Modernidade. Pierre Michon aceitou a incumbência de escrever uma biografia de Rimbaud que, na prática, se transformou num misto de ficção e ensaio crítico. Trata-se do livro Rimbaud le fils. Michon (2000, p.81) se refere à biografia oficial de Rimbaud como "a vulgata", ou "o evangelho", e dá sua própria visão da vida do poeta: "Tudo se passou em três pequenos atos: a imediata reputação de grande poeta, a consciência aguda da vaidade de uma reputação, e a devastação dessa reputação". E sua interpretação dos fatos é a de que Rimbaud abandonou a poesia porque era impossível ir mais longe: "Desde 1830, a canção estava gasta; talvez ela tenha sido cantada por gargantas numerosas demais; havia excesso de postulantes para os prêmios do além; sobretudo, ninguém mais lhe dava garantia" (ibidem, p.82). A postura de Michon, narrador representado no texto, não é nem de exegese, nem de censura; apenas levemente irônica, distanciada do "moinho da interpretação" que venera Rimbaud como "a poesia pessoalmente".

Michon se inspira nas fotos do "Álbum Rimbaud", da coleção Pléiade, para desenvolver seu texto. O viés ficcional se declara desde o início: "Diz-se que Vitalie Rimbaud, nascida Cuiff, camponesa e mulher maldosa, doente e maldosa, deu à luz Arthur Rimbaud" (ibidem, p.13). Poucas páginas depois, ele acrescenta aos fatos narrados a palavra "talvez" (ibidem, p.17); mais adiante, assume a ficção: "imagino que" (ibidem, p.56); por vezes, contradiz a "vulgata": "não acredito que" (ibidem, p.69): ou aceita-a parcialmente: "disso estou seguro" (ibidem, p.70). Até concluir que não se sabe o principal: "O que é que relança, sem fim, a literatura? Os outros homens, suas mães, as estrelas, ou as velhas coisas enormes, Deus, a língua? Os poderes o sabem. Os poderes do ar são esse vento leve através da folhagem" (ibidem, p.109).

O livro de Michon contém, a par de sua interpretação da vida do poeta, uma visão da história da poesia francesa do século XIX (três gerações: Hugo, Baudelaire, Rimbaud), uma teoria da linguagem, uma teoria da poesia moderna e uma reflexão sobre a situação do poeta "pós-Rimbaud", isto é, a sua própria.

Jean-Marie Le Clézio também retoma a "lenda" de Rimbaud em La Quarantaine. Dentro da trama ficcional de uma aventura marítima, são inseridas lembranças de personagens que teriam visto pessoalmente o "vagabundo" de Paris e, mais tarde, o poeta já doente num hospital de Aden. Rimbaud aparece no romance por meio de referências biográficas e, sobretudo, no intertexto, largamente colhido em sua obra. Desde o início do romance, o poeta é lembrado como tendo sido visto pelo avô da personagem e sido lido por ela. A famosa frase "Eu é um outro", embora não citada, é insistentemente lembrada nas alusões às crises de identidade do narrador e das personagens.

O romance de Le Clézio é semeado de outros intertextos: De Foe, Baudelaire, Shelley, Longfellow, Hugo, Hérédia, Verlaine, Conrad, além de trechos colhidos nos textos sagrados da Índia. Apropriando-se de todos esses textos, Le Clézio cria uma obra original, uma prosa poética que é somente sua. Entretanto, como Michon, Le Clézio (1995, p.409) manifesta certa nostalgia com respeito a esses textos do passado: "Não há mais poesia. Não tenho mais vontade de ler as longas frases um pouco solenes de Longfellow. Parece-me que até mesmo as palavras violentas do homem de Ades desapareceram no céu, foram levadas pelo vento e perdidas no mar".

Fernando Pessoa talvez seja o campeão em termos de ficcionalização. Já foi personagem de muitos romances, filmes, adaptações teatrais e até balé. Sem falar do interesse de numerosos artistas plásticos por sua figura. O que é curioso é o fato de um escritor tão discreto, com uma vida tão privada de grandes acontecimentos, suscitar tanto interesse ficcional. Mas é preciso lembrar que seu desdobramento em heterônimos, cuja "biografia" ele mesmo escreveu, abre um leque de possibilidades quase infinitas.

O primeiro grande romance inspirado em Pessoa foi escrito por José Saramago: O ano da morte de Ricardo Reis. Na verdade, a personagem principal do romance é o heterônimo Ricardo Reis; mas Pessoa "ele mesmo" aparece na trama como um fantasma que dialoga com seu alter ego. Ao escolher esse tema, Saramago pretendeu completar a breve biografia de Reis escrita por Pessoa. Já que esse não forneceu a data da morte do heterônimo, o romancista se permitiu imaginar o que teria acontecido com Reis depois de seu "exílio no Brasil", mais precisamente, no ano de 1936. Esse ano corresponde a funestos acontecimentos: a ascensão de Salazar em Portugal, a revolução espanhola, o crescimento do nazismo e do fascismo na Alemanha e na Itália. Saramago inventa situações que colocam em xeque o poeta que pregava uma filosofia cética e contemplativa, e a abstenção de qualquer participação ativa na realidade, dizendo: "Sábio é aquele que se contenta com o espetáculo do mundo". Ora, ao voltar do Brasil em 1936, e ao inteirar-se dos acontecimentos europeus, Reis percebe que não é fácil manter-se neutro e indiferente. As experiências pessoais que o romancista atribui ao poeta também o obrigam a rever sua filosofia.

