Daily Archives: 05/05/2011

Jean Wyllys defende cassação do mandato de Bolsonaro por crime de racismo

O deputado federal Jean Wyllys se defende dos ataques do colega parlamentar Bolsonaro

Patrícia Scofield

O deputado federal Jean Wyllys se defende dos ataques do colega parlamentar Bolsonaro  (Diogenis Santos/Agência Câmara - 05/03/2011)                            Jean Wyllys (PSOL-RJ)

O deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) defendeu a cassação do mandato do colega Jair Bolsonaro (PP-RJ), durante entrevista concedida à Rede TV. De acordo com Wyllys, Bolsonaro "quebrou o decoro parlamentar por pratcar o crime de racismo".

No dia 27 de março, o deputado do PP atacou o parlamentar do PSOL, que se declara homossexual. "Este é o ambiente propício para colocar isso. Uma pessoa já disse aqui que as melhores professoras que teve foram as prostitutas. Tem professor que é gay. Será que é bom também?", afirmou Bolsonaro, na ocasião.

Durante a entrevista ao canal de televisão, veiculada na madrugada dessa segunda-feira, Wyllys afirmou que o colega parlamentar quebrou o decoro não por ser homofóbico, mas sim por ter sido racista. "Ele ofende a dignidade dos homossexuais sem o menor problema. Ele chega a incitar o ódio contras os homossexuais", destacou. O deputado do PSOL acrescentou que Bolsonaro faz isso "porque homofobia ainda não é crime como racismo".

Conhecido na Casa por dar declarações polêmicas, Bolsonaro criticou, na semana passada, o kit do Ministério da Educação para combater homofobia nas escolas, chamando o material de "kit gay". Na ocasião, o deputado foi repreendido residente da Comissão de Direitos Humanos, deputada Manuela D’Ávila (PCdoB-RS) e pelo ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Bolsonaro tenta se defender, na Corregedoria da Câmara, a acusações de racismo e preconceito contra homossexuais, por declarações concedidas a outro programa de televisão, em março.

Fonte: http://www.em.com.br/

A devassa das fronteiras da intimidade

A busca incessante e insensata pela fama, assistida nos reality shows, mesmo que à custa de humilhação, infligida ou sofrida, é uma faceta que merece ser analisada

Yves de La Taille

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Enquanto no mundo acontecem coisas diversas, das mais belas e das mais trágicas, uma ou duas dezenas de pessoas se entregam a uma atividade no mínimo estranha: permanecer trancafiadas numa casa, sem contato com o resto do planeta, mas sob a vigilância ininterrupta de várias câmeras de televisão que transmitem ao vivo tudo o que fazem e dizem a milhões de pessoas que também se entregam ao passatempo não menos estranho de assistirem cotidianamente a essa extravagante convivência. Eestou, é claro, falando da versão brasileira dos reality shows, como o famoso Big Brother Brasil (BBB), que em 2011 recebe sua 11ª edição.

Um dos atributos essenciais de um ser humano livre é justamente o de ter controle do acesso de outros a áreas de sua pessoa

Esse programa televisivo pode ser analisado e criticado por vários aspectos, a começar pelo próprio nome retirado do célebre e sério romance de George Orwell, 1984: é triste verificar que um nome criado para alertar sobre perigos totalitários seja reduzido a mero título de uma "diversão" de gosto duvidoso. Pode-se também associar o BBB ao erotismo sem sensualidade que tem invadido a nossa cultura. E, entre outros aspectos, podemos simplesmente pensar, com Fernando Veríssimo, que "chega a ser difícil encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência".

Porém, há outro "atentado", comum em nossas vidas, que programas como BBB e similares colocam em primeiro plano: o atentado à privacidade.

Define-se privacidade como "controle seletivo do acesso ao eu". Ou seja, a privacidade equivale a selecionar quais aspectos, corporais ou mentais, da pessoa serão revelados, ou não, a terceiros. Por exemplo, usamos roupas para que pessoas não possam ver partes de nosso corpo, mas, perante algumas, aceitamos ficar nus. Outro exemplo: há pensamentos e sentimentos que escondemos de alguns, mas que confiamos a outros.

Isto posto, um dos atributos essenciais de um ser humano livre é justamente o de ter controle do acesso de outros a áreas de sua pessoa. É por essa razão que Orwell criou o terrível Big Brother como símbolo de um estado totalitário que chega a privar os seus membros do último reduto de sua liberdade: o controle sobre a sua intimidade.

Ficaria ele espantado em saber que pessoas resolvem livremente colocar-se em situação semelhante à do pesadelo descrito no seu romance? É provável que sim, uma vez que ele viveu no começo do século XX e, logo, não presenciou alguns fatos posteriores que tenderiam paulatinamente a "naturalizar" a constante exibição de si mesmo e o decorrente abandono do controle da privacidade. Eescreveu Paulo José da Costa Junior, da área de Direito, em seu livro O direito de estar só: "processo de corrosão das fronteiras da intimidade, o devassamento da vida privada, tornou-se mais agudo e inquietante com o advento das novas tecnologias."¹ O livro foi publicado em 1970 e de lá para cá tal devassamento somente tem aumentado: câmeras em todos os cantos; controles minuciosos em entradas de prédios e condomínios; scanners cada vez mais sofisticados, que literalmente despem as pessoas nos aeroportos; exames de DNA; celulares que nos tornam acháveis a qualquer hora e que nos filmam à nossa revelia; enquetes sobre nossos gostos pessoais, em processos de seleção em empresas, etc. O lema atual é essa cínica frase: Sorria, você está sendo filmado.

E o mais inquietante é que muitas pessoas sorriem mesmo! Ee isto porque não raras são aquelas que associam a exibição de si mesmas ao usufruto de uma "vida boa". Porém, é ledo engano pensar que tal abandono, forçado ou voluntário, das fronteiras da intimidade é benéfico para as pessoas e para a sociedade na qual vivem. Do ponto de vista do equilíbrio psicológico, é verdadeiro o alerta de Grinover: "Se cada um de nós tivesse de viver sempre sob as luzes da publicidade, acabaríamos todos perdendo as mais genuínas características de nossa personalidade."² A autora dessa frase é da área de Direito, mas encontra respaldo na Psicologia. Em minhas pesquisas, por exemplo, verifiquei que não somente a capacidade de ter segredos é precoce (por volta dos 4 anos de idade) como corresponde a uma necessidade das crianças para protegerem a construção de suas identidades³. Ora, para os adultos, vale o mesmo. A Nouvelle Revue de Psychanalyse publicou em 1976 todo um número dedicado ao tema do falar de si, à sua importância para os seres humanos e aos limites que devem ser respeitados. Nele, Piera Castoriadis-Aulagnier chega a defender o "direito ao segredo".

Mas não é somente do ponto de vista pessoal que a falta de fronteiras da intimidade causa prejuízos. Em seu clássico livro sobre as tiranias da intimidade, Richard Sennett observa que, hoje, as pessoas acreditam que não devem se relacionar desempenhando papéis sociais, mas sim sendo "espontâneas", revelando tudo o que pensam e sentem.Ora, para ele "mais as pessoas são íntimas, mais as suas relações se tornam dolorosas, fratricidas e antissociais." Não terá ele razão?

Então, embora não o saibam e nem o queiram saber, são de certa forma felizardos aqueles eliminados o mais cedo possível no paredão da todo-poderosa opinião pública…

Yves de La Taille é Professor Titular do Instituto de Psicologia da USP, autor de, entre outros livros, Moral e Ética: dimensões intelectuais e afetivas (Artmed, 2006), vencedor do Prêmio Jabuti 2007.

Fonte: http://psiquecienciaevida.uol.com.br/

O Pan-Americanismo

Diversos autores procuram demonstrar que desde o século XVIII surgiram precursores dos ideais pan-americanos, citando-se como um dos pioneiros o Padre Alexandre de Gusmão, brasileiro que servia na corte de D. João I de Portugal, e um dos responsáveis pela elaboração do Tratado de Madri (1750).

História net

1. ORIGENS

“É certo que o Tratado de Madri fala em `paz perpétua` entre as duas Coroas, mas este compromisso de paz entre potências traduz apenas a promessa de não disputar, nem uma nem outra, pedaço do bolo que já haviam dividido entre si.

Nada tem a ver um tratado dessa espécie com a doutrina muito mais tarde nascida, e que procurava firmar um princípio de não intervenção estrangeira, de cooperação, de paz e harmonia entre Estados já constituídos. " (SOUZA GOMES, L., América Latina, SeusAspectos, Sua História, SeusProblemas, Fundação Getúlio Vargas, p. 253.)

Aponta-se também o peruano Plabo Olavide que, influenciado pelas idéias do Iluminismo, organizou em Madri a Junta das Cidades e Províncias da América Meridional, sociedade secreta destinada a estimular a independéncia da América (1795). Ainda que considerasse a emancipação do Novo Mundo como um empreendimento a ser realizado em conjunto pelas sociedades americanas, Olavide tinha uma visão muito estreita de união pan-americana: ficava restrita apenas às sociedades da América do Sul.

No século XIX, em meio ao processo de emancipação da América Espanhola, outras manifestações de ideais pan-americanos evidenciaram-se através de projetos formulados por representantes da elite hispano-americana. Juan Martínez de Rosas, integrante da Primeira Junta Governativa e autor da Declaração dos Direitos do Povo Chileno, defendeu o princípio de solidariedade entre o Chile e as demais sociedades hispano-americanas e a necessidade de unir todos os povos americanos em uma confederação a fim de garantir a independência contra os planos da Europa e de evitar conflitos inieramericanos. Esses princípios igualmente foram sustentados por Bernardo O`Higgins que assumiu a liderança da luta pela independência do Chile.

Jose de San Martín e o Coronel Bernaldo Monteagudo, argentinos que participaram das guerras de libertação do seu país, do Chile e do Peru, expuseram a idéia de realizar um congresso pan-americano para melhor resistir a eventuais ameaças da Espanha contra suas colônias que se emancipavam. "Antes (…) já Francisco Miranda (…) antevira a solidariedade continental, quando apresentou ao gabinete inglês, em 1790, o plano para libertar a América da tutela espanhola (…) Miranda estabelecia uma América única, geográfica e administrativa, um vasto Estado comum, do Mississipi ao Cabo Horn Vemos então que os pronunciamentos no sentido de estabelecer a união entre as sociedades amencanas ganharam maior expressão durante a luta pela independência das colônias européias no Novo Mundo. Foi tanto a necessidade de defesa contra a ameaça representadapela Europa assim como as raízes históricas e geográficas ccmuns que forjaram o ideal pan-americano, o qual deve ser entendido como um movimento de solidariedade continental a fim de manter a paz nas Américas, preservar a independência dos Estados amnericanos e estimular seu inter-relacionamento.

O projeto de solidariedade continental, no entanto, foi desenvolvido sob duasmodalidades distintas: o Bolivarismo e o Monroísno.

2. O BOLIVARISMO

O Bolivarismo representa a visão pan-americana concebida por Simon Bolívar (1783-1830), venezuelano que dirigiu a luta pela independência da Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia e Equador.

Em vários escritos (cartas e proclamações) defendeu a necessidade de união face à possível contra-ofensiva da Espanha, apoiada pela Santa Aliança.

Essa idéia de união das sociedades americanas, Bolívar apresentara antes mesmo da Carta da Jamaica. “A sua exposição prática já é perceptível em um artigo que Bolívar escreveu para o Morning Chronicle, de Londres (5 de setembro de 1810), dizendo que se os venezuelanos fossem obrigados a declarar guerra à Espanha convidariam todos os povos da América a eles se unirem em uma ccnfederação. O plano surge novamente no Manifesto de Cartagena, escrito por Bolívar em 1812, e mais claramente em 1814, quando, como libertador da Venezuela, enviou a circular que condicionou a liberdade dos novos Estados ao que ele chamou de `união de toda a América do Sul em um único corpo político` (…) E, em 1818, respondendo à mensagem de saudação, enviada a Angostura pelo director argentino, Pueyrredón, declarava que, tão logo a guerra de independência estivesse terminada, procuraria formar um pacto americano, e esperava que as Províncias do Rio da Prata se unissem a ele."

Simon Bolívar

Na prática, criou a Grã-Colômbia (1819), de duração efêmera; em 1830, no mesmo ano após a morte do criador, terminou a Grã-Colômbia, fragmentada em três Estados; Venezuela, Equador e Colômbia, à qual se integrava o Panamá. Seus esforços no sentido de unir o Peru e a Bolívia foram infrutíferos diante da resistência oposta pelo prufundo regionalismo daquelas sociedades sul-americanas.

Entretanto, Bolívar não desanimou de lutar pela fraternidade pan-americana e, em dezembro de 1824, enviou nota-circular aos govemos americanos convidando-os a se reunir para organizar uma confederação.

Quase dois anos depois reuniu-se o Congresso do Panamá, com sessões entre 22 de junho e 15 de julho de 1826. Nesta data, aprovou-se a continuação das discussões em Tacubaya, no México, mas a decisão não foi cumprida.

Considerado por diversos historiadores como a primeira grande manifetação do Pan-Americanismo, o Congresso do Panamá aprovou:

um Tratado de União, Liga e Confederação Perpétua entre os Estados hispano-americanos;

a cota que caberia a cada país para a organização de uma força militar de 60.000 homens para a defesa comum do hemisfério;

a adoção do princípio do arbitramento na solução dos desacordos interamericanos;

o compromisso de preservar a paz continental;

a abolição da escravidão.

Ao Congresso compareceram apenas os representantes da Grã-Colômbia, Peru, México e Províncias Unidas de Centro-América. Os EUA também enviaram observadores. O Congresso do Panamá, manifestação concreta de solidariedade continental, contudo, acabou sendo um fracasso, para isso contribuindo:

a resistência dos EUA que pretendiam expandir-se pelas Antilhas e temiam a difusão de movimentos de abolição da escravidão;

a opusição do Brasil, cuja Monarquia era contrária a regimes republicanos e temia a propagação das idéias anti-escravistas; D. Pedro I chegou inclusive a enviar a Missão Santo Amaro à Europa com a incumbência de negociar com Metternich, Primeiro-Ministro da Austria e verdadeiro dirigente da Santa Aliança, o uso de forças militares brasileiras para substituir os governos republicanos americanos por Monarquias confiadas a Príncipes europeus;as manobras da Inglaterra, não só porque George Canning, Ministro das Relações Exteriores, não tinha interesse na organização de uma América forte e coesa, como também porque temia a formação de um sistema americano sob a direção dos EUA, o que poderia criar problemas à expansão econômica inglesa;

não terem sido ratificadas, posteriormente, as decisões tonladas.

