Daily Archives: 12/05/2011

História da capoeira

"Sem dúvida, ela nasceu no meio rural com a luta pela liberdade porem a malicia (mandinga capoeiristica) é urbana", afirma o pesquisador baiano Waldeloir Rego…

Capoeira Torino

 

Capoeira

A própria palavra já denuncia seu nascimento no campo entre grandes movimentos de plantação de cana de açúcar.

As clareiras abertas na mata serviram de canal para a fuga dos negros em busca de liberdade e melhor condição de vida nos quilombos.

Mas há quem diga que a capoeira é própria da cidade, onde aquela brincadeira quase inocente das fazendas teria evoluído para a arte marcial. "Sem dúvida, ela nasceu no meio rural com a luta pela liberdade porem a malicia (mandinga capoeiristica) é urbana", afirma o pesquisador baiano Waldeloir Rego, autor de um clássico sobre o assunto, ensaio sócio-etnográfico à respeito do jogo de angola.

Só não podemos afirmar se a capoeira teve inicio em Salvador ou no Rio de Janeiro ou, provavelmente, se fez ao mesmo tempo nas duas cidades, e ainda em Recife.

Escravos negros

Os escravos negros começaram a ser desembarcado no Brasil por volta de 1548 e, nos três séculos seguintes, seriam predominantes do tronco lingüístico banto, do qual faz parte a língua Quimbundo.

Esse grupo englobava angolas, benguelas, Moçambique, canbindas e congos:"Eram povos de pequenos reinos e com um razoável domínio de técnicas agrícolas e cuja grande característica era possuir uma visão muito plástica e imaginosa da vida, com grande capacidade de adaptação cultural", (explica o antropólogo Oderp Serra).

No Brasil, esses grupos étnicos, antes rivais, se uniram pela escravidão formando uma cultura africana no Brasil a qual plantou bases e tradições muito fortes na cultura brasileira, na dança, música e técnicas de movimentos do corpo "Não existe na historiografia recente do Brasil, nenhum dado que possa afirmar que a capoeira é proveniente da África".

Com certeza ela foi desenvolvida por escravos no Brasil, portanto, a capoeira é legítima e genuinamente brasileira, não podemos afirmar com certeza, se a capoeira teve seu inicio no passado em Salvador, Rio de Janeiro ou Recife, provavelmente, se fez ao mesmo tempo nestas cidades, sabe-se que a capoeira realmente surgiu como "instrumentos de libertação contra um sistema dominante predominante opressor".

O homem negro na condição de escravo era tratado como peça desse sistema dominante, os meninos negros como moleques e as mulheres escravas com filhos como fêmeas com suas crias. Os registros que determinam datas para seu surgimento utilizam datas que variam entre 1578 e 1632.

Dessa forma, o surgimento da capoeira se funde com a história da resistência dos negros no Brasil. Eis porque as maiorias dos autores que escrevem sobre a questão associam o aparecimento da capoeira ao surgimento dos primeiros quilombos; alguns chegam a se referir especificamente ao Quilombo de Palmares (que foi o que reuniu um número maior de pessoas, cerca de 25 a 50 mil, e foi destruído em 1694) como sendo o berço da capoeira.

No século passado, as principais cidades portuárias brasileiras, como Salvador, Recife e Rio de Janeiro, eram uns aglomerados de gente.

Era comum a figura do escravo de ganho, aquele que tinha permissão de vender ou prestar serviços na rua e em troca dar uma porcentagem do dinheiro que obtivesse ao seu senhor. Sem outra coisa a oferecer senão a força física para carregar móveis, mercadorias e dejetos, muitos fazia ponto perto do porto. Não demorou para que esses grupos se organizassem sob a chefia de algum valente chamado de "capitão" que era exímio em capoeira.

Segundo o historiador Carlos Eugênio Líbano Soares, que examinou o registro de prisões de escravos do século XIX, os anos entre a chegada da família real, em 1808, e a abdicação do primeiro imperador, em 1831, foram marcados pelo "terror da capoeira" no Rio de Janeiro. A Bahia não ficava atrás. Salvador era um barril de pólvora, os negros fizeram mais de trinta revoluções nesse período.

Antigos capoeiras figuram em fatos memoráveis. Mais também, diversos atos oficiais procuram acabar com as desordens das lutas de capoeira. Uma portaria de 16 de março de 1826 do intendente geral de polícia do Rio de Janeiro mandou que fossem presos e imediatamente punidos com 100 açoites os escravos encontrados jogando a capoeira.

Capoeiras baianos lutaram pela nossa independência, na boa terra de todos os santos.

No Rio de Janeiro em junho de 1828, capoeiras prestaram grande ajuda para dominar os batalhões de mercenários alemães e irlandeses que, revoltados, colocaram a população em pânico.

A câmara municipal de São Paulo, atendendo a uma representação do presidente da província, Coronel de Milícias Rafael Tobias de Aguiar, aprovou, em 24 de Janeiro de 1833, uma postura mandando que qualquer pessoa que praticasse a capoeira em lugar público, sendo livre seria presa por três dias e pagaria multa de um a três mil réis, sendo cativa seria presa por vinte e quatro horas com a pena de 25 a 50 açoites.

O quadro de Johan Moritz Rugendas intitulado "jogar capoeira ou danse de la guerre", de 1835, é considerado o primeiro registro preciso sobre a capoeira. Neste quadro dois negros se situam em posição de luta enquanto um outro, sentado, toca um atabaque que segura com as pernas. Outros negros, homens e mulheres, assistem à luta (ou jogo) que se realiza.

Em 10 de julho de 1843 faleceu no Rio o Marechal Miguel Nunes Vidigal, capoeira exímio e que apareceu, como o Major Vidigal, no livro "memórias de um sargento de milícias", um dos clássicos da nossa literatura.

Ao longo do século dezenove a capoeira torna-se uma nítida expressão da situação vivida pelo negro no Brasil.

As mudanças ocorridas na economia e na política do império vinham gerando um intenso processo de desescravização. Lembremo-nos de que a Lei Eusébio de Queirós, de 1850, já havia proibido o tráfico negreiro para o Brasil. A lógica do sistema econômico mundial e brasileiro impunha a substituição do negro pelo trabalhador imigrante e isso gerava uma inevitável situação de marginalidade. A capoeira floresceu dessa forma, e são inúmeros os relatos de jornais do século passado que narram as aventuras dos capoeiras (esse nome, até meados deste século, era utilizado para designar o lutador; a luta era denominada capoeiragem).

Naquela época, a capoeira reunia não só ex-escravos e seus filhos, mas também figuras importantes da sociedade. Aos poucos a capoeira foi se envolvendo com a vida política e chegou a ser amplamente utilizada como arma na luta entre as facções que se enfrentavam nos tempos do império e nos primórdios da república, sobretudo nas cidades do Rio de Janeiro, Salvador, Recife e São Paulo. Os capoeiras eram contratados para interferir em comícios, tumultuar eleições e fazer a segurança de figurões da política.

Em 1864 na Bahia, grupos de capoeiras foram desorganizados por causa da convocação para a guerra do Paraguai, que tiveram uma participação ativa lutando contra os mercenários (soldados estrangeiros contratados para guerra), que se rebelaram e foram rechaçados pelos capoeiras. E após a abolição de 1888, como sabemos, o fim do regime escravocrata não significou a aceitação imediata da comunidade negra na vida social.

Ao contrário, vários aspectos da cultura afro-brasileira sofreram violenta repressão, como a capoeira no Rio de Janeiro em todo o Brasil e principalmente no nordeste. Talvez o caso da capoeira seja o mais evidente: essa forma de rebeldia, que já havia sido utilizada como arma de luta em inúmeras fugas durante a escravidão, tornou-se um símbolo da resistência do negro à dominação. Assim, o Governo Republicano, instaurado em 1889, deu continuidade a essa política e associou diretamente a capoeira à criminalidade, como consta do decreto 847 de 11 de outubro de 1890, com o título "Dos Vadios e Capoeiras":

ARTIGO 402 – Fazer nas ruas ou praças públicas exercícios de destreza corporal conhecidos pela denominação de capoeiragem: pena de dois a seis meses de reclusão.

PARÁGRAFO ÚNICO - É considerada circunstancia agravante pertencer o capoeira a alguma banda ou malta.

Aos chefes, ou cabeças, impor-se-á a pena em dobro. Na capital paulista, março de 1892, alguns "morcegos" (praças de uma polícia fardada da época ) maltrataram soldados do exército recentemente recrutados.

Doendo-se pelos companheiros, soldados capoeiras promoveram violentos distúrbios na cidade. Por ocasião da revolta da armada, setembro de 1893, lutaram entre si grupos de praças capoeiras do exército e da marinha. Em 1907, surge a primeira tentativa de instituição de uma "ginástica brasileira" com o título "O Guia da Capoeira" cujo autor, um oficial do exército que julgou prudente não revelar o nome pelos preconceitos então existentes – ocultou-se sob as iniciais O.D.C. Em 1908 toda capoeiragem vibrou com a vitória do "Moleque Círiaco" sobre o Conde Koma, oficial superior da marinha de guerra do Japão e campeão de jiu-jitsu considerado invencível. Ciriaco, com um violentíssimo rabo-de-arraia na cabeça do campeão nipônico, lançou-o por cima de duas fileiras de cadeiras, desacordando e com forte hemorragia nasal. Anos mais tarde, um marinheiro do encouraçado São Paulo, ancorado no porto de Nova York, envolveu-se em briga de rua e derrubou, um por um, oito vigorosos policias conseguindo fugir para bordo do seu navio, onde declarou não ter necessitado fazer uso da sardinha ( navalha ) para o golpe decisivo do corta-jaca ( navalha na barriga ).