Como outros romances de Saramago, esse implica uma reflexão filosófica e política. Mas não apenas isso. O cenário e a vida cotidiana lisboetas em 1936 são reconstituídos com uma consistência assombrosa, que raramente se encontra nas obras de história ou de sociologia. O leitor se sente corporalmente transportado para aquela cidade sombria e atrasada, e a suposta vida de Reis cumpre aquela função que Walter Benjamin (1991, p.442) atribuirá ao "historiador materialista", em Sobre o conceito de história:

romper a continuidade histórica para extrair dela determinada época; romper igualmente a continuidade de uma época para extrair dela uma vida individual [...] mostrar como a vida inteira de um indivíduo cabe em uma de suas obras, em um de seus fatos; como, nessa vida, cabe uma época inteira; e como, numa época cabe o conjunto da história humana.

É também como fantasma que Fernando Pessoa aparece no romance Requiem, de Antonio Tabucchi, mas aí para assombrar não um heterônimo, mas o próprio narrador que, numa peregrinação sobre os passos do poeta, questiona sua própria vida e identidade. O "caso" de Tabucchi é bem conhecido. Tendo descoberto a obra de Pessoa vários anos antes, o romancista italiano apaixonou-se por Portugal e pela língua portuguesa, e foi nessa língua que redigiu Requiem, posteriormente traduzido para o italiano. Anteriormente, ele já havia feito referência a Pessoa em Noturno indiano, que narra uma estranha viagem à Índia onde, entre muitos encontros, o narrador depara com um mestre em teosofia que cita o poeta português. Sempre fascinado pelo poeta, Tabucchi voltou a ele em 1994, no romance Os últimos três dias de Fernando Pessoa. Um delírio. Nesse breve romance, Tabucchi narra o que teriam sido os últimos dias do poeta, no Hospital de São Luís dos Franceses, em novembro de 1935. Em seu leito de morte, Pessoa recebe a visita de seus heterônimos, e acerta suas contas com eles. Os romances pessoanos de Tabucchi são obras de homenagem, em que a figura do poeta suscita um devaneio (vejam-se os subtítulos: Uma alucinação, Um delírio) e a criação de um mundo onírico e poético.

Dostoiévski tem sido igualmente transformado em personagem, e tem tido também a sorte de seduzir excelentes romancistas do século XX. Verão em Baden-Baden, de Leonid Tsípkin (2003), mistura basicamente dois gêneros: um diário, em que é narrada a peregrinação do autor do romance nos passos de Dostoiévski (narração na primeira pessoa), e um relato ficcional da temporada que Dostoiévski passou em Baden-Baden com a jovem esposa, em 1867 (narração na terceira pessoa: "ele" e "ela"). Alterna duas temporalidades: a da União Soviética na segunda metade do século XX, e vários períodos da vida de Dostoiévski, até a morte, longamente descrita no final. Dostoiévski aparece no romance como quase demente, epilético, jogador compulsivo, mal-humorado, ressentido, mau marido. Entretanto, o livro é o resultado de uma paixão do autor, ao qual a irmã pergunta: "Você continua apaixonado por Dostoiévski?" (ibidem, p.166). Essa paixão é, ao mesmo tempo, uma rejeição, pelo fato de o autor ser judeu e Dostoiévski ter sido antissemita: "por que é que me sentia tão estranhamente seduzido e atraído pela vida desse homem que desprezava a mim e a meus semelhantes?" (ibidem, p. 206).

As angústias de Dostoiévski têm outra origem, mas as do autor do romance as associam às suas próprias, decorrentes de sua situação numa União Soviética totalitária e policialesca. Diferentemente de outros romances sobre escritores, esse não mimetiza o estilo de seu herói. Embora centrado no jogo, com o qual Dostoiévski pretendia salvar suas finanças, o romance de Tsípkin tem um clima sombrio, totalmente diverso daquele da novela Um jogador, um dos raros textos bem-humorados do grande escritor russo. Do ponto de vista biográfico, as relações tensas do escritor com a jovem esposa Anna Grigórievna, com quem se casara naquele mesmo ano de 1867, também parecem demasiadamente trágicas, e sua depressão parece referir-se a outros períodos da vida de Dostoiévski.

O estilo de Tsípkin é muito moderno, torrencial, com parágrafos divididos por travessões, e a narração é frequentemente metafórica. As situações tensas são expressas por metáforas como "nadar", "agarrar-se ao mastro", "andar na corda bamba sobre abismo", "duelar". Por sua originalidade, o romance de Tsípkin tem uma qualidade própria, independente da de seu tema.