Os ideais do Pan-Americanismo bolivarista, porém, ccntinuaram vivos, e novos congressos foram reunidos para discutir assuntos diversos dentro do espírito desolidariedade continental. Dessas reuniões o Brasil e os EUA foram excluídos: os Estados Unidos, por causa de seu expansionismo territorial, envolvendo inclusive a anexação de terras mexicanas, e o Brasil; devido a suas constantes intervenções no Prata, políticas essas contrárias à solidariedade continental.

Com representantes da Bolívia, Chile, Peru, Equador e Colômbia reuniu-se a Conferência de Lima (1847). "Nela foram tratados princípios do Direito americano,intervenção, agressão, reparações, limites, como também dispositivos práticos sobrecomércio, navegação fluvial, serviços postais e consular, extradição.

Em 1856, celebrou-se a Conferência de Santiago, quando o Peru, o Chile e o Equador firrnaram o compromisso de estabelecer a união da “grande família americana“. No mesmo ano, Chile e Argentina concluíram acordo comercial estabelecendo o fim das barreiras alfandegárias entre os dois países; a chamada "cordilheira livre" funcionou até 1868, quando foi suprimida, uma vez que o govemo chileno pretendeu estender aos produtos importados de outras nações os privilégios concedidos apenas aos produtos argentinos e chilenos.

Por iniciativa peruana reuniu-se a Segunda Conferência de Lima (1864), a fim de estabelecer uma confederação de caráter defensivo. Peru, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Guatemala, Argentina e Venezuela concordaram em organizar umaconfederação, pois se sentiam ameaçados pelas freqüentes intervenções estrangeiras que se processavam no continente e constituíam um perigo à segurança dos Estados americanos.

Assim é que, em 1855, o aventureiro norte-americano William Walker invadiu e conquistou a Nicarágua; em 1861, a Espanha ocupou São Domingos e estabeleceu seu protetorado até 1865; em 1861-1862, Espanha, França e Inglaterra desembarcaram tropas na República Mexicana, onde Napoleão III instaurou a efêmera Monarquia de Maximiliano de Habsburgo (1863-1867); em 1864, uma esquadra espanhola ocupara as ilhas peruanas de Chinchas, em incidente que acabou levando ao conflito do Peru e Chile contra a antiga metrópole (1866). "O Império Brasileiro evitou a reunião de Lima, para não ver discutida a sua política no Prata. Na Câmara brasileira, entretanto, foi mais tarde criticada a nossa ausência (…) Dos tratados assinados (…) nenhum chegou a ser integralmente aplicado (…) Ao espírito primitivo de regionalismo, sucedia um sentimento de nacionalismo."

Animados de sentimentos pan-americanos bolivaristas, outros congressos reuniram juristas sul-americanos: Lima (1874), Caracas (1883) e Montevidéu (1888). Em Montevidéu chegou a se projetar um Código Interamericano, incluíndo questõescomuns do Direito Intemacional e Privado.

Desse modo, apesar dos fracassos occrridos, os ideais do Pan-Americanismo bolivarista lançaram as bases da solidariedade continental assentada em posição de igualdade entre todos os Estados.

3. O MONROÍSMO

O Monroísmo representa a visão norte-americana do Pan-Americanismo, bem distinta do Bolivarismo e fundada no predomínio dos EUA sobre os demais Estados americanos.Sua primeira manifestação foi a Mensagem Presidencial de James Monroe enviada ao Congresso dos EÚA (1823). Nela, Monroe negava aos europeús o direito de intervençâo no ccntinente americano, seja para criar áreas de colonização, seja parasuprimir a independência recém-ccnquistada pela maioria dos Estados arnericanos.

A análise do documento evidencia que os Estados Unidos opunham-se à Europa da Santa Aliança:

1°) devido à preocupação norte-americana com a sua própria segurança, uma vez que a política da Santa Aliança, marcada por intervenções armadas, visava a presérvar as instituições monárquicas e ccmbater os regimes republicanos; ora, precisamente em 1823 occrrera a intervenção francesa (determinada no Congoesso de Verona, de 1822) na Espanha, onde foram restaurados os poderes monárquiccs de FernandoVII, a qual poderia se desdobrar em intervenção nas Repúblicas da América;

2°) devido aos projetos territoriais expansionistos dos EUA, que pretendiam avançar suas fronteiras até o litoral do Pacífico. Esses objetivos contrariavam interesses ingleses no noroeste da América, pois norte-americanos e britânicos disputavam o domínio do Oregon. Por isso, John Quincy Adams, Secretário de Estado, havia aconselhado o Presidente Monroe a rejeitar as propostas de George Canning, Ministro inglês, no sentido de Estados Unidos e Inglaterra formularem uma nota conjunta opondo-se à política de intervenção da Santa Aliança: "Deve ser mais simples (…) do que surgirmos como um simples escaler na esteira de um poderoso navio de guerra inglês." Além do mais, o govemo de Washington preocupava-se com o avanço da Rússia: em documento de setembro de 1821, o Czar Alexandre I afirmara direitos russos sobre terras e águas do noroéste da Àmérica Setentrional, desde o Alasca até a Califómia. Impunha-se, então, aos dirigentes norte-americanos impedir a ampliação do colonialismo europeu por territórios do Novo Mundo;

3°) devido ao interesse norte-americano em garantir um comércio livre com paísesindependentes. A inter-relação da economia com a política torna-se evidente ao constatarmos que o govemo dos EUA foi dos primeiros a estabeleoer relações diplomáticas com os novos Estados surgidos com a conquista da independência.

Desse modo, a Mensagem de Monroe representou antes de mais nada "a expansão de uma política nacional cuja aplicação cabia unicamente ao govemo dos Estados Unidos. Além disso, a atitude e as palavras de Monroe não continham qualquer garantia que livrasse os demais povos americanos das agressões ou intervenções dos Estados Unidos. Isto viu-se efetivamente quando nos anos de 1824 a 1826 a diplomacia dos Estados Unidos expressou suas ambições sobre Cuba (…) Os Estados Unidos opunham-se a que as Antilhas espanholas fossem tomadas independentes pela ação da Colômbia e México, cujos governos pretendiam realizar uma expedição emancipadora. O temor da anexação de Cuba ao México, ou a alguma das Repúblicas libertadoras, não era menor que o de uma independência precária, com ameaça de intervenção européia".

A Doutrina Monroe, usualmente resumida na expressão "América para os americanos“, na realidade atendeu apenas aos interesses norteamericanos. Não houve solidariedade continental quando os dirigentes estadunidenses opuseram-se ao projeto de união americana no Congresso do Panamá, nem quando o, nem quando o Tratado Guadalupe-Hidalgo (1848) assegurou-lhes a Califórnia, Novo México, Arizona, Utah, Nevada e Texas que foram tomados ao México após vitoriosa campanha militar. Muito menos houve solidariedade continental quando o Tratado Clayton-Bulwer (1850), assinado com a Inglaterra, fixou as respectivas áreas de influência das duas sociedades e os EUA assumiram o compromisso de não empreender sem os ingleses a construção de um canal na América Central.

Já ao findar o século XIX, quando o capitalismo e a industrialização norte-americana conheceram acelerado desenvolvimento, nova manifestação do Monroísmo ocorreu graças aos esforços de James Blaine, Secretário de Estado dos EUA.

Reuniram-se, então, em Washington, 18 países americanos entre outubro de1889 e abril de 1890, na Primeira Conferência Internacional Americana, cujas decisões mais importantes foram:

- condenar a guerra e afirmar a nulidade de cessões territoriais decorrentes de operações de conquista ou sob ameaça de guerra;

- aprovar o recurso ao arbitramento para solução de eventuais divergências interamericanas;

- recomendar a construção d uma ferrovia intercontinental para melhor relacionamento entre os povos americanos;

- aprovar a criação de um órgão coordenador das relações comerciais. "Esse organismo foi a União Pan~Americana, iniciada sob a denominação de Escritório Comercial das Repúblicas Americanas, com sede em Washington e mantida pelos recursos proporcionados pelos Estados-membros." Nessa conferência, os norte-americanos procuraram aprovar uma reunião aduaneira continental. Era o Destino Manifesto em sua segunda etapa econômica – a primeira fora territorial e custara ao México a perda da metade de suas terras – visando a ampliar a expansãn econômica dos EUA, altamente industrializados, na América Latina, agrária e tradicional consumidora de produtos industriais europeus. O projeto fracassou devido sobretudo à resistência do delegado da Argentina, Roque Sáenz-Peña.

"Essa Assembléia seria o início de uma série de outras que, com o andar dos tempos, alteraria o conceito de solidariedade continental, partindo para um instrumento que é hoje a Organização dos Estados Americanos, a OEA, com poderes amplos, que incluem a intervenção nos Estados-membros, a ajuda ou cooperação técnica, a ordem continental, o incentivo ao desenvolvimento. ncerrada a Assembléia, ia experimentar-se a primeira prova de seu êxito: o caso de Cuba."

O Big-Stick ia começar a funcionar para assegurar, não a união, mas o predomínio dos EUA sobre a América Latina.

TEXTO RETIRADO DE HISTÓRIA DAS SOCIEDADES AMERICANAS

Fonte: http://www.historianet.com.br/

Assim se armou o Japão nuclear

Março de 2011 poderia marcar na história japonesa, uma ruptura comparável àde agosto de 1945, assinalando a morte de um modelo particular de organização do Estado e da economia.

Gavan McCormack

Em agosto de 1945, os cogumelos atômicos explodidos no céu de Hiroshima e Nagasaky haviam selado o fim da guerra em que os jovens oficiais do exército de Kwantung haviam envolvido o Japão nos quinze anos anteriores. Da mesma maneira, o medo de um novo apocalipse nuclear, nascido do caos engendrado pelos tremores de terraami de 11 de março, deveriam marquer uma ruptura com as escolhas feitas ano a ano pela oligarquia empresarial desde o imediato pós-guerra. O Estado nuclear é obra desta gente.

Diferente do desastre de 1945, que teve causas puramente humanas, o de 2011 teve com origem fenômenos naturais, muito agravados pelas decisões dos homens. De qualquer forma, as duas catástrofes têm em comum o fato de terem abalado o mundo.

Durante várias décadas, a “síndrome de Hiroshima”, ou, em outras palavras, o medo e a repulsa do povo japonês a tudo que tem traços nucleares, havia conduzido as autoridades nipônicas a manter a maior discrição possível sobre sua cooperação militar com os Estados Unidos, no quadro de uma estratégia de dissuasão militar. A tal ponto que os “tratados secretos” (mitsuyouku), expressão deste compromisso, e mais particularmente os acordos fechados nos anos 1960 e 1970, só foram publicados há dois anos, por ocasição de uma mudança de poder.

Também foi em regime de total opacidade, e sem jamais ser submetida à sanção das urnas, que se tomou a decisão de adotar uma política energética nacional centrada principalmente no nuclear. A catástrofe de Fukushima faz explodir as manipulações de todo tipo que foram necessárias para a instalação de tal programa: campanhas publicitárias repetidas, dissimulação, mentiras, em particular em casos de acidente, e desinformação quanto aos riscos envolvidos, e sobre a segurança .

Agora, quando nenhum caminho de saída para a crise atual parece surgir, constata-se que a democracia japonesa terá de repensar os mecanismos que permitiram a seus governantes esmacar toda a oposição e conduzir o país ao ponto de ruptura em que se encontra. Além do assombro de uma fusão nuclear, de suas consequências sobre a saúde humana e o ambiente, dos problemas causados pelos cortes de eletricidade, trata-se de uma crise da capacidade de governo e da democracia. Parece ter chegado o momento em que os cidadãos precisam encontrar uma forma de reassumir o controle, tirando-o de uma classe dirigente constituída de altos funcionários, políticos profissionais e economistas e inventando um modo responsável e sustentável de gestão dos serviços públicos. A busca de novas formas de geração de energia e de desenvolvimento socioeconômico emerge como o mote que poderá mobilizar a sociedade japonesa.

O fato de que um país mártir do nuclear tenha adotado esta energia com um fervor próximo à obsessão é um paradoxo real. Gozando de uma posição privilegiada e protegido pelos Estados Unidos, o país tornou-se, nos últimos cinquenta anos, um Estado fortemente nuclearizado e uma superpotência do plutônio. É o único país não-nuclear, em termos militares, a se envolver com o desenvolvimento de usinas de enriquecimento e retratamento de urânio e com o projeto de um super-reator. Seus governantes fizeram uma escolha: viram no mineral mais perigoso que a humanidade conhece uma solução mágica para assegurar a segurança energética do país. Enquanto a comunidade internacional concentrava atenção sobre a ameaça representada pela Coreis do Norte, o Japão fugia à vigilância internacional e perseguia seu destino nuclear.

Vale a pena conhecer a história. Só dez anos após Hiroshima e Nagasaki, na época dos “átomos para a paz” do presidente norte-americano Dwight Eisenhower, a comissão japonesa de energia atômica começou a arregaçar as mangas. O programa nuclear de longo prazo lançado em 1967 já incluia o ciclo de combustão e o projeto de super-gerador. A produção de energia nuclear nunca deixou de aumentar, desde então, alimentando uma parte cada vez mais importante da rede nacional de distribuição. Responsável por 3% da energia produzida em 1973, no momento do promeiro choque de petróleo, ela passou a 26% em 2008 e atinge hoje 29%. Em 2006, o ministério da Economia, Comério e Indústria (METI) inaugurou uma “nova política energética”, que tinha por objetivo fazer do Japão uma potência nuclear (genshiryoku rikkoku). O caminho previa o desenvolvimento do nuclear (destacadamente), da hidreletricidade e de outras formas de energia renováveis. Juntas, elas deveriam suprir 50% das necessidades energéticas do país em 2020, chegando a 70%, em 2030. O plano para necessidades energéticas de base, concebido em 2010, previa construir nove novos reatores até 2020 e catorze até 2030. Ao mesmo tempo, a utilização da capacidade dos reatores existentes deveria passar de 60% em 2008 a 85% em 2020 e 90% em 2030.

O sonho de uma energia eterna e infinita inspirou gerações de burocratas japonseses. Próximo ao reator de plutônio de Monju, o parque temático Tsuruga, dedicado ao nuclear (“Aquatom Nuclear Theme Park-Science Museum”) acolhe os visitantes com estas palavres: “O Japão é pobre em recursos naturais. É por isso que Monju, um reator de plutônio, é neceessário. Porque o plutônio pode ser utilizado durante milhares de anos”.

