Um novo maciço rochoso gera um clima diferente e uma paisagem em que um ser totalmente inédito encontra seu caminho para a existência. Um bípede com um cérebro grande. Deve ter sido assim na África Oriental, entre 10 e 2,5 milhões de anos atrás.
Lars Abromeit, Jörn Auf dem Kampe

Musgos e estranhas plantas-gigantes nos Montes Ruwenzori. A espetacular cordilheira faz parte de uma falha geológica que atrai a chuva. Para a savana, a leste, não resta pouca precipitação. Foi lá que o homem deu seus primeiros passos
Ele bate pedras. Para ele, não poderia existir nada melhor. Daniel Köhn ansiou por isso. Durante dias a fio ele marchou com sua equipe expedicionária por matagais pantanosos, regiões montanhosas encantadas, cheias de florestas de flores gigantescas.

Escalada nos Montes Ruwenzori: a expedição acompanhada pela equipe de GEO venceu a ascensão até a área de pesquisa, a 2.000m de altitude, em apenas 3 dias. Dores de cabeça constantes devido ao ar rarefeito, frio e insônia não desanimaram os pesquisadores
Eles passaram por arbustos de urze da altura de árvores. Alguns tinham se entrelaçado formando abóbadas e em seus rebentos proliferavam bolas de musgos recobertas de samambaias e orquídeas.
Vapores de neblina passavam pelo telhado de urze. Tudo estava estranhamente silencioso, como se a floresta de flores pertencesse a uma era em que as plantas dominavam a Terra, sem que jamais o canto de uma ave interrompesse a quietude.
Lobélias e Dendrosenecios (um gênero botânico pertencente à família Asteraceae), que Köhn conhecia lá da Alemanha, aqui atingiam até 7m de altura. Em meio aos gigantes, Köhn havia se sentido como um boneco de brinquedo em um canteiro de jardim úmido e malcuidado.
Por toda parte a lama escorregadia praticamente impossibilitava um apoio seguro: eles foram obrigados a se equilibrar por cima das raízes acima de precipícios aparentemente infindáveis e escalar as encostas se agarrando em folhagens mofentas. Quando tentavam se puxar para cima pelos caules possantes dos Dendrosenecios gigantes, estes se quebravam para o lado e verdadeiras quedas d’água despencavam sobre eles das enormes flores em forma de rosetas.
Köhn perdeu o equilíbrio, ficou preso na lama e na folhagem, afundou até os quadris em buracos de lama e rastejou por desfiladeiros sem trilhas através de bosques de arbustos de ervas-de-são-joão de 10m de altura.
E criou calos e feridas nos pés, que resultam de momentos como este. Para dar um golpe no afloramento rochoso.
VALE DE CHIONDO, Cordilheira de Ruwenzori, Uganda. Daniel Köhn, 40 anos, observa a faixa rochosa de cerca de 5m de largura que cruza a colina: ela corre em ondas do pico da montanha para baixo, perde-se em meio a arbustos de begônias, e prossegue em sua queda por paredões molhados e reluzentes até o vale. Um afloramento de rochas cobertas de musgos, a 4.300m de altitude, perto dos picos nevados, em meio ao coração tropical da África.
Todo esse cansaço, essa exaustão para isso? As constantes dores de cabeça no ar rarefeito da altitude. O enjoo. O frio gélido que impossibilita o sono noite após noite?
A faixa rochosa é uma perturbação, um ponto de fratura na crosta terrestre, onde um passado imemorial de camadas de rochas de colossais forças tectônicas primordiais foram empurradas umas contra as outras. Há meses os pensamentos de Köhn giram em torno dessas falhas geológicas: para ele, elas são testemunhas únicas e ímpares de eras terrestres passadas há milênios.


A África está se rompendo
O maciço de Ruwenzori se localiza na fronteira entre Uganda e o Congo. Ele faz parte do Grande Vale do Rift, de 6.000km de extensão, que se estende em dois ramos pela África Oriental: ao longo de fraturas na crosta terrestre, a Placa Continental Somaliana está se separando da Africana
Elas revelam como o maciço de Ruwenzori, uma das últimas áreas em grande parte inexploradas da Terra, surgiu. É desse conhecimento embutido em pedra que Köhn espera poder extrair indícios para responder a uma das maiores perguntas da Era Moderna: como a África se modificou há milhares de anos para permitir que aqui surgisse a criatura mais estranha da História da Terra?
O ser humano.