Igualmente notável e muito diverso é o romance de J. M. Coetzee, O mestre de Petersburgo. O livro não traz a menção "romance", mas é claramente ficcional, na medida em que narra um episódio não confirmado da biografia de Dostoiévski: o encontro desse com o anarquista Serguei Nietcháiev, em 1869. Dostoiévski vai a Petersburgo à procura de seu enteado Pável, que morreu de modo misterioso e teria sido um seguidor de Nietcháiev.

É um romance crítico, que mescla literatura, filosofia e política. É o confronto de Dostoiévski, espiritualista obcecado com o Mal que devora as almas eslavas e a sua própria, com Nietcháiev, jovem niilista e amoral, terrorista cego para quem todos os crimes se justificam em nome da Revolução. As conversas entre ambos se elevam ao nível da discussão metafísica sobre o Bem e o Mal, e são mescladas, para o escritor, de seus remorsos com relação ao enteado.

No final, deparamos com o desencanto de Dostoiévski:

A história está chegando ao fim; os velhos livros de relatos logo serão atirados ao fogo; nesse tempo morto entre o velho e o novo, todas as coisas são permitidas. Ele não acredita especialmente em sua resposta, tampouco desacredita. [...] Escreve para si mesmo. Escreve para a eternidade. Escreve para os mortos. Mas ao mesmo tempo que se senta ali tão calmo, é um homem apanhado num redemoinho. (Coetzee, 2003, p.237)

Conclui que o sobrinho Pável foi um mártir. "O que é um mártir? – Alguém que se entrega ao futuro [...] Uma guerra: velhos contra jovens, jovens contra velhos" (ibidem, p.239). O escritor acredita que teria perdido sua alma ao escrever e vender livros. A última palavra do romance é "desespero" (ibidem, p.241). Entretanto, deixa ao leitor a reflexão de que Dostoiévski, como escritor, também foi "alguém que se entregou ao futuro".

Outro escritor que se tornou herói de dois romances é Henry James: O mestre, de Colm Tóibín (2005), e Author, author, de David Lodge (2004). O romance de Lodge foi publicado seis meses após o de Tóibín e, em certa medida, dialoga com esse. Ambos focalizam o mesmo período da obra de James (a meia-idade e o meio da obra), e várias cenas da vida do escritor são exploradas nos dois livros. Ambos colocam James, dramaturgo malogrado, em contraponto com o exitoso Oscar Wilde, que o fascinava. Enquanto Tóibín explora a vida interior de James, seus problemas sexuais e psicológicos, Lodge mostra um James mais superficial, sociável e loquaz. O romance de Tóibín se sustenta como obra autônoma, inventiva, intertextual, enquanto o de Lodge pouco se afasta da biografia e prefere o humor ao drama. Note-se que, diferentemente de Tóibín e como outros romancistas enquadrados nesse que chamamos um "subgênero", Lodge descreve a cena de morte de James, e suas últimas palavras, exatamente como elas constam das biografias do escritor.

Dois romances têm Virginia Woolf como protagonista: As horas, de Michael Cunningham (1999), e A casa de Virginia W., de Alícia Jimenez Bartlett (2005). O romance de Cunningham tem uma estrutura ardilosa. Começa com a narrativa do suicídio de Virginia Woolf em 1941, numa espécie de prólogo que assombrará todo o romance. Cunningham entrelaça, a partir daí, três histórias: a da escritora inglesa nos anos 1920, a de Clarissa, uma bem-sucedida nova-iorquina nos anos 1990, e Laura, uma suburbana de Los Angeles nos anos 1950. E há uma quarta história subentendida: a de Clarissa, personagem do romance Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf.

Há um paralelismo entre a história das duas Clarissa que permite a Cunningham atualizar os dramas narrados em Mrs. Dalloway, substituindo os traumas da Primeira Guerra pela epidemia de Aids, transformando a homossexualidade feminina latente em relação estável assumida, mas mantendo a sensação de vazio existencial, o medo da loucura e a tentação do suicídio. A história de Laura, grávida e entediada em seu casamento com um veterano da Segunda Guerra, ao mesmo tempo que mostra a situação da mulher americana em meados do século XX, coloca, com delicadeza, a questão do amor materno, que implica a decisão entre a vida e a morte.

É admirável a habilidade de Cunningham em amarrar essas histórias, sem nunca perder de vista a obra de Virginia Woolf. Laura, no hotel em que se refugia, lê Mrs. Dalloway, e a Clarissa de 1990 é apelidada exatamente de Mrs. Dalloway. Trançando não apenas a biografia da escritora inglesa, mas também seu romance com a história dessas mulheres, que vivem em lugares diversos e tempos posteriores, Cunningham escreveu uma das mais complexas obras do subgênero que estamos examinando, uma obra que trata não apenas de uma escritora do passado, mas evidencia a força persistente da literatura no trato com as questões mais importantes da vida humana.