Bilhões e bilhões de ienes foram investidos nos programas de pesquisa e desenvolvimento, enquanto orçamentos adicionais formidáveis foram consagrados à construção de gigantescos complexos industriais. Se são confiáveis as cifras fornecidas pela muito oficial Federação das Companhias de Eletricidade, a central de Rokkasho, no norte da província de Honshu, teria custado, ao final de seus quarenta anos de vida, a soma de 19 trilhões de ienes (360 bilhões de reais) – o que a transformaria na instalação nuclear civil mais cara do Japão, e talvez do mundo.

O país domina o ciclo completo da combustão nuclear. Constroi usinas de tratamento de dejetos, queima uma mistura de plutônio (como ocorre, desde o dim de 2010, no reator 3 da central de Fukushima, Dai-ich) e estoca grandes volumes de dejetos de baixa atividade. Engaja-se no desenvolvimento da supergeração, uma tecnologia tão difícil de controlar e tão cara que todos os outros países a deixaram temporariamente de lado, considerando-a como um sonho cuja hora não chegou. Da preparação do combustível à construção e operação dos reatores; da extração de dejetos a seu retratamento e estocagem, cada etapa do ciclo representava um problema – mesmo antes que o tsunami inundasse a central de Fukushima.

Uma memória dos desastres

Até 11 de março de 2011, o Japão contava com 54 reatores em atividade. A opção por estocar dejetos muito tóxicos, de atividade futura muito longa, em piscinas localizadas ao lado dos reatores, revelou-se um erro fatal. Segundo Robert Alvarez, as piscinas de descontaminação emitem uma radiotividade de cinco a dez vezes maior que a do núcleo do reator. “Cada uma delas”, afirma ele, contém uma concentração de césio 137 superior à liberada pelo conjunto dos testes nucleares realizados no hemisfério Norte”. E continua: “As emissões de césio 137 que poderiam se seguir a um incêndio tornariam inabitável uma região mais vasta que a de Tchernobyl”. Deslocamento ocorrido sob o impacto do terremoto ou vazamentos causados pelo desabamento da estrutura? O que quer que seja, os bastões de combustíveis de diversas usinas foram parcialmente expostos e houve incêndios, cujas consequências ainda é preciso avaliar. O trabalho de resfriamento só foi feito após imensos esforços, e com resultados limitados, utilizando a água do mar despejada em meio ao incêndio, a partir de helicópteros e mais tarde, finalmente, após o religamento, in extremis, das bombas.

Assim que a crise for superada, as usinas precisarão ser descontaminadas e desmanteladas. É um trabalho que se anuncia, desde já, difícil e caro. O processo poderá se estender por vários anos, ao menos uma década. Ao mesmo tempo, será preciso encontrar uma forma de compensar a perda em geração elétrica. As centrais serão recobertas por um sarcófago de cimento, como em Chernobyl? Em qualquer caso, parece claro que elas se converterão num memorial dos erros devastadores cometidos pelo Japão nuclear do pós-guerra.

Antes de Fukushima, outres complexos, entre os mais conhecidos, já haviam suscitado inquietudes. Em julho de 2007, a central nuclear de Kashiwazaki (em Niigata), a maior do mundo, cujos reatores geram 8 mil megawatts (Mw), havia resistido a um terremoto de magnitude 6,8, embora não tivesse sido concebida para enfrentar um abalo de tal força. O incidente revelou que as estruturas foram edificadas sobre uma falha nunca antes detectadas. O pior foi evitado, mas maus funcionamentos foram constatados: conduítes aparentes, incêndios e despejo de partículas radioativas no mar e na atmosfera. A usina Hamaoka, de Shizuoka,190 quilômetros a sudoeste de Tókio, tem cinco reatores. Também foi construída em zona sísmica (a junção das placas eurasiana, pacífico-filipina e norte-americana), que, segundo os sismólogos, poderia tremer num futuro próximo. A todas estas inquietações, o operador da usina responde que a usina pode resistir a um terremoto de 8,5 – a maior magnitude já resgistrada na região. O tremor de intensidade 9 que abalou Fukushima tornou, em poucos minutos, as instalações caducas. Se um evento semelhante se produziesse em Hamaoka, seria preciso evacuar 30 milhões de pessoas.

Nos dias de hoje, outro projeto desperta controvérsias. Dois reatores deveriam ter sido instalados em Kaminoseki, uma pequena comuna de 3.700 habitantes, situada ao sul do Parque Natural do Mar Interior, a 80 quilômetros de Hiroshima. O começo da operação está previsto para 2018, para um, e 2022, para o segundo. Depois de trinta anos de debates e adiamentos, devidos à forte oposição da população local – especialmente a pequena comunidade de pescadores da ilha de Iwaishima, situada a quatro quilômentros da futura central – a aplainagem do terreno e o aterramento de áreas marítimas começaram em 2010. Desde então, incidentes envolvendo barcos de pesca ou dos moradores, canoas e caiaques multiplicaram-se. À luz dos eventos recentes, parece dícil imaginar que o governo seja capaz de intervir para calar os que protestam. Ao contrário: o prefeito da região manifestou-se há pouco, para pedir a paralisação dos trabalhos.

Agência Internacional de Energia pede moratória — e é ignorada

Os reatores nucleares geram grandes quantidades de dejetos que devem ser estocados e reprocessados. Desde 1992, os dejetos de alto teor de reatividade são reprocessados em usinas como a de Sellafield, na Inglaterra, e La Hague, na Normandia. Cada carregamento encaminhado a estes destinos contém uma concentração de plutôpnio equivalente a dezessete bombas atômicas. Mohammad El-Baradei, antigo diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), considerava o reprocessamento um processo muito perigoso, que deveria ser efetuado sob rígidas regras internacionais. Ele pediu ao Japão uma moratória de cinco anos no enriquecimento e reprocessamento. Uma recomendação que o Japão ignorou, alegando que a medida deveria se aplicar a novos projetos, e não às centrais que já operavam há décadas

A central de Rokkasho, a norte de Fukushima, no departamento de Aoumori, reúne no mesmo espaço produção de energia, reprocessamento, enriquecimento e estocagem de dejetos. Isso faz dela a maior central nuclear civil do mundo. Sua unidade de reprocessamento pode converter 800 toneladas de dejetos por ano. A isso, acrescentam-se, todos os anos, oito toneladas de plutônio puro, utilizável para fins militares (o equivalente a mil ogivas de mísseis nucleares). Após diversos contratempos, o reprocessamento começou em 2006, em caráter experimental, sem atingir, até o momento, o regime de pleno funcionamento comercial. Uma outra unidade de reprocessamento, a de Tokaimura, está paralisada desde 1999, após um acidente ocorrido no supergerador, que causou a irradiação de centenas de pessoas e matou dois operários. Desde então, os dejetos se acumulam. A maior parte é estocada, como em Fukushima, ao lado do reator de que é extraída.

No caso de Rokkasho, mesmo que o reprocessamento serja retomado em breve, ele só poderá beneficiar uma ínfima parte dos resíduos que se acumulam por anos. O estoque foi estimado em 12,6 mil toneladas, em 2006. A questão dos dejetos japoneses, incluído o plutônio (um quinto dos estoques mundiais de uso civil), continuará a exigir providências.

Os dejetos de baixa atividade são conservados em recipientes de 200 litros. Em alguns casos, estão armazenados no mesmo local dos reatores; em outros, são encaminhados ao depósito subterrâneo de Rokkasho, projetado para receber três milhões de recipientes. As quarenta cavidades, com capacidade de 10 mil recipientes cada uma, serão mais tarde recobertas de terra e vigiadas por 300 anos. As montanhas artificiais formadas serão como imensos cogumelos venenosos, num reduto tranquilo da região de Aomori.

Os dejetos de alta atividade são vitrificados e depositados em recipientes antes de retornarem a Rokkasho, onde são estocados por 30 a 50 anos, até que sua temperatura baixe lentamente, de 500 a 200 graus. Apenas ao atingir esta condição, poderão ser sepultados – a mais de 300 metros de profundidade. Suas radiações só se dissiparão após alguns milênios.

O combustível misto de óxido de urânio e plutônio (MOX), utilizado no rator 3 da central de Fukushima, constitui uma maneira de reutilizar o plutônio sem convertê-lo em dejeto – integrando-o ativamente, ao contrário, num ciclo energético eterno. Os supergeradores oferecem também uma solução ao problema do acúmulo de plutônio. Permitem “gerar” um plutônio puro de altíssima qualidade. Ou seja, o processo produzir uma quantidade deste mineral maior que a inicial. Os riscos e custos ligados a esta tecnologia são tão relevantes que o Japão é hoje o único país a seguir em tal caminho tecnológicos, apesar dos pobres resultados alcançados. O protótipo de supergerador de Monju, implantado em Tsuruga, no departamento de Fukui (costa ocidental) precisou ser fechado em 1995, em sequência a uma tentativa de camuflar incêndio por negligência, ocorrido após fugas de sódio. Em 2003, o julgamento, pela Corte Suprema, de um processo originado na sequência autorizou a reabertura das instalações, mas dificuldades técnicas impediram a retomada da operação. Segundo as previsões atuais, o supergerador poder operar em 2050 – ou seja, com 70 anos de atraso, em relação à meta oficial. Elas sugeriam que Monju fosse substituído por uma nova central, por volta de 2030. Tudo isso, com um custo de um trilhão de ienes (R$ 19 bilhões).

Erros humanos e práticas fraudulentas

O Japão é hoje vítima de erros de avaliação desastrosos e práticas fraudulentas, que se entrelaçam ao longo de meio século. Incluem falsificação de documentos, fabricação de relatórios, mistificação dos inspetores de segurança nuclear, minimização dos riscos e falta total de transparência na apuração de incidentes e paralisações. Nenhuma abuso foi evitado, no esforço para alcançar a meta estabelecida. Ao perceber seu país, um dos mais avançados científica e tecnologicamente, reduzido à tentativa de interromper um processo de fusão nuclear por meio de métodos tão grosserios como o uso de mangueiras d’água, a sociedade japonesa (e o resto do mundo) se questiona. Que nação – entre elas os Estados Unidos, que se lançam a um “renascimento nuclear” – seria capaz de reagir melhor, em tais circunstâncias?

Apesar da catástrofe que continua a ameaçar, abandonar a energia nuclear não seria tarefa para amanhã. A classe dirigente continuará a perseguir seus sonhos de liderança mundial. Continuará, portanto, a vislumbrar no nuclear uma energia limpa e ilimitada, capaz de rsolver o problema do aquecimento climático. Desejará manter uma força nuclear de dissuasão (braço armado dos Estados Unidos no Pacífico). Para boa parte da população, os objetivos são outros. Cada vez mais vozes se erguem em favor de um processo realmente democrático de decisão envolvendo as fontes de energia. Sugerem o fim do programa nuclear militar e o planejamento de uma alternativa ao nuclear civil. As aspirações incluem o desenvolvimento de energias renováveis, o fim das emissões de gases do efeito-estuva, a reciclagem dos materiais existentes.

Na queda de braços que opõe uma burocracia firmemente aferrada a um Japão nuclear e uma sociedade civil impaciente pela emergência de um novo padrão social, econômico e ecológico, haverá um antes e um depois do 11 de Março.

Tradução: Antonio Martins

Gavan McCormack é professor emérito na Universidade da Austrália

Fonte: http://www.outraspalavras.net/2

Jirau e Santo Antônio são exemplos do padrão de acumulação do capitalismo primitivo

A notícia explodiu nas páginas secundárias dos jornais como raio em céu azul. O canteiro de obras da Usina de Jirau, uma das jóias do Plano de Aceleração do Crescimento, foi inteiramente destruído pela revolta coletiva dos trabalhadores enfurecidos.

Leo Lince

Logo em seguida, fato semelhante afetou a Usina de Santo Antônio, quilômetros rio abaixo, na mesma região. Na semana seguinte, longe dali, fatos semelhantes pipocaram: quebra-quebra na usina de São Domingos, Mato Grosso do Sul; greve nas obras da refinaria em Pernambuco; tumulto em alojamentos da construção civil em São Paulo…

Essa eclosão súbita de manifestações em cascata revela a existência de problemas que, pela sua magnitude, não poderão ficar sem resposta. Em Jirau, uma verdadeira cidade de 20 mil habitantes, um gueto no meio da mata, deixou de existir da noite para o dia. Obras paralisadas. Alojamentos queimados. Escritórios, almoxarifados, centro ecumênico, refeitório, dezenas de veículos, máquinas e equipamentos, tudo destruído. Não foi terremoto ou tsunami. A causa do abalo se origina em outra natureza, a pororoca social, também capaz de provocar tragédias.

Enviados especiais dos grandes jornais chegaram ao local no rescaldo da barbárie. Sem atinar para as tensões que produziram a explosão, tiveram que cumprir a sentença irônica de Oswald de Andrade: quem chega atrasado aos acontecimentos "escreve sobre o que ouve e não sobre o que houve". Salvam-se, na cobertura dos jornais, as fotografias. Nelas se registra, ao fixar os rastros da destruição, a brutalidade do acontecido. São documentos terríveis sobre os tempos bicudos que estamos vivendo.

As explicações sobre as causas do abalo são as mais estapafúrdias e desencontradas. Os empreiteiros falam em briga entre operário e motorista, provocadores mascarados, disputa entre correntes sindicais e até traficantes de drogas, pois "a BR 364 é rota do tráfico". Pode até explicar alguma faísca, mais não o material inflamável que provocou a explosão. As condições de trabalho, dizem os porta-vozes do patronato, são as melhores do mundo e, ademais, o empreendimento é fiscalizado por auditoria internacional independente. Depois do que aconteceu, fica difícil acreditar em semelhante ficção.

A reação do governo federal, contratador de tais obras, foi de um ridículo soberbo. A mãe do PAC está, com razão, muito preocupada com a imagem pública do filho. Mas, ao invés de despachar representantes qualificados para analisar as raízes da violência no local do desastre, convoca reunião em palácio. Representantes do governo, das empreiteiras e pelegos das maiores centrais sindicais tomaram uma única decisão concreta: criar uma comissão tripartite, formada por eles mesmos, para estudar o que já estão cansados de saber.

