Daily Archives: 04/05/2011

Obama no Brasil

ENTREVISTA C/ SEBASTIÃO VELASCO, CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DA UNICAMP

A vinda de Obama ao Brasil coloca muitas interrogações. O que mobiliza o presidente dos EUA? A evolução surpreendente da crise do Oriente Medio pode dificultar o acesso norte-americano ao petróleo da região, numa situação como essa, o pre-sal brasileiro entra na agenda estadunidense e ganha maior importancia…?

Silvio Caccia Bava

LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL– Havia primeiro a ideia de que a presidente Dilma fosse aos Estados Unidos, mesmo antes da sua posse, para estreitar relações com o governo estadunidense. Isso aconteceu em várias oportunidades no passado. Ela não foi e Obama resolveu vir para cá. Que significado tem isso?

SEBASTIÃO VELASCO– A visita da presidente Dilma aos Estados Unidos foi um convite do Obama. E a resposta brasileira foi que isso não seria possível imediatamente porque a presidente estava concentrada na tarefa prioritária de compor o seu governo. A organização da agenda presidencial é um gesto carregado de simbolismo. A primeira viagem internacional da presidente do Brasil foi à Argentina, e não aos Estados Unidos, e isso diz alguma coisa para os dois países, para a região e para o mundo.

O que estava estabelecido é que haveria uma visita de Dilma aos Estados Unidos em março deste ano. Foi uma surpresa o anúncio, no discurso de Obama ao Congresso, de que ele viria ao Brasil. O significado é a disposição política de reatar as relações no nível muito bom que existiram em passado próximo, apesar das diferenças ideológicas que são sabidas e dos posicionamentos discrepantes do Brasil em relação a políticas importantes dos Estados Unidos.

Logo no início do governo Lula, o mundo foi comovido pela decisão dos Estados Unidos de invadir o Iraque, a despeito da decisão contrária do Conselho de Segurança da ONU. A posição do Brasil antes e depois dessa decisão foi claramente crítica. O governo brasileiro não se limitou à emissão de uma nota diplomática, mas promoveu intensa movimentação diplomática, que envolveu com destaque a figura do presidente: Lula se encontrou com chefes de Estado na Europa e se colocou – sozinho e em conjunto com os seus pares – frontalmente contra aquela iniciativa.

Também as negociações no âmbito da Organização Mundial do Comércio, a OMC, sob a liderança do Brasil e em conjunto com a Índia, contrariaram as propostas dos Estados Unidos para as negociações comerciais. Isto se deu na Conferência de Cancun, em 2003, que terminou num impasse. A rodada Doha continuou e se arrasta até hoje, mas um conjunto de temas que eram muito importantes para os Estados Unidos e também para a Europa simplesmente foi retirado da pauta. Não obstante tudo isso, a relação política entre os dois governos e os dois presidentes foi muito boa.  Lula tinha uma relação espontânea e muito afável com o presidente Bush, que veio duas vezes ao Brasil.

DIPLOMATIQUE– E como as relações Brasil-Estados Unidos ficaram com a eleição de Obama?

VELASCO– A princípio, tudo levava a crer que iriam ficar melhores ainda. Todos nos lembramos da forma efusiva com que o presidente Lula recebeu a notícia da vitória de Obama, na qual, aliás, ele expressava o sentimento de parcelas amplamente majoritárias da opinião pública brasileira. E não é só isso, os primeiros meses do governo Obama foram marcados por manifestação de simpatia e de atitude surpreendentemente aberta em relação à América Latina…

DIPLOMATIQUE– Essas expectativas se confirmaram?

VELASCO– Não, em grande medida elas foram frustradas. Veja a questão de Honduras. O Obama deu uma declaração quase impensável na boca de um presidente americano: “Não queremos a volta desse passado de golpes de Estado”.A declaração da Hillary Clinton foi crítica também… mas mais cautelosa. À medida que a crise foi se prolongando, Obama passou a ser apresentado na imprensa conservadora e nos blogs da direita americana como o menino de recados do Hugo Chávez e do Fidel Castro. Durante quase um ano, o governo americano não conseguiu aprovar o embaixador para o Brasil, o Shannon, porque os republicanos no Senado bloqueavam a votação. Houve nos Estados Unidos, nessa época, uma mobilização muito grande da opinião de direita, os anticastristas da Flórida e assim por diante e, dentro do governo americano, uma diferença de pontos de vista entre a presidência, a Casa Branca, o grupo que assessora diretamente Obama, de um lado, e o Departamento de Estado, de outro.

Os advogados do grupo que se assenhoreou do governo em Honduras eram dois auxiliares do Clinton. Dois auxiliares do Clinton que funcionavam como lobistas. Não eram figuras quaisquer, eram da entourage do Clinton. Então, Obama, ao longo do tempo, foi se deslocando, como ele fez em relação a tantas outras coisas e no final acabou defendendo uma solução, um encaminhamento para aquele problema, que era a consagração do que os golpistas queriam.

DIPLOMATIQUE– A mesma coisa com Guantánamo?

VELASCO– A mesma coisa com Guantánamo. Ele foi recuando, recuando.Quanto ao Irã, o governo Obama também começou fazendo gestos de abertura muito grande, inéditos, mas terminou optando por uma linha que apostava tudo em retaliações crescentemente severas, por iniciativa própria do executivo, mas também porque estava sendo pressionado por iniciativas no Congresso que acabaram sendo aprovadas: sanções mais fortes, muito mais restritivas que aquelas aprovadas no Conselho de Segurança da ONU.

Logo no início do mandato de Obama foi tentada uma negociação pela qual o Irã entregaria urânio a ser enriquecido pela França, que depois seria devolvido ao Irã para uso com fins pacíficos, uso civil da energia nuclear. As conversações foram abertas nesses termos, mas no meio do caminho ocorreu a eleição no Irã, cujo resultado foi fortemente contestado pela oposição. Com a crise decorrente desse conflito, a negociação desandou. Mas a ideia de uma solução diplomática não foi enterrada. O Brasil, que mantinha canais de diálogo abertos com o Irã, foi incentivado a pegar o bastão e conversar. Pois bem, o Brasil se lançou nessa intermediação, em parceria com a Turquia, e conseguiu o acordo contra a expectativa de todos.

No dia seguinte à sua divulgação, a secretária de Estado, Hillary Clinton, reagiu de forma brutal a esse acontecimento, o que provocou um abalo indisfarçável na relação política entre os dois países. O certo é o seguinte: essa não foi a primeira situação em que o presidente Obama se viu colocado em situação embaraçosa pela evolução do jogo de forças dentro dos Estados Unidos. Em relação a Honduras, foi a mesma coisa.

DIPLOMATIQUE– A OMC deu ganho de causa ao Brasil numa acusação de que a política norte-americana de subsídios e tarifas estava bloqueando o mercado norte-americano para o algodão brasileiro. E há uma lista que o governo brasileiro está preparando, com elementos de retaliação. Os jornais da grande imprensa estão anunciando que Obama assinará aqui um acordo comercial entre o Brasil e os Estados Unidos. Isso é uma resposta, de alguma maneira, para esse embargo da OMC?

VELASCO– Não, não. As indicações que eu ouvi são sobre a criação de uma estrutura que possibilite e facilite entendimentos futuros na área comercial. Quando o governo anunciou que iria retaliar – inclusive de forma cruzada, atingindo interesses na área da propriedade intelectual –, negociadores americanos vieram ao Brasil antes da adoção efetiva dessas sanções e acertaram um pacote de compensações que foi considerado satisfatório pelo governo brasileiro.

DIPLOMATIQUE– Por que a questão da propriedade intelectual é um nervo exposto na relação com os EUA?

VELASCO – A propriedade intelectual é, para o Estado americano, desde meados dos anos 1980, a joia da coroa. É aí que reside o segredo da superioridade econômica e da primazia política dos Estados Unidos no mundo.

Na história do capitalismo, a propriedade intelectual foi ganhando importância crescente. Em meados do século XIX, sua preservação deu origem a acordos internacionais, convenções internacionais que regulamentavam patentes, copyrights e assim por diante. No final do século passado, nos EUA, a percepção da importância estratégica, sobretudo para alguns grupos econômicos – indústria farmacêutica, indústria do entretenimento, indústria de informática – de assegurar o direito sobre esses bens intangíveis gerou a disposição de reformular as leis, ampliando esses direitos e punindo de forma muito mais drástica, como crimes, a violação deles. Feito isso, quase que de imediato, teve início uma campanha para transformar essa legislação em uma legislação de caráter internacional ou universal.

DIPLOMATIQUE– Ao que parece, as falas de Obama e a política de Estado dos EUA em relação à América Latina, à América do Sul, não combinam. Por exemplo, o acordo das bases militares na Colômbia, a tentativa de desestabilização dos governos do Equador, da Venezuela, da Bolívia, todos integrantes da Alba, Aliança Bolivariana para as Américas. Depois, com sucesso, em Honduras. Há várias informações que nos dizem que a própria preparação do golpe contou com a participação dos norte-americanos.

VELASCO– Não há nada de novo.

DIPLOMATIQUE– Então, o que é que o Obama vem fazer aqui?

VELASCO– Bom, no meu entender, ele vem tentar aparar as arestas que se produziram na relação entre os governos no final do período, não é? Basicamente em 2009, com a crise de Honduras, e em 2010, com o incidente a respeito da votação na ONU das sanções contra o Irã. E vem preparar o terreno para que as empresas americanas aproveitem mais intensamente as oportunidades geradas pelo dinamismo da economia brasileira.

DIPLOMATIQUE– Mas o Brasil tem tanta importância assim para o presidente dos Estados Unidos se dar ao trabalho de vir aqui?

VELASCO– O Brasil tem muita importância, se considera importante, e os Estados Unidos atribuem ao Brasil importância grande, embora menor do que o governo brasileiro gostaria. Há poucos dias o embaixador Abdenur – diplomata muito experiente, que já representou o Brasil em Washington e depois se converteu em crítico acerbo da política externa do governo Lula – afirmou que “Obama cometeria um erro grave se viesse aqui e não declarasse seu apoio ao ingresso do Brasil no Conselho de Segurança da ONU, como fez em relação à Índia quando visitou o país”.O problema é que os Estados Unidos não veem o Brasil e a Índia da mesma forma. No documento de Segurança Nacional dos Estados Unidos, a Índia aparece ao lado da China e da Rússia como centros-chave de influência no mundo. O Brasil aparece como país de influência crescente. A diferença pode parecer sutil, mas é outra coisa, outra categoria.

DIPLOMATIQUE– Anuncia-se que o Brasil está fazendo um acordo bilateral de comércio com os EUA. Isso “fura” com a lógica do Mercosul?

VELASCO– Não, ao que tudo indica é um acordo que não compromete o Brasil com a ampliação do acesso de produtos americanos ao mercado brasileiro. Acho muito difícil imaginar que o Brasil viesse a celebrar com os Estados Unidos um acordo em separado que criaria grandes percalços a um processo de integração que, afinal, é a obra principal da diplomacia brasileira desde o final dos anos 1980.

DIPLOMATIQUE– Vamos falar da valorização do real. A política norte-americana está induzindo a valorização de algumas moedas de países emergentes. E isso traz um sacrifício enorme para a economia brasileira em termos de exportações, de competitividade e tudo o mais. Os Estados Unidos estão impondo que esses países, incluindo o Brasil, paguem a conta do seu desajuste?

VELASCO– Já vimos esse filme antes. Os Estados Unidos são detentores da moeda de referência na economia internacional. Esse manejo da política monetária e fiscal tem efeito direto nas relações cambiais porque os EUA são a maior economia do mundo, com impacto direto, imediato e muito forte sobre todas as demais. Agora, o efeito do dinheiro fácil que se produz como resultado das decisões de política econômica nos Estados Unidos varia muito de país para país. Nós temos razões internas para estar com o real tão apreciado como está. A taxa de juros é muito elevada e isso tem a ver com os nossos problemas internos, e não com a política dos Estados Unidos.