A luta brasileira, portanto, começou a ser tratada como esporte nacional e surgiram os primeiros estudos sobre sua utilização como método de defesa pessoal e ginástica. Em 1928, Annibal Burlamaqui pública "Gymnastica Nacional" (Capoeiragem ) Methodizada e Regrada, e em 1945, Inezil Pena Marinho, especialista em educação Física, pública "Subsídio para o Estudo da Metodologia do Treinamento da Capoeiragem".

Verdadeira capoeira

Bimba e Pastinha são consideradas os maiores nomes da história da capoeira em todo mundo.

É importante ressaltar que a Regional gerou uma grande polêmica no ambiente da capoeira, uma vez que muitos entenderam as inovações de Mestre Bimba como sendo uma descaracterização das tradições da luta. Iniciou-se, nos anos 30, um debate que dura até hoje sobre o que é a "verdadeira capoeira" e que modificações podem ser introduzidas sem desrespeitar os princípios e tradições da luta.

Com Mestre Bimba a capoeira começa a ganhar espaço institucional na sociedade.

O mestre teve apoio dos estudantes universitários de Salvador que contribuíram para a sistematização de suas idéias e para a formulação de seu método de ensino.

Bimba fundou a primeira academia de capoeira em 1932 ( Centro de Cultura Física e Luta Regional da Bahia ), ensinou capoeira em quartéis e chegou apresentar uma roda de capoeira para o presidente Getúlio Vargas, em 1953.

Na história dos esforços pelo reconhecimento

Na história dos esforços pelo reconhecimento da Capoeira como esporte ou luta nacional de origem étnico brasileira, há um verdadeiro calendário.

Em 1907, apareceu um trabalho, cujo autor se ocultou sob as iniciais O.D.C. (Ofereço, Dedico e Consagro), intitulado O Guia da Capoeira ou Ginástica Brasileira.

Em 1928, Annibal Burlamaqui assina Ginástica Nacional (Capoeiragem) Metodizada e Regrada.

Em 1932, fundação do Centro de Cultura Física e Capoeira Regional, do Mestre Bimba.

Em 1937, registro oficial do Centro de Cultura Física e Capoeira Regional.

Em 1942, foi feito um inquérito pela Divisão de Educação Física do Ministério da Marinha, consultando sobre os melhores elementos para a instalação de um método de ensino da Capoeira.

Em 1945, Inezil Penna Marinho lança o livro Subsídios Para o Estudo da Metodologia do Treinamento da Capoeiragem.

Em 1960, Lamartine Pereira da Costa, então oficial da Marinha, diplomado em Educação Física pela E.E.F.E e instrutor chefe dos cursos da Escola de Educação Física da Marinha, CEM-RJ, lança um livro que se tornou clássico: Capoeiragem – A Arte da Defesa Pessoal Brasileira.

Em 1968, Waldeloir Rego lança o livro Capoeira Angola – Ensaio Sócio-Etnográfico, considerado um dos mais completos sobre Capoeira.

Em 01 de janeiro de 1973, entra em vigor o Regulamento Técnico da Capoeira, oficializando a Capoeira como o ESPORTE NACIONAL BRASILEIRO.

Em 27 de outubro de 1973 é registrada varias associações de capoeira no rio de janeiro.

Em 14 de julho de 1974 é fundada a Federação Paulista de Capoeira (FPC).

Em 17 de maio de 1984 é fundada a liga de capoeira cordel vermelho em Minas Gerais

Em 20 de julho de 1984 é fundada a Federação de Capoeira do Estado do Rio de Janeiro (FCERJ).

Em 21 de abril de 1989 é fundada a Liga Niteroiense de Capoeira (LINC).

Em 23 de outubro de 1992 é fundada a Confederação Brasileira de Capoeira (CBC).

Em 13 de maio de 1995 é fundada a Federação de Capoeira Desportiva do Estado do Rio de Janeiro (FCDRJ).

Em 03 de junho de 1995 é fundada a Liga Carioca de Capoeira.

Graduação

Sistema oficial de graduação, idealizado desde 1972

O sistema oficial de graduação, que já existe desde 1972, foi idealizado pelos grandes mestres do Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia. Tem sua fundamentação nas cores da Bandeira Nacional, estabelecida de forma lógica, sendo a primeira cor o verde, depois o amarelo e o azul. A cor branca só entra no nível de mestre. A relevância da importância da fundamentação desta graduação é que como a Capoeira é um esporte genuinamente nacional, nada mais justo e patriótico do que estabelecer as cores nacionais para se graduar.

A idéia da regulamentação da Capoeira surgiu no II Simpósio Sobre Capoeira, realizado em 1969, em Campo dos Afonsos – RJ, com a presença de pessoas de renome e mestres de Capoeira, principalmente dos estados do Rio de Janeiro, da Bahia e de São Paulo.

A princípio, a proposta do Simpósio era definir e unificar a Capoeira sem que a mesma sofresse qualquer tipo de perda relativa às suas tradições.

A partir daí, ficou decidido que a Confederação Brasileira de Pugilismo organizaria o projeto através de sugestões e trabalhos de pessoas envolvidas com a Capoeira.

Finalmente, em 26 de dezembro de 1972, o Regulamento Técnico da Capoeira foi aprovado pelo Conselho Nacional de Desportos.

O texto do Regulamento Técnico foi revisto e atualizado pela Assessoria de Capoeira da Confederação Brasileira de Pugilismo através de inúmeros congressos técnicos, até chegar a atual edição, que considera os seguintes itens: graduação, vestuário e característica dos cordéis de classificação.

Regulamento Técnico oficial da Capoeira elaborado em 26 de dezembro de 1972

Nível do aluno

As graduações do Regulamento Técnico da Capoeira de 26 de dezembro de 1972 são as seguintes por estágios:

Nível de aluno

1º Estágio – Cordel verde

2º Estágio – Cordel verde-amarelo

3º Estágio – Cordel amarelo

Nível do instrutor

4º Estágio – Cordel amarelo-azul

5º Estágio – Cordel azul (formado)

6º Estágio – Cordel verde-amarelo-azul (Contramestre)

Nível de mestre

Mestre 1º Grau – Cordel branco-verde

Mestre 2º Grau – Cordel branco-amarelo

Mestre 3º Grau – Cordel branco-azul

Mestre 4º Grau – Cordel branco

Obs os níveis de graduação de mestre foram adotados pelo conselho nacional de desporto da confederação brasileira de pugilismo para melhor organização dos capoeiristas na época em que foi elaborado Regulamentos Técnico oficial da Capoeira, ficando livre a escolha de cada grupo referente à graduação de mestre.

Nota: A liga Brasileira da capoeira cordel vermelho tem seu sistema de graduação com base nas dez bandeiras arvoradas em solo Brasileiro

Vestuário

O vestuário do capoeirista para intervir em qualquer competição oficial, consiste em:

a) calça branca, em helanca ou brim ou tecido similar, cuja bainha alcance o tornozelo, atada à cintura pelo cordel indicativo da classe a que pertence o atleta. É proibido o uso de calça de outra cor que não seja branca e bem assim o uso de cintos, bolsos, fivelas etc.;

b) o capoeirista vestirá camisa branca de malha, tendo estampado no peito o escudo de sua entidade;

c) nas competições individuais e por equipes, o atleta deve participar das lutas sem o cordel de classificação.

Características dos cordéis de classificação

O cordel de classificação é confeccionado com o fio de seda chamado rabo de rato ou similar.

O seu preparo consta de um trançado de nove fios, ou seja, três grupos de três fios. Faltando 10cm. Para as extremidades do cordel, serão dadas três laçadas.

Como acabamento e amarração, será dado um nó em cada fio.

O cordel será colocado na calça do capoeirista, transpondo as passadeiras, de maneira que seja dado o nó no lado direito da cintura e que fiquem pendentes as duas pontas do cordel.

Os cordéis nas cores verde, amarelo, azul e branco serão constituídos por nove fios da mesma cor.

Os cordéis verde-amarelo, amarelo-azul, branco-verde, branco-amarelo e branco-azul serão confeccionados com seis fios da primeira cor e três da segunda.

O cordel verde-amarelo-azul contará de três fios de cada cor.

HISTÓRICO

A capoeira surgiu entre os escravos como um grito de liberdade.

Os negros da África, a maioria da região de Angola, foram trazidos para o Brasil para trabalhar nas lavouras de cana de açúcar como mão de obra escrava.

Segundo Menezes (1976), a vida dos negros trazidos da África de maneira forçada, brutal, consistia em trabalhar de sol a sol para os senhores portugueses que exploravam as riquezas brasileiras desde o descobrimento.

Chegando a nova terra, (os escravos) eram repartidos entre os senhores, marcados a ferro em brasa como gado e empilhados na sua nova moradia: as prisões infectadas das senzalas. Os colonizadores agrupavam os africanos de diferentes tribos, com hábitos, costumes e até línguas diferentes, eliminando, assim, o risco de rebeliões.

Os negros chegavam ao Brasil, depois de passarem dias empilhados em navios negreiros, trazendo como única bagagem suas tradições culturais e religiosas.

O negro trouxe consigo suas danças e lutas guerreiras que de muita valia veio a se tornar para os escravos fugitivos.

Na África, mais precisamente na região de Angola, os negros lutavam com cabeçadas e pontapés nas chamadas "luta das zebras", disputando as meninas das suas tribos com a finalidade de torná-las suas esposas.

Na ausência de armas, os negros buscaram nas danças guerreiras sua forma de defesa. Da necessidade de preservação da vida, surgiu a capoeira.

Tendo como mestra a mãe natureza, notando brigas dos animais as marradas, coices, saltos e botes, utilizando-se das manifestações culturais trazidas da África (como, por exemplo, brincadeiras, competições etc. que lá praticavam em momentos cerimoniais e ritualísticos), aproveitando-se dos vãos livres que aqui se abriam no interior das matas e capoeiras, os negros criam e praticam uma luta de auto defesa para enfrentar o inimigo.

Com o passar dos tempos, os nossos colonizadores perceberam o poder fatal da capoeira, proibindo esta e rotulando-a de "arte negra", Santos (1998).

