Monthly Archives: junho 2011

O cérebro no autismo

Alterações no córtex temporal podem causar prejuízo na percepção de informações importantes para a interação social

Ricardo Zorzetto

  

© Marie Hippenmeyer | fotos da série Preto e Branco, 2002-2007

Mamãe, mamãe, descobri que o Capitão Gancho é bonzinho. Ele falou ‘Eu vou cuidar muito bem de você!’”, anunciou o garoto durante a consulta, interrompendo a conversa da mãe com o médico. E repetiu mais duas ou três vezes a descoberta que fizera ao assistir ao filme sobre Peter Pan, para em seguida retomar o silêncio habitual e voltar a agitar as mãos  para cima e para baixo como se quisesse desprendê-las dos braços. Diferentemente de crianças da sua idade, o menino de 7 anos atendido pelo psiquiatra infantil Marcos Tomanik Mercadante não conseguia perceber a ironia na fala do vilão, determinada por uma marcante alteração no tom de voz.

Os sinais que Mercadante observou no garoto são característicos de um grupo de distúrbios com prevalência ainda pouco conhecida no país e que apenas nos últimos anos começaram a ser mais bem compreendidos – em parte, consequência de trabalhos de pesquisadores brasileiros trabalhando no país e no exterior. Classificados como transtornos do espectro autista ou transtornos globais do desenvolvimento, esses problemas de origem neuropsicológica se manifestam na infância e, com maior ou menor intensidade, prejudicam por toda a vida a capacidade de seus portadores se comunicarem e se relacionarem com outras pessoas. Incluem quadros variados como o autismo clássico, marcado por dificuldades severas de linguagem e de interação social; a síndrome de Asperger, na qual a inteligência é normal ou superior à média e a aquisição da linguagem se dá sem problemas, mas em que são comuns os gestos repetitivos e a falta de controle em movimentos delicados; ou ainda a síndrome de savant, em que, apesar do retardo mental, a memória ou as habilidades matemáticas ou artísticas são extraordinárias.

Levantamentos feitos nos últimos anos registraram um aumento importante no número de casos desses transtornos. Há pouco mais de uma década se acreditava que o autismo e suas variações fossem bastante raros. Com base em pesquisas feitas nos Estados Unidos e na Europa, calculava-se que uma em cada 2,5 mil crianças – ou 0,04% da população infantil – apresentasse algum distúrbio do espectro autista. Hoje essa proporção é 20 vezes maior. Quase 1% das crianças norte-americanas e inglesas sofrem de algum desses transtornos de desenvolvimento, segundo dados recentes dos Centros para Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos e de pesquisas de universidades da Inglaterra. E a taxa pode ser ainda mais elevada. Trabalho publicado em maio no American Journal of Psychiatry indica que a prevalência de distúrbios autistas é de 2,5% na Coreia do Sul.

O mais provável é que não haja uma epidemia de autismo. Em relatório apresentado em 2010 à Organização Mundial da Saúde (OMS), especialistas brasileiros e estrangeiros indicaram, após analisar quase 600 estudos sobre o assunto, que o aumento na taxa desses transtornos parece decorrer do uso de estratégias mais abrangentes de diagnóstico e da maior vigilância de profissionais da saúde – embora não se possa excluir completamente uma elevação real no número de casos.

No Brasil, porém, os dados sobre o problema são praticamente desconhecidos. Por falta de estudos populacionais, não se sabe com segurança quantas são nem onde estão as crianças com transtorno do espectro autista. Muito menos se recebem o mínimo de atenção do sistema de saúde e de educação para que consigam levar uma vida o mais próximo do normal possível.

O maior e mais recente levantamento realizado no país – um dos únicos feitos na América do Sul – sugere que o autismo e suas variações afetam uma em cada 370 crianças ou 0,3% dessa população. Coordenado por Mercadante, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e Cristiane Silvestre de Paula, psicóloga e epidemiologista da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o estudo avaliou sinais de autismo em 1.470 crianças com idade entre 7 e 12 anos, uma amostra considerada bastante razoável. Mas o trabalho, publicado em fevereiro no Journal of Autism and Developmental Disorders, ainda é um estudo piloto. Sua principal limitação é que foi realizado em apenas um município brasileiro: Atibaia, cidade de 126 mil habitantes a 60 quilômetros de São Paulo. “Fizemos esse estudo, financiado pelo Mackenzie, com pouco dinheiro”, conta Mercadante, que pretende fazer um estudo populacional sobre autismo com amostra representativa de um município inteiro.

Em Atibaia, a psicóloga Sabrina Ribeiro identificou todas as escolas e as unidades de saúde da região estudada e treinou professores, médicos e profissionais do programa de saúde da família para identificar sinais de autismo nas crianças. Das 1.470 que viviam na área, 94 foram encaminhadas para testes clínicos mais detalhados e 4 receberam diagnóstico de autismo.

Se o índice observado ali puder ser extrapolado para o resto do país – inclusive para os adultos, uma vez que estudo recente na Inglaterra mostrou prevalência de autismo semelhante em adultos e crianças –, é de esperar que existam 570 mil brasileiros com alguma forma de autismo. “Alguns trabalhos indicam que a prevalência de autismo talvez seja mais baixa entre os latinos”, comenta Mercadante. “O fato de nossa cultura exigir mais o desenvolvimento das habilidades sociais do que as de muitos países do hemisfério Norte, onde costumam ser feitos os estudos epidemiológicos, pode ajudar as pessoas com casos mais leves a levar uma vida com certa independência e a não serem identificadas como autistas”, diz.

Essa seria uma estimativa favorável. É possível que os números daqui e os de outros países estejam subestimados, suspeitam os pesquisadores ingleses que realizaram o primeiro estudo de prevalência de autismo em adultos, publicado em maio nos Archives of General Psychiatry. No trabalho, eles avaliaram sinais de autismo em 7.461 adultos e confirmaram que 618 tinham alguma forma do distúrbio. “Em nenhum dos casos identificados nesse levantamento as pessoas sabiam que eram autistas nem tinham recebido um diagnóstico oficial anteriormente”, disse Traolach Brugha, pesquisador da Universidade de Leicester, na Inglaterra, e autor do estudo, em comunicado à imprensa.

Embora a maioria dos casos fosse de pouca gravidade, a constatação acende um sinal amarelo: mesmo em países com sistemas de saúde bem estruturados muitos casos nem chegam a ser conhecidos. Caso as taxas no Brasil sejam elevadas como a dos Estados Unidos, pode haver até 1,9 milhão de brasileiros com autismo. “Seria uma bomba para os cofres públicos”, diz Cristiane. “Mostraria que é preciso aumentar muito a capacidade de atender o problema.”

“O autista demanda tratamento contínuo e dispendioso”, conta Maria Cecília Mello, mãe de Nicholas, um jovem de 19 anos que há apenas três anos recebeu o diagnóstico de síndrome de Asperger. “Eles também precisam de acompanhamento especializado para alavancar suas habilidades específicas e desenvolver aquelas em que apresentam dificuldades”, diz a juíza federal, fundadora, ao lado de Mercadante e de outros pais e pesquisadores, da organização não governamental Autismo & Realidade, criada em 2010 com a meta de divulgar informações sobre o distúrbio e arrecadar recursos para financiar pesquisas na área.

Nos Estados Unidos, onde há estatística para quase tudo, anos atrás Michael Ganz, da Universidade Harvard, calculou em US$ 3,2 milhões o custo para manter um autista ao longo da vida, levando em conta despesas médicas, de educação e  perda de produtividade no trabalho.

No sistema público de saúde brasileiro, os casos suspeitos de autismo deveriam, em princípio, ser identificados pelos pediatras nas unidades básicas de saúde e encaminhados para cuidado especializado em um dos 128 centros de atenção psicossocial infantil (CAPSi). Mas esses centros estão concentrados no Sudeste e no Nordeste. Cinco estados brasileiros não têm CAPSi e outros sete dispõem de apenas um, de acordo com relatório recente do Ministério da Saúde.

Na cidade de São Paulo, a mais bem servida do país, há apenas 13 CAPSi. Com a prevalência de autismo de 0,3% da população, seriam necessários cerca de 70 desses centros para atender apenas os autistas da capital paulista, segundo Cristiane. Ante esse quadro, conta Mercadante, a maioria dos casos é atendida por associações de pais e amigos das crianças com deficiência intelectual, as AMAs e APAEs. Em São Paulo, uma decisão de 2001 da Justiça determinou que a Secretaria de Estado da Saúde pague  tratamento, assistência e educação especializados para quem tem autismo.

Sem um levantamento mais amplo como o que ele e Cristiane planejam, vive-se um círculo vicioso. “Como não há estudos de prevalência abrangentes no país, não se consegue mostrar que o problema existe. E, sem provas, fica difícil exigir atendimento”, afirma a epidemiologista, que participa de um levantamento de problemas de saúde mental em crianças de cinco capitais brasileiras, projeto do Instituto Nacional de Psiquiatria do Desenvolvimento para Crianças e Adolescentes, apoiado pela FAPESP e pelo governo federal.

Atendimento médico precoce e de qualidade é fundamental para influenciar a evolução do autismo. Tanto que, no mundo todo, pesquisadores buscam estratégias para identificar com segurança o autismo já no primeiro ano de vida. “Quanto mais cedo se identificam os sinais, melhores as chances de intervir para tentar recuperar a capacidade de a criança se relacionar com os outros e buscar a construção de uma linguagem significativa”, afirma a psicóloga e psicanalista Maria Cristina Kupfer, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), fundadora do Lugar de Vida, entidade que há 20 anos atende casos de autismo. “A intervenção precoce permite ainda ouvir os pais, que sofrem por não receber de volta dos filhos a atenção que lhes dão.”

Desde que o autismo foi descrito nos anos 1940, o diagnóstico continua clínico. Em geral um neurologista ou psiquiatra examina a criança e avalia sua história de vida à procura de indícios de atraso no desenvolvimento da capacidade de interagir socialmente e se comunicar e de defasagem no desenvolvimento motor, descritos no Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais, da Associação Psiquiátrica Americana, e na Classificação Internacional de Doenças, da OMS.

Ainda que alguns sintomas surjam muito cedo, nos primeiros meses de vida, os casos só costumam ser confirmados por volta dos 3 anos de idade, quando o cérebro já atravessou uma das fases de crescimento mais intenso. E isso na melhor das hipóteses. Mercadante acredita que no Brasil a identificação só ocorra aos 5 ou 6 anos, quando já se perdeu uma fase fundamental do desenvolvimento infantil. No estudo de Atibaia, por exemplo, só um dos quatro casos de autismo havia sido identificado anteriormente e recebia acompanhamento especializado. “Precisamos melhorar a capacitação dos pediatras para que identifiquem os sinais o mais cedo possível”, afirma Cristiane.

© Marie Hippenmeyer | fotos da série Preto e Branco, 2002-2007

Leonardo Posternak, pediatra do Hospital Albert Einstein em São Paulo, pretende iniciar neste ano, em parceria com uma equipe da Unifesp, um estudo multicêntrico para avaliar a eficácia de um treinamento de pediatras desenvolvido por uma entidade assistencial francesa, a PréAut, com auxílio da psicanalista brasileira Marie Christine Laznik. Posternak, que já oferece o treinamento para os médicos do Instituto da Família, organização social que atende crianças e famílias de baixa renda, planeja treinar, na fase inicial, pediatras do município de Embu e medir a capacidade de identificarem o autismo e outros problemas psíquicos que levam ao sofrimento precoce. “O pediatra tem de estar atento à relação entre pais e filhos e ao dia a dia da família”, diz Posternak.

Anos atrás Maria Cristina Kupfer tentou criar uma ponte com os pediatras e auxiliar no trabalho de detecção do autismo. Embora a psicanálise não use protocolos de identificação como os da psiquiatria, um grupo de nove especialistas coordenado por ela desenvolveu em 1999, com apoio da FAPESP, uma série de 31 indicadores para a detecção precoce de risco para o desenvolvimento psíquico: o protocolo IRDI. Esse material, elaborado a pedido da pediatra Josenilda Brant, consultora da área de saúde da criança do Ministério da Saúde, deveria integrar o Manual para o acompanhamento do crescimento e desenvolvimento, que o ministério distribui aos médicos da rede pública.

Pediatras de 11 centros de saúde de nove cidades brasileiras aplicaram os indicadores a 726 crianças de até 1 ano e meio de idade. Apresentados em 2009 no Latin American Journal of Fundamental Psychopathology Online, os resultados mostraram que 15 desses indicadores – eles avaliavam interações simples como mãe e bebê trocam olhares ou a criança reage (sorri, vocaliza) quando a mãe ou outra pessoa se dirige a ela – eram capazes de predizer, a partir do sexto mês de vida, se havia risco de desenvolvimento de problemas psíquicos. “Os indicadores do protocolo IRDI, adaptados, chegaram a fazer parte da Caderneta da Saúde da Criança, destinada a orientar os pais,  em 2006, 2007 e 2008 e depois foram retirados”, conta Maria Cristina. “Mas os indicadores validados pela pesquisa não foram integrados à ficha de acompanhamento do desenvolvimento, usada pelos pediatras nas consultas feitas no sistema público de saúde.”

Apesar do revés, Maria Cristina não se acomodou. “Se fecharam uma porta, procuramos outra”, diz a psicanalista, que planeja testar seus indicadores em 29 creches do bairro paulistano do Butantã. “O uso dessa ferramenta em creches é uma alternativa interessante, porque as crianças passam oito horas por dia ali e têm muito mais contato com os professores do que com os pediatras”, justifica.

Foi como problema de contato afetivo, aliás, que os primeiros casos do que viria a ser conhecido como autismo foram descritos pelo austríaco Leo Kanner, psiquiatra do Hospital Johns Hopkins, nos Estados Unidos. Em outubro de 1938, Kanner examinou um garoto norte-americano chamado Donald Gray Triplett, do Missouri, que desde muito cedo demonstrava dificuldade de interagir com pessoas ao mesmo tempo que tinha fixação por certos objetos e grande capacidade de memorização. Embora os sinais lembrassem o de um problema psiquiátrico grave, a esquizofrenia, Kanner não conseguiu fechar o diagnóstico de imediato. Nos anos seguintes, ele reuniu outros nove casos semelhantes e os apresentou em um artigo de 1943 intitulado “Autistic disturbances of affective contact”. No texto Kanner tomou emprestado o termo autismo, usado para descrever o distanciamento e o ensimesmamento típicos da esquizofrenia. Um ano mais tarde outro psiquiatra de origem austríaca, Hans Asperger, descreveria casos um pouco distintos. Eram crianças com inteligência e capacidade de aprendizado de linguagem normais, mas com dificuldade de interagir socialmente – sinais que se tornam característicos da síndrome de Asperger, um dos transtornos do espectro autista.

Enquanto Asperger acreditava na origem biológica desses distúrbios, Kanner os via como problemas com causas psíquicas, resultado da criação por pais frios e distantes. Por influência de pesquisadores como o psicólogo Bruno Bettelheim, esta visão prevaleceu por anos e se tornou conhecida como a “teoria da mãe geladeira”. “Toda uma geração de pais – particularmente as mães – foi levada a se sentir culpada pelo autismo dos filhos”, escreve o neurologista inglês Oliver Sacks no livro Um antropólogo em Marte, publicado no Brasil pela Companhia das Letras.

Esse peso só seria tirado dos ombros dos pais nos anos 1960, quando começaram a surgir evidências favorecendo a ideia de que alterações no sistema nervoso central estariam por trás do autismo. Mas levaria algum tempo para a visão biológica ganhar força. O primeiro grupo a identificar o funcionamento anormal no cérebro de crianças autistas foi o da médica brasileira Monica Zilbovicius, pesquisadora do Instituto Nacional da Saúde e da Pesquisa Médica (Inserm) da França. Usando um aparelho de tomografia por emissão de pósitrons, que mede o fluxo sanguíneo e, portanto, o nível de atividade de diferentes regiões do sistema nervoso central, Monica analisou o cérebro de 21 garotos com autismo e 10 sem o problema – o autismo é quatro vezes mais comum em meninos do que em meninas.

Ela verificou que as crianças do primeiro grupo apresentavam atividade reduzida no sulco temporal superior, pequena área do lobo temporal, segundo resultados apresentados em 2000 no American Journal of Psychiatry. “Quatro grupos haviam tentado antes de nós, mas não encontraram nada”, conta Monica. “Naquela época, nem sabíamos qual era a função dessa área no cérebro normal.” Além de menos ativo, o córtex do sulco temporal superior, situado na região das têmporas, logo acima das orelhas, era menos espesso.

Inicialmente se acreditava que o lobo temporal fosse importante apenas para a percepção dos sons. Estudos mais detalhados mostraram, porém, que tanto o sulco temporal superior como outra área do lobo temporal, o giro fusiforme, estavam envolvidos no processamento de dois tipos de informações relevantes para as interações sociais. Eles captam informações auditivas, sobre a voz do interlocutor, e visuais, como os movimentos dos olhos, os gestos e as expressões faciais, processam-nas e as distribuem para outras áreas cerebrais associadas às emoções e ao raciocínio lógico.

É o funcionamento adequado dessas áreas que permite conhecer a intenção e a disposição da pessoa com quem se interage. Quando uma das áreas está alterada, a percepção de informações tanto visuais quanto auditivas é deficiente, como no caso do garoto que não conseguia perceber a intenção maldosa na voz do Capitão Gancho. Essas descobertas levaram Monica a propor em 2006 que modificações nessas regiões do cérebro durante o desenvolvimento seriam responsáveis pelo sintoma mais frequente do autismo: a dificuldade de interação social.

Ao mesmo tempo que se mapeavam algumas das regiões cerebrais envolvidas no autismo, outro pesquisador brasileiro, o psicólogo Ami Klin, começava a identificar por que as crianças com o distúrbio falhavam em perceber informações importantes para a interação com outras pessoas. Durante o doutorado em psicologia na London School of Economics, Klin criou um experimento simples que permitiu constatar que os bebês com autismo têm uma reação anormal ao ouvir vozes. Ele próprio criou um aparelho com dois botões – um reproduzia uma gravação da voz materna e o outro, a de uma mistura de vozes – e o apresentou a bebês com menos de 1 ano. Na maioria das vezes, as crianças saudáveis acionavam o botão que permitia ouvir a voz da mãe. Já as com autismo não mostraram preferência: apertavam ambos indistintamente. Na Universidade Yale, nos Estados Unidos, onde dirigiu um programa de estudos sobre autismo, Klin passou a usar uma técnica que permite rastrear o movimento dos olhos a fim de verificar onde quem tem autismo focava a visão no contato com outras pessoas. “Se quisermos de fato compreender o que passa pela cabeça deles, precisamos ver o mundo pelos olhos deles”, disse Klin, hoje pesquisador da Universidade Emory, em uma entrevista anos atrás.

Num teste com adolescentes saudáveis e autistas, ele constatou que, na maior parte do tempo, os primeiros dirigiam a atenção para os olhos do interlocutor, padrão que os seres humanos e outros grandes primatas desenvolvem nas primeiras semanas de vida – e teria importância evolutiva por permitir distinguir os membros da mesma espécie (e suas intenções) dos predadores. Os autistas focavam o olhar ao redor da boca ou nos cabelos, áreas que não fornecem informações relevantes sobre o contexto social. No autismo, aparentemente, a capacidade de buscar essas pistas sociais se perderia bem cedo na vida, como demonstrou Klin ao repetir o experimento com crianças de 2 anos. “É provável que, por esse motivo, as pessoas com autismo não consigam decifrar a expressão do rosto do outro nem demonstrar expressões adequadas às situações sociais”, comenta Monica.

É consenso hoje que a formação inadequada das redes neuronais ligadas à percepção e ao processamento das informações sociais – o chamado cérebro social – se deve a defeitos nos genes. “Acredita-se que o autismo tenha origem genética importante e que a manifestação do problema dependa predominantemente da constituição genética do indivíduo”, comenta Maria Rita Passos Bueno, geneticista da USP que investiga o distúrbio.

Até o momento alterações em mais de 200 genes, distribuídos por quase todos os cromossomos humanos, já foram associadas ao autismo. Defeitos em um pequeno número (10%) desses genes, porém, aparentemente explicam por completo o problema. Apesar de haver certo padrão entre os sinais clínicos, do ponto de vista genético cada paciente parece ter uma forma de autismo própria, segundo Maria Rita. Seu grupo na USP, que em 2009 descreveu alterações nos genes de dois receptores do neurotransmissor serotonina, desenvolveu um chip de DNA para procurar pequenas alterações em 250 genes responsáveis pelas conexões entre os neurônios em 500 crianças com autismo, a maioria diagnosticada pela equipe do psiquiatra Estevão Vadasz. Das 70 crianças já testadas por Cíntia Marques Ribeiro, 20% têm defeitos em ao menos um desses genes.

© Marie Hippenmeyer | fotos da série Preto e Branco, 2002-2007

Mercadante e a geneticista Patricia Braga, também da USP, tentam outro caminho. Em vez de trabalhar com um grupo grande de autistas com características clínicas variadas, selecionaram poucos pacientes com quadros semelhantes a  fim de ver se apresentam alterações genéticas em comum.

“Uma classificação mais geral revela que as alterações gênicas já encontradas interferem em três vias bioquímicas responsáveis pelo desenvolvimento dos neurônios, um dos tipos de células que compõem o cérebro”, explica o neurocientista brasileiro Alysson Muotri, da Universidade da Califórnia em San Diego, Estados Unidos. As vias bioquímicas afetadas controlam a proliferação e a maturação de neurônios e a formação de conexões (sinapses) entre essas células cerebrais.

No ano passado a equipe de Muotri conseguiu um avanço importante para investigar o que há de errado com os neurônios no autismo. Como não é ético extrair células do cérebro de uma criança, o pesquisador brasileiro e seu grupo retiraram células da pele de crianças com síndrome de Rett – um dos distúrbios do espectro autista – e de crianças não afetadas para convertê-los em células-tronco, por meio de um processo chamado reprogramação genética. Em seguida, essas células foram estimuladas em laboratório a se transformarem em neurônios. Muotri observou que os neurônios de crianças com Rett apresentavam cerca de 50% menos projeções (espinhas) que conectam uma célula a outra. Em parceria com o grupo de Maria Rita, ele repetiu o experimento com células de polpa do dente de crianças com autismo clássico e observou resultado semelhante. Dados preliminares mostram um número menor de espinhas nos neurônios derivados de crianças com autismo.

“Nunca vamos saber se o que observamos nesses neurônios em cultura é fiel ao que ocorre no cérebro”, explica Muotri. “Ainda assim, acredito que alguma informação importante seja possível tirar desse modelo”. Apesar da dúvida, esse modelo celular do autismo é promissor. Aplicando dois compostos – o antibiótico gentamicina e o fator de crescimento semelhante à insulina 1 (IGF-1) – durante o desenvolvimento neuronal, Muotri conseguiu alterar a estrutura dos neurônios obtidos a partir de células autistas, que passaram a exibir o aspecto de neurônios saudáveis. “Ao mostrar que essas alterações são reversíveis, provamos que existe um problema biológico e quebramos o estigma de que o autismo não tem cura”, diz o neurocientista.

Ele próprio sabe que a estratégia usada com células em cultura ainda não poderia ser aplicada a seres humanos. A gentamicina é relativamente tóxica e o IGF-1 aplicado na corrente sanguínea não chega ao cérebro de forma eficiente. O resultado, porém, desperta a esperança de que um dia, num futuro ainda distante, talvez seja possível desenvolver um tratamento farmacológico para amenizar os traços do autismo, um problema ainda sem cura.

Fonte: http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

Línguas à beira da morte

Apenas 15% das línguas existentes na época do descobrimento do Brasil sobreviveram. No mundo todo, há cerca de 6.700 línguas, mas 90% não sobreviverão até 2100. A extinção é uma tendência global, empobrecedora da cultura. Mas os recursos tecnológicos podem ser aliados poderosos do resgate linguístico

Maíra Lie Chao

Em janeiro passado, o novo delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo, Marcos Carneiro Lima, desferiu um golpe numa língua moribunda, ao emitir uma portaria abolindo o uso de termos em latim nos boletins de ocorrência e memorandos internos. Sua justificativa, bastante razoável, é que os registros devem ser objetivos e os termos em latim, muitas vezes escritos erroneamente, prejudicam a clareza do documento.

Darcio de Jesus/Ag.Istoé

Menino aprendendo a escrever em tupiguarani, em escola indígena de Diamante D’Oeste, no Paraná.

"O tempora, o mores!" ("Que tempo, que costumes!"), diria o tribuno romano Cícero. Apesar de ter sido a língua franca do Ocidente, cultivada pela Igreja Católica e a aristocracia de vários países até o século 19, o latim foi perdendo sua força desde que deixou de ser ensinado nas escolas. Expressões latinas são hoje usadas apenas em textos científicos e religiosos. O desaparecimento do latim reflete uma tendência mundial: o desuso de línguas faladas por uma minoria devido ao convívio e ao domínio de outra.

A morte de uma língua pode ocorrer quando todos os falantes morrem numa mesma ocasião, devido a uma epidemia ou a conflitos entre nativos e povos invasores na região, ou pela contingência de os falantes serem obrigados a viver em um ambiente em que a maioria fala uma língua diferente. Para que haja interação social e convívio pacífico, a minoria se vê obrigada a aprender a nova língua e usá-la na maior parte do tempo – como ocorre no caso das línguas indígenas. Diz-se que uma língua é "moribunda" quando deixa de ser aprendida pelas crianças. Ela se torna "ameaçada" quando está em via de deixar de ser aprendida por jovens. Língua "segura" é a que não se enquadra nas categorias acima.

Patrimônio linguístico

O Brasil tem uma enorme variedade linguística. Aqui, são faladas cerca de 210 línguas, entre variações de línguas europeias, asiáticas, indígenas e de sinais. Este ano, pela primeira vez, o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) criou uma seção para as línguas indígenas, cujos dados serão apresentados a partir de abril. Com a iniciativa, o órgão pretende facilitar a implementação de políticas públicas voltadas à preservação e à promoção das línguas pouco conhecidas.

As 180 línguas indígenas naturais do país representam apenas 15% do total existente na época do descobrimento, em 1500. O linguista Gilvan Muller Oliveira, autor do artigo Plurilinguismo no Brasil, mostra que ao longo da nossa história foi adotada uma política de imposição do português como único idioma. Durante esse período, várias línguas nacionais foram extintas, como o nheengatu, mistura de tupi e português que era a língua mais falada no Brasil até o século 17 – expressamente proibida pelo Marquês de Pombal, em 1758 -, e muitas tiveram o seu uso reduzido drasticamente.

Um dos fatores que acarretam o enfraquecimento do uso de uma língua e, frequentemente, levam à sua morte, como aconteceu no Brasil durante o período colonial, é o domínio de um povo demograficamente minoritário por outro mais forte. A sujeição de conviver com falantes majoritários de uma ou mais línguas diferentes implica o fim da língua mais fraca", explica Aryon Dall’Igna Rodrigues, coordenador do Laboratório de Línguas Indígenas (Lali) e professor da Universidade de Brasília.

Num cenário em que ocorre a mistura de povos e o domínio linguístico de um sobre o outro, os primeiros afetados pela diferença cultural são os mais jovens. Obrigadas a estudar em escolas em que são minoritárias, as crianças acabam falando mais a língua dominante e, gradualmente, perdem o interesse pela língua de seus pais. "Essa falta de interesse decorre naturalmente do convívio com as pessoas dos grupos dominantes e da preferência dada pelos administradores à língua majoritária para todos os tipos de comunicação", explica Rodrigues.

Reprodução

Trecho da cartilha Bureko Watotire (Passagem das Estações), usada no ensino médio da língua tuyuka, do Alto do Rio Negro, no Amazonas, na fronteira com a Colômbia. A publicação registra os recursos econômicos e os rituais sociais de uma comunidade indígena de mil falantes, ameaçadas por uma língua regional (o tukano) e duas línguas nacionais (o português e o espanhol).

A globalização acelera a padronização linguística e a mortandade das línguas. O desenvolvimento da economia mundial induz ao domínio das línguas majoritárias sobre as minoritárias, imposto progressivamente nos sistemas de educação e comunicação. Mas as perdas impactam não só a comunidade falante como a humanidade como um todo. "Para o povo do qual se originou, o desaparecimento da língua representa o esquecimento da maior parte de seus conhecimentos e bens culturais, especialmente os imateriais, como o acervo de tradições e a memória histórica e mítica", ressalta Rodrigues. Desaparecem, também, modos alternativos de ver e de compreender o mundo. "Com o fim das línguas indígenas, por exemplo, perde-se a maneira de tratar equilibradamente o meio ambiente, de utilizar inteligentemente a flora e fauna regionais e também uma experiência acumulada e aperfeiçoada em séculos de vida no local", avalia o linguista.

O latim resistiu como língua do clero católico e das elites europeias até o século 19, mas hoje só é ensinado em seminários

Photononstop/AFP

Foi o papa Dâmaso I que encomendou a São Jerônimo a tradução da Bíblia para o latim, em Roma, no ano 404. Graças a essa versão o latim difundiu-se como língua franca na Europa católica durante mais de mil anos.

Como reverter a situação?

Para salvar uma língua é necessário promover ações que estimulem o aprendizado e valorizem o seu uso e a preservação. O estímulo passa pelo desenvolvimento de sistemas de escrita e pela produção de materiais específicos para a educação das crianças e dos jovens. "Também é importante promover a gravação e a transcrição de relatos tradicionais e de conversações para publicação, seja como material didático, seja como literatura, com o objetivo de cultivar o hábito de leitura. Isso pode servir de reforço à autoestima dos falantes da língua minoritária", afirma Rodrigues.

Beto Ricardo/ISA

Aluno da Escola Indígena Baniwa Coripaco, no Rio Içana, Alto Rio Negro, no Amazonas.

O especialista avalia que as línguas minoritárias (não só as indígenas, mas também as alienígenas, originadas fora do país) são pouco desenvolvidas e estudadas nas universidades. No entanto, há programas especiais que estimulam a preservação linguística. A organização não governamental Comissão Pró-Índio do Acre, por exemplo, desenvolve programas voltados para a preservação do território, da cultura e das tradições indígenas do Estado.

Além disso, o projeto do Inventário Nacional da Diversidade Linguística, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional do Ministério da Cultura, recentemente aprovado pelo governo federal, vai promover o levantamento da diversidade linguística do país. "O projeto abre boas perspectivas não só para a identificação da situação em que se encontram essas línguas, mas também para o desenvolvimento de outros projetos de análise, de descrição, de documentação e de elaboração de programas de ensino, assim como dos correspondentes materiais didáticos para as respectivas comunidades", avalia Rodrigues.

Para salvar uma língua é preciso produzir materiais de ensino específicos para o aprendizado de falantes crianças e jovens

Tecnologia a favor

No ano passado, cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachussetts (MIT) e da Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos, abriram novas perspectivas para a preservação das línguas. Eles desenvolveram um programa de computador com um modelo estatístico que decifrou o ugarítico, uma língua semítica, extinta, datada de 1500 a.C., decifrada por estudiosos em 1932. A língua foi usada para medir o grau de exatidão das respostas geradas pelo computador.

