Monthly Archives: maio 2011

Evolução infantil independe de família heterossexual

Ainda não há regulamentação para adoção de crianças por casais homossexuais

Marcelo Pellegrini

O principal argumento contrário à adoção de crianças por casais homossexuais defende que estas pessoas são incapazes de desempenhar papéis sociais e funções psíquicas fundamentais para a estruturação da família heterossexual clássica. No entanto, este argumento está se esfalecendo cada vez mais, conforme indica estudo desenvolvido pelo pesquisador Ricardo de Souza Vieira, do Instituto de Psicologia (IP) da USP. A pesquisa mostra que a criação e educação que é dada por casais homossexuais não representa necessariamente uma perda psicológica para estas crianças.

O estudo denominado Homoparentalidade: estudo psicanalítico sobre papéis e funções parentais em casais homossexuais com filhos foi baseado em uma pesquisa antropológica publicada no livro “Conjugalidades, parentalidades e identidades lésbicas, gays e travestis”, lançado em 2007. A pesquisa, em questão, levava em consideração filhos provenientes de relações heterossexuais anteriores, de reprodução assistida ou de adoção.

O estudo de Vieira revelou que a estrutura familiar e suas funções que asseguram o desenvolvimento da criança não estão vinculadas com a orientação sexual do casal, mas sim com o desejo de ser responsável por uma criança. “As relações de responsabilidade do pais e da criança com os adultos, que definem a estrutura familiar, não sofrem alterações”, diz.“As relações de parentesco são mais simbólicas do que biológicas. As funções psíquicas são o que realmente importa para o desenvolvimento de uma criança, e elas estão descoladas do aspecto anátomo-fisiológico, do corpo”, diz o pesquisador.

De acordo com ele, em um casal homoparental, ou seja, formado por homossexuais, tanto a função psíquica materna — mais próxima da criança e responsável por ensinar a linguagem e por cuidar e proteger com mais assiduidade — quanto a paterna — que limita a proximidade da criança com a mãe e tem a função de determinar limites e leis – podem estar ou não presentes, assim como nas famílias heterosseuxais. “As funções de parentesco são mais simbólicas do que biológicas.”

Segundo o pesquisador, as crianças não sentem a necessidade de possuir uma mãe, do sexo feminino, e um pai, do sexo masculino, pois as funções psíquicas destes entes já estão sendo exercidas por duas pessoas do mesmo sexo.“Não há regra geral, a criança costuma criar diferentes formas de nomear os pais, como: pai X e pai Y ou mãe X e mãe Y.. Raramente, uma criança chama um de pai e outro de mãe”, explica. “Minha experiência de trabalho e observação com crianças indica que a maneira como ela percebe, valoriza e qualifica sua realidade depende muito de como os responsáveis por ela transmitem sua própria maneira de entender essa realidade”, completa.

Para Vieira, como o conceito de família homoparental ainda está em construção, os casais homossexuais se apoiam no modelo heterossexual, o que não significa que este modelo de família seja o único possível.

Aspecto jurídico

No Brasil, não há leis que regulamentem a adoção de crianças por casais homossexuais. Todas as decisões, neste âmbito, são tomadas por meio da jurisprudência, ou seja, as decisões são baseadas em um conjunto anterior de decisões e interpretações da legislação por outros juízes.

Atualmente, não é permitido que um casal homossexual registre qualquer criança como filha ou filho. Apenas um dos companheiros ou companheiras homossexual, pelo menos 16 anos mais velho que a criança, pode assinar a adoção. No entanto, em 2006, a Justiça emitiu uma certidão de nascimento em que um casal de homens homossexuais, de Catanduva, no interior de São Paulo, são os responsáveis pela paternidade de uma criança adotada. Decisão semelhante já havia beneficiado dois casais formados por mulheres, um em Bagé (RS) e outro no Rio de Janeiro (RJ).

Segundo Vieira, o principal empecilho para a regulamentação da adoção de crianças por casais homossexuais está no próprio Congresso Nacional. “Alas do Congresso, como as conservadoras e as religiosas, em geral, comprometem a aprovação de leis que se referem à ampliação dos direitos dos homossexuais”, avalia.