Em 1888 foi abolida a escravatura e com isso muitos escravos foram lançados nas cidades sem emprego e a capoeira foi um dos meios utilizados para a sobrevivência. Alguns ex-escravos passaram a ganhar a vida fazendo pequenas apresentações em praça pública, porém muitos deles utilizaram a capoeira para roubar e saquear.

Os marginais brancos também aprenderam a nova luta com o convívio mais direto com os negros e introduziram na sua prática as armas brancas.

Formaram-se verdadeiros bandos de marginais aterrorizando a população.

Já em 1890 a capoeira foi colocada fora da lei pelo Código Penal da República, que dizia:

Art. 402 – Fazer nas ruas e praças públicas exercícios de agilidade e destreza corporal, conhecidos pela denominação capoeiragem; andar em carreiras, com armas ou instrumentos capazes de produzir uma lesão corporal, promovendo tumulto ou desordens, ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de algum mal: Pena: De prisão celular de dois meses a seis meses. (Barbieri, 1993, p.118).

Segundo Sodré (1983), as punições aplicadas eram reclusão na ilha Fernando de Noronha e castigos corporais, tais como chibatadas.

Segundo Areias (1983), os seus chefes foram encarcerados ou exterminados, mas a capoeiragem continuou fazendo o seu trajeto.

A capoeira se espalhou pelo Brasil, porém foi nos estados da Bahia, Rio de Janeiro e Pernambuco onde se encontravam os maiores comentários entre o povo e a imprensa local. Apesar de reprimida a capoeira continuou a ser praticada e ensinada para as gerações seguintes.

Em 1929 ocorreu a quebra da Bolsa de Nova Iorque com a conseqüente crise do capitalismo, o Brasil viveu um momento de ebulição das forças sociais.

Com a entrada de Getúlio Vargas no governo do país, medidas foram tomadas para angariar a simpatia popular, entre elas a liberação de uma série de manifestações populares. Para tal, Getúlio Vargas convidou Manoel dos Reis Machado, o mestre Bimba, para uma apresentação no Palácio do Governo. Temendo a popularização da arte – luta, Getúlio Vargas permitiu a abertura da primeira academia de capoeira, que teria um cunho folclórico. Após essa passagem, a capoeira perdeu suas características de luta marginal e vadiagem, visto que para freqüentar a academia de mestre Bimba os indivíduos eram obrigados a ter carteira de trabalho assinada.

Grande parte do que se sabe hoje sobre a capoeira praticada pelos escravos foi transmitido pelas gerações de forma oral, visto que "… a documentação referente à época da escravatura foi queimada por Rui Barbosa, Ministro da Fazenda no governo de Deodoro da Fonseca" (Sete 1997).

Enfim, a capoeira ganhou a popularidade estimada por Bimba, e até os dias de hoje vem reunindo adéptos pelo país.

O significado de capoeira

Capoeiras eram áreas semidesmatadas onde os escravos treinavam seus golpes, e provavelmente veio daí o nome da luta. Seus golpes quase acrobáticos e com aspecto de dança muito contribuíram para enganar os senhores de engenho, que permitiam a prática, julgando-a como uma brincadeira dos escravos. Segundo Areias (1983), a dança, por sua vez, representada pela ginga, servia para disfarçar a luta dando-lhe um caráter lúdico e inofensivo. A capoeira serviu por muitos anos como instrumento de luta dos escravos.O berimbau e outros instrumentos

As rodas de capoeira são ritmadas pelo toque de instrumentos e pelas palmas dos capoeiristas.

O berimbau, que servia para dar rítmo ao jogo, também servia para anunciar a chegada de um feitor, ou seja, a hora de transformar a luta em dança.

O jogo da Capoeira é acompanhado por instrumentos musicais, comandados pela figura máxima do berimbau, o qual dá o tom e comanda o ritmo para a execução das cantigas: Cantos Corridos ou Ladainhas.

Podemos encontrar em uma roda de capoeira, além do berimbau, pandeiro e atabaque e, menos comumente, o agogô e o ganzá. Atualmente não se concebe uma roda de capoeira sem o toque característico do berimbau, podendo, no entanto, os demais instrumentos serem dispensados, afirma Menezes.

O berimbau dita o ritmo do jogo, é ele que comanda o toque a ser executado.

A capoeira apresenta diversos toques que são executados de acordo com a ocasião. Dentre eles é destacado:

Angola

É o toque de abertura, lento, onde o mestre da roda, aquele que toca o berimbau, inicia uma ladainha – saudação e os capoeiristas ficam esperando, ao pé do berimbau, a indicação para entrar na roda; o jogo de Angola é lento e rasteiro, servindo para os capoeiras mostrarem flexibilidade e malícia.

São Bento Pequeno

É o toque usado em demonstrações, onde os golpes são executados a poucos centímetros do alvo.

São Bento Grande

É o toque para jogo violento, onde se procura atingir o outro capoeirista, que deve estar muito atento e ter muita agilidade para não ser atingido. Amazonas: toque usado na chegada de um mestre visitante; é o hino da Capoeira.

Cavalaria

Esse toque antes fazia parte da comunicação entre o capoeira que estava de vigia e os que estavam jogando, indicando a chegada da polícia.

Iuna

É o toque que procura imitar o canto dessa ave; é usado para o jogo entre mestres de capoeira, ou então, no enterro de um deles.

Santa MariaToque fatalista, para jogo com navalha na mão ou no pé.

BenguelaÉ o mais lento toque de capoeira regional, usado para acalmar os ânimos dos jogadores quando o combate aperta.

IdalinaToque para jogo de faca.

Barravento

Toque para jogo rápido, que exige grande velocidade de reação.

Cantos

Durante a roda são entoadas cantigas que, segundo Areias (1983), se dividem em dois tipos: cantos corridos e ladainhas.

A diferença entre o canto corrido e a ladainha está no fato de, na ladainha, sempre contar-se uma história, geralmente sem a resposta ou interferência do coro, que participa apenas no momento que o cantador acaba a história e entre no canto de entrada dizendo "iê vamos simbora/ iê é hora é hora" e assim por diante, até chegar na expressão "dá volta ao mundo". Já no canto corrido, o cantador não tem a preocupação de contar nenhuma história, as frases são ditas aleatoriamente, falando de assuntos diversos, e a participação do coro é imediata e necessária desde o seu início.

Durante a roda, os capoeiristas, que ficam de pé formando a roda, acompanham a cantoria com palmas. A única exceção são as rodas de Angola, onde os capoeiristas ficam sentados e não batem palmas, só começando a cantar quando acaba a ladainha.

Várias concepções da capoeira

A capoeira pode e deve ser ensinada globalmente, deixando que o educando busque a sua identificação em quaisquer dessas enumerações que veremos a seguir.

Caberá ao docente um papel relevante orientando e estimulando para que o discente possa aproveitar ao máximo toda a sua potencialidade.a capoeira pode ser praticada vivida das seguintes maneiras:

Capoeira Luta

Representa a sua origem e sobrevivência através dos tempos, na sua forma mais natural, como instrumento de defesa pessoal, genuinamente brasileiro.

Deverá ser ministrada com o objetivo de combate e defesa.

Capoeira Dança e Arte

A Arte se faz presente através da música, ritmo, canto, instrumento, expressão corporal e criatividade de movimentos.

É também um riquíssimo tema para as artes plásticas, literárias e cênicas.

Na Dança, as aulas deverão ser dirigidas no sentido de aproveitar os movimentos da capoeira, desenvolvendo flexibilidade, agilidade, destreza, equilíbrio e coordenação motora, indo em busca da coreografia a da satisfação pessoal.

Capoeira Folclore

É uma expressão popular que faz parte da cultura brasileira, e que deve ser preservada, promovendo a participação dos alunos, tanto na parte prática, como na teórica.

Capoeira Esporte

Como modalidade desportiva, institucionalizada em 1972, pelo conselho nacional de desportos, ela mesma deverá ter um enfoque especial para competição, estabelecendo-se treinamentos físicos, técnicos e táticos.

Capoeira Educação

Apresenta-se como um elemento importantíssimo para a formação integral do aluno, desenvolvendo o físico, o caráter, a personalidade e influenciando nas mudanças de comportamento. Proporciona ainda um auto conhecimento e uma análise crítica das suas potencialidades e limites.

Capoeira Lazer

Funciona como prática não formal, através das "rodas" espontâneas, realizadas nas praças, colégios, universidades, festas de largo e etc, onde há uma troca cultural entre os participantes.

Capoeira Filosofia

Entre muitos fundamentos, trás uma filosofia de vida que prega o respeito ao próximo e aos mais velhos, estes que por sua vez possuem um grau maior de sabedoria. Muitos são os adéptos que se engajam de corpo e alma criando dessa forma uma filosofia de vida, tendo a capoeira como símbolo e até mesmo usando-a para a sua sobrevivência.

Capoeira Terapia

O esporte exerce um papel fundamental no desenvolvimento somático e funcional de todo indivíduo. Para o portador de deficiência, respeitando-se as suas limitações e capacidades, o esporte tem importância inquestionável. A capoeira vem tendo destaque muito grande, não só como esporte, mas, no caso dos portadores de deficiência, ela atua, verdadeiramente, como terapia. Considerando sempre as etapas mentais, cronológicas e motoras do indivíduo, propicia um desenvolvimento orgânico mais satisfatório, melhora o tônus muscular, permite maior agilidade, flexibilidade e ampliação dos movimentos. Auxilia o ajuste postural, bem como o esquema corporal, a coordenação dinâmica e, ainda, desenvolve a agilidade e força. Vale ressaltar que a capoeira proporciona a liberação de sentimentos como a agressividade e o medo, levando o ser humano a adquirir uma condição física mais satisfatória e um comportamento mais socializado.

A Capoeira hoje

Capoeira nas Academias a capoeira, antes treinada livremente pelos escravos, é agora treinada dentro das academias.