Obras gigantescas, contratadas pelo governo, tocadas por consórcios formados pelas maiores empreiteiras do país, financiadas pelos bilhões de dinheiro público fornecidos pelo BNDES, são os ingredientes do caldeirão da tragédia. O governo quer acelerar o crescimento sem maiores indagações sobre seus impactos de qualquer tipo, ambientais, sociais e humanos. As empreiteiras gigantescas, grandes financiadoras de campanhas presidenciais, trabalham com carta branca. Para elas, a força do trabalho é só um insumo a ser consumido e consumado na busca do lucro máximo. E os pelegos estão ali para cumprir a destinação histórica que lhes forneceu a denominação infamante.

Quem quiser conhecer as causas da tragédia em curso, o DNA da ferocidade do capitalismo nas obras de fronteira, basta recuar um século na exata geografia dos acontecimentos de agora. Jirau e Santo Antonio são também nomes de estações da célebre Madeira-Mamoré, conhecida como a "ferrovia do diabo". Outra grande obra contratada pelo governo e tocada por empreiteiros privados que deixou um rastro de tragédia. Também lá havia canteiro com vinte mil operários trazidos de muitos lugares. Também lá houve greves e revolta, sofrimento, malária, fome, falta de pagamento, promessas não cumpridas. O mesmo de agora, com o agravante de milhares de mortos. Reza a lenda que sob cada um dos seus dormentes repousa um cadáver.

O capitalismo, esse que o Lula salvou e a Dilma gerencia com o aplauso do coral dos contentes, requer, para que os donos do poder econômico possam auferir lucros obscenos, canteiros de obras como os de Jirau e Santo Antônio. Reproduz condições de trabalho de um século atrás e adota padrões de acumulação próprios do capitalismo primitivo. Condições degradantes de trabalho e a exploração brutal do trabalhador são feições do capitalismo facinoroso que nos governa.

Léo Lince é sociólogo.

Fonte: http://www.correiocidadania.com.br/

Terrorismo nos EUA e na sala de aula

Com os ataques terroristas nos Estados Unidos e os desdobramentos estampados diariamente na imprensa mundial, muitas escolas procuraram abordar o tema em sala de aula. Alguns professores, mais inseguros ou cautelosos, aguardam um momento mais adequado para trabalhar o assunto.

Ebenezer de Menezes

Conversamos com Demétrio Magnoli, doutor em Geografia Humana pela USP (Universidade de São Paulo), e pedimos uma orientação.

Graduado em Ciências Sociais e Jornalismo na USP, Magnoli considera fundamental dissolver noções de bem e mal quando o tema for desenvolvido. Nesta entrevista, o diretor editorial do jornal Mundo – Geografia e Política Internacional ressalta o importante papel da escola na leitura dos acontecimentos apresentados pela mídia.

Os ataques terroristas nos Estados Unidos estão sendo tema de aula, tanto no ensino infantil quanto no ensino médio. Tem alguma preocupação ou orientação aos professores para tratarem do assunto?

Demétrio Magnoli – Acho que a orientação principal é procurar criticar a visão simplista e preconceituosa de que o islã é igual ao terrorismo ou de que exista um conflito entre o ocidente e o islã.

Que tipo de abordagem o professor poderia fazer para dar uma aula sobre o Oriente Médio e o terrorismo nos EUA?

Demétrio Magnoli – Todas as questões relevantes de Oriente Médio estão relacionadas ao processo político que se abriu com os atentados terroristas nos EUA. Por exemplo, os atentados têm uma repercussão direta no conflito da Palestina. Segundo exemplo, os atentados nos EUA repercutem diretamente no futuro de uma parte do Oriente Médio, cujo centro é o Afeganistão, e que envolve uma região que já não é o Oriente Médio, que é a Ásia Central, ex-Soviética, de um lado, ao norte, o Irã, a oeste, e o Paquistão, que também já não é o Oriente Médio, a leste.

Em terceiro lugar, os atentados nos EUA envolvem o problema da estabilidade das monarquias petrolíferas no Golfo Pérsico, em particular a Arábia Saudita, que formam uma estrutura geopolítica estratégica para o ocidente, principalmente para os países industrializados. Então, esses três eixos são os principais de relacionamento dos atentados com o Oriente Médio. Em resumo: a questão palestina, a questão do Afeganistão e seus arredores e a questão da estabilidade das monarquias petrolíferas do Golfo Pérsico.

Considera pertinente pensar numa estratégia para evitar um maniqueísmo de que a vítima está do lado do bem? Ou seja, o bem seria os EUA. Porque isso pode acontecer na sala de aula…

Demétrio Magnoli – É fundamental evitar esse maniqueísmo. E é fundamental, principalmente, dissolver as noções de bem e mal que não são noções históricas nem de política internacional.

Teria alguma estratégia para o professor utilizar em sala de aula, a fim de evitar esse equívoco?

Demétrio Magnoli – Não existe uma estratégia. Existe um bom curso. Um bom curso terá mostrado, por exemplo, que o significado de jihad não é necessariamente guerra. A jihad é um esforço de conversão religiosa. Às vezes, é uma luta interior, do indivíduo, para se tornar uma pessoa melhor. Um bom curso sobre o islã terá mostrado que o islamismo não é uma religião de fanáticos, embora existam fanáticos islâmicos como existiram, ao longo da história, fanáticos cristãos em quantidade. Então, um bom curso de história já terá começado esse processo.

Um bom curso de geografia vai mostrar, por sua vez, como os conflitos no interior do islã, atualmente, envolvem diferentes concepções políticas de organização do Estado. A idéia da república islâmica, do Estado ou da monarquia islâmica é uma vertente política no mundo islâmico, mas apenas isso. Há vastas correntes políticas que são contra estados islâmicos. Então, um bom curso de geografia vai mostrar a diversidade no interior do islã, tanto do ponto de vista religioso como do ponto de vista político.

Teria alguma crítica sobre a cobertura feita pela imprensa nas últimas semanas a respeitos dos ataques?

Demétrio Magnoli – É péssima a cobertura da imprensa. A CNN se revelou uma emissora estatal americana, tocando o hino nacional e tambores de guerra. A imprensa brasileira tem uma extrema dificuldade para fugir do chavão e, principalmente, do chavão do ocidente contra o islã, que é simplificador, fácil e que revela às vezes má fé, mas muitas vezes revela ignorância dos jornalistas. Então, a cobertura, com raras exceções, que existem também, não busca subsídios históricos, não busca uma análise da diversidade geopolítica e se move, em grande parte, em torno de chavões destituídos de conteúdo. Por isso é importante para as escolas interpretarem a cobertura da imprensa e fazerem a crítica dessa cobertura.

O professor, geralmente, utiliza o jornal e a revista dentro da sala de aula como instrumento pedagógico…

Demétrio Magnoli – Antes, só um comentário geral. Isso às vezes é bom e às vezes é ruim. Em geral, eu sou a favor disso. É preciso relacionar os cursos com os fatos de atualidade etc. Mas utilizar uma revista de baixíssimo nível, como a Veja, como material pedagógico é péssimo, porque é um lixo. Então, não é uma boa idéia.

Mas mesmo o lixo não deveria ser utilizado como instrumento pedagógico…

Demétrio Magnoli – Apenas no caso de outros instrumentos de qualidade muito melhor já terem sido utilizados, criando uma base para a crítica do lixo. Não adianta falar que vai utilizar o lixo para criticar se o que é bom e melhor não foi utilizado. Proponho se utilizar materiais paradidáticos, livros paradidáticos, matérias selecionadas da imprensa, de nível melhor, onde o professor faz a seleção, um jornal como o que eu faço, Mundo – Geografia e Política Internacional, e, só depois dos alunos terem condições intelectuais para fazerem a crítica, é que se pode utilizar a bobagem. Se é que vai sobrar tempo. Mas só como alvo de crítica.

É um bom exercício para uma classe bem formada: pegar uma matéria para revelar onde estão os preconceitos e chavões. Mas não é o ponto de partida. Porque, no ponto de partida, os alunos não têm meios para fazer essa crítica. O ponto de partida é dar aulas decentes de história e geografia. Tendo formado essa base de conceitos, o professor pode e deve fazer a crítica de como o preconceito e a ignorância aparece na imprensa. Aliás, os exemplos se multiplicaram quase ao infinito.

Fonte: http://www.midiamix.com.br/

No mundo dos primeiros seres humanos

Um novo maciço rochoso gera um clima diferente e uma paisagem em que um ser totalmente inédito encontra seu caminho para a existência. Um bípede com um cérebro grande. Deve ter sido assim na África Oriental, entre 10 e 2,5 milhões de anos atrás.

Lars Abromeit, Jörn Auf dem Kampe 

Musgos e estranhas plantas-gigantes nos Montes Ruwenzori. A espetacular cordilheira faz parte de uma falha geológica que atrai a chuva. Para a savana, a leste, não resta pouca precipitação. Foi lá que o homem deu seus primeiros passos

Ele bate pedras. Para ele, não poderia existir nada melhor. Daniel Köhn ansiou por isso. Durante dias a fio ele marchou com sua equipe expedicionária por matagais pantanosos, regiões montanhosas encantadas, cheias de florestas de flores gigantescas.

Escalada nos Montes Ruwenzori: a expedição acompanhada pela equipe de GEO venceu a ascensão até a área de pesquisa, a 2.000m de altitude, em apenas 3 dias. Dores de cabeça constantes devido ao ar rarefeito, frio e insônia não desanimaram os pesquisadores

Eles passaram por arbustos de urze da altura de árvores. Alguns tinham se entrelaçado formando abóbadas e em seus rebentos proliferavam bolas de musgos recobertas de samambaias e orquídeas.

Vapores de neblina passavam pelo telhado de urze. Tudo estava estranhamente silencioso, como se a floresta de flores pertencesse a uma era em que as plantas dominavam a Terra, sem que jamais o canto de uma ave interrompesse a quietude.

Lobélias e Dendrosenecios (um gênero botânico pertencente à família Asteraceae), que Köhn conhecia lá da Alemanha, aqui atingiam até 7m de altura. Em meio aos gigantes, Köhn havia se sentido como um boneco de brinquedo em um canteiro de jardim úmido e malcuidado.

Por toda parte a lama escorregadia praticamente impossibilitava um apoio seguro: eles foram obrigados a se equilibrar por cima das raízes acima de precipícios aparentemente infindáveis e escalar as encostas se agarrando em folhagens mofentas. Quando tentavam se puxar para cima pelos caules possantes dos Dendrosenecios gigantes, estes se quebravam para o lado e verdadeiras quedas d’água despencavam sobre eles das enormes flores em forma de rosetas.

Köhn perdeu o equilíbrio, ficou preso na lama e na folhagem, afundou até os quadris em buracos de lama e rastejou por desfiladeiros sem trilhas através de bosques de arbustos de ervas-de-são-joão de 10m de altura.

E criou calos e feridas nos pés, que resultam de momentos como este. Para dar um golpe no afloramento rochoso.

VALE DE CHIONDO, Cordilheira de Ruwenzori, Uganda. Daniel Köhn, 40 anos, observa a faixa rochosa de cerca de 5m de largura que cruza a colina: ela corre em ondas do pico da montanha para baixo, perde-se em meio a arbustos de begônias, e prossegue em sua queda por paredões molhados e reluzentes até o vale. Um afloramento de rochas cobertas de musgos, a 4.300m de altitude, perto dos picos nevados, em meio ao coração tropical da África.

Todo esse cansaço, essa exaustão para isso? As constantes dores de cabeça no ar rarefeito da altitude. O enjoo. O frio gélido que impossibilita o sono noite após noite?

A faixa rochosa é uma perturbação, um ponto de fratura na crosta terrestre, onde um passado imemorial de camadas de rochas de colossais forças tectônicas primordiais foram empurradas umas contra as outras. Há meses os pensamentos de Köhn giram em torno dessas falhas geológicas: para ele, elas são testemunhas únicas e ímpares de eras terrestres passadas há milênios.

A África está se rompendo

O maciço de Ruwenzori se localiza na fronteira entre Uganda e o Congo. Ele faz parte do Grande Vale do Rift, de 6.000km de extensão, que se estende em dois ramos pela África Oriental: ao longo de fraturas na crosta terrestre, a Placa Continental Somaliana está se separando da Africana

Elas revelam como o maciço de Ruwenzori, uma das últimas áreas em grande parte inexploradas da Terra, surgiu. É desse conhecimento embutido em pedra que Köhn espera poder extrair indícios para responder a uma das maiores perguntas da Era Moderna: como a África se modificou há milhares de anos para permitir que aqui surgisse a criatura mais estranha da História da Terra?

O ser humano.

A África há 10 milhões de anos

A contagem regressiva para o surgimento do homem começa imperceptivelmente. Uma densa floresta tropical cobre vastas partes do continente; as áreas desérticas são pequenas. Mas entre 140 e 200km abaixo da superfície terrestre age uma nova força que criará espaços vitais mais favoráveis à gênese do homem: a chamada "African superplume" ("superpluma africana"). É assim que os geólogos chamam as gigantescas torrentes rochosas superaquecidas que sobem em colunas das profundezas da Terra e pressionam, de baixo para cima, contra a crosta africana oriental. Esta se curva até a terra se fender de norte a sul: o Grande Vale do Rift forma-se lentamente e, com ele, aquela cordilheira que mais tarde contribuirá para a mudança climática no leste da África. Magma em estado líquido é ejetado pelas chaminés de vulcões rumo ao céu tropical, dando origem aos montes Kilimanjaro e Quênia. A pressão da pluma, de 1.500°C, perdura até hoje.

DE ONDE VIEMOS? O que possibilitou aos nossos ancestrais primordiais a separação dos parentes macacos? E qual era o aspecto do mundo em que teve início a transição do macaco para o Homo sapiens? Sabe-se muito pouco a respeito. O certo é que há pelo menos 7 milhões de anos, muito antes do que se presumiu até recentemente, os primatas da África ousaram dar os primeiros passos decisivos no caminho para a humanização: eles começaram a andar eretos.

Mais uma vez, a evolução havia se aventurado em um experimento. Entre 2 e 3 milhões de anos, alguns desses seres bípedes deram origem aos primeiros representantes do gênero Homo: seres antropoides primordiais que aprenderam a fabricar ferramentas, viver em complexas estruturas sociais e, por fim, até a dominar o fogo.

A maioria dos antropólogos conclui que essa evolução pode acontecer em razão de mudanças climáticas: a África se tornou mais árida e mais fria. As florestas deram lugar às savanas, todo um novo espaço vital para seres que andavam eretos e fabricavam ferramentas.