DIPLOMATIQUE– Tem alguma coisa da agenda que não está nos jornais?

VELASCO– Cuba é um problema para o governo Obama. Venezuela também. E o Brasil tem relações muito boas com os dois países. Em qualquer avanço nas relações entre os EUA e Cuba, ou EUA e Venezuela, o Brasil certamente terá um papel importante a desempenhar.  As questões de relacionamento político dos Estados Unidos, com a América do Sul, obviamente, estão presentes. Há 15 anos, a ideia de que os países da América do Sul sentassem à mesa, discutissem problemas e aventassem soluções sem a presença dos Estados Unidos, era impensável. Hoje não, isso acontece de forma rotineira no âmbito de uma organização peculiar como a Unasul.

A Unasul converteu-se num espaço de coordenação política muito importante. Nós vimos isso na crise da Bolívia, em 2008. Crise que foi administrada regionalmente com a explícita exclusão dos Estados Unidos na condução do processo. A partir do momento em que o Evo Morales expulsou o embaixador americano, deslocou os Estados Unidos da gestão da crise. E foi no âmbito da Unasul que a solução foi encontrada. A Unasul não é o Brasil, mas o Brasil tem o papel de protagonista desse processo de integração econômica e política regional.

DIPLOMATIQUE– Essa situação ajuda a esclarecer os objetivos da visita, não?

VELASCO– Sim, mas há algo mais. O Brasil se credencia para ser referência em muitos debates no plano global. Agora, tudo isso fica muito reforçado quando, por esforço nacional, e com tecnologia nacional, se descobre uma reserva como essa do pré-sal, que abre um campo enorme de possibilidades tanto no plano da extração do óleo quanto da transformação industrial em inúmeras cadeias produtivas. Então, desde 2008, os analistas políticos e de mercado avaliam que em algumas décadas o Brasil será um país com posição muito relevante no quadro internacional. Eu acho que essa avaliação está presente nas decisões do governo americano e é também por isso que Obama estará aqui. O Brasil não é um fator desprezível. É um fator decisivo na região e fator significativo em nível de política internacional.

Silvio Caccia Bava é editor de Le Monde Diplomatique Brasil e coordenador geral do Instituto Pólis.

Fonte: http://diplomatique.uol.com.br/

Cresce a fúria popular na Síria

Apesar das escassas notícias procedentes do país, a informação passada por ativistas no terreno indica que a situação se deteriora.

Mona Alami

Apesar das escassas notícias procedentes da Síria, a informação passada por ativistas no terreno indica que a situação se deteriora. Enquanto o governo permanece em silêncio diante dos acontecimentos em todo o país, as rezas muçulmanas do dia 15 continuam refletindo a dissensão que parece propagar-se em todas as classes sociais. “As pessoas estão muito descontentes, sobretudo depois que os homens presos na cidade de Banyas foram libertados, quando surgiram versões de que foram torturados”, disse um ativista, que pediu para não ser identificado por razões de segurança.

A rede de TV árabe Al Jazeera informou, no dia 13, que pelo menos 200 homens de Banyas foram detidos pelas forças de segurança. Segundo um ativista, em resposta, as mulheres da cidade fizeram uma manifestação exigindo a libertação de todos. “A revolução desenvolveu sua própria dinâmica. Quando o regime mata manifestantes, cria mais fúria nas ruas, o que leva a mais protestos’, disse Anas al-Abdah, membro fundador do grupo de oposição Movimento pela Justiça e o Desenvolvimento.

Na última semana, milhares de pessoas se manifestaram e apoiaram o movimento pró-democrático que se espalhou a outras cidades como Baida, Latakia, Douma (subúrbio de Damasco) e Homs. Na aldeia de Ain Arab, Norte da Síria, cerca de 600 curdos fizeram um protesto pacífico de uma hora, segundo a agência de notícias francesa AFP. A Al Jazeera informou que pelo menos cinco pessoas morreram em protestos perto da cidade de Homs. Citou fontes do governo dizendo que dois policiais morreram na localidade de Talbiseh, no dia 17, enquanto outros informes indicavam que também manifestantes foram mortos.

A Anistia Internacional informou que o conflito na Síria já provocou 171 mortes, e a lista enviada por um ativista indica que houve 972 prisões. “O regime escolheu o caminho da repressão violenta e não pode retroceder a esta altura, assim, prevejo maior derramamento de sangue. Mas, insisto em dizer que a violência é cometida por uma só parte”, disse Abdah. No dia 15, o presidente Bashar Al Assad anunciou a libertação de centenas de manifestantes, exceto os que estavam envolvidos em “atos criminosos”.

O governo insiste que organizações criminosas estão por trás de grande parte da violência. A agência nacional de notícias Sana, citando uma fonte oficial, acrescentou que 19 pessoas, incluindo membros das forças de segurança, foram assassinadas por “grupos armados”. Segundo Abdah, “são capangas contratados pelo regime, conhecidos como shabiha, e enviados para atacar os manifestantes”. Os meios oficialistas responsabilizam pelo levante um complô externo para derrubar Al Assad, organizado por Arábia Saudita, Estados Unidos e facções libanesas. Ativistas consideram estas acusações absurdas.

A repressão e as incriminações não dissuadem os manifestantes, que inicialmente exigiam mais liberdade, e agora pedem diretamente uma mudança de regime. O número e o alcance das manifestações são limitados em grandes cidades como Damasco e Aleppo, “mas o simples fato de ocorrerem já é significativo” destacou um ativista. “A Síria assiste ao ressurgimento da sociedade civil, que está em sua fase embrionária. Estão surgindo líderes comunitários que dirigem o movimento de protestos”, acrescentou Abdah. Em resposta, o governo sírio aposta em um duplo enfoque: em lugar de lançar uma forte repressão contra os manifestantes, aceitou receber uma delegação de Daraa, cidade que se converteu em símbolo da dissidência.

No dia 16, Assad prometeu que a lei de emergência, em vigor desde 1963, seria levantada antes do dia 25 deste mês. A implementação das reformas se tornou uma necessidade do regime para poder sobreviver. E, enquanto são feitas promessas de mudanças, a violência continua. Nas últimas semanas, a morte de soldados gerou especulações de que eles estavam sendo executados por se negarem a disparar contra manifestantes.

Abdah disse que, embora exista uma “elite” militar leal à família Assad, a vasta maioria das Forças Armadas é formada por sírios comuns. “A divisão dentro do Exército já começou. Há informes confirmados de conscritos e oficiais de baixa patente executados por desobedecerem a ordem de atirar nos manifestantes. Temos os nomes dessas pessoas. Também há informes confirmados de conscritos que acabam desertando para não matar civis”, acrescentou.

Se continuar o uso excessivo da força contra os civis, a hierarquia do Exército enfrentará um dilema: atuar diretamente na repressão ou colocar-se ao lado do povo. Por outro lado, uma recente declaração do Ministério do Interior da Síria não sugere que o regime mudará de atitude: “Não há mais lugar para a indulgência ou a tolerância na aplicação da lei para preservar a segurança do país e dos cidadãos, e proteger a ordem pública”.

Foto: http://www.revistaforum.com.br/

O que estão a esconder em Fukushima

Hirose TakashiHirose Takashi escreveu uma prateleira de livros, a maioria sobre a indústria da energia nuclear e o complexo militar-industrial.

Douglas Lummis

Hirose Takashi

O seu livro mais conhecido é provavelmente "Nuclear Power Plants for Tokyo" no qual ele leva a lógica dos promotores do nuclear a conclusão lógica: se têm tanta certeza de que as centrais nucleares são seguras, porque não construí-las no centro da cidade em vez de a centenas de quilómetros, perdendo metade da electricidade pelos cabos condutores?

De certa forma, deu a entrevista, que está parcialmente traduzida em baixo, contra os seus impulsos. Hoje, falei ao telefone com ele (22 de Março de 2011) e disse-me que, embora fizesse sentido apoiar a energia nuclear naquela altura, agora que o desastre começou, ele ficou calado, mas as mentiras que estão a contar na rádio e na TV são tão flagrantes que tinha de falar.

Tranduzi apenas o primeiro terço desta entrevista (poderá vê-la na íntegra no youtube japonês), a parte que diz respeito ao que está a acontecer nas centrais de Fukushima. Na última parte, ele falou sobre o quão perigosa é a radiação em geral, e também sobre o perigo contínuo causado pelos terramotos.

Depois de ler o seu relato, vai perguntar-se sobre o porquê de continuarem a deitar água sobre os reactores em vez de aceitarem que a solução sarcófago (isto é, enterrar os reactores em betão). Julgo que existem algumas respostas. Primeira, aqueles reactores foram caros e não dá para suportar o custo financeiro. Outra, e mais importante, aceitar a solução sarcófago significaria admitir que estavam errados e não podem compor a situação. Por um lado, é demasiada culpa para um ser humano suportar. Por outro, significa a derrota da ideia da energia nuclear, uma ideia à qual se devotam religiosamente. Representa não só a perda destes seis reactores (ou dez), mas também o encerramento dos outros todos, uma catástrofe financeira. Se os conseguirem arrefecer e pô-los a funcionar, então podem dizer "vêem, a energia nuclear não é assim tão perigosa". Fukushima é uma tragédia que o mundo inteiro está a assistir, pode acabar numa derrota (perante a sua esperança, que julgo existir sem fundamento) ou numa vitória para a energia nuclear. O relato de Hirose pode ajudar-nos a perceber o que está em jogo.

(Apresentação de Douglas Lummis)

Hirose Takashi: O Acidente na Central Nuclear de Fukushima e os Meios de Comunicação

Entrevistadores: Yoh Sen’ei e Maeda Mari

Muitas pessoas viram água a ser deitada sobre os reactores a partir do ar e do chão, mas é eficaz?

Se se quiser arrefecer um reactor com água, tem de circulá-la lá dentro de modo a tirar o calor, de outra forma não serve para nada. Por isso, a única solução é voltar a ligar a electricidade. Se não, é como deitar água em lava.

Voltar a ligar a electricidade – isso para reiniciar o sistema de arrefecimento?

Sim, o acidente foi causado pelo facto de o tsunami ter inundado os geradores de emergência, destruindo os seus depósitos de combustível. Se isso não for reparado, não há possibilidade de recuperar deste acidente.

A TEPCO (Tokyo Electric Power Company, proprietária e gestora das centrais nucleares) diz que esperam voltar a ter uma linha de alta voltagem ainda esta noite.

Sim, existe uma réstia de esperança. Mas o que é preocupante é que um reactor nuclear não é como os desenhos esquemáticos que as imagens mostram. Isto é apenas um cartoon.

Energia nuclear

Energia nuclear

Aqui está como é por baixo de um contentor do reactor. Isto é a parte final do reactor. Veja bem. É uma floresta de alavancas, fios e canos.

Na televisão, surgem estes pseudo-académicos e dão-nos explicações simples, mas não sabem nada, estes professores universitários. Só os engenheiros sabem. Aqui é onde a água deve ser deitada. Este labirinto de canos é suficiente para provocar tonturas. A sua estrutura é demasiado complexa para nós entendermos.

Desde há uma semana que têm estado a deitar água por aqui. E é água salgada, ok? Se deitas água salgada numa fornalha, o que pensas que acontece? Ficas com sal que entra em todas estas válvulas e pára-as. Não se mexem. Isto vai acontecer em todo o lado. Portanto, não acredito que seja apenas uma questão de se voltar a ter electricidade e a água começará a circular outra vez. Penso que qualquer engenheiro com um pouco de imaginação entende isto. Temos um sistema incrivelmente complexo como este e depois deita-se água a partir de um helicóptero – talvez eles tenham uma ideia de como isto funciona, mas eu não entendo.