A África há 10 milhões de anos

A contagem regressiva para o surgimento do homem começa imperceptivelmente. Uma densa floresta tropical cobre vastas partes do continente; as áreas desérticas são pequenas. Mas entre 140 e 200km abaixo da superfície terrestre age uma nova força que criará espaços vitais mais favoráveis à gênese do homem: a chamada "African superplume" ("superpluma africana"). É assim que os geólogos chamam as gigantescas torrentes rochosas superaquecidas que sobem em colunas das profundezas da Terra e pressionam, de baixo para cima, contra a crosta africana oriental. Esta se curva até a terra se fender de norte a sul: o Grande Vale do Rift forma-se lentamente e, com ele, aquela cordilheira que mais tarde contribuirá para a mudança climática no leste da África. Magma em estado líquido é ejetado pelas chaminés de vulcões rumo ao céu tropical, dando origem aos montes Kilimanjaro e Quênia. A pressão da pluma, de 1.500°C, perdura até hoje.
DE ONDE VIEMOS? O que possibilitou aos nossos ancestrais primordiais a separação dos parentes macacos? E qual era o aspecto do mundo em que teve início a transição do macaco para o Homo sapiens? Sabe-se muito pouco a respeito. O certo é que há pelo menos 7 milhões de anos, muito antes do que se presumiu até recentemente, os primatas da África ousaram dar os primeiros passos decisivos no caminho para a humanização: eles começaram a andar eretos.
Mais uma vez, a evolução havia se aventurado em um experimento. Entre 2 e 3 milhões de anos, alguns desses seres bípedes deram origem aos primeiros representantes do gênero Homo: seres antropoides primordiais que aprenderam a fabricar ferramentas, viver em complexas estruturas sociais e, por fim, até a dominar o fogo.
A maioria dos antropólogos conclui que essa evolução pode acontecer em razão de mudanças climáticas: a África se tornou mais árida e mais fria. As florestas deram lugar às savanas, todo um novo espaço vital para seres que andavam eretos e fabricavam ferramentas.
Parece que somos filhos de uma mudança climática. Mas como foi que esta começou? As forças propulsoras da humanização estariam ocultas em pedras e nas profundezas da África?
Há mais de 20 milhões de anos ocorreu um drama geológico de dimensões arrebatadoras no leste do continente: a África se rompeu, cada dia um pouco mais. Impulsionadas pelos fluxos de rochas incandescentes que ejetam do manto terrestre, as placas continentais Arábica, Africana e Somaliana começam a se afastar umas das outras, dando origem à chamada "deriva continental". E no meio delas, da Síria passando pelo Mar Vermelho até Moçambique a crosta terrestre se rasga em direção norte-sul.
Desse modo surgiu uma gigantesca falha geológica, de 6.000km de extensão e dividida em dois ramos, o Grande Vale do Rift (Great Rift Valley; rift em inglês significa falha, fratura). No meio dessa enorme fratura africana, o solo terrestre afundou centenas de metros abaixo do nível do mar. Suas bordas, por outro lado, foram erguidas e se transformaram em cadeias de montanhas, como a cordilheira dos Montes Ruwenzori; paralelamente, elevados vulcões como o Kilimanjaro, o Monte Quênia e as crateras dos vulcões Virunga soergueram-se da crosta terrestre.
Quando e como, exatamente, essas montanhas, verdadeiras barreiras de chuvas, poderiam ter modificado o clima, os ventos prevalecentes, a formação de nuvens, os cursos de rios, a vegetação? Como teriam marcado aquelas comunidades de plantas e animais entre as quais os ancestrais do homem tiveram de se impor?
Daniel Köhn, geólogo da Universidade Johannes-Gutenberg, em Mainz, na Alemanha, pertence a um grupo de cientistas que querem esclarecer essas questões. Em um oneroso projeto chamado RIFTLINK eles procuram criar um modelo para as complexas circunstâncias entre a formação do Rift, a mudança climática e o desenvolvimento dos predecessores do homem. "É como se fossemos rodar um filme monumental sobre a História da Terra", declara Köhn. Uma obra épica que, de preferência, entrelace o maior número possível de detalhes conhecidos, para ilustrar visualmente as mudanças que ocorreram na África durante milhões de anos.
O projeto envolve cientistas de mais de uma dezena de disciplinas específicas e de 32 universidades da Europa, da África e dos Estados Unidos: geoquímicos e meteorologistas, por exemplo, pesquisadores de conchas e moluscos, peritos em datação de rochas, antropólogos e sismólogos.
Desde 2003, eles coletam dados, principalmente nos Montes Ruwenzori, que despontam no ramo ocidental do sistema da grande falha geológica africana, no triângulo terrestre entre Uganda, Ruanda e a República Democrática do Congo.
"A Cordilheira do Ruwenzori é o laboratório perfeito", opina Köhn. Emoldurada lateralmente por desfiladeiros, ela separa até hoje as florestas tropicais baixas da Bacia do Congo dos territórios de savanas na África Oriental equatorial. Suas cadeias de montanhas, de até 5.109m de altura e encimadas por geleiras, estão entre os picos mais imponentes do continente.
É no exemplo dessa cordilheira que os geocientistas querem construir uma base confiável de dados, na qual os pesquisadores climáticos e paleoecologistas do Projeto RIFTLINK possam se fundamentar para elaborar modelos e hipóteses. Com a ajuda dos Montes Ruwenzori eles querem compreender os princípios que fizeram com que os flancos do Rift se erguessem quando a grande fenda se abriu.
É um enigma que somente pessoas que amam pedras poderiam resolver.
Pessoas como Köhn.
A África há 7 milhões de anos

Um novo mundo ganha contornos: a pluma subterrânea com sua colossal energia (à esquerda, indicada pelo brilho vermelho) mantém a paisagem em movimento. Aos poucos, a cordilheira do Ruwenzori (à direita) se ergue da terra às margens do Lago Obweruka, que desaparecerá mais tarde. As montanhas já atingiram uma altura de 800m, mas como barreira elas ainda não impedem tão intensamente a formação de nuvens e a consequente precipitação como nos milênios seguintes. Uma tendência climática global, entretanto, não deixa de influenciar também a África: nessa época as temperaturas caem em todo o mundo e o clima se torna mais seco. As áreas primitivas de florestas tropicais no continente africano minguam e surgem as savanas arborizadas. Este aspecto só é aparentemente secundário, pois é precisamente aqui que as diversas espécies de hominíneos* dão seus primeiros passos sobre duas pernas, independentes uns dos outros, rumo ao homem.