O livro de Bartlett é mais modesto. É uma ficção baseada no confronto dos diários de Virginia Woolf e o de sua empregada Nelly. O narrador é ora o autor, que explica como nasceu o livro, ora Nelly. O livro visa mostrar o contraste entre as ideias feministas-libertárias de Virginia Woolf e do grupo de Bloomsbury com a vida dura das empregadas da casa, Nelly e Lottie, que vivem em "casa alheia" e não têm casa própria.

O livro adota uma óptica social de viés feminista. Entre a escritora e a empregada há uma relação ambígua de dependência, fidelidade e hostilidade: "Contudo, continuava aquele surdo ressentimento entre as duas mulheres" (Bartlett, 2005, p.194). Em seu diário, Nelly questiona o tipo de vida dos patrões:

Eu me pergunto se eles são mais felizes do que as pessoas normais. Sei que sofrem, com todos esses amores misturados. Às vezes ouvi seus lamentos. A patroa diz que eles também sofrem por terem de escrever e pintar bem, e pelo que os outros dirão quando lerem ou virem suas obras. Não creio que sofram tanto quanto um operário que tem de dar de comer aos seus filhos. Ou talvez sim, um operário pelo menos sabe que sua mulher e seus filhos o esperam em casa, e que lá eles podem ficar em paz. Mas eles… (ibidem, p.161)

Virginia Woolf não é visada como escritora. O que interessa à autora é o ambiente social inglês de seu tempo e a condição feminina.

Algumas perguntas

A partir desses exemplos, e de suas várias maneiras de formalizar e de dar sentidos às experiências existenciais e literárias dos "heróis da literatura", podemos formular algumas perguntas e a elas tentar responder.

Qual o alcance artístico e cognitivo desses romances? Algumas dessas obras, justamente deixadas de lado neste artigo, não têm um grande alcance. Apenas repetem fórmulas já desgastadas e, por isso, populares do gênero romanesco. É o caso de certos romances policiais de mero entretenimento, como os de Gyles Brandreth, que tem publicado uma série de histórias fictícias em que Oscar Wilde, com a ajuda eventual de Conan Doyle, desvenda vários casos, ou os de Mathew Pearl, cujos romances policiais têm como protagonistas Edgar Allan Poe ou Charles Dickens. Ou de brincadeiras literárias como a realizada por Adrien Goetz em Le coiffeur de Chateaubriand (2010), romance no qual o autor se diverte ridicularizando o "grande escritor", numa ilustração do famoso ditado: "ninguém é herói para seu camareiro" (ou cabeleireiro).

Quais as razões do interesse atual por esse tipo de romance? Primeiramente, devemos lembrar que vários pensadores atuais têm observado que o individualismo é uma das características marcantes da virada do século XX para o XXI. Nesse caso, uma das mesmas razões que explicariam o gosto atual pelas biografias estaria na origem do gosto por romances nelas baseados: na falta de grandes paradigmas religiosos e éticos, a busca de modelos de existência em determinados indivíduos.

Em sua forma mais superficial, o individualismo de nosso tempo e de nossas sociedades ("sociedade do espetáculo", segundo Guy Debord) favorece o culto das "celebridades". Aqueles "heróis da literatura", que agora se transformam em personagens de romances, em seu tempo só eram conhecidos como pessoas interessantes num círculo muito restrito. Alguns eram até totalmente desconhecidos. O que davam ao público eram suas obras, e, para escrevê-las, muitas vezes se enclausuravam ou se afastavam da sociedade. O escritor atual, diferentemente, tende a tornar-se uma figura pública, dando entrevistas na mídia escrita e audiovisual, frequentando feiras do livro ou festivais literários. Um escritor que pouco aparece e não dá entrevistas é malvisto pela mídia.

Essa verdadeira avalancha de romances sobre escritores é apenas uma moda? É uma prática tipicamente "pós-moderna" de releitura, de pastiche, de reescritura, de iconização mais ou menos pop, aparentada ao culto atual das "celebridades"? Não me parece que seja isso, porque a densidade semântica desses romances e a complexidade de suas experimentações formais impedem que eles sejam inseridos na cultura de massa.

Seriam eles apenas a versão atual do velho romance histórico? Embora essas obras se aparentem ao romance histórico, por colocarem o protagonista em seu contexto histórico e social, amplamente pesquisado pelos autores, não podemos classificá-las como romances históricos, porque nelas o essencial não é um panorama fiel de determinada época, mas, frequentemente, um cotejo (explícito ou implícito) do passado histórico com o tempo presente. E não apenas por interferências lúdicas de anacronismos, como se tornou usual nas ficções ditas "pós-modernas", mas por um objetivo maior de reflexão sobre o passado e o presente, dos homens e da própria literatura.