Parece que somos filhos de uma mudança climática. Mas como foi que esta começou? As forças propulsoras da humanização estariam ocultas em pedras e nas profundezas da África?

Há mais de 20 milhões de anos ocorreu um drama geológico de dimensões arrebatadoras no leste do continente: a África se rompeu, cada dia um pouco mais. Impulsionadas pelos fluxos de rochas incandescentes que ejetam do manto terrestre, as placas continentais Arábica, Africana e Somaliana começam a se afastar umas das outras, dando origem à chamada "deriva continental". E no meio delas, da Síria passando pelo Mar Vermelho até Moçambique a crosta terrestre se rasga em direção norte-sul.

Desse modo surgiu uma gigantesca falha geológica, de 6.000km de extensão e dividida em dois ramos, o Grande Vale do Rift (Great Rift Valley; rift em inglês significa falha, fratura). No meio dessa enorme fratura africana, o solo terrestre afundou centenas de metros abaixo do nível do mar. Suas bordas, por outro lado, foram erguidas e se transformaram em cadeias de montanhas, como a cordilheira dos Montes Ruwenzori; paralelamente, elevados vulcões como o Kilimanjaro, o Monte Quênia e as crateras dos vulcões Virunga soergueram-se da crosta terrestre.

Quando e como, exatamente, essas montanhas, verdadeiras barreiras de chuvas, poderiam ter modificado o clima, os ventos prevalecentes, a formação de nuvens, os cursos de rios, a vegetação? Como teriam marcado aquelas comunidades de plantas e animais entre as quais os ancestrais do homem tiveram de se impor?

Daniel Köhn, geólogo da Universidade Johannes-Gutenberg, em Mainz, na Alemanha, pertence a um grupo de cientistas que querem esclarecer essas questões. Em um oneroso projeto chamado RIFTLINK eles procuram criar um modelo para as complexas circunstâncias entre a formação do Rift, a mudança climática e o desenvolvimento dos predecessores do homem. "É como se fossemos rodar um filme monumental sobre a História da Terra", declara Köhn. Uma obra épica que, de preferência, entrelace o maior número possível de detalhes conhecidos, para ilustrar visualmente as mudanças que ocorreram na África durante milhões de anos.

O projeto envolve cientistas de mais de uma dezena de disciplinas específicas e de 32 universidades da Europa, da África e dos Estados Unidos: geoquímicos e meteorologistas, por exemplo, pesquisadores de conchas e moluscos, peritos em datação de rochas, antropólogos e sismólogos.

Desde 2003, eles coletam dados, principalmente nos Montes Ruwenzori, que despontam no ramo ocidental do sistema da grande falha geológica africana, no triângulo terrestre entre Uganda, Ruanda e a República Democrática do Congo.

"A Cordilheira do Ruwenzori é o laboratório perfeito", opina Köhn. Emoldurada lateralmente por desfiladeiros, ela separa até hoje as florestas tropicais baixas da Bacia do Congo dos territórios de savanas na África Oriental equatorial. Suas cadeias de montanhas, de até 5.109m de altura e encimadas por geleiras, estão entre os picos mais imponentes do continente.

É no exemplo dessa cordilheira que os geocientistas querem construir uma base confiável de dados, na qual os pesquisadores climáticos e paleoecologistas do Projeto RIFTLINK possam se fundamentar para elaborar modelos e hipóteses. Com a ajuda dos Montes Ruwenzori eles querem compreender os princípios que fizeram com que os flancos do Rift se erguessem quando a grande fenda se abriu.

É um enigma que somente pessoas que amam pedras poderiam resolver.

Pessoas como Köhn.

A África há 7 milhões de anos

Um novo mundo ganha contornos: a pluma subterrânea com sua colossal energia (à esquerda, indicada pelo brilho vermelho) mantém a paisagem em movimento. Aos poucos, a cordilheira do Ruwenzori (à direita) se ergue da terra às margens do Lago Obweruka, que desaparecerá mais tarde. As montanhas já atingiram uma altura de 800m, mas como barreira elas ainda não impedem tão intensamente a formação de nuvens e a consequente precipitação como nos milênios seguintes. Uma tendência climática global, entretanto, não deixa de influenciar também a África: nessa época as temperaturas caem em todo o mundo e o clima se torna mais seco. As áreas primitivas de florestas tropicais no continente africano minguam e surgem as savanas arborizadas. Este aspecto só é aparentemente secundário, pois é precisamente aqui que as diversas espécies de hominíneos* dão seus primeiros passos sobre duas pernas, independentes uns dos outros, rumo ao homem.

* O termo ‘hominíneo’ é um conceito recém-introduzido e utilizado pelos cientistas citados nesta reportagem para designar a ‘família humana’. A ela pertencem todos os seres humanos e seus ancestrais, desde a separação dos antropoides. A característica comum mais importante é o andar ereto. Além disso, e principalmente em publicações mais antigas, o mesmo grupo é comumente designado pela palavra ‘hominídeos’.

O MATAGAL É SUFOCANTE; o ar, rarefeito. Véus de névoa úmida, montanhas de nuvens carregadas. Chove mais de 300 dias por ano. E à noite chega a gear no Equador.

Desde sempre, o maciço de Ruwenzori pertence àqueles lugares ímpares que sabem esconder seus segredos. Até meados do século XIX nem ao menos estava provado que o maciço de fato existia.

Embora na Grécia Antiga os sábios já presumissem que o delta do Nilo era alimentado por uma gigantesca cordilheira nevada ao sul, os chamados "Montes da Lua" foram relegados à condição de lenda. Dezenas de pesquisadores viajantes passaram ao largo dos picos eternamente encobertos sem nem ao menos desconfiar de sua existência; até que, em 1888, o britânico Henry Morton Stanley teve a sorte de avistá-los, em um dia claro, sem nuvens, pela primeira vez como primeiro europeu. De acordo com suas descrições, vários pesquisadores conseguiram chegar aos cumes cobertos por geleiras; finalmente, em 1906, Luigi Amedeo di Savoia-Aosta, duque dos Abruzzos, mapeou 16 picos.

O próprio Savoia-Aosta já reconhecera que os "Montes da Lua" não eram formados por rochas vulcânicas. Mas é impossível calcular além de qualquer dúvida, inclusive com simulações computadorizadas, como eles puderam se erguer tão alto assim. Köhn e seus colegas já tentaram fazê- lo dezenas de vezes: eles traduziram os "Montes da Lua" em colunas numéricas, dividiram as forças da tectônica de placas em megabytes, e deixaram que os dados agissem em seus respectivos monitores.

Tudo isso foi insuficiente. "De acordo com os nossos modelos, essa cordilheira poderia ter, no máximo, 3.000m de altura; mas não 5.000m!", explica Köhn. Mas para o clima dos primórdios dos tempos é justamente essa diferença de altitude que poderia ter sido decisiva. E por isso Köhn agora procura descobrir, com base em amostras de rochas, que outros ingredientes faltam em seus programas e para os quais ele ainda não aplicou a base de dados correta.

Para tanto, ele está em expedição pela terceira vez na Cordilheira Ruwenzori; dessa vez, acompanhado de uma bacharel com mestrado e da geodesista norte-americana Sarah Stamps, de 28 anos.

O trio de pesquisadores transporta quase meia tonelada de equipamentos: instrumentos para detectar as mais ínfimas perturbações eletromagnéticas nas rochas e parabólicas para medições de GPS de altíssima resolução; baterias de carros e painéis solares desdobráveis; computadores e mantimentos para passar 12 dias no alto da cordilheira.

A África há 2,5 milhões de anos

Nas campinas verdejantes às margens do Lago Eduardo um novo ser pisa no palco da vida para logo desempenhar um papel de destaque: o Homo rudolfensis, o primeiro representante de nossa espécie. O ser humano nº 1 andava ereto e, pela primeira vez na história natural, empregava suas mãos para fabricar ferramentas de pedra, de modo planejado e com meta definida. Com lascas obtidas de pedras, nossos ancestrais desmembravam, por exemplo, zebras pré-históricas abatidas por tigres-dentes-de-sabre. Talvez esses homens primitivos até tenham caçado ocasionalmente. Eles ousavam entrar na água para colher moluscos e conchas. O mundo em que viviam era um "mosaico de paisagens", constituído por áreas descampadas, florestas e pântanos, e era habitado por animais de grande porte, como o dinotério, parecido com os elefantes, o Sivatherium (literalmente a besta de Shiva), um gênero de girafa hoje extinto e búfalos de 1.000kg. E nos lagos também chafurdavam enormes hipopótamos.

Para transportar todos esses objetos pelas florestas de flores, os geólogos contrataram, em uma aldeia ao pé das montanhas, carregadores que equilibram a carga com habilidade notável por pântanos e íngremes vertentes montanhosas.

A equipe armou seu acampamento às margens da parte baixa do Lago Kitandara, a 4.000m de altitude, na fronteira com a República Democrática do Congo. O campo está cercado por colossais montanhas cobertas de geleiras e plantas gigantescas que aqui, nas proximidades da linha do Equador, florescem até mesmo em altitudes nas quais nos Alpes, por exemplo, só existem neve e muitas pedras.

Mas os geólogos descartam as flores singulares e únicas zombeteiramente como "aglomerados de carbono da atualidade". Para eles o que conta é o passado distante, por exemplo, a pergunta se a enigmática altura dos Montes Ruwenzori poderia ser explicada por meio da rotação

Um riacho a 3.500m de altitude, símbolo da riqueza de água na África Oriental. Nos primórdios dos tempos, os períodos de chuvas fortes faziam os lagos incharem acentuadamente nas depressões. Com isso partes populacionais de algumas espécies eram separadas e passavam a se desenvolver isoladamente: um motor da evolução

"O bloco do maciço de Ruwenzori poderia ter-se desprendido das profundezas e ascendido lentamente como um palco de teatro giratório", argumenta Köhn. Essa teoria seria reforçada pelo fato de que as "perturbações" mais importantes, portanto os pontos de fratura na crosta terrestre na cordilheira, não correm em linhas paralelas umas às outras, mas se apresentam em formas circulares.

Mas de onde teriam vindo as forças descomunais, capazes de provocar um movimento giratório tão tremendamente potente?

DOIS DIAS DEPOIS, na vertente do Monte Baker, o terceiro maciço mais elevado da cordilheira de Ruwenzori. Com protetores de orelhas, um colete de penas de ganso e um laptop, Sarah Stamps, a colega de Köhn, observa o impulso de movimento do planeta. No ano anterior ela havia instalado uma estação solar de GPS a 4.441m de altitude, para medir com precisão milimétrica o deslocamento das placas continentais. Agora ela repassa os dados para seu computador. Nesse ínterim, formou-se uma densa camada de neblina. Os ombros de Stamps tremem de frio, mas ela continua olhando fixa e ansiosamente para o monitor. "Para mim, este é o dia mais importante do ano", declara

Este foi um bom dia! Os dados estão praticamente completos; a estação funcionou quase o ano inteiro apesar das camadas de nuvem.

O camaleão-de-três-chifres-de- -Uganda (Chamaeleo jacksonii) vive nas florestas tropicais da África Central e Oriental

Como complemento das amostras de rochas, os dados do GPS são indispensáveis, pois eles revelam as gigantescas forças terrestres que agem até hoje e que definiram a Cordilheira de Ruwenzori. A partir de seus dados, Stamps consegue concluir que neste exato ponto, a África continua a se afastar cerca de 3mm por ano. A direção em que se move a crosta terrestre combina com a Teoria de Rotação de Köhn e sugere que os fluxos de rochas incandescentes que se ejetam das profundezas do manto terrestre, a chamada "African superplume" ("superpluma africana"), influenciaram os processos de soerguimento.

Entretanto, os dados dos cientistas confirmam principalmente que essa atividade de levantamento só alterou a topografia do continente drasticamente entre 5 e 3 milhões de anos, portanto, pouco antes daquela fase em que os bípedes parecidos com macacos se transformaram em homens primitivos.

Os geólogos estão felizes, eles se preparam para a descida ao vale. Agora, como as alterações na crosta terrestre influíram no clima dos primórdios dos tempos, como elas marcaram os ecossistemas em que o homem primitivo se desenvolveu, já não são mais questões a serem dirigidas às rochas. Elas serão respondidas longe do Ruwenzori e para obter essas respostas não é preciso marchar através de um matagal de plantas gigantes.

É preciso apenas saber calcular muito bem.

Durante a escalada, o repórter de GEO Lars Abromeit parece pequeno como um anão. A vegetação que o cerca a 3.300m de altitude é urze, mas de um tamanho incomum: os subarbustos chegam a 15m de altura

INSTITUTO DE METEOROLOGIA, Berlim-Steglitz. Ela constrói um mundo para si e o domina alheia ao tempo e a capaz de bloquear seu fluxo sobre o continente? Como rios marítimos resfriam o continente? E onde o clima ficará mais quente e poeirento?

A meteorologista Kerstin Prömmel, de 30 anos, é uma one-woman-show (show de apenas uma mulher) no Projeto RIFTLINK e o pivô central entre nove equipes de pesquisadores em campo e no laboratório. Em Uganda, geólogos reúnem números sobre a velocidade da formação do Grande Vale do Rift. Biólogos examinam o genoma de conchas e moluscos do Maláui em busca de sinais de secas pré-históricas. No norte da Tanzânia, paleontólogos colhem pistas sobre o cardápio alimentar de antílopes extintos. E todas essas informações acabarão nas mãos de Prömmel, pois cada detalhe pode ser significativo para a reanimação do clima paleológico: os ungulados, animais de cascos, mastigavam principalmente capim e trotavam através de uma savana ressecada? Ou a região era coberta por uma selva sempre verde? Desde quando e como os altiplanos e as montanhas da África Oriental bloqueiam a passagem das nuvens?

Qual era então o aspecto do mundo em que viveram nossos antepassados?

Enquanto os geocientistas no Ruwenzori concluem um imenso retrato do todo a partir de algumas pedras fragmentadas, Kerstin Prömmel trilha o caminho inverso: ela investiga primeiramente o planeta como um todo, grande e único.

Dendrosenecios (um gênero botânico pertencente à família Asteraceae)são mestres em sobrevivência: eles se protegem da luz UV e do mau tempo com folhas murchas. Parece que os troncos vestem peles

Em um escritório austero, sem ornamentos, a meteorologista forma no computador um modelo do clima mundial há 3 milhões de anos, que se baseia em uma reconstrução do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês). Esses dados são o fundamento de sua simulação.