Vão ser precisas 1300 toneladas de água para encher a piscinas que contêm as varas de combustível que foram gastas nos reactores 3 e 4. Esta manhã 30 toneladas. Depois, as Forças de Auto-Defesa vão canalizar mais 30 toneladas a partir de cinco camiões. Isto não é nem perto do que seria suficiente, terão de continuar. Vai esta operação de jorrar água pelas mangueiras mudar a situação?

Em princípio, não. Mesmo quando um reactor não está danificado, requer controlo constante para manter a temperatura baixa até onde é seguro. Agora está tudo voltado do avesso, e quando penso nos restantes 50 operadores, fico com lágrimas nos olhos. Suponho que foram expostos a enormes quantidades de radiação, e aceitaram que enfrentam a morte ao estar lá dentro. Quanto tempo terão? Quero dizer, fisicamente. É a isto que a situação chegou. Quando vejo os tais relatos na televisão, quero dizer-lhes, "Se realmente é assim, então vai lá tu!" A sério, eles dizem estes disparates para tentar acalmar toda a gente, evitar o pânico. O que precisamos agora é justamente de pânico porque a situação chegou ao ponto em que o perigo é real.

Se eu fosse o primeiro-ministro Kan, ordenaria que fosse feito o que a União Soviética fez aquando da explosão do reactor de Chernobyl, a solução sarcófago, enterrar tudo sob cimento, pôr todas as empresas de cimento do Japão a trabalhar e deitá-lo a partir do ar. Temos de assumir as piores situações. Porquê? Porque em Fukushima está a Central Daiichi com seis reactores e a Central Daini com outros quatro num total de dez. Se apenas um deles evolui para o pior, então os trabalhadores terão de evacuar o sítio ou ficar e colapsar. Se, por exemplo, um dos reactores em Daiichi for abaixo, para os outros cinco será uma questão de tempo. Não podemos adivinhar em que ordem, mas com certeza que todos eles cairão. Se isso acontecer, Daini não é assim tão longe, e provavelmente os seus reactores também não sobreviverão. Acredito que os trabalhadores não vão poder ficar lá.

Estou a falar do pior caso, mas a probabilidade não é baixa. É este o perigo que o mundo está a assistir. Só no Japão é que está a ser escondido. Como sabe, dos seis reactores de Daiichi, quatro encontram-se em estado crítico. Mesmo que tudo corra bem e a circulação da água seja restaurada, os outros três poderão ainda dar problemas. Quatro estão em crise, e para recuperarem em100%, odeio dizê-lo, estou pessimista. Se correr mal, para salvar as pessoas, temos de pensar numa forma de reduzir a fuga de radiação para o nível mínimo possível. Não através de deitar água com mangueiras que é como borrifar o deserto. Temos de pensar que os seis poderão colapsar, e a possibilidade de tal acontecimento não é baixa. Toda a gente sabe quanto tempo demora um tufão a passar pelo Japão; geralmente leva uma semana. Isto é, com um vento de 2m/s, pode levar cinco até que todo o Japão fique coberto de radiação. E não estamos a falar de distâncias de 20 ou 30 km, mas sim de 100 km. Significa, Tóquio, Osaka. E assim, rapidamente se pode espalhar uma nuvem radioactiva. Claro que dependerá do tempo, não podemos saber de antemão como é que a radiação se distribuiria. Há dois dias, no dia 15 (de Março), o vento soprava em direcção a Tóquio. É assim…

Todos os dias o governo local mede a radioactividade. Todas os canais de televisão estão a dizer que, enquanto a radiação aumenta, ainda não é alta o suficiente para ser um perigo para a saúde. Comparam-na a um raio-X ao estômago, ou a um TAC. Qual é a verdade?

Por exemplo, ontem. À volta da Estação Daiichi de Fukushima, mediram 400 milisievert1 por hora. Com esta medição, Edano (Secretário do Chefe de Gabinete) admitiu pela primeira vez que havia um perigo para a saúde, mas não explicou o que isto quer dizer. Toda a informação dos meios de comunicação está aqui a falhar. Estão a dizer coisas estúpidas, como: "mas nós estamos sempre expostos à radiação durante o nosso dia-a-dia, recebemos radiação dos espaço." Mas isto é 1 milisievert por ano. Um ano tem 365 dias, um dia 24h; multiplique-se 365 por 24 e obtemos 8760. Multiplique-se 400 milisieverts por isto e obtemos 3 500 000 vezes a dose normal. Chamamos a isto seguro? E os média noticiaram isto? Nada. Comparam-no a um TAC que acaba de imediato, não tem nada a ver. A razão pela qual a radiação pode ser medida é porque o material radioactivo está a escapar. É perigoso quando este material entra no nosso corpo e emite radiação a partir de dentro.

Estes académicos porta-vozes da indústria vêm a televisão e dizem o quê? Dizem que ao deslocarmo-nos em sentido contrário, a redução da radiação é inversamente proporcional ao quadrado da distância. Eu digo o contrário. A radiação interna acontece quando o material radioactivo está dentro do corpo. O que acontece? Digamos que estamos a um metro de uma partícula nuclear, ao respirarmos, ela entra no nosso corpo; a distância entre nós e a partícula é agora de um micron. Um metro são mil milímetros, um micron é um milésimo de um mílimetro. Ou seja, mil vezes mil: um milhar quadrado. Este é o significado real do "inversamente proporcional do quadrado da distância." A exposição à radiação aumenta no factor de um trilião. Inspirar a mais pequena partícula, é este o perigo.

Então, comparações com raios-x e TACs não são possíveis, porque se pode inspirar material radioactivo.

Sim, é isso. Quando entra no nosso corpo, não se pode dizer para onde vai. O maior risco são as mulheres, especialmente, mulheres grávidas, e crianças pequenas. Agora estão a falar sobre iodo e césio2 [2], mas isso é só parte do assunto, não estão a usar os instrumentos próprios para detecção. O que eles chamam monitorização significa apenas a medida da quantidade de radiação no ar. Os seus instrumentos não comem. O que eles medem não tem conexão à quantidade de material radioactivo.

Então, os danos causados pelos raios radioactivos e causados por material radioactivo não são os mesmos.

Se perguntar: existem quaisquer raios radioactivos da Central Nuclear de Fukushima neste estúdio, a resposta é não. Mas as partículas radioactivas são transportadas pelo ar. Quando núcleo começa a derreter, os elementos que estão dentro, com o iodo, tornam-se gases. Elevam-se no ar, se houve alguma falha escapa cá para fora.

Existe alguma forma de detectar isto?

Um jornalista disse-me que a TEPCO não tem capacidade nem para fazer a monitorização regular. Apenas fazem medições ocasionais, que são a base das declarações de Edano. Devem realizar-se medições constantes, mas eles não estão em condições de o fazer. E é preciso investigar o quê e quanto está a escapar, o que requer instrumentos de medição muito sofisticados. Não se pode fazê-lo apenas através de um posto de medição. Não chega medir o nível de radiação no ar. Precisamos de saber que tipo de materiais radioactivos estão a escapar, e para onde vão – não têm um sistema capaz de fazer isso agora.

Douglas Lummis é um cientista político que vive em Okinawa e é o autor de "Radical Democracy".

Tradução de Sofia Gomes

Fonte: http://socialismo.org.br/

Resistência à escravidão e tortura nas prisões dos Estados Unidos

Hoje em dia as indústrias nas prisões geram lucros de 30 bilhões de dólares por ano enquanto os presos ganham entre 21 centavos e 1 dólar por hora para fabricar equipamentos eletrônicos, rádios, equipamento militar, roupa ou suas próprias jaulas.

Carolina Saldaña

- Sabe de uma coisa LaMar? Um ser humano só pode durar pouco tempo sem alimento.

- Sim, eu sei, mas segundo o Estado de Ohio eu não sou um ser humano, então não me afeta.

(Diálogo entre Bomani Shakur (Keith LaMar) e o sub-diretor da Penitenciária de Ohio no início de uma greve de fome pelos “5 de Lucasville” em 3 de janeiro de 2011, citado pelo jornalista Denis O’Hearn).

A meta da ação empreendida por Bomani Shakur, Siddique Hasan (Carlos Sanders), e Jason Robb, com o apoio militar de Namir Mateen (James Were) e George Skatzes, era se colocar em uma melhor posição para lutar contra as sentenças de morte que receberam por organizar a rebelião na penitenciária de Lucasville, Ohio em 1993. O ato se inspirou na greve dos presos no estado de Georgia realizada apenas um mês antes e conhecida como a maior da história dos Estados Unidos. Com o grito de ordem “Chega de escravidão!”, milhares de presos em várias penitenciárias se negaram a sair de suas celas para trabalhar.

Esses atos de resistência trazem à luz a natureza do monstruoso sistema penal nos Estados Unidos, conhecido por seu complexo industrial carcerário.

Os Estados Unidos encarceram a porcentagem mais alta de sua própria população entre os países. Com menos de 5% da população do mundo, os EUA tem 25% de seus presos. Desde o início das políticas neoliberais, em 1973, a população carcerária tem aumentado sem precedentes. Antes, havia aproximadamente 220 mil presos em todas as penitenciárias federais, estatais e municipais do país; agora, há 10 vezes mais: 2.4 milhões. Cerca de dois terços têm pele escura – 42% são negros, 20% latinos e 1% indígenas. Um em cada nove homens negros entre 20 e 34 anos se encontra atrás das grades. (A porcentagem para o país é de 1 em cada 100 pessoas).

Duras leis antidroga, políticas de “tolerância zero”, rígidas sentenças para delitos leves e decisões arbitrárias dos conselhos de liberdade são alguns dos fatores que tiram das ruas milhares de pessoas descontentes e potencialmente rebeldes. Mas em tempos de desindustrialização e desemprego massivo, as pessoas consideradas “indesejáveis” por não contribuírem na acumulação da riqueza adquirem valor econômico nas indústrias carcerárias como mão de obra gratuita ou muito barata.

A escravidão

Em seu artigo “A escravidão na nova plantação”, publicado no San Francisco Bay View, Kiilu Nyasha observa que a escravidão foi abolida nos EUA na Emenda XIII da Constituição, exceto nas prisões. As plantações se converteram em prisões depois da Guerra Civil e foram preenchidas por escravos recém libertos, devido às leis que criminalizavam atividades como “andar pela rua”. Além disso, outras leis legalizaram o aluguel dos réus aos proprietários de terra ou empresários e assim começou a nova escravidão africana nas prisões dos Estados Unidos.

Devido à resistência dos mineiros, ferroviários e outros trabalhadores afetados pelo trabalho gratuito dos presos, esse sistema caiu em desuso no início dos anos 1930 para ser substituído por chain gangs (grupos de prisioneiros acorrentados) obrigados a construir estradas. Ainda que a maioria dos estados tenha deixado de utilizar o sistema em 1955, a prática foi retomada no Arizona, Florida, Iowa e Maine, em 1995. Os presos ainda trabalham em plantações no Texas, Alabama, Mississipi, Luisiana, Georgia e Carolina do Sul.

Em uma entrevista para Socialist Alternatives, o grevista Shawn Whatley explica que os presos de Georgia, dos quais 66% são negros, são submetidos a apagar incêndios ou limpar empresas privadas sem receber um centavo. “Se tiver sorte, eles te dão um hambúrguer”. “Nós produzimos roupas, sabão, toalhas, artigos de limpeza, cadeiras, placas para os automóveis, placas de sinais de trânsito. Para dizer a verdade, o estado de Georgia foi construído e é mantido pelos presos”.