Um dos procedimentos mais correntes nesses romances é a intertextualidade. Cada um deles mereceria um estudo à parte a esse respeito. Da citação à referência, dessa à alusão, do pastiche à inclusão de fragmentos sem aspas, cuja identificação é deixada a cargo dos iniciados, todas as formas de intertextualidade estão ali presentes, e cada uma delas implica uma relação particular do autor com a obra do escritor-personagem e afeta a significação do romance.

Por que são privilegiados os escritores da alta modernidade? Do ponto de vista da produção literária, é preciso lembrar que o período compreendido entre as últimas décadas do século XIX e as primeiras do século XX produziu um grande número de obras consideradas obras-primas pela crítica e pelos leitores, fenômeno que não se repetiu na segunda metade do século XX, reconhecida por todos como qualitativamente menor. Ora, são exatamente os grandes autores desse período, isto é, da alta modernidade, que os melhores romancistas atuais transformam em personagens: Flaubert, Rimbaud, Dostoiévski, Henry James, Virginia Woolf, Pessoa… E não o fazem como uma revisão valorativa da história literária "oficial", pois a maioria deles mantém uma grande admiração por suas personagens e obras, e, nesse sentido, confirmam o cânone crítico e acadêmico.

É curioso que, no mesmo momento em que a teoria literária anunciava a morte do autor (Barthes, Foucault), os estudos acadêmicos atacavam o "cânone ocidental", em nome do politicamente correto, tantos romancistas privilegiassem, em suas obras, aspectos biográficos de seus antepassados canônicos. A impressão que se tem é de que esses escritores atuais veem em seus antecessores grandes personagens de uma história grandiosa, já terminada, uma história que merece ser contada e comparada com a prática atual da literatura de ficção.

É notável a frequência com que os escritores-personagens aparecem sob a forma de fantasmas ou assombrações. O exame dessas ocorrências à luz das reflexões de Jacques Derrida sobre o tema do "espectro" seria, certamente, muito proveitoso. Para Derrida (1993), o espectro é o que nos vem do passado, da tradição, e que deve ser acolhido para que se faça o trabalho do luto e se dê lugar ao porvir. Nesse sentido, o filósofo colocava a "espectrologia" (hantologie) na própria base da desconstrução. Herdar, segundo ele, é "explicar-se com vários espectros". Não é isso o que fazem os escritores atuais com os antecessores que os "assombram"?

Nenhum desses escritores atuais pretende tomar seus antecessores como modelos de vida ou de escrita. Eles sabem que esse retrocesso é indesejável, e mais do que isso, impossível. Em busca de novos rumos, esses ficcionistas atuais olham, com uma nostalgia que não os paralisa, para seus antepassados, cujas vidas e obras eles revitalizam em obras que trazem a marca de nosso tempo. A escrita de cada um deles não é uma imitação anacrônica e estéril. Esses romances sobre escritores são, como dizia Carlyle há quase dois séculos e Mallarmé há pouco mais de um, belas tumbas (tombeaux): enterros e celebrações, ambos necessários para que a literatura, assumindo novas formas, prossiga.

Fonte: http://www.scielo.br/

Otelo e a doença da suspeita

Há mais de 400 anos o personagem – marcado pelo ego frágil, controle emocional falho e visão distorcida da realidade – causa fascínio, a ponto de ter motivado a criação de um conceito psiquiátrico: o ciúme patológico

Sebastian Dieguez

                                         coleção particular / © archives charmet/the bridgeman art library/keystone

Os textos de William Shakespeare são caracterizados por descrições minuciosas das paixões humanas e da loucura que muitas vezes as acompanha. O dramaturgo inglês apreciava personagens extremados, representações de violência e cenas de morte. A insanidade desenvolvida por Otelo marcou a subjetividade ocidental, por sua precisão e universalidade. É por esse motivo que análises do texto continuam a surgir e a se contradizer reciprocamente e as representações da peça nunca cessaram, desde sua primeira montagem, em 1604. E muitos estudos e artigos privilegiam os aspectos psíquicos do protagonista. Aparentemente, Shakespeare estava bem informado sobre a então emergente ciência do alienismo, em uma época na qual imperavam as superstições e conhecimentos sobre demonologia. Isso o levou a desenvolver em sua obra uma abordagem moderna da loucura, entendida essencialmente como a incapacidade de perceber e interpretar as próprias emoções (ou paixões). Por isso não surpreende que psiquiatras tenham utilizado um de seus personagens mais famosos para designar um distúrbio comportamental: a síndrome de Otelo.

A trama é simples. Um prestigiado general de pele morena (Otelo, o mouro) casa-se em segredo com a bela Desdêmona, filha de um nobre veneziano. Iago, amigo e subordinado do protagonista – e um dos mais famosos “malvados” da história do teatro –, faz de tudo para arruinar esse casamento e prejudicar seu superior hierárquico. Para atingir esse objetivo, instiga o ciúme, fazendo Otelo acreditar que a mulher o trai com Cássio, um jovem tenente. O plano funciona tão bem que Otelo acaba matando a mulher e suicidando-se em seguida. Para quem assiste às malvadezas de Iago, suas mentiras e audácia são de tirar o fôlego. Mas o conjunto dos personagens é constantemente traído por uma retórica excessiva: ele finge expor coisas que preferia esconder, mas que revela por se sentir obrigado pela amizade e fidelidade que o ligam a seus interlocutores. O mecanismo constitui a parte essencial do desenvolvimento do texto, até o desfecho trágico.