Para desenvolver o modelo, os cientistas se inspiraram em técnicas de tradução que simulam a intuição humana, imprescindível para se decifrar uma língua morta. O cientista da informação Benjamin Snyder, orientador da pesquisa, assumiu que a língua a ser decifrada teria parentesco com uma existente hoje – no caso do ugarítico, o hebraico. Assim, criou-se um modo sistemático de mapear e associar um alfabeto ao outro, levando em conta a frequência de prefixos e sufixos. Também foram exploradas as associações de cognatos, as palavras que apresentam origens comuns, como aire (espanhol), air (francês), air (inglês) e aria (italiano).

"Uma das dificuldades foi conseguir uma cópia eletrônica dos textos ugaríticos. Depois, pesquisamos os cognatos hebraicos relacionados à língua, disponíveis em materiais de referência. Tivemos de fazer isso para testar as predições do modelo", explica Snyder. O grande desafio foi desenvolver um sistema de simulações de intuição humana para conseguir respostas em um espaço de tempo razoável.

"Nosso método mapeou corretamente 29 das 30 letras do ugarítico e traduziu com sucesso 60,4% de todos os cognatos", escreveram os pesquisadores no artigo A Statistical Model for Lost Language Decipherment. É bom lembrar que o intuito da ferramenta é ajudar os decifradores humanos, e não substituí-los.

Reprodução

Tábua de argila com escritura cuneiforme do alfabeto ugarítico, gravada em Ugarit, na Síria, no século 13 a.C. É a segunda escrita mais antiga do mundo, depois do alfabeto cananita, da Palestina.

Snyder afirma que, na sua configuração atual, o modelo deve funcionar para línguas em que é recorrente o uso de sufixos e prefixos. As de maior complexidade ainda são um desafio. "Para começar, peguei um caso mais ‘simples’ para provar que modelos computacionais podem ser úteis para o ato de decifrar", explica. Apesar de ter interrompido temporariamente o trabalho, o pesquisador pretende analisar escritos em harappan (língua filipina), etrusco (língua italiana pré-latina) e rongorongo (língua de hieroglifos da Ilha da Páscoa).

O pesquisador do MIT destaca que nos próximos anos a tecnologia desempenhará um papel importante na preservação linguística e no resgate de culturas, uma vez que inúmeras línguas estão desaparecendo em ritmo acelerado. "É essencial que haja esforço para documentar as línguas em risco de extinção. Acredito que a tecnologia de informação será crucial no desenvolvimento de ferramentas para coletar dados e fazer triagem dos fenômenos linguísticos. Os modelos computacionais serão nossos aliados para priorizar dados."

Fonte: http://www.terra.com.br/

A política externa brasileira

Meu último artigo, onde fiz algumas considerações sobre a relação do nosso país com o FMI, procurou esclarecer alguns equívocos difundidos pelo governo e pela mídia dominante. Dentro dessa mesma linha, quero agora abordar alguns aspectos do que se denomina de política externa, e seu suposto caráter progressista, a partir de mudanças operadas no curso do governo Lula.

Paulo Passarinho

Paulo Passarinho

Primeiramente, é necessário destacar que a política externa de um país faz parte de um conjunto de políticas, que definem a natureza de um governo, e onde, politicamente, elas guardam entre si um grau de coerência que procuram conferir um mínimo de consistência entre os objetivos e meios que caracterizam uma determinada estratégia governamental.

Desse modo, e agora falando claramente do caso brasileiro, nossos diferentes governos pós-Plano Real têm procurado desenvolver iniciativas que buscam viabilizar a estabilidade macroeconômica do país, a partir de políticas de abertura financeira e produtiva, com concessões importantes ao capital estrangeiro e a grupos financeiros nacionais. Se aposta que a eficiência dos mercados na alocação de recursos, e contando-se de sobremaneira com a chamada poupança externa, possa nos conferir crescimento econômico com distribuição de rendas.

O governo Lula, ao ser mais incisivo nas políticas de reajuste real do salário-mínimo e no volume de recursos destinados aos programas de transferência de renda, procurou capitalizar um viés progressista para a sua estratégia, como se esta fora diferente daquela adotada a partir de 1995, no Brasil.

Mas, foi nessa área da política externa que houve a tentativa de se apresentar mudanças mais significativas, inclusive reforçadas por análises – tanto à esquerda, quanto á direita – que corroboraram com a idéia de que estávamos a praticar uma política externa não somente à esquerda, mas especialmente soberana.

Análises de notórios acadêmicos lulistas, de orientação marxista, bem como políticos de oposição de esquerda, também ajudaram a forjar a idéia de que "a política do Itamaraty" seria o ponto alto da administração do governo que se iniciou a partir de 2003.

Cabe lembrar, particularmente aos que se reivindicam como de esquerda, ou marxistas, que desvincular a estratégia diplomática da essência do modelo econômico em curso é um exercício de contorcionismo pouco recomendável: se a macroeconomia é a dos bancos e transnacionais – o que parece ser um consenso -, como poderíamos praticar uma política externa que apontaria em para outra direção?

A política externa de Lula procurou se pautar em torno de dois objetivos: a conquista de um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU – objetivo herdado do governo FHC – e a abertura e ampliação de novos mercados internacionais para as exportações brasileiras, também preocupação do governo tucano.

A conquista de uma vaga permanente no Conselho da ONU tem ensejado uma série de concessões do Brasil às pressões e exigências dos países imperialistas, tendo a frente os Estados Unidos. O principal exemplo disso, podemos lembrar, foi o envio de tropas brasileiras ao Haiti, em 2004, com o papel de comandar as tropas da ONU, após a deposição do presidente Jean-Bertrand Aristide, ocorrida de acordo com interesses dos Estados Unidos e da França.

Cabe a pergunta: onde se encontra a natureza soberana ou pretensamente progressista de um alinhamento desse tipo?

Outro exemplo gritante do paradoxo entre o discurso, a propaganda, e a realidade pode ser encontrado nas tratativas em que o governo brasileiro, junto com o governo da Turquia, se envolveu com o Irã, na busca de uma solução para os problemas desse país e seu programa nuclear. A ação dos governos da Turquia e do Brasil se deu em total sintonia com estratégia desenvolvida pelo governo Obama. E a iniciativa desses dois países obedeceu à solicitação explícita da Casa Branca, conforme carta enviada pelo presidente estadunidense aos presidentes dos dois países.

Apostando na recusa do governo de Teerã aos termos desse acordo, o objetivo dos Estados Unidos seria mostrar ao mundo a intransigência iraniana e viabilizar a aprovação de novas medidas retaliatórias àquele país. Contudo, na medida em que o Irã aceitou as propostas apresentadas, os Estados Unidos e seus aliados imperialistas foram obrigados a rechaçar os termos do acordo.

Onde estaria o progressismo da posição brasileira, que sequer teve uma clara disposição de denunciar a manobra – e traição – dos Estados Unidos? Cópia traduzida da carta de Obama, e a sua versão original, dirigida ao presidente brasileiro e ao primeiro –ministro turco, se encontra em anexo a esse artigo.

Esse episódio ainda contou, para a sua mistificação, com a ajuda da direita. A mídia dominante do país criticou duramente Lula por essa iniciativa, bem como as raposas felpudas do Itamaraty, viúvas de FHC, não cansaram – e não se cansam – de fazer críticas negativas à posição brasileira, reforçando a falsa idéia de uma suposta posição independente, ou soberana, brasileira.

Porém, é no campo da política diplomática – terreno da retórica e das articulações políticas – que a conservadora estratégia do governo brasileiro na era Lula mais confunde, sem desprezar o papel que a esquerda, tonta ou oportunista, e a direita sem rumo prestam às equivocadas avaliações que tentam provar que a política externa adotada a partir de 2003 é avançada.

A confusão nasceu a partir de seus dois principais protagonistas, no Itamaraty. Celso Amorim e Samuel Pinheiro Guimarães fazem parte, de fato, do que um dia se chamou de ala nacionalista do ministério das Relações Exteriores. Particularmente, o embaixador Samuel tem relevantes contribuições reflexivas sobre a importância de o Brasil construir uma estratégia de desenvolvimento própria – reduzindo paulatinamente a influência negativa das injunções externas, na determinação de nosso destino como nação.

Entretanto, não se pode confundir a independência intelectual desses diplomatas, com os limites existentes à ação de cada um deles dentro de um governo.

Levando-se em conta que o sucesso do governo Lula foi negar o conflito inerente à sua vitória eleitoral, dada a sua posição política defendida até então, convertendo-se ao credo dominante e arrastando consigo o PT e demais partidos de esquerda, e dando sobrevida ao modelo dos bancos e transnacionais, com seria esse processo absorvido por nossa política externa?

A resposta a essa pergunta foi a incorporação, à política externa conservadora, de uma diplomacia aparentemente de esquerda. Passou-se a se utilizar de uma retórica progressista, para melhor viabilizar uma política externa estritamente vinculada aos interesses de construtoras, mineradoras, siderúrgicas e multinacionais de comercialização de alimentos. O objetivo era claro: ampliar nossas exportações – especialmente de produtos agro-minerais – para os quatro cantos do mundo, como forma de se criar saldos comerciais crescentes, elemento vital para a manutenção do modelo econômico em curso.

A própria posição brasileira em fóruns da OMC, como o que aconteceu em Cancun ou em Genebra, deixou claro que o governo brasileiro – conforme ocorre desde os tempos de FHC – procura articulações políticas pelo hemisfério sul, com o objetivo de forçar os países mais ricos a abrirem as suas fronteiras comerciais aos países produtores agrícolas. Para tanto, e esse é o problema mais grave, admite concessões – em termos de aberturas do nosso mercado doméstico, nas áreas industrial, de serviços e de compras governamentais – que não condizem com os interesses de outros países da periferia. Foi por essa razão, que o Brasil se isolou, em sua frágil posição, em relação a países como a Índia, Indonésia, Malásia ou a vizinha Argentina, dentre outros.

Com relação à Argentina, a posição brasileira de subalternidade aos países mais ricos ficou clara, durante o processo da renegociação soberana da dívida externa daquele país, junto aos seus credores. O governo brasileiro não somente não apoiou o nosso vizinho na bem conduzida negociação, como procurou dificultar os objetivos do governo de Nestor Kirchner.

É dentro desse complexo quadro, portanto, que se deve entender a aparente posição avançada da diplomacia brasileira, em vários momentos importantes, como foram os casos da tentativa de golpe contra Hugo Chávez; na solidariedade aos governos da Bolívia ou do Paraguai, em torno de suas respectivas bandeiras nacionalistas; ou mesmo na denúncia do ataque e ocupação do Iraque pelos Estados Unidos.

O que não se pode confundir é o objetivo maior da política externa, de viés diplomático aparentemente progressista: a afirmação e consolidação do modelo econômico – antinacional e antipopular – dos bancos e transnacionais.

Paulo Passarinho é economista

Fonte: http://socialismo.org.br/

Poder paralelo dificulta avanço de concessões florestais

Deficiência do Estado e corrupção ajudam madeireiros a desmatar acima do limite legal

Marcelo Pellegrini

Alianças políticas e corrupção nos órgãos públicos facilitam a exploração predatória da Amazônia brasileira e impedem a implantação do modelo de concessão florestal, que pode ser uma forma mais sustentável de explorar as florestas públicas. Essas conclusões são do estudo desenvolvido por Isabel Garcia Drigo, em parceria com o Instituto AgroParisTech da França, que avaliou as barreiras para a implantação de concessões florestais na América do Sul, utilizando o Brasil e a Bolívia como casos de estudo. A tese As barreiras para a implantação de concessões florestais na América do Sul: os casos de Bolívia e Brasil foi orientada pelo professor Ricardo Abramovay, do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental (Procam), e também pelos professores Alain Karsenty, socioeconomista francês, e Marie-Gabrielle Piketty, economista. O trabalho levou quatro anos para ser finalizado.

O estudo de Isabel, que é pesquisadora e auditora do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), revela que alianças políticas na amazônia brasileira e boliviana facilitam as explorações ilegais ou predatórias dos recursos da floresta. “A obtenção de licenças de exploração duvidosas e a falta de controle, por meio da corrupção nos órgãos públicos, é um sistema paralelo que sempre existiu e ainda não sofreu grandes. Além do mais, concorre com o sistema de concessões”, afirma Isabel.

Concessão Florestal

O modelo de concessão florestal, assim como a maioria das concessões públicas, consiste no governo ceder o patrimônio público florestal, por meio de um contrato com regras pré-determinadas, para que empresas privadas explorem produtos madeireiros e não-madeireiros da floresta.

Estas concessões de florestas públicas para a iniciativa privada é a forma dominante de gestão de recursos florestais na Ásia e África Ocidental e Central, contudo pouco usada no Brasil. Os dois projetos de lei que tentaram instituir o modelo de concessões em florestas públicas foram considerados ameaças à soberania nacional. “Na época temia-se que as concessionárias iriam se apossar e acabar com as florestas”, diz Isabel. No entanto, em 2006, foi aprovada a lei 11.284 que estabelece as condições para a implantação deste modelo em florestas públicas.

Esta lei estipula regras, investimentos e direitos de exploração específicos para as empresas ou comunidades que queiram explorar uma determinada área dentro de uma floresta pública. “As empresas ou comunidades que recebem o direito de explorar determinada área florestal pagam um valor anual para o Serviço Florestal Brasileiro, órgão responsável pela gestão das concessões. Esta quantia varia de acordo com a quantidade e o produto ou tipo de espécie que será explorado”, relata a pesquisadora. Ao mesmo tempo, as empresas concessionárias devem utilizar técnicas de impacto reduzido e investir em monitoramentos da fauna e da flora.

Antes de dar início ao processo de concessão, é realizado um estudo para saber se o espaço pode ser realmente concedido, qual o seu potencial produtivo e a que setor social (empresas, comunidades) a área deve ser destinada.

Código Florestal

De acordo com o atual Código Florestal Brasileiro ainda vigente, o proprietário de terra no bioma Amazônia pode utilizar apenas 20% da área para outros usos que não o florestal, como pecuária e agricultura. Os demais 80% devem permanecer com cobertura florestal e sua utilização é regulada pelo governo. Contudo, muitos proprietários contam com as deficiências do Estado — como falta de estrutura suficiente para fiscalização e corrupção — para desmatar além da cota permitida. “Alguns obtém licenças de exploração florestal sem ter os documentos válidos ou mediante apresentação de documentos duvidosos”, relata.

Quem se beneficia deste estado de “ilegalidade/legalidade” predatória são madeireiros com uma visão de curto prazo, segundo Isabel. Aliando-se a latifundiários, grileiros e, em muitos casos, a assentados da reforma agrária em péssimas condições de vida, os madeireiros conseguem ter acesso ao recurso florestal de forma barata e sem controle externo.

O estudo também indica que as madeireiras, voltadas para o mercado externo, que buscam atuar na legalidade são as mais interessadas no modelo de concessões. “As concessões florestais em terra pública resolvem o problema da incerteza sobre a propriedade e sinalizam aos empresários um horizonte seguro para investir”, explica Isabel.

A tese conclui que as concessões florestais no Brasil, provavelmente, continuarão a ter dificuldades para crescer caso o equilíbrio de forças na Amazônia brasileira não se alterar. “Primeiro é preciso a presença física do Estado, por intermédio de seus funcionários por toda a Amazônia e não somente nas capitais. Em segundo lugar, é preciso eleger melhores governantes locais que não trabalhem para facilitar a ilegalidade/legalidade predatória”, afirma a pesquisadora.

Enquanto a madeira ilegal levar vantagem econômica em relação a madeira legal e sustentável, o modelo de concessões não será atrativo para os médios e pequenos empresários que vendem somente para o mercado interno, conclui.

Marcelo Pellegrini – marcelo.pellegrini.filho@usp.br

Fonte: http://www.usp.br/

Uma boa noite de sono não é um luxo; é uma necessidade

Nos meus anos de juventude, eu via o sono como um mal necessário, como uma forma de a natureza sabotar o meu desejo de encaixar o máximo de atividades possível num dia de 24 horas.

Jane E. Brody

Eu costumava pegar o voo noturno da Califórnia, por exemplo, e passava o dia seguinte tranquilamente (ou pelo menos eu achava) com menos de quatro horas desconfortáveis de sono.

Mas minha negligência estava me cobrando um preço que eu não estava gostando muito. Meu marido chamava nossas noites no balé e no teatro de “as sonecas mais caras da Jane”. Eventualmente, desistimos de comprar ingressos. Dirigir também era perigoso: eu caí no sono duas vezes enquanto estava no volante, e por pouco não sofri um acidente. Hoje eu percebo que vivia num estado crônico de falta de sono.

Não quero mais cochilar nos eventos culturais, e não tenho mais meu marido para me acordar enquanto dirijo. Também não quero comprometer minha capacidade de pensar e reagir. Conforme revelou uma pesquisa citada recentemente na The New York Times Magazine: “as pessoas com falta de sono não sabem julgar bem nossa necessidade de sono. Nós não somos tão perspicazes quanto achamos que somos.”

Estudos mostraram que as pessoas funcionam melhor depois de sete a oito horas de sono, então meu objetivo agora é dormir sete horas ininterruptas, a quantidade associada com a menor taxa de mortalidade. Mas na maioria das noites, alguma coisa interfere, e me mantém acordada além do horário que eu estipulei para apagar às luzes, às 22h – uma tarefa doméstica importante, um e-mail que exige uma resposta urgente e elaborada, uma carta de condolências que eu não encontrei tempo para escrever durante o dia, um longo artigo que preciso ler.

Sempre há alguma coisa.

O que nós mantém acordados?

Eu sei que dificilmente sou a única. Entre 1960 e 2010, a noite de sono média dos adultos nos Estados Unidos caiu de mais de oito horas para seis horas e meia. Alguns especialistas preveem que essa redução continue, por conta de distrações como e-mails, mensagens de texto e mensagens instantâneas, e das compras online.

A idade pode ter um efeito prejudicial sobre o sono. Numa pesquisa por telefone realizada em 2005 com 1.003 adultos de 50 anos ou mais, a Organização Gallup descobriu que apenas um terço dos adultos mais velhos tinham uma boa noite de sono todos os dias, menos da metade dormia mais de sete horas e um quinto dormia menos de cinco horas por noite.

Com o avanço da idade, ocorrem mudanças naturais na qualidade do sono. As pessoas podem levar mais tempo para dormir, e tendem a ficar sonolentas mais cedo e também a acordar mais cedo. Elas passam mais tempo nos estágios mais leves do sono e menos tempo num sono restaurador profundo. O sono REM, durante o qual a mente processa emoções e memórias e alivia o estresse, também diminui com a idade.

Os hábitos que arruínam o sono normalmente acompanham o envelhecimento: menos atividade física, menos horas ao ar livre (a luz do sol é o principal regulador do sono e da vigília), menor atenção à dieta, tomar medicamentos que podem prejudicar o sono, cuidar de um parceiro com doença crônica, ter um parceiro que ronca. Algumas pessoas usam álcool na esperança de que ele induza ao sono; na verdade, ele o perturba.

Acrescente a esta lista uma série de problemas de saúde que tiram o sono, como a artrite dolorosa, diabetes, depressão, ansiedade, apneia do sono, ondas de calor nas mulheres e aumento da próstata nos homens. Nos últimos anos de vida, meu marido sofreu da síndrome das pernas inquietas, que o obrigava a levantar e andar no meio da noite até que os sintomas desaparecessem. Numa noite recente, eu fiquei acordada durante horas com cãibras na perna que simplesmente não iam embora.

Sono de beleza e mais

Uma boa noite de sono é bem mais do que um luxo. Seus benefícios incluem melhorias na concentração, memória de curto prazo, produtividade, humor, sensibilidade à dor e na função imunológica.

Se você se preocupa com a aparência, uma quantidade maior de sono pode até torná-lo mais atraente. Num estudo publicado na internet em dezembro pela revista BMJ, pesquisadores da Suécia e Holanda reportaram que 23 adultos com falta de sono pareciam estar, aos olhos de observadores não treinados, menos saudáveis, mais cansados e menos atraentes do que pareceram depois de uma noite inteira de sono.

Talvez mais importante que isso, perder sono pode fazê-lo engordar – ou, pelo menos, deixá-lo mais gordo do que você seria se dormisse bem. Num estudo de pesquisadores de Harvard envolvendo 68 mil mulheres de meia idade acompanhadas por 16 anos, aquelas que dormiam cinco horas ou menos por noite pesavam 2,5 quilos a mais – e tinham 15% mais chances de se tornarem obesas – do que as mulheres que dormiam sete horas todas as noites.

Michael Breus, psicólogo clínico e especialista do sono em Scottsdale, Arizona, e autor de “O Plano de Dieta do Médico do Sono”, aponta que à medida que a duração média do sono diminuiu nos Estados Unidos, o peso médio dos norte-americanos aumentou.

Há motivos plausíveis para pensar que esta é uma relação de causa e efeito. Pelo menos dois fatores podem estar envolvidos: mais horas acordados em casas cheias de comida e lanches; e possíveis mudanças nos hormônios lepitina e grelina, que regulam o apetite.

Num estudo publicado em 2009 pelo The American Journal of Clinical Nutrition, o Dr. Plamen D. Penev, endocrinologista da Universidade de Chicago, e coautores exploraram o consumo e os gastos de calorias de 11 voluntários saudáveis que passaram períodos de 14 dias num laboratório de sono. Todas as estadias ofereceram acesso ilimitado a salgados apetitosos. Durante uma estadia, os voluntários – cinco mulheres e seis homens – ficaram limitados a 5,5 horas de sono por noite, e durante as outras, tiveram 8,5 horas de sono.

Embora os indivíduos tenham comido a mesma quantidade de alimentos durante as refeições, nas noites mais curtas, eles consumiram uma média de 221 calorias a mais em lanches do que consumiram quando tiveram mais horas de sono. Os lanches que comiam tinham alto teor de carboidratos, e os indivíduos não gastaram mais energia do que nas noites mais longas. Em apenas duas semanas, o lanche extra à noite podia acrescentar quase 450 gramas ao peso do corpo, concluíram os cientistas.

Esses pesquisadores não encontraram mudanças significativas nos níveis dos hormônios lepitina e grelina no sangue dos participantes, mas outros descobriram que as pessoas que dormiam menos tinham níveis mais baixos de lepitina, que suprime o apetite, e níveis mais altos de grelina, que estimula o aumento do consumo de calorias.

A falta de sono também pode afetar o funcionamento de um grupo de neurônios no hipotálamo do cérebro, onde outro hormônio, a orexina, está envolvido na regulação do comportamento alimentar.

Resumindo: resista à tentação de fazer mais uma tarefa no fim do dia. Se os problemas de saúde prejudicam seu sono, busque um tratamento que possa minimizar esse efeito. Se você tem dificuldade de dormir ou costuma acordar durante a noite e não consegue voltar para a cama, você pode tentar tomar suplementos de melatonina, o indutor natural do sono no corpo. Eu o deixo ao lado da minha cama.

E se tudo mais falhar, tente tirar um cochilo durante o dia. Os cochilos podem melhorar o funcionamento do cérebro, a energia, o humor e a produtividade.

Tradução: Eloise De Vylder

Fonte: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/

Emissões recorde de CO2 em 2010 agravam o risco climático

As emissões de gás carbônico culminaram em 30,6 gigatoneladas (Gt) 2010, crescimento de 5% em relação a 2008

Grégoire Allix

As emissões de gás carbônico culminaram em 30,6 gigatoneladas (Gt) 2010, crescimento de 5% em relação a 2008

A retomada econômica vem aumentando as emissões de gases de efeito estufa, ao passo que as negociações internacionais permanecem estagnadas

Se a crise financeira mundial pode ter levado a crer que seria feito um progresso na frente do clima, a retomada da atividade econômica se encarregou de dissipar essa ilusão. As emissões de CO2 associadas à combustão de energias fósseis atingiram um nível recorde em 2010, segundo estimativas da Agência Internacional de Energia (AIE) publicadas na segunda-feira (30).

As emissões de gás carbônico culminaram em 30,6 gigatoneladas (Gt) em 2010, um crescimento de 5% em relação a 2008, ano do recorde anterior que totalizava 29,3 Gt. “Esperávamos por uma recuperação, mas não tão forte”, comenta o economista-chefe da AIE, Fatih Birol.

Essas informações “constituem um sério revés para nossas esperanças de limitar a 2 graus Celsius o aumento da temperatura no mundo”, acredita Birol. Segundo a agência, as emissões de CO2 do setor da energia não devem ultrapassar 32 Gt em 2020 para respeitar o limite dos 2 graus Celsius adotado pela comunidade internacional. Para respeitar esse teto, será necessário que as emissões de CO2 aumentem menos no decorrer dos dez próximos anos do que aumentaram em somente um ano, entre 2009 e 2010. Algo impossível.

“As emissões de CO2 nunca aumentaram tão depressa: 3% por ano em média, em dez anos, três vezes mais do que durante a década anterior”, observa o glaciologista e climatologista Jean Jouzel, membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês). “Estamos no caminho das piores perspectivas do IPCC”, ressalta o cientista.

Em outras palavras: se a tendência não for revertida, o planeta sofrerá um aquecimento médio de 4 graus Celsius, e bem mais em alguns lugares. “Para evitar isso, será preciso que o nível das emissões comece a baixar em 2015, e depois caia muito rapidamente a partir de 2020”, lembra Jouzel. “Estamos longe disso: não há nem mesmo uma estabilização.”

A diminuição será ainda mais difícil de conseguir pelo fato de que 80% das emissões de gás carbônico do setor elétrico projetadas para 2020 já são irreversíveis, vindas de usinas em atividade ou em construção, adverte a AIE. “A revisão da energia nuclear em muitos países corre o risco de resultar em mais emissões associadas ao gás e ao carvão”, diz Birol. “As margens de manobra são muito estreitas até 2020, precisamos com toda urgência de uma grande mudança política.”

Uma rodada de negociações internacionais sobre o clima deve se realizar em Bonn, de 6 a 17 de junho, última etapa antes da conferência de Durban, na África do Sul, em novembro. Será que esses números soarão como um “alerta”, como deseja o economista da AIE, mas também a secretária da ONU para o Clima, Christiana Figueres?

Isso é incerto. Ninguém mais espera ver um acordo internacional sendo assinado em Durban. E, durante a reunião do G8 em Deauville, nos dias 26 e 27 de maio, cujo comunicado final garantiu que “a luta contra as mudanças climáticas é uma prioridade mundial”, os Estados Unidos, a Rússia, o Japão e o Canadá repetiram nos bastidores sua recusa em se comprometer com uma possível segunda fase do Protocolo de Kyoto, depois de 2012.

“A publicação da AIE vai modificar o clima da negociação”, quer acreditar o embaixador da França encarregado do clima, Serge Lepeltier. “Ela reforça a convicção de que o Protocolo de Kyoto é uma etapa indispensável na direção de um acordo global, e mostra aos países emergentes que eles devem aceitar assumir compromissos mais voluntaristas”.

Embora suas emissões de CO2 por habitante continuem sendo modestas, os países em desenvolvimento, liderados pela China e pela Índia, são responsáveis por 75% do aumento das emissões em 2010, segundo a AIE. “Os países ricos transferiram suas emissões para os países em desenvolvimento, sendo que suas próprias emissões quase não diminuíram desde os anos 1990”, protesta Sébastien Blavier, da federação de ONGs ambientalistas Réseau Action Climat (RAC).

Os números, no entanto, poderiam fornecer argumentos àqueles que acreditam (entre eles os EUA e o Japão) que um acordo juridicamente restritivo só teria sentido se incluísse os grandes emergentes, quando estes exigem dos países desenvolvidos que eles deem o primeiro passo, por sua “responsabilidade histórica”.

Resta uma certeza, compartilhada por todos: a soma dos compromissos assumidos equivale a somente 60% do esforço que a ciência acredita ser necessário para manter o aquecimento global abaixo do limite de 2 graus Celsius. Portanto, o RAC está fazendo um apelo para que a Europa lidere o caminho, elevando seu compromisso de redução das emissões até 2020 de 20% para 30%. A questão deve ser abordada durante um conselho dos ministros do Meio Ambiente, no dia 21 de junho.

Tradução: Lana Lim

Fonte: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/lemonde/

Tudo o que você queria saber sobre pré-sal

A SUPER explica tudo sobre um dos assuntos mais comentados da atualidade

Willian Vieira e Maurício Horta

De onde vem o pré-sal?

Há 130 milhões de anos a América do Sul e a África começavam a se separar fisicamente. E, na rachadura entre os dois continentes, um caldo de matéria orgânica foi se acumulando. Enterrado então por uma imensa camada de sal e por sedimentos, esse cemitério de plâncton cretáceo se tornaria o novo passe para o "país do futuro".

Esse óleo é bom?

O petróleo do pré-sal não é dos melhores, mas ainda assim é bem superior ao do pós-sal. Hoje, 70% dele é do tipo "pesado". Ou seja, tem enormes cadeias de carbono em sua composição. Para virar produtos de alto valor, como diesel, gasolina e lubrificantes, essas moléculas precisam ser quebradas em outras menores. Mas, como isso encarece muito o refino, ele acaba valendo bem menos. Já o pré-sal tem petróleo de densidade média – mais fácil de refinar, e mais valioso. Essa diferença de qualidade acontece por causa das temperaturas nas profundezas do pré-sal. O calor de 150 ºC não permitiu proliferar as bactérias que no pós-sal comeram as frações mais leves do óleo.

1. RACHA TECTÔNICO

Há 600 milhões de ano, o mundo era dividido em dois supercontinentes: a Laurásia e Gondwana. Mas os movimentos de placas tectônicas começaram a separá-los. Gondwana perdeu a Austrália, a Índia, a Arábia… e, há 130 milhões de anos, foi a vez de uma fenda separar a África da América do Sul.

2. LAGO DANTESCO

As regiões onde se formariam as bacias de Campos e de Santos foram varridas por terremotos, cheias de rios, desmoronamentos e tempestades. A cada catástrofe, enormes fluxos de sedimentos se depositaram no fundo da fenda. Assim se criou um lago estreito de água salobra de 800 km de comprimento.

3. ENSOPADO ORGÂNICO

Esse lago virou um enorme pântano rico em plâncton – organismos como bactérias e crustáceos microscópicos. Conforme essa matéria orgânica se depositava, ela se misturava a finas partículas de argila, areia, calcário e conchas. Formou-se então a rocha porosa em que o petróleo está armazenado.

4. O SAL DO PRÉ

Mas a atividade tectônica não parou por aí. Com o afastamento dos continentes, as águas do oceano passaram a invadir o lago, formando um mar longo e estreito. Assim que a água salgada evaporava, acumulava uma camada de sal no leito do mar. Com o tempo, o sal atingiu 2 mil m de profundidade.

5. HABEMUS OLEUM!

O mar continuou se alargando e formou o Atlântico Sul. Com o calor e sob a pressão da água, do leito oceânico, do sal e de rochas, a matéria orgânica virou petróleo nos últimos 20 milhões de anos.