Marcelo Pellegrini – marcelo.pellegrini.filho@usp.br

Fonte: http://www.controversia.com.br/

Criança, entre livros e TV

Foi o psicanalista José Ângelo Gaiarsa, um dos mestres de meu irmão Léo, também terapeuta, que me despertou para as obras de Glenn e Janet Doman, do Instituto de Desenvolvimento Humano de Filadélfia. O casal é especialista no aprimoramento do cérebro humano.

Frei Betto

Os bichos homem e mulher nascem com cérebros incompletos. Graças ao aleitamento, em três meses as proteínas dão acabamento a este órgão que controla os nossos mínimos movimentos e faz o nosso organismo secretar substâncias químicas que asseguram o nosso bem-estar. Ele é a base de nossa mente e dele emana a nossa consciência. Todo o nosso conhecimento, consciente e inconsciente, fica arquivado no cérebro.

Ao nascer, nossa malha cerebral é tecida por cerca de 100 bilhões de neurônios. Aos seis anos, metade desses neurônios desaparecem como folhas que, no outono, se desprendem dos galhos. Por isso, a fase entre zero e 6 anos é chamada de "idade do gênio". Não há exagero na expressão, basta constatar que 90% de tudo que sabemos de importante à nossa condição humana foram aprendidos até os 6 anos: andar, falar, discernir relações de parentesco, distância e proporção; intuir situações de conforto ou risco, distinguir sabores etc.

Ninguém precisa insistir para que seu bebê se torne um novo Mozart que, aos 5 anos, já compunha. Mas é bom saber que a inteligência de uma pessoa pode ser ampliada desde a vida intra-uterina. Alimentos que a mãe ingere ou rejeita na fase da gestação tendem a influir, mais tarde, na preferência nutricional do filho. O mais importante, contudo, é suscitar as sinapses cerebrais. E um excelente recurso chama-se leitura.

Ler para o bebê acelera seu desenvolvimento cognitivo, ainda que se tenha a sensação de perda de tempo. Mas é importante fazê-lo interagindo com a criança: deixar que manipule o livro, desenhe e colora as figuras, complete a história e responda a indagações. Uma criança familiarizada desde cedo com livros terá, sem dúvida, linguagem mais enriquecida, mais facilidade de alfabetização e melhor desempenho escolar.

A vantagem da leitura sobre a TV é que, frente ao monitor, a criança permanece inteiramente receptiva, sem condições de interagir com o filme ou o desenho animado. De certa forma, a TV "rouba" a capacidade onírica dela, como se sonhasse por ela.

A leitura suscita a participação da criança, obedece ao ritmo dela e, sobretudo, fortalece os vínculos afetivos entre o leitor adulto e a criança ouvinte. Quem de nós não guarda afetuosa recordação de avós, pais e babás que nos contavam fantásticas histórias?

Enquanto a família e a escola querem fazer da criança uma cidadã, a TV tende a domesticá-la como consumista. O Instituto Alana, de São Paulo, do qual sou conselheiro, constatou que num período de 10 horas, das 8h às 18h de 1º de outubro de 2010, foram exibidos 1.077 comerciais voltados ao público infantil; média de 60 por hora ou 1 por minuto!

Foram anunciados 390 produtos, dos quais 295 brinquedos, 30 de vestuário, 25 de alimentos e 40 de mercadorias diversas. Média de preço: R$ 160! Ora, a criança é visada pelo mercado como consumista prioritária, seja por não possuir discernimento de valor e qualidade do produto, como também por ser capaz de envolver afetivamente o adulto na aquisição do objeto cobiçado.

Há no Congresso mais de 200 projetos de lei propondo restrições e até proibições de propaganda ao público infantil. Nada avança, pois o lobby do Lobo Mau insiste em não poupar Chapeuzinho Vermelho. E quando se fala em restrição ao uso da criança em anúncios (observe como se multiplica!) logo os atingidos em seus lucros fazem coro: "Censura!"