A passagem dos campos de mata aberta para as salas das academias não foi a única modificação sofrida pela arte.

Com a entrada da capoeira nas academias, algumas modificações ocorreram na capoeira dos escravos do engenho.

Além de lugar fixo para o treinamento, foram implantados também horários para tal. Foi padronizado um uniforme que consiste em calça branca (representando as calças de saco que os negros usavam para a lida) e um cordel que deve ser amarrada no lado direito cintura da calça.

Alguns grupos que praticam a capoeira Angola utilizam-se de calça preta.

Os capoeiras, ou capoeiristas, agora se dividem em grupos que carregam um nome que normalmente representa a escravidão.

Comumente, os capoeiristas representam o grupo, ao qual participam, com o símbolo gravado na calça. Esses grupos ou associações tem por objetivo expandir a arte da capoeira pelo país, alguns chegando até a levar a nossa arte para o exterior.

A maioria dos grupos de capoeira convivem pacificamente, apesar de cada um interpretar a capoeira de uma maneira diferente (alguns trabalham a capoeira numa visão mais folclórica, outros a entendem mais como luta, uns dão maior ênfase a parte esportiva, outros valorizam principalmente a educação pela capoeira).

Como prova do convívio de amizade entre os grupos, são realizados periodicamente encontros, que se reúnem com a finalidade de compartilhar conhecimentos.

Graduação e o Batizado

Nos tempos modernos, os capoeiras são graduados de acordo com os seus conhecimentos e com o tempo de prática na capoeira.

Cada graduação é representada por uma cor no cordel, que é amarrado na calça do capoeirista do lado direito.

Cada grupo designa um conjunto de cores que irá representar as graduações.

Os indivíduos entram para as aulas de capoeira, em seguida, começam um treinamento. Nesse período inicial eles são chamados de "pagãos", ou seja, eles não foram ainda batizados.

O batizado de capoeira representa o momento em que os indivíduos recebem a sua primeira graduação pelo grupo.

Nesse dia eles deixam de ser pagãos, pois durante esse evento é costume entre os grupos dar um apelido ao capoeirista.

O apelido é uma tradição desde os tempos que a capoeira era considerada uma arte marginal e os capoeiristas eram obrigados a usar codinomes para não serem identificados, mediante isto, serem presos pela polícia.

O dia do batizado é um dia de grande importância para os capoeiristas, posto que, nesse dia realiza-se uma festa em que os novos capoeiras são apresentados à comunidade capoeiristica, joga com outras pessoas e desfrutam da oportunidade de até conhecerem os mestres mais antigos.

Capoeira x Violência

O jogo de capoeira não possui mais características violentas, perdeu seu objetivo principal do tempo da escravidão, que era a luta pela liberdade. Numa roda de capoeira um jogador não tem como finalidade acertar, ferir, lesionar ou matar o outro jogador. O jogo de capoeira não passa de uma representação, simbolismo esportivo. Na realidade eles, os capoeiristas, são companheiros que querem brincar de capoeira, recrear. Eventualmente acontecem quedas, que são interpretadas como descuido por parte de quem caiu. Importante ressaltar que o jogo, só atribui este valor recreativo dentro das academias, ou seja, em seus próprios grupos. Em se tratando de rodas informais, jogos que acontecem em parques, ruas, praias, a capoeira às vezes, perde o seu atributo de lazer e encarna o seu valor de capoeira – Luta.

Rodas

Os capoeiristas se cumprimentam todas as vezes que entram ou saem de uma roda como sinal de respeito pelo companheiro.

Fazem uma reverência também ao berimbau, pedindo e agradecendo proteção aos céus.

Acontece também um outro tipo de encontro de capoeiristas chamado "roda de rua". Essas manifestações ocorrem livremente em praças, ruas e praias.

As rodas de rua são gerenciadas por qualquer capoeirista, independendo da graduação que ele carrega, e são abertas para qualquer um que queira participar.

Normalmente essas rodas são pacíficas, mas como elas são abertas para o público, alguns capoeiristas acabam querendo resolver suas rixas com outros capoeiristas nessas rodas, a fim de demonstrar superioridade sobre qualquer aspecto.

Para iniciar o jogo da capoeira, os capoeiristas dirigem-se para onde estão os instrumentistas e agacham-se ao pé do berimbau "afirma Areias (1983 p.96).

Durante a roda, que é comandada por instrumentos como o berimbau, o pandeiro e o atabaque, são entoadas cantigas que tem seu refrão repetido por todos os participantes da roda. Quem define as músicas e dita a velocidade do jogo é o tocador de berimbau. O ritmo começa lento e termina rápido, onde só os capoeiristas mais graduados devem jogar".

Depois da roda, alguns capoeiristas optam por fazer exercícios de força, como abdominais, flexões de braço ou elevação em barra fixa. Outros treinam saltos acrobáticos, ou treinam golpes atingindo sacos de areia.

A aula

As aulas de capoeira são realizadas em salões abertos que podem ser espelhados ou não, o que facilita aos capoeiristas a observação de sua performance. As aulas são normalmente ministradas por capoeiristas de graduações elevadas, superiores, a maioria deles sem nenhuma formação acadêmica em Educação Física. "Existem vários métodos de ensino, e cada professor, cada academia, cada grupo alardeia que o seu é genuinamente original, é o melhor" (Capoeira, 1992, p.147).

Freqüentemente os capoeiristas acabam ministrando aulas exatamente iguais aos que seus mestres ministram. Na verdade, de uma forma ou de outra, todos se baseiam na "seqüência" e na "cintura desprezada" criadas por mestre Bimba, adicionados aos treinos sistemáticos e repetitivos entre duplas introduzidas pelo Grupo Senzala na década de 1960. Mesmo os que praticam e ensinam a capoeira angola, que originalmente não tinha métodos de ensino, utiliza variações adaptadas desses elementos didáticos.

Capoeira Angola

Corresponde a capoeira original dos escravos. Geralmente encontra-se nas academias um programa de treinamento de duas ou três aulas semanais, chegando a ser encontrada nas academias sede de alguns grupos, treinamentos de segunda a sábado.

A duração da aula varia entre quarenta e cinco minutos a uma hora e meia. As aulas são divididas em quatro blocos: aquecimento; treino de golpes, quedas e movimentações individualmente; treinamento de seqüências em dupla; roda de capoeira.

O aquecimento freqüentemente começa com uma corrida, seguida de seqüências de movimentos calistênicos e um alongamento. "Se alguém quiser aproveitar para malhar uma abdominal, uma abertura, um alongamento ou exercícios de elasticidade, tudo bem, mas não é esse o objetivo" (Capoeira, 1992, p.146).

Depois do aquecimento, o segundo bloco da aula corresponde ao treinamento dos golpes individualmente.

As aulas começam com os movimentos mais simples, passando para os mais complexos e, posteriormente, para a combinação dos movimentos sequenciados. Esses movimentos compreendem os golpes, as esquivas e as quedas.

O professor indica e executa o golpe ou a seqüência de golpes e os alunos os executam repetidas vezes e para ambos os lados. Durante a execução dos movimentos os alunos são observados e corrigidos pelo professor.

Nos salões com espelhos os alunos podem observar a execução dos seus movimentos.

O terceiro bloco da aula corresponde ao treinamento das seqüências em dupla..

Nesta parte da aula os capoeiristas se encontram sujeitos a receberem os golpes dos companheiros, porém o risco é menor do que durante o jogo.

O treino em dupla se dá em forma de seqüências coordenadas.

O professor dita exatamente o que deve ser feito e os alunos executam. Para os iniciantes, o professor apresenta uma seqüência de um golpe e uma esquiva; um dos capoeiristas executa um golpe enquanto o outro esquiva.

Com o tempo de prática essa seqüência aumenta em número e variações de golpes, associados a floreios e saltos.

O jogo da capoeira é o momento que o capoeirista apresenta o que ele aprendeu durante a prática. Além de executar os golpes num jogo com um companheiro, entra em jogo um elemento novo, a surpresa.

Não se sabe o que o outro capoeira vai fazer, os golpes já não são mais ditados pelo professor, por isso o capoeirista deve estar preparado e atento no jogo do outro para não ser atingido ".

Fonte: http://www.capoeiratorino.it/historia.htm

Guantánamo abriga 160 presos inocentes ou pouco perigosos

O iraniano Bajtiar Bamari era tradutor e morava no Afeganistão no final de 2001. Os Estados Unidos lutavam então no país para derrubar o regime talibã e encontrar Osama Bin Laden. Ocorreu-lhe que poderia ser uma boa ideia aproximar-se da base norte-americana de Kandahar para oferecer seus serviços como intérprete e guia. Enganou-se.

Mónica Ceberio Belaza

Foi preso e levado para Guantánamo no dia 17 de maio de 2002, onde passou dois anos preso. Não tinha nenhum vínculo com a Al Qaeda nem com os talibãs. Também não os tinha o diretor de escola sudanês Al Rachid Raheem, preso em sua casa de Peshawar (Paquistão) quando estava pronto para dormir; nem Mahngur Alijan, um afegão que fazia uma parada para comprar remédios; nem o turco Ibrahima Shafir Shen, que fugia da guerra; nem Noor Ahmad, que acabou em Guantánamo por não ter dinheiro para pagar um suborno à polícia paquistanesa depois que os agentes o pegaram sem documentos.

As fichas secretas do Departamento de Defesa sobre os presos de Guantánamo contêm dezenas de histórias similares. Homens sem nenhuma vinculação com o terrorismo islâmico nem com os talibãs que foram presos por razões que nem as próprias autoridades norte-americanas conhecem, como se reconhece em documentos nos quais se admite sua inocência, o erro cometido e se recomenda que sejam libertados ou transferidos para o seu país de origem. Apesar disso, alguns dos presos sem motivo passaram um, dois, três, e até nove anos na prisão.