* O termo ‘hominíneo’ é um conceito recém-introduzido e utilizado pelos cientistas citados nesta reportagem para designar a ‘família humana’. A ela pertencem todos os seres humanos e seus ancestrais, desde a separação dos antropoides. A característica comum mais importante é o andar ereto. Além disso, e principalmente em publicações mais antigas, o mesmo grupo é comumente designado pela palavra ‘hominídeos’.
O MATAGAL É SUFOCANTE; o ar, rarefeito. Véus de névoa úmida, montanhas de nuvens carregadas. Chove mais de 300 dias por ano. E à noite chega a gear no Equador.
Desde sempre, o maciço de Ruwenzori pertence àqueles lugares ímpares que sabem esconder seus segredos. Até meados do século XIX nem ao menos estava provado que o maciço de fato existia.
Embora na Grécia Antiga os sábios já presumissem que o delta do Nilo era alimentado por uma gigantesca cordilheira nevada ao sul, os chamados "Montes da Lua" foram relegados à condição de lenda. Dezenas de pesquisadores viajantes passaram ao largo dos picos eternamente encobertos sem nem ao menos desconfiar de sua existência; até que, em 1888, o britânico Henry Morton Stanley teve a sorte de avistá-los, em um dia claro, sem nuvens, pela primeira vez como primeiro europeu. De acordo com suas descrições, vários pesquisadores conseguiram chegar aos cumes cobertos por geleiras; finalmente, em 1906, Luigi Amedeo di Savoia-Aosta, duque dos Abruzzos, mapeou 16 picos.
O próprio Savoia-Aosta já reconhecera que os "Montes da Lua" não eram formados por rochas vulcânicas. Mas é impossível calcular além de qualquer dúvida, inclusive com simulações computadorizadas, como eles puderam se erguer tão alto assim. Köhn e seus colegas já tentaram fazê- lo dezenas de vezes: eles traduziram os "Montes da Lua" em colunas numéricas, dividiram as forças da tectônica de placas em megabytes, e deixaram que os dados agissem em seus respectivos monitores.
Tudo isso foi insuficiente. "De acordo com os nossos modelos, essa cordilheira poderia ter, no máximo, 3.000m de altura; mas não 5.000m!", explica Köhn. Mas para o clima dos primórdios dos tempos é justamente essa diferença de altitude que poderia ter sido decisiva. E por isso Köhn agora procura descobrir, com base em amostras de rochas, que outros ingredientes faltam em seus programas e para os quais ele ainda não aplicou a base de dados correta.
Para tanto, ele está em expedição pela terceira vez na Cordilheira Ruwenzori; dessa vez, acompanhado de uma bacharel com mestrado e da geodesista norte-americana Sarah Stamps, de 28 anos.
O trio de pesquisadores transporta quase meia tonelada de equipamentos: instrumentos para detectar as mais ínfimas perturbações eletromagnéticas nas rochas e parabólicas para medições de GPS de altíssima resolução; baterias de carros e painéis solares desdobráveis; computadores e mantimentos para passar 12 dias no alto da cordilheira.
A África há 2,5 milhões de anos

Nas campinas verdejantes às margens do Lago Eduardo um novo ser pisa no palco da vida para logo desempenhar um papel de destaque: o Homo rudolfensis, o primeiro representante de nossa espécie. O ser humano nº 1 andava ereto e, pela primeira vez na história natural, empregava suas mãos para fabricar ferramentas de pedra, de modo planejado e com meta definida. Com lascas obtidas de pedras, nossos ancestrais desmembravam, por exemplo, zebras pré-históricas abatidas por tigres-dentes-de-sabre. Talvez esses homens primitivos até tenham caçado ocasionalmente. Eles ousavam entrar na água para colher moluscos e conchas. O mundo em que viviam era um "mosaico de paisagens", constituído por áreas descampadas, florestas e pântanos, e era habitado por animais de grande porte, como o dinotério, parecido com os elefantes, o Sivatherium (literalmente a besta de Shiva), um gênero de girafa hoje extinto e búfalos de 1.000kg. E nos lagos também chafurdavam enormes hipopótamos.
Para transportar todos esses objetos pelas florestas de flores, os geólogos contrataram, em uma aldeia ao pé das montanhas, carregadores que equilibram a carga com habilidade notável por pântanos e íngremes vertentes montanhosas.
A equipe armou seu acampamento às margens da parte baixa do Lago Kitandara, a 4.000m de altitude, na fronteira com a República Democrática do Congo. O campo está cercado por colossais montanhas cobertas de geleiras e plantas gigantescas que aqui, nas proximidades da linha do Equador, florescem até mesmo em altitudes nas quais nos Alpes, por exemplo, só existem neve e muitas pedras.
Mas os geólogos descartam as flores singulares e únicas zombeteiramente como "aglomerados de carbono da atualidade". Para eles o que conta é o passado distante, por exemplo, a pergunta se a enigmática altura dos Montes Ruwenzori poderia ser explicada por meio da rotação

Um riacho a 3.500m de altitude, símbolo da riqueza de água na África Oriental. Nos primórdios dos tempos, os períodos de chuvas fortes faziam os lagos incharem acentuadamente nas depressões. Com isso partes populacionais de algumas espécies eram separadas e passavam a se desenvolver isoladamente: um motor da evolução
"O bloco do maciço de Ruwenzori poderia ter-se desprendido das profundezas e ascendido lentamente como um palco de teatro giratório", argumenta Köhn. Essa teoria seria reforçada pelo fato de que as "perturbações" mais importantes, portanto os pontos de fratura na crosta terrestre na cordilheira, não correm em linhas paralelas umas às outras, mas se apresentam em formas circulares.
Mas de onde teriam vindo as forças descomunais, capazes de provocar um movimento giratório tão tremendamente potente?
DOIS DIAS DEPOIS, na vertente do Monte Baker, o terceiro maciço mais elevado da cordilheira de Ruwenzori. Com protetores de orelhas, um colete de penas de ganso e um laptop, Sarah Stamps, a colega de Köhn, observa o impulso de movimento do planeta. No ano anterior ela havia instalado uma estação solar de GPS a 4.441m de altitude, para medir com precisão milimétrica o deslocamento das placas continentais. Agora ela repassa os dados para seu computador. Nesse ínterim, formou-se uma densa camada de neblina. Os ombros de Stamps tremem de frio, mas ela continua olhando fixa e ansiosamente para o monitor. "Para mim, este é o dia mais importante do ano", declara
Este foi um bom dia! Os dados estão praticamente completos; a estação funcionou quase o ano inteiro apesar das camadas de nuvem.