Hoje em dia, as indústrias nas prisões geram lucros de 30 bilhões de dólares por ano, enquanto os presos ganham entre 21 centavos e 1 dólar por hora para fabricar equipamentos eletrônicos, rádios, equipamento militar, roupa ou suas próprias jaulas. Uns poucos programas pagam o salário mínimo, mas o Estado recupera 80% do pagamento em deduções. Supõe-se que o trabalho nas indústrias é voluntário, mas em muitos casos há castigos caso os presos se neguem a trabalhar. Desde 1983, as prisões privadas têm proliferado e agora existem pelo menos 150 construídas e/ou administradas por corporações transnacionais como Wackenhut and Corrections Corporation of America (CCA).

A tortura

De acordo com a doutora Nancy Heitzig, entrevistada por Angola 3 News, a tortura geralmente começa nas delegacias e prisões locais com espancamentos, choques elétricos, afogamento simulado e humilhações sexuais. Continua nas prisões com o uso de cães, armas paralisantes, cadeiras restritivas, excesso de calor ou frio, privação sensorial, estupro, espancamentos e isolamento.

No passado o isolamento consistia em passar vários dias no “buraco”. No início dos anos 1970, quando ativistas dos movimentos de libertação organizaram rebeliões nas prisões, se desenvolveram unidades de controle para isolá-los dos outros presos. Agora qualquer pessoa considerada “incorrigível” pode ficar trancada por semanas, meses, anos ou décadas. Presos políticos como Ruchel Magee, Hugo Pinell, Albert Woodfox, Herman Wallace e Jalil Muntaqim passaram mais de quatro décadas isolados!

Essas unidades podem ser parte de uma prisão ou a prisão em si, como Pelican Bay na Califórnia, ou o Supermax de Florence, Colorado. Dentro delas se encontram os corredores da morte e unidades experimentais como a Unidade de Gerenciamento das Comunicações na prisão de Marion, onde são mantidos centenas de muçulmanos “suspeitos”.

As unidades de controle empregam métodos sofisticados para modificar a conduta e controlar qualquer mínima expressão de contestação, como fazer uma pergunta. Os presos ficam em uma cela que mede 2 x 2.6 metros durante 22 ou 23 horas diárias. Não há nenhum som exceto o da televisão ligada do lado de fora. As ligações telefônicas são limitados e não há contato físico durante visitas. A luz está sempre acesa e uma câmera grava a vida do preso.

Presos políticos como Sundiata Acoli têm escrito sobre os efeitos do isolamento prolongado, que incluem queda de cabelo, tiques nervosos, olhar perdido, debilidade muscular, falta de concentração, tensão, confusão mental, insônia, inabilidade para conversar, paranóia e perda de memória. Especialistas como o Dr. Terry Kupers classificam o isolamento prolongado como tortura e defensores dos direitos humanos reivindicam o fechamento imediato das unidades que se utilizam dessa prática.

A resistência

Vinte dias depois do início da greve dos “5 de Lucasville”, Bomani Shakur escreveu:

“Em 12 dias conseguimos o que as autoridades nos disseram repetidamente que nunca iria acontecer. Pela primeira vez em 16 anos vou poder abraçar e beijar a minha família! Não tenho palavras para expressar a profunda gratidão que sinto… Quando alguém é obrigado a viver em um espaço do tamanho de um closet durante 16 anos, 23 horas por dia, não só começa a se sentir extremamente insignificante, como o próprio mundo parece se contrair. Tudo, até as coisas menores, parecem impossíveis. Nunca nos meus sonhos mais fantásticos havia imaginado a chuva de apoio e amor que recebemos…”

Os presos de Georgia não conquistaram suas demandas: um salário vital em troca de trabalho, fim dos castigos cruéis e melhores condições de saúde, educação e vida. Mas a violência entre gangues parou, amedrontando as autoridades.

Os atos de resistência se destacam pela superação das divisões instituídas ou manipuladas pelo Estado. Em Georgia, vimos a cooperação de negros, brancos, mexicanos, muçulmanos, cristãos, rastafáris, Crips e Bloods. Shawn Whatley comentou: “Decidimos deixar de lado nossa diferenças. O Esquadrão Tático entra com a violência; não importa a cor da sua pele ou a sua maneira de pensar. Tem um objetivo: aplicar a força e nos ferir…”

Shawn e outros presos enfrentaram cruéis represálias, incluindo transferências para destinos desconhecidos e espancamentos com martelos, resultando em fraturas. Até hoje ninguém sabe o paradeiro de 37 presos identificados como líderes da greve. No entanto, os presos planejam continuar sua luta.

Na rebelião de Lucasville em 1993, algo inédito aconteceu: os brancos que respondiam ao chamado dos negros não tinham uma consciência anti-racista. Pelo contrário, eram de um grupo neo-nazi, a Irmandade Ariana!

Na introdução do livro de Staughton Lynd, Lucasville, Múmia Abu-Jamal diz: “Poucas coisas causam temor ao estado como a unidade dos presos. De certa maneira a própria prisão reflete o princípio norteador da sociedade em geral: divisão, conflito entre raças, classes e gêneros. Dividir para vencer. Por isso tiveram de fazer de Hasan o bête noire, o bode expiatório, o líder que havia criado o caos. George Skatzes então se tornou um inimigo público. Quer saber por quê? Porque se negou a incriminar os demais. Em suma, não se aproveitou do privilégio de sua pele branca para delatar os irmãos”.

Depois da rebelião de Lucasville, Skatzes saiu da Irmandade.

Bomani disse: “Gostaria de dizer que isso tudo terminou, mas ainda querem nos matar. Vamos resistir e precisamos de apoio de fora”.

Tradução: Gabriela Moncau

Fonte: http://carosamigos.terra.com.br/

Brasil está na retaguarda da América Latina

Alguma coisa mudou radicalmente no âmbito dos movimentos sociais, no Brasil, a partir do ano de 2003. Aquele era o ano em que assumia o governo uma figura muito esperada por parte da esquerda: Luis Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores.

Elaine Tavares

Movimentos sociais se movem muito devagar.

1143 Brasil está na retaguarda da América Latina

Em todo o país, na quarta tentativa de Lula para assumir a Presidência, o lema era de que a esperança havia, enfim, vencido o medo, e grande parte das gentes esperava significativas mudanças na vida daqueles que durante anos a fio haviam lutado para garantir um governo de esquerda no Brasil. Essa esperança trazia no seu bojo o desejo de transformações que dessem vazão à demanda popular construída ao longo dos governos de Sarney, Collor, Itamar e Fernando Henrique Cardoso. Mas, com poucos meses de governo, o presidente Luis Inácio deu início a um processo de divisão e desagregação dos movimentos sociais que, hoje, passados oito anos, se configura num quadro de completa desmobilização, apatia e cooptação. Ao se iniciar o terceiro mandato petista, em 2011, o que se tem de movimento social combativo no Brasil não passa de lutas pontuais, sem maiores articulações e quase sem chance de vitória.

Tudo isso não aconteceu por acaso, foi cirurgicamente constituído pelo governo hegemonizado pelo PT. Ou seja, Luis Inácio, sendo da esquerda, conseguiu fazer o que ninguém antes havia logrado: praticamente esfacelar o movimento popular. Um dos primeiros atos do governo Lula foi a realização do que ficou conhecido como a “contrarreforma da Previdência”. Apesar de, durante o mandato de Fernando Henrique, o PT ter sido o partido mais importante na luta contra as medidas de mudança na Previdência, foi Lula quem conseguiu colocar em prática quase tudo o que as grandes corporações de previdência privada desejavam há tempos. A proposta de reforma tinha no seu conteúdo o aumento da idade para aposentadoria, o fim da aposentadoria por tempo de serviço, o fim da aposentadoria integral e a entrada da previdência privada na vida dos brasileiros como única forma de garantir um salário viável quando chegasse a hora de se aposentar. No geral, isso significava um duro golpe nos trabalhadores.

Foi aí que começou a divisão. Parte dos sindicatos e partidos de esquerda decidiu apoiar o governo na sua proposta de mudança na Previdência. Alguns deles de boa fé, acreditando que seria impossível o PT apresentar qualquer proposta que viesse a trazer prejuízo aos trabalhadores. Outra parte já estava cooptada com cargos no governo, servindo como espaço de abafamento das lutas. Apenas uma pequena parte do mundo sindical decidiu se insurgir contra a medida. Foi, então, deflagrada uma greve, que teve a participação da maioria dos trabalhadores do serviço público, naquela contrarreforma os mais atingidos. Mas, mesmo dentro das entidades dos trabalhadores do serviço público houve divisão, o que acabou enfraquecendo o movimento. Tudo isso mostrou o quanto o movimento sindical estava fraco, despreparado, incapaz de dar respostas eficazes ao ataque governista.

A greve contra a reforma previdenciária durou três meses e terminou com um saldo melancólico. O governo do PT, nascido das lutas sindicais e populares, sabia muito bem como fazer para destruir a unidade dos trabalhadores e decidiu oferecer ganhos salariais separadamente para as categorias em luta. O resultado foi a completa desagregação.

Algumas lideranças insistiam em defender a proposta governamental, acreditando que era o melhor para o Brasil, e outras aproveitaram para garantir melhorias financeiras para suas bases. Assim, ao final da luta, a reforma passou e algumas categorias de trabalhadores conseguiram aumentos significativos. Durante esse processo, muitas lideranças sindicais não conseguiram informar com clareza que a reforma proposta aniquilaria esses aumentos quando a aposentadoria chegasse. Todo esse despreparo juntou-se ao desinteresse da maioria dos trabalhadores por um tema que consideravam muito longínquo, como a aposentadoria. Boa parte deles preferiu render-se ao aceno de ganhos salariais e a greve, que começara como uma luta contra a reforma, acabou com a apresentação de tabelas de reajustes financeiros.

Não bastasse isso, a reforma garantiu a entrada definitiva dos fundos de pensão, obrigando os trabalhadores que ganhavam mais de R$ 2,3 mil a optar por esta alternativa de risco. Sim, de risco, porque os fundos de pensão recolhem dinheiro dos trabalhadores e jogam com ele na Bolsa de Valores, o que significa que ao final de uma vida de trabalho a pessoa pode tanto ter o seu dinheiro, como não ter. Esse risco nunca foi bem trabalhado por parte das lideranças sindicais, um pouco pelo já citado despreparo, e outro pouco pela cooptação, como se pode observar na declaração da diretora executiva da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Denise Motta, durante uma plenária de servidores federais em Brasília: “Uma greve pela retirada da reforma tem poucas chances de ser vitoriosa”.

Mais tarde, em 2005, toda essa operação de aprovação da reforma da Previdência estourou como o escândalo do “mensalão”, no qual ficou comprovado que o governo havia comprado o voto de boa parte dos parlamentares para que fossem favoráveis à reforma. Também mais tarde foram os parceiros políticos de Lula os que assumiram o comando dos fundos de pensão, como denuncia o jornalista Ranier Bragon: “O DNA político dos 43 dirigentes dos grandes fundos de pensão estatais brasileiros mostra uma forte relação com partidos políticos, notadamente o PT, sendo que um dos elementos dessa ligação pode ser medido objetivamente: 56% desses diretores fizeram doações financeiras a candidatos nas últimas quatro eleições. O presidente nacional do PT, Ricardo Berzoini, foi o destinatário de quase um terço delas. Sete dos dez diretores dos maiores fundos são do PT” (http://www.conjur.com.br/2009-mar-08/pt-diretores-10-maiores-fundos-pens…).

Logo, estava tudo muito claro. A batalha da Previdência inaugurava um novo tempo no Brasil, no qual a esquerda haveria de se ver bastante despreparada para agir. Em praticamente todos os sindicatos e movimentos populares, a reforma da Previdência cobrou seu preço. O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), um dos mais importantes e fortes espaços de luta do país, não tomou partido, mantendo-se neutro nesse debate. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) preferiu apoiar o governo, os trabalhadores das empresas privadas foram instados a ficar contra os trabalhadores públicos, numa batalha intraclasse e a pequena parcela da esquerda combativa que conduziu a greve de 2003 teve de conviver com as acusações de que estava fazendo o jogo da direita, que lutava por privilégios, que estava tentando desestabilizar o governo popular.