Quais os desafios para extraí-lo?

ILHAS FLUTUANTES

As plataformas serão como navios ancorados a 3 km do leito do mar. Cada uma terá até 200 funcionários, que virão em super-helicópteros capazes de vencer distâncias para aviões: 300 km em 80 minutos.

FURA, FURA, FURA

Ainda não se sabe como as sondas vão vencer 2 km de sedimentos e 2 km de sal, que se comporta como uma massa plástica e impermeável teimosa.

DUTOS PODEROSOS

Para escoar o óleo, será necessário desenvolver dutos que aguentem pressões de 400 atmosferas, gases corrosivos, altas temperaturas e grandes trações (a plataforma fica balançando). E a um custo baixo.

ANTICHOQUE TÉRMICO

O óleo sai de 150 ºC lá de baixo do sal e chega a 4 ºC na lâmina d’água – e nesse resfriamento ele pode coagular e entupir os dutos. Falta ainda achar uma solução química para impedir essa formação de cristais.

GÁS, O PRESENTE MALDITO

Junto com o petróleo vem de brinde o gás natural. Maravilha? Não. Para transportar o gás, é necessário um caro gasoduto oceânico de 300 km ou liquefazê-lo na plataforma – processo que desperdiça energia.

Qual o tamanho da coisa?

Ninguém sabe. Mas as estimativas da Agência Nacional do Petróleo é de que, com o pré-sal, o Brasil tenha 50 bilhões de barris de petróleo, só nas áreas prospectadas. E, se depender de anúncios mirabolantes do Ministério de Minas e Energia, esse número pode atingir 150 bilhões de barris. Se for verdade, o Brasil ultrapassará o Irã como a 3ª maior reserva do mundo.

Na fileira da frente

Empresas com maior valor de mercado do mundo, em US$ bilhões.

Reservas brasileiras estimadas

Quanto mais explora, mais encontra (em bilhões de barris de petróleo).

QUEM VAI PAGAR A CONTA?

Os acionistas da Petrobras – incluindo o maior deles, o governo brasileiro. A Petrobras vinha emprestando grana para fazer seus imensos investimentos. Só que a dívida bateu em 34% de todo seu patrimônio. Com a corda no pescoço, não podia mais emprestar – o que ameaçou seus planos de investir mais US$ 224 bilhões até 2014. Só sobrava uma opção: criar novas ações e ver se investidores se interessariam. Deu certo. No dia 30 de setembro, a Petrobras ficou um Iraque inteiro mais rica e pulou de 21ª para 4ª maior empresa do mundo. Foi a capitalização da Petrobras – a maior da história.

Mas aí há um probleminha. Quando uma empresa emite ações, os papéis que os acionistas possuíam passam a representar uma porcentagem menor do novo total. E tudo o que o governo não queria é perder espaço na mais estratégica empresa do país. Ele foi então às compras. Sem poder tirar dinheiro da cartola, ele usou outra moeda: petróleo do pré-sal. Cedeu à Petrobras 5 bilhões de barris ainda debaixo da terra, e, em troca, aumentou sua participação de 40 para 48% das ações. Por seu lado, a Petrobras pagou US$ 8,51 por barril. Quando a empresa extraí-lo, vai valer mais – hoje, passa de US$ 80. Mesmo assim, isso custou à estatal R$ 74,88 bilhões, grana em parte emprestada do BNDES, por sua vez vinda da emissão de títulos do Tesouro. Ou seja, o governo pagou parte da conta.

E os tais royalties?

Se você encontrou petróleo ao fazer um buraco no quintal, não, não ficou rico. O que jorrar é da União. Para ter direito de explorá-lo, vale a mesma regra de gravar a música de outra pessoa: tem que pagar royalties. Hoje, 30% dos royalties vão para a União, 26,25% para estados produtores, 26,25% para municípios produtores, 8,75% para municípios atingidos pelo transporte do petróleo e 8,75% para demais estados e municípios. O argumento para essa divisão é que os royalties servem para compensar estados e municípios produtores com o que gastarem em infraestrutura, e compensar possíveis danos ambientais. Mas quem não mama chora: deputados de estados não produtores propuseram distribuir os royalties para todos – o que tiraria R$ 8 bilhões do Rio. Isso, claro, engatilhou uma guerra entre estados. O Congresso já aprovou a mudança, mas até o fechamento desta edição o então presidente Lula disse que a vetaria.

Como vão partilhar o tesouro?

DO VALE-TUDO…

Nos campos do pós-sal, a empresa que achar petróleo decide o que fazer com ele.

1. Em 1997, FHC acabou com o monopólio da Petrobras; pode explorar óleo a empresa que comprar uma concessão.

2. Esse sistema parece uma mamata, mas não é bem assim: no pós-sal, o risco de investir horrores em prospecção e não achar nada de petróleo é alto.

3. Quem assumir esse risco faz o que bem entender com o óleo que achar, desde que pague royalties ao governo.

…À MÃO DO ESTADO

Já no pré-sal o governo faz pesar o punho: controla a venda do óleo e favorece a Petrobras.

1. Como o risco de não ver óleo no pré-sal é baixo, o governo mudou a regra: licita um campo, que vai para quem oferecer mais lucro à União.

2. O contrato pode ser exclusivamente com a Petrobras. Se houver a participação de outras petroleiras, a estatal fica com a operação e uma participação de pelo menos 30% do consórcio.

3. Mesmo depois de extraído, o petróleo ainda pertence à União.

4. Depois de vender o óleo, a estatal Pré-Sal Petróleo divide a grana entre União e petroleiras.

O que vão fazer com a grana?

Soa estranho, mas o melhor é tirar o dinheiro do Brasil. A exportação de petróleo inundaria o país de dólares, o que explodiria o valor do real. Ficaria então mais barato comprar produtos importados que os daqui. Isso levaria a indústria nacional para a cucuia e aumentaria o desemprego. O pré-sal seria então gasto para remediar problemas sociais que ele mesmo criou. É a doença holandesa – maldição batizada assim quando a exportação de gás na Holanda minou sua economia nos anos 70. Para se livrar dessa, o Brasil vai criar o "Fundo Social". Veja como será.

Vacina antidoença holandesa

Um fundão vai evitar a invasão de moeda estrangeira.

1. A parte da receita do pré-sal que cabe à União vai para o Fundo Social – uma poupança pública de longo prazo. A ideia é que esse fundo deposite grana fora do Brasil, o que compensaria a entrada de dólar vindo do petróleo.

2. O Fundo Social vai investir em títulos de governos estrangeiros, que têm baixo risco, e em ações de empresas fora do setor petrolífero. Assim, o fundo servirá de "colchão" quando o petróleo estiver em baixa.

3. Enquanto essa "poupança" deve continuar guardadinha, o governo deve sacar apenas seus rendimentos. Com essa grana, promete investir em tecnologia, educação, saúde, ambiente e combate à pobreza.

Pode dar tudo errado?

Sim, mas é pouco provável. Para a maioria dos países, o petróleo foi uma maldição. Felizmente a balança no Brasil pende para o lado bom

O pré-sal te dá asas

Sempre que o Brasil cresce, vira voo de galinha: o baixo investimento cria "gargalos" na economia. Mas o pré-sal aumentará esse investimento, o que pode sustentar o crescimento. Compare a porcentagem de investimentos no PIB de outros Brics.

Somos de fato autossuficientes?

Ainda não. Embora o Brasil extraia mais petróleo do que consome, o cálculo engana. Como parte das refinarias brasileiras foi construída nos anos 70 para o petróleo leve importado do Oriente Médio, não conseguimos refinar todo o nosso óleo pesado. E aí o que fazemos é como exportar laranja e importar suco. Mas 5 novas refinarias vão dar conta do mercado interno – e externo.

Na Arábia Saudita, o petróleo financia uma monarquia autoritária. Na Nigéria, alimenta conflitos étnico-religiosos. Na Venezuela, domina a economia ao ponto de a PDVSA, a "Petrobras" deles, virar um Estado dentro do Estado, e outro setores econômicos acabarem aniquilados. Mas é pouco provável que isso aconteça no Brasil. O país já era uma democracia estabelecida quando achou as megarreservas; sua economia é sólida e diversificada: apenas 8% do PIB vem do petróleo, contra 80% na Venezuela. E o Fundo Social deve evitar a doença holandesa.

Mas há margem para receio. O peso do setor do petróleo na economia aumenta sem parar – de 2,8% em 1996 foi para 8,1% em 2004, e a Petrobras mais que dobrou de tamanho. Isso antes de o pré-sal ser encontrado. Com o Estado controlando grande parte do setor, "o maior risco é o país não ter instituições fortes que impeçam a apropriação errônea desses recursos por grupos de poder", diz Maurício Canêdo , da FGV.

Brasilzão

• Fundo Social (FS) evita que o real se valorize demais ao aplicar receita do petróleo no exterior.

• Investimento do FS em educação e tecnologia torna o Brasil polo de inovação e criatividade.

• Indústrias naval, petroquímica, siderúrgica e petroleira de nível global, pois não foram protegidas da competição estrangeira.

• Brasil vira a 5ª maior economia do mundo em 2025.

Brasilistão

• 11,52% do PIB se concentram nas mãos da Petrobras.

• Esses recursos são apropriados por grupos de poder.

• Política protecionista alimenta uma indústria ineficiente e sem competitividade.

• Terminados os investimentos da exploração do pré-sal, essa indústria desaparece.

• Brasil continua esperando ser o país do futuro.

O que o petróleo trouxe em outros países?

Bem-estar social – Noruega

Exportação de petróleo – 1°

IDH – 4°

Índice de democracia – 5°

Recebeu de fato um bilhete premiado ao descobrir petróleo nos anos 60. Ainda que o setor petrolífero represente um quarto do PIB, um fundo soberano imunizou o país contra a doença holandesa – ele serve de colchão em crises e só rendimentos são gastos. A indústria não foi protegida por reservas de mercado, e se manteve competitiva.

RIQUEZA – Emirados Árabes Unidos

Exportação de petróleo – 3°

IDH – 32°

Índice de democracia – 150°

A descoberta de jazidas em 1958 transformou esses emirados atrasados em um dos maiores centros financeiros mundiais. Um dos ingredientes é o fundo soberano de Abu Dabi: US$ 627 bilhões acumulados desde 1976. Com seus rendimentos, o governo diversifica a economia local para quando o óleo acabar.

POPULISMO – Venezuela

Exportação de petróleo – 10°

IDH – 75°

Índice de democracia – 93°

Antes de Hugo Chávez, o petróleo concentrava renda. Depois, dele, concentrou poder no Estado. Com os lucros da estatal PDVSA, que detém 80% do PIB, Chávez financia o "socialismo do século 21": projetos sociais populistas, nacionalização da economia, expropriação de negócios e mudança na Constituição para se reeleger eternamente.

DITADURA – Arábia Saudita

Exportação de petróleo – 1°

IDH – 55°

Índice de democracia – 159°

A dona de um quarto do petróleo do mundo é uma monarquia conservadora que proíbe partidos políticos, torra 10% do PIB em gastos militares e financia extremistas islâmicos. O petróleo é responsável por 75% da economia, e a mistura de religião e dinheiro da estatal Saudi Aramco impossibilita qualquer mudança rumo à democracia.

TEOCRACIA – Irã

Exportação de petróleo – 8°

IDH – 70°

Índice de democracia – 139°

É governado por presidentes eleitos de forma desacreditada e por um conselho religioso conservador. O petróleo traz 80% do orçamento do governo, que subsidia desde o pão até a gasolina, alimenta um programa nuclear e financia grupos paramilitares no Oriente Médio. A indústria local é ineficiente e o desemprego, altíssimo.

CAOS – NigériA

Exportação de petróleo – 7°

IDH – 142°

Índice de democracia – 124°

O petróleo alimenta sangrentas disputas religiosas e étnicas e beneficia grupos ligados ao governo, mergulhado em corrupção. Aliados têm apoio para explorar jazidas sem investir em estrutura. O resultado é que, nos últimos 50 anos, já vazaram mais de 546 milhões de litros de petróleo por falta de estrutura ou por sabotagem política.

Onde vão surgir empregos?

INDÚSTRIA QUÍMICA (Nordeste e RJ)

O setor negocia ficar com 4% de todo o petróleo do pré-sal. Com matéria-prima barata e US$ 167 bilhões previstos em investimentos, a indústria química ficaria bem mais competitiva internacionalmente. E a presença de refinarias no Nordeste podem tornar a região um novo polo industrial.

ESTALEIROS (PE, CE, AL, BA, RJ, RS)

Em 2010 a indústria naval brasileira lançou ao mar o primeiro navio nacional em 13 anos. E a coisa vai estourar: por enquanto a Petrobras já encomendou 146 embarcações, com exigência de pelo menos 80% de conteúdo nacional – a US$ 5 bilhões. Isso sem contar plataformas – não se sabe quantas a Petrobras encomendará.

OUTRAS INDÚSTRIAS

A exploração do pré-sal tem trazido encomendas de equipamentos como helicópteros, submarinos, robôs, tudo mais ou menos made in Brazil, na marra. Isso pode trazer para cá centros de pesquisas tecnológicas de empresas estrangeiras – como a GE, que deve fazer no Rio seu 5º centro de pesquisas mundial, por US$ 150 milhões. Ele deve ter 300 funcionários, a maioria doutores.

EDUCAÇÃO, A VENCEDORA

Até 2012 a Petrobras quer contratar 207 mil profissionais. Para dar conta desse tsunami petroleiro, cerca de 100 novos cursos superiores voltados ao petróleo já pipocaram nos últimos dois anos, a maioria para tecnólogos. Mas o que mais falta é engenheiro: o déficit em 2012 será de 150 mil profissionais. Ainda assim, apenas 1 em cada 800 vestibulandos escolheram engenharia. E você? Vai perder essa?

Fonte: http://super.abril.com.br/

Devastação ambiental e trabalho escravo na produção de aço

Pesquisa do Observatório Social revela as fraudes de uma das mais importantes cadeias produtivas do Brasil

Márcio Zonta

                Pesquisa do Observatório Social que será lançada no dia 22 de junho em São Paulo revela fraudes e trabalho escravo numa das mais importantes cadeias produtivas no Brasil, a produção do aço no pólo de Carajás, atingindo os estados do Pará e Maranhão.

Nas cidades no entorno de Marabá (PA) e Imperatriz (MA), onde se concentra as empresas de siderurgia na produção do ferro gusa, uma série de irregularidades foi apontada pelo estudo coordenado pelo jornalista Marques Casara, membro do Observatório Social.

Em Nova Ipixuna (PA), onde no dia 24 de maio foram assassinados José Cláudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo, que denunciavam a devastação da floresta para produzir carvão e madeira, trabalhadores foram flagrados em carvoaria clandestina sem carteira assinada e sem equipamento de proteção, onde 100% da produção é direcionada ao pólo de Carajás, denuncia o estudo.

“O Pará é estado com o maior número de trabalhadores escravos. Nós não fizemos a conta, não somamos, pois é impossível fazer isso. São milhares”, afirma Casara.

Sobre a degradação ambiental envolvida no processo de produção, o estudo aponta que as áreas mais prejudicadas são as reservas indígenas e Áreas de Preservação Permanente (APP). “O carvão é retirado ilegalmente de terras indígenas e de áreas de preservação sendo esquentados (tornado legal) com o uso de documentos forjados e mediante a conivência de servidores do governo do Pará. O carvão é usado para fabricar ferro gusa, posteriormente vendido para grandes siderúrgicas do mundo”, revela o jornalista.

Esquemas

                         O estudo aponta que há diversas formas de esquemas na operação dos grandes complexos carboníferos usados para lavar carvão ilegal para as siderurgias. Umas das mais emblemáticas reveladas é o caso da Indústria de Carvão Vegetal Boa Esperança situada em Jacundá (PA), de onde controla 96 fornos. “Em março deste ano a empresa declarava ter no pátio 325 MDC* de carvão. A contagem forno a forno, realizada por fiscais do IBAMA mostrou que a empresa só tinha de fato, 113 MDC de carvão. A diferença (212) vinha proveniente de carvoarias clandestinas”,ou seja, “o carvão produzido em outro local usa o crédito da carvoaria legalizada para esquentar o produto e dar a ele uma aparência legal. Somente na Boa Esperança, 66% do carvão declarado pela empresa não está, de fato, no pátio. Com isso, a empresa pode vender 66% dos seus créditos de carvão”, afirma a pesquisa.

Segundo Casara menciona no relatório, a “Boa Esperança faz parte de uma rede de ilegalidade na região de Jacundá e seu proprietário utiliza-se de 15 CNPJs (Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica).

Outra forma também desvendada pela pesquisa de Casara é o uso de créditos de madeira concedidos aos assentamentos rurais à agricultura familiar. “Novamente, os créditos de madeira são vendidos para as carvoarias. Um dos esquemas está em operação em Tucuruí (PA). A madeira nunca sai do assentamento, mas por uma triangulação envolvendo madeireiras, empresas agropecuária e carvoarias, os créditos também são usados para esquentar carvão para o setor siderúrgico”,diz trecho do estudo.

Até as quebradeiras de coco de babaçu são usadas no esquema da região, pois como a casca dessa espécie de coco não precisa de guia florestal para ser transportada até as carvoarias, as siderúrgicas supervalorizam a quantidade de carvão produzida a partir dessa matéria prima.

                      A mesma situação ocorre com o eucalipto: “também não precisa de guia florestal, de modo que as siderúrgicas maquiam boa parte da ilegalidade usando como fachada a produção de eucalipto”, aponta o relatório.

Algo que despertou nos agentes do IBAMA do Pará e Maranhão a suspeita sobre a verdadeira quantidade de eucalipto que dizem ter as siderúrgicas. “Estamos justamente neste momento em fase de término de um estudo que nos elucide sobre a verdadeira área plantada de eucalipto na região para podermos fiscalizar a proveniência desse carvão” diz Orlando de Assunção Filho, gerente executivo do IBAMA de Imperatriz.

Coniventes

O estudo aponta que não só as empresas se beneficiam desse processo, como tem conhecimento das irregularidades que fomentam o Grande Projeto Carajás de mineração.

“A Vale conhece o processo e não cumpre acordo assinado em 2008 com o Ministério do Meio Ambiente, de que não venderia mais minério de ferro para siderúrgicas envolvidas em processos predatórios”, esclarece Casara.

Dentre as empresas envolvidas Casara cita: “a Vale S/A, Cosipar, Sidepar, Nucor Corporation, National Material Trading, Ford, GM, Toyota e Nissan”.

Pois, “a Vale fornece o minério de ferro, a Cosipar e Sidepar fazem o ferro gusa e as demais são compradoras do produto. É o que chamamos de cadeia produtiva do desmatamento e do trabalho escravo”, conclui o coordenador da pesquisa.

Fonte: http://www.brasildefato.com.br/

A história voltou para as ruas

No início dos anos 90 obteve grande repercussão midiática a tese do "fim da História", elaborada por Francis Fukuyama, economista, professor de Filosofia Política e um dos principais ideólogos dos anos Reagan. Segundo essa tese, a História teria chegado ao fim com a queda do Muro de Berlim e a derrocada da União Soviética.

Marco Aurélio Weissheimer

Esses dois acontecimentos marcariam a vitória definitiva da democracia liberal e do modelo de civilização liderado pelos Estados Unidos. Mas a História costuma ridicularizar esse tipo de profecia determinista que pretende ditar os rumos do mundo.

Fukuyama publicou o artigo intitulado “O fim da história”, em 1989. Três anos depois, reapresentou o tema em um outro texto, “O fim da história e o último homem”. A tese central dos dois textos consistia em fazer uma apologia da superioridade do capitalismo e da democracia liberal ocidental sobre todos os demais sistemas e ideologias concorrentes. A partir dali, a única oposição se manifestaria sob a forma de focos isolados de nacionalismo e do fundamentalismo islâmico que ficariam restritos à periferia do sistema. O mundo entraria, comemorava Fukuyama, em uma nova fase dourada, um novo renascimento, marcado desta vez pelo desenvolvimento de novas tecnologias de comunicação que dissolveriam as fronteiras do planeta.

Não é a primeira vez que isso acontece. A História costuma ridicularizar esse tipo de profecia determinista que pretende ditar os rumos do mundo. Fukuyama teve seus momentos de glória. Ganhou imenso espaço midiático e fez conferências mundo afora. E eis que, apenas 20 anos depois, suas teorias foram reduzidas a pó. A História não só não acabou como atravessa hoje um período de grande turbulência.

O admirável mundo novo prometido pela globalização financeira resultou em uma das mais graves crises da economia ocidental. Por uma dessas ironias que a História parece gostar de praticar as receitas econômicas amargas de austeridade impostas a países da América Latina, Ásia e África hoje adotadas nos Estados Unidos e na Europa como suposta solução para a crise econômica. Bilhões de dólares foram pelo ralo com os negócios do cassino financeiro global. O Estado, apresentado até então pelos defensores deste sistema, como um gigante a ser diminuído, foi chamado a socorrer grandes bancos e instituições financeiras privadas. Quem pagou o socorro foram os contribuintes que agora são chamados a apertar os cintos para pagar essa conta. A crise econômica que atingiu os EUA e a Europa repercutem, é claro, em todo o mundo.

No plano político, o mundo vive também um período de turbulência, consequência direta dessa crise econômica. Há apenas alguns meses, ninguém se atreveria a prever a eclosão de múltiplas revoltas populares em países do Oriente Médio, da África e, mais recentemente, da Europa. Governos que eram apontados como padrão de estabilidade, como é o caso do Egito, foram obrigados a renunciar em poucas semanas. A guerra da Líbia levou os EUA e seus aliados europeus a se envolverem em mais um conflito armado na região mais instável do planeta. A combinação da instabilidade política com a crise econômica constitui um caldo de cultura explosivo de consequências imprevisíveis. Na Europa, milhares de jovens estão saindo às ruas em diversos países em protesto contra o desemprego, a falta de perspectivas e a falência do sistema político tradicional. Nos últimos meses, as manifestações ruas multiplicaram-se pela Islândia, Grécia, Inglaterra, Espanha e Portugal, entre outros países.

Por outro lado, o terremoto e o tsunami que devastaram o Japão no dia 11 de março acabaram provocando, além de um saldo trágico de milhares de mortos e de grande destruição material, um acidente nuclear de proporções ainda não bem conhecidas, com repercussões globais. A perspectiva de uma tragédia planetária esteve bem presente até bem poucos dias, levando mais uma vez milhares de pessoas às ruas, especialmente no Japão e na Alemanha, país que já decidiu desmontar seu sistema de usinas nucleares.

O resumo da obra, neste início de 2011, é, portanto, o seguinte: crise econômica internacional, elevado índice de desemprego em países apontados até então como modelos de estabilidade, revoltas populares e guerras civis na África e Oriente Médio, grandes protestos populares na Europa, desastres naturais e um acidente nuclear de grandes proporções e consequências imprevisíveis.

Diante desse conjunto de problemas e da crise das representações políticas tradicionais, as ruas voltaram a ser um espaço de manifestação e debate público. Este novo especial da Carta Maior pretende registrar algumas das principais expressões deste renascimento das ruas, um fenômeno salutar para uma democracia que está sendo cada vez mais ameaçada por um sistema econômico predatório, alicerçado fundamentalmente no setor financeiro. A história não só não acabou como está viva e pulsante nas ruas de diversas cidades do mundo.

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/

Introdução ao Marxismo

Da sociedade primitiva sem classes, a humanidade passou a sociedade dividida em classes; esta da lugar a sociedade socialista sem classes do futuro.

Ernest Mandel

Ernest Mandel (1923-1995)                                          Ernest Mandel (1923-1995)1. O Movimento Universal

Os modos de produção sucedem-se. Inclusive antes de desaparecerem, estão submetidos a constantes mudanças. A classe dominante de hoje é muito diferente da classe proprietária de escravos que dominava o Império romano. O proletariado contemporâneo é por sua vez diferente do servo medieval. Entre um pequeno fabricante do inicio do século XIX, e o senhor Rockefeller o chefe do truste Rhóne-Poulenc de hoje, há todo um mundo de diferenças. Tudo muda, tudo está em perpetuo movimento.

Este movimento universal podemos encontra-lo em todos os níveis da realidade, e não somente na história das sociedades humanas. Os indivíduos mudam, submetidos a um destino inexorável. Nascem, crescem, tornam-se adultos, depois começam a envelhecer e finalmente morrem. Este destino aflinge tantos as espécies vivas como os indivíduos. A espécie humana não existiu sempre. Espécies que povoaram outrora nosso planeta como os répteis gigantes da época terciária, desapareceram. Outras espécies de animais e vegetais desaparecem atualmente diante de nossos olhos, em parte resultado de perturbações anárquicas que o modo de produção capitalista tem provocado na ecologia terrestre.

Nosso planeta, por sua vez, não tem vida eterna e não existiu sempre. A segunda lei da termodinâmica, a lei sobre a perda de energia, condena-o inexoravelmente a desaparecer um dia. Nasceu de uma constelação interplanetária que não é nada mais que uma das inumeráveis constelações análogas do universo.

O movimento, a evolução universal, governa toda existência. Esta é material. E a base da matéria são os átomos que por sua vez são compostos por partículas ainda mais pequenas. A combinação de átomos constituem as moléculas, que formam entre elas os diferentes elementos básicos da crosta terrestre e da atmosfera. O oxigênio e o hidrogênio, em uma combinação determinada – H2O – constituem a água. Outra moléculas formam as bases sobre as quais se estabelecem a formação dos metais, os ácidos, as bases.

A evolução da matéria inorgânica deu lugar, deste modo, ao nascimento da matéria orgânica, quando se deram as condições determinadas. Os aminoácidos formam as proteínas. Isto desencadeou a evolução das espécies vivas, vegetais e animais. No curso desta evolução nascem os seres vivos superiores, os mamíferos, dos que fazem parte, os símios, de onde nasceria a espécie humana.

2. A Dialética, lógica do movimento

Posto que o movimento universal caracteriza toda a existência, pode-se dizer que existem traços comuns entre o movimento da matéria (da natureza), o movimento da sociedade humana, e o movimento de nossos conhecimentos (da ciência, do espírito humano). Assim sendo, a dialética de Marx e Engels pretende reunir estes traços comuns do movimento universal.

A dialética, a lógica do movimento, se manifesta em três níveis:

• A dialética da natureza, dialética completamente objetiva, ou seja, independente de projetos, das intenções ou das motivações do homem e que não afeta diretamente a história dos homens. Isto não exclui que com o desenvolvimento das forças produtivas, a humanidade possa utilizar leis da natureza para remodelar seu meio natural.

• A dialética da história, dialética amplamente objetiva em princípio, mas que contem uma mudança revolucionária segundo a execução de um projeto preestabelecido, embora a elaboração e realização deste projeto está ligada a condições materiais, objetivas, preexistentes, independentes da vontade dos homens;

• A dialética do conhecimento (do pensamento humano) que é a dialética objeto-sujeito por excelência, uma interação constante entre os objetos a conhecer (os objetos de cada uma das ciências) e a ação dos sujeitos que tratam de conhece-los, e que estão condicionados por sua situação social, os meios de investigação herdados e a transformação destes meios pela ação social cotidiana, etc.

Na medida que o descobrimento da dialética objetiva é ela propria uma fase na história do conhecimento e do pensamento humano (a dialética, tal qual concebemos hoje, foi elaborada por filósofos gregos como Heráclito, posteriormente retomada por Spinosa e aperfeiçoada por Hegel) poder-se-ia cair na tentação de referir toda dialética à dialética objeto-sujeito. Isso seria um erro. É claro que tudo que sabemos, compreendido o que concerne à dialética da natureza, sabemos por intermédio de nosso cérebro e de nossas idéias, de nossa práxis social, determinada por nossas condições de existência social. Este fato evidente, entretanto, não impede que possamos saber – e verificar e ver confirmado por múltiplas provas práticas – que a vida é mais velha que o pensamento humano; que o universo é mais velho que a terra; que todo este movimento é independente da ação e da existência do homem; que o mesmo pensamento humano é produto deste movimento. É este o sentido preciso que tem a noção: "dialética materialista objetiva".

Ou melhor, na medida em que nossos conhecimentos se aperfeiçoam e tornam-se cada vez mais científicos, na medida em que se aproximam da realidade (uma identidade total do conhecimento e da realidade é impossível, já que a última encontra-se em contínua mudança) seu passo seguirá cada vez mais o movimento contínuo da matéria. A dialética do nosso pensamento científico, a dialética materialista, pode apreender o real justamente porque o seu próprio movimento corresponde cada vez mais ao movimento da matéria, graças à prática social que expressa uma dominação crescente das forças da natureza, uma vez que as leis do conhecimento e do aprendizado espiritual do real correspondem cada vez mais às leis que governam o movimento universal da realidade objetiva.

É necessário explicitar uma diferença importante entre o desenvolvimento das ciências naturais e o desenvolvimento das ciências sociais ( dos conhecimentos que se referem a tudo que tem a vida social como objeto de investigação, compreendendo neles nosso conhecimento sobre as origens e a dialética do desenvolvimento de todas as ciências , incluídas as ciências naturais). O desenvolvimento das ciências naturais está também determinado social e historicamente.

Os homens, incluindo os gênios mais intrépidos, não podem considerar e resolver nada mais que um certo número de problemas científicos em cada época. São condicionados pelas idéias e educação recebidas. Os novos problemas nascem neste contexto, relacionados às transformações materiais, especialmente as do trabalho, dos instrumentos de trabalho, dos instrumentos de investigação científica, etc. Mas trata-se de uma determinação indireta, não mediatizada de modo imediato por interesses materiais de classe. Não pode-se contrastar teorias científicas que assentem sobre provas experimentais referindo-se à origem social ou posições políticas dos sábios que as formularam. Não é possível contrastá-las senão em relação a outras teorias científicas experimentalmente comprovadas e que melhor se aproximam a uma realidade complexa.

É diferente o que ocorre com as ciências sociais. Estas tocam de muito mais perto a organização e estrutura da sociedade de classes. O peso das idéias recebidas e herdadas é tanto maior quando estas não são mais do que expressão, no plano ideológico, de interesses, seja da conservação social, seja da revolução social, interesses que se referem, em definitivo, a posições de classes antagônicas.

Sem querer transformar os filósofos, os historiadores, os economistas, os sociólogos, os antropólogos, em "agentes" deliberados desta ou daquela classe social, empenhados em uma "conspiração" seja para defender a ordem estabelecida ou para "organizar a subversão", é evidente que a determinação social do desenvolvimento das ciências sociais é muito mais direta e imediata que o das ciências naturais. No mais, o objeto das ciências sociais, pela força das coisas, está imediatamente determinado pela estrutura e pela história das sociedades a que se referem os fatos, o que não sucede com as ciências naturais.

3. Dialética e Lógica Formal

A dialética, a lógica do movimento, se distingue da lógica formal ou a lógica estática. A lógica formal assenta em três leis fundamentais:

a. A lei da identidade: "A" é igual a "A"; uma coisa permanece igual a si mesma.

b. Lei da contradição: "A" é diferente de "não-A"; "A" não pode ser igual a "não-A".

c. Lei do terceiro excluído: ou "A" ou "não-A"; nada pode ser nem "A" e nem "não-A".