Os Estados Unidos acabaram determinando que 83 presos não representavam absolutamente nenhum risco, e de outros 77 se diz que é “improvável” que sejam uma ameaça para o país ou seus aliados. Ou seja, que ao menos um de cada cinco internos foi levado à prisão de forma arbitrária, segundo as próprias avaliações dos militares norte-americanos. De outros 274 se considera que só “talvez” representem um perigo, de forma que as fichas secretas demonstram que os Estados Unidos não acreditavam seriamente na culpabilidade ou ameaça de quase 60% de seus prisioneiros. Mesmo assim, foram enviados à ilha de Cuba.

O ex-presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, abriu o campo de prisioneiros no dia 11 de janeiro de 2002. Nessa primeira época o número de pessoas deslocadas à base que não tinham a menor ligação com a Al Qaeda foi muito grande. Especialmente, em alguns países. No Afeganistão, por exemplo. A metade dos afegãos – o grupo majoritário de presos, 28% do total – foi depois qualificada como de risco baixo ou inexistente. O descontrole e a arbitrariedade, segundo revelam os documentos secretos, eram grandes. Eram privados de liberdade mesmo que os prisioneiros não tivessem cometido delitos nem crimes de guerra. Por via das dúvidas sabiam de algo. Para o caso de se tinha um primo ou um irmão nas filas dos talibãs. Para o caso de se em seu povoado vivesse algum líder que interessava à inteligência norte-americana. Por seu “conhecimento geral das estradas de ingresso no Afeganistão” ou sobre o “recrutamento forçoso do talibã”, como consta em várias fichas. As ações concretas do detido eram irrelevantes. Todos os que chegavam à prisão eram qualificados de combatentes inimigos mesmo que não tivessem indícios de que realmente o fossem.

Enquanto os Estados Unidos lutavam contra os talibãs, estes percorriam os povoados do Afeganistão obrigando jovens a entrar em suas fileiras. Costumavam pedir a cada família que contribuísse com dinheiro ou ao menos com um homem. Sahibjan Torjan se ofereceu como voluntário para evitar o recrutamento de seu pai, mas mais tarde se negou a lutar. Os talibãs o prenderam durante 30 dias. Nem essa operação o livrou de Guantánamo. A Aliança do Norte o capturou e os norte-americanos o levaram à prisão no dia 4 de maio de 2002. Estava com 21 anos. Quatro meses depois reconheceram sua inocência em uma ficha secreta: “Baseando-nos na informação atual, o detento não é filiado à Al Qaeda nem líder talibã. (…) Não tem mais valor de inteligência para os Estados Unidos. (…) Não representa uma futura ameaça para os interesses americanos”, asseverou o comandante Michael E. Dunlavey. Demorou ainda seis meses para voltar ao seu país. Jon Muhamed Barakzai também sofreu o recrutamento forçado. Mas não chegou a combater. Nem sequer recebeu treinamento. Voltava ao seu povoado quando foi preso, entregue aos norte-americanos e conduzido à prisão. Um pai que foi buscar seu filho na frente, em Kandahar, também acabou em Guantánamo.

A prisão chegou a ter um preso inocente de 89 anos em Guantánamo. Sofria, além disso, de demência senil, artrite e de depressão profunda. No complexo de casas em que morava, os soldados encontraram um telefone por satélite Thuraya e uma lista de números de pessoas “suspeitas” de serem talibãs. O idoso não sabia de quem era o telefone nem sabia usá-lo, mas foi feito prisioneiro e conduzido à prisão. Acabou passando com êxito pela prova do polígrafo e as autoridades norte-americanas reconheceram que não representava perigo nem ameaça alguma para o seu país.

A arbitrariedade do sistema penitenciário não só fica clara nas fichas em que os militares reconhecem a inocência de um preso. A vulnerabilidade das garantias processuais básicas pode ser apreciada em muitas outras, nos critérios indeterminados e gerais que servem para fundamentar uma prisão. Os princípios de humanidade e de proporcionalidade nas penas, de intervenção mínima, de legalidade, não existem em Guantánamo. Sobre o afegão Osman Khan, nascido em 1950, afirmam que “possivelmente” seja um membro do talibã, mas que “não foi determinado com nenhuma segurança”. Apesar disso, qualificam-no como de “risco médio” e recomendam que fosse transferido, mas para que continuasse preso no país de acolhida. De outro detento só se indica que “se suspeita” de sua relação com “elementos subversivos”. Um certo Mohammed Nasim aparece como interno 453. Os Estados Unidos duvidam que seja seu verdadeiro nome. Não sabem quem é, mas assumem que “talvez” tenha “valor de inteligência” e “risco alto” e propõem que continue em Guantánamo. “Há diferentes possibilidades sobre sua identidade real”, assinalam. “Entre elas, a de que seja um ex-ministro de Educação talibã”.

A presunção de inocência não existe em Guantánamo. É o detento quem tem que demonstrar que não é terrorista nem talibã. Não havia provas contra o afegão Yamatollah Abdul, por exemplo, mas se suspeita de sua culpabilidade porque “quando é pressionado a explicar detalhadamente sua história dá desculpas e não colabora”. “É evasivo e reticente em reconhecer certas coisas”, afirma outra ficha. Quando falam sobre Khudai Dad, diagnosticado como esquizofrênico, pedem que continue preso porque seu testemunho tem “pouca credibilidade”. Ao lado desta informação, um relatório médico adjunto detalhava alucinações e episódios de psicose aguda do enfermo. Também não foram apresentadas evidências contra um adolescente afegão de 15 anos trazido para a prisão. Não apenas era inocente, como era uma vítima. Antes que o Exército dos Estados Unidos o fizesse prisioneiro, um grupo armado talibã o havia sequestrado e violentado.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/

EUA: insolvente e a afundar-se cada vez mais

Ainda que escrito numa óptica conservadora e individualista, o presente texto confirma o estado de descalabro da economia dos EUA e dos principais países capitalistas desenvolvidos.   Ele corrobora o que diferentes analistas e sob diferentes ópticas (como Jorge Beinstein , o GEAB , etc) têm afirmado reiteradamente:   a crise actual é sistémica e já inelutável.   O actual endividamento e financiarização do mundo é a resposta do capitalismo à sua dificuldade em continuar o processo de acumulação por meio de actividades produtivas. Há que transcender este sistema.

Chris Martenson

O processo orçamental dos EUA está totalmente fora de controle. Em consequência, o seu futuro fiscal é especialmente negro.

Tudo o que alguém tem a fazer é retroceder dois passos, ignorando inteiramente as querelas orçamentais sem significado actualmente a decorrer em Washington, para ver que a situação fiscal do governo federal está um pandemónio completo. De facto, tal como as coisas se posicionam em termos de despesas e receitas, o governo dos EUA está insolvente – os seus passivos excedem amplamente os seus activos na base do valor actualizado líquido.

Sim, Obama acaba de apresentar um plano que apela ao corte de uns US$4 milhões de milhões (trillion), acréscimos incrementais do défice ao longo dos próximos 12 anos, mas isto meramente obscurece o facto de que no entanto o défice ainda crescerá num montante especialmente vultuoso. Planos de ambos os partidos apelam ao acréscimo de mais dívida mas a um ritmo mais lento. É verdade, isso é uma espécie de progresso. Mas não o tipo de progresso que você queira trazer para casa.

Para qualquer um que seja mesmo um estudioso superficial de história ou tenha prestado a mais ligeira atenção do que transpirou quanto à Grécia, Irlanda, Portugal e outros países com uma tendência desenfreada a gastar mais do que tem, é claro qual será a progressão dos acontecimentos para os EUA.

Primeiro haverá uma crise fiscal/de financiamento que terá origem no mercado de títulos, especialmente no mercado de Títulos do Tesouro dos EUA. As taxas de juro dispararão e ou a austeridade será imposta sobre os Estados Unidos de um modo especialmente desagradável e draconiano (o mercado de títulos é especialmente impiedoso), ou será auto-imposto (não muito provável). As minhas estimativas indicam que este processo terá início antes do fim de 2012.

A seguir, se os EUA deixarem de atender aos decretos do mercado de títulos e tentarem manter despesas face à elevação de taxas de juro ou sair da perturbação através da impressão [de moeda], aumentam os riscos de que o US dólar sofra um grande declínio. Digamos que este processo começará um ano após o arranque da crise fiscal.

Assim é e não há alternativa. Uma crise fiscal possivelmente (provavelmente?) seguida por uma crise da divisa – e tudo iniciado por uma crise de liderança.

Quanto tempo demorará para que os mercados acordem para esta progressão simples é objecto de conjecturas. Aqui temos de recorrer a uma máxima simples que nos tem servido muito bem: Qualquer coisa que seja insustentável um dia terá de cessar.

No ano passado, os EUA não eram os únicos com agruras fiscais e económicas.

Este ano, os EUA distinguiram-se por serem a única economia avançada a aumentar o seu défice de base em 2011, segundo o FMI.

De modo bastante incisivo, recentemente o FMI esteve próximo de uma ruptura ao destacar que os EUA está a caminhar na direcção errada do ponto de vista fiscal (e por extensão do monetário) e a arriscar-se a uma crise sistémica por prosseguir um caminho insustentável.

Em 20 de Março, John Lipsky do FMI pronunciou palavras duras (num fórum em Pequim, deve-se notar):

Lipsky afirma que dívida de países avançados provoca o risco de crise futura quando os rendimentos começarem a subir

O fardo crescente da dívida dos países mais desenvolvidos do mundo, que se encaminham este ano para o recorde pós II Guerra Mundial, é insustentável e traz o risco de uma futura crise fiscal, disse John Lipsky do Fundo Monetário Internacional.

Este ano rácio médio da dívida pública de países avançados excederá 100 por cento do seu produto interno bruto pela primeira vez desde a guerra, disse hoje Lipsky, primeiro vice-director do FMI, num discurso num fórum em Pequim.