Ainda assim, as entidades que atuaram na greve contra a reforma da Previdência entenderam que era preciso encontrar uma forma de articulação nacional para dar vazão às lutas que se anunciavam. A CUT estava cooptada e mais tarde, em 2007, isso se concretizou com a indicação do seu presidente, Luis Marinho, para assumir o Ministério do Trabalho e Emprego. Então começou um processo de construção do que ficou conhecido como Coordenação Nacional de Lutas, a Conlutas. Essa coordenação realizou encontros nacionais e apontou novas estratégias para a defesa dos trabalhadores. Durante a greve, tudo funcionou muito bem, mas, tão logo o movimento paredista acabou, mesmo esta coordenação começou a dar sinais de esfacelamento, o que também denotou o despreparo teórico e político por parte das lideranças sindicais. A direção, hegemonizada pelo Partido Socialista dos Trabalhadores do Brasil (PSTU), encontrava franca oposição por parte de outras forças e mesmo dentro deste incipiente espaço de luta criado com a greve, a divisão igualmente se formou. O final do ano de 2003 foi profundamente confuso para os trabalhadores e não havia sindicato ou movimento combativo que não estivesse tremendamente cindido.

O governo atacou com mais um golpe certeiro a luta sindical. Criou, ainda em 2003, o Fórum Nacional do Trabalho e Emprego, um espaço que se dispôs a reunir trabalhadores, governo e patrões, no melhor estilo da conciliação de classe. A idéia era discutir conjuntamente as estratégias para uma convivência pacífica entre capital e trabalho, forçando a criação de uma reforma sindical. Mais uma porta para a cooptação, uma vez que os representantes dos trabalhadores foram indicados pelo governo. Não bastasse isso, ainda havia as diárias e ajudas de custo, que tornavam o Fórum muito mais atrativo, fazendo com que os membros representantes dos trabalhadores não abrissem mão da participação. Além disso, a proposta de reforma que foi sendo gestada no FNTE acabou atrelando fortemente o mundo sindical ao Estado, a ponto de as Centrais Sindicais serem legalizadas, tendo de cumprir uma série de requisitos para garantir a representação dos trabalhadores. Ou seja, o Estado e os patrões definiram juntos as regras para a organização dos trabalhadores, coisa que em governos anteriores teria posto o movimento sindical inteiro na rua. Mas, no governo Lula, apenas algumas entidades ligadas à Conlutas bradaram contra isso.

A reforma sindical também provocou mudanças radicais na vida dos trabalhadores. De repente, a luta sindical combativa, que era quase uma muralha homogênea articulada pela CUT, cindiu-se em várias centrais. Cada partido decidiu criar a sua central e em poucos anos o Partido dos Trabalhadores hegemonizava a CUT, o Partido Comunista do Brasil, a CTB, o Partido Socialista dos Trabalhadores Brasileiros, a Conlutas, e o Partido do Socialismo e da Liberdade, junto com algumas tendências do PT atuava na Intersindical, isso sem contar as centrais atreladas a partidos de direita, que, nesta conjuntura atuaram também apoiando o governo de Luis Inácio. Em 2010, a Conlutas e a Intersindical ainda tentaram um congresso que unificasse as forças mais à esquerda, mas tudo acabou em nada, com mais uma tremenda divisão num congresso melancólico.

Ainda no bojo das reformas, ou contrarreformas, o governo decidiu atacar a universidade e, com isso, acertar de morte um dos movimentos mais fortes no país: o dos docentes e dos técnico-administrativos, todos trabalhadores das universidades. A proposta de reforma era o desmonte da educação superior pública, com a privatização avançando pelas beiradas. Criou também o Programa Universidade para Todos (Prouni), uma proposta que garantia renúncia fiscal para as universidades privadas, caso elas oferecessem bolsas de estudo a jovens oriundos do ensino público. Essa política serviu como uma grande alavanca de propaganda do governo que ganhou a mente das famílias empobrecidas que agora poderiam ter um filho na faculdade. Mas, para se ter uma idéia, só no ano de 2010, segundo o Ministério da Educação, o Prouni concedeu 241.273 bolsas de estudos para estudantes empobrecidos, e apenas metade delas foram integrais, o que significa que mais de cem mil estudantes ainda tiveram que encontrar formas de viabilizar o pagamento das mensalidades.

Com estas bolsas o governo deixou de arrecadar em impostos (renúncia fiscal das universidades privadas) apenas R$ 105 milhões, “um custo muito baixo”, segundo os administradores do programa. Por outro lado, com as verbas disponíveis para a iniciativa privada, as universidades públicas poderiam suprir uma demanda de mais de 400 mil vagas, todas públicas, verdadeiramente sem custos para os estudantes. Mas, essa reivindicação não conseguiu se concretizar. Assim, o governo enfraqueceu as Instituições Federais de Ensino e salvou da ruína as universidades privadas que estavam em grave crise. A proposta de garantir educação de segunda classe para os pobres venceu, com a manutenção da lógica de desmonte nas universidades públicas. Coisa que pareceria impensável num governo do PT. A destruição que isso provocou no movimento dos trabalhadores se refletiu no sindicato nacional dos professores, que acabou dividido em duas instituições distintas, e o dos técnico-administrativos gravemente esfacelado no seu interior, a ponto de entre os trabalhadores nascer a cisão entre os governistas e os não governistas. Um massacre na luta. As disputas internas paralisaram o movimento e muito pouco se conseguiu avançar no campo geral das lutas.

No campo popular esta divisão também acabou se explicitando. O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, por exemplo, ficou no silêncio por um longo tempo, em apoio ao governo Lula. Durante as primeiras reformas, que arrasaram a vida sindical e a educação, não houve muito apoio, a não ser de algumas lideranças isoladas. Só bem mais tarde, já no segundo mandato petista, que o MST começou a fazer críticas, até porque o governo de Luis Inácio avançou muito pouco na questão da reforma agrária. Em contrapartida, a ligação com o agronegócio se fez de forma muito sólida e se consolidou na liberação dos transgênicos, reivindicação antiga dos megafazendeiros. Já no campo das desapropriações de terra para os trabalhadores, os números foram bem menores do que os do governo de FHC. O governo diz em seus relatórios que aumentou em 120% as desapropriações de terra, mas, conforme estudo do geógrafo Ariovaldo Umbelino de Oliveira, professor da Universidade de São Paulo (http://www.istoedinheiro.com.br/noticias/50480_INCRA+INFLA+NUMEROS+DE+RE…), desse total, 26,6% já estava nas mãos de famílias que produziam, só não tinham o título, 38,6% era de terrenos abandonados, ocupados por famílias. Assim, apenas um terço deste total seria de assentamentos novos. Ainda observando os números, observa-se que seguiu de forma sistemática a violência no campo, outra grande demanda do movimento. Segundo a Comissão Pastoral da Terra, as tentativas de assassinato passaram de 44, em 2008, para 62, em 2009; as ameaças de morte, de 90, foram para 143; o número de presos nos conflitos de terra aumentou de 168 para 204. O ano de 2008 registrou 9.077 famílias despejadas, subindo para 12.388 em 2009. Também aumentou o número de famílias ameaçadas por pistoleiros, de 6.963 para 9.031. Esses dados fizeram o MST começar a esboçar uma reação, mas nada muito contundente.

Assim, ao longo dos oito anos do governo Lula, conseguiu-se o que a direita brasileira não lograra em décadas: dividir e enfraquecer a luta popular. As demais batalhas que se viram no país, como a que exigia a não transposição do Rio São Francisco, ou a construção da Barragem de Belo Monte, foram e seguem sendo lutas quase isoladas, muito pouco divulgadas e sem uma articulação nacional. Como as centrais sindicais estão esfaceladas e, na maioria, atreladas ao governo, não há um movimento que informe e organize a resistência em todos os Estados do país. As lutas acabam sendo pontuais e envolvendo apenas as pessoas que circulam na região onde acontecem os fatos. Tudo fica desagregado, logo, sem força.

No Norte do país, o movimento indígena também tenta desesperadamente avançar nas suas demandas, contra a usina de Belo Monte, pela demarcação de terras, contra a invasão de terras já demarcadas, mas, igualmente, acaba fazendo uma luta isolada, sem ressonância nas demais categorias. As lutas populares acontecem premidas pela conjuntura e sem encontrar uma articulação nacional que provoque a solidariedade de classe.

Outras importantes lutas também aconteceram, com destaque nacional. Em lugares como São Paulo, o movimento de famílias sem-teto foi bastante forte durante o governo de Lula, com muitas ações e grande resistência. Também o movimento pelo transporte público mobilizou grandes multidões em Florianópolis, Salvador e São Paulo. Mas, como lutas conjunturais e isoladas, não conseguiram articulação necessária para incendiar o país inteiro, ainda que temas como transporte e moradia sejam muito sensíveis na população.

A Central de Movimentos Populares, que também teve importância capital na articulação das lutas durante o governo de FHC, e que, junto com o Jubileu Sul, organizou nacionalmente a luta contra a dívida externa, arrefeceu, e tampouco conseguiu juntar os movimentos em lutas nacionais durante o governo Lula. Hoje, o governo federal fala em fim da dívida externa e até chegou a emprestar dinheiro para o FMI. Por outro lado, conforme relatório do Ministério da Fazenda (http://www.tesouro.fazenda.gov.br/hp/relatorios_divida_publica.asp), o país tem uma dívida interna de R$ 1,628 trilhão por conta de praticar as mais altas taxas de juros do mundo. Poucas são as entidades que falam sobre isso e propõem lutas contra essa sangria da economia nacional. Tampouco se consegue atingir a opinião pública com essas informações, que no geral só circulam em fóruns particularizados. Atualmente, no Brasil, dentro deste universo de dívida, os Bancos detêm 35,4%, num total de R$ 536 bilhões, sendo os fundos de pensão os que vêm logo atrás com 31,3%. Uma bola de neve que cresce dia a dia, sem que os movimentos consigam eficácia na denúncia dos malefícios que advêm desta situação.

Uma olhada no boletim da dívida produzido pela Auditoria Cidadã da Dívida deixa muito claro o que causa ao país esta política: do orçamento geral da União executado em 2009, num total de R$ 1,068 trilhão, 35,57% foram para pagamento de juros e amortização da dívida, logo dinheiro praticamente morto. Se considerarmos que outros 25,91% vão para a Previdência e 11,06% seguem para Estados e municípios, o que sobra é muito pouco para investimento real.

Agora, em 2011, a presidenta Dilma Roussef, também do PT, inicia seu mandato com a reestruturação ortodoxa de todo o pessoal da área econômica. As mesmas figuras que atuaram na política conservadora, as mesmas propostas de juros altos e superávit à custa do sacrifício popular. Não bastasse isso, já anunciou para este ano um corte de R$ 50 bilhões no orçamento do país e todos sabem onde isso vai bater: cortes na saúde, na educação, na segurança, na política de moradia, na cultura, na ciência e tecnologia. Ou seja, de novo, os mais pobres seguirão pagando a conta para que os mais ricos sigam tendo lucros astronômicos. Projetos como o Bolsa Família, que garante renda mínima (R$ 140) a quase 12 milhões de famílias, são importantes, mas não passam de paliativos. Não há, no governo petista, qualquer proposta de emancipação real dos mais pobres. Ainda assim, no início deste ano, com tantas medidas de recessão, ainda são poucos os movimentos de luta. Se algo se move no Brasil, são pequenos e pontuais movimentos que ainda não conseguiram uma articulação capaz de dar conta de uma luta unificada neste país continente de mais de 8.511.965 km2 de território.