Um momento de reflexão permite concluir que o que caracteriza a lógica formal é o intento de deter o movimento, a mudança. Todas as leis que acabamos de enumerar são verdadeiras, desde que se faça abstração do movimento. "A" permanece igual a si mesmo e portanto não muda. "A" é diferente de "não-A" e portanto não se transforma em seu contrário. Existe ou "A" ou "não-A", portanto não tem um movimento que combina "A" com "não-A" , etc. Ante fatos como a transformação da lagarta em borboleta e do adolescente em adulto, a lei da identidade revela-se insuficiente.

O fato de fazer uma abstração do movimento, da transformação, das mudanças é util dependendo do pondo de vista. Primeiro para poder estudar os fenômenos de maneira isolada e continua, o que permite sem dúvida alguma aprofundar no estudo deste fenômenos. Depois, do ponto de vista prático, quando as mudanças que se produzem são de natureza infinitesimal e podem ser desconsideradas.

Se compro 1 kilo de açúcar empacotado em um supermercado, a igualdade estabelecida pela balança, um kilo de açúcar = um kilo, é válida para mim, tendo em conta o fim prático da compra. Porém, para poder adoçar o meu café, pouco importa se o peso real de tal pacote é de 1 kilo ou 999 gramas. Diferenças deste tipo podem ser desconsideradas do ponto de vista prático.

Por isso, a lógica formal continua válida tanto na teoria quanto na prática. Por isso, a dialética materialista não recusa a lógica formal, senão que a integra, a considera como instrumento de analise e conhecimento válido – mas validade em condições que seus limites sejam estabelecidos: é inaplicável a fenômenos de movimento e processos de mudança. Na presença de tais fenômenos, o o recurso são as categorias da dialética, a lógica do movimento, categorias diferentes das que a lógica formal, nos coloca.

4. O movimento, função da contradição

O movimento é, por sua natureza, uma passagem, uma ultrapassagem. A partir de um ponto de vista estático, um objeto não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo (mesmo sendo um movimento infinitamente curto). Partindo de um ponto de vista dinâmico, o movimento de um objeto é precisamente seu passo de um ponto a outro.

A dialética estuda as leis do movimento e as formas que adota. Examinaremos abaixo dois aspectos: o movimento, função da contradição; o movimento, função da totalidade.

Todo movimento é sempre causado. A causalidade é uma das categorias fundamentais da dialética, como é em qualquer ciência. Negar a causalidade é, em definitivo, negar a possibilidade do conhecimento.

A causa última de todo movimento, de toda mudança são as contradições internas do objeto que muda. Todo objeto, todo fenômeno, muda, modifica-se, transforma-se sob o efeito de suas contradições internas, e das contradições que surgem com suas relações com outros fenômenos (contradições) do sistemas de objetos. Neste sentido chamamos com freqüência, e a justo título, a dialética de ciência das contradições. Lógica do movimento e lógica das contradições são definições praticamente idênticas de dialética.

Na análise de qualquer objeto, de qualquer fenômeno ou de qualquer conjunto de fenômenos deve permitir, em conseqüência, determinar quais são os elementos que constituem a contradição, a dinâmica desencadeada por estas contradições.

Assim nós temos indicado até que ponto a luta de classes resultante da existência de classes antagônicas, governa o movimento da história das sociedades divididas em classes. De um modo mais amplo , englobando de uma vez a sociedade primitiva sem classes, a sociedade dividida em classes e a sociedade socialista futura, podemos dizer que as contradições entre o nível alcançado, em certas épocas, pelo desenvolvimento das forças produtivas (o nível de dominação do homem sobre a natureza) e as relações de produção nascidas, em última analise, de níveis de desenvolvimento anterior a estas mesmas forças produtivas, governa toda evolução da humanidade.

Simplificando, e esquematizando de maneira excessiva, podemos indicar as seguintes leis do movimento, ou as formas principais que adota, e que proporcionam categorias fundamentais da lógica dialética, ou a lógica do movimento:

a. A unidade, a interpenetração e luta de contrários: Fala-se sobre movimento, sobre contradição. Por contradição entende-se a coexistência de elementos opostos uns com os outros, que leva a coexistência e luta entre este elementos. Com homogeneidade integral, na ausência total de elementos que se oponham uns aos outros, não há contradição, não há movimento, não há vida, não há existência. A existência é constituída pela unidade, interpenetração e luta de contrários, em outra palavras, pelo movimento. A existência destes elementos contraditórios incluído sua coexistência em uma totalidade estruturada. Neste conjunto cada um destes elementos tem seu lugar, e a luta entres estes elementos tente a romper este conjunto. O capitalismo não é possível sem a existência simultânea entre capital e trabalho assalariado, da burguesia e do proletariado. Uma coisa não pode existir sem a outra. Mas isto não significa em absoluto que uma coisa não possa rechaçar a outra, e que o proletariado não trate de suprimir o capital e o regime salarial, tentando superar o capitalismo.

b. Mudanças quantitativas e mudanças qualitativas: O movimento toma a forma de mudanças mantendo as estruturas (a qualidade) dos fenômenos. Neste caso dizemos que as mudanças qualitativas são pequenas. A partir de um determinado "limite", a mudança quantitativa se transforma em mudança qualitativa. Neste "limite" a mudança além de ser gradual, se efetua por um "salto", uma nova qualidade aparece. Uma pequena vila pode transformar-se gradualmente em uma grande cidade, ou em um povoado, ou ainda em uma pequena cidade. Mas entre um povoado em uma vila não existe apenas diferenças de qualidade (população, espaço construído etc…). Existe também diferenças de qualidade. A atividade profissional da maioria dos habitantes se modificou. No lugar de agricultores são operários e empregados que prevalecem. Nasceu um novo meio social, com novos problemas sociais que não existiam em absoluto no povoado; por exemplo, os transportes comunitários. Aparecem novas classes sociais, com novas contradições entre elas.

c. Negação da negação e superação: Todo movimento tende a produzir a negação de alguns de seus fenômenos, a transformar os objetos em seu contrário. A vida produz a morte. O calor não se compreende senão em função do frio. A sociedade sem classes produz a sociedade dividida em classes, que por sua vez produz uma nova sociedade sem classes. Mas é necessário distinguir a negação pura e a negação da negação, ou seja, a superação da contradição há um nível superior, que implica por sua vez em uma negação, uma conservação e uma elevação a um nível superior. A sociedade primitiva sem classes tinha um alto nível de coesão interna, precisamente em função de sua pobreza, de sua subordinação quase total as forças da natureza que consistia em sua contradição. Na sociedade socialista futura, esta negação será superada. Uma forma ainda mais elevada de domínio do homem sobre a natureza se combinará com uma forma igualmente elevada de coesão social e de cooperação, graças a então existência de uma sociedade sem classes.

5. Alguns problemas suplementares da dialética do conhecimento

a. Conteúdo e forma: Todo movimento toma forçosamente formas sucessivas as quais podem variar segundo um grande número de circunstanciais. Não pode desfazer-se automaticamente de qualquer maneira que tenha sido previamente adotada. Esta resistência deve romperse. A forma deve corresponder ao conteúdo, e corresponde até certo ponto. A sua natureza mais rígida opõe-se a tuda a correspondência absoluta e permanente a um moviemnto que é oposto a tudo que é rígido.

Um bom exemplo desta relação contraditória entre a forma e o conteúdo é o que oferece a dialética entre as relações de produção e as forças produtivas.

Para poderem desenvolver-se, as forças produtivas devem necessariamente inserir-se em certas formas de organização social humanas: as relações de produção escravagistas, feudais, capitalistas, etc. Desde logo, cada nova forma de organização do trabalho e da produção, superiores à forma anterior do ponto de vista da produtividade média do trabalho, estimula a expansão da forças produtivas. Mas, a partir de certo ponto, essa forma torna-se por sua vez um entrava a um progresso ulterior das forças produtivas. Deve, pois, ser destruída e substituída por um novo conjunto de relações de produção superiores, a fim de permitir um novo "salto a frente" do progresso material e intelectual da humanidade.

b. Causas e efeitos: Todo movimento se apresenta como uma cadeia que se entrelaçam causas e efeitos. A primeira vista, esta interações parecem fechadas, definidas. A causa do regime salarial é a apropriação privada dos meios de produção por uma classe social. Mas esse monopólio mantem-se como um efeito do regime salarial. Uma vez que os salários não permitem a aquisição de meios de produção por parte dos operários. O regime salarial produz a mais valia, apropriada pelo capitalista, transformando em propriedade burguesa dos meios de produção suplementares. E assim continuamente.

Para não nos perdermos, e caiemos em um ecletismo estéril, é necessário aplicarmos um método genérico, ou seja, buscar as origens do movimento em questão. Veremos deste modo, que o capital e a mais-valia são anteriores ao regime salarial, que nasceram fora da esfera de produção; que houve uma acumulação primitiva de capital, que rompe o círculo aparentemente fechado das causas e efeitos regime salarial – capital – regime salarial.

c. O geral e o particular: Cada movimento, cada fenômeno possuem características próprias, particulares. Todavia apesar destas particularidades, não podemos compreende-los ou explica-los sem levar em conta um quadro mais amplo, mais geral. O capitalismo britânico do século XIX não é igual ao capitalismo britânico da segunda metade do século XX, nem ao capitalismo americano de hoje em dia. Cada um deles representa uma formação social particular, com uma inserção particular na economia mundial que tanto mudou neste espaço de um século. Porém, nem o capitalismo britânico da época victoriana, nem o capitalismo britânico decadente de hoje nem o capitalismo americano contemporâneo podem ser compreendidos fora das leis gerais do desenvolvimento que marcam capitalismo. A dialética do "geral" e do "particular" não se conforma em combinar analises do "geral" e o "particular". Também se esforça em explicar o particular em função das leis gerais, em modificar as leis gerais em função de um certo número de fatores particulares.

d. O relativo e o absoluto: Compreender o movimento, a mudança universal, é compreender a existência de uma infinidade de situações transitórias. "O movimento é a unidade da continuidade e da descontinuidade" (Hegel). Por isso, uma das características fundamentais da dialética é a compreensão da relatividade das coisas, é a recusa a erigir barreiras absolutas entre as categorias, é a investigação das mediações entre os elementos opostos. A evolução universal implica a existência de fenômenos híbridos, situações e casos de "transição" entre a vida e a morte, entre as espécies vegetais e animais, entre as aves e os mamíferos, entre os macacos e o homem – que tornam relativas as distinções entre estas categorias.

Contudo, a dialética tem sido muitas vezes utilizada de maneira subjetivista, como "arte de confundir" ou "arte defender paradoxos". A diferença entre a dialética científica, instrumento de conhecimento real, e a dialética subjetivistica ou sofística, consiste particularmente em que a relatividade dos fenômenos e das categorias se torna, por sua vez, qualquer coisa de absoluto para os sofistas. Esquecem estes (ou fingem esquecer) que a relatividade das categorias é apenas uma relatividade parcial e não uma relatividade absoluta, e que é preciso por sua vez, relativizar a relatividade. A diferença "absoluta" entre a vida e a morte é contestada pela existência de situações transitórias, diz a dialética científica. Tudo é relativo, logo a diferença entre a vida e a morte não passa de muito relativa quando não inexistente, prossegue o sofista. Não, replica o dialético: há qualquer coisa de absolut e não somente de relativo na diferença entre vida e a morte. Do fato incontestável de haver múltiplas etapas intermediárias, não se pode tirar a bsurda conclusão que consiste emnegar que a morte permanece a negação da vida.

6. O movimento, função da totalidade – o abstrato e o concreto

Vimos que todo o movimento é sempre função de contradições internas do fenômeno ou do conjunto de fenômenos considerados. Cada fenômeno – seja uma célula vivia, um meio natural onde diversas espécies coabitem, uma sociedade humana, um sistema interplanetário ou um átomo – comporta, no entanto, uma infinidade de aspectos, de componentes, de elementos constitutivos. Estes elementos não se aglomeram uns com os outros de maneira eventual e constatemente modificada. Formam conjuntos estruturados, uma totalidade construída seguindo uma lógica determinada. Assim, no seio da sociedade burguesa, as relações mútuas e antagônicas entre o Capital e o Trabalho, de modo nenhum são eventuais. São determinadas pela obrigação econômica em que se encontra o assalariado de vender a sua força de trabalho ao capitalista, detentor dos meios de produção e de subsisitência, sob forma de mercadorias. Relações mútuas qualitativamente diferente daquelas, produziram outras sociedades fundadas sobre a exploração; mas não se tratava de sociedades capitalistas.

A dialética materialista deve pois abordar cada fenômeno, cada objeto de análise e de conhecimento, não apenas para disso determinar as contradições internas que determinam a sua evolução (as suas "leis de desenvolvimento"). Deve igualmente esforçar-se por abordar o fenômeno de maneira global, por evitar toda a aproximação unilateral, que isola de maneira arbitrária um ou outro aspecto particular da realidade, suprime, não menos arbitrariamente, um ou outro aspecto, e é, por esse fato, incapaz de apreender as contradições no seu conjunto e, logo, de compreender o movimento na sua totalidade.

Esta capacidade da dialética para integrar na sua análise o método "universalista" (Allseitigkeit, diz lenin em alemão e em russo), é um dos seus méritos principais. De resto, há praticamente sinonímia entre "lógica do movimento", "lógica da contradição", "lógica da totalidade". É fechando os olhos perante certos elementos contraditórios do real, que aparecem como "tornando demaisado complexa" a análise, que alguns pensadores não-dialéticos vão do total ao parcial, expelindo, a um tempo, a contradição e a totalidade.

Evidentemente que é inevitável uma certa simplificação, uma certa "redução" da "totalidade" ao seus elementos constitutivos decisivos, como primeira tentativa de aproximação de toda a análise científica. Esta é, à partida, necessariamente abstrata. Mas é necessário ter presente que este inevitável processo de abstração empobrece o real; quando mais se aproxima do real. mais se aproxima de uma totalidade rica de uma infinidade de aspectos, que a análise científica e o conhecimento devem explicar, ao mesmo tempo, nas suas relações recíprocas e nas relações contraditórias: "A verdade é sempre concreta" (Lenin). "O verdadeiro é a totalidade" (Hegel).

7. Teoria e prática

A dialética é uma teoria, um instrumento do conhecimento. Historicamente, pode-se definir a dialética materialista como a teroria do conhecimento do proletariado ( o que em nada diminui o seu caráter objetivamente científico, que necessita uma verificação constante igualmente no terreno científico).

Toda a teoria do conhecimento é submetida a uma prova implcável: a prova da prática.

Em última análise, o próprio conhecimento não é um fenômeno separado da vida e dos interesses dos homens. É uma arma para a conservação da espécie, uma arma que permite aos homens dominar as forças da natureza, uma arma para compreender (mais tarde) as origens da "questão social" e os meios de as resolver. O conhecimento nasceu pois da prática social do homem; tem por função aperfeiçoar asta prática. A sua eficácia mede-se, em última análise, pelos seus efeitos práticos. A verificação prática permanece a melhor arma de última instâancia contra os sofistas e os céticos.

Isto não quer dizer que a teoria se dissolve num pragmatismo inepto, de vistas curtas. Muito freqüentemente, a eficácia prática, o caráter "verdadeiro" ou "falso" de uma hipótese científica não aparecem imediatamente. É preciso tempo, um certo recuo, novas experiências, uma série de sucessiva "provas da prática", antes que o caráter científico de uma teoria se imponha efetivamente na prática. Prisioneiros das aparências de uma visão parcial e superficial do real, de uma visão temporária do processo histórico (que é, por seu turno, determinado em última instância pela ideologia de classes ou camadas sociais não revolucionárias), numerosos homens e mulheres podem duvidar, apesar das suas melhores intenções e convicções socialistas, uns do caráter burguês da democracia parlamentar, outros da necessidade da ditadura do proletariado, outros ainda da necessidade da vitória da revolução internacional para acabar a construção de uma sociedade realmente socialista na URSS, ou não importa qual outro país.

Mas no fim das contas, os fatos acabam por confirmar qual teoria foi realmente científica, quer dizer, capaz de apreender o real em todas as suas contradições, todo o seu movimento de conjunto, e quais hipóteses se encontram erradas, ou seja, capazes de apreender somente partes do real, isolando-os da totalidade estruturada, e por isso incapazes de apreender o movimento a longo prazo na sua dialética fundamental. A vitória da revolução socialista mundial, o advento de uma sociedade sem classes, confirmará na prática a validade da teoria marxista revolucionária.

1977

Traduzido por Gustavo Henrique Lopes Machado

Fonte: http://socialismo.org.br/

UE dá primeiro passo para restabelecer controle de fronteiras

Governo da Líbia diz que cratera na capital, Trípoli, foi causada por bombardeio da Otan

UOL

Louafi Larbi/Reuters                                  

A União Europeia (UE) deu nesta quinta-feira um primeiro passo para restabelecer os controles pontuais em suas fronteiras internas com o objetivo de enfrentar a imigração ilegal, mas se comprometeu a ir com cautela para evitar colocar em perigo a livre circulação do espaço Schengen.

Em um contexto político de auge dos partidos populistas e xenofóbicos, a maioria dos países europeus apoiou em uma reunião em Bruxelas uma proposta para reintroduzir os controles fronteiriços como "último recurso" e em "condições claramente definidas e excepcionais".

A iniciativa, preconizada inicialmente por França e Itália, foi debatida pelos ministros do Interior da União Europeia (UE) em busca de soluções diante da chegada de imigrantes norte-africanos que fogem das revoluções em curso em seus países.

Das 750 mil pessoas que fugiram nas últimas duas semanas do conflito líbio, apenas "umas poucas chegaram à Europa, mas são suficientes para fazer refletir sobre como devemos enfrentar" a situação, argumentou a comissária europeia de Imigração, Cecilia Malmstrom.

Por isso os países da UE consideram justificável contemplar a reinstauração de controles fronteiriços no espaço Schengen de livre circulação, apesar de representar o direito mais tangível da integração europeia.

Uma cláusula do tratado de Schengen permite aos Estados membros fechar suas fronteiras por circunstâncias excepcionais, como uma partida de futebol de risco ou uma ameaça à segurança.

Agora, a UE se dispõe a examinar se esta exceção pode ser aplicada para controlar a imigração ilegal, e a questão pode ser decidida na próxima cúpula de chefes de Estado e de governo, que ocorre no fim de junho em Bruxelas.

"Admitimos a perspectiva de restabelecer os controles de forma excepcional em situações excepcionais", afirmou o ministro francês do Interior, Claude Guéant.

Os 27 países tentaram ao mesmo tempo enviar uma mensagem tranquilizadora, advertindo contra qualquer questionamento do espaço Schengen, que inclui 25 países europeus e está há 16 anos em vigor.

"Houve unanimidade para dizer que a livre circulação de pessoas é uma das principais conquistas (europeias) e deve ser preservada", afirmou o ministro húngaro do Interior, Sandor Pinter, cujo país exerce a presidência da UE até o fim de junho.

Os ministros europeus se deram paralelamente por satisfeitos com as explicações oferecidas por seu colega dinamarquês sobre o anúncio unilateral de seu governo de restabelecer os controles em suas fronteiras com Alemanha e Suécia.

O ministro dinamarquês de Integração, Soeren Pind, "nos deu garantias de que sua decisão" de quarta-feira "respeita as regras de Schengen", declarou Pinter.

Já o ministro alemão, Hans-Peter Friedrich, admitiu, por sua vez, que seu governo não se "entusiasma" com a decisão do vizinho e advertiu contra o risco de que os Estados "comecem a exercer mais e mais controles", criando uma ameaça para a livre circulação.

No Parlamento Europeu ocorreram reações furiosas à decisão da Dinamarca.

Fonte: http://noticias.uol.com.br/

A cor do dinheiro

Brasil insiste na ênfase aos instrumentos de controle em vez de tornar rentável a preservação do verde, diz ambientalista

IVAN MARSIGLIA

O tempo fechou na tentativa de votação do novo Código Florestal brasileiro, quinta-feira, na Câmara dos Deputados. Pouco antes de o governo suspender a sessão em que ambientalistas e ruralistas se queimavam no plenário, o relator, Aldo Rebelo (PCdoB-SP), reagiu a um post da ex-ministra Marina Silva no Twitter, que o acusava de fraudar o texto: "Quem fraudou foi o marido dela, que fez contrabando de madeira".

Dida Sampaio/AE                                             Dida Sampaio/AE

No plenário da Câmara, Aldo acusa marido de Marina de contrabandear madeira

Esse ambiente no Congresso, no pior estilo "massacre da serra elétrica" – filme de terror em que ninguém sobrevive no final -, não interessa ao Brasil. É o alerta do engenheiro florestal Virgílio Viana, de 50 anos, ex-professor da Esalq-USP e PhD em Biologia da Evolução pela Universidade Harvard: "A discussão que estamos vendo ninguém vai ganhar. Os ruralistas vão perder e os ambientalistas também".

Para o militante verde, que já foi chamado de "ambientalista de resultados" por seu trabalho à frente da Fundação Amazonas Sustentável (FAS), nossos parlamentares deveriam trocar as machadadas em torno de itens como o tamanho das reservas legais obrigatórias, as medidas das matas ciliares ou a anistia aos produtores em situação irregular, pela discussão de um novo paradigma de desenvolvimento – que faça da conservação do "mato", historicamente indesejado no País, uma atividade rentável.

O que está em jogo nessa discussão?

O que está em jogo é um paradigma de desenvolvimento. É a oportunidade de se repensar uma história equivocada de desenvolvimento, à luz de uma visão contemporânea. O que mais ilustra esse equívoco é o conceito de "mato". Para o brasileiro, floresta e mato são a mesma coisa: algo sujo e indesejável. Se eu for a sua casa e disser que seu quintal estava cheio de mato, passo a ideia de que você é relapso. Se disser que há grama e flores plantadas, você é um ótimo dono de casa. Então, não é por acaso que o Incra reconhece a posse de terra de quem desmata ou o Banco do Brasil dá crédito a quem derruba a floresta e a substitui por lavoura, uma "coisa útil". É preciso revisar isso. Mas o que se vê no Congresso hoje é um debate sectário e emocional.

Por que sectário?

Há um falso dilema entre agricultura e ambientalismo. O produtor rural depende da água da sua nascente. Sem ela, não consegue irrigar a terra ou dar de beber ao gado. Se as florestas ao redor das nascentes são desmatadas, elas secam. Então, manter a mata é bom para ele. A agricultura americana teve enorme prejuízo nos últimos anos porque a polinização das laranjeiras, feita pelas abelhas, está em declínio. O setor de controle de pragas também sofre com a derrubada de matas: não por acaso, muitas plantações de eucalipto para produção de papel e celulose são circundadas por florestas protegidas pelos donos. Não porque estes sejam ambientalistas, mas porque sabem que é a melhor forma de se proteger.

Nossa legislação ambiental é mesmo boa?

Discordo da maior parte dos meus colegas ambientalistas nesse ponto. O País tem uma legislação ambiental péssima. Por uma simples razão: ela não é cumprida. Estima-se que 90% dos proprietários rurais estejam em situação irregular hoje no Brasil. Fica a impressão para a sociedade que os produtores rurais, os moradores da roça, são contra a natureza. Essa ideia de que o urbano é verde e o rural é antiverde é falsa. A lei não permitir a coleta de um pé de açaí ou do mel de abelhas em uma APP (Área de Proteção Ambiental), por exemplo, fere o bom senso. É uma ideia de intocabilidade da natureza que nem Madre Tereza de Calcutá teria. Esse olhar precisa mudar.

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) solicitaram que o Congresso adie por dois anos a definição do novo código. O debate já está maduro no País?

É uma questão que não tem resposta única. Nós estaremos mais prontos para isso daqui a dois anos? Sim. Mas até lá teremos todas as respostas? Provavelmente não. Estudos científicos são sempre superados pelos seguintes. Por isso, defendo uma legislação dinâmica, mais na linha do direito anglo-saxão. Fixar em lei grandes diretrizes e ir ajustando o regulamento ao longo do tempo.

O que o novo texto deveria contemplar?

Os principais pontos em disputa são a largura da mata ciliar, a dimensão das APPs e reservas legais e a anistia ao produtores rurais. Defendo, como disse, certa flexibilização das APPs, abrindo a possibilidade de algum extrativismo que não ameace sua função ecológica. É razoável haver regime diferenciado na regularização dos produtores, de acordo com sua condição socioeconômica. Mas o cerne da questão não pode ser a largura das matas ciliares de 27, 30 ou 33 metros e sim a criação de instrumentos econômicos para a floresta gerar renda.

Como isso pode ser feito?

Já existem instrumentos para pagamento de serviços ambientais, o conceito mais interessante para instigar essa mudança de olhar. A floresta deve ser pensada como provedora de serviços. Ela estoca carbono, que é importante para o clima, tem valor. Produz polinizadores. Regula enchentes de rios. Então é preciso remunerar quem mantém a floresta. A água, por exemplo: uma parte do preço do metro cúbico de água tem que bater no bolso do agricultor que protege nascentes. Só dois fatores podem mudar o paradigma do mato: educação e dinheiro. São esses instrumentos econômicos que faltam no Código Florestal.

Quem pagaria pelos ‘serviços ambientais’?

O financiamento deve ser público e privado, mas principalmente privado. Por meio, inclusive, de mecanismos de compensação em outras regiões. Assim, um produtor de soja que deseje aumentar sua área plantada responsabiliza-se pela recuperação do dobro de espaço em outro bioma no cerrado ou um fazendeiro de cana de Ribeirão Preto custeia um projeto na Amazônia. É um jogo de ganha-ganha, uma forma de conectar o agronegócio rico brasileiro com o pobre rural. As políticas ambientais não só do Brasil mas da América Latina padecem de um equívoco trágico: o excesso de ênfase nos instrumentos de controle. Faz-se a lei e dá-se a multa. Aí ninguém cumpre a lei, nem paga a multa. A discussão que estamos vendo no Congresso ninguém vai ganhar. Os ruralistas vão perder e os ambientalistas também. O que precisamos é de um pensamento ambientalista estratégico. Enquanto não enxergarmos o mato como riqueza, vamos ficar batendo cabeça.

Fonte: http://www.estadao.com.br/

Embaixador da Palestina visita MST e agradece solidariedade

Esteve presente na Secretaria Nacional do MST o embaixador do Estado da Palestina no Brasil, Ibrahim Al Zeben, no dia 20 de junho. Junto com ele estava o representante da Federação de Entidades Palestinas do Brasil (Fepal), Emir Mourad.

MST

   

Ibrahim agradeceu a solidariedade prestada pelo MST à luta do povo palestino e relembrou momentos importantes desse apoio – como em 2002, quando uma delegação da Via Campesina esteve, por 22 dias, junto de Yasser Arafat no quartel general da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), em Ramallah-Cisjordânia.

Marcelo Buzetto, da coordenação do MST, fez um relato das viagens que membros do MST fizeram para a Palestina em 2010 e 2011, dos contatos com movimentos de camponeses, de mulheres e com organizações políticas e sociais palestinas, além da esquerda israelense.

Condições favoráveis

Segundo Ibrahim, as mobilizações populares no mundo árabe e a situação internacional criaram condições favoráveis para que ocorresse a unidade entre as forças políticas da resistência palestina. Celebrando o recente acordo firmado entre os partidos Al-Fatah (Movimento de Libertação Nacional) e Hamas (Movimento de Resistência Islâmica) – que governam a Cisjordânia e Gaza, respectivamente – ressaltou que a pressão do próprio povo palestino ajudou a acelerar tal união. "Como disse certa vez Yasser Arafat: ‘o povo sempre está à frente das lideranças’", relembrou o embaixador.

De acordo com ele, todos os partidos políticos que integram a OLP assinaram o acordo, inclusive a Frente Popular pela Libertação da Palestina (FPLP), a Frente Democrática pela Libertação da Palestina (FDLP) e o Partido do Povo Palestino (PPP), que representam os comunistas e marxistas no interior da OLP.

A necessidade de unificar todas as forças políticas da resistência palestina num mesmo espaço de debate, articulação e ação conjunta levou lideranças de partidos como HAMAS e Jihad Islâmica a debater sua incorporação à OLP, já que esses dois partidos representantes do nacionalismo islâmico palestino sempre estiveram fora dessa organização.

Como parte do processo de unificação das forças políticas palestinas está o esforço de democratização da OLP e de ampliação da participação de diferentes partidos nas instâncias da direção desta frente nacional e patriótica que, desde 1964, vem lutando cotidianamente pela criação de um Estado Palestino Laico e Democrático.

Apoio da CMS

Buzetto e Emir Mourad também aproveitaram para informar o Embaixador sobre as iniciativas que estão sendo organizadas por entidades ligadas à Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS) e à comunidade árabe-palestina, no sentido de desencadear, no Brasil, uma forte e ampla Campanha pela criação do Estado da Palestina Já!.

Seguindo as orientações e atendendo aos anseios do próprio povo palestino e de seus legítimos representantes, MST e Fepal reafirmaram a disposição em priorizar a luta para que a Organização das Nações Unidas (ONU) aprove, em setembro, a integração do Estado da Palestina como membro pleno, com todos os direitos e deveres que tal decisão implica.

De julho a setembro, a OLP e seus aliados em todo o mundo estarão travando essa batalha pela justiça e pelos direitos inalienáveis do povo palestino.

A coordenação do MST entregou para o Ibrahim e para Emir Mourad uma bandeira, um boné e livros que contam a história da luta pela Reforma Agrária no Brasil, e foi reafirmado o compromisso das trabalhadoras e dos trabalhadores rurais Sem Terra de continuar a luta pela criação do Estado da Palestina, livre, democrático e soberano.

Ibrahim convidou o Movimento para uma visita à Embaixada da Palestina, em Brasília, para continuar o debate sobre ações conjuntas para os próximos meses.

Na tarde do dia 20, houve uma reunião da Via Campesina Brasil para discutir a construção do 1° Encontro de Camponeses, Trabalhadores Rurais e Pescadores da Palestina: construindo a Via Campesina e a formação de uma brigada de trabalho voluntário para a colheita de azeitonas, entre outubro e novembro, na própria Palestina.

MST, Comissão Pastoral da Terra-CPT, FEPAL, Ibrahim e diversas outras organizações e pessoas participaram de uma reunião da Campanha Pelo Estado da Palestina Já!.

Fonte: http://www.mst.org.br/

Um equívoco

O Ministério da Educação está prestes a cometer um grave equívoco. Na semana passada, o Conselho Nacional de Educação aprovou diretrizes “flexibilizando” o ensino médio. Tais diretrizes dão às escolas públicas e privadas autonomia para compor a grade curricular de seus alunos a partir de quatro obscuros eixos temáticos: trabalho, tecnologia, ciência e cultura.

Vladimir Safatle

Tal possibilidade de composição visa, entre outras coisas, favorecer o agrupamento de disciplinas, que se organizarão a partir de projetos comuns capazes de levar em conta os interesses específicos das comunidades nas quais as escolas estão inseridas.