"As consequências fiscais da crise recente devem ser tratadas antes que comecem a impedir a recuperação e criem novos riscos", disse Lipsky. "O desafio central é prevenir uma potencial crise fiscal futuro, enquanto, ao mesmo tempo, criar empregos e apoiar a coesão social".

Estou de pleno acordo com a avaliação de que os EUA estão a acrescentar, não a subtrair, os riscos financeiros e fiscais que enfrentamos. Tais são os "prémios" de tentar sustentar o insustentável em defesa de um status quo que precisa sair da inactividade, uma curiosidade interessante de um tempo ultrapassado.

Já provámos que há um limite para quanta dívida destrutiva e não produtiva pode ser acumulada, mas os EUA estão agora quase isolados nas suas vãs tentativas de ressuscitar aquele modelo para um último lançamento.

O ASSOMAR DA CRISE DA DÍVIDA

O FMI tem alguns dados firmes para apoiar as suas preocupações e recentemente divulgou um relatório no qual apresentou uma tabela que contém toda a essência da situação difícil de "crescer ou morrer" que confronta não só os EUA como todo o mundo desenvolvido.

Há um certo número de coisas a dissecar na tabela, de modo que vamos considerá-las uma por uma.

A primeira é que as necessidades totais de financiamento para os governos soberanos (apenas) da maior parte das chamadas "economias avançadas" expandiu-se entre 2010 e 2011 de 25,8% do PIB para 27,0% do PIB (círculos verdes). Isto significa que mesmo com a alegada recuperação a vigorar plenamente – uma miragem estatística sob muitos aspectos – o financiamento da dívida terá de crescer mais, não menos.

Clique a imagem para aceder ao original da tabela.

É tão grande que convém repetir: As necessidades de financiamento bruto dos EUA e do Japão sõ de 28,8% e 55,8% do PIB de 2011, respectivamente. Trata-se de montantes estarrecedores e eles têm apenas, como seria de prever em qualquer quadro conceptual decente que combinasse liderança franca e dinheiro baseado na dívida com declínio líquido de energia, de tornar-se maiores passados uns poucos anos.

Concentrando um pouco a atenção, notaremos que três países ostentam défices fiscais além de 10% do PIB (Japão, Estados Unidos e Irlanda), enquanto o Reino Unido estão pouco atrás com um défice de 8,6% (ver quadrados de cor vermelho e laranja).

Como é que alguém permite tão impressionantes necessidades de tomada de empréstimos a taxas razoáveis sem a promessa explícita de que o crescimento retornará em breve? É impossível, pelo menos por muito tempo. Quem comprará toda aquela dívida a taxas ridiculamente baixas?

Os participantes autónomos do mercado já chegaram a uma conclusão, como evidenciado por Bill Grosse, da PIMCO, e outros, ao venderem todos os seus haveres em Títulos do Tesouro e começarem mesmo a vender a descoberto (to short) toda a porcaria. Eles estão a apostar em que a resposta é "apenas os bancos centrais e o seu tempo está a acabar".

Logo a seguir ao relatório que produziu a tabela acima (dentre muitas outras, algumas igualmente perturbantes) o FMI avançou com uma campanha de RP para pressionar:

FMI: Os EUA devem cortar a dívida maciçamente

12/Abril/2011

O Fundo Monetário Internacional incitou os Estados Unidos a esboçarem medidas críveis para reduzir seu défice orçamental, pressionando a Casa Branca a pormenorizar planos para reduzir os níveis recorde da dívida.

O FMI disse que enquanto a maior parte das economias avançadas estava a dar passos para controlar fossos orçamentais, duas das maiores economias do mundo — Japão e Estados Unidos — atrasaram a acção para cuidar das suas recuperações.

O facto de o FMI ter decidido dizer que falta um guarda-roupa crível ao imperador diz-nos muito acerca de onde estamos na curva desta história (Pista: próximo do fim).

Nossa tarefa é entender como parecerá o fim do jogo.

Conclusão

Os EUA estão num caminho fiscalmente insustentável e desperdiçaram quase totalmente a oportunidade que esta crise representou para por a sua casa em ordem.

Obama, e seja quem for que se sente a seguir no gabinete oval, tem a tarefa imensamente difícil de explicar a pessoas comuns porque o aperto de cinto que está para vir aplica-se a eles e não aos bancos que criaram a confusão (e estão febrilmente a receberem bónus recordes em resultado).

Dado este constrangimento, e a paralisia geral de lógica que agora se apossa de Washington, podemos quase certamente esperar que a resolução do jogo de muitas décadas do kick-the-can será uma crise. O FMI pronunciou em tom muito medido e seco, se não aborrecido, a recitação dos riscos envolvidos.

Admito alguma afinidade com a sua avaliação, com o risco de deixar minha guarda descoberta, porque eles finalmente conformaram seus pontos de vista ao que tenho estado a escrever durante anos. O dinheiro baseado na dívida está em apuros. Ele é maldito se o tivermos e maldito se não o tivermos.

O único caminho de saída é aceitar a ideia de que os padrões de vida têm de cair para atenderem os excessos anteriores, uma admissão que "peritos" concordam ser politicamente impossível nos EUA neste momento.

Mas as condições e os riscos permanecem, pouco importando o que peritos pensem ser factível.

A tarefa de qualquer mercado em baixa (bear market) primário – e estamos na mãe de todos eles – é destruir riqueza.

Sua tarefa é preservar riqueza. Mas aperte o cinto; vai ser uma cavalgada árdua.

Meu conselho geral para o que vem aí permanece: Converta seu dinheiro fiduciário (fiat money) em coisas úteis. É verdade que o ouro não rende qualquer juro, mas nestes dias tão pouco o faz o dinheiro no banco e o ouro não pode ser desvalorizado pela política monetária temerária. De modo que possuir metais preciosos para a preservação do poder de compra deveria ser uma parte fundamental dos seus planos. E se bem que a curto prazo haja risco real de uma deflação nas commodities à medida que o Fed pressiona com a aproximação do fim da facilidade quantitativa (quantitative easing), meu conselho geral é que compre agora qualquer coisa que possa precisar no próximo ano. Isso porque você a utilizará de qualquer forma e é previsível que compre um bocado mais barato do que posteriormente.

Desfrute a vida, ame a sua família e note que o Sol ainda se levanta, que os pássaros ainda cantam e que todas as nossas fraquezas humanas acabarão finalmente por se resolver por si mesmas. Chegámos a um ponto peculiar na história em que a atitude é um elemento tangível da sua futura riqueza e o papel-moeda tornou-se como que um nevoeiro numa manhã cálida.

Faça o que quiser. Meu desejo é que desfrute a vida.

Fonte: http://resistir.info/

Acidente em Fukushima abre era pós-nuclear

Fukushima marca o fim de uma ilusão e o início da era pós-nuclear. Os defensores da opção nuclear têm agora de admitir que Fukushima modificou radicalmente o enunciado do problema energético. E que daqui para a frente se impõem quatro imperativos: parar a construção de novas centrais; desmantelar as que existem num prazo máximo de trinta anos; impor uma frugalidade extrema no consumo de energia; e tirar pleno partido das energias renováveis. Só assim se poderá talvez salvar o nosso planeta. E a humanidade. O artigo é de Ignacio Ramonet.

Ignacio Ramonet

O sismo de magnitude 9 e o formidável maremoto que, no dia 11 de março, atingiu com inaudita brutalidade o nordeste do Japão e causou o desastre atual de Fukushima, derrubaram as certezas dos defensores da energia atômica civil.

Curiosamente, a indústria nuclear estava vivendo talvez a melhor época da sua história. Num grande número de países estavam previstas dezenas de construções de centrais. E isto essencialmente por duas razões. Primeiro, porque a perspectiva de que o petróleo venha a esgotar-se no final deste século, associada ao crescimento exponencial da procura de energia por parte dos "gigantes emergentes" (China, Índia, Brasil), faziam dela a energia de substituição por excelência. Depois, porque a tomada de consciência coletiva face aos perigos das alterações climáticas causados pelos gases com efeito de estufa, conduzia paradoxalmente à preferência pela energia nuclear julgada “limpa,”por não produzir CO2.

A estes dois recentes argumentos, juntavam-se os pretextos habituais: o da soberania energética e da mínima dependência de países exportadores de hidrocarbonetos; o baixo custo da energia assim produzida; e – ainda que pareça insólito no contexto atual – o da segurança, sob o pretexto de que as 441 centrais nucleares do mundo (mais de metade das quais situadas na Europa ocidental) só registaram, ao longo de meio século, três acidentes graves…

Todos estes argumentos – não totalmente absurdos – foram fulminados perante a excepcional dimensão do desastre de Fukushima. O novo pânico, de alcance mundial, que este cataclismo fez nascer assenta em várias constatações. Em primeiro lugar, e contrariamente ao de Chernobyl – atribuído em parte, por razões ideológicas, ao envelhecimento duma tecnologia soviética vilipendiada – este acidente acontece precisamente no coração de um dos centros hipertecnológicos mais avançado do mundo, num país onde bem se pode imaginar – o Japão foi em 1945, a única nação vítima do inferno militar atômico – que as suas autoridades e os seus técnicos tenham tomado todas as precauções possíveis para evitar o desastre nuclear civil. Portanto, se o Estado mais capaz e mais vigilante não conseguiu impedir a catástrofe, é razoável que os outros países continuem a brincar com o fogo nuclear?

Em segundo lugar, as consequências temporais e espaciais do desastre de Fukushima aterrorizam. Por causa da fortíssima radiação, as áreas que circundam a central ficarão inabitáveis durante milênios. As zonas um pouco mais afastadas, durante séculos. Milhões de pessoas serão definitivamente deslocadas para zonas menos contaminadas. Terão de abandonar para sempre as suas propriedades, as suas explorações agrícolas, industriais ou de pesca. Para além da região-mártir propriamente dita, os efeitos radioativos far-se-ão sentir na saúde de dezenas de milhões de japoneses. E com certeza também na dos vizinhos, coreanos, russos, chineses… Sem excluir outros habitantes do hemisfério norte. O que confirma que um acidente nuclear nunca é local, é sempre planetário.