Concordo com Gabriel Priolli: só há um caminho razoável e democrático a seguir, o da regulação legal, aprovada pelo Legislativo, fiscalizada pelo Executivo e arbitrada pelo Judiciário. E isso nada tem a ver com censura, trata-se de proteger a saúde psíquica de nossas crianças.

O mais importante, contudo, é que pais e responsáveis iniciem a regulação dentro da própria casa. De que adianta reduzir publicidade se as crianças ficam expostas a programas de adultos nocivos à sua formação?

Erotização precoce, ambição consumista, obesidade excessiva e mais tempo frente à TV e ao computador que na escola, nos estudos e em brincadeiras com amigos são sintomas de que seu ou sua querido(a) filho(a) pode se tornar, amanhã, um amargo problema.

Frei Betto é escritor.

Fonte: http://www.correiocidadania.com.br/

A vida secreta dos economistas do sistema

Nos editoriais e aparições públicas, os economistas acadêmicos não costumam revelar seus investimentos em – ou contratos com – instituições financeiras privadas, que poderiam influir em suas recomendações políticas. Mas desde que dois investigadores expuseram uma série de potenciais conflitos de interesse entre membros de sua profissão, os economistas estão agora, pela primeira vez, levando em consideração regras éticas que os obrigariam a divulgar qualquer conexão entre suas finanças pessoais e as políticas públicas que eles defendem.

Micah Uetricht

Se os norteamericanos soubessem que alguns dos economistas que defendem publicamente as desregulações financeiras, que contribuíram para desencadear a Grande Recessão, aproveitaram-se de sua implantação, sentiriam-se mais interessados por elas?

É difícil saber, porque nos editoriais e aparições públicas, os economistas acadêmicos não costumam revelar seus investimentos em – ou contratos com – instituições financeiras privadas, que poderiam influir em suas recomendações políticas. Mas desde que dois investigadores expuseram uma série de potenciais conflitos de interesse entre membros de sua profissão, os economistas estão agora, pela primeira vez, levando em consideração regras éticas que os obrigariam a divulgar qualquer conexão entre suas finanças pessoais e as políticas públicas que eles defendem.

No ano passado, os economistas Gerald Epstein e Jessica Carrick-Hagenbarth, da Universidade de Massachusetts Amherst, publicaram um trabalho intitulado “Economistas financeiros, interesses financeiros e recantos obscuros dessa combinação”. Sugeriam uma causa da crise até então não explorada: os economistas não previram o colapso porque muitos deles estavam se beneficiando das políticas que levaram ao desastre. “Os economistas, como muitos outros, tinham incentivos perversos para não reconhecer a crise”, escrevem Epstein e Carrick-Hagenbarth no trabalho que foi publicado pelo Instituto de Investigação de Economia Política, de tendência de esquerda, de sua universidade.

O estudo examinou 19 economistas financeiros, acadêmicos e anônimos, cujas opiniões foram proeminentes nos meios de comunicação durante a promoção de reformas financeiras e depois do colapso do mercado. Treze dos acadêmicos tinham interesses ou contratos com instituições financeiras, cujos investimentos poderiam aumentar de valor se e quando as sugestões dos economistas se convertessem em política. Oito destes treze não revelaram tais conflitos de interesse.

Epstein disse que o silêncio dos economistas acerca dos perigos da desregulação pode ser atribuído em parte aos interesses econômicos destes acadêmicos: “Se você é um economista financeiro e ganha milhares de dólares trabalhando para uma empresa financeira, que pode estar menos inclinada a empregar-te caso se pronuncie publicamente a favor de uma reforma financeira, vai pensar duas vezes antes de defender tal reforma”.

Em 2006, a Câmara de Comércio da Islândia pagou a Frederic Mishkin, professor da Columbia Business School e ex-governador do Conselho de Administração do Federal Reserve (o banco central dos EUA), 124 mil por participar de um estudo sobre a situação financeira da Islândia, no qual explicou muitos dos fatores que logo iam provocar a implosão da economia do país. O documento Inside Job (“Trabalho interno”), vencedor de um Oscar, explica que, em seu currículo, Mishkin mudou o título do estudo “Estabilidade financeira na Islândia” por “Instabilidade financeira na Islândia”.