As novas diretrizes ainda sugerem que a lei que aumenta em 20% o número de horas-aula leve em conta atividades fora da sala de aula.

O argumento para a primeira modificação é a adequação às particularidades. Uma escola em área industrial poderia, assim, dar mais ênfase a disciplinas como física e química. Certamente, para fornecer mão de obra mais adequada para as industrias locais.

Uma outra, estabelecida em área turística, talvez pudesse ensinar uma versão “Club Med” de geografia.

Vejam que interessante. Em um momento no qual se insiste na necessidade de formações capazes de abrir nossos alunos para realidades globais, resolve-se formá-los para trabalhar melhor na fábrica de tecidos da esquina. Como se eles passassem o resto de suas vidas no mesmo lugar.

Há de se perguntar se não necessitaríamos, na verdade, da definição de um currículo básico unificado a ser ministrado em todas as escolas e cuja aplicação adequada seria objeto de avaliação feita por uma inspetoria nacional.

Não creio haver alguém que discorde da importância de ensinar, de maneira aprofundada, as causas da Segunda Guerra, equações de segundo grau, o sistema literário brasileiro e as leis de Newton, em São Paulo ou em Roraima.

Podemos não estar de acordo sobre todos os conteúdos, mas se o Ministério da Educação ouvisse diretamente os professores, certamente ele seria capaz de criar um currículo básico que não colocaria nossos alunos à mercê dos caprichos do dia.

Tais caprichos ficam claros em ideias como “agrupamento de disciplinas”. Trata-se de organizar os conteúdos através dos interesses mais imediatos, normalmente aqueles ligados a notícias que aparecem na imprensa.

Assim, se a notícia do mês é o terrorismo islâmico, então agrupa-se disciplinas de história, geografia etc. para “criar projetos” capazes de dar conta da curiosidade geral.

Se nada aparecer sobre “ditadura militar”, então seus conteúdos serão secundarizados. O mínimo que se pode dizer é: triste o país que forma seus adolescentes ao sabor dos ventos.

Fonte: http://www.chicoalencar.com.br/

A conta ainda está aberta

A ditadura, instaurada em 1964 por meio de um golpe que terminou com a democracia no Brasil, cometeu graves crimes contra os direitos humanos.

Emir Sader

O presidente legítimo do País foi deposto; parlamentares e juízes foram destituídos; todos os sindicatos e associações populares sofreram intervenção; os meios de comunicação passaram a ter severa censura; escolas e universidades foram invadidas. Centenas de milhares de pessoas foram presas arbitrariamente, grande parte delas submetida à tortura nos interrogatórios, muitos foram mortos.

O regime militar perseguiu e buscou destruir tudo o que tivesse a ver com a democracia: Parlamento, Justiça, partidos políticos, sindicatos, organizações populares, entidades educacionais, imprensa, editoras, personalidades políticas, culturais, artísticas. Houve uma militarização completa do Estado brasileiro, com o Serviço Nacional de Informações (SNI) ocupando lugar central no regime e no controle e repressão dos opositores ou supostos divergentes.

A ditadura se norteou pela Doutrina de Segurança Nacional, instrumento ideológico dos Estados Unidos na Guerra Fria que condenava todo dissenso como sabotagem. A doutrina foi difundida no Brasil pela Escola Superior de Guerra, cujos principais próceres eram Humberto Castello Branco e Golbery do Couto e Silva. Esse movimento desembocou, depois de várias tentativas anteriores contra Getúlio Vargas, JK e o próprio Jango, no golpe de 1964, que reorganizou o Estado brasileiro em torno das FFAA (abreviatura de Forças Armadas).

Para extirpar tudo o que definiam como subversão, legitimaram o uso da tortura e a desaparição física dos opositores. Foi um regime de terrorismo de Estado, que cometeu atrocidades contra os direitos humanos de todos que classificava como opositores.

A ditadura esgotou-se, conforme seu modelo econômico foi golpeado duramente pela crise da dívida (haviam endividado o País com empréstimos a juros flutuantes e estes subiram drasticamente), pelo crescimento da oposição social (especialmente com as greves do ABC no período de 1977-1979) e da -oposição política (com os avanços eleitorais do MDB). No entanto, a derrota não foi abertamente consumada: foram os próprios ditadores que comandaram o processo de transição para a democracia.

No bojo dessa manobra, a ditadura definiu um calendário de transição: passaria à eleição do presidente da República, de forma indireta, em 1985, e uma Lei de Anistia. Havia uma ampla campanha pela anistia geral e irrestrita em relação a todos os condenados pela ditadura, incluídos os exilados. A ditadura decretou uma anistia que, sob o pretexto de pacificar os conflitos e esquecer o passado, incluía a todos, torturadores e torturados, repressores e reprimidos.

Foi dessa forma que se pretendeu prescrever de forma total e definitiva todos os crimes cometidos durante a ditadura, colocando no mesmo plano os que haviam exercido a violência sistematicamente em nome do Estado militar e os que haviam resistido a ela, apelando para o princípio consagrado na Declaração Universal dos Direitos do Homem, do direito à resistência armada contra as tiranias.

Retirada do poder

A transição da ditadura à democracia transcorreu nesse marco, incorporando a Lei da Anistia da própria ditadura. O tema não voltou à discussão, a oposição se valeu dela para a liberdade dos presos políticos, o retorno dos exilados e, no marco do projeto de transição dirigido pelos militares, reorganizar suas forças políticas e sociais. A democratização conviveu assim com a Lei da Anistia e a abolição total da -possibilidade de investigação dos crimes da ditadura.

Nos outros países da região, a retirada dos militares do poder se deu em condições um pouco distintas. No Uruguai e no Chile, as ditaduras convocaram referendos que pretendiam legalizar a sua prolongação no poder, mas foram derrotadas, configurando assim um quadro de revés político no final do regime militar. Na Argentina, os militares no poder tentaram reativar uma reivindicação tradicional do país diante da Inglaterra – a recuperação das Ilhas Malvinas – mediante operação militar, em que conseguiram galvanizar o apoio nacional, até que foram derrotados, com comportamento vergonhoso da oficialidade, que desertou, abandonando os soldados à sua sorte. A comparação desse comportamento com os selvagens interrogatórios que essas mesmas armas realizavam contra os opositores só aumentou a frustração e a ira popular, fazendo com que fosse abreviado o fim da ditadura.

Assim, ao contrário do Brasil, as ditaduras argentina, uruguaia e chilena sofreram derrotas políticas no final desses regimes. Isso as enfraqueceu para poder limitar as investigações sobre o ocorrido durante as ditaduras. Praticamente todas elas apelaram para o expediente da Anistia, em que incluíam a si mesmas. Porém, uma vez terminado o regime militar, não tiveram força política para manter a limitação que impunham.

No Brasil, as FFAA comandaram o processo de transição política. Se houve a derrota de Maluf no Colégio Eleitoral, isso não pode ser caracterizado como um revés politico do regime militar, porque o outro candidato já não era Ulysses Guimarães – com quem os militares tinham muitos problemas –, mas o moderado Tancredo Neves, no marco de uma aliança do PMDB com o PFL, com quadros provenientes da ditadura. Pode-se dizer assim que a transição para a democracia se deu sob controle do regime militar.

Comissão da Verdade

Com a volta à democracia, passamos inicialmente por um momento de não retomada das violações dos direitos humanos. Foi durante os anos 90 e, especialmente, na década passada, que a questão da não prescrição dos crimes de tortura e da necessidade de divulgação de todos os documentos referentes ao período da ditadura apareceu com temas relevantes. O governo Lula considera que abriu a todos os arquivos à sua disposição. Mas aqueles de posse das FFAA foram destruídos, segundo estas, o que impede a apuração dos fatos. Na mesma direção, vários setores militares consideram indevido voltar a um tema considerado superado e que traria discórdias políticas. Alegam que os temas da violência durante a ditadura deveriam abarcar também aqueles cometidos pelas forças de resistência à ditadura.

A iniciativa de um Plano Nacional de Direitos Humanos, em 2009, não conseguiu força política suficiente para avançar, ao unir no mesmo documento temas diversos, como os da tortura e do aborto. Atraiu, assim, adversários muito distintos. Tornou-se inviável. A proposta da Comissão da Verdade no governo Dilma busca limitar seu objetivo, centrando-se na apuração dos fatos, sem tocar no tema do castigo a seus responsáveis. Consegue um consenso mais amplo, mas ainda assim a resistência de setores militares se faz sentir. Na aprovação parlamentar da proposta do governo, no formato enviado ao Congresso, se verificará se a força lograda desta vez permitirá que, finalmente, o Brasil esclareça todos os aspectos pendentes de esclarecimento sobre as sistemáticas violações dos direitos humanos durante a ditadura militar.

Emir Sader é graduado em Filosofia e coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro)

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/

Mídia e poder na sociedade do espetáculo

A eleição de Dilma retomou o debate sobre a influência dos grandes conglomerados na opinião pública

Cláudio Novaes Pinto Coelho

  Ilustração Adriano Paulino

Um dos principais equívocos sobre a sociedade contemporânea é o argumento de que o conjunto dos meios de comunicação, a mídia, é a instituição social mais poderosa. Fazem parte desse argumento expressões problemáticas como “sociedade midiatizada”, “cultura da mídia” etc.

Antes de mais nada, é preciso distinguir quais meios de comunicação possuem poder e que tipo de poder exercem. Não há dúvida de que conglomerados empresariais como as Organizações Globo, no contexto brasileiro, e a News Corporation, de Rudolph Murdoch, no contexto mundial, são exemplos de instituições poderosas, que movimentam enorme quantidade de capital, influenciam comportamentos individuais e coletivos e agem politicamente, defendendo seus próprios interesses e os interesses da sociedade capitalista de modo geral. De forma alguma essas empresas podem ser consideradas como fazendo parte de uma mesma instituição social, com todos aqueles que são produtores de mensagens e utilizam algum tipo de recurso tecnológico.

O conceito de “indústria cultural”, ainda que tenha sido criado por Adorno e Horkheimer na primeira metade do século passado, explica muito melhor a atuação dos meios de comunicação do que o termo “mídia”, pois destaca a dimensão econômica da comunicação. Adorno e Horkheimer, no livro Dialética do Esclarecimento, publicado em 1947, já indicavam que os conglomerados empresariais que atuam na comunicação são fundamentais para a existência da sociedade capitalista, mas que seu poder depende do poder dos conglomerados empresariais de modo geral.

Sociedade do espetáculo e capitalismo

A própria expressão “sociedade do espetáculo” pode dar margem a interpretações equivocadas, se for entendida como o poder que as imagens exercem na sociedade contemporânea. É certo que Guy Debord, o criador do conceito de “sociedade do espetáculo”, definiu o espetáculo como o conjunto das relações sociais mediadas pelas imagens.

Mas ele também deixou claro que é impossível a separação entre essas relações sociais e as relações de produção e consumo de mercadorias. A sociedade do espetáculo corresponde a uma fase específica da sociedade capitalista, quando há uma interdependência entre o processo de acúmulo de capital e o processo de acúmulo de imagens. O papel desempenhado pelo marketing, sua onipresença, ilustra perfeitamente bem o que Debord quis dizer: das relações interpessoais à política, passando pelas manifestações religiosas, tudo está mercantilizado e envolvido por imagens.Mas, se a sociedade do espetáculo só pode ser compreendida dentro do contexto da sociedade capitalista, isso não quer dizer que só nessa forma de vida social ocorre a produção de espetáculos.

A produção de imagens, a valorização da dimensão visual da comunicação, como instrumento de exercício do poder, de dominação social, existe, conforme argumenta Debord no livro Sociedade do Espetáculo, publicado em 1967, em todas as sociedades onde há classes sociais, isto é, onde a desigualdade social está presente graças à divisão social do trabalho, principalmente a divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual.

Na sociedade feudal, por exemplo, o poder da nobreza sobre os servos estava vinculado à aparência de superioridade construída pelos nobres, mediante o uso de peças sofisticadas de vestuário, a construção de moradias com estilos arquitetônicos imponentes, a organização de festas suntuosas etc. O que permite a caracterização do capitalismo como a sociedade do espetáculo é o caráter cotidiano da produção de espetáculos, a quantidade incalculável de espetáculos produzidos e seu vínculo com a produção e o consumo de mercadorias feitas em larga escala.

O poder espetacular

Na sociedade capitalista, o poder espetacular está disseminado por toda a vida social, na qual há simultaneamente produção e consumo de mercadorias e de imagens, constituindo-se na forma difusa desse poder, conforme definição dada por Debord em 1967, ou ocorre vinculado à ação do Estado, de forma concentrada, com a produção de imagens para justificar o poder exercido por seus dirigentes.

Assim como o conceito de “indústria cultural”, o conceito de “sociedade do espetáculo” faz parte de uma postura crítica com relação à sociedade capitalista. Não são conceitos pensados de maneira puramente acadêmica, como capazes apenas de descrever as características sociais, mas fazem parte de uma construção teórica que procura apontar aquilo que se constitui em entraves para a emancipação humana.

Na década de 1960, Guy Debord e os demais militantes políticos e culturais aglutinados em torno da Internacional Situacionista destacaram-se pela capacidade de influenciar um dos mais importantes movimentos sociais do século 20, que contou com a participação de milhões de estudantes e operários e entrou para a história como o movimento de maio de 1968. Os situacionistas defendiam uma ação contra a alienação presente na vida cotidiana, postulando que os estudantes e os trabalhadores deveriam retomar o controle sobre suas próprias vidas, ocupando as escolas e fábricas e passando a exercer, com base em decisões tomadas coletivamente em assembleias, o poder nessas instituições. As ocupações aconteceram, mas fracassaram como estratégia para revolucionar a sociedade capitalista.

Em 1988, Debord publica os Comentários sobre a Sociedade do Espetáculo, reconhecendo que, em vez de a sociedade do espetáculo ser destruída, ela se fortaleceu no período histórico posterior às lutas sociais de 1968. Nesse texto, ele afirma que a produção de espetáculos tomou conta de toda a vida social; o poder espetacular manifesta-se agora de forma integrada, já que desapareceram os movimentos sociais de oposição, que se assimilaram à sociedade capitalista e não defendem mais sua superação.

A análise feita por Debord em 1988 a respeito do poder espetacular corresponde ao momento do triunfo do neoliberalismo em escala mundial. O neoliberalismo, com a defesa da liberdade de atuação para os grandes conglomerados empresariais, significou um retrocesso nas conquistas sociais dos trabalhadores, causando o avanço do desemprego, da precarização das condições de trabalho, e o enfraquecimento dos sindicatos, movimentos sociais e partidos de esquerda.

Com o neoliberalismo, o poder dos conglomerados comunicacionais fortalece-se e a indústria cultural, articulada mundialmente, transforma-se no porta-voz ideológico do capitalismo, desqualificando qualquer visão contrária a ele como ultrapassada, promovendo assim o pensamento único, em relação ao qual não há alternativa.

O contexto contemporâneo

A atual crise econômica, que se manifesta intensamente nos Estados Unidos e na Europa e faz com que somas gigantescas, na casa dos trilhões de dólares, sejam direcionadas pelos governos para “salvar” instituições financeiras envolvidas numa verdadeira orgia especulativa, está provocando um abalo significativo no neoliberalismo e no pensamento único.

Na América Latina, esse abalo teria começado antes, com a ascensão ao poder de líderes políticos considerados de esquerda. No entanto, não é muito fácil avaliar se essa ascensão significou efetivamente um abalo no neoliberalismo, já que, na prática, são governos com atitudes bastante distintas. No Brasil, por exemplo, em que pese a melhoria das condições de vida da maioria da população com a diminuição das desigualdades sociais, houve, em linhas gerais, uma manutenção da política econômica neoliberal. Além disso, nas campanhas eleitorais e durante os mandatos presidenciais de Lula ocorreu uma farta utilização das técnicas de marketing para a produção de imagens espetaculares capazes de garantir sua eleição, reeleição e altíssimos índices de popularidade.

Mas, de qualquer maneira, a realidade contemporânea possui elementos suficientes para que uma reflexão sobre a possibilidade de um retorno da crítica teórica e prática da sociedade capitalista do espetáculo se torne indispensável. No contexto brasileiro, a vitória da candidata Dilma Rousseff significou a retomada do debate sobre um eventual declínio da capacidade de os grandes conglomerados comunicacionais influenciarem a opinião pública.

Esse debate já havia acontecido à época da reeleição de Lula, quando a atuação desses conglomerados, com a divulgação intensa de “escândalos” envolvendo figuras importantes do PT, contribuiu de forma decisiva para a existência do segundo turno eleitoral, que, no entanto, foi vencido por Lula. Na campanha de 2010, a atuação dos grandes grupos comunicacionais, em especial a mídia impressa, foi ainda mais forte contra a candidata do PT, mas o resultado final foi o mesmo: houve um segundo turno vencido por Dilma Rousseff.

Um aspecto importante, que precisa ser levado em consideração, é que é a mídia eletrônica, em especial a Rede Globo de Televisão, a principal mídia capaz de influenciar a opinião pública em escala nacional, atingindo todas as classes sociais. Ainda que a cobertura eleitoral feita pela Globo possa ser considerada favorável à candidatura Serra, basta lembrar o destaque dado à “agressão” sofrida por Serra no Rio de Janeiro: em nenhum momento ela atingiu o caráter de uma ação sistemática de desqualificação da candidatura Dilma, como a cobertura feita pela Veja.

Também precisa ser levado em consideração que, em São Paulo, o PSDB governa o estado há mais de uma década, com total apoio da chamada grande mídia. Além disso, José Serra foi o candidato à Presidência mais votado no estado, evidenciando o peso das posturas políticas mais conservadoras, amplamente hegemônicas no jornalismo dos grandes conglomerados comunicacionais.

Embora o governo Lula não possa ser considerado um governo que rompeu com o neoliberalismo, só o fato de ele ter sido um líder operário eleito pelo partido que se afirma como defensor dos trabalhadores e com um passado político vinculado à defesa de posições de esquerda já foi suficiente para gerar uma forte onda conservadora na grande mídia, especialmente na mídia impressa. Se essa onda conservadora não foi capaz de superar a imagem positiva de Lula trazida principalmente pela retomada do crescimento econômico acontecida em seu governo, ela não pode ser deixada de lado e se fez presente com força na campanha eleitoral de 2010, principalmente em torno da questão do aborto.

Como o passado político de Dilma Rousseff é ainda mais problemático do ponto de vista do conservadorismo político, visto que ela se envolveu na luta armada contra a ditadura militar, é provável que a reação conservadora seja ainda mais forte do que foi contra o governo Lula. Caso isso aconteça, é possível que o governo Dilma avance no sentido de uma ruptura com o neoliberalismo, ou pelo menos na direção de uma postura ideológica de esquerda mais definida, diminuindo o uso do marketing político e da produção de espetáculos políticos, inclusive porque, se Lula dificilmente sairá do cenário político, ele não estará mais ocupando a posição central.

Cláudio Novaes Pinto Coelho é professor da Faculdade Cásper Líbero

Fonte: http://revistacult.uol.com.br/

O sucesso das civilizações

Por que certas civilizações desaparecem? Segundo o prestigiado geógrafo norteamericano Jared Diamond, autor de best-sellers como Armas, Germes e Aço, Colapso e O Terceiro Chimpanzé, quem maltrata o ambiente paga.

Regina Scharf

Se a humanidade tivesse um psicanalista, seu nome seria Jared Diamond. Ele não fuma cachimbo, não usa divã, é professor de geografia e de fisiologia na Universidade da Califórnia (EUA), domina línguas do Pacífico Sul e se dedicou durante décadas ao estudo da evolução dos pássaros. Talvez a versatilidade explique o sucesso dos seus livros – mais de 1,5 milhão de exemplares vendidos em dezenas de línguas.

Diamond une os pontos que conectam eventos e personagens díspares, como os conquistadores espanhóis e os povos maoris da Nova Zelândia, para entender o que está por trás das vitórias e derrotas da humanidade. Concluiu, por exemplo, que as sociedades se desenvolvem de modos distintos devido às suas peculiaridades ambientais, não genéticas. Assim, brancos indo-europeus dominaram a maior parte do mundo não por uma superioridade inata, mas porque vêm de regiões excepcionalmente generosas, em termos ecológicos.

Os europeus tiveram, por exemplo, acesso a espécies animais e vegetais fáceis de domesticar. Há dez mil anos, carneiros e cabras já pastavam à sombra das plantações de trigo e de oliveiras no Crescente Fértil, no Oriente Médio. O resto do mundo dependia da caça e da coleta, mas os ancestrais de iraquianos e sírios conseguiam acumular alimentos e, com isso, ganharam uma vantagem competitiva essencial. Graças ao desenvolvimento precoce da agropecuária, eles podiam se dar ao luxo de procriar à vontade, desenvolver tecnologias sofisticadas e organizar exércitos.

Mas, segundo Diamond, o que a natureza dá também pode tirar. Problemas ambientais foram responsáveis pelo desaparecimento de diversas civilizações. O próprio Crescente Fértil, que foi o primeiro celeiro agrícola da humanidade, hoje é coberto por desertos e solos erodidos e salinizados, impróprios para o plantio. A pouca chuva não permitiu que a terra se recuperasse de séculos de maus-tratos. "Foi um suicídio ecológico. Sem querer, eles destruíram os recursos ambientais de que sua sociedade dependia. Da mesma forma como a ascensão dessa região não se deu devido a alguma virtude especial de seu povo, a sua decadência também não se deve à sua cegueira especial", afirma.

Essa linha de pensamento começou a tomar forma quando Diamond publicou O Terceiro Chimpanzé, em 1991, que acaba de ser lançado no Brasil pela Editora Record. Nele, discute como nós, humanos, com uma genética 99,3% idêntica à dos chimpanzés, alcançamos tamanha sofisticação. Essas diferenças mínimas teriam sido suficientes para diferenciar as nossas laringes e línguas, e isso permitiu que controlássemos os mecanismos da linguagem verbal. E falar, diz Diamond, é o que faz toda a diferença entre um humano e outros primatas.

Seis anos depois ele publicou Armas, Germes e Aço, que lhe deu o Pulitzer, principal prêmio literário norte-americano. Ali investigou o que levou certos povos a prevaleceram sobre outros. Como explicar que um punhado de espanhóis que desembarcaram no Peru – 600 soldados – tenha conseguido dominar milhares de guerreiros incas e uma sofisticada sociedade? No caso, responde, os espanhóis tinham uma tecnologia superior e carregavam microrganismos para os quais os incas não tinham resistência – vantagens derivadas, de uma forma ou de outra, também do meio ambiente onde sua civilização se originou.

O mais recente livro de Jared Diamond, Colapso, de 2005, faz o caminho inverso para investigar o lado dos perdedores. Por que certas civilizações simplesmente desaparecem? Segundo o autor, muitas maltrataram o meio ambiente e pagaram por isso. Para ele, as civilizações são derrotadas devido à destruição dos recursos naturais, à sua dificuldade de reagir diante de mudanças climáticas, à forma como se relacionam com seus vizinhos e também devido às suas idiossincrasias políticas e culturais, que as impedem de tomar decisões acertadas.

Apesar do sucesso editorial, Diamond, é claro, não está imune às críticas. Ele é acusado de ser excessivamente "politicamente correto" na sua campanha contra o racismo e de desconsiderar a importância da cultura na evolução das civilizações. Nessa entrevista a PLANETA, ele se defende das acusações, fala sobre como vê o futuro próximo do mundo e manifesta sua crença na nossa capacidade de resolver os problemas que nós mesmos criamos.

O sr. é um otimista que acredita que podemos resolver os problemas que criamos. Desde que o sr. escreveu O Terceiro Chimpanzé, há 20 anos, tanto os problemas ambientais quanto a conscientização da população aumentaram consideravelmente. O sr. vê uma mudança de rumo para o desastre ou para a redenção? Acho que a tendência continua a mesma: a humanidade enfrenta problemas sérios, problemas que nós mesmos causamos e que poderíamos deixar de causar se decidíssemos fazer algo nesse sentido. É como se assistíssemos a uma corrida de cavalos em que dois animais correm cabeça a cabeça. A velocidade aumenta num ritmo exponencial, sem um sinal claro de que um dos dois está efetivamente tomando a dianteira. É muito difícil saber quem vai ganhar. Da mesma forma, fica difícil discernir uma tendência na disputa entre os nossos problemas e soluções.

"As sociedades se desenvolvem de modo distinto devido às

suas peculiaridades ambientais, não genéticas"

O sr. sempre lembra que o crescimento populacional tende a multiplicar conflitos. Hoje, as taxas de natalidade estão caindo na maior parte do mundo. Podemos esperar que haja mais paz? Embora a taxa de natalidade esteja caindo, indivíduos de quase todas as sociedades consomem cada vez mais. No fim das contas, o volume de bens consumidos continua a crescer. Os conflitos tendem a aumentar quando há um crescimento do consumo – e não somente pela mera expansão da população. Assim, prevejo, e isso já pode ser observado, que os conflitos vão aumentar.

O desequilíbrio entre a demanda dos consumidores e a disponibilidade de recursos naturais é, justamente, uma das razões na origem do colapso de várias civilizações. Como enfrentar essa disparada do consumo nos países emergentes? As taxas médias de consumo ao redor do planeta têm de ser reduzidas, mas a diferença entre o quanto os países desenvolvidos e os emergentes consomem também tem de diminuir. Isso significa que os países em desenvolvimento têm de consumir mais e os países ricos, menos. Não há outra forma de criar um mundo estável e sustentável.

A cultura é cada vez mais homogênea ao redor do mundo. Como isso compromete a nossa capacidade de reagir às crises globais? De fato, alguns aspectos da cultura são cada vez mais homogêneos ao redor do mundo. Por exemplo, você e eu nos comunicamos por e-mail em inglês. Esse aspecto da globalização torna mais fácil responder a crises globais, porque as pessoas ao redor do mundo podem se comunicar entre elas e compartilhar recursos. Mas a globalização também compromete a nossa capacidade de reagir às crises porque, não importa onde elas ocorram (no Haiti, na Somália, no Iraque, no Afeganistão ou no Egito), oferecem riscos potenciais a todos os outros países. Assim, o mundo inteiro corre o risco de entrar em colapso, e não apenas países isolados.

O sr. foi acusado de ser um determinista ambiental. Não é arriscado, politicamente, usar o argumento de que o meio ambiente determina o sucesso de uma civilização? Dizer que o meio ambiente físico influencia o sucesso de uma dada população não é mais arriscado do que basear as suas decisões em qualquer outro fato estabelecido, como o de que os trópicos são mais quentes que as zonas temperadas, que as florestas tropicais são mais úmidas que os desertos e que o céu é azul. Qualquer um que duvida que o meio ambiente influencia o sucesso de uma população deveria se perguntar por que a região Sul do Brasil é mais rica que o Nordeste, por que o Brasil produz etanol de cana com muito mais eficiência que os Estados Unidos ou por que os esquimós no Ártico não desenvolveram a agricultura. Todos esses fatos são consequências diretas do meio ambiente.

Existe um mito, no Brasil, de que o país seria mais bem-sucedido se tivesse sido colonizado pelos ingleses ou pelos holandeses, em vez dos portugueses. Qual é a sua opinião?

Você tem de lembrar que, mesmo dentro da América do Sul, enquanto os portugueses colonizavam o Brasil, os ingleses colonizavam a Guiana e os holandeses, o Suriname. E o que vemos hoje? A antiga colônia portuguesa desfruta de um produto interno bruto per capita duas vezes maior que o das duas outras ex-colônias. Lembre, também, que o Paquistão e a Nigéria foram colonizados pelos ingleses e os holandeses colonizaram a Indonésia. Agora pergunte a você mesma: você preferiria viver no Brasil, no Paquistão ou na Indonésia? O sucesso do Brasil resultou de uma combinação do meio ambiente favorável com o esforço de 190 milhões de brasileiros. O Brasil é o país mais poderoso da América Latina e está se transformando num dos mais poderosos do mundo. Vocês não têm do que reclamar.

"O sucesso do brasil resulta da combinação de um meio ambiente favorável com o esforço de 190 milhões"

O Terceiro Chimpanzé, de 1991, mostra o que há de especial no animal humano.

Armas, Germes e Aço, de 1997, explica por que alguns povos prevalecem sobre outros.

Colapso, de 2005, analisa como as civilizações entram em decadência e declinam.

Fonte: http://www.terra.com.br/

Uma única terra

Há 85 anos, o alemão Reinhard Maack achava, no Brasil, evidências sobre a origem dos continentes

Neldson Marcolin

© Acervo de Alessandro Casagrande/fotos de Reinhard maack        Maack lê mapa durante expedição no rio Ivaí, em 1934, enquanto material seca

A teoria de que todos os continentes estiveram unidos formando uma única extensão de terra há cerca de 250 milhões de anos foi proposta, de modo cientificamente fundamentado, pelo geólogo e meteorologista alemão Alfred Lothar Wegener em 1912. No livro A origem dos continentes e oceanos, publicado em 1915, reuniu evidências morfológicas (o “encaixe” da América do Sul com a África), paleoclimáticas (vestígios de glaciares em terras tropicais) e paleontológicas (fósseis de plantas tropicais no Ártico) para compor sua hipótese. A teoria foi debatida nas décadas seguintes e rejeitada pela maioria dos cientistas porque faltava uma boa explicação para a movimentação dos continentes. Alguns anos depois, no Brasil, um outro alemão, Reinhard Maack (1892-1969), achou evidências geológicas no oeste de Minas Gerais que iam na mesma direção dos trabalhos feitos por Wegener.

Maack havia passado 11 anos na colônia alemã África do Sudoeste (atual Namíbia) trabalhando como técnico em geodésia. Nos seus primeiros anos no Brasil realizou pesquisas no cerrado mineiro e deparou-se com formações geológicas iguais às da Namíbia. No mesmo ano dessa descoberta, em 1926, ele a descreveu no artigo “Uma viagem de pesquisa do planalto de Minas Gerais até o Paranaíba”, publicado na Revista da Sociedade de Geografia em Berlim. “Foi o primeiro trabalho de pesquisa de Maack no Brasil e tinha várias falhas, mas suas observações foram comprovadas anos mais tarde”, conta o agrônomo Alessandro Casagrande, da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e coordenador da Rede Brasileira de História Ambiental-RBHA, autor de um capítulo sobre o alemão no livro Histórias de uma ciência regional, organizado por Fabiano Ardigó (Contexto, 2011).

Maack foi para a Namíbia em 1911. Lá realizou serviços de topografia para o governo e fazendeiros da colônia ao mesmo tempo que efetuava expedições memoráveis como a de 1917, que determinou a altura da Brandberg, a montanha mais alta do país, com 2.585 metros. Na mesma região, descobriu uma gruta com pinturas rupestres que foram reproduzidas em desenho por ele e posteriormente se tornaram importantes ao serem estudadas por historiadores da Pré-história. O afresco rupestre conhecido como Dama branca, por exemplo, ganhou grande notoriedade.