O camaleão-de-três-chifres-de- -Uganda (Chamaeleo jacksonii) vive nas florestas tropicais da África Central e Oriental
Como complemento das amostras de rochas, os dados do GPS são indispensáveis, pois eles revelam as gigantescas forças terrestres que agem até hoje e que definiram a Cordilheira de Ruwenzori. A partir de seus dados, Stamps consegue concluir que neste exato ponto, a África continua a se afastar cerca de 3mm por ano. A direção em que se move a crosta terrestre combina com a Teoria de Rotação de Köhn e sugere que os fluxos de rochas incandescentes que se ejetam das profundezas do manto terrestre, a chamada "African superplume" ("superpluma africana"), influenciaram os processos de soerguimento.
Entretanto, os dados dos cientistas confirmam principalmente que essa atividade de levantamento só alterou a topografia do continente drasticamente entre 5 e 3 milhões de anos, portanto, pouco antes daquela fase em que os bípedes parecidos com macacos se transformaram em homens primitivos.
Os geólogos estão felizes, eles se preparam para a descida ao vale. Agora, como as alterações na crosta terrestre influíram no clima dos primórdios dos tempos, como elas marcaram os ecossistemas em que o homem primitivo se desenvolveu, já não são mais questões a serem dirigidas às rochas. Elas serão respondidas longe do Ruwenzori e para obter essas respostas não é preciso marchar através de um matagal de plantas gigantes.
É preciso apenas saber calcular muito bem.

Durante a escalada, o repórter de GEO Lars Abromeit parece pequeno como um anão. A vegetação que o cerca a 3.300m de altitude é urze, mas de um tamanho incomum: os subarbustos chegam a 15m de altura
INSTITUTO DE METEOROLOGIA, Berlim-Steglitz. Ela constrói um mundo para si e o domina alheia ao tempo e a capaz de bloquear seu fluxo sobre o continente? Como rios marítimos resfriam o continente? E onde o clima ficará mais quente e poeirento?
A meteorologista Kerstin Prömmel, de 30 anos, é uma one-woman-show (show de apenas uma mulher) no Projeto RIFTLINK e o pivô central entre nove equipes de pesquisadores em campo e no laboratório. Em Uganda, geólogos reúnem números sobre a velocidade da formação do Grande Vale do Rift. Biólogos examinam o genoma de conchas e moluscos do Maláui em busca de sinais de secas pré-históricas. No norte da Tanzânia, paleontólogos colhem pistas sobre o cardápio alimentar de antílopes extintos. E todas essas informações acabarão nas mãos de Prömmel, pois cada detalhe pode ser significativo para a reanimação do clima paleológico: os ungulados, animais de cascos, mastigavam principalmente capim e trotavam através de uma savana ressecada? Ou a região era coberta por uma selva sempre verde? Desde quando e como os altiplanos e as montanhas da África Oriental bloqueiam a passagem das nuvens?
Qual era então o aspecto do mundo em que viveram nossos antepassados?
Enquanto os geocientistas no Ruwenzori concluem um imenso retrato do todo a partir de algumas pedras fragmentadas, Kerstin Prömmel trilha o caminho inverso: ela investiga primeiramente o planeta como um todo, grande e único.

Dendrosenecios (um gênero botânico pertencente à família Asteraceae)são mestres em sobrevivência: eles se protegem da luz UV e do mau tempo com folhas murchas. Parece que os troncos vestem peles
Em um escritório austero, sem ornamentos, a meteorologista forma no computador um modelo do clima mundial há 3 milhões de anos, que se baseia em uma reconstrução do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês). Esses dados são o fundamento de sua simulação.
Ao redor de um globo artificial no computador ela constrói uma grade reticulada de quadrados cujos lados correspondem respectivamente a 350km e que estão sobrepostos em 19 camadas. O computador designa valores médios aos pontos de cruzamentos das linhas nesse emaranhado; por exemplo, de temperaturas, pressão atmosférica ou umidade relativa do ar. Mas são valores de hoje "porque não conhecemos os antigos", explica Prömmel.
Ao aperto de uma tecla, uma vida própria digital desperta no interior da máquina. Algoritmos ligam os pontos de convergência dos retículos e conferem um sopro de dinâmica ao modelo. Quando em um ponto de convergência a atmosfera se aquece matematicamente, o ar sobe e puxa outros vizinhos pontos de ar atrás de si para compensar, consequentemente, o vento aumenta. Leva meses até que se consiga produzir pela primeira vez uma simulação climática completa a partir de zilhões de conexões no computador.
"Com efeito, jamais conseguiremos verificar toda a realidade passada, podemos trabalhar apenas com probabilidades", admite Prömmel.
Um retículo com 350km de comprimento de lado; é algo um tanto rudimentar. Mas só esse modelo já revela mais do que se sabia até agora. Comandando suas teclas, Prömmel, por exemplo, reduz em 50% a altura das montanhas no Rift ou então as elimina de uma vez. Em seu monitor surgem então mapas com os contornos da África, pontilhados por composições de manchas amarelas, azuis e verdes. Essas são as cores de um verão há milhões de anos. Elas indicam onde caiu quanta chuva sobre o continente e em que local, em épocas que as cordilheiras ainda eram recentes ou ainda nem existiam.
E, como se uma janela da História da Terra se abrisse diante de nossos olhos, as simulações de Prömmel mostram quão enormes eram as diferenças climáticas nas diversas épocas, antes da existência do Grande Vale do Rift, durante seu soerguimento e finalmente à época de suas cordilheiras.
No monitor da meteorologista surgem respectivamente modelos completamente diversos de precipitação, seca, vegetação e etc. A Cordilheira do Rift formou uma barreira contra a qual, há milênios, as nuvens dos mais variados sistemas de ventos se chocavam e despejavam sua água de chuva. A quantidade dessa água se modificou com a altura da margem da fenda; o que também aconteceu com o clima.
O que aparece na montagem planetária de Prömmel combina com uma imensa e espetacular reviravolta provocada pela fratura geológica; uma imagem que é constantemente complementada por dados colhidos pelos pesquisadores "em campo". Por exemplo, com fragmentos escondidos no solo do Rift, onde transcorreu a maior epopeia de nossa história.
Onde se lê "nossa história", entende-se a "humanização".