Divulgação

Orson Welles no papel-título: filme foi vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes em 1952

DE TRÊS TIPOS

Na verdade, com exceção das mentiras mais ou menos sutis de Iago, quais “provas” levarão Otelo a assassinar a esposa? Elas são risíveis: um lenço perdido e misteriosamente encontrado nos aposentos de Cássio, um mal-entendido durante uma discussão na qual o tenente fala de sua amante Bianca (que Otelo toma erradamente por Desdêmona), e as mãos úmidas da mulher, para ele um indício revelador de sua infidelidade (quando na verdade ela está simplesmente ansiosa). O cúmulo da ironia é que Otelo chega a considerar seu próprio ciúme uma prova da infidelidade da esposa: “Uma natureza não se deixaria invadir dessa forma pela sombra da paixão (ou emoção) sem um bom motivo. (…)Não são meras palavras que me tanto agitam”. E mesmo o assassinato de Desdêmona constituirá uma prova complementar da culpabilidade dela: “Eu sofreria a danação das profundezas do inferno, se não tivesse chegado a esses extremos sem motivos justos”.

Embalado pela eficácia de suas maquinações, Iago leva a simulação a ponto de colocar Otelo contra seu próprio plano, na famosa fala: “Oh! Cuidado com o ciúme, meu senhor! Ele é um monstro de olhos verdes, que produz o alimento do qual se nutre! Esse chifrudo vive na alegre embriaguez de quem, tendo certeza de sua adversidade, não ama aquela que o trai; mas oh! que malditos minutos ele conta, esse que ama, mas duvida, mas ama perdidamente!”. A ingenuidade do general, não somente por confiar cegamente em Iago, mas, sobretudo, por apostar em sua própria capacidade de discernimento, aparece em toda sua ironia quando ele afirma, convicto, que não é homem de sucumbir com facilidade ao ciúme. E Iago não precisa mais do que concluir hipocritamente: “Eu devo rogar que não deis a minhas palavras um desfecho mais grave, um alcance mais amplo do que o de mera suspeita”.

A peça é um estudo magistral do ciúme patológico, um tema inúmeras vezes dissecado por pesquisas clínicas posteriores. Hoje, sabe-se, por exemplo, que essa emoção extremamente perturbadora vem acompanhada de perturbações psicológicas. Os homens são particularmente sensíveis à simples representação mental de uma infidelidade sexual e esses pensamentos costumam ser suficientes para aumentar a pressão sanguínea e fazer soar o alarme do sistema nervoso autônomo. Iago abusará dessa fragilidade para levar seu general à loucura, por exemplo, quando sugere a ele, com ar de quem não quer nada: “Agradar-lhe-ia assistir, estupefato, a um grosseiro flagrante e vê-la ser assediada?”.

Entretanto, ainda é nebuloso o que exatamente separa a patologia da normalidade. Para Sigmund Freud, o ciúme serve para convencer o parceiro de que é digno do amor a ele dedicado. Ou seja: está vinculado ao próprio narcisismo. Em seu ensaio Alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranoia e na homossexualidade (1922), o criador da psicanálise estabeleceu três estágios: o normal ou concorrencial (no qual está presente uma dose de homossexualidade latente); o projetado (o próprio ciumento tem tendência a ser infiel e vê essa tendência no parceiro); e, por fim, o delirante (de teor paranoico).

biblioteca do congresso, washington, d.c.

Cartaz de 1884 de uma das muitas representações da peça, encenada pela primeira vez em 1604

À PROCURA DE PROVAS

Inúmeras expressões foram utilizadas para designar as formas patológicas de ciúme – mórbido, psicótico, neurótico, sexual, erótico, paranoia conjugal, delírio de infidelidade etc. O termo “síndrome de Otelo” foi sugerido em 1955 pelos neuropsiquiatras John Todd e Kenneth Dewhurst para designar um complexo de pensamentos e emoções irracionais, muitas vezes associado a comportamentos exagerados e violentos, derivados da exacerbada preocupação com a suposta infidelidade do parceiro, baseada em provas inconsistentes e por vezes imaginárias. A manifestação mórbida se apresenta sob a forma de interpretações delirantes de acontecimentos ordinários, de uma resistência frente aos elementos que contradizem o delírio e de acusações injustas contra o parceiro, que podem acarretar comportamentos perigosos. Como sugere Emília, criada de Desdêmona e mulher de Iago, o ciúme mórbido é uma entidade que ri da realidade. À mulher de Otelo, que garante nunca ter dado qualquer motivo para que o marido desconfiasse dela, a moça responde: “Mas aos corações ciumentos essa resposta não basta; nem sempre sentem ciúme por causa de um motivo. O ciúme é um monstro gerado por si mesmo”.