A American Economics Association (AEA), organização profissional de economistas acadêmicos, não tem regras éticas que proíbam ou exijam a manifestação deste tipo de conflito de interesse, além de alguns requerimentos a respeito de trabalhos apresentados à publicação da organização. De fato, normalmente o organismo não tem nenhum tipo de código ético oficial.

Epstein e Carrick-Hagenbarth distribuíram uma carta em janeiro, assinada por quase 300 economistas, defendendo a criação desse código. “Acreditamos que seria um passo importante e necessário para reforçar a credibilidade e a integridade da profissão”, dizia a carta.

Parece que teve algum efeito. Em sua conferência de janeiro em Denver, a AEA anunciou a criação de um comitê para desenvolver regras éticas. (Ironicamente a identidade dos membros do comitê manteve-se secreta, ainda que, segundo Epstein, o organismo vá revelar seus nomes em futuro próximo). Representantes da AEA não quiseram fazer comentários sobre o progresso do comitê.

Outras ciências sociais, como a sociologia, têm cláusulas éticas que requerem uma clareza total acerca de conflitos de interesse potenciais em discursos públicos, artigos e publicações acadêmicas. Epstein sabe que um código ético para economistas não consertará a economia do país. Mas sua reclamação é um passo na direção de políticas financeiras mais morais. “Um código de ética não é uma panaceia”, diz. “Mas pode ajudar a criar um ambiente no qual a economia e os economistas possam se considerar mais responsáveis”.

(*) Micah Uetricht, antigo editorialista de In These Times, é membro da redação da revista eletrônica de Chicago Gaspers Block e Campus Progress. Já escreveu também para Alternet, YES!, Labor Notes, Truthout.org e The Indypendent. Atualmente vive em Chicago e pode ser contatado em micah.uetricht@gamil.com.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/

No Norte da África, mídia radical gerou debate amplo e global, analisa especialista

O poder de influência de centenas de grupos populares em redes sociais que, com um discurso de contraposição ao status quo reinante em determinados países e regiões, contribuíram para momentos de transformação social, chamou a atenção do mundo. Na Tunísia e no Egito, o período anterior à queda dos governantes foi marcado por manifestações nas ruas, mas também por demonstrações no Twitter, Facebook e outros espaços na Internet.

Efe

               A hoje célebre Praça Tahrir serviu de palco para uma série de manifestações prévias à deposição de Hosni Mubarak

Para Juarez Xavier, pesquisador de mídias radicais e professor de jornalismo na Unesp (Universidade Estadual Paulista), as mídias radicais são fundamentais para entender os processos de mobilização pelo mundo. Em entrevista ao Opera Mundi, o professor ressaltou que as ações populares tanto no Norte da África, como o trabalho de grafiteiros, em São Paulo ou em Nova York, são exemplos da importância e das possibilidades presentes nas mídias radicais.

"Algumas circunstâncias, principalmente aquelas que levam a um ponto de aglutinação de uma crise, pode fazer com que a mídia radical, compartilhada apenas pelo grupo que a produz, gere um debate amplo e global que atinja vários setores da sociedade", afirmou Xavier.

Como podemos definir o conceito de "mídias radicais"?

Mídia radical é toda aquela mídia que se opõe ao status quo. O que significa isso? É a mídia que questiona a forma de organização — seja ela política, econômica, social ou cultural — do Estado. Ela se distingue da mídia popular pelo caráter questionador, pois em alguns casos as organizações populares são conservadoras em relação a estrutura do Estado.

Mídia radical, portanto, é uma mídia que obrigatoriamente  apresenta um posicionamento contrário a uma forma hegemônica de organização da sociedade. Ela se contrapõe a forma do Estado exercer sua concentração de violência, cultura, poder ou renda.