O longo caminho até o ser humano
Não restou muita coisa dos nossos ancestrais pré-históricos, principalmente crânios e dentes. Mas com sua ajuda paleontólogos reconstroem a trilha da evolução humana. O ponto de inserção da coluna vertebral abaixo do crânio indica que a criatura andava ereta, como é o caso do Sahelanthropus tchadensis, considerado o primeiro do gênero. Mas quem deu o salto quântico foi o Homo, o supercérebro entre os primatas. Há 2,5 milhões de anos o volume cerebral de nossos ancestrais começou a aumentar, graças às suas ferramentas e crescentes habilidades que lhes permitiram alimentar-se com carne abundante. Essa alimentação rica em proteína, por sua vez, promoveu o crescimento cerebral. Um fenômeno de causa e efeito que ocorreu cada vez mais rapidamente e proporcionou ao homem possibilidades espetaculares de desenvolvimento: ele descobriu o fogo e, por fim, tornou-se caçador, lavrador e artista.
MAKUYUNI, no norte da Tanzânia. A poeira é vermelha, vermelha como a terra dos masai; ela sobe rodopiando pelas janelas dos carros, penetra pelas menores fissuras, cobre a pele. Galhos passam raspando por cima dos dois land rovers onde a pista é tão estreita que quase se funde com a densa vegetação espinhenta. Passando por rondavéis, rebanhos de cabras e seus pastores, por acácias com delicadas folhas verdes-claras e gigantescos baobás desfolhados, que prenunciam o período da estiagem, o caminho leva ao início dos tempos.
A expedição cruza um leito seco de rio cheio de blocos de basalto e finalmente para em "MK2", um sítio arqueológico do qual se podem ver as montanhas do Rift; a uma folgada meia hora de distância da aldeia Makuyuni e a cerca de 150km a oeste do Monte Kilimanjaro.
Friedemann Schrenk deixa seu olhar pairar sobre as colinas como um general de campo e diz animado aos seus alunos: "Esta é a terra dos ossos. Tragam-me alguns!" E então ele sai andando em sandálias gastas e bermudas. Em uma das mãos ele segura um martelo de geólogo, na outra o aparelho de GPS que deve registrar com precisão eletrônica tudo o que a busca no chão lhe render.
Friedemann Schrenk, 53 anos, paleoantropólogo no Instituto de Pesquisa Senckenberg, em Frankfurt, se candidatou a reavivar os ecossistemas soterrados juntamente com seus antigos habitantes; e para tanto ele necessita de muitos pares de mãos e muitos pares de olhos.
Perto de "Makuyuni 2" o pesquisador especializado em homens primitivos desenterrou há alguns anos partes fossilizadas do esqueleto de um precursor do hominídeo. Mas neste dia ele está em busca principalmente de fósseis de porcos e gnus, girafas, elefantes e hipopótamos. Com base nessas relíquias, Schrenk pretende tirar conclusões sobre as espécies de plantas que esses animais ingeriam; sobre a distribuição de rios e lagos em que viviam e sobre a composição do solo pelo qual trotavam ou transitavam.
Seu projeto é uma parte significativa do RIFTLINK, pois ele deve encontrar respostas para uma pergunta decisiva: como as transformações climáticas influíram na África, no mundo dos hominíneos, ou ancestrais do homem e de seus precursores?
Para isso, Schrenk coleciona principalmente um item: dentes, pois estes sobrevivem muito mais tempo.
Muitas vezes, ele descobre petrificações fósseis esbranquiçadas, acinzentadas ou enegrecidas, do tamanho de um dedo; algumas são compridas e ligeiramente curvas e lembram um conjunto de colunas aglutinadas. Outras são mais volumosas e dotadas de algo parecido com corcovas; muitas delas, angulares e quebradas.

O geólogo estrutural Daniel Köhn interpreta a rocha: diminutos modelos lhe revelam a origem das pedras
COM O PASSAR DOS ANOS, o pesquisador desenvolveu um senso apurado de onde em meio ao entulho de pedras calcárias, moitas de capim e galhos secos ele deve procurar. Ele escolhe uma peça retorcida. No final de um dente molar se destacam linhas brancas circulares, formadas de esmalte, o material mais duro da natureza. Com esse dente o animal moeu seus alimentos e deixou para a posteridade uma marca quase indestrutível: círculos são uma característica de dentes suínos.
Linhas em forma de meia-lua ocorrem em dentes de animais providos de chifres, como gazelas; linhas sinuosas, em cavalos e uma forma oval, em elefantes.
Os cientistas já recolheram centenas de dentes em diversas expedições pela África e como os hábitos alimentares de muitas espécies animais praticamente não mudaram durante milhões de anos, os fósseis dentários permitem concluir indiretamente que tipo de vegetação existia ali no passado remoto.
Com base nesse e em outros indícios, Schrenk e sua colega Christine Hertler, 45 anos, descobriram que Makuyuni foi habitat de animais amantes de capim: há 2 milhões de anos, não muito longe do Grande Vale do Rift, a paisagem deve ter sido seca, descampada com alguns grupos esparsos de árvores e vastas extensões de campinas entrecortadas por um rio que desaguava por um delta em um lago, muito semelhante ao panorama atual.
COM BASE EM ossos de patas que eles encontram volta e meia Hertler consegue até estimar o peso das criaturas: devem ter sido principalmente animais fortes, de grande porte e mais de 100kg. A maioria deles conseguia desenvolver boa velocidade, deduz a bióloga a partir dos pontos de inserção dos tendões de Aquiles.
Em compensação, sua capacidade de manobra era limitada, por isso, o solo teve ter sido mais duro que macio; um terreno ideal para corredores velozes e resistentes, entre eles, o Hipparion, um cavalo de três dedos, e outros quadrúpedes comparáveis às zebras modernas.