O distúrbio é registrado no Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM na sigla em inglês), guia oficial de perturbações mentais, atualmente em sua quarta versão. Classificada na parte dedicada à esquizofrenia e outras perturbações psicóticas, a síndrome é denominada perturbação delirante de tipo ciumento. O diagnóstico, entretanto, não dá conta da diversidade de distúrbios: delírios de perseguição, obsessões, comportamento extremado e até mesmo psicopatia. Na maior parte das vezes, esses indivíduos apresentam grande imaturidade em suas relações e podem ter comportamentos agressivos, em geral associados ao consumo de álcool ou drogas i–lícitas. Seu desejo de controlar a fidelidade do parceiro costuma ser extremado, levando-o a segui-lo, a se esconder para pegá-lo em flagrante, a remexer metodicamente seus pertences, a fazer inspeções corporais etc. Se o problema perdura, com frequência o fim é trágico, chegando a desdobramentos como assassinato do cônjuge, de filhos do casal ou de um dos parceiros e suicídio. Com frequência, a pessoa é violentamente refratária a qualquer tipo de argumentação e ignora as provas de inocência que venham a ser apresentadas, mesmo que irrefutáveis.

stian Dieguez

Divulgação

Iago, (à esquerda), interpretado por Kenneth Branagh, no filme de Oliver Parker, de 1995: intrigas semeiam a dúvida na mente de Otelo, vivido por Lawrence Fishburne

Essa forma de negação é explícita em Otelo: “Meus pensamentos de sangue, em seu caminhar violento, jamais olharão para trás”. Aliás, só alguns instantes antes de matar Desdêmona é que Otelo revela o que condena, nela, e tenta arrancar uma confissão: “Confessa francamente teu crime; pois por mais que negues cada ponto, mesmo sob juramento, jamais poderás te afastar nem sufocar esse horrível pensamento que provocam em mim estes soluços”.

Talvez o sinal mais característico da síndrome de Otelo seja a procura obsessiva de “provas de infidelidade”. A menor observação, um mínimo gesto, ou um acontecimento qualquer são interpretados como demonstração óbvia de que o parceiro tem uma ligação extraconjugal.

Praticamente todos os fatores que predispõem ao ciúme mórbido, posto em evidência pelos pesquisadores modernos, estão em Otelo. Na maioria desses casos identifica-se, por exemplo, uma diferença marcante entre integrantes do casal, que pode ser relativa ao estrato social, à renda, à idade, aos dotes físicos, às origens ou à inteligência. Iago não deixa de lembrar Otelo das disparidades que o distinguem de Desdêmona: “Ter recusado tantos pretendentes de boa posição e que tinham com ela todas essas afinidades de pátria, de raça e de sangue, condições de que todos os seres são naturalmente tão ávidos! Hum! Isso revela um gosto bastante corrompido, uma horrenda depravação, pensamentos desnaturados; tudo o que eu temo é que como seu gosto se refere a inclinações pouco normais, ela termine por compará-lo às pessoas de seu próprio país de origem, e talvez termine por se arrepender do casamento”.

Reprodução

Edição de 1744 de Shakespeare

VÍTIMA OU ALGOZ?

Trata-se aqui, de maneira muito crua, das origens de Otelo, e mais precisamente da cor de sua pele (desse ponto de vista, a leitura da peça não consegue substituir a vivência da representação sobre um palco, onde o isolamento e a alteridade do mouro são constantemente visíveis). O processo que transforma a mera constatação dessas diferenças em ciúme mórbido é reconhecido pelo próprio protagonista: “Talvez por eu ser negro e não ter em minhas conversas as formas flexíveis dos intrigantes, ou talvez por eu já me inclinar sobre o vale dos anos; sim, talvez por tão pouco eu a tenha perdido! Estou ultrajado! E o consolo que me resta é desprezá-la”. Iago nunca precisou forçar a natureza de Otelo – bastou que tocasse sua frágil autoestima. A vergonha de si mesmo leva ao desprezo do outro e, em seguida, à suspeita de infidelidade. As diferenças em um casal, sejam elas reais ou imaginárias, remetem, portanto, a uma falha narcísica no ciumento (em geral associada à imaturidade afetiva). O ciúme possibilita então que se neutralizem esses sentimentos negativos por si mesmo e seja preservada uma imagem conveniente de si, muitas vezes exagerada, o que confere uma postura de moralidade e retidão ao ciumento, convencido de que está empenhado em defender a própria honra. Como diz o escritor francês do século 17 François La Rochefoucauld, “há no ciúme mais amor-próprio que amor”.

Alguns psicólogos observam que a impotência sexual é um importante fator desencadeador da síndrome de Otelo. Essa situação, negada ou minimizada, seria psiquicamente convertida na suposta hipersexualidade do parceiro. Ou o marido impotente apenas se sente culpado e se convence de que a parceira procurará satisfação em outro lugar.