Para alguns analistas como o professor de Economia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Nildo Ouriques, será preciso que a crise se instale com mais concretude para que os movimentos sociais iniciem um processo unificado de luta efetiva nas ruas. Mas, mesmo que isso aconteça, sem uma proposta nacional e revolucionária que possa organizar essas lutas, as ações seguirão sendo pontuais e inócuas do ponto de vista da transformação. Por enquanto, ainda não se vislumbra no horizonte a possibilidade de uma ação coordenada nacionalmente. Falta preparo aos dirigentes e falta um projeto unificador para que os trabalhadores do Brasil, os movimentos sociais e os sindicatos possam entrar finalmente no rol das grandes transformações que já se constroem em outros países da América Latina.

Elaine Tavares é jornalista.

Fonte: http://envolverde.com.br/

A árvore da vida

Pouco visto no Brasil, "O Novo Mundo", de Terence Mallick, é um antídoto ao maniqueísmo e aos estereótipos de "Avatar"

Ronaldo de Noronha

Há filmes cuja forma nega implicitamente suas intenções explícitas, como "Avatar". Outros têm intenções difíceis de descobrir, mas trazem na forma as pistas para descobri-las –como em "O Novo Mundo", cujas intenções brotam do modo como aparece para nós.

"Avatar" endossa alegoricamente a causa da defesa da Natureza e dos povos que nela e dela vivem contra os "interesses materiais", mas nada há de "natural" nas imagens fabricadas que John Cameron desenhou para manifestar essa intenção. Menos adequada ainda a essa causa é a fórmula maniqueísta do filme de ação, com seu suspense de encomenda, personagens estereotipadas e batalhas espetaculares e ruidosas.

Já "O Novo Mundo" parece não ter intenções, nem esposar uma causa. Contudo, compartilha com "Avatar" um mesmo núcleo simbólico: a Árvore da Vida; uma mesma narrativa de origem: a Conquista da América; e uma personagem: a filha do rei do povo da floresta, que namora o invasor. Mas quantas diferenças entre eles!

Como "O Novo Mundo" foi escassamente assistido e apreciado no Brasil e seu autor, Terrence Malick, é quase desconhecido aqui, é preciso salvá-lo do esquecimento mostrando a originalidade e a beleza da sua forma de filmar e contar a história. Começando pelos métodos de captar imagens, ponto por ponto opostos aos empregados por John Cameron.

Antes da filmagem, Malick e o fotógrafo Emmanuel Lubezki decidiram filmar tudo sempre com luz natural e obrigatoriamente em profundidade de campo, princípios do "cinema do real" que favorecem a indeterminação do sentido cara à arte moderna.

Encorajaram os "cameramen” a filmar coisas inesperadas ou que o instinto deles recomendasse, devendo usar apenas câmeras na mão ou Steadicams.

Além disso, deviam filmar em "visão subjetiva", seja qual for o significado disso. Finalmente, advertiram que imagens "sem força visual" não seriam aproveitadas.

Resulta que em "O Novo Mundo" a câmera nunca está fixa e parece vagar no espaço cênico, imponderável, imaterial; ela flutua, deambula entre as coisas e os seres, como um espírito invisível cujas razões para estar ali fossem incertas, indeterminadas; movimentos leves e fluidos combinam quase sempre deslizamentos verticais e laterais.

Filmar instintivamente coisas inesperadas, acidentais, resulta na impressão de "imagem achada". Plasticamente, é evidente a opção pela imagem não-autossuficiente, que não contém a si mesma no sentido de imagem fechada, dotada de estrutura plasticamente resolvida.

É notável a confiança de Malick no fotógrafo, nos "cameramen" e nos atores –confiança não só técnica, mas também criativa, estendida a outros colaboradores, como o diretor de produção, figurinistas, cenógrafos etc.; os "native americans" chamados a representar os Algonquim originais foram convocados a inventar danças, tatuagens etc.

Isso exigiu sintonia fina da equipe de filmagem (em locação, nos mesmos lugares em que a "história real" ocorreu). Foi uma aposta na convivência e na cooperação democráticas, esperando criar um espírito comum, uma espécie de fraternidade cinematográfica, para que a ideia do filme se apossasse de todos e se multiplicasse num sem-número de formas, cada uma delas particular e distinta, mas integrada às demais e ao todo que é o filme.

Pois é sabido que o espírito que reina na filmagem se transmite como que por transubstanciação ao material filmado. Quando há liberdade no set de filmagem, o filme como que respira livremente. O contrário também é verdadeiro.

Cada plano do filme sugere que o mundo visível e sonoro escapa pelas bordas do quadro, que cada imagem é tão somente um fragmento de uma totalidade indeterminada, aberta e como que por fazer. Como se fosse apenas uma imagem possível, acontecida por acaso e por isso mesmo mais preciosa.

Relativamente desarticuladas entre si no sentido da lógica da descrição narrativa, elas têm em comum a mesma presença visual, um estilo de composição plástica que eu designaria como: uma força de cores e sons naturais sensorialmente impressionantes. Direi também que são belas.

Mas o quer dizer filmar "em visão subjetiva"? Subjetiva de quem? De algum personagem? Às vezes, Malick nos dá a ver e ouvir o que os personagens lembram ou imaginam –mas será só isso? Talvez se trate também da visão de Malick. O filme é a visão dele, que "entrou na cabeça" deles e nos mostra o que pensam, sentem, vivem.

Ou talvez seja a visão de um espírito, o Espírito que a moça invoca no começo do filme. Antes dos créditos, vemos imagem de água, rio ou riacho azul que flui mansamente; uma eclosão de folhas deslizando; reflexos de céu, nuvens e copas de árvores. Ouvem-se grilos, pássaros, água gotejando, o vento, enquanto uma voz feminina diz:

"Vem, Espírito. Ajuda-nos a cantar a história da nossa terra. És a nossa Mãe. Nós, teu campo de milho. Nós nos erguemos de dentro da tua alma".

No plano seguinte, em forte contra-plongée, a moça ergue os braços ao céu, que ocupa todo o fundo da imagem, e gira sobre si mesma; traz as mãos à testa e volta abrir os braços. A tela escurece.

Nos planos submarinos depois dos créditos, em transparência através da água, vêem-se corpos mais ou menos nus de índios mergulhando, brincando, apontando para algo fora de quadro: são como crianças, brincando no Éden…

Seriam visões do Espírito daquela terra, errando invisível como um deus entre as pessoas, vendo-as viver, sofrer, amar, morrer, prisioneiras dos seus destinos? Não distanciada e objetivamente como um deus severo e legislador, mas como um deus local que haure das plantas, águas, ares e animais sua força e sua fraqueza, compartilhando com os humanos seu destino?

A moça, que a tradição chamou de Pocahontas, embora seu nome Algonquim fosse Mataoke, gosta de falar através de imagens de natureza. Quando John Rolfe pergunta: "Quem são vocês? O que vocês sonham?", ela responde: "Nós somos como a grama". Ou então: "Você flui através de mim como um rio" e "Ele é como uma árvore. Ele me abriga. Eu repouso na sombra dele".

A natureza está em toda parte, todo o tempo, não só como "décor", mas filmada diretamente como uma personagem: imagens de rios, mar, grama, árvores, campos incultos, sem presença humana. Na faixa sonora há sempre sons de bichos, vento, água.

Malick e sua equipe filmaram esta história como quem encarnou esse Espírito que, séculos atrás, viu a Terra e seu povo Algonquim serem invadidos e conquistados por uma raça estrangeira, meticulosa, planejadora e inflexível; e agora narra coisas vividas que constituíram o que os historiadores chamam de "expansão europeia".

Uma singularidade do estilo malickiano é o uso obsessivo e obsedante do "voice over", que não vem de dentro da imagem, mas soa como que vinda de um além-dela. Ele preenche o filme com a interioridade dos personagens, com essas conversas com o próprio "self" em que eles ganham uma espessura e deixam entrever mistérios, dúvidas, sonhos, desejos.

É nas vozes interiores que surgem as questões que cada um se põe sobre a própria identidade e a dos outros: "Quem é você?", perguntam uns aos outros. Este tema, o da identidade coletiva e individual, atravessa o filme como um problema para os personagens e as coletividades que integram, sobretudo para Mataoke.

São questões prementes quando povos de culturas diferentes se encontram: dizem respeito aos deuses que veneram, às ecologias das suas sociedades, às línguas que falam, aos horizontes de suas vidas, aos gostos que têm, às imagens de si que organizam as biografias e a perspectiva de futuro de cada um, a com quem formam famílias.

São ainda mais prementes quando o encontro traz violência, guerra, dominação e ocupação territorial. Ao ser informada da morte de John Smith, Mataoke cobre o rosto de cinzas, anda sem rumo entre pessoas que não conhece e lamenta sua irreparável perda. A tela escurece.

Desescurece com a imagem de uma tocha pondo fogo numa cabana de palha: soldados ingleses estão incendiando a aldeia onde ela nasceu. A grande casa-comum, lugar da convivência e dos rituais dos Algonquim, arde e desaba; homens, mulheres e crianças fogem perplexos, carregando suas coisas para não sabem onde; o Rei passa entre seu povo, fulminado pela tragédia; Opechancanough vagueia entre nuvens de fumaça; uma plantação jaz abandonada, coberta de cinzas.

Quanto a Mataoke, nós a vemos, em imagens velozes, durante a narração da chegada e assentamento dos ingleses, ao lado de um jovem que a chama de irmã, única mulher entre os guerreiros que visitam escondidos os misteriosos estrangeiros. É muito jovem, ao que dizem tendo apenas 14 anos quando a história começa. E bela –eis o que fala John Smith:

"Todas as filhas do rei eram belas. Mas ela, a mais jovem, era tão excessivamente tal que o próprio Sol, embora a visse sempre, ficava surpreso quando ela saía em sua presença".

Coube-lhe, entre os seus, o papel de mediadora vis-à-vis os estrangeiros. Ela intercede pela vida de Smith quando ele está prestes a ser executado: "Poupe-lhe a vida", suplica ao pai, que a atende e encarrega de aprender como é a terra dele "além das águas".

Seu destino é ainda mais singular que o de Smith. Trânsfuga como ele, o laço que os prende –erótico-amoroso– é a razão da sua queda: a perda irreparável da sua primeira identidade, da condição de membro de uma comunidade fundada em laços de sangue.

Vivendo entre estrangeiros, recebe o nome de Rebecca. Veste roupas e sapatos ingleses, trava novos laços sociais e afetivos e adquire outra identidade, à qual se resigna com grande dignidade. Casando com Rolfe, que a conquista de modo tão burguês quanto Smith romanticamente, e dando-lhe um filho, cria um lugar honroso entre esse povo, que a chama de "Princesa": ela ganha fama além-mar, é recebida pelos reis ingleses e morre, muito jovem, em terra estrangeira. Vou lembrar-lhe os últimos momentos.

Rolfe anuncia ao filho que "sua querida mãe, Rebecca, adoeceu na nossa passagem externa, em Gravesend. Ela me lembrou gentilmente que todos devem morrer. É bastante, ela disse, que você, nosso filho, deva viver."

Ajoelhado ao lado da cama pouco antes dela morrer, Rolfe toma-lhe as mãos, enquanto ouvimos em "voice over" a fala acima. O menino passeia sozinho no jardim e há como que uma falta ao lado dele. O fantasma do irmão morto surge, tatuado de azul, primeiro sentado numa cadeira como num trono; depois, fugindo para o ar livre.

Sucedem-se seis planos dela, de vestido verde, andando no jardim do castelo entre árvores outonais, que ela acaricia (tudo é verde nesta cena). À beira de um lago, salta e faz uma estrela, salta de novo e gira sobre si mesma. Depois entra nele e abre um largo sorriso; ergue as mãos para o céu como no começo do filme e as desce; curva-se para apanhar água com as mãos e jogá-la na cabeça.