Em 1923, ele veio ao Brasil contratado pela Companhia de Mineração e Colonização Paranaense. Radicou-se em Curitiba, mas continuou fazendo expedições pelo mundo em razão de seu interesse pela história geológica da Terra. Voltou à Alemanha algumas vezes para estudar – em 1949, aos 57 anos, recebeu o título Rer. Nat. (doutor Rerum naturalium) com o trabalho sobre a glaciação gondwânica do Carbonífero Superior apresentado na Universidade de Bonn.

No Paraná Maack teve atuação marcante. Explorou rios como o Tibagi e o Ivaí, determinou a altura do pico do Paraná – batizado e escalado por ele –, publicou o mapa geológico e fitogeográfico do estado e foi crítico de primeira hora da destruição das florestas.Também sofreu reveses: por ser alemão, foi encarcerado no presídio da Ilha Grande, no Rio, durante a Segunda Grande Guerra. Em 1946 tornou-se professor na Universidade do Paraná, atual UFPR. Sua obra mais conhecida é A geografia física do estado do Paraná.

“Maack defendia a teoria de Wegener e viajou muito para comprová-la”, diz João José Bigarella, professor catedrático da UFPR, que trabalhou com o alemão. “Os norte-americanos sempre duvidaram dela, mas mudaram de posição no final da década de 1950 com as novas descobertas que surgiram.” A ideia central de Wegener – de que todos os continentes estiveram unidos num tempo remoto – só seria amplamente aceita a partir dos anos 1960.

Fonte: http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

Frei Betto: ”Lamento que líderes do PT deem consultoria aos donos do dinheiro”

Entusiasta da experiência do partido no poder, Frei Betto afirma que petistas não mais prestam auxílio aos movimentos sociais

Fernando Gallo

Sete anos após deixar o governo Lula, no qual foi assessor especial da Presidência, o escritor e assessor de movimentos sociais Frei Betto é um entusiasta da experiência do PT no poder e crítico ferrenho dos dirigentes da sigla. Em meio à crise política e ao impacto do lançamento do programa Brasil sem Miséria, Frei Betto falou ao Estado. Ele elogiou o plano social e não poupou ataques à direção petista no caso Antonio Palocci: "Já não encontro os dirigentes dando consultoria a movimentos sociais".

Como o sr. analisa a saída de Antonio Palocci do governo?

O governo demorou a agir diante da crise que se instalou a partir da constatação desse surpreendente aumento do patrimônio. Isso gerou muitas dúvidas. Dilma, diante de casos como esse, deveria seguir o exemplo do ex-presidente Itamar Franco, que licenciou o Hargreaves (Henrique Hargreaves, ministro da Casa Civil acusado de irregularidades no cargo) até que as coisas ficassem claras. Comprovada sua total inocência, foi reintegrado. No caso do Palocci, houve uma suspeita que os próprios correligionários abraçaram. O fato de a Executiva do PT não emitir uma nota de apoio, de solidariedade, era sintoma de que no partido pairavam dúvidas. Ali foi o momento em que Dilma deveria ter tomado a providência de afastá-lo.

O episódio pode ser considerado um indicativo de que o PT mudou seus ideais ao virar governo?

Exatamente. Nunca me filiei a nenhum partido político, mas ajudei a construir o PT, assessorei muitos movimentos que formaram lideranças que hoje integram o PT e a política profissional. Lamento que os dirigentes do PT hoje deem consultoria aos donos do dinheiro. Andando pelo Brasil, já não encontro esses dirigentes prestando consultoria a movimentos sociais.

O PT revisou o seu projeto?

Ah, sim! No conjunto do partido, salvo exceções de honrosos militantes, o PT trocou um projeto de Brasil por um projeto de poder. Quando se estende demasiadamente o bloco de alianças, há que fazer concessões. Elas levaram o PT a ter grande prestígio eleitoral, mas não é mais, infelizmente, o partido representativo dos movimentos sociais. Já não identificam nele o partido que vai enfrentar as forças que impedem reformas de estrutura no Brasil.

 

Frei Betto é autor do livro Batismo de Sangue. Foi coordenador da área de Mobilização Social do Programa Fome Zero entre os anos de 2003 e 2004. No mesmo período, atuou também como assessor especial do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a área social.

Fonte: http://clippingmp.planejamento.gov.br/

Dois idiomas, uma criança

Estudos apontam que alunos bilíngues apresentam ganhos cognitivos, mas o diálogo entre as línguas ainda é delicado na alfabetização

Carmen Guerreiro

                    Escola Stance Dual, em São Paulo: alunos bilíngues desenvolvem melhor a atenção

Um aluno do 2º ano do ensino fundamental aparece no corredor da escola e desperta a atenção da coordenadora geral de inglês, que o interpela: "Shouldn’t you be in class?" (você não deveria estar na aula?) – "I’m gonna play now!" (agora eu vou brincar!), responde ele, indo para o recreio. Em seguida, uma menina ainda mais nova passa pela coordenadora, que pergunta: "Hello, what did you learn in class today?" (olá, o que você aprendeu na aula hoje?), ao que ouve como resposta: "fossils!" (fósseis). Apesar de não demonstrar sotaque ou qualquer dificuldade para entender e se expressar em inglês, essas crianças são brasileiras, mas educadas desde cedo em uma escola bilíngue.

A cena, presenciada pela reportagem na escola bilíngue Stance Dual, em São Paulo, vem ao encontro de um estudo das instituições Concordia University, York University e Université de Provence, publicado em janeiro no periódico acadêmico Journal of Experimental Child Psychology. Segundo a pesquisa, crianças bilíngues não apenas não confundem os dois idiomas que aprenderam, como tendem a se focar mais em tarefas e a desenvolver uma atenção melhor do que seus pares monolíngues.

O resultado, obtido a partir da observação de um grupo de 63 crianças de dois anos de idade, pode ser explicado, segundo Diane Poulin-Dubois, pesquisadora que coordenou a experiência, pelo fato de as crianças bilíngues estarem acostumadas a prestar atenção na diferença entre as duas línguas que conhecem, tanto para ouvir quanto para se expressar.

A educação bilíngue também tem sido objeto de outros estudos no campo da educação, tendo como foco não apenas as capacidades que ajuda a desenvolver, mas os âmbitos em que a própria linguagem atua, em especial no contexto escolar formal. "Existe a linguagem social e a acadêmica. A criança que faz um curso de inglês vai aprender a se comunicar socialmente, mas não terá os conteúdos epistemológicos exigidos por uma escola internacional", conjectura Daniella Leonardi, coordenadora de educação infantil e de inglês da escola bilíngue Play Pen, de São Paulo.

Nesse sentido, a psicóloga Elizabete Flory, doutora em bilinguismo pelo Instituto de Psicologia da USP, fez um levantamento de pesquisas no mundo todo sobre educação bilíngue e constatou que esses alunos apresentam vantagens cognitivas. "A primeira é uma certa antecipação da consciência metalinguística – eles se dão conta de que o objeto tem palavras diferentes para representá-lo e diferenciam com qual língua falar com cada pessoa", explica. Outro benefício é uma possível antecipação de pensamento cognitivo em cálculos. "Isso está ligado ao desenvolvimento da lógica, pois as crianças bilíngues aceleram essa forma de pensar", afirma. Elizabete aponta, no entanto, que não é sempre que o bilinguismo é acompanhado de vantagens cognitivas. "Não dá para falar que ele aumenta a inteligência. Mas crescer falando duas línguas pode ter influências positivas em alguns aspectos da inteligência", frisa.

Alfabetização

Mas se as pesquisas hoje sobre educação bilíngue derrubaram o mito de que ensinar dois idiomas confunde as crianças, há um momento em que o diálogo entre as línguas é mais delicado: na alfabetização, período em que a criança passa pelo processo de aprendizagem dos processos de codificação e decodificação da língua escrita. Quando a criança ingressa no ensino bilíngue, a escola deve tomar alguns cuidados como escolher em qual dos dois idiomas vai introduzir a leitura e a escrita – ou se vai alfabetizar nas duas línguas ao mesmo tempo. Elizabete explica que há três tipos de alfabetização: a sequencial materna-segunda língua, a sequencial na segunda língua seguida da materna, e a simultânea, na qual ambos os idiomas são ensinados. Para ela, ainda que a opção pela alfabetização sequencial seja mais confortável, a criança que fala duas línguas já está fazendo hipóteses de como vai fazer isso na segunda língua. 

Selma Moura, doutoranda em linguística aplicada pela Unicamp e mestre em educação pela USP, é adepta da ideia de que a criança faz a transferência da alfabetização em uma língua para a outra, mas crê que este é um processo bilíngue, e não simultâneo. "Não são duas alfabetizações, é uma só. Quando a criança entende o código da língua, só vai fazer uma mudança, uma transposição de som", observa. Elisabete ressalta que a transferência de conhecimentos entre línguas a partir de apenas um processo de alfabetização depende do segundo idioma. "Quanto mais próximas as línguas, mais existe a transferência do aprendizado. Se for português e japonês, ou russo, ou árabe, a criança vai ter de construir também um outro sistema", afirma Elizabete.

No Brasil, o mais comum tem sido a alfabetização no idioma materno, seguida de um processo natural de aquisição da segunda língua, sem a repetição do processo. "A alfabetização tem de acontecer na primeira língua, porque assim a criança levanta hipóteses sobre a escrita a partir do seu maior repertório, do seu contexto", afirma Gabriela Argolo, coordenadora pedagógica da Play Pen. Para ela, o aluno que se alfabetiza uma vez só, em português, transfere as descobertas que fez no código dessa língua matriz para outra que aprenda depois. Na Escola Suíço-Brasileira, em São Paulo, a alfabetização começa pela língua materna, mas como existem alunos de 24 nacionalidades na instituição (60% brasileiros e 20% suíços), cada um é alfabetizado na sua língua materna, e não necessariamente no português. No 1º ano, portanto, a criança é alfabetizada em sua língua materna, no 2º ano no alemão (ou no português, dependendo de sua nacionalidade), no 6º ano é introduzido o inglês, no 8º ano o francês e, no primeiro do ensino médio, o espanhol (a única língua optativa). "Todas as línguas são trabalhadas como ferramentas, e não como línguas estrangeiras", esclarece Bernhard Beutler, diretor da escola.

Na prática

"A criança é bilíngue, mas a aula não é bilíngue", diferencia Andrea, coordenadora da Stance Dual. Lá, como na maior parte das escolas bilíngues, ou a aula é em inglês, ou em português. Apesar de a maior parte dos professores – e alguns funcionários – falar as duas línguas, são reconhecidos pela escola como referência em uma delas. Desta forma, se falar em português com um professor com referência em inglês, ainda que o educador fale português, ele irá responder apenas em inglês. A escola utiliza o currículo nacional e distribui os conteúdos para professores com referência em inglês e português. Os alunos têm, por exemplo, aula de matemática e de "math" – o conteúdo não se repete, apenas é ensinado ora em português, por um professor, ora em inglês por outro docente. A partir disso, a escola desenvolve projetos disciplinares integrados com as duas línguas. A carga horária começa com imersão no inglês para crianças a partir de dois anos, quatro horas por dia. A partir do ensino fundamental, as aulas vão das 7h30 às 15h30 e o português entra na grade curricular.

A estratégia de imersão na segunda língua na educação infantil, para depois fazer a alfabetização na língua materna no fundamental é recorrente nas escolas bilíngues, apesar de a idade de admissão variar dependendo da instituição – geralmente de um a três anos. Depois, a carga de inglês diminui e a de português aumenta progressivamente.

O currículo, porém, não é apenas baseado nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), mas também em conteúdos internacionais. A vantagem de adotar currículos de fora do país é justamente a de aumentar as chances de que os alunos saiam da escola e ingressem em instituições estrangeiras sem desvantagem de conteúdo. "Não adianta ter duas escolas, uma que segue os international standards e outra que segue os PCNs. Deve-se construir um currículo integrado. Na nossa matemática, no 4º ano do currículo brasileiro, as crianças têm frações. Depois que aprenderam o conceito de fração, vão transferir para o vocabulário do inglês. Aí, vão estudar outros conteúdos, como não exigidos pelo currículo nacional", exemplifica Daniella Leonardi, da Play Pen.

Cuidados

É preciso observar alguns aspectos na hora de trabalhar dois idiomas na escola. O primeiro passo para matricular uma criança numa escola bilíngue deve ser a escolha de uma instituição com valores e filosofia com os quais os pais se identifiquem, recomenda Elizabete. Em seguida, é preciso checar a proficiência dos professores no idioma e o número de horas que a criança ficará exposta a outra língua. Um terceiro ponto é observar se o aluno está, depois de algum tempo, adquirindo proficiência em pelo menos um dos idiomas. Introduzir a segunda língua com naturalidade e sem pressão é o que Selma Moura, da Unicamp, recomenda. Para ela, é preciso observar o interesse da criança e seu nível de desenvolvimento no idioma. "É uma postura responsável por parte da escola alfabetizar em uma língua (geralmente o português), mas acho problemático tolher a curiosidade da criança. Se ela perguntar como se escreve algo antes do tempo, ou na outra língua, o professor deve dar a informação", diz.

A escola bilíngue Maple Bear segue o preceito de trabalhar dois idiomas respeitando o tempo de aprendizado das crianças. Para isso, aplica o conceito canadense de "instrução diferenciada", que traz flexibilidade do aprendizado. "Podem ser grupos flexíveis que progridem no seu próprio ritmo e com apoio focado do corpo docente, ou a realização, em torno de um tema, de atividades diferentes para cada aluno, respeitando seu estilo de aprender", explica Jim Leary, diretor pedagógico para a América do Sul.

Outra questão é a época de começar. Ana Paula Mariutti, presidente da Organização das Escolas Bilíngues de São Paulo, diz que não existe uma idade certa, mas sim uma idade em que a língua é tratada com mais naturalidade. "Muitos pais pensam que colocar o filho em uma escola bilíngue cedo não adianta porque ele não entende nada. Mas só aprendemos a língua quando somos expostos a ela", diz.

Internacionais ou bilíngues?

Apesar de as escolas internacionais se considerarem bilíngues e de as bilíngues muitas vezes oferecerem a oportunidade de obter um diploma internacional, tradicionalmente, uma escola internacional é aquela que está habilitada para ensinar o currículo de um outro país (o que permite que os estudantes egressos sejam aceitos por universidades estrangeiras com mais facilidade), enquanto uma escola bilíngue é aquela que usa no mínimo dois idiomas para ministrar as disciplinas tradicionais e o currículo nacional (embora muitas vezes ele seja complementado com o internacional). Se antes o público dessas escolas era praticamente todo estrangeiro, hoje é, em sua maioria, composta de brasileiros interessados em uma formação mais ampla. No Brasil, ainda existem outros três subtipos de escolas bilíngues: as interculturais indígenas, escolas para surdos e as de fronteira, que recebem docentes de países vizinhos que ministram aulas de espanhol.

Adoção gradativa

Há escolas monolíngues no Brasil que estão investindo na implantação do ensino bilíngue. O Colégio Dom Bosco, que integra o Sistema de Ensino Dom Bosco, é uma delas. Até 2016, a instituição oferecerá a opção de ensino bilíngue para as famílias. A ideia é acostumar os alunos a um segundo idioma usado no dia a dia escolar. Primeiro vão acostumar os professores (que dão aula em português) a utilizar sempre dicionários em sala de aula para trabalhar com os estudantes palavras do conteúdo em inglês. Depois, os alunos refarão provas dos anos anteriores, mas traduzidas para o inglês. Assim, gradativamente, estratégias de implantação do inglês serão introduzidas, com provas a cada seis meses para garantir que os alunos estão adquirindo vocabulário na segunda língua. O sistema recomenda às escolas que seja criado o período integral, um em português de acordo com os PCNs, outro em inglês, com os padrões internacionais. Outra experiência está sendo feita pela Systemic Bilingual, um conjunto de método, formação e material criados pelas irmãs alagoanas Fátima e Vanessa Tenório e presente em 45 escolas brasileiras, da educação infantil ao 7º ano do ensino fundamental. Um dos princípios é aumentar o custo do ensino o mínimo possível, para não haver muita diferença na mensalidade. Por isso, a Systemic trabalha com a proposta de um professor de inglês dar aulas em inglês sobre todas as disciplinas, complementando e trabalhando paralelamente com os professores especialistas. A Systemic não alfabetiza em inglês – apenas aproveita a alfabetização em português para introduzir o segundo idioma.

Fonte: http://revistaeducacao.uol.com.br/

Os Números (SURPREENDENTES) de Mortes por Raios no Brasil

Estatísticas inéditas revelam que vítimas são mais numerosas que estimativas supõem, sendo os homens os mais afetados

Iara Cardoso

                                            OSMAR PINTO JUNIOR                                                                                    São Paulo lidera o número de mortes por raios entre os estados da federação, seguido por Rio Grande do Sul e Minas Gerais.

NO BRASIL OCORREM 132 MORTES POR ANO devido a descargas elétricas atmosféricas, os raios, o que nos coloca na quinta posição de fatalidade entre os países com estatísticas confiáveis. E a probabilidade de um homem ser atingido por uma dessas descargas, curiosamente, é dez vezes maior que a de uma mulher. Além disso, a probabilidade de ser vítima de um raio na fase adulta é o dobro da representada tanto por jovens quanto idosos. Viver na zona rural ou urbana também altera essas chances. Na área rural, a probabilidade de receber uma descarga é dez vezes maior.

Esses são alguns dos resultados do levantamento de mortes por raios da década – dados de 2000 a 2009 – elaborado pelo Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O estudo reuniu pela primeira vez informações de diversos órgãos brasileiros como Elat/Inpe do Ministério da Ciência e Tecnologia, Departamento de Informações e Análise Epidemiológica (CGIAE) do Ministério da Saúde, Defesa Civil, veículos de imprensa e dados de população do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O Brasil é um dos poucos países que dispõe de um mapeamento detalhado das circunstâncias das mortes por descargas elétricas atmosféricas, o que pode contribuir significativamente para aperfeiçoar as regras nacionais de proteção contra o fenômeno. Nos Estados Unidos, a circunstância que mais provoca mortes por raios são as atividades esportivas ou de recreação, como pescar, acampar e jogar golfe, diferentemente do Brasil. Uma análise sociológica permite deduzir que essa diferença está atrelada principalmente ao fato de os Estados Unidos serem um país desenvolvido e o Brasil estar ainda em desenvolvimento. Assim, atentar para a proteção de pessoas jogando golfe não seria a melhor forma de

fazer uma campanha de proteção nacional. O ideal é instruir a população a não realizar atividades agropecuárias (causa principal das fatalidades no Brasil), assim como orientar as pessoas a não permanecerem próximas aos meios de transporte, sob árvores e em campo de futebol durante as tempestades. Outras circunstâncias também apresentam percentuais comparativos distintos no

Brasil e Estados Unidos.

Na década passada, no Brasil, morreram 1.321 pessoas atingidas por raios, número muito acima das estimativas disponíveis antes do estudo (as menos conservadoras indicavam cerca de 100 mortes). O que essas vítimas tinham em comum eram as atividades que praticavam quando foram atingidas pelas descargas. Exatos 19% das vítimas eram trabalhadores rurais que recolhiam animais ou se ocupavam de plantações com enxadas, pás e facões. A segunda circunstância mais comum foi estarem próximas aos meios de transportes (14%), cujas estruturas metálicas elevam a chance de receber descarga. Aqui convém ressaltar que refugiar-se no interior de um veículo, como um automóvel ou avião, é seguro. A sorte de um piloto e seu copiloto em 2008, no interior de São Paulo, poderia ter sido diferente se eles tivessem seguido essa recomendação. Ambos perceberam a aproximação de uma tempestade com o avião pousado em uma fazenda e buscaram abrigo sob uma das asas e morreram atingidos por um raio.

USO DE TELEFONE

Permanecer no interior de uma casa sem os devidos cuidados também foi causa de mortes (14%) na última década. O estudo revela uma conclusão interessante. Apesar de 85% das mortes terem ocorrido ao ar livre quando esses dados são relacionados a diferentes circunstâncias, a porcentagem em cada uma delas é próxima à categoria “dentro de casa”. Esse fato revela que permanecer dentro de casa não é tão seguro quanto se pensava. A maioria das vítimas atingidas por raios em domicílios estava falando ao telefone com fio, descalça em casa com chão de terra batida ou ainda próxima a antenas, lâmpadas, geladeiras, janelas e televisores. A categoria “sob árvore” ficou em terceiro lugar com 12%, seguida por “campo de futebol”, com 10%.

O estudo traz outro resultado interessante, evidenciando que as circunstâncias em que ocorrem mortes por raios apresentam variações significativas em diferentes regiões do Brasil.

É possível perceber que características de determinadas regiões ficam evidentes nos percentuais das mortes por raios. A atividade agropecuária, por exemplo, atinge o maior percentual na região Sul, a mais tradicional do país nessa área. Já as regiões Norte e Nordeste apresentam os percentuais mais altos para a circunstância dentro de casa, provavelmente indicando que muitas casas nessa região são de chão

de terra batida, que as torna muito menos seguras. Outros dois dados que chamam a atenção são: o índice de 20% de mortes devido à circunstância “telefone” (telefone com fio ou celular conectado ao carregador) no Centro-Oeste, que é quase nulo em outras regiões, e o percentual de mortes no Norte “em campos de futebol”, também alto quando comparado a outras regiões.

As mortes por ano sofreram variações significativas na última década. Os valores máximos ocorreram em 2001 e 2008, coincidentemente em anos associados ao La Niña, fenômeno oceânico-atmosférico caracterizado por um esfriamento anormal das águas superficiais do oceano Pacífico equatorial. Essa associação, no entanto, merece ser mais investigada nas próximas décadas.

Considerando a população média durante esse período (180 milhões), a probabilidade também média de morrer atingido por um raio é de 0,8 por milhão por ano. Esse índice está entre os valores estimados para os países desenvolvidos (cerca de 0,3 morte por milhão por ano) e os países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos (6 mortes por milhão por ano). Essa probabilidade, entretanto, é uma média e não corresponde à chance de uma pessoa morrer atingida por um raio em dada circunstância., Se uma pessoa está ao ar livre durante uma forte tempestade, por exemplo, esta probabilidade pode ser da ordem de um para mil em vez de um para milhão. Na Austrália, a probabilidade de morte por raio é igual à do Brasil, com base em dados de 1980-1989. Já nos Estados Unidos, a probabilidade é muito menor – 0,2 por milhão por ano – com base em dados de 2000-2006.

O Sudeste, no Brasil, foi a região onde mais pessoas morreram (29% do total), seguido pelas demais regiões praticamente empatadas: Centro-Oeste (19%), Norte (18%), Nordeste (18%) e Sul (17%). Considerando a população de cada região, a probabilidade de morte por raio varia de 0,5 a 2,2 por milhão por ano.

Em termos de estações do ano, a maior parte das mortes ocorreu no verão. Na verdade, 77% das mortes se deram no verão e na primavera, períodos do ano em que se registrou cerca de 80% dos raios no Brasil. O 5 de março de 2003 foi a data em que se registrou o maior número de fatalidades nos últimos dez anos (cinco mortes). Considerando apenas dia e mês, os cinco dias ao longo do ano que tiveram mais mortes nos últimos 10 anos vão do dia 16 a 20 de fevereiro, com 47 mortes.

Do total de mortes na década, 81% foram homens e 19% mulheres. A faixa etária com maior número de mortes vai dos 20 aos 39 anos (43%), seguida pelo grupo de 0 a 19 anos, com 27%. Nos Estados Unidos, as porcentagens de mortes por raios em homens e mulheres são semelhantes às do Brasil: 82% são homens e 18% mulheres. Quando os dados são distribuídos nas diferentes faixas etárias, os valores encontrados para os Estados Unidos também são próximos aos do Brasil.

A maior parte das mortes no Brasil ocorreu na zona rural (61%), contra 26% na zona urbana, 8% no litoral e 5% em rodovias. Considerando a população urbana e rural, a probabilidade de morte por raio no meio rural (0,7 por milhão por ano) é dez vezes maior que na zona urbana (0,07 por milhão por ano). Em termos de estados, São Paulo foi a unidade da federação com maior número de mortes (230), 17% do total, seguido pelo Rio Grande do Sul (106), Minas Gerais (99), Mato Grosso do Sul (89) e Goiás (80). Já a probabilidade mais alta de morte por raio considerando as respectivas populações está no estado do Tocantins (4,6 por milhão por ano), seguida por Mato Grosso do Sul (4,3 por milhão por ano). As menores probabilidades estão na Paraíba e Sergipe (0,1 por milhão por ano), desconsiderando o Amapá, onde não houve registros de mortes. No estado de São Paulo, a probabilidade de morrer atingido por raio é de 0,6 por milhão por ano. Nos Estados Unidos, o estado com maior número de fatalidades por raios é a Flórida, com uma média de 12,6 mortes por ano (período de 1990 a 2003) e a probabilidade de morrer atingido por raio é de 0,8 por milhão por ano.

A incidência média de raios por ano no Brasil na última década foi de cerca de 57 milhões. O estado do Amazonas registrou o maior valor, com cerca de 11 milhões de raios. São Paulo registrou cerca de 2,3 milhões de raios por ano. Em relação a municípios, Manaus apresentou o maior número de fatalidades (16 casos), seguido por São Paulo com (14). O número de fatalidades não corresponde diretamente ao valor anual da incidência de raios no Brasil ponderado pela população de cada estado. Isso sugere que outros fatores, além da incidência de raios, devem ser considerados.

Alguns desses fatores provavelmente são as diferentes proporções da população urbana e rural em cada estado, devido à diferença da probabilidade de morrer atingido nas áreas rurais e urbanas, e também pelos hábitos de vida da população, distintos em cada região do país. Outro fator relevante é o fato de que as mortes por raios diminuem quando a população se torna mais ciente dos riscos.

Iara Cardoso Iara Cardoso é jornalista com pós-graduação em jornalismo científico pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Fez especialização em cinema digital na New York Film Academy (NYFA)/Universal Studios e em jornalismo para TV Digital no canal NBC News/NYFA.

Fonte: http://www2.uol.com.br/

A luta secreta de D. Paulo Arns

Documentos inéditos obtidos pelo ‘Estado’ em Genebra revelam como o cardeal e a Igreja combateram a ditadura militar

Jamil Chade

No auge da violência promovida pelo governo militar, parte da Igreja e centenas de líderes religiosos no Brasil passaram a ser alvo da repressão. Documentos guardados há décadas em Genebra obtidos pelo Estado revelam como o cardeal d. Paulo Evaristo Arns liderou um lobby internacional, coletou fundos de forma sigilosa e manteve encontros com líderes no exterior para alertar sobre as violações aos direitos humanos no Brasil.

Janete Longo/AE

Janete Longo/AE Engajado. D. Paulo, diante de presídio: busca de apoio contra repressão

A atuação do arcebispo de São Paulo mobilizou uma rede de informantes, financiadores e apoiadores secretos pelo mundo. Dentro do País, os documentos mostram que ele e seus aliados organizaram manifestações, incentivaram líderes operários e pagaram despesas das famílias dos grevistas no ABC em 1980.

Relatórios, testemunhos, cartas, informações de dissidentes e dezenas de acusações fazem parte de três caixas de documentos entregues ao Brasil na terça-feira, para que possam ser estudados e eventualmente, como espera a ONU, sirvam de base para processos contra autores de crimes contra a humanidade. Os documentos originais foram mantidos no Conselho Mundial de Igrejas, em Genebra. O Estado teve acesso às mais de 3 mil páginas e, nos próximos dias, publicará parte do conteúdo que está nas caixas entregues à Justiça no Brasil.

A máquina de tortura instalada no Estado não havia poupado nem sacerdotes. Em dezembro de 1978, o Centro Ecumênico de Documentação e Informação, no Rio, coletaria vasto material sobre a repressão sofrida pela Igreja naquela década.

O texto de introdução do levantamento deixa claro que o material havia sido encomendado por d. Paulo, que já tentava organizar um dossiê que compilasse as violações aos direitos humanos e pudesse ser usado em algum momento pela Justiça.

Segundo o relatório, entre 1968 e 1978, 122 religiosos foram presos pelo regime militar. Havia 36 estrangeiros, 9 bispos, 84 sacerdotes, 13 seminaristas e 6 freiras. Outras 273 pessoas "engajadas no trabalho pastoral" tinham sido detidas. Dessas, 34 foram vítimas de torturas como choques elétricos, paus de arara e pressões psicológicas. "Há registros de pessoas que ficam inutilizadas física e/ou psicologicamente por motivo da tortura."

Entre os motivos mais frequentes de prisão estava o fato de proferirem homilias que desagradavam às autoridades, além de ajudarem a organizar manifestações operárias.

Até aquele momento, pelo menos sete pessoas haviam sido mortas como forma de pressão ao clero, tidas como "subversivas" ou suspeitas de passar informações a dissidentes. Foram registrados 18 casos de ameaça de morte e uma dezena de sequestros. A repressão também intimou 75 líderes religiosos a depor, para que denunciassem bispos e sacerdotes.

Reação. Na segunda metade dos anos 70, d. Paulo e líderes religiosos do exterior avaliaram que era hora de reagir nos bastidores para reunir apoio internacional e demonstrar a insatisfação popular nas ruas. Em 27 de setembro de 1977, o então encarregado de Direitos Humanos na América Latina do Conselho Mundial de Igrejas enviou de São Paulo uma carta a Genebra alertando para a "crescente tensão entre a Igreja e as autoridades". A correspondência foi classificada como "confidencial" e seu autor, Charles Harper, pediu que o documento "não fosse publicado".

A carta relata dois fatos fundamentais daqueles dias. O primeiro foi o ato que reuniu 6 mil pessoas na Igreja da Penha, em São Paulo. "Foi a primeira vez que uma articulação tão lúcida, sob a iniciativa da Igreja no Brasil, foi feita desde 1964 em relação aos direitos humanos", disse Harper. O segundo relato trata da invasão da PUC, no qual Harper aponta para a apreensão de uma tonelada de "material e equipamento subversivo" e para a prisão de 1,5 mil alunos, "alguns em plena prova" nas salas de aula. Para ele, o ocorrido "deve ser visto como uma retaliação contra a Igreja".

O relato alerta para a pressão sobre d. Paulo, considerado alguém de "coragem, firmeza e sentido de timing". Para Harper, os movimentos de liberalização do regime eram acompanhados por uma hesitação dos militares, temerosos de terem de responder pela violência dos anos anteriores e pela corrupção. "Muitos acreditam que há um forte endurecimento das ações repressivas."

Harper sugere que o Conselho Mundial de Igrejas demonstre apoio às instituições religiosas no Brasil. Poucos dias depois, a entidade em Genebra enviaria telegramas para manifestar sua oposição à repressão e apoio à democracia.

Clandestinos. A relação entre o Conselho e d. Paulo ganharia novas dimensões. Dois anos após a invasão da PUC, o cardeal escreveu ao então secretário-geral do Conselho de Igrejas, Philip Potter, sob o alerta de que o "conteúdo dessa carta deve ser confidencial, dada suas implicações". Era o pedido por fundos internacionais clandestinos para a operação que culminaria na publicação, em 1985, de Brasil: Nunca Mais. A pesquisa revelaria nomes de 444 torturadores, 242 centros de tortura no Brasil e, com os testemunhos de milhares de vítimas, apontaria a dimensão da repressão no País.