Em terceiro lugar, Fukushima demonstrou que a questão da chamada “soberania energética” é muito relativa. Porque a produção da energia nuclear supõe uma outra sujeição: a “dependência tecnológica”. Apesar do seu enorme avanço técnico, o próprio Japão viu-se forçado a recorrer a especialistas americanos, franceses, russos e coreanos (além dos especialistas da Agência Internacional de Energia Atômica) para tentar retomar o controle dos reatores acidentados. Além disso, os recursos de urânio do planeta  são extremamente limitados. Calcula-se que, ao atual ritmo de exploração, as reservas minerais desse minério se esgotem ao fim de 80 anos… ou seja, ao mesmo tempo que o petróleo…

Por todas estas razões, e muitas mais (a eletricidade nuclear não é mais barata), os defensores da opção nuclear têm agora de admitir que Fukushima modificou radicalmente o enunciado do problema energético. E que daqui para a frente se impõem quatro imperativos: parar a construção de novas centrais; desmantelar as que existem num prazo máximo de trinta anos; impor uma frugalidade extrema no consumo de energia; e tirar pleno partido das energias renováveis. Só assim se poderá talvez salvar o nosso planeta. E a humanidade.

Tradução de Deolinda Peralta

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/

Da Soberania à Dependência

Em 2010,no Cons. de Segurança ONU,o México votou a favor de sanções contra o Irã e não condenou o ataque à frota humanitária destinada a Gaza,em sintonia c/ os EUA.Será que o país renunciou à liberdade que caracterizou sua política externa,fundamentada na soberania nacional e no respeito à autodeterminação dos povos?

Jean François Boyer

O alinhamento da diplomacia mexicana com a de Washington vem se dando desde a ascensão ao poder do presidente Calderón, em 2006, e contrasta fortemente com a independência reivindicada pelo Brasil frente aos Estados Unidos, o que pode ser observado em vários acontecimentos.

Em dezembro de 2009, após a derrubada do presidente hondurenho Manuel Zelaya, o México e os Estados Unidos reconheceram a legitimidade das eleições que conduziram Porfírio Lobo ao poder, enquanto o Brasil e a União Europeia as declararam ilegítimas.

Em maio de 2010, no dia que se seguiu à iniciativa turco-brasileira que buscava oferecer uma alternativa às ameaças das Nações Unidas contra o Irã – baseando-se num acordo de fornecimento de combustível nuclear – o México votou a favor de novas sanções contra Teerã, em sintonia com os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, liderados por Washington. Um mês mais tarde, por ocasião do debate no Conselho de Segurança sobre o ataque à frota humanitária destinada à Gaza, perpetrado por Israel, o México apoiou a resolução apresentada pelos Estados Unidos, que “lamentaram”, mas não condenaram os fatos. Brasília, por sua vez, argumentou a favor de uma condenação clara da operação.

Teria o México renunciado à liberdade que, de 1945 a 1982, caracterizou sua política externa, fundamentada – segundo seus dirigentes – na soberania nacional, na não intervenção nos assuntos internos dos Estados e no respeito à autodeterminação dos povos?

Datas que merecem ser lembradas…

Em 1954, o México, então dirigido por Adolfo Ruiz Cortines, acolheu Jacobo Arbenz, o presidente guatemalteco que acabara de ser derrubado por um golpe de Estado organizado pela CIA. O sucessor de Cortines, Adolfo López Mateos (1958-1964), aproximou-se do movimento dos não alinhados, visitando o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser e o primeiro-ministro indiano Jawaharlal Nehru, os seus dois representantes mais emblemáticos. Em 1962, López Mateos se opôs a Washington quando este último articulou a exclusão da Cuba revolucionária da Organização dos Estados Americanos (OEA). Mais tarde, Luis Echeverria (1970-1976) iria apoiar Salvador Allende, dar guarida aos refugiados das ditaduras militares da América do Sul, além de consolidar as relações com os não alinhados e com Cuba. José López Portillo, que lhe sucedeu, apoiou a revolução sandinista e foi a Moscou, em maio de 1978, onde se encontrou com Leonid Brejnev, o qual observou: “Os nossos dois países adotam posições idênticas ou similares em relação às questões mais importantes1”.

Mas a memória pode ser enganadora: muito além das declarações provocadoras do seu vizinho, os Estados Unidos sempre puderam contar com a solidariedade do México no que diz respeito à questão essencial da segurança do império dentro do quadro da Guerra Fria. Agente da aproximação com os países não alinhados, López Mateos cultivou ao mesmo tempo uma relação íntima com Washington: no espaço de quatro anos, ele reuniu-se seis vezes com os seus homólogos Dwight D. Eisenhower, John F. Kennedy e Lyndon B. Johnson – um recorde. Além disso, ele se absteve de atravessar a linha vermelha traçada pelo poderoso vizinho: o México nunca se tornou membro de pleno direito do Movimento dos Não Alinhados, contentando-se com um posto de observador. Além disso, em outubro de 1962, durante a crise dos mísseis soviéticos em Cuba, o México, na OEA, se posicionou ao lado dos Estados Unidos para condenar a instalação de lançadores no território cubano e exigir seu desmantelamento.

A partir daquele momento, o México aplicou rigorosamente o bloqueio econômico contra a ilha e informou regularmente a CIA dos deslocamentos, via aeroportos mexicanos, dos cidadãos norte-americanos e dos revolucionários latino-americanos que iam a Cuba. Echeverria não seria uma exceção na matéria.

Segundo o historiador Lorenzo Meyer, a sua estratégia de antagonismo aparente com o “vizinho do Norte” – similar àquela dos seus predecessores –, representava acima de tudo “uma fonte insubstituível de legitimidade” paraum governo “que não podia contar com a legitimidade que lhe conferiria a democracia, inexistente no decorrer dos 70 anos de exercício autoritário do poder pelo PRI2”.De fato, a relação de Echeverria com os Estados Unidos foi muito diferente. Soube-se mais tarde que o presidente fora recrutado pela CIA durante os seis anos de mandato de seu predecessor, Diaz Ordaz, no quadro de um programa batizado de Litempo, que visava detectar as atividades da esquerda revolucionária na América Latina.3 Então, durante o seu próprio mandato, ele se engajou na “guerra suja”, uma repressão feroz aos movimentos de guerrilha locais.

Contudo, as relações foram realmente tensas entre o México e Washington no que diz respeito à América Central. Assim, o presidente mexicano López Portillo (1976-1982) esteve em Manágua para celebrar a vitória da Frente Sandinista de Liberação Nacional, em 14 de julho de 1979, e proporcionou ajuda financeira considerável ao novo Estado. Em particular, ele forneceu petróleo mexicano barato para a Nicarágua revolucionária. Em 28 de agosto de 1981, o México e a França assinaram uma declaração que reconheceu as duas frentes revolucionárias salvadorenhas (FMLN e FDR) como “forças representativas”.

Mas, assim que assumiu o poder em 1981, Ronald Reagan fustigou a Nicarágua sandinista, “um aliado da União Soviética a duas horas de voo das nossas fronteiras4”. Washington pressionou então o México, que foi abandonando aos poucos a ideia de legitimar a revolução sandinista, reunindo Washington e Manágua à mesma mesa. Entretanto, Portillo continuaria apoiando uma solução negociada para os conflitos que atingiam igualmente El Salvador e Guatemala no âmbito do Grupo de Contadora.5 O divórcio nunca seria consumado.

Sempre pressionado por Washington, Miguel de la Madrid (1982-1989) autorizou a sua polícia a colaborar discretamente com a CIA e os cartéis mexicanos para treinar os homens da “Contra” nicaraguense no solo mexicano e deixar que as suas atividades fossem financiadas pelo tráfico de drogas 6.

Portanto, não há como não dizer que a autonomia mexicana é relativa: uma “independência na dependência”, por assim dizer. Segundo Meyer, ela decorre de um acordo discreto, não escrito, do qual era impossível fugir, que remonta ao final da revolução mexicana, em 1924: na ocasião, os Estados Unidos teriam se comprometido a apoiar os governos mexicanos e a não intervir nos seus assuntos internos se estes garantissem a paz e a segurança na fronteira comum – mais de 3 mil km – além da estabilidade política no interior do seu país 7.

Essa margem de manobra diplomática se deu de 1960 a 1982 e envolveu as opções econômicas dos presidentes da época – em sua política de industrialização, de consolidação das sociedades nacionais (sobretudo bancárias) e de desenvolvimento do mercado interno. Esse “modelo” foi financiado, em primeiro lugar, pela renda petroleira: de 1963 a 1972, a perfuração de novos poços de petróleo em alto-mar, ao largo de Tampico e Campeche, fez com que o México se tornasse uma potência petroleira.8 Simultaneamente, o país também se abasteceu na fonte do endividamento internacional.