Depois, corre animadamente, sorriso aberto, paralelamente à câmera que a acompanha em panorâmica. Um pássaro desliza no céu azul.

O fim do filme chega rápido, com Rolfe e o filho repartindo para a Virginia. O último plano é uma árvore imensa e poderosa em forte contra-plongée: a Árvore da Vida, sem dúvida.

Essas imagens sugerem que depois de morrer, ela continua viva, como um espírito da floresta, dos rios e do mar. Ela sobrevive no seio da Mãe, que homenageia e saúda no fim com o mesmo gesto ritual que vimos no começo.

Sua figura luminosa percorre o filme com graça incomparável. É uma heroína pacífica e gentil, estranha a qualquer ardil, malícia e mentira. Usemos para ela esta expressão fora de moda: como uma encarnação da pureza que havia nos homens e nas mulheres antes deles inventarem o Ressentimento, a Máquina e o Dinheiro.

Ronaldo de Noronha - É professor de sociologia da arte e da cultura na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Foi crítico de cinema do "Estado de Minas" entre 1965 e 1985.

Fonte: http://p.php.uol.com.br/

Cerca de Miseráveis

Parida à noite no gabinete do prefeito de Osasco, Emídio de Souza, do Partido dos Trabalhadores (PT), aprovada na Câmara de Vereadores da cidade e sancionada pelo mesmo prefeito no final do ano passado, a Lei dos Bolsões Residenciais é inconstitucional, não foi debatida democraticamente com a comunidade pobre que constitui a grande maioria da população de 718.646 habitantes do município, mas é comemorada com entusiasmo pela elite local: Associação dos Lojistas, Associação de Condomínios, associações de bairros com imóveis de padrão mais elevado, especuladores imobiliários e empresas de segurança privada.

Otto Filgueiras

Paralelamente, em fevereiro passado, a televisão Record exibiu reportagem sobre o funcionamento ilegal de bingos e caça-níqueis no município, demonstrando que quadrilhas legais e ilegais atuam em Osasco há muitos anos e com proteção da polícia, confundindo-se com o crime organizado.

Na região do Novo Osasco, os caça-níqueis funcionam clandestinamente ou abertamente e com proteção policial em muitos estabelecimentos comerciais. Até o ano passado, o presidente da Câmara de Vereadores da cidade, Osvaldo Virgínio, um ex-PM envolvido em acusação de assalto a banco, era aliado do prefeito Emídio de Souza e corre de boca em boca que o vereador também estaria enrolado em atividades econômicas escusas. Na última eleição federal ele fez campanha para o PT, se candidatou a deputado por um partido aliado, mas não conseguiu se eleger.

Em meio aos interesses econômicos das quadrilhas legais e ilegais está o bairro City Bussocaba, um loteamento com 800 casas de padrão mais elevado e localizado próximo da Avenida Nova Osasco. Até 2005, o lugar era relativamente pacato, com algumas ocorrências de furtos e assaltos a mão armada, a exemplo do que acontece nas grandes cidades brasileiras. A partir de então, os assaltos a residências se multiplicaram e o bairro passou a ser alvo da cobiça das administradoras de condomínios, de empresas de segurança privada vinculadas a policiais e da Sociedade de Amigos da City Bussocaba (Sacity), que pressionam os moradores no sentido de pagarem a segurança privada da AGEM e as mensalidades da Sacity, cujo número de associados é reduzido e não totaliza nem 2% do total da população do bairro.

Ainda assim, no final do ano passado, a Sacity conseguiu do prefeito Emídio de Souza a consolidação da doação em comodato de um terreno da prefeitura para construção de sua sede social no bairro, onde máquinas da Secretaria de Obras Municipal fizeram a terraplenagem.

Por pressão da Associação de Condomínios, Associação de Lojistas, sociedades de bairros com imóveis de padrão mais elevado e manipuladas por especuladores imobiliários, o prefeito Emídio de Souza também elaborou no ano passado a Lei dos Bolsões Residenciais ou a "Cerca de Miseráreis", como já é chamada ironicamente pela população pobre, permitindo assim que alguns bairros possam ser "fechados" e se tornem ilegalmente falsos condomínios, nos quais a prefeitura, a PM e o poder público deixam de ter responsabilidades e os moradores arcam com quase todos os serviços do lugar, incluindo a segurança privada.

No caso de Osasco, a Lei dos Bolsões Residenciais permite o fechamento completo de bairros e ruas, portarias com guaritas e cancelas impedindo o acesso de pessoas que não residem no local. Diferente, portanto, de bolsões de outras cidades, nos quais a lei é mais amena e aparentemente visa reduzir o fluxo de veículos nos bairros residenciais.

Além de apoiar a venda de proteção de empresas de segurança privada para a comunidade que pode ou é obrigada a pagar, a exemplo da prática exercida pela máfia na Chicago (EUA) de 1930, a Lei dos Bolsões de Osasco estabelece que os moradores do bairro ofereçam como garantia seu imóvel.

Em 2007, a Casa Civil do governo de José Serra foi alertada para os problemas, incluindo assaltos a mão armada nas residências, cujos moradores ficavam e ficam literalmente rendidos e seqüestrados nas próprias casas. Foi relatado também que alguns dos assaltantes tinham corte de cabelo igual ao de policiais, que o policiamento preventivo da PM fora reduzido e que imediatamente após a onda de assaltos a diretoria da Sacity passou a distribuir boletins, alarmando mais ainda os moradores, exagerando o tamanho do problema, fazendo terrorismo, dizendo que a solução seria o "fechamento" do bairro e exigindo que todos assinassem contratos com a empresa de segurança privada AGEM, controlada por policiais.

Depois disso, a Corregedoria da PM abriu inquérito para apurar a participação de policiais nos assaltos e investigar a informação de que coronéis da PM eram donos de empresas de segurança privada. Na ocasião, alguns moradores foram chamados a depor e não se tem notícia de nenhuma providência, a não ser que esses moradores ficaram visados. Um deles foi abordado por policiais da PM no quintal de sua própria casa, confundido pelos soldados como "ladrão". O incidente foi relatado à Casa Civil do governo de José Serra, que foi informado também de que viaturas da PM estavam passando com mais freqüência pelo bairro, mas os policiais abordando seus moradores de forma truculenta e com armas em punho, obrigando-os a colocar a mão na cabeça para revistá-los.

Na época, a Ouvidoria da Prefeitura de Osasco teve conhecimento dos fatos, o ouvidor e funcionário público José Pedro da Silva, hoje chefe de gabinete do prefeito Emídio de Souza, foi alertado sobre as quadrilhas legais e ilegais que atuavam e atuam no bairro, sobre a segurança privada AGEM, sobre a Sacity e o seu plano de conseguir junto à prefeitura a aprovação do projeto dos bolsões residenciais. Também foram procurados os vereadores Mario Guide, do PSB, e Sônia Rainho, do PT, e informados detalhadamente de todos os problemas.

Na ocasião, o deputado federal Cândido Vacarezza foi informado pessoalmente dos graves problemas em Osasco e do envolvimento da administração municipal. Foi solicitado ao deputado que comunicasse ao governo federal a gravidade dos problemas, para analisar a possibilidade de investigação pela Polícia Federal.

Mas tanto o ouvidor da prefeitura de Osasco quanto os vereadores e o deputado citados não tomaram qualquer providência e, de roldão, o prefeito Emídio de Souza elaborou, aprovou e sancionou no ano passado a Lei dos Bolsões Residenciais, a "Cerca de Miseráveis".

Há um mês, um jovem morador de nome Luciano, do Jardim Belmonte, na Olaria do Nino, bairro pobre próximo à City Bussocaba, ficou desaparecido depois de ter sido espancado no loteamento Terra Nobre por seguranças da AGEM, sob a suspeita de que o garoto era "bandido". Uma semana depois o rapaz apareceu morto, com as pernas quebradas num terreno baldio. Desde 2008 também circula a notícia de que seguranças da AGEM distribuem cocaína no bairro; e, em 2009, um de seus seguranças matou outro a tiros.

Paralelamente, a Sacity convocou uma "assembléia de moradores" para aprovar o fechamento e a implantação do "bolsão" no bairro City Bussocaba. Apenas 30 pessoas compareceram, a maioria das quais eram "diretores" da Sacity.

Mas o bairro City Bussocaba tem 800 casas construídas, população de quatro mil pessoas e está localizado próximo ao Parque Municipal Chico Mendes, freqüentado pelos moradores da região que, na sua grande maioria, vivem precariamente em residências pobres e favelas.

Fica claro que o problema dos caça-níqueis, com acobertamento policial, a atuação de empresas de segurança privada ligadas a policiais, grupos de extermínio, Sacity, associações de condomínios, interesses da especulação imobiliária e a Lei dos Bolsões Residenciais fazem parte da mesma dinâmica em Osasco, agora com apoio da prefeitura, que autorizou a privatização do espaço público e o cerco contra os pobres que não podem pagar proteção, contrariando assim a promessa da presidente da República, Dilma Rousseff, de erradicar a pobreza no Brasil.

Mas é preciso destacar que a atuação das "quadrilhas legais" nas sociedades de amigos de bairros na região metropolitana paulista é antiga: fecham o bairro, apoderam-se de bens públicos, como ruas e praças, e obrigam os moradores a pagar mensalidades; quem não paga é processado e corre o risco de perder o imóvel, a exemplo do que acontece no município de Cotia e em vários outros lugares no estado de São Paulo, conforme tem denunciado a Associação das Vítimas de Condomínios – AVILESP

Assim, tanto em São Paulo quanto em outras regiões metropolitanas do Brasil, a exemplo do Rio de Janeiro e Salvador, a omissão do Estado nas esferas municipais, estaduais e federal permite a apropriação do espaço público por grupos privados, deixa alguns policiais civis e militares vender serviço à comunidade que pode ou é obrigada a pagar a proteção das empresas de segurança, facilita o envolvimento de políticos com o crime organizado e com grupos de extermínio de meninos pobres "assaltantes".

No caso paulista, o problema se repete em vários municípios da região metropolitana. Um exemplo: dois jovens apareceram mortos na Rua Ouro Preto, nos limites dos bairros São João, Santo Antonio e Chácara de La Rocca, em Carapicuíba. Um terceiro jovem, entretanto, conseguiu escapar da chacina e, posteriormente, denunciou à polícia o indivíduo Francisco Marinho de Morais, dono da Actual Vigia, como o autor dos disparos que mataram os rapazes, conforme o relato de uma moradora da região. Consta que o indivíduo é ex-policial militar, ex-integrante da Rota e teria uma extensa ficha corrida de envolvimento em crimes e assassinatos. Nesse caso, ele chegou a ser preso, mas depois de alguns meses foi solto e tem sido visto na guarita construída junto à cancela da Rua Mariluz, na Chácara São João, em Carapicuíba.

A "Cerca de Miseráveis", parida à noite, se estende com volúpia por bairros da região metropolitana paulista, quer cercar tudo e lembra a cena narrada no livro "Bom dia para os defuntos", ou "Redoble Por Rancas", do escritor peruano Manuel Scorza, falecido em 1983, que retrata a luta dos camponeses e índios para a criação do primeiro sindicato rural e contra a companhia de mineração norte-americana Cerra de Pasco Corporation, no Peru:

"Uma cerca, a lagarta de arame, parida pela noite, em uma das paredes do cemitério do vilarejo de Yanacancha, vizinho de Rancas, se detém, medita, se divide, rasteja, pernoita; não acaba, quer cercar o mundo; não parece coisa de gente, teria vida própria. Às seis da tarde tinha uma idade de cinco quilômetros…"

Afinal, as atuais quadrilhas "legais" e ilegais que atuam em Osasco e na região metropolitana paulista são parceiras da espoliação capitalista que explora e avilta mulheres, homens e são iguais à "cerca" a que Manuel Scorza se refere no livro, num tempo em que a simples idéia de criar um sindicato de trabalhadores era punida com a morte:

O coronel Migdonio se dignou a sair à varanda.