O projeto foi ideia do reverendo protestante Jaime Wright, cujo irmão, Paulo, havia sido morto pelo regime. Em vez de procurar sua igreja, o pastor optou por se aliar a d. Paulo. Mas o cardeal resistia em pedir dinheiro para a Igreja Católica no Brasil, temendo que a ala conservadora abafasse o projeto e o denunciasse. A solução era pedir dinheiro de forma ilegal, vindo da Suíça.

Era um projeto ambicioso. O grupo usaria uma brecha na lei para compilar os dados. Para se preparar para a Lei da Anistia, dissidentes e advogados tiveram acesso por 24 horas a seus dossiês. Foi o suficiente para que o grupo detalhasse a repressão em 1 milhão de páginas coletadas.

"Por todo Brasil, em Cortes militares, há uma abundância de material que substanciam 15 anos de repressão, contidas em centenas de dossiês", afirmou d. Paulo. Em outra carta, o cardeal chegou a citar o caráter "enciclopédico da tortura" no Brasil.

"Sentimos que as igrejas precisam tomar a iniciativa de garantir que, pela publicação desse material, tais coisas não ocorram de novo", argumentou d. Paulo. "Pedimos, portanto, que o Conselho Mundial de Igrejas aceite a tarefa de levantar a grande maioria dos fundos necessários, de uma forma confidencial."

Os arquivos guardaram tabelas detalhadas sobre os custos e as viagens dos pesquisadores. D. Paulo precisava de US$ 329,1 mil para completar seu projeto. O equipamento comprado seria doado para a PUC.

Quase um ano depois, em 23 de junho de 1980, o cardeal receberia uma carta de Potter com duas notícias importantes. A primeira era de uma doação às " famílias dos operários em greve no ABC". Mas era a segunda notícia que mais impactaria d. Paulo. O Conselho confirmava que havia conseguido "levantar a maior parte dos recursos necessários à realização do projeto especial". Potter garantia que a pesquisa sobre a tortura no Brasil seria divulgada nas igrejas "em todo o mundo para sua reflexão".

Depois de copiados, os processos eram enviados para São Paulo, onde eram transformados em microfilmes. De lá, seguiam escondidos para Genebra. Quem chegava à cidade suíça com as informações retornava ao Brasil com dinheiro para o projeto, escondido dentro do cinto.

Em 19 de fevereiro de 1983, d. Paulo fez questão de informar a Potter que o dinheiro "estava sendo gasto estritamente de acordo com os planos aprovados". E afirmou: "Esse projeto terá efeitos duradouros." E não só políticos. Mais que aliados, d. Paulo e Jaime Wright tornaram-se amigos, como mostra uma carta de 1996.

Para Charles Harper, que hoje vive na França, d. Paulo deu apoio moral e espaço físico para quem, dentro da Igreja, lutou contra a ditadura. O projeto valeu a adesão do Brasil nos anos 80 à Convenção da ONU contra Tortura. Para Harper, mesmo que os criminosos nunca tenham ido à Justiça, o trabalho de d. Paulo e do arquivo em Genebra fez com que a tortura no País e suas vítimas não sejam esquecidas.

Fonte: http://www.advivo.com.br/

O blog controvérsia está com problemas em seu provedor.

Esperamos solucionar o mais breve possível.

Os mesmos artigos podem ser lidos em nosso sítio: http://www.controversia.com.br

Após 90 anos, pesquisadores terminam dicionário da língua da Mesopotâmia

Após 90 anos em preparação, o dicionário em 21 volumes da língua da antiga Mesopotâmia e seus dialetos babilônio e assírio, não falados há 2 mil anos, mas preservados em tábuas de barro e em inscrições em pedra decifradas ao longo dos últimos dois séculos, foi finalmente concluído por acadêmicos da Universidade de Chicago.

John Noble Wilford

Essa foi a língua que Sargão, o Grande, rei de Acádia no século 24 a.C., falava para comandar aquele que é considerado o primeiro império do mundo, e que Hamurabi usou por volta de 1700 a.C. para proclamar o primeiro código de leis conhecido. Era o vocabulário do Épico de Gilgamesh, a primeira obra-prima da literatura mundial. Nabucodonosor 2º supostamente usou essas palavras para consolar sua esposa, com saudade de sua terra natal, com a promessa de cultivar os maravilhosos Jardins Suspensos da Babilônia.

Em todos os níveis, essa foi a língua do comércio, da irrigação das terras, do transporte dos grãos cultivados, do destino profetizado. Os textos médicos da Babilônia davam instruções explícitas sobre como ler o fígado de um carneiro para profetizar o futuro.

Em uma conferência na segunda-feira, historiadores, arqueólogos e especialistas em línguas semíticas antigas avaliaram a importância do dicionário abrangente, que Gil Stein, diretor do Instituto Oriental da universidade, disse ser “uma ferramenta de pesquisa indispensável para qualquer acadêmico de qualquer lugar, com interesse em explorar os registros escritos da civilização mesopotâmica”.

Um acadêmico que fez uso da pesquisa do projeto em vários estágios desde os anos 60, Jerrold Cooper, professor emérito de línguas semíticas da Universidade Johns Hopkins, disse que a importância do dicionário “não pode ser superestimada”. Ele abre para estudo “o período mais rico da escrita cuneiforme”, ele disse, se referindo à escrita inventada no quarto milênio a.C. pelos primeiros sumérios na Mesopotâmia.

Esse provavelmente foi o primeiro sistema de escrita inventado e as cidades-Estado que surgiram nos vales dos rios Tigre e Eufrates, a maioria no que atualmente é o Iraque e partes da Síria, são consideradas como compondo a civilização urbana e letrada mais antiga. O dicionário, com 28 mil palavras atualmente definidas em seus vários significados, cobre um período de 2500 a.C. até 100 d.C.

Estranhamente, para uma obra refletindo tamanha pesquisa meticulosa, seu título, Dicionário de Assírio de Chicago, é um nome impróprio e datado. Quando o projeto foi iniciado em 1921 por James Henry Breasted, fundador do Instituto Oriental, grande parte do material escrito disponível era atribuído aos governantes assírios. Além disso, referências bíblicas deixaram a impressão de que o termo “assírio” era sinônimo da maioria das línguas semíticas na antiguidade, e ainda é frequentemente usado para descrever o campo acadêmico de estudo. Na verdade, a língua básica em questão é o acadiano.

E o dicionário é mais uma enciclopédia do que simplesmente um glossário conciso de palavras e definições. Muitas palavras com múltiplos significados e extensas associações com a história são seguidas por página após página de dissertação, passando por literatura, lei, religião, comércio e vida cotidiana. Há, por exemplo, 17 páginas dedicadas à palavra “umu”, que significa “dia”.

A palavra “ardu”, para escravo, introduz extenso material disponível sobre a escravidão na cultura. E pode ou não refletir na sociedade que um dos verbos mais versáteis era “kalu”, que em diferentes contextos pode significar deter, retardar, segurar, manter sob custódia, interromper e assim por diante. A palavra “di nu”, como “case” em inglês, aponta Cooper, pode se referir a um caso legal ou processo, um veredicto ou julgamento, ou lei em geral.

“Cada termo, cada palavra, se transforma em uma janela para a cultura”, disse na semana passada Martha T. Roth, reitora de ciências humanas da Chicago, que trabalha no projeto desde 1979 e foi sua editora-chefe desde 1996.

Até mesmo uma língua morta pode provocar debate acirrado, como Matthew W. Stolper, um professor de Chicago há muito envolvido no projeto, já apontou. As traduções do dicionário, ele notou, “variam desde conclusões fundamentadas em um conjunto sólido de evidências até afirmações provocadoras baseadas em dados insuficientes”. Ao todo, ele disse, isto “provocou, bajulou, avançou e moldou o trabalho acadêmico de uma geração nem sempre contente de mesopotamistas”.

Roth espera mais do mesmo. Ela disse que o dicionário completo “fornece a fundação sobre a qual outros estudos serão desenvolvidos” e que “nunca pretendeu ser a palavra final”.

E por que o projeto demorou tanto para ser concluído?

No início, Breasted previu uma coleção de seis volumes, modelados como o Dicionário de Inglês de Oxford, publicados simultaneamente em duas ou três décadas. Mas a entrada de palavras e exemplos de seu uso em perto de dois milhões de fichas foi um trabalho tedioso para os professores e estudantes de pós-graduação, que também estavam ocupados com aulas e outras pesquisas. A tarefa de baixa tecnologia parecia interminável: palavras antes desconhecidas ou novos usos para palavras conhecidas vinham sempre à tona em ruínas arqueológicas.

Após a Segunda Guerra Mundial, o projeto foi reorganizado e o ritmo acelerou; o primeiro volume foi publicado em 1956. Sob o comando de A. Leo Oppenheim, depois Erica Reiner e finalmente Roth, 20 volumes foram lançados ao longo de 55 anos.

A coleção completa custa US$ 1.995 e os volumes individuais variam de US$ 45 a US$ 150. Mas também está disponível online, gratuitamente.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Fonte: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/

O carimbo do bullying

A mãe de Letícia está preocupada com a filha. Várias vezes ela foi chamada para buscá-la na escola, porque a garota apresentava queixas de dor de cabeça. Além disso, as notas da menina, que sempre foram boas, decaíram. Percebeu também que a filha já não se interessa em participar das festas de aniversário dos colegas da escola.

Vanessa Fagionatto Vicentin

                                   Formar pessoas que respeitem e se façam respeitar é o grande foco da questão. Foto: Ana Carolina Fernandes/Folhapress

Questionada pela mãe, Letícia não relata o que está acontecendo. No entanto, Letícia está sendo alvo de bullying. Com sobrepeso, ela é ironizada por dois garotos de sua classe – a chamam de “baleia”. Letícia teve crises de choro na escola, após vários episódios de sátiras.

O termo bullying tem sido citado por pais, professores, profissionais de comunicação e até mesmo entre as crianças. Mas, afinal, o que é bullying? Segundo a precursora do tema no País, a professora Cléo Fante, o bullying é um fenômeno tão antigo quanto o surgimento da escola. Desde que existe agrupamento de crianças, existe bullying. O termo inglês é traduzido como maltrato entre pares e designa a prática de atos agressivos de um ou mais autores contra uma pessoa que será um alvo.

Atualmente, em razão de inúmeros casos de violência na escola apresentarem sinais de bullying, existe uma grande e talvez excessiva preocupação em relação ao tema. Por exemplo, a tragédia de Realengo traz indícios de que o agressor tenha sido alvo de bullying. O fenômeno bullying pode ter favorecido a sua reação vingativa em relação à escola? Sim, pode ter favorecido, mas não determinado. O que determinou a ação do autor foi a sua personalidade desequilibrada.

Sem compreender essa situação, muitos pais e educadores entram em desespero e acreditam que tudo é bullying, confundindo o mesmo com as situações de conflitos interpessoais, fundamentais para o desenvolvimento psicológico da criança e do adolescente. Dia desses, uma professora relata que um garoto de 7 anos chamava uma colega de classe de “gorda” e a mãe da criança, que chegava para buscá-la e ouvia o comentário, disse: “Olha! Isto é bullying! É crime”. A preocupação da professora com o imprevisto foi com o fato de que a garota havia provocado o colega anteriormente e a agressão foi isolada, o que não se configura bullying.

Conflitos Necessários

É importante salientar que a maioria das ações agressivas na escola tem relação com os conflitos, e não com o bullying. Conflitos interpessoais são situações naturais de desacordo entre as pessoas e necessários ao desenvolvimento de crianças e adolescentes. É por meio dos conflitos que eles têm a chance de aprender a se colocar no lugar do outro e a falar o que pensam e sentem de forma respeitosa. Na visão construtivista, as crianças não nascem sabendo dialogar e trocar pontos de vista de forma harmônica. É natural que agridam ou permitam ser agredidas até que cheguem à conclusão de que existem formas mais evoluídas de resolver desentendimentos interpessoais. Portanto, os alunos batem, xingam, ironizam, acusam injustamente como forma de resolver muitos conflitos. Contudo, o outro envolvido no desacordo bate, xinga, ironiza, acusa injustamente como forma- de defesa. Em outros termos, envolve uma relação de igualdade. Diferentemente do bullying que envolve uma criança que se sente com pouco poder e fica sendo alvo de outra que se sente com muito poder, envolve uma relação de desigualdade.

Apesar da maior frequência dos conflitos interpessoais na escola, quando comparados ao bullying, os danos para o segundo podem causar marcas quase irreversíveis na personalidade dos envolvidos. Por esse fato, e por ser um fenômeno silencioso diante das figuras de autoridade, a comunidade escolar deve se mobilizar, já que o bullying não é brincadeira.

As consequências são inúmeras para os personagens. Para o alvo de bullying os problemas físicos decorrentes do estresse, o isolamento, tristeza, ansiedade e dificuldades escolares são algumas das implicações imediatas. Futuramente, o alvo de bullying que não recebeu tratamento pode ser constantemente envolvido em situações cíclicas de maltrato. Tende a ser alvo de abuso no trabalho, nos relacionamentos amorosos e nas amizades-. -Depressão, suicídio e vingança são algumas alternativas para o alvo de bullying. Para o autor de bullying, a hostilidade e as atitudes desafiadoras em relação às figuras de autoridade são bastante comuns. As atitudes de humilhação tendem a ser cíclicas em outras relações como a família e o trabalho.

Ainda que as conquências sejam preocupantes, alguns podem dizer que, em uma classe, uma criança é alvo de bullying ou às vezes nenhuma. Para que tamanho alarde? Nem todas as crianças que foram agredidas sairão metralhando criancinhas na fase adulta. Muitos vão superar, tormando-se pais de família e trabalhadores responsáveis. Será que a preocupação é excessiva e estamos transformando as exceções em regras?

O Papel dos Alunos e da Escola

Nossa maior preocupação: a formação dos alunos. Autor, alvo e plateia de bullying mostram uma evidência que pode não estar muito explícita para as pessoas: sérios problemas na construção de valores como justiça e respeito mútuo. O autor tem dificuldade de respeitar o próximo. O alvo, de colocar o seu valor ao outro. E a plateia… a maioria dos alunos que riem ou apenas assistem à humilhação e nada fazem diante do maltrato apresenta dificuldade de se indignar com o desrespeito. Em outros termos, em uma situação que envolve um autor e um alvo, nós temos evidências de dezenas de alunos com problemas na formação moral.

O que os educadores fazem quando sabem de um caso de bullying? Suspendem e advertem o autor e poupam o alvo. Nem se dão conta de que existe uma plateia. É preciso entender que o autor de bullying é alguém que também precisa de ajuda. Ele não é um criminoso. Os educadores precisam limitar a sua ação com respeito. Só assim ele entenderá a necessidade desse princípio. Existem ações diretas que podemos realizar quando surge o problema e ações indiretas. Entrevistas individuais com o autor e alvo para realizar acordos entre as partes, encorajar o autor a reparar a sua ação e as sanções por reciprocidade caso o autor rescinda a agressão são algumas estratégias diretas utilizadas quando o problema já ocorreu. Trabalho com assembleias escolares, discussão de conflitos hipotéticos e de dilemas morais e trabalho com sentimentos são procedimentos indiretos que a escola precisa adotar sistematicamente para favorecer a formação moral dos alunos.

Esses últimos procedimentos não devem ser usados apenas para prevenir o bullying. Devem constar para que os alunos possam construir recursos cognitivos e afetivos mais evoluídos, visando resolver os conflitos que todos enfrentarão. A escola muitas vezes fica preocupada apenas com o bullying. A preocupação deve ser maior: como formar pessoas que respeitam e se fazem respeitar, seja em situações de bullying, de conflitos ou de indisciplina e incivilidades. A preocupação, portanto, é necessária, mas não restrita ao bullying, e sim à formação moral dos alunos.

Vanessa Fagionatto Vicentin é doutora em Psicologia escolar e desenvolvimento humano e professora de pós-graduação da Unifran

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/

Sobre a legitimidade das patentes no campo científico

Atualmente, na Universidade de São Paulo (USP) e em muitas outras universidades públicas que investem em pesquisa no Brasil, há políticas acadêmicas cada vez mais agressivas que buscam "conscientizar" e "motivar" seus pesquisadores para registrarem patentes dos resultados obtidos por suas pesquisas.

Arthur Meucci

imagem: shutterstock

As universidades argumentam que o "roubo das descobertas" possibilita outras pessoas a levarem o crédito pelos resultados da pesquisa, além da perda financeira que o pesquisador e a universidade podem ter na comercialização de produtos obtidos por pesquisas não patenteadas.

A patente é considerada um título de propriedade temporária sobre uma invenção ou modelo de utilidade, outorgados pelo Estado brasileiro aos inventores, autores, pessoas físicas ou jurídicas detentoras de direitos quando registram suas descobertas no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). Considerada pelo INPI como "criadora" ou "inventora", a pessoa que registra a patente recebe os privilégios de ter reconhecida sua autoria pela "criação ou invenção", além do direito de auferir lucros com a comercialização de produtos feitos por terceiros que usem sua patente.

Se olharmos pela perspectiva ideológica da sociedade de mercado, faz todo sentido registrar os frutos de um trabalho científico, pessoal ou institucional, com vistas a garantir recompensas pelos esforços utilizados no processo de invenção. Quando enxergamos o ser humano como um indivíduo que existe, se constitui, pensa e age por si mesmo, acabamos não questionando os pressupostos teóricos do registro da "propriedade intelectual". Esses agentes que se assemelham ao divino na possibilidade de "criar", com suas próprias capacidades, algo que não existia, compartilham indiretamente da premissa da existência de um "eu" inato e permanente, que existe em si e por si. Um ser que, quando inventa, se considera autônomo e autossuficiente, como a imagem que temos de Newton ao descobrir a gravidade debaixo da macieira, ou de Pasteur, que pesquisou e lutou contra a sociedade de sua época quando descobriu a penicilina e os micro-organismos. Gênios aparentemente autônomos, muito à frente de sua época, que ofereceram contribuições inestimáveis para a humanidade.

As perspectivas teóricas liberais que justificam esta concepção de trabalho e propriedade são amplamente conhecidas pela filosofia de John Locke ou juridicamente, nos manuais de Direito. "O trabalho pode ser definido como toda ação humana, realizada com dispêndio de energia física ou mental, acompanhada ou não de auxílio instrumental, dirigida a um fim determinado, que produz efeitos no próprio agente que a realiza, a par de contribuir para transformar o mundo em que vive"1. A ideia de um indivíduo que age para obter algo e que, por desprender certo gasto de energia, se torna proprietário daquilo que fez, pode ser facilmente questionada por outras premissas teóricas marxistas ou sociológicas.

No intuito de analisar a ideia de patente, proponho duas perguntas essenciais: "Quem é o agente criador?" e "O que seria esta suposta criação?".

O agente que inventa é um ser social, uma pessoa que foi constituída em suas relações sociais com a família, escola, mídia, universidade, etc. O seu "eu" não é inato, mas fruto de relações sociais que definiram seu comportamento e seu discurso sobre si mesmo. Seus gostos e prazer de estudos foram ensinados, assim como sua formação acadêmica só foi possível graças aos investimentos da sociedade na universidade (pelo Estado ou em benefícios concedidos às instituições particulares de ensino). Os homens são seres sociais, logo, não são autônomos e independentes. O seu trabalho intelectual depende de fatores históricos, sociais e econômicos que estão além da simples observação. Não existe um "eu", e sim um "nós criador", inúmeros discursos sociais aprendidos e incorporados em um agente que possibilitam avançar tanto no conhecimento quanto na tecnologia.

O que seria então a suposta "criação"? Aquilo que se descobre ou cria não é um fenômeno singular, mas o fruto da história e de um campo científico. Para se inventar a penicilina, por exemplo, foi necessário aprender a observar o mundo como um cientista, estudar Biologia, ter um laboratório propício para a pesquisa, etc. Toda criação de um agente é fruto de inúmeros fatores. Como escrevia o sociólogo Pierre Bourdieu sobre as invenções científicas: "Os cientistas nunca são os gênios singulares de quem se faz a história hagiográfica: são sujeitos coletivos que, enquanto história coletiva incorporada, atualizam toda a história pertinente da sua ciência – penso, por exemplo, em Newton ou Einstein -, e que trabalham no seio dos grupos coletivos com instrumentos que pertencem à história coletiva objetivada."2

Se o inventor e sua invenção dependem das instâncias sociais para existirem, se suas existências são marcadas por um campo histórico que favoreceu seu pertencimento, se toda criação pressupõe um investimento da sociedade, o que pode legitimar uma ideia ou criação como uma posse pessoal? Se o corpo social é um fator determinante no surgimento de uma invenção, como podemos aceitar que uma pessoa física ou jurídica possa lucrar sozinha com uma patente? Nada seria mais ingrato e injusto, com o campo científico e com a sociedade, do que tornar propriedade particular uma invenção que só foi possível graças à história da Ciência e ao corpo social que permitiu seu surgimento. Por esse motivo, acredito que devemos repensar as atuais políticas de patentes.

Arthur Meucci é Mestre em Filosofia pela USP e membro da Associação Filosófica Scientiae Studia. Professor Conferencista de Ética da ECA/USP, de Ética e Negócios da Unip e do Colégio Bom Jesus. É consultor do Espaço Ética. www.meucci.com.br

Fonte: http://filosofiacienciaevida.uol.com.br/

Socialismo Científico

Captar e elaborar tudo o que tiver valor epistemológico de corte econômico e científico, independentemente de se se aceita ou não a posição revolucionária, porque as metas revolucionárias contemplam superar o empobrecimento e a exploração das massas de trabalhadores. Assim com o tempo, o povo despossuído cresceria fortemente, enquanto que os exploradores capitalistas encolheriam até formar apenas um punhado. Esta é a base da consciência revolucionária.

Raúl Crespo.

Em um mundo onde as guerras, as repressões, as invasões imperiais, globalizam a fome e a pobreza, transtornam as sociedades e deformam as consciências, onde a fartura de poucos é a pior afronta à miséria de muitos, onde campeia a alienação, homens de esquerda por convicção escasseiam. Em um mundo onde estruturas feudais aparentemente imutáveis, andam de mãos dadas com industriais e meios de comunicação em mãos da oligarquia burguesa. As coisas e sobre tudo as massas do povo se apresentam em estado de contraste e de desconcertos surpreendentes. Em terras latino-americanas se destaca como em poucas partes uma situação socioeconômica e sociocultural mais destrutiva da condição humana como a pobreza e a fome endêmica que atravessa do México ao Chile sem perdoar nenhum país. Na América do Sul somos aproximadamente 380 milhões de pessoas, das quais 120 milhões estão na pobreza e 70 milhões sobrevivem à indigência, isto representa a destruição intelectual, moral e física. Este sistema capitalista culpável depois de anos de saqueio, representa que a riqueza material se concentra em menos de 9% da população e, o bem-estar sob a forma de existência tolerável alcança apenas a uns 40 milhões de pessoas.

Neste Éden onde as soluções estão por verse, Venezuela representa a opção mais valiosa para que com uma reengenharia social revolucionária, econômica socialista, os fatos de um conhecimento técnico e científico, a ação na qual a produção do proveito ocupa o lugar do que é humano. Portanto não esta inserida nas necessidades de produção capitalista. A miséria física acrescenta a miséria moral e cultural. O homem se torna em simples consciência metafísica.

Para uma revolução socialista que não superou o alinhamento, a situação de pobreza mental é um obstáculo absoluto, uma fronteira última e determinante que deve ser derrubada com conhecimento, para estabelecer empresas de produção social em base e a partir da consciência reflexiva para um desenvolvimento de dentro para o sul. Com consciência e ideologia socialista, mais o conhecimento, o desejo, a honestidade, a integração, a inventiva, a troca comercial, criaremos modelos associativos de produção com retorno social para uma igualdade de oportunidades nos projetos públicos. A elaboração do orçamento para o povo e pelo povo, as cooperativas que minimizam o desemprego, a idéia é reinventar a empresa de propriedade coletiva, orientada desde um princípio, a satisfazer necessidades comunitárias com controle social. Então falaremos de um socialismo científico que unido à integração Sul- Sul permitirá desenvolver o novo socialismo do século XXI.

O poder do homem, será então o poder do povo, porque receberá uma educação e uma oportunidade produzida em um estado socialista para desenvolver uma cultura que tem como alvo, a atividade prática, com um novo pensamento socialista. Será assim como os homens e mulheres venezuelanos, homens e mulheres latino-americanos farão possível um crescimento endógeno Sul-Sul e para a esquerda, com uma consciência individual e coletiva para multiplicar o socialismo em base a acontecimentos vividos para aceder a uma cosmovisão e cultura libertadora para se opor integralmente ao neocapitacolonialismo.

Os estudos sociais emparentados com o socialismo, assinalam não postular nenhum homem econômico e homem político unilateral e simplificado. O socialismo se ocupa dos homens e de suas relações em toda a complexidade real. O homem de esquerda é uma mistura de homem-econômico-político-religioso-social-coletivo e assim sucessivamente. Os dados fornecidos por cada uma de estas ciências de forma individual são insuficientes para descobrir a verdadeira natureza do homem, suas relações e condutas, que escapam ao alcance de estas ciências ao não fazer uma ligação com o povo, aí surge o socialismo que promove a igualdade e a integração, preenchendo os vazios de estas ciências, mas dando passo a outras reações emocionais conjuntas, associadas com a coletividade.

Esta visão da revolução socialista com produção do conhecimento, implica desde bom sentido até ciência nos procedimentos aplicados com uniformidade, com critérios objetivos, com passos sistematizados de uma planificação coerente, demandando evidência para justificar o conhecimento. Ou seja, trabalhar com consciência ideológica para melhorar a eficiência, eficácia da prática revolucionária em direção ao socialismo.

O Socialismo científico é uma atividade que permite solucionar problemas, oferecendo mudanças, variantes e idéias socioculturais-econômico-políticas, para serem executadas com conhecimento ideológico da conduta humana.

Neste contexto a imagem Marxista do povo não é só a representação de uma avançada teórica conscienciosa da classe trabalhadora, senão que contem a a par o pressuposto de que os membros da revolução são homens e mulheres que só lutam pelos interesses do socialismo, que se entregam totalmente à causa da igualdade, que antepõem seus interesses de toda a classe aos seus, embora isto não é formulado expressamente, se trata de uma exigência moral socialista muito peculiar que se deve formular aos membros que compõem os diferentes organismos políticos do estado e que esta ligada à idéia de que se trata de uma gente “eticamente perfeita da classe operária e a sociedade”. Entregam-se à causa, à revolução e ao socialismo sem restrições, refletindo o que é um princípio do socialismo científico, do socialismo cultural, do socialismo humanista ou de qualquer classe de socialismo. Porque a essência do socialismo é a associação das relações sociais com o povo para o povo.

A base deste convencimento é diferente de acordo com as pessoas e suas classes mentais e, com mais freqüência é mais emotiva que racional, em muitos é um fanatismo cego, é distinta de acordo com as possibilidades intelectuais e conhecimentos do marxismo socialista, até as massas que só esgrimem lemas, sobre exploração, miséria, estão más claras, por vivirlas diariamente, que os políticos que as reapresentam. De um modo u outro, a maioria de os líderes o funcionários, verão em as metas assumidas, não só uma saída de su própria posição social, sino a liberação de todos aqueles com os que se encontra vinculados interessadamente, porque ocupam a mesma posição e situação.

O conhecimento exato de esta situação intelectual, NÃO é socialismo científico si não incluirmos, a conscientização, a ética, a moral, a justiça e a razón do povo, caracterológico desde os altruístas a os egoístas utilitários, faltos de escrúpulos, trabajando para a sociedade em acciones que tienen conseqüências políticas e sociais. Pero este conhecimento de valores e princípios tampoco é socialismo científico ni nenhum outro tipo de socialismo, si dejamos de lado as emociones, reacciones a os sentimentos produzidos e que uno elege tener como o ódio, a envidia, o afán de poder, a vingança, o o de pretender viver igual que os opressores capitalistas. Só uma parte muy pequena de funcionários com sentimento social ha comprendido em si a problemática do cambio hacia o socialismo permanente, necessário, para llegar a a sociedade compartiendo conhecimento, ação, experiência, com o exemplo, para solucionar em parte os problemas reais, atuando politicamente em pro de os interesses do povo. Só así nos acercaremos hacia o socialismo do camarada presidente Hugo Rafael Chávez Frías, que é o socialismo científico que busca o novo socialismo do siglo XXI.

A relação entre as capacidades intelectuais e as capacidades éticas é de importância profissional em sociologia e psicologia, em especial a dos funcionários dirigentes do país. Em grande medida os homens não actúan por consideraciones egoístas, sino por convencimento ideológico e profundo, más o arrastre histórico de as massas que sofrem como eles a exploração, opressão e persecução do modelo neoliberal capitalista. Quanto más se vê levada a uma teoria por sus próprios interesses e emociones, donde descobre su nexo com os interesses do povo, mucho más se altera o interesse que em um principio foi puramente emotivo, em interesse político superior por convicção. A própria união política ou partido e sua luta são o interesse mais importante, independente o não, de concretizar as metas políticas. Mesmo que ela não seja atraente para os membros do partido em geral ou de suas funções que desempenham dentro do sistema, longe de perseguir metas egoístas, tampouco se contentarão com os requerimentos éticos gerais já proclamados. Como a psique do homem, seu caráter, sua moral, são complicados e rebuscados, não há partido político que tenha uma autêntica probabilidade de não ter em suas filas, membros egoístas, petulantes e mal intencionados, haverá muitos perseguindo sua satisfação pessoal, com o reconhecimento, a admiração, o interesse por alcançar o poder a qualquer custo, isto acontece quando se alcança o poder político sem estar convencido da política a ser seguida, será inevitável que com tal crescimento aumente o número de homens e mulheres egoístas individualistas e oportunistas. Não há controle, nem depuração, nem provas que consiga salvar o sistema político dessas pessoas. Em um partido político no poder se engrossam os hipócritas, oportunistas que adquirem mais cargos e começam a se liberar dos idealistas que são de outro gênero e forma de pensar, desprezando esses membros altruístas dispostos a trabalhar pelas necessidades autênticas das massas, lhes tiram os cargos chaves e acabam por apagar-lhes seu influxo essencial da ideologia da mudança. Em toda preparação ideológica do socialismo, jamais se sopesou a possibilidade de tal diferenciação, entre interesse e poder e, os interesses da maioria, que jamais se procurou um mecanismo, nem garantias para implementar interesses reais para as massas, já que se confiou na proclama da ética do partido. Não só é uma ingenuidade teórica, senão que hoje é uma hipocrisia recalcitrante, quem negar este fato ou não o quiser aceitar na prática, quem nas relações sociais coletivas, só contemplar mecanismos pesados e torpes, só ressaltando a capacidade de ação revolucionária das elites diretivas, em realidade não se preocupa pelos interesses do povo, de baixo, e seus necessidades autênticas, senão que só implementa algumas idéias que querem fazer passar por soluções para as massas. Próprias ou alheias estas idéias com freqüência inspiram e entusiasmam porque lhes falam ao recôndito do pensamento, ao emotivo. Agora, como se pouco fosse, essas argumentações possuem alguma lógica e pincelada científica serão aceitas com maior rapidez.