Ao redor de um globo artificial no computador ela constrói uma grade reticulada de quadrados cujos lados correspondem respectivamente a 350km e que estão sobrepostos em 19 camadas. O computador designa valores médios aos pontos de cruzamentos das linhas nesse emaranhado; por exemplo, de temperaturas, pressão atmosférica ou umidade relativa do ar. Mas são valores de hoje "porque não conhecemos os antigos", explica Prömmel.

Ao aperto de uma tecla, uma vida própria digital desperta no interior da máquina. Algoritmos ligam os pontos de convergência dos retículos e conferem um sopro de dinâmica ao modelo. Quando em um ponto de convergência a atmosfera se aquece matematicamente, o ar sobe e puxa outros vizinhos pontos de ar atrás de si para compensar, consequentemente, o vento aumenta. Leva meses até que se consiga produzir pela primeira vez uma simulação climática completa a partir de zilhões de conexões no computador.

"Com efeito, jamais conseguiremos verificar toda a realidade passada, podemos trabalhar apenas com probabilidades", admite Prömmel.

Um retículo com 350km de comprimento de lado; é algo um tanto rudimentar. Mas só esse modelo já revela mais do que se sabia até agora. Comandando suas teclas, Prömmel, por exemplo, reduz em 50% a altura das montanhas no Rift ou então as elimina de uma vez. Em seu monitor surgem então mapas com os contornos da África, pontilhados por composições de manchas amarelas, azuis e verdes. Essas são as cores de um verão há milhões de anos. Elas indicam onde caiu quanta chuva sobre o continente e em que local, em épocas que as cordilheiras ainda eram recentes ou ainda nem existiam.

E, como se uma janela da História da Terra se abrisse diante de nossos olhos, as simulações de Prömmel mostram quão enormes eram as diferenças climáticas nas diversas épocas, antes da existência do Grande Vale do Rift, durante seu soerguimento e finalmente à época de suas cordilheiras.

No monitor da meteorologista surgem respectivamente modelos completamente diversos de precipitação, seca, vegetação e etc. A Cordilheira do Rift formou uma barreira contra a qual, há milênios, as nuvens dos mais variados sistemas de ventos se chocavam e despejavam sua água de chuva. A quantidade dessa água se modificou com a altura da margem da fenda; o que também aconteceu com o clima.

O que aparece na montagem planetária de Prömmel combina com uma imensa e espetacular reviravolta provocada pela fratura geológica; uma imagem que é constantemente complementada por dados colhidos pelos pesquisadores "em campo". Por exemplo, com fragmentos escondidos no solo do Rift, onde transcorreu a maior epopeia de nossa história.

Onde se lê "nossa história", entende-se a "humanização".

O longo caminho até o ser humano

Não restou muita coisa dos nossos ancestrais pré-históricos, principalmente crânios e dentes. Mas com sua ajuda paleontólogos reconstroem a trilha da evolução humana. O ponto de inserção da coluna vertebral abaixo do crânio indica que a criatura andava ereta, como é o caso do Sahelanthropus tchadensis, considerado o primeiro do gênero. Mas quem deu o salto quântico foi o Homo, o supercérebro entre os primatas. Há 2,5 milhões de anos o volume cerebral de nossos ancestrais começou a aumentar, graças às suas ferramentas e crescentes habilidades que lhes permitiram alimentar-se com carne abundante. Essa alimentação rica em proteína, por sua vez, promoveu o crescimento cerebral. Um fenômeno de causa e efeito que ocorreu cada vez mais rapidamente e proporcionou ao homem possibilidades espetaculares de desenvolvimento: ele descobriu o fogo e, por fim, tornou-se caçador, lavrador e artista.

MAKUYUNI, no norte da Tanzânia. A poeira é vermelha, vermelha como a terra dos masai; ela sobe rodopiando pelas janelas dos carros, penetra pelas menores fissuras, cobre a pele. Galhos passam raspando por cima dos dois land rovers onde a pista é tão estreita que quase se funde com a densa vegetação espinhenta. Passando por rondavéis, rebanhos de cabras e seus pastores, por acácias com delicadas folhas verdes-claras e gigantescos baobás desfolhados, que prenunciam o período da estiagem, o caminho leva ao início dos tempos.

A expedição cruza um leito seco de rio cheio de blocos de basalto e finalmente para em "MK2", um sítio arqueológico do qual se podem ver as montanhas do Rift; a uma folgada meia hora de distância da aldeia Makuyuni e a cerca de 150km a oeste do Monte Kilimanjaro.

Friedemann Schrenk deixa seu olhar pairar sobre as colinas como um general de campo e diz animado aos seus alunos: "Esta é a terra dos ossos. Tragam-me alguns!" E então ele sai andando em sandálias gastas e bermudas. Em uma das mãos ele segura um martelo de geólogo, na outra o aparelho de GPS que deve registrar com precisão eletrônica tudo o que a busca no chão lhe render.

Friedemann Schrenk, 53 anos, paleoantropólogo no Instituto de Pesquisa Senckenberg, em Frankfurt, se candidatou a reavivar os ecossistemas soterrados juntamente com seus antigos habitantes; e para tanto ele necessita de muitos pares de mãos e muitos pares de olhos.

Perto de "Makuyuni 2" o pesquisador especializado em homens primitivos desenterrou há alguns anos partes fossilizadas do esqueleto de um precursor do hominídeo. Mas neste dia ele está em busca principalmente de fósseis de porcos e gnus, girafas, elefantes e hipopótamos. Com base nessas relíquias, Schrenk pretende tirar conclusões sobre as espécies de plantas que esses animais ingeriam; sobre a distribuição de rios e lagos em que viviam e sobre a composição do solo pelo qual trotavam ou transitavam.

Seu projeto é uma parte significativa do RIFTLINK, pois ele deve encontrar respostas para uma pergunta decisiva: como as transformações climáticas influíram na África, no mundo dos hominíneos, ou ancestrais do homem e de seus precursores?

Para isso, Schrenk coleciona principalmente um item: dentes, pois estes sobrevivem muito mais tempo.

Muitas vezes, ele descobre petrificações fósseis esbranquiçadas, acinzentadas ou enegrecidas, do tamanho de um dedo; algumas são compridas e ligeiramente curvas e lembram um conjunto de colunas aglutinadas. Outras são mais volumosas e dotadas de algo parecido com corcovas; muitas delas, angulares e quebradas.

O geólogo estrutural Daniel Köhn interpreta a rocha: diminutos modelos lhe revelam a origem das pedras

COM O PASSAR DOS ANOS, o pesquisador desenvolveu um senso apurado de onde em meio ao entulho de pedras calcárias, moitas de capim e galhos secos ele deve procurar. Ele escolhe uma peça retorcida. No final de um dente molar se destacam linhas brancas circulares, formadas de esmalte, o material mais duro da natureza. Com esse dente o animal moeu seus alimentos e deixou para a posteridade uma marca quase indestrutível: círculos são uma característica de dentes suínos.

Linhas em forma de meia-lua ocorrem em dentes de animais providos de chifres, como gazelas; linhas sinuosas, em cavalos e uma forma oval, em elefantes.

Os cientistas já recolheram centenas de dentes em diversas expedições pela África e como os hábitos alimentares de muitas espécies animais praticamente não mudaram durante milhões de anos, os fósseis dentários permitem concluir indiretamente que tipo de vegetação existia ali no passado remoto.

Com base nesse e em outros indícios, Schrenk e sua colega Christine Hertler, 45 anos, descobriram que Makuyuni foi habitat de animais amantes de capim: há 2 milhões de anos, não muito longe do Grande Vale do Rift, a paisagem deve ter sido seca, descampada com alguns grupos esparsos de árvores e vastas extensões de campinas entrecortadas por um rio que desaguava por um delta em um lago, muito semelhante ao panorama atual.

COM BASE EM ossos de patas que eles encontram volta e meia Hertler consegue até estimar o peso das criaturas: devem ter sido principalmente animais fortes, de grande porte e mais de 100kg. A maioria deles conseguia desenvolver boa velocidade, deduz a bióloga a partir dos pontos de inserção dos tendões de Aquiles.

Em compensação, sua capacidade de manobra era limitada, por isso, o solo teve ter sido mais duro que macio; um terreno ideal para corredores velozes e resistentes, entre eles, o Hipparion, um cavalo de três dedos, e outros quadrúpedes comparáveis às zebras modernas.

Um árduo caminho para ganhar conhecimento: os pesquisadores querem compreender melhor os mecanismos que criaram o Grande Vale do Rift. Eles batizaram o projeto de RIFTLINK, que visa estabelecer uma rede coesa de conhecimentos sobre o mundo da evolução humana

Criaturas semelhantes ao potamóquero- vermelho e ao javali-africano, antílopes kudu e gnus devem ter trotado por estas colinas. Mas hipopótamos, inhacosos (ou cob-untosos), elefantes primitivos ou ainda búfalos de mais de uma tonelada de peso, em parte duas vezes mais maciços que seus descendentes, também se espalharam por esta região.

ainda búfalos de mais de uma tonelada de peso, em parte duas vezes mais maciços que seus descendentes, também se espalharam por esta região.

HÁ 10 MILHÕES de anos um vasto cinturão de floresta tropical ainda cobria a região central da África; da atual Mauritânia passando pelo Chade até a Etiópia; de Angola pelo Congo até a Tasmânia. Aqui o clima era abafado e quente tanto no verão como no inverno. Árvores gigantescas, envoltas por cipós e muito próximas umas das outras, atingiam em parte alturas de 50 a 60m, um luxuriante tapete verde de mais de 6.000km de comprimento por 2.000km de largura. Um cosmo vaporoso habitado por uma profusão de caçadores e caças; de frutos, brotos, folhagens e seus onsumidores; um universo de constante atividade, de vida florescente e morte rápida.

Os dados de GPS de Sarah Stamps apoiam a "Teoria de Rotação" de Köhn: a Cordilheira Ruwenzori poderia ter saído da terra como que removida por um saca-rolha, como um colossal palco giratório

Há 7 milhões de anos, no máximo, tudo isso acabou, pois a Terra já vinha se resfriando drasticamente há algum tempo. Na Antártica a calota de gelo estendeu-se além das margens continentais; as geleiras da Europa esticaram suas "línguas" rumo aos vales e o clima ficou mais seco. Ninguém sabe o que essa gigantesca convulsão global desencadeou. "Mas é considerado certo que ela também transformou o continente africano", frisa Schrenk.

Há 7 milhões de anos, no máximo, tudo isso acabou, pois a Terra já vinha se resfriando drasticamente há algum tempo. Na Antártica a calota de gelo estendeu-se além das margens continentais; as geleiras da Europa esticaram suas "línguas" rumo aos vales e o clima ficou mais seco. Ninguém sabe o que essa gigantesca convulsão global desencadeou. "Mas é considerado certo que ela também transformou o continente africano", frisa Schrenk.

Esse novo mundo foi palco de uma invenção revolucionária, pois naquele cinturão desarticulado de vegetação surgiram estranhos primatas. Eles não se locomoviam mais apoiados sobre as quatro patas, mas reestruturaram a anatomia de seus aparelhos locomotores: os hominíneos. Os ancestrais, e parentes, bípedes do homem.

O FÓSSIL MAIS ANTIGO de um bípede na África até agora data de um período de aproximadamente 7 milhões de anos atrás e foi descoberto em 2002, ao norte do Chade, bem longe do Grande Vale do Rift e da Cordilheira do Ruwenzori: Sahelanthropus tchadensis. Entretanto, há quem duvide de sua classificação; principalmente aqueles pesquisadores que também alegam ter encontrado o mais antigo ser bípede, uma criatura parecida com um macaco, de 6 milhões de anos, no oeste do Quênia.

Mas muitos cientistas concordam que a evolução havia produzido a nova técnica de locomoção de forma múltipla e independente uma da outra, e que foi principalmente o clima que favoreceu a revolução anatômica. Pois todos os fósseis das primeiras criaturas bípedes foram encontrados na zona fragmentada da antiga floresta tropical. Portanto lá onde a seca, as estações do ano e o crescente frio transformaram, pouco a pouco, o denso verde em uma "colcha de retalhos" de acidentes geográficos.

Fique ereto! E ande…

Os chimpanzés têm uma coluna reta (1), uma bacia longa e estreita (2) e pernas em forma de "O" (3), o que só lhes permite uma posição ereta inclinada para frente e exige muita força ao caminhar. O homem, por sua vez, possui uma bacia curta e larga (2) com ossos femorais retos (3) inseridos verticalmente abaixo da bacia. Com isso, os joelhos de aproximam, possibilitando uma locomoção energeticamente vantajosa. A coluna vertebral curva (1) absorve os choques ao caminhar.

Mas por que os primeiros bípedes se aprumaram justamente ali? "Porque desse modo, ereto, eles podiam enxergar melhor as savanas de capim que se espalharam na época e, por isso, conseguiram dominá-las duradouramente". Pelo menos é isso que os antropólogos supuseram durante muito tempo.

Contudo, nesse ínterim surgiu uma teoria concorrente. Pois alguns dos primeiros bípedes eretos estavam equipados com dentes bastante delicados; eles só podiam mordiscar bagas, frutos, folhas jovens e brotos singelos, por isso, é provável que ainda tenham vivido nas florestas.

Entretanto, eles provavelmente empreenderam extensos avanços pelo terreno aberto. "A paisagem ‘colcha de retalhos’ foi um verdadeiro parquinho evolucionário com uma área de 6 milhões de km2", afirma Friedemann Schrenk. Onde antes um denso matagal impedia o caminho, os habitantes agora eram obrigados a passar pelos lugares mais ralos entre as ilhas verdes. Talvez eles dominassem essas distâncias com muita eficiência por meio de sua nova técnica de locomoção, do ponto de vista energético, o caminhar a passos lentos é bastante econômico.

A inovação poderia ter-lhes proporcionado um resfriamento melhor na passagem pelos trechos desprovidos de sombras; pois um corpo em posição ereta oferece uma área menor de exposição às agressões do sol.

E possivelmente um gargalo na busca de alimentos também contribuiu para a reforma anatômica: quando as florestas desapareceram, frutos ricos em óleos e sementes tornaram-se raros. Em busca de fontes de albumina, os hominíneos poderiam ter passado a adotar uma dieta de algas, moluscos ou caracóis, presume Schrenk. Para isso, eles teriam de vadear eretos e durante muito tempo por rios e lagos, algo que os babuínos ou chimpanzés de hoje fazem ocasionalmente.