Um árduo caminho para ganhar conhecimento: os pesquisadores querem compreender melhor os mecanismos que criaram o Grande Vale do Rift. Eles batizaram o projeto de RIFTLINK, que visa estabelecer uma rede coesa de conhecimentos sobre o mundo da evolução humana
Criaturas semelhantes ao potamóquero- vermelho e ao javali-africano, antílopes kudu e gnus devem ter trotado por estas colinas. Mas hipopótamos, inhacosos (ou cob-untosos), elefantes primitivos ou ainda búfalos de mais de uma tonelada de peso, em parte duas vezes mais maciços que seus descendentes, também se espalharam por esta região.
ainda búfalos de mais de uma tonelada de peso, em parte duas vezes mais maciços que seus descendentes, também se espalharam por esta região.
HÁ 10 MILHÕES de anos um vasto cinturão de floresta tropical ainda cobria a região central da África; da atual Mauritânia passando pelo Chade até a Etiópia; de Angola pelo Congo até a Tasmânia. Aqui o clima era abafado e quente tanto no verão como no inverno. Árvores gigantescas, envoltas por cipós e muito próximas umas das outras, atingiam em parte alturas de 50 a 60m, um luxuriante tapete verde de mais de 6.000km de comprimento por 2.000km de largura. Um cosmo vaporoso habitado por uma profusão de caçadores e caças; de frutos, brotos, folhagens e seus onsumidores; um universo de constante atividade, de vida florescente e morte rápida.

Os dados de GPS de Sarah Stamps apoiam a "Teoria de Rotação" de Köhn: a Cordilheira Ruwenzori poderia ter saído da terra como que removida por um saca-rolha, como um colossal palco giratório
Há 7 milhões de anos, no máximo, tudo isso acabou, pois a Terra já vinha se resfriando drasticamente há algum tempo. Na Antártica a calota de gelo estendeu-se além das margens continentais; as geleiras da Europa esticaram suas "línguas" rumo aos vales e o clima ficou mais seco. Ninguém sabe o que essa gigantesca convulsão global desencadeou. "Mas é considerado certo que ela também transformou o continente africano", frisa Schrenk.
Há 7 milhões de anos, no máximo, tudo isso acabou, pois a Terra já vinha se resfriando drasticamente há algum tempo. Na Antártica a calota de gelo estendeu-se além das margens continentais; as geleiras da Europa esticaram suas "línguas" rumo aos vales e o clima ficou mais seco. Ninguém sabe o que essa gigantesca convulsão global desencadeou. "Mas é considerado certo que ela também transformou o continente africano", frisa Schrenk.
Esse novo mundo foi palco de uma invenção revolucionária, pois naquele cinturão desarticulado de vegetação surgiram estranhos primatas. Eles não se locomoviam mais apoiados sobre as quatro patas, mas reestruturaram a anatomia de seus aparelhos locomotores: os hominíneos. Os ancestrais, e parentes, bípedes do homem.
O FÓSSIL MAIS ANTIGO de um bípede na África até agora data de um período de aproximadamente 7 milhões de anos atrás e foi descoberto em 2002, ao norte do Chade, bem longe do Grande Vale do Rift e da Cordilheira do Ruwenzori: Sahelanthropus tchadensis. Entretanto, há quem duvide de sua classificação; principalmente aqueles pesquisadores que também alegam ter encontrado o mais antigo ser bípede, uma criatura parecida com um macaco, de 6 milhões de anos, no oeste do Quênia.
Mas muitos cientistas concordam que a evolução havia produzido a nova técnica de locomoção de forma múltipla e independente uma da outra, e que foi principalmente o clima que favoreceu a revolução anatômica. Pois todos os fósseis das primeiras criaturas bípedes foram encontrados na zona fragmentada da antiga floresta tropical. Portanto lá onde a seca, as estações do ano e o crescente frio transformaram, pouco a pouco, o denso verde em uma "colcha de retalhos" de acidentes geográficos.
Fique ereto! E ande…
Os chimpanzés têm uma coluna reta (1), uma bacia longa e estreita (2) e pernas em forma de "O" (3), o que só lhes permite uma posição ereta inclinada para frente e exige muita força ao caminhar. O homem, por sua vez, possui uma bacia curta e larga (2) com ossos femorais retos (3) inseridos verticalmente abaixo da bacia. Com isso, os joelhos de aproximam, possibilitando uma locomoção energeticamente vantajosa. A coluna vertebral curva (1) absorve os choques ao caminhar.