"Então, vocês querem criar um sindicato?"

"Se o patrão permitir", respondeu Félix.

"Quantos estão de acordo?"

"Treze, senhor."

"Vá buscá-los. Quero falar com todos."

Na vastidão da memória, ninguém se lembrava de que peão algum tivesse penetrado na casa grande. Cobertos por seus ponchos, os camponeses sentiam que se excediam, mas não tiveram remédio senão entrar.

"Que desejam, meus filhos?", perguntou Don Migdonio afavelmente.

Silêncio.

"Não se constranjam. Não me oponho ao sindicato. Não, não me oponho. Pelo contrário, eu os felicito. Vivemos uma época de mudanças. Todos queremos o progresso. Brindemos ao sindicato!"

A um sinal do fazendeiro, um criado entrou na sala com uma garrafa e copos para todos.

"Vou brindar com o copo vazio. É que ontem me excedi. Saúde, rapazes!", bradou jovialmente Dom Migdonio.

Jaramillo foi o primeiro a desabar. Tombaram outros três fulminados e os demais revolveram-se na agonia de um retorcimento de tripas.

"Filho da puta", conseguiu dizer Félix antes de borrar-se com as tripas queimadas pelo veneno.

O juiz, doutor Francisco Montenegro, e o sargento Cabrera chegaram às seis horas da tarde escoltados por um piquete de guardas-civis.

Fecharam-se no escritório com Don Migdonio. O que o juiz, o fazendeiro e o sargento discutiram permanece até hoje em mistério.

Para desmentir testemunhas que naquele distante ano de 1903 juraram ter visto os três saírem abraçados, rindo, os historiadores oficiais exibem uma prova irrefutável: um comunicado oficial das autoridades, informando que os catorze camponeses tinham sido fulminados por um "enfarte coletivo".

(Trecho do livro "Bom dia para os Defuntos", de Manuel Scorza).

Com um a mais do número 13, que consagrou o Partido dos Trabalhadores (PT) na luta pela redemocratização do Brasil, os 14 camponeses assassinados no Peru tombaram com honra, vermelha. Enquanto isso, em Osasco, e em vários outros municípios paulistas com administrações ditas populares e democráticas, prevalece a desonra das lutas heróicas do passado, se renega a democratização do poder municipal na defesa dos interesses de certos grupos econômicos locais: os miseráveis, no sentido infame do termo, que continuam enriquecendo à custa da exploração do trabalhador brasileiro.

Otto Filgueiras é jornalista.

Fonte: http://www.correiocidadania.com.br/

68,1% das estatais federais inovaram em 2008

A taxa de inovação das empresas estatais federais chegou a 68,1% em 2008. Isso significa que, das 72 estatais investigadas, 49 implementaram produto e/ou processo novo ou substancialmente aprimorado entre 2006 e 2008. A informação é da Pesquisa de Inovação nas Empresas Estatais Federais 2008.

IBGE - Comunicação Social

O percentual de empresas inovadoras observado é superior aos 38,6% verificados para empresas industriais e dos serviços selecionados no âmbito da Pesquisa de Inovação Tecnológica (PINTEC 2008), excluídas as estatais federais.

As estatais federais gastaram R$ 5,6 bilhões nas atividades inovativas em 2008, o que representa 1,7% do faturamento de cerca de R$ 330 bilhões. O estudo mostra que as inovações das estatais federais foram baseadas especialmente na realização de atividades contínuas de pesquisa e desenvolvimento (P&D).

Segundo a pesquisa, mais da metade das estatais federais enfrentou obstáculos à inovação em 2008. Os dois principais foram a dificuldade para se adequar a padrões, normas e regulamentações e a rigidez organizacional, cada um deles citado por 64,3% das estatais federais, percentual superior aos mencionados pelas empresas da PINTEC em geral (32,4% e 31,4%, respectivamente), cujo principal obstáculo foram os elevados custos da inovação, apontado por 73,1% das empresas investigadas.

Esta é a primeira pesquisa do IBGE a investigar isoladamente as estatais federais, além de setores que nunca tinham sido estudados pelo instituto. O estudo engloba as atividades econômicas de eletricidade e gás; construção; comércio; transporte, armazenagem e correio; atividades financeiras, de seguros e serviços selecionados; atividades imobiliárias; atividades profissionais, científicas e técnicas; atividades administrativas e serviços complementares; e outras atividades de serviços.

Realizada com o apoio do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) e do Departamento de Coordenação e Governança das Empresas Estatais Federais do Ministério do Planejamento (DEST/MPOG), a Pesquisa de Inovação nas Empresas Estatais Federais 2008 investigou 72 empresas de um conjunto de 118 empresas acompanhadas pelo DEST,uma multiterritorial.

Estatais federais investem mais em atividades de P&D que empresas em geral

Entre as 49 estatais inovadoras, 37 tinham mais de 500 pessoas ocupadas. A inovação apenas em processo predominou em 33,3% das estatais inovadoras, ao passo que 30,6% delas inovaram em produto e processo e 4,2% apenas em produto. Trata-se de um comportamento diferente do observado pelas empresas em geral da PINTEC 2008, em que as inovações em produto e processo predominaram em 17,2% das inovadoras.

Dentre as estatais federais inovadoras, 27,8% realizaram inovação de produto para o mercado nacional e 29,2% implementaram processo novo direcionado ao mercado interno, percentuais superiores aos registrados para as empresas em geral (4,4% e 2,4%, respectivamente). Isso porque grande parte das estatais federais são as únicas produtoras de um bem e/ou as únicas a oferecer determinado serviço.

Entre as atividades empreendidas para inovar, destacaram-se as de P&D, que, desenvolvidas internamente, representaram 42,9% nas estatais contra 11,9% no âmbito da PINTEC 2008; já a aquisição externa ficou em 34,7% entre as estatais frente a 4,2% para as empresas da PINTEC 2008. Nas estatais inovadoras, cerca de 10 mil pessoas se envolveram nesta atividade, 53% com ensino superior, sendo 27% com pós-graduação.

Dos R$ 5,6 bilhões investidos pelas estatais em inovação, o gasto em P&D interno foi de R$ 3,5 bilhões. Das 19 inovadoras que investiram em P&D interno, 17 desenvolveram a atividade continuamente (89%), percentual superior ao da PINTEC (72%).

Mais da metade das estatais federais enfrentou obstáculos à inovação em 2008

Entre 2006 e 2008, 57,1% das estatais federais investigadas enfrentaram ao menos um obstáculo de importância alta ou média para a inovação. Entre eles, detacaram-se a dificuldade para se adequar a padrões, normas e regulamentações e a rigidez organizacional, cada um citado por 64,3% das estatais que tiveram dificuldade em inovar, percentual superior ao do conjunto de empresas do âmbito da PINTEC 2008 (32,4% e 31,4%, respectivamente), retratando dificuldades do setor público ligadas a entraves burocráticos e legais. Outro obstáculo foi a falta de pessoal qualificado (57,1%), como já havia sido observado nas empresas da PINTEC 2008 em geral (58,8%).

Por outro lado, dois itens com grande expressão no âmbito geral da PINTEC 2008, os elevados custos da inovação (73,1%) e os riscos econômicos excessivos (65,6%), não foram apontadas pela grande maioria das estatais federais, com percentuais de 35,7% e 17,9%, respectivamente.

Quase 92% das estatais inovadoras implementaram mudanças organizacionais

Entre as inovações não tecnológicas, percebeu-se que 91,9% das empresas estatais federais inovadoras em produto e/ou processo também realizaram alguma inovação organizacional e 38,8% alguma inovação de marketing. O principal destaque foram as inovações em técnicas de gestão (85,7%), principalmente se comparado à PINTEC 2008, em que 48,1% das empresas implementaram esta modificação.

A organização do trabalho foi apontada por 71,4% das estatais federais inovadoras, porém também foram observadas taxas próximas a 50% nos dois outros itens que caracterizam este tipo de inovação: técnicas de gestão ambiental (51,0%) e relações externas (49,0%), taxas superiores àquelas observadas nas empresas da PINTEC 2008 em geral (48,1%, 45,9%, 28%, 18,9%, respectivamente). Quanto às inovações de marketing, o movimento foi contrário, com índices maiores nas empresas da PINTEC 2008 em geral (69%), já que grande parte das estatais não têm o foco no mercado.

Marca é o principal método de proteção utilizado nas estatais federais

Das estatais federais investigadas, 29,2% utilizaram algum tipo de proteção para garantir a apropriação dos resultados da inovação. A marca foi o método mais utilizado por estatais federais (26,5%), ligeiramente superior ao verificado nas empresas do âmbito geral da PINTEC 2008 (25,0%). Entretanto, na comparação com a PINTEC 2008, destacaram-se as patentes, com 20,4% contra 8,8%; o direito de autor, com 14,3% contra 2,8%; e o segredo industrial, com 12,2% contra 8,5%.

Cooperação destaca-se como fonte de inovação nas estatais federais

As estatais federais criaram mais relações de cooperação do que as empresas do âmbito da PINTEC. Das 49 estatais inovadoras, 71,4% estabeleceram alguma relação de cooperação entre 2006 e 2008, enquanto nas investigadas pela PINTEC a taxa foi de 10,4%. Os principais parceiros das estatais federais foram universidades e institutos de pesquisa, com 51,4% frente aos 31,2% da PINTEC 2008.

Entre as estatais, as cinco principais fontes de informação utilizadas para inovar entre 2006 e 2008 foram áreas internas à empresa (71,4%), fornecedores (59,2%), clientes e consumidores (59,2%), universidades e outros centros de ensino superior (59,2%) e conferências, encontros e publicações especializadas (59,2%). As duas últimas não estavam entre as cinco principais fontes de informação das empresas da PINTEC 2008.

Melhoria na qualidade foi o principal impacto nas estatais federais inovadoras

Todas as estatais inovadoras apontaram ao menos um impacto proveniente da inovação como relevante, em especial a melhoria da qualidade dos produtos (83,7%), o aumento da flexibilidade de produção (83,7%) e o aumento da capacidade produtiva (75,5%), estes últimos diretamente ligados à produtividade. Em seguida, aparecem a manutenção (69,4%) e a ampliação (61,2%) da participação da empresa no mercado, considerado o menos importante (46,9%).

No âmbito geral da PINTEC, os principais impactos relacionavam-se à posição da empresa no mercado (manteve ou ampliou a participação – 76,4% e 68,5%, respectivamente), à melhoria da qualidade dos produtos (75,5%) e a melhorias no processo (aumento da flexibilidade de produção e da capacidade produtiva, ambos com 68,0%).

Financiamento governamental é superior nas estatais federais inovadoras

Entre as empresas estatais que inovaram, 24,5% receberam algum tipo de incentivo governamental para inovar, percentual ligeiramente superior ao observado nas empresas da PINTEC em geral 2008 (22,3%), em que se destaca o financiamento à compra de máquinas e equipamentos (13,5%).

Nas estatais federais esse percentual foi de 2,0%, já que os gastos da inovação foram realizados, principalmente, em P&D. Além disso, os instrumentos de apoio do governo utilizados pelo maior número de empresas foram: outros (12,2%) – bolsas oferecidas pelas Fundações de Amparo à Pesquisa (FAP’s) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e outros programas de governo; financiamento a P&D em parceria com universidades (10,2%); e incentivo fiscal a P&D – Lei do Bem (6,1%).

Fonte:http://www.ibge.gov.br/