Além disso, o consumo de moluscos provavelmente deu o impulso decisivo ao desenvolvimento do cérebro: eles são ricos em ácidos graxos, indispensáveis para a ampliação da "central do raciocínio". Desses primeiros pioneiros finalmente se desenvolveram variantes cada vez mais novas, que aos poucos foram também produzindo cérebros maiores. E um andar ereto cada vez mais articulado.

Três seres dessa nova estirpe caminhante deixaram pistas petrificadas na Tanzânia, descobertas em 1978: são 70 impressões que seu pés deixaram há 3,6 milhões de anos em cinzas vulcânicas frescas, enquanto caminhavam lado a lado e em fila. Esse trio de criaturas eretas provavelmente constituiu o símbolo mais significativo de que na África havia começado a era dos bípedes.

ENQUANTO ISSO, no leste, as margens da grande fenda continuaram a se soerguer e isso mudou tudo. Há cerca de 2,7 milhões de anos, quando elas atingiram uma altura média de 2.000m, de acordo com os cálculos de Daniel Köhn, teve início uma nova era. Embora a tendência para um clima mais árido e frio se mantivesse, a vizinhança da grande fenda agora se tornou uma zona de extremos, pois as oscilações do eixo terrestre irradiavam seus efeitos.

Desde todo o sempre a inclinação do eixo vinha balançando em um ritmo complicado de milhares de anos de duração e com isso sempre empurrava o globo terrestre para outra posição em relação ao sol. Isso resultou em um aquecimento diversamente intenso do planeta e confundiu os sistemas de ventos. Por essa razão, ora as monções se tornam mais violentas, ora mais fracas. Ora os trópicos recebem mais umidade vinda do oeste, ora do leste.

Desde todo o sempre a inclinação do eixo vinha balançando em um ritmo complicado de milhares de anos de duração e com isso sempre empurrava o globo terrestre para outra posição em relação ao sol. Isso resultou em um aquecimento diversamente intenso do planeta e confundiu os sistemas de ventos. Por essa razão, ora as monções se tornam mais violentas, ora mais fracas. Ora os trópicos recebem mais umidade vinda do oeste, ora do leste.

FOI JUSTAMENTE naquele período de caprichos climáticos que se desenvolveram gêprotótipos completamente novos entre os bípedes da África Oriental. Indivíduos troncudos e brutos subiram no palco da vida: os chamados "quebra-nozes" do gênero Paranthropus, que figuram entre os hominídeos mais antigos. Eram criaturas de ossos largos, dotados de poderosos dentes molares e músculos mandibulares de força monstruosa. Com isso eles conseguiam moer folhas de fibras duras e sementes de cascas rijas e espessas, que foram engrossando crescentemente para proteger as sementes dos extremos climáticos.

Mais ou menos à mesma época surgiu um protótipo oposto: o Homo rudolfensis, primeiro representante do gênero Homo, a primeira espécie humana da História.

Sua estrutura física não apenas era mais graciosa do que a do grosseiro "quebra-nozes", mas ele também possuía dentes menores. O Homo número 1 também remanejou a evolução externamente, tomando-a literalmente em suas mãos que, graças ao andar ereto, ele agora podia utilizar muito bem para novas tarefas.

Nem macaco, nem homem ainda: Ardi

Seu nome completo é Ardipithecus ramidus. Seus descobridores a chamamde Ardi. Ela teria vivido há 4,4 milhões de anos nas ralas florestas montanhosas da atual Etiópia, e é, desde que pesquisadores da equipe do paleontólogo americano Tim White a apresentaram ao mundo em dezembro de 2009, a mais jovem estrela da galeria de ancestrais humanos. Uma das razões é que seu esqueleto foi notavelmente bem preservado. Antes de tudo, porém, ela é considerada uma criatura mista particularmente esclarecedora na evolução do macaco ao homem. A forma de seus pés revela dupla habilidade: os dedões dos pés, acentuadamente afastados, lhe permitiam se agarrar a galhos, portanto, se mover sem dificuldades pela floresta. Ao mesmo tempo, Ardi já conseguia caminhar sobre pés chatos na terra: suas pernas não eram mais angulosas como a dos antropoides; a bacia já era mais ampla e as costas mais eretas. Ardi já possuía todas as disposições físicas de que seus descendentes necessitariam para aperfeiçoar o andar ereto, e com isso, abandonar definitivamente as florestas.

Esse homem pré-histórico extraía lascas de pedras para conseguir cortar. Pela primeira vez um habitante da Terra confeccionou deliberadamente ferramentas e instrumentos. Embora outros bípedes antes dele provavelmente também tivessem usado pedras para esmagar ossos de cadáveres a fim de chegar ao tutano, eles apenas utilizavam aqueles objetos que encontravam por acaso. O Homo, por outro lado, desenvolveu uma "cultura de ferramentas", ele seguia uma ideia, tinha uma noção da utilidade do utensílio que queria fabricar e transmitia seus conhecimentos às gerações seguintes. Desse modo, o progresso tecnológico entrou no mundo. As criaturas humanoides se emanciparam da natureza. Antes de tudo, porém, o Homo rudolfensis e seus descendentes provavelmente tinham condições de se adaptar melhor às condições climáticas que mudavam tão rapidamente.

Portanto, a chuva acelerou a evolução de nossos ancestrais.

Enquanto isso, os indivíduos do gênero Paranthropus, os "quebra-nozes", foram extintos há cerca de um milhão de anos; pois com sua "caixa de ferramentas" fixamente instalada na boca ele provavelmente não era particularmente flexível no período das grandes mudanças globais.

De agora em diante, o mundo pertencia ao gênero Homo, o mestre da adaptação.

Neve na linha do Equador: os picos da cordilheira dos Montes Ruwenzori chegam a mais de 5.100m de altitude. E estão sempre polvilhados por neve. Em lugares mais baixos também reinam extremos: todo dia verão, toda noite inverno, dizem os nativos

Com as novas ferramentas esses artistas espetavam, partiam e moíam seus alimentos. O que os "quebra-nozes" haviam Com as novas ferramentas esses artistas espetavam, partiam e moíam seus alimentos. O que os "quebra-nozes" haviam

Desse modo, eles resolveram de imediato e com muita eficiência uma parte de sua digestão. "O intestino, o órgão que ao lado do cérebro apresenta a maior necessidade de energia, provavelmente ficou paulatinamente mais curto", raciocina o paleoantropólogo Schrenk. "Com isso restou mais energia para a manutenção do cérebro".

No início da expedição foram distribuídos mantimentos e equipamentos técnicos: 430kg para 35 pessoas

A confecção de instrumentos cada vez mais aprimorados exigiu um órgão de raciocínio crescentemente complexo e as novas ferramentas garantiram seu abastecimento cada vez melhor; pois com a ajuda das afiadas ou pontiagudas lascas de pedras esses homens do Paleolítico cortavam a carne dos ossos de animais que haviam abatido ou descoberto como carniça. A ascensão ao grupo dos carnívoros garantiu definitivamente o abastecimento de albuminas. E, com isso, também a expansão do cérebro.

Por fim, o crânio do Homo acomodou um órgão de hoje em média 1.300cm3 de volume, cheio de ranhuras e conexões de 100 bilhões de células nervosas. Uma estrutura cuja construção é mais complexa do que qualquer outra no universo e que fez de nós os Homo sapiens, os homens sábios e espertos. Os mais inteligentes e bem-sucedidos seres do planeta, e os mais perigosos para todos os outros habitantes.

Criaturas que se submetem à árdua escalada do Ruwenzori carregando centenas de quilos de equipamentos. Que coletam dentes fossilizados e desencadeiam tempestades de dados em computadores. "Os únicos animais da Terra", diz o filósofo Peter Sloterdijk, "que perguntam de onde vieram".

Os geólogos contrataram ajudantes em uma aldeia aos pés da cordilheira e admiraram suas habilidades de equilibrar as cargas penduradas em tiras presas às testas

VALE DE BUJUKU, Cordilheira do Ruwenzori. A descida entorpece. Os geólogos se apressam para chegar ao vale, eles querem descer exatos 3.000m até o anoitecer. Eles inspiram com voracidade o ar que se torna cada vez mais rico em oxigênio. Mais uma vez eles atravessam a zona de vegetação do Ruwenzori: as colinas cobertas de ervas-de-são-joão de 10m de altura. A selva das flores gigantes. As florestas tropicais cheias de musgos e samambaias. E depois o sufocante verde tropical.

A vegetação se torna mais rala à medida que os pesquisadores se aproximam do vale: a floresta cede lugar à savana. Até o horizonte oriental só se estende um infindável tapete de areia vermelho amarronzada, vastas planícies de capim ressequido, das quais despontam isoladas árvores "acácia-guarda-sol" (Acácias tortilis) e euforbiáceas.

E assim parece que as milenares mutações da paisagem africana se espelham na descida do Ruwenzori.

"Quando se observa o mundo através dos olhos de um geólogo", comenta Sarah Stamps, "o planeta dá a impressão de ser uma criatura viva". Como um organismo que respira e envelhece; que contrai ferimentos e cicatrizes; e que tem um batimento cardíaco, como uma força que o impulsiona.

E que só assim possibilita o florescimento de plantas, animais e seres humanos.

O repórter de GEO LARS ABROMEIT (3° da esquerda na foto em grupo acima) e o fotógrafo CHRISTIAN ZIEGLER (2° da direita) com a equipe expedicionária. Os Montes Ruwenzori mostraram aos dois o limite de suas forças. A altitude fez Ziegler passar grotescamente mal: seu rosto inchou e se transformou em um balão. Em contrapartida, o biólogo JAN WEHBERG (à esquerda na foto menor, ao lado) e o ilustrador TIM WEHRMANN (m.) estavam confortavelmente aquecidos e secos no escritório em Hamburgo; eles elaboraram as grandes ilustrações dessa reportagem. Enquanto isso, o repórter JÖRN AUF DEM KAMPE (d.), em busca de dentes milenares, contraiu uma grave queimadura de sol na Tanzânia.

Fotos: Christian Ziegler

Fonte: http://revistageo.uol.com.br/

As armadilhas de uma guerra

Há vários meses, as revoltas árabes têm vindo a reconfigurar os mapas políticos, diplomáticos e ideológicos da região. A repressão líbia ameaçava esta dinâmica. E a guerra ocidental autorizada pelas Nações Unidas vem introduzir nesta paisagem um dado com consequências imprevisíveis.

Serge Halimi

Mesmo um relógio partido dá a hora exacta duas vezes por dia. O facto de os Estados Unidos, a França e o Reino Unido terem tomado a iniciativa de uma resolução do Conselho de Segurança que autoriza o recurso à força contra o regime líbio não basta para a recusar à partida. Um movimento de revolta desarmado que enfrenta um regime de terror é por vezes obrigado a dirigir-se a um polícia internacional pouco recomendável. Concentrado na sua desgraça, esse movimento não recusará o socorro que daí venha pelo simples facto de tal polícia não atender aos apelos das outras vítimas, palestinianas por exemplo. Esquecerá até que ele é mais conhecido como uma força de repressão do que como associação de entreajuda.

Mas o que, logicamente, serviu de bússola aos revoltosos líbios que se viram confrontados com um perigo extremo não basta para legitimar esta nova guerra das potências ocidentais em terra árabe. A intervenção de países-membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) constitui um meio inadmissível de tentar atingir um objectivo desejável (a queda de Muammar Kadhafi). Se este meio pareceu tornar-se evidente, sendo cada qual chamado a “escolher” entre os bombardeamentos ocidentais e o esmagamento dos líbios revoltados, foi unicamente porque outras vias – a intervenção ao lado deles de uma força da ONU, egípcia ou pan-árabe – foram afastadas.

Ora, o balanço passado das forças armadas ocidentais não permite conceder qualquer crédito aos motivos generosos que hoje invocam. Quem é que acredita, aliás, que Estados, sejam eles quais forem, consagrem os seus recursos e as suas forças armadas ao cumprimento de objectivos democráticos? A história recente lembra também, além disso, que as guerras que são feitas com este pretexto têm primeiros sucessos tão fulgurantes quanto largamente mediatizados, mas também que as etapas que se seguem são mais caóticas e mais discretas. Na Somália, no Afeganistão e no Iraque os combates não cessaram, enquanto Mogadíscio, Cabul e Bagdade “caíram” há vários anos.

Os revoltosos líbios teriam preferido, tal como os seus vizinhos tunisinos e egípcios, derrubar sozinhos um poder despótico. A intervenção militar franco-anglo-americana ameaça fazer deles reféns de potências que nunca se preocuparam com a sua liberdade. Mas a responsabilidade desta excepção regional cabe em primeiro lugar a Kadhafi. Sem a fúria repressiva do seu regime, que em quarenta anos passou da ditadura anti-imperialista ao despotismo pró-ocidental, sem os seus discursos equiparando os opositores a «agentes da Al-Qaeda», a «ratazanas que recebem dinheiro e estão ao serviço dos serviços secretos estrangeiros», o destino da revolta líbia teria dependido apenas do seu povo.

A resolução 1973 do Conselho de Segurança que autoriza o bombardeamento da Líbia talvez impeça o esmagamento de uma revolta condenada pela fragilidade dos seus meios militares. Mas não deixa de se assemelhar a mais um baile dos hipócritas. Porque não é por Kadhafi ser o pior dos ditadores, ou o mais assassino, que as suas tropas foram bombardeadas, mas porque ele era simultaneamente mais fraco do que os outros, sem armas nucleares e sem amigos poderosos susceptíveis de o protegerem de um ataque militar ou de o defenderem no Conselho de Segurança. A intervenção decidida contra ele confirma que o direito internacional não assenta em princípios claros cuja violação, onde quer que ocorra, conduza a sanções.

Estamos perante um branqueamento simultaneamente diplomático e financeiro: um minuto de virtude permite apagar décadas de infâmia. Assim, o presidente francês manda bombardear o seu antigo parceiro de negócios, que era recebido em França em 2007 quando todos conheciam a natureza do seu regime – devemos contudo estar agradecidos a Nicolas Sarkozy por não ter proposto a Kadhafi «a competência das nossas forças de segurança» que ofereceu em Janeiro passado ao presidente tunisino Zine El-Abidine Ben Ali… Quanto a Silvio Berlusconi, «amigo íntimo» do Guia líbio que visitou Roma por onze vezes, associa-se de má vontade à coligação virtuosa.