Iago coloca em dúvida a virilidade do general. A impotência do mouro não é mencionada explicitamente, mas Shakespeare parece se referir ela por meio de artifícios. Primeiro, sua noite de núpcias é subitamente anulada pela notícia de um iminente ataque da marinha turca contra Chipre. Otelo e seu séquito vão imediatamente à ilha, mas quando chegam ao local ficam sabendo que o ataque havia sido cancelado por uma tempestade em alto-mar. Num segundo momento, que pode expressar uma castração simbólica, o general é privado da única coisa que sabe fazer: a guerra. Essas duas metáforas de impotência e de impossibilidade indicam a intenção de Shakespeare de comprometer a virilidade de seu herói.

Mais recentemente, os neurologistas recorreram à síndrome de Otelo para descrever casos de ciúme patológico decorrentes de perturbações cerebrais, incluindo Alzheimer, derrame, epilepsia, encefalite, tumor, doença de Huntington, uso abusivo de substâncias etc. No que diz respeito ao personagem, uma opinião mais específica parece delicado ou incongruente, ressalvando-se o fato de o próprio Iago informar ao espectador que o mouro sofre “de epilepsia”. Efetivamente, em duas ocasiões Otelo mergulha em uma crise de cólera. Evidentemente Iago não é neurologista, mas cabe perguntar qual seria o motivo que teria levado Shakespeare a considerar útil fazer casualmente essa menção, não fosse para expressar a ideia de que a loucura estaria enraizada em um distúrbio cerebral (uma teoria extremamente moderna, naquela época).

Por outro lado, se é o ciúme que torna Otelo rapidamente irreconhecível, a questão se refere mesmo ao diagnóstico. Se nos ativermos aos critérios do DSM-IV, diremos que Shakespeare conseguiu ir mais longe do que a maioria dos escritores e psiquiatras. Na primeira confrontação direta com Desdêmona, o personagem é incapaz de manter uma discussão racional que possibilitaria dirimir de imediato as dúvidas. Em vez disso, ele a acusa e insulta, sem dar qualquer explicação. Nesse momento, vemos a que ponto a realidade lhe escapa. O que ele lamenta não é tanto a infidelidade, mas sim o aniquilamento de uma imagem idealizada e fantasiada da mulher, construída para preservar o próprio ego. O simples questionamento dessa imagem é suficiente para destruir sua couraça psíquica – desnudar as fraquezas do ego.

Iago nunca precisou forçar a natureza de Otelo para enlouquecê-lo, bastou-lhe revirar o frágil ideal que o outro fazia de si mesmo e da esposa, e sobre o qual assentava todo seu universo (demonstrando assim que Otelo amava Desdêmona pela imagem que construiu dela). A partir de então, a mulher já não tem a mínima chance, pois não é dela que trata essa tragédia – mas sim da vaidade de Otelo.

A incapacidade de julgar e controlar as próprias emoções, mesclada à imaturidade emocional e a profundas falhas narcísicas, constitui o cerne do processo psicológico que levará Otelo à perdição. No entanto, especialistas em Shakespeare não são unânimes quanto a esse personagem. Muitos não veem senão uma vítima infeliz de um manipulador sem escrúpulos, e inúmeros estudos o defendem.

Mesmo depois do drama final, Otelo continua incapaz de encarar a própria responsabilidade naquele ato tresloucado. Em sua defesa, evoca o destino e a influência da lua, assim como seu sentido de honra: “Digam de mim que sou um honorável assassino, se assim preferirem; pois eu nada fiz por ódio, eu tudo fiz por honra”. Esse refrão é conhecido por muitos juízes que tratam de crimes passionais. O especialista em Shakespeare Leo Kirschbaum é bastante crítico com relação aos colegas que não medem esforços para defender Otelo. Ele argumenta não só que o general teria tido diversas oportunidades de frustrar o plano de Iago, mas, sobretudo, que a tolerância leva a uma leitura enganosa do texto, e que tais trabalhos se referem mais às tendências sexistas e românticas dos autores do que à própria obra.

Um desses críticos chega a ver no assassinato de Desdêmona uma prova “da nobreza dessa figura trágica” que é Otelo. Mas o próprio Shakespeare nos põe de sobreaviso contra uma leitura demasiado benevolente do personagem, uma vez mais pela boca de Iago: “Não nos cabe ser isso ou aquilo. Nosso corpo é nosso jardim e nossa vontade é o jardineiro. (…) Se a balança da vida não tivesse o prato da razão como contrapeso para o da sensualidade, nosso temperamento e a baixeza de nossos instintos nos levariam às mais desastrosas consequências. Mas nós temos a razão, para arrefecer nossas paixões furiosas, nossos impulsos carnais, nossos desejos desenfreados”.

Sebastian Dieguez é neuropsicólogo, pesquisador do Laboratório de Neurociências Cognitivas do Instituto do Cérebro e Mente, da Escola Politécnica Federal de Lausanne, na Suíça.

Fonte: http://www2.uol.com.br/