Mas por que os primeiros bípedes se aprumaram justamente ali? "Porque desse modo, ereto, eles podiam enxergar melhor as savanas de capim que se espalharam na época e, por isso, conseguiram dominá-las duradouramente". Pelo menos é isso que os antropólogos supuseram durante muito tempo.
Contudo, nesse ínterim surgiu uma teoria concorrente. Pois alguns dos primeiros bípedes eretos estavam equipados com dentes bastante delicados; eles só podiam mordiscar bagas, frutos, folhas jovens e brotos singelos, por isso, é provável que ainda tenham vivido nas florestas.
Entretanto, eles provavelmente empreenderam extensos avanços pelo terreno aberto. "A paisagem ‘colcha de retalhos’ foi um verdadeiro parquinho evolucionário com uma área de 6 milhões de km2", afirma Friedemann Schrenk. Onde antes um denso matagal impedia o caminho, os habitantes agora eram obrigados a passar pelos lugares mais ralos entre as ilhas verdes. Talvez eles dominassem essas distâncias com muita eficiência por meio de sua nova técnica de locomoção, do ponto de vista energético, o caminhar a passos lentos é bastante econômico.
A inovação poderia ter-lhes proporcionado um resfriamento melhor na passagem pelos trechos desprovidos de sombras; pois um corpo em posição ereta oferece uma área menor de exposição às agressões do sol.
E possivelmente um gargalo na busca de alimentos também contribuiu para a reforma anatômica: quando as florestas desapareceram, frutos ricos em óleos e sementes tornaram-se raros. Em busca de fontes de albumina, os hominíneos poderiam ter passado a adotar uma dieta de algas, moluscos ou caracóis, presume Schrenk. Para isso, eles teriam de vadear eretos e durante muito tempo por rios e lagos, algo que os babuínos ou chimpanzés de hoje fazem ocasionalmente.
Além disso, o consumo de moluscos provavelmente deu o impulso decisivo ao desenvolvimento do cérebro: eles são ricos em ácidos graxos, indispensáveis para a ampliação da "central do raciocínio". Desses primeiros pioneiros finalmente se desenvolveram variantes cada vez mais novas, que aos poucos foram também produzindo cérebros maiores. E um andar ereto cada vez mais articulado.
Três seres dessa nova estirpe caminhante deixaram pistas petrificadas na Tanzânia, descobertas em 1978: são 70 impressões que seu pés deixaram há 3,6 milhões de anos em cinzas vulcânicas frescas, enquanto caminhavam lado a lado e em fila. Esse trio de criaturas eretas provavelmente constituiu o símbolo mais significativo de que na África havia começado a era dos bípedes.
ENQUANTO ISSO, no leste, as margens da grande fenda continuaram a se soerguer e isso mudou tudo. Há cerca de 2,7 milhões de anos, quando elas atingiram uma altura média de 2.000m, de acordo com os cálculos de Daniel Köhn, teve início uma nova era. Embora a tendência para um clima mais árido e frio se mantivesse, a vizinhança da grande fenda agora se tornou uma zona de extremos, pois as oscilações do eixo terrestre irradiavam seus efeitos.
Desde todo o sempre a inclinação do eixo vinha balançando em um ritmo complicado de milhares de anos de duração e com isso sempre empurrava o globo terrestre para outra posição em relação ao sol. Isso resultou em um aquecimento diversamente intenso do planeta e confundiu os sistemas de ventos. Por essa razão, ora as monções se tornam mais violentas, ora mais fracas. Ora os trópicos recebem mais umidade vinda do oeste, ora do leste.
Desde todo o sempre a inclinação do eixo vinha balançando em um ritmo complicado de milhares de anos de duração e com isso sempre empurrava o globo terrestre para outra posição em relação ao sol. Isso resultou em um aquecimento diversamente intenso do planeta e confundiu os sistemas de ventos. Por essa razão, ora as monções se tornam mais violentas, ora mais fracas. Ora os trópicos recebem mais umidade vinda do oeste, ora do leste.
FOI JUSTAMENTE naquele período de caprichos climáticos que se desenvolveram gêprotótipos completamente novos entre os bípedes da África Oriental. Indivíduos troncudos e brutos subiram no palco da vida: os chamados "quebra-nozes" do gênero Paranthropus, que figuram entre os hominídeos mais antigos. Eram criaturas de ossos largos, dotados de poderosos dentes molares e músculos mandibulares de força monstruosa. Com isso eles conseguiam moer folhas de fibras duras e sementes de cascas rijas e espessas, que foram engrossando crescentemente para proteger as sementes dos extremos climáticos.
Mais ou menos à mesma época surgiu um protótipo oposto: o Homo rudolfensis, primeiro representante do gênero Homo, a primeira espécie humana da História.
Sua estrutura física não apenas era mais graciosa do que a do grosseiro "quebra-nozes", mas ele também possuía dentes menores. O Homo número 1 também remanejou a evolução externamente, tomando-a literalmente em suas mãos que, graças ao andar ereto, ele agora podia utilizar muito bem para novas tarefas.

Nem macaco, nem homem ainda: Ardi
Seu nome completo é Ardipithecus ramidus. Seus descobridores a chamamde Ardi. Ela teria vivido há 4,4 milhões de anos nas ralas florestas montanhosas da atual Etiópia, e é, desde que pesquisadores da equipe do paleontólogo americano Tim White a apresentaram ao mundo em dezembro de 2009, a mais jovem estrela da galeria de ancestrais humanos. Uma das razões é que seu esqueleto foi notavelmente bem preservado. Antes de tudo, porém, ela é considerada uma criatura mista particularmente esclarecedora na evolução do macaco ao homem. A forma de seus pés revela dupla habilidade: os dedões dos pés, acentuadamente afastados, lhe permitiam se agarrar a galhos, portanto, se mover sem dificuldades pela floresta. Ao mesmo tempo, Ardi já conseguia caminhar sobre pés chatos na terra: suas pernas não eram mais angulosas como a dos antropoides; a bacia já era mais ampla e as costas mais eretas. Ardi já possuía todas as disposições físicas de que seus descendentes necessitariam para aperfeiçoar o andar ereto, e com isso, abandonar definitivamente as florestas.
Esse homem pré-histórico extraía lascas de pedras para conseguir cortar. Pela primeira vez um habitante da Terra confeccionou deliberadamente ferramentas e instrumentos. Embora outros bípedes antes dele provavelmente também tivessem usado pedras para esmagar ossos de cadáveres a fim de chegar ao tutano, eles apenas utilizavam aqueles objetos que encontravam por acaso. O Homo, por outro lado, desenvolveu uma "cultura de ferramentas", ele seguia uma ideia, tinha uma noção da utilidade do utensílio que queria fabricar e transmitia seus conhecimentos às gerações seguintes. Desse modo, o progresso tecnológico entrou no mundo. As criaturas humanoides se emanciparam da natureza. Antes de tudo, porém, o Homo rudolfensis e seus descendentes provavelmente tinham condições de se adaptar melhor às condições climáticas que mudavam tão rapidamente.
Portanto, a chuva acelerou a evolução de nossos ancestrais.
Enquanto isso, os indivíduos do gênero Paranthropus, os "quebra-nozes", foram extintos há cerca de um milhão de anos; pois com sua "caixa de ferramentas" fixamente instalada na boca ele provavelmente não era particularmente flexível no período das grandes mudanças globais.
De agora em diante, o mundo pertencia ao gênero Homo, o mestre da adaptação.