Uma maioria de velhos contestados pela onda democrática tem assento no seio da Liga Árabe; esta junta-se ao movimento da ONU antes de se mostrar consternada logo que os primeiros mísseis americanos são disparados. A Rússia e a China tinham o poder de se opor à resolução do Conselho de Segurança, de a emendar para reduzir o seu alcance ou os riscos de escalada. Se o tivessem feito, não teriam de seguida que «lamentar» o uso da força. Finalmente, para avaliar a verdadeira dimensão da imparcialidade da “comunidade internacional” neste caso, temos de lembrar que a resolução 1973 condena a Líbia por «detenções arbitrárias, desaparecimentos forçados de pessoas, torturas e execuções sumárias», tudo coisas que evidentemente não existem em Guantánamo, nem na Tchetchénia, nem na China…

A “protecção dos civis” não é simplesmente uma exigência irrecusável. Ela impõe também, em período de conflito armado, o bombardeamento de objectivos militares, isto é, de soldados (frequentemente civis obrigados a usar uniforme…), eles próprios misturados com populações desarmadas. Por seu lado, o controlo de uma “zona de exclusão aérea” significa que os aviões que a patrulham se arriscam a ser abatidos e os seus pilotos capturados, o que de seguida justificará que comandos em terra tentem libertá-los. Pode-se manipular à vontade o vocabulário, mas não se pode eufemizar indefinidamente a guerra.

Ora, em última análise, esta pertence aos que a decidem e a conduzem, não aos que a recomendam idealizando que será curta e feliz. Estabelecer planos impecáveis de uma guerra sem ódio e sem “abusos” tem muitos encantos, mas a força militar a quem se confia a tarefa de os executar fá-lo-á em função das suas inclinações, dos seus métodos e das suas exigências. O mesmo é dizer que os cadáveres de soldados líbios metralhados durante a retirada são, tal como as multidões em festa de Benghazi, uma consequência da resolução 1973 das Nações Unidas.

A ANTIGA PATINA REVOLUCIONÁRIA DE KADHAFI ABUSOU DA ESQUERDA LATINO-AMERICANA

As forças progressistas do mundo inteiro dividiram-se a propósito do caso líbio, consoante tenham dado mais peso à sua solidariedade para com um povo oprimido ou à sua oposição a uma guerra ocidental. Os dois critérios de avaliação são necessários, mas nem sempre é possível reclamar a sua satisfação simultânea. Resta, quando se é obrigado a escolher, determinar o que é que um rótulo de “anti-imperialista” conseguido na arena internacional autoriza a fazer cada dia ao seu povo.

No caso de Kadhafi, o silêncio de vários governos de esquerda latino-americanos (Venezuela, Cuba, Nicarágua, Bolívia) sobre a repressão que ele ordenou é desconcertante, tanto mais quanto é certo que a oposição do Guia líbio ao “Ocidente” é uma pura fachada. Kadhafi denuncia a «conspiração colonialista» de que seria vítima, mas fá-lo depois de ter assegurado às antigas potências coloniais que «estamos todos no mesmo combate contra o terrorismo. Há cooperação entre os nossos serviços secretos. Nós ajudámo-vos muito nestes últimos anos.

Secundado por Hugo Chávez, Daniel Ortega e Fidel Castro, o ditador líbio afirma que o ataque de que foi alvo se explicaria pelo desejo de «controlar o petróleo». Ora este já é explorado pela companhia americana Occidental Petroleum (Oxy), pela britânica BP e pela italiana ENI. Há algumas semanas, o Fundo Monetário Internacional (FMI) saudava, aliás, «o forte desempenho macroeconómico da Líbia e os seus progressos no reforço do papel do sector privado. Amigo de Kadhafi, Ben Ali tinha recebido cumprimentos comparáveis em Novembro de 2008, mas dados pessoalmente pelo director-geral do FMI, Dominique Strauss-Kahn, que acabava de chegar directamente… de Trípoli.

A antiga patina revolucionária e anti-imperialista de Kadhafi, restaurada em Caracas e em Havana, tinha sem dúvida escapado também a Anthony Giddens, teórico da “terceira via” blairista. Que anunciava em 2007 que a Líbia se tornaria dentro em breve uma «Noruega da África do Norte: próspera, igualitária e virada para o futuro. Vendo a lista muito eclética dos que se deixaram iludir por ele, como acreditar ainda que o Guia é tão louco como se afirma?

Várias razões explicam que governos de esquerda latino-americanos se tenham sentido como se tivessem sido eles próprios os atacados. Quiseram ver nele o inimigo do seu inimigo (os Estados Unidos), mas isso não deveria ter sido suficiente para fazer dele seu amigo. Um conhecimento medíocre da África do Norte – Chávez diz ter-se informado sobre a situação na Tunísia telefonando a Kadhafi… – levou-os de seguida a oporem-se à «colossal campanha de mentiras orquestrada pelos media» (Castro dixit). Tanto mais que esta lhes trazia recordações pessoais cuja pertinência era discutível no caso presente: «Não sei porquê, mas o que se está a passar ali», declarou o presidente venezuelano a propósito da Líbia, «lembra-me Hugo Chávez no dia 11 de Abril». No dia 11 de Abril, um golpe de Estado apoiado pelos media através de informações manipuladas tinha tentado derrubá-lo.

E havia outros factores que ajudavam a que houvesse um erro de análise da situação líbia: uma grelha de leitura forjada por décadas de intervenção armada e de dominação violenta dos Estados Unidos na América Latina, o facto de a Líbia ter ajudado a Venezuela a implantar-se em África, o papel dos dois Estados no seio da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), e ainda Cimeiras América do Sul-África (ASA), com a iniciativa política de Caracas a ter como objectivo reequilibrar a sua diplomacia no sentido de relações Sul-Sul mais estreitas.

A isso temos ainda de acrescentar a tendência do presidente Chávez para considerar que as ligações diplomáticas do seu país implicam para ele uma relação de proximidade pessoal com os chefes de Estado: «Fui amigo do rei Fahad da Arábia Saudita, sou amigo do rei Abdallah, que esteve aqui em Caracas (…). Amigo do emir do Qatar, do presidente da Síria, um amigo, também veio cá. Amigo de Bouteflika. Quando o regime de Kadhafi («meu amigo há muito tempo») começou a reprimir o seu povo, esta amizade pesou no mau sentido. Em definitivo, Chávez perdeu a oportunidade de apresentar as revoltas do continente africano como as irmãs mais novas dos movimentos de esquerda latino-americanos que ele bem conhece.

Para lá deste equívoco, a diplomacia representa sem dúvida o domínio onde, em todos os países, se revelam melhor as encruzilhadas de um exercício solitário do poder feito de decisões opacas, livres de qualquer controlo parlamentar e de qualquer deliberação popular. Quando, além disso, esta se empenha, como no Conselho de Segurança, em defender a democracia através da guerra, o contraste é forçosamente esmagador.

Depois de ter utilizado, não sem sucesso, a alavanca geopolítica anti-ocidental e o argumento progressista da defesa dos recursos naturais, o dirigente líbio não resistiu durante muito tempo à tentação de jogar a cartada derradeira do confronto entre religiões. «As grandes potências cristãs», explicou em 20 de Março passado, «envolveram-se numa segunda cruzada contra os povos muçulmanos, tendo à cabeça o povo líbio, e cujo objectivo é riscar o islão [do mapa]». Treze dias antes, Kadhafi tinha contudo comparado a sua obra de repressão àquela de que foram vítimas mil e quatrocentos palestinianos: «Até os israelitas em Gaza tiveram de recorrer a tanques para combater tais extremistas. Connosco, é parecido. Uma afirmação que não deve ter feito crescer a popularidade do Guia no mundo árabe.

Mas esta reviravolta tem pelo menos uma virtude. Lembra quão nociva pode ser uma orientação política que reproduz, invertendo-a, a temática neoconservadora das cruzadas e dos impérios. As revoltas árabes, porque juntaram laicos e religiosos – e a que se opuseram laicos e religiosos –, talvez assinalem o fim de um discurso que se proclama anti-imperialista, mas que na verdade é apenas anti-ocidental. E que confunde no seu ódio do “Ocidente” o que aí há de pior – a política do canhão, o desprezo pelos povos “indígenas”, as guerras religiosas – com o que teve de melhor, desde a filosofia das Luzes à segurança social.

Apenas dois anos após a revolução iraniana de 1979, o pensador radical sírio Sadik Jalal Al-Azm detalhava, para as refutar, as características de um «orientalismo às avessas» que, recusando a via do nacionalismo laico e do comunismo revolucionário, apelava ao combate contra o Ocidente através de um regresso à autenticidade religiosa. Os principais postulados desta análise “culturalista”, resumidos e depois submetidos à crítica por Gilbert Achcar, estipulavam que «o grau de emancipação do Oriente não deve e não pode ser medido recorrendo a valores e critérios “ocidentais”, como a democracia, a laicidade e a libertação das mulheres; que o Oriente muçulmano não pode ser compreendido com os instrumentos epistemológicos das ciências ocidentais; que nenhuma analogia com fenómenos ocidentais é pertinente; que o factor que move as massas muçulmanas é cultural, isto é, religioso, e que a sua importância ultrapassa a dos factores económicos e sociais que condicionam as dinâmicas políticas ocidentais; que a única via dos países muçulmanos para o renascimento passa pelo islão; finalmente, que os movimentos que erguem a bandeira do “regresso ao islão” não são reaccionários ou regressivos, como é entendido pelo olhar ocidental, mas, pelo contrário, são progressistas no sentido em que resistem ao domínio cultural ocidental.

Uma tal aproximação, fundamentalista, da política, talvez não esteja ainda morta. Mas, desde a onda de choque na Tunísia, sente-se que a sua pertinência começou a ser questionada por povos árabes que já não querem situar-se «nem contra o Ocidente, nem ao seu serviço e que o provam visando tanto um aliado dos Estados Unidos (Egipto), como um dos seus adversários (Síria). Longe de recearem que a defesa das liberdades individuais, da liberdade de consciência, da democracia política, do sindicalismo e do feminismo constituam outras tantas prioridades “ocidentais” mascaradas de universalismo emancipador, estes povos árabes apoderam-se delas para afirmarem a sua recusa do autoritarismo, das injustiças sociais, de regimes policiais que infantilizam os seus povos tanto mais espontaneamente quanto mais são dirigidos por velhos. Tudo isto, lembrando outros grandes movimentos revolucionários, é conseguido, dia após dia, obtendo conquistas sociais e democráticas de que nos desabituámos noutros locais. E tudo isto é levado a cabo com ânimo, no momento preciso em que o “Ocidente” parece estar dividido entre o seu medo do declínio e a sua lassidão perante um sistema político necrótico no qual o parecido sucede ao idêntico, sempre ao serviço dos mesmos.

UMA RESOLUÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS QUE TAMBÉM VALE PARA AS LUTAS DAS POPULAÇÕES OCIDENTAIS…

Nada nos diz que este entusiasmo e esta coragem árabes vão continuar a marcar pontos. Mas elas já estão a revelar-nos possibilidades inexploradas. O artigo 20 da resolução 1973 do Conselho de Segurança, por exemplo, estipula que este órgão «se declara disposto a zelar para que os bens [líbios] congelados [por aplicação de uma resolução anterior] sejam numa etapa posterior, logo que possível, postos à disposição do povo da Jamahiriya árabe líbia e utilizados em seu proveito». Assim, vai ser possível congelar bens financeiros e devolvê-los aos cidadãos de um país! Esperemos que esta lição seja aprendida: os Estados têm o poder de satisfazer os povos. Há vários meses, o mundo árabe lembra-nos uma outra lição, também universal: os povos têm o poder de impor a sua vontade aos Estados.

Fonte: http://infoalternativa.org/

Bin Laden perdeu. E ninguém ganhou

O mundo festeja a morte de um bárbaro terrorista assassino que foi assassinado no Paquistão por uma tropa militar de elite das forças especiais dos Estados Unidos.

Ricardo Noblat

Deixe-me ver se entendi bem.

Escondido em uma mansão onde não havia telefone nem internet, desarmado como admitiu a Casa Branca, o cérebro do atentado do 11 de setembro, onde morreram 2.700 pessoas, já não comandava mais sua organização.

Valia-se de um emissário para transmitir recados. A identidade do emissário foi descoberta mediante a tortura de um dos presos mantidos na base militar americana de Guantánamo, em Cuba.

E foi o monitoramento do emissário que permitiu a localização do esconderijo de Bin Laden.

A tropa que invadiu o esconderijo recebeu a ordem de matá-lo. E de em seguida jogar seu corpo no mar.

O governo paquistanês não foi consultado sobre a invasão do seu território por tropa de outro país. Só depois ficou sabendo.

Em resumo: celebra-se a tortura (crime), o assassinato de um terrorista inativo (crime) e a operação militar bem-sucedida que implicou na violação da soberania de um país (crime também).

É o mesmo que afirmar: em certos casos (e não serão poucos), a tortura se justifica. O assassinato se justifica. A invasão pontual de outro país se justifica.

Repelimos a violência quando ela nos atinge. Aceitamos a violência contra quem detestamos.

Dancemos nas ruas!

Às favas os escrúpulos, os fundamentos do modelo ocidental de democracia e os valores básicos e consensuais de todas as religiões.

Um ex-operador da CIA, a agência americana de espionagem, disse hoje no The New York Times que a manifestação de júbilo dos seus concidadãos com a morte de Bin Laden avaliza os métodos usados pela CIA em defesa dos interesses do país.

Um general brasileiro aposentado, que na época da ditadura de 64 tolerou ou estimulou a tortura e a morte de opositores do regime, seria capaz de dizer algo parecido.

O mundo não se tornará menos ou mais seguro com a morte de Bin Laden. A essa altura, a importância dele era apenas simbólica.

Com sua morte não se fez justiça como proclamou o presidente Barack Obama.

(Na aparência, pelo menos, George Bush Jr. fez ao capturar, julgar e enforcar o ex-ditador do Iraque, Saddam Hussein.)

Em sociedades ditas civilizadas, justiça se faz de outra maneira.

Consagra-se a doutrina israelense que justifica o assassinato seletivo de inimigos do Estado.

Foi um ato de vingança. Que Bin Laden fez por merecer.

Mas nós não merecíamos que por causa dele fossem rasgados os tratados internacionais que tipificam como crimes a tortura, o assassinato e a violação de territórios por tropas estrangeiras.

Bin Laden perdeu. E ninguém ganhou.

Fonte: http://oglobo.globo.com/