O conhecimento exato do socialismo permite conhecer que não há idéias concretas e que a autocrítica é necessária para ensamblar um socialismo sob medida de teu país que se ajuste isso sim, à autonomia e a recuperação cultural, permitindo um manejo soberano das capacidades produtivas. Lenin tinha razão com a teoria (nesse momento) que o capitalismo conduziria a uma revolução mundial nos países explorados por sua alarmante pobreza da cadeia capitalista. Nesses países explorados é onde se encontram os revolucionários, hoje chamados terroristas pedindo paz e pão, terra e liberdade para todos, essa é a chave na prática de um socialismo científico.

Trabalhar com o desenvolvimento social que por lei do Governo Bolivariano Socialista e que na contraposição de classes se reflete antes que nada a contradição, que não conduz à transformação revolucionária das relações sociais. Descobrir a base das contraposições crescentes. A essência da exploração capitalista implica uma análise muita profunda das tendências de desenvolvimento a impulsionar, para alcançar a liberação social dos trabalhadores. Mediante tal análise fica ao descoberto cientificamente quais são as opções para derrotar o capitalismo, especialmente no aspecto socioeconômico desse sistema e impulsionar o aspecto humano, tão esquecido com o sistema capitalista neoliberal.

É um fato que a maioria absoluta não gosta, nem tem interesse em fazer um trabalho para outros, para a sociedade, e que se pudessem escolher, em sua grande maioria optariam por atividades que lhes outorguem maior satisfação, trabalhando de maneira rotineira e, só o fazem porque através do mesmo alcançam os meios de vida, medicina, educação, serviços, etc.

Só é possível uma relação de troca com países socialmente convencidos para efetivar a troca de produtos e serviços como Cuba, a China, a Rússia e ultimamente quase toda a América do Sul integrada aos poucos com governos de esquerda a caminho do socialismo, produto da convicção de Chávez, de alguns governos, dos povos, de integrar a América Latina, em um projeto sul- sul.

Versão em português: Tali Feld Gleiser de América Latina Palavra Viva.

Fonte: http://zequinhabarreto.org.br/

O bombardeio midiático: lições da eleição no Peru

Assim como aconteceu com os oito anos do governo Lula e com a eleição vitoriosa de Dilma Rousseff, no Peru, a maioria dos grandes meios de comunicação promoveu um pesado bombardeio contra a candidatura de Ollanta Humala, que acabou vitoriosa. O grupo El Comercio liderou o ataque contra Humalla.

Martín Granovsky

Nas palavras de um historiador peruano, “o desempenho do El Comercio merece uma menção especial, pelo seu esforço homérico em destruir sua própria credibilidade”. Como ocorreu no Brasil, a grande mídia peruana acabou derrotada pela realidade, no caso uma vontade de mudança que se tornou majoritária no país.

Se acontece mais de uma vez, não deve ser casualidade. E aconteceu. Ollanta Humala ganhou o segundo turno apesar do ataque virulento do El Comercio, o grupo midiático que domina o mercado do Peru. O fenômeno repete o que ocorreu nas últimas eleições presidenciais sul-americanas, vencidas pela brasileira Dilma Rousseff, em outubro último, com 54% dos votos.

O grupo El Comercio, da família Miró Quesada, controla o jornal do mesmo nome. Foi fundado no século XIX como La Nación, tem o peso empresarial do grupo Clarín e dispõe da capacidade articuladora de interesses que, juntos, ambos representam. Também é co-proprietário da TV Peru, que por sua vez controla a Plural TV, que por sua vez controla a Companhia Peruana de Radiodifusão e Produtora Peruana de Informação (Canal N). Além do jornal El Comercio, o grupo é dono de outros três, Trome, Peru.21 e Gestão, e das revistas Somos, Ruedas y Tuercas, e PC World.

Foi daí que partiu o bombardeio massivo (“cargamontón”, como se diz no Peru) contra Humala e a defesa de Keiko Fujimori.

Na agressão, El Comercio perdeu seu principal colunista, Mario Vargas Llosa. O escritor deu instruções ao jornal El País, da Espanha, que vende suas colunas, para mudar-se para o jornal la República, onde começou a publicar no domingo das eleições. Antes enviou uma carta de renúncia a Francisco Miró Quesada, Diretor do El Comercio. Vargas Llosa escreveu:

“Desde que um punhado de acionistas, encabeçados pela senhora Martha Meier Miró Quesada, tomou o controle desse diário e do grupo de canais de televisão e periódicos dos quais é proprietário, o jornal se converteu em uma máquina propagandista da candidatura de Keikom Fujimori, violando as mais elementares noções da objetividade e da ética jornalística; silencia e manipula informações, deforma os fatos, abre suas páginas às mentiras e calúnias que podem prejudicar o adversário, ao mesmo tempo em que, em todo o grupo, jornalistas independentes são demitidos ou intimidados, e se recorre às insídias e golpes baixos dos piores pesquisas que vivem do sensacionalismo e do escândalo”.

E acrescentou:

“Não posso permitir que minha coluna “Pedra de toque” siga aparecendo nesta caricatura do que deve ser um órgão de expressão genuinamente livre, pluralista e democrático”.

Vargas Llosa não é um esquerdista desaforado. Os leitores do Página/12 tiveram a oportunidade de conhecer em primeira mão, na entrevista publicada no dia 22 de abril, suas advertências contra “as debilidades coletivistas” dos social-democratas e sua afirmação de que “a intervenção do Estado gera injustiça”.

Em 1990, após ser considerado favorito, Vargas Llosa perdeu as eleições para Alberto Fujimori, que o derrotou no segundo turno. Depois, em 1992, o escritor se opôs ao auto-golpe e à dissolução do Parlamento. A reação de Fujimori foi tão violenta que a Espanha concedeu nacionalidade a Vargas Llosa para apoiá-lo.

O caso de Vargas Llosa marca um ponto interessante no debate sobre os meios e o poder. Vargas Llosa deixou o jornal El Comercio porque viu ferido seu narcisismo ante uma possível vitória de Keiko Fujimori, a filha do tirano? É uma pergunta que não tem resposta. Talvez tampouco tenha sentido. Na política, valem os fatos. E Vargas Llosa produziu três. Um, anunciar seu voto para Alejandro Toledo, no primeiro turno. Disse que eleger Humala ou Keiko era “escolher entre o HIV e o câncer”. O segundo fato, depois da derrota de Toledo, foi avisar que votariam em Humala considerando-o um “o mal menor”. O terceiro foi abandonar o El Comercio.

Para além do que vai ocorrer no futuro entre Humala e Vargas Llosa, uma hipótese é possível: o autor de “Os cachorros” deixou El Comercio porque acreditou que o grupo midiático ultrapassou um limite. Qual? O limite da democracia. Vargas Llosa é um liberal que, com incongruência, apoia neoconservadores que sustentaram ditaduras, como Milton Friedman no caso do Chile, às quais ele mesmo se opôs. Convém levar em conta que Humala ganhou no segundo turno por pouco menos de 3% dos votos: 51,45% contra 48,54. Se sua base foram os pobres da serra e os pobres do litoral, é evidente que conseguiu desequilibrar o resultado com o apoio de uma parte dos setores médios e inclusive de setores médios com explícitas ideias de centrodireita, como Vargas Llosa.

Humala derrotou o grupo El Comercio? Talvez seja mais proveitoso experimentar outro cenário: Humala liderou uma mudança e entrou em sintonia com ela, enquanto El Comercio foi contra. E a mudança – presente no humor social, no sentido comum, na alma dos peruanos – varreu tanto Keiko como o El Comercio. Se os grandes grupos de poder não são invencíveis, por que o seriam os grupos midiáticos gigantes que articulam a expressão desses grupos? Por que triunfariam quando diante deles há uma aliança social e uma construção política.

O nome de Lula ressoou na campanha peruana. É possível que, como símbolo, a palavra Lula desperte menos resistências que a palavra Chávez. Mas, como estratégia de fundo e não só de marketing eleitoral, Humala se inspirou no método lulista de alianças. Entre o primeiro e o segundo turno, não teve dúvida em reunir-se com Toledo, em agradecer o apoio de Vargas Llosa e em prometer que faria “um governo de concertação nacional” baseado na honestidade. E, ao mesmo tempo, manteve sua promessa dupla de ampliar as políticas sociais de educação, assistência e saúde e de implantar um imposto especial para a renda extraordinária da mineração. O grupo El Comercio, como Keiko, acabou indo contra a maioria dos peruanos que acreditaram no projeto de Humala.

El Comercio não se deu por vencido nem quando o escrutínio atingiu um ponto sem retorno. No dia 7 publicou a seguinte manchete: “Incerteza por falta de sinais claros”. Em um dos títulos secundários admitia que “o volume de negociações foi baixo”, mas assinalava que “a Bolsa de Valores de Lima teve a pior queda da história, com 12,45%”. Acrescentava que “especialistas sustentam que devem ser definidas com rapidez as novas cabeças do Ministério de Economia e Finanças e do Banco Central” e, em um editorial, indicava que “o novo presidente deve dar uma mensagem tranquilizadora aos cidadãos, ao mercado e aos setores econômicos”. Puro terrorismo financeiro.

No mesmo dia, o jornal La República escolheu outro título: “Ollanta dá o primeiro passo”. Informava sobre a designação de uma comissão de transferência do poder desde o triunfo até a posse, dia 28 de julho, sob o comando da vice-presidenta eleita Marisol Espinoza.

La República publicou uma interessante coluna do historiador Nelson Marique, “Balanço de feridos”. “As dúvidas em torno do que um governo de Humala poderia representar foram minimizadas pela perspectiva de contribuir para o retorno do fujimorismo”, escreveu Manrique. “Não conheço nenhum outro momento da história peruana em que tenha se produzido uma convergência tão ampla e comprometida de escritores, cientistas políticos, cineastas, sociólogos, jornalistas, historiadores, linguistas, educadores, etc., em torno de uma causa comum resumível em duas palavras: decência e dignidade”. Para Manrique, esse “aval ético” envolve “a responsabilidade de exercer vigilância sobre os atos do novo governo”.

É aguda a análise sobre a contribuição do grupo El Comercio para o triunfo de Humala. “Desempenhou também um papel importante o ‘efeito saturação’ provocado pela campanha de demolição empreendida pela maioria dos meios de comunicação contra Ollanta Humala. Quando, em uma campanha propagandista, se baixa de um certo ponto, ela deixa de ser efetiva e acaba produzindo o efeito contrário ao desejado. O bombardeio midiático ultrapassou amplamente esse limite e suas mensagens não só deixaram de funcionar, como alimentaram o ceticismo dos espectadores em relação ao desempenho do grosso da imprensa, rádio e TV. O desempenho do grupo El Comercio merece uma menção especial, pois fez um esforço homérico para destruir sua própria credibilidade”.

Segundo Marinque, El Comercio passou tanto, mas tanto, do limite que, ao final, se converteu “em uma excelente recordação de como foram os tempos de Fujimori”.

Lula governou oito anos com a oposição ferrenha do jornal Folha de São Paulo, da revista Veja e da Rede Globo. Deixou o poder no dia 1° de janeiro deste ano com uma popularidade superior a 80%. A melhoria real da vida dos brasileiros, mais sua percepção subjetiva de uma melhora – Lula sempre fala da recuperação da autoestima e esse foi seu elogio a Néstor Kirchner no velório do ex-presidente – atuaram como um dique de contenção contra o qual se esborrachou o bombardeio da grande mídia do Brasil.

Dilma ganhou no segundo turno apesar de as elites políticas brasileiras terem chegado a demonizá-la porque havia declarado seu apoio à descriminalização do aborto. Ganhou em virtude do peso da realidade, sintetizado na incorporação de 36 milhões de brasileiros ao mercado, pelo poder de comunicação do próprio Lula e pelo boca a boca. A televisão pública recém começa e experiências baseadas em valores de justiça social como a revista Carta Capital ou o site Carta Maior são importantes, mas não massivas. A aposta atual do ministro de Comunicações de Dilma, Paulo Bernardo, esposo da nova chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, é ampliar o programa de banda larga e garantir um serviço de um mega para 40 milhões de brasileiro a um preço de um décimo do salário mínimo mensal, de hoje até 2014. De acordo com dados do Sindicato Nacional de Empresas de Telefonia e de Serviço Móvel Celular e Pessoal, para garantir que 74% da população esteja coberta até 2020, o Estado e a iniciativa privada devem investir cerca de 130 bilhões de dólares.

Com uma plataforma digital acessível podem se plasmar formas de diversidade como as que propõe a Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual na Argentina, ou podem se expressar, a partir da sociedade civil e da articulação política, forças como as que levaram à vitória da frente Ganha Peru. Mesmo sem uma plataforma digital barata e massiva, os simpatizantes de Ganha Peru, em lugar de teorizar sobre as redes sociais ou a análise do discurso – matéria de especialistas – decidiram usar toda a web. Um desses simpatizantes escreveu:

“Se você possui uma conta de correio, blog, website, ou participa de redes sociais (facebook, twitter, etc.), urge assumir a responsabilidade de difundir para teus contatos duas ideias chave para enfrentar a grande mídia e evitar que te imponham o voto. A primeira, que as propostas de mudança provém da frente Ganha Peru e de seu candidato Ollanta Humala. A segunda ideia é que deve lembrar teus destinatários dos crimes cometidos pelos Fujimori, como La Cantuta, Barrios Altos, Pedro Huilca”.

A simplicidade didática, no Peru, foi parte de uma articulação política em favor de um objetivo. Ocorre o mesmo quando um fato negativo lança uma luz de alerta. Antonio Palocci, o ex-chefe da Casa Civil, não renunciou porque a informação sobre seu enriquecimento saiu na Folha de São Paulo. Deixou o cargo porque não pode explicar nem sua riqueza súbita nem dizer quais eram os clientes de sua empresa de consultoria antes de assumir como braço direito de Dilma. Para além das questões jurídicas, o PT entendeu que, se Pallocci permanecesse no Planalto acabaria prejudicando a presidenta e o governo inteiro. Com Lula em 2005 e 2006, o PT aprendeu que os escândalos não devem crescer porque desgastam a base de sustentação da presidenta e que, em troca, essa base aumenta quando as políticas de maior justiça que dão identidade a um projeto popular são implementadas sem ruídos de forma e de fundo. E, claro, sem medo do bombardeio midiático.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: http://www.luisnassif.com/

Crimes são frutos da impunidade, afirma Pedro Casaldáliga

Mais um episódio da guerra no campo. Assim Dom Pedro Casaldáliga define o assassinato dos líderes extrativistas José Claudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva, ocorrido na semana passada no Pará.

Eleonora de Lucena

Fundador da Comissão Pastoral da Terra e do Conselho Indigenista Missionário, o bispo ganhou notoriedade internacional ao denunciar brutalidades de madeireiros, policiais e grandes proprietários rurais no período da ditadura militar.

Agora, aos 83 anos, o bispo emérito de São Félix do Araguaia (MT) segue fazendo o seu diagnóstico do país.

Qual o significado do duplo assassinato no Pará?

A morte de José Claudio e da Maria do Espírito Santo não é um fato isolado. É mais um episódio da guerra no campo. É fruto da impunidade e da corrupção marcantes sobretudo no Pará, campeão em violência no campo, em desmatamento e queimadas.

Qual é a situação dos conflitos agrários?

Simplificando, com uns traços panorâmicos, poderíamos dividir o nosso Brasil em três. Primeiro, o Brasil hegemônico, que está a serviço do agronegócio, depredador, monocultural, latifundista, excluidor dos povos indígenas e do povo camponês. Fiel à cartilha do capitalismo neoliberal. Uma oligarquia política tradicionalmente dona do poder e da terra.

Quem fica do outro lado?

O povo da terra indígenas, camponeses da agricultura familiar, ribeirinhos, extrativistas, sem terra consciente de seus direitos e organizado em diferentes instâncias de sindicato, de associação e respaldado por grupos militantes solidários do movimento popular, das pastorais sociais, de intelectuais e artistas, de universitários, de certas ONGs.

Quem é o terceiro grupo?

É uma maioria média desinformada ou mal informada, que não vincula as lutas do campo com as lutas da cidade, no dia a dia da sobrevivência. Que não percebe ainda que a reforma agrária é uma luta de todos.

Qual é o papel do Estado?

O Estado continua omisso frente a três grandes dívidas: a reforma agrária, a política indigenista, a política doméstica e ecológica do consumo interno.

Como é o movimento dos trabalhadores rurais hoje em comparação com o período da ditadura militar?

Hoje, evidentemente, o Brasil está numa democracia, pelo menos formal. As organizações do povo da terra têm uma relativa liberdade de ação. O MST é um caso emblemático. Os governos do PT pelo menos não satanizam essa luta.

Qual é o papel da Igreja Católica nesse movimento? Como a orientação mais conservadora do Vaticano interfere?

A Igreja já não deve assumir, como nos tempos da ditadura, uma atuação de suplência abrangente. A Igreja deve continuar sendo -e talvez mais do que nunca, pela ambiguidade oficial e internacional- uma Igreja servidora e profética. Que não se omita nunca ante o clamor dos pobres.

Fonte: http://www.mstpara.com.br/

Israel rejeitará novamente a paz?

 Robert Fisk revela bastidores da longa negociação que permitiu acordo entre grupos palestinos. E comenta reações de Telavive e Washington

Robert Fisk

Encontros secretos entre intermediários palestinos, agentes da inteligência do Egito, o ministro turco de Relações Exteriores, o presidente Mahmoud Abbas e Khaled Meshaal, líder do Hamás – uma ida secreta a Damasco, tendo de desviar da cidade de Deraa, em rebelião – levaram à unidade dos palestinos que tanto perturbou os governos de Israel e dos EUA. Em maio, Fatah e Hamás puseram fim a anos de conflitos, com um acordo crucial para alcançar o reconhecimento internacional do estado palestino.

Várias cartas detalhadas, aceitas pelos dois lados, das quais The Independent tem cópias, mostram o quanto foram complexas as negociações. O Hamás também buscou – e obteve – o apoio do presidente sírio Bachar al-Assad, do vice-presidente Farouk al-Sharaa e de seu ministro de Relações Exteriores, Walid Moallem. Entre os resultados, há um acordo feito por Meshaal para pôr fim aos ataques de foguetes do Hamás, de Gaza, contra Israel – porque a resistência passaria a ser direito exclusivo do estado – e um acordo pelo qual o estado palestino reivindica fronteiras baseadas nas fronteiras de Israel em 1967.

“Sem a boa vontade de todos os lados, o auxílio dos egípcios e a aceitação pelos sírios – além do desejo dos palestinos de unir-se, desde o início da Primavera Árabe –, não teríamos conseguido fazer o que fizemos”, disse-me pessoalmente um dos principais intermediários, Munib Masri, 75 anos. Foi Masri quem ajudou a estabelecer um ‘Fórum Palestino’ de independentes, depois de o Hamás ter alcançado extraordinária vitória eleitoral em 2006. “Sempre entendi que as divisões que se criaram seriam uma catástrofe, e passamos quatro anos andando para frente e para trás entre os vários partidos”, disse Masri. “Abu Mazen (Mahmoud Abbas) pediu-me várias vezes que mediasse os contatos. Começamos a nos encontrar na Cisjordânia. Todos participaram. Reunimos muitas capacidades.”

Em três anos, membros do Fórum Palestino viajaram mais de 12 vezes a Damasco, ao Cairo, a Gaza e à Europa e várias iniciativas foram rejeitadas. Masri e seus colegas negociaram diretamente com o primeiro-ministro Hanniyeh do Hamás em Gaza. Adotaram a chamada “iniciativa de troca de prisioneiros” de Marwan Barghouti, alto líder do Fatah, que está preso em Israel; então, com os ventos das revoluções na Tunísia e no Egito, a juventude palestina, dia 15 de março, exigiu que os partidos se unissem e pusessem fim à rivalidade entre Fatah e Hamás. Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel sempre se recusou a negociar com Abbas porque, dizia ele, os palestinos estavam divididos. Dia 16 de março, em discurso, Abbas disse que estava “pensando em ir a Gaza”. Masri, que estava presente, subiu numa cadeira e aplaudiu.

“Supus que o Hamás responderia positivamente” – Masri recorda. “Mas nos primeiros dois ou três dias depois do discurso de Abbas, a resposta foi negativa. O Hamás queria eleições imediatas e nada de diálogo.” Abbas partiu para Paris e Moscou – para mostrar desagrado, aos olhos de alguns de seus associados. Mas o Fórum não desistiu.

“Redigimos um memorando – dissemos que íamos visitar os egípcios, para nos congratular com a revolução deles. Tivemos duas reuniões com o chefe da inteligência egípcia, Khaled Orabi – o pai de Orabi foi general do exército ao tempo do rei Farouk – e nos encontramos com Mohamed Ibrahim, do departamento de inteligência.” O pai de Ibrahim tornou-se muito conhecido na guerra de 1973, quando capturou o oficial israelense de mais alta patente no Sinai. A delegação também se reuniu com assessores de Ibrahim, Nadr Aser e Yassir Azawi.

Sete membros de cada grupo palestino formaram a delegação que foi ao Cairo. Eis os nomes que, no futuro, estarão nos livros de história da Palestina: pela Cisjordânia, o Dr. Hanna Nasser (reitor da Universidade Bir Zeit e da comissão eleitoral central palestina); Dr. Mamdouh Aker (presidente da sociedade de direitos humanos); Mahdi Abdul-Hadi (presidente de uma associação política em Jerusalém); Hanni Masri (analista político); Iyad Masrouji (comerciante de produtos farmacêuticos); Hazem Quasmeh (dirige uma Organização Não Governamental) e o próprio Munib Masri.

O ‘lado’ de Gaza foi representado por Eyad Sarraj (que não pôde viajar ao Cairo por ter adoecido); Maamoun Abu Shahla (membro da diretoria do Banco Palestino); Faysal Shawa (comerciante e proprietário de terras); Mohsen Abu Ramadan (escritor); Rajah Sourani (militante árabe de direitos humanos, que não viajou ao Cairo); ‘Abu Hassan’ (membro da Jihad Islâmica, indicado por Sarraj); e Sharhabil Al-Zaim (advogado em Gaza).

“Esses homens passaram muito tempo discutindo com o alto escalão do serviço de inteligência do mukhabarat egípcio” – Masri lembra. “Nos encontramos com eles dia 10 de abril, mas enviamos um documento antes de viajar. Por isso o contato tornou-se tão importante. Em Gaza havia dois ‘lados’ diferentes. Falamos sobre a microssituação, sobre os gazenses presos em Gaza, sobre direitos humanos, sobre o bloqueio egípcio, sobre dignidade. Shawa dizia “sentimos como se não tivéssemos dignidade – e sentimos que a culpa é nossa”. Nadr Asr, do departamento de inteligência disse: “Vamos mudar tudo isso.”

“Voltamos às 19h, para nos reunirmos outra vez com Khaled Orabi. Eu disse: “Escute, preciso saber, de você: a nova iniciativa agrada a vocês, um pacote que é situação de ganha-ganha para todos? O caso da Palestina continua ‘quente’ no Cairo? Ele respondeu: “É processo meio longo – mas, sim, gostamos da ideia. Vocês conseguem pressionar os dois lados, o Fatah e o Hamás, e trazê-los para o projeto? Mas, sim, trabalharemos com vocês. Procurem o Fatah e o Hamás – e tratem tudo isso como assunto confidencial.” Nós aceitamos. Fomos falar com Amr Moussa (agora, candidato à presidência do Egito pós-revolução) na Liga Árabe. De início, mostrou-se muito cauteloso – mas no dia seguinte, quando nos reunimos com a equipe dele, todos foram muito positivos. Dissemos: ‘Deem uma chance à ideia’. Dissemos que a Liga Árabe foi criada para a Palestina, que a Liga Árabe tem papel importante em Jerusalém.”

A delegação visitou também Nabil al-Arabi, no ministério de Relações Exteriores do Egito. “Al-Arabi disse: ‘Posso chamar o ministro das Relações Exteriores da Turquia, que está no Egito?’ O ministro veio e discutimos juntos a iniciativa. Ali descobri que o ‘novo’ Egito estava muito confiante no sucesso da nossa iniciativa: eles quiseram [itálicos] discutir na presença da Turquia. Assim, discutimos todos juntos e eu voltei com os outros para Amã, às 21h.”

O grupo foi à Cisjordânia, para relatar o que fora feito – “estávamos felizes, nunca antes nos sentíramos como naquele dia” – e informar a Azzam Ahmed (chefe do grupo do Fatah que trabalhava pela reconciliação) que o grupo se preparava para apoiar a iniciativa de Mahmoud Abbas sobre Gaza. “Tivemos sete grandes reuniões na Palestina para reunir ali todos os grupos e os independentes. Abbas já nos dera um aval presidencial. Conversei com Khaled Meshaal (líder do Hamás, que vive em Damasco) por telefone. Meshaal perguntou: ‘Abu Mazzen (Abbas) concorda com tudo isso?’ Respondi que a questão não era essa. Dia seguinte fui a Damasco com Hanna Nasser, Mahdi Abdul Hadi e Hanni Masri. Por causa dos problemas na Síria, tivemos de contornar Deraa. Tenho boa relação com Meshaal. Ele disse que havia lido o nosso documento – e que achava que valia a pena trabalhar sobre a ideia.”

O fato de que os dois lados quisessem saber o que o outro pensava da iniciativa, antes de decidir, era sinal de que persistia a desconfiança entre o Hamás e Abbas. “Meshaal perguntou-me: ‘O que diz Abu Mazzen (Abbas)?’ Eu ri e respondi: ‘Você sempre pergunta isso. Estou aqui para saber o que vocês [itálicos] querem. Nos encontramos com assessores de Meshaal, Abu Marzouk, Izzat Rishiq e Abu Abdu Rahman. Lemos e revisamos o documento do acordo durante seis horas e meia. A única coisa que não arrancamos de Meshaal foi que o governo fosse constituído por acordo. Dissemos a ele que o governo seria governo de união nacional – sob a condição que teríamos de ser capazes de organizar e realizar eleições, levantar o bloqueio de Gaza e reconstruir Gaza, que tínhamos de obedecer à lei internacional, à Carta da ONU e às resoluções da ONU. Meshaal pediu três ou quatro dias. Aceitou que a resistência só aconteceria ‘na defesa do interesse nacional do país’ – e que teria de ser ‘aqlaqi’ – ética. Os ataques de foguetes contra civis tinham de acabar. Em outras palavras: ele tinha de garantir que não haveria mais foguetes de Gaza, contra Israel.”

Meshaal contou a Masri e acompanhantes que estivera com o presidente Bashar Assad da Síria, com seu vice-presidente Sharaa e com o ministro sírio de Relações Exteriores Moallem. “Disse que queria o apoio deles – mas no fim, prevaleceu a palavra do povo palestino. Estávamos muito felizes – dissemos que ‘surgiu uma pequena brecha’. Meshaal disse: ‘Nós não vamos deixar vocês sem apoio’. Dissemos que levaríamos a palavra dele ao Fatah e aos independentes na Cisjordânia, e aos egípcios. Na Cisjordânia, o Fatah chamava a iniciativa de ‘iniciativa do Hamás’ – mas dissemos que não, a iniciativa é de todos. Dois dias depois, Meshaal disse que falara com a inteligência do Egito e que eles estavam gostando do que tínhamos proposto.”

As conversações foram bem sucedidas. Meshaal concordou com enviar dois de seus principais homens ao Cairo. A equipe de Masri esperava que Abbas fizesse o mesmo. Quatro representantes – dois de cada lado – viajaram ao Egito dia 22 de abril. Um ano antes, quando houve um impasse entre os dois lados palestinos, no Egito, o regime de Moubarak tentara criar obstáculos ainda maiores para impedir qualquer reconciliação. Meshaal chegou a reunir-se, sem qualquer resultado, com Omar Sulieman – factótum da inteligência de Mubarak e o melhor amigo de Israel no mundo árabe – em Mecca. Se alguém ainda duvidasse, ali se comprovou que Sulieman realmente trabalhava para os israelenses. Dessa vez, tudo foi mesmo muito diferente.

No dia que Abbas e Meshaal foram ao Cairo, foram os dois governos completos, exceto os dois primeiros-ministros rivais, Fayad e Hanniyeh. O Hamás declarou que, ao longo dos últimos quatro anos, os israelenses haviam roubado ainda mais terras em Jerusalém e construído mais colônias exclusivas para judeus na Cisjordânia ocupada. Meshaal irritou-se, quando supôs que não o deixariam falar do pódio, como os demais presentes – e falou, no evento. E o Hamás aceitou a fórmula sobre as fronteiras de 1967, consciente de que assim reconhecia a existência de Israel; aceitou também a referência à resistência; e também concordou em ceder mais tempo a Abbas, para mais negociações.

No momento em que o Hamás passasse a integrar o governo de união, estaria reconhecendo o estado de Israel. Mas se não integrasse o governo, ninguém reconheceria coisa alguma e não haveria acordo. “Não é justo dizer ao Hamás ‘faça isso ou aquilo’”, diz Masri. “Claro que a resistência é direito recíproco. Mas se o Hamás não se integrasse ao governo de união nacional, passaria a ser apenas um partido político, sem tribuna para dizer o que querem dizer. Os EUA portanto que se preparem para conhecer o Hamás ativo na formação do governo. Esse governo respeitará as resoluções da ONU e a legislação internacional. Essa ação tem de ser mútua. Os dos lados perceberam que, por pouco, teriam perdido o barco da Primavera Árabe. Não foi trabalho meu – foi resultado da conjunção de muitos esforços. Não fosse pela mediação dos egípcios e pela boa vontade dos dois grupos palestinos, nada teria acontecido.” No dia seguinte à assinatura do acordo, partidários do Hamás e de Abbas concordaram em parar de prender militantes de um lado e de outro.

Hoje afinal se conhece a história da unificação dos palestinos. A reação de Netanyahu, primeiro-ministro de Israel à novidade – depois de ter-se negado a negociar com os palestinos porque estavam divididos – foi decidir que não negociaria com Abbas, se o Hamás fosse integrado ao governo palestino. O presidente Obama virtualmente ignorou a iniciativa da unidade palestina.

Mas falar de “fronteiras de 1967” implica que o Hamás reconhece a existência de Israel; e a decisão negociada sobre a resistência implica o fim dos foguetes de Gaza contra Israel. A disposição para subordinar-se à legislação internacional e às resoluções da ONU implica que a paz pode ser completada e que um estado palestino pode ser criado. Essa, pelo menos, é a opinião dos dois lados palestinos. O mundo esperará para saber se Israel outra vez rejeitará a paz.

Tradução: Coletivo Vila Vudu

Fonte: http://www.outraspalavras.net/