Neve na linha do Equador: os picos da cordilheira dos Montes Ruwenzori chegam a mais de 5.100m de altitude. E estão sempre polvilhados por neve. Em lugares mais baixos também reinam extremos: todo dia verão, toda noite inverno, dizem os nativos
Com as novas ferramentas esses artistas espetavam, partiam e moíam seus alimentos. O que os "quebra-nozes" haviam Com as novas ferramentas esses artistas espetavam, partiam e moíam seus alimentos. O que os "quebra-nozes" haviam
Desse modo, eles resolveram de imediato e com muita eficiência uma parte de sua digestão. "O intestino, o órgão que ao lado do cérebro apresenta a maior necessidade de energia, provavelmente ficou paulatinamente mais curto", raciocina o paleoantropólogo Schrenk. "Com isso restou mais energia para a manutenção do cérebro".

No início da expedição foram distribuídos mantimentos e equipamentos técnicos: 430kg para 35 pessoas
A confecção de instrumentos cada vez mais aprimorados exigiu um órgão de raciocínio crescentemente complexo e as novas ferramentas garantiram seu abastecimento cada vez melhor; pois com a ajuda das afiadas ou pontiagudas lascas de pedras esses homens do Paleolítico cortavam a carne dos ossos de animais que haviam abatido ou descoberto como carniça. A ascensão ao grupo dos carnívoros garantiu definitivamente o abastecimento de albuminas. E, com isso, também a expansão do cérebro.
Por fim, o crânio do Homo acomodou um órgão de hoje em média 1.300cm3 de volume, cheio de ranhuras e conexões de 100 bilhões de células nervosas. Uma estrutura cuja construção é mais complexa do que qualquer outra no universo e que fez de nós os Homo sapiens, os homens sábios e espertos. Os mais inteligentes e bem-sucedidos seres do planeta, e os mais perigosos para todos os outros habitantes.
Criaturas que se submetem à árdua escalada do Ruwenzori carregando centenas de quilos de equipamentos. Que coletam dentes fossilizados e desencadeiam tempestades de dados em computadores. "Os únicos animais da Terra", diz o filósofo Peter Sloterdijk, "que perguntam de onde vieram".

Os geólogos contrataram ajudantes em uma aldeia aos pés da cordilheira e admiraram suas habilidades de equilibrar as cargas penduradas em tiras presas às testas
VALE DE BUJUKU, Cordilheira do Ruwenzori. A descida entorpece. Os geólogos se apressam para chegar ao vale, eles querem descer exatos 3.000m até o anoitecer. Eles inspiram com voracidade o ar que se torna cada vez mais rico em oxigênio. Mais uma vez eles atravessam a zona de vegetação do Ruwenzori: as colinas cobertas de ervas-de-são-joão de 10m de altura. A selva das flores gigantes. As florestas tropicais cheias de musgos e samambaias. E depois o sufocante verde tropical.
A vegetação se torna mais rala à medida que os pesquisadores se aproximam do vale: a floresta cede lugar à savana. Até o horizonte oriental só se estende um infindável tapete de areia vermelho amarronzada, vastas planícies de capim ressequido, das quais despontam isoladas árvores "acácia-guarda-sol" (Acácias tortilis) e euforbiáceas.
E assim parece que as milenares mutações da paisagem africana se espelham na descida do Ruwenzori.
"Quando se observa o mundo através dos olhos de um geólogo", comenta Sarah Stamps, "o planeta dá a impressão de ser uma criatura viva". Como um organismo que respira e envelhece; que contrai ferimentos e cicatrizes; e que tem um batimento cardíaco, como uma força que o impulsiona.
E que só assim possibilita o florescimento de plantas, animais e seres humanos.

O repórter de GEO LARS ABROMEIT (3° da esquerda na foto em grupo acima) e o fotógrafo CHRISTIAN ZIEGLER (2° da direita) com a equipe expedicionária. Os Montes Ruwenzori mostraram aos dois o limite de suas forças. A altitude fez Ziegler passar grotescamente mal: seu rosto inchou e se transformou em um balão. Em contrapartida, o biólogo JAN WEHBERG (à esquerda na foto menor, ao lado) e o ilustrador TIM WEHRMANN (m.) estavam confortavelmente aquecidos e secos no escritório em Hamburgo; eles elaboraram as grandes ilustrações dessa reportagem. Enquanto isso, o repórter JÖRN AUF DEM KAMPE (d.), em busca de dentes milenares, contraiu uma grave queimadura de sol na Tanzânia.
Fotos: Christian Ziegler
Fonte: http://revistageo.uol.com.br/