E o país desmoronou

A grande reviravolta ocorreu em 1982 com a crise da dívida. O país desmoronou de repente, incapaz de honrar seus compromissos. A ajuda financeira norte-americana e a renegociação dos empréstimos foram condicionadas à aplicação de um ajuste estrutural que, de fato, não desagradou aos novos presidentes neoliberais, De la Madrid e, mais tarde, Carlos Salinas de Gortari, oriundos do Partido Revolucionário Institucional (PRI). Estes impuseram redução do déficit fiscal, desregulamentação, privatização maciça das empresas públicas e bancos… Os esforços mexicanos foram recompensados com a incorporação do país, em 1986, ao Acordo Geral sobre as Tarifas e o Comércio (cuja sigla em inglês é GATT). A assinatura do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (em inglês, Nafta) entre os três países da América do Norte, em 1993, uniu em definitivo o destino do México ao dos Estados Unidos. O crescimento do país passou a depender do volume das transações com o vizinho do Norte e dos investimentos norte-americanos no campo industrial e no setor de produtos e serviços terceirizados.(ler texto ao lado)

Tanto mais que nos primeiros meses dos seis anos de mandato de Ernesto Zedillo (1994-2000), nova crise econômica ampliou essa dependência. Mais uma vez Washington salvou o seu vizinho do Sul da falência, organizando a transferência de um empréstimo de emergência cujo montante era considerável: mais de US$ 40 bilhões pagos pela Reserva Federal (FED), o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco de Compensações Internacionais (em inglês, BIS), o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

“Essa dependência financeira dos setores estadunidenses mais conservadores teve o efeito de uma coleira no pescoço dos governos sucessivos do país em matéria de política externa, os quais tudo fizeram para não criar atritos com os grupos industriais e financeiros que mantêm a economia mexicana funcionando”, constata o analista econômico Rogelio Ramirez da O.9 Nessas condições, “não é necessário que os Estados Unidos acenem com qualquer ameaça para obrigar o México a renunciar a certas posições”,analisa Jorge Castañeda, ex-ministro das Relações Exteriores do governo de Vicente Fox.“Isso porque, a cada cinco ou seis anos, desde 1982, o país está em crise, à beira da falência, e são sempre os estadunidenses que salvam a lavoura…10.”

A derrota do PRI em 2000 e a eleição de Vicente Fox, um homem de negócios democrata cristão, ex-diretor-geral da Coca-Cola no México, líder do Partido de Ação Nacional, pôs fim em definitivo às veleidades de não alinhamento.

Fox instaurou uma relação íntima com George W. Bush. O governo mexicano colocou as suas forças de segurança a serviço da defesa da fronteira norte-americana após os atentados de 11 de setembro de 2001 e se opôs à renegociação – exigida pela esquerda e pelos nacionalistas do PRI – dos artigos do Nafta mais nocivos à economia mexicana. No espaço de alguns anos, os principais bancos privados mexicanos passaram a ser controlados por estabelecimentos estrangeiros: Citygroup, HSBC, Santander etc. Pela primeira vez na história das suas relações bilaterais, o México votou contra Cuba na Comissão dos Direitos Humanos da ONU, em 2003.

Em troca, o México acalentava a esperança de uma profunda reforma da legislação norte-americana em matéria de imigração, o que regularizaria o estatuto dos ilegais e autorizaria a livre circulação da mão de obra mexicana entre os dois países, e seria uma solução para o principal problema da sua economia: o desemprego, decorrente da inexistência de uma política nacional de industrialização. Mas o endurecimento dos regulamentos relativos à segurança, provocado pelos atentados de 11 de setembro de 2001, enterrou o projeto.

Herdeiro dessa lenta evolução rumo a uma aliança total com os Estados Unidos, Felipe Calderón opta por reforçá-la. Para ganhar aquela que ele batiza de “guerra  contra o narcotráfico e o crime organizado” – os quais vinham sendo alimentados pela corrupção endêmica e a marginalização dos setores populares –, ele precisou… do apoio dos Estados Unidos: inteligência, escutas telefônicas, luta contra a lavagem de dinheiro etc. No que era uma iniciativa inimaginável alguns anos antes ao sul do rio Bravo, vários intelectuais mexicanos de prestígio, como Jorge Castañeda e Hector Aguilar Camin, deram declarações públicas solicitando a intervenção norte-americana em território mexicano, no quadro de um outro Plano Colômbia11, que acabaria resultando em nova perda de soberania para o país.

“Pobre México”, diz um refrão popular. “Tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos…

Jean François Boyer é diretor de Le Monde Diplomatique no México, América Central e Estados Unidos.

Fonte: http://diplomatique.uol.com.br/

O pré-sal e o tsunami na geopolítica do petróleo

Uma nova ordem mundial começa a alterar a geopolítica do petróleo e, mais do que nunca, precisamos entender este processo e tratar o pré-sal como uma riqueza extremamente estratégica.

João Antônio de Moraes

O acidente nuclear no Japão, as mudanças políticas no Norte da África e no Oriente Médio e a visita de Barack Obama ao Brasil são fatos correlatos que colocam em alerta os movimentos sociais na defesa da nossa soberania energética.

O tsunami japonês varreu, pelo menos temporariamente, os planos de expansão nuclear de dezenas de países que apostam nesta fonte de energia como principal alternativa para reduzir a dependência de hidrocarbonetos (óleo e gás natural). A tendência é que estes recursos se tornem cada vez mais estratégicos para saciar a fome de energia do planeta. Hoje os combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás) são responsáveis por mais de 80% da matriz energética global. As estimativas da Agência Internacional de Energia são de que o consumo de petróleo continue aumentando em termos absolutos, ultrapassando nos próximos dez anos a marca de 100 milhões de barris por dia.

Em função disso, já estamos assistindo à corrida das principais nações em busca de novas fronteiras produtoras de petróleo e gás para garantir suas necessidades de abastecimento. Não por acaso, o Brasil foi o primeiro pouso de Barack Obama na América Latina. Por trás de sua “cordial” visita, estão intenções nada amistosas. Os Estados Unidos são o maior consumidor de petróleo do planeta (utilizam 25% da produção global) e também o mais vulnerável em meio à onda de revoltas que assola o Norte da África e o Oriente Médio, principal fonte abastecedora do país.

Em troca de petróleo, o império norte-americano tem apoiado e sustentado ditaduras e governos autoritários nestas regiões, intervindo militarmente sempre que seus interesses são ameaçados. É o que está acontecendo agora na Líbia, da mesma forma como aconteceu no Irã, no Iraque e no Afeganistão. Mas as movimentações de peças no tabuleiro de xadrez do mundo árabe levam os analistas políticos a acreditarem que uma nova coalizão de forças colocará em xeque a posição confortável que os Estados Unidos usufruíam no Oriente Médio até então.

Para que Washington diminua sua dependência da região, o Brasil é a bola da vez. Com o pré-sal, nosso país será uma das maiores reservas de petróleo do planeta e é de olho nesta riqueza que os Estados Unidos vêm tentando fechar acordos e parcerias com o governo brasileiro e a Petrobrás. A FUP e os movimentos sociais são contrários à tese de que o pré-sal deve fazer do Brasil um grande exportador de petróleo. Queremos que este estratégico recurso seja explorado de forma sustentável para desenvolver toda a sua cadeia produtiva. Desde a construção de navios e plataformas até a indústria petroquímica e plástica.

É desta forma que o país irá gerar emprego e renda e não exportando petróleo cru para abastecer países ricos, como os Estados Unidos, que durante décadas exploram e usufruem de recursos energéticos alheios para sustentar seus absurdos níveis de consumo. O pré-sal, como disse a presidenta Dilma, é o passaporte para que as gerações futuras tenham um país desenvolvido, com oportunidades para todos. Mas isso só será possível investindo na cadeia produtiva do petróleo aqui no Brasil, fomentando a indústria nacional, gerando emprego e renda para milhões de brasileiros.

João Antônio de Moraes, coordenador geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP)

Fonte: http://www.chicoalencar.com.br/

Milhares protestam em Bruxelas contra "pacto pelo euro"

A polícia belga usou canhões de água e gás lacrimogéneo para dispersar os milhares de manifestantes do sindicato socialista FGBT, que ocuparam as quatro das principais estradas de Bruxelas.

Esquerda.Net

A polícia belga usou canhões de água e gás lacrimogéneo para dispersar os milhares de manifestantes do sindicato socialista FGBT, que ocuparam as quatro das principais estradas de Bruxelas. Foto Eric Lalmand/EPA/LUSA                                                      Foto Eric Lalmand/EPA/LUSA

Milhares de trabalhadores juntaram-se na capital belga contra os planos de austeridade e as reformas econômicas previstas no "pacto para o euro" que os sindicatos dizem ser demasiado favoráveis às empresas e que deverá ser aprovado pelos 27 ainda esta sexta-feira.

Os manifestantes bloquearam as estradas principais no centro da cidade, causando engarrafamentos na zona onde as instituições europeias têm sede e onde tem lugar o encontro dos líderes governamentais dos Estados-membros da EU.

Foi numa zona próxima do local da cúpula, para onde convergiam esta manhã várias marchas de protesto, que a polícia usou equipamento pesado para impedir a aproximação dos manifestantes.

As grandes centrais sindicais belgas e europeias multiplicaram os protestos. O sindicato socialista FGBT decidiu organizar, antes da manifestação da Confederação Europeia dos Sindicatos (CES), marchas que partiram das quatro entradas de Bruxelas, perturbando o tráfego em vários bairros.

Já a CES convocou uma manifestação para a rua de La Loi, que terá juntado cerca de 15 mil pessoas, segundo a porta-voz da confederação, Audrey Lhoest, citada pela Lusa.

Quanto ao maior sindicato belga, a central CSC, demarcou-se destes protestos para não contribuir para um bloqueio da capital e organizou, quinta-feira de manhã, uma manifestação junto ao Atomium, um edifício emblemático em forma de átomo, na qual participaram "5 mil a 7mil manifestantes", segundo a central.

O "pacto para o euro", anteriormente designado pacto para a competitividade, inclui várias matérias em relação às quais os países da zona euro devem apresentar compromissos concretos. Entre as áreas de atuação figuram o controle do custo dos salários, a adoção de limites ao endividamento público nas legislações nacionais, a adaptação da idade de reforma à esperança de vida e a "harmonização" dos impostos sobre as empresas.

"O exame anual do crescimento pela Comissão Europeia e o pacto para a competitividade da chanceler alemã, Angela Merkel, e do presidente francês, Nicolas Sarkozy, atiram os salários e os direitos sociais perigosamente para baixo", afirmou a CES num comunicado.

Embora as propostas franco-alemãs tenham sido atenuadas no projeto do "pacto para o euro", os sindicatos belgas temem que este ponha em causa o sistema de indexação automática dos salários à inflação em vigor na Bélgica.

Fonte: http://socialismo.org.br/