Sendo assim, é possível dizer que toda mídia radical tem um caráter revolucionário?

Revolucionário no sentido de mudar uma determinada ordem, nem sempre de esquerda. Por exemplo, a Kun Klux Klan, nos Estados Unidos, poderia ser enquadrada dentro dessa definição geral de mídia radical. Eles expressam o descontentamento com uma forma de organização do Estado, de um determinado padrão da sociedade norte-americana.

O que se percebe é que a mídia radical, na maioria dos casos, tem características de ser contra o capital. Você encontra organizações de mídias na África ou na América Latina com claras características anti-capitalistas. As mídias radicais, em países ou em regiões mais empobrecidas possuem traços que podem se enquadrar no viés político mais à esquerda. Isso acontece porque existem mais países no quais a predominância de organização do Estado é pautada pelo capital.

No Sudão, houve uma série de ações políticas punitivas contra as populações nativas islâmicas. Em resposta, esses grupos marginalizados passaram a lançar mão de vários recursos culturais, que se caracterizam como uma mídia radical. Começaram a valorizar e a se organizar inspirados na cultura tradicional; o uso do vestuário tradicional ganhou mais importância porque era uma forma de se opor à orientação do Estado; o resgate das músicas, poemas, grandes narrativas que rememoravam suas tradições ancestrais.

Manifestações de oposição a estruturas políticas do Estado que são pautadas nas formas tradicionais de organização desses povos. Nós classificamos as ferramentas utilizadas nesse exemplo como analógicas.

Há, também, grupos que usam tecnologias digitais. Utilizando a rede mundial de computadores, celulares, smartphones  e outros diversos recursos tecnológicos à disposição. A África tem mostrado um grande número de possibilidades de visualização tanto das manifestações tradicionais como das de mídia digital.

No Brasil, há diversos grupos que têm usado esses mecanismos. A musicalidade do rap tem servido como instrumento de mídia radical. Há um grupo, em São Paulo, chamado "OPNI" (Objetos Pixadores Não-Identificados) que trabalha com intervenção urbana, usando o graffiti como instrumento de mídia radical.

É possível afirmar que o que define uma mídia como radical é a forma como ela utiliza as ferramentas de comunicação?

Não é propriamente a ferramenta que caracteriza a mídia radical, mas o conteúdo da ferramenta. Por exemplo, quando você usa Facebook, Orkut ou Twitter como uma forma de  oposição sistemática ao governo, ela assume essa característica radical. A ferramenta em si potencializa a possibilidade, em especial as ferramentas digitais.

O professor Milton Santos, em um certo período, falava sobre a importância dessa familiaridade tecnológica e das possibilidades que elas criariam. Parte desses setores marginalizados, contra-hegemônicos, se apoderaram dessa tecnologia e reinventaram o conteúdo, então o que caracteriza mais a mídia radical não é propriamente o instrumento, mas a possibilidade de alteração do conteúdo. Dessa forma, pode-se chamar o impresso de mídia radical, desde que o conteúdo seja divergente, pode ser o eletrônico ou digital caso tenham esse mesmo caráter discordante.

Mas há casos em que a ferramenta tem mais importância?

Em algumas situações, o meio acaba sendo mais importante do que o conteúdo, em casos de repressão muito acentuada. Na Argentina, o exemplo das Mães da Praça de Maio. O que caracteriza o discurso delas? Um lenço na cabeça.

Então a mídia radical não precisa ter um meio de comunicação tradicional?

As mídias radicais usam, além dos canais tradicionais de comunicação,  os "novos meios" de comunicação. As roupas dos meninos do hip-hop e dos punks têm um discurso. Em alguns casos, a mensagem que é passada pela roupa é determinada pelo contexto. É o caso das jovens mulheres que vivem em países islâmicos, onde algumas usam calça jeans para se contrapor a uma política do Estado. A simples utilização de uma calça tem uma característica radical desde que esteja sustentado em um movimento de ação política de oposição ao status quo.

Como é a estruturação desse grupos? Eles possuem objetivos definidos ou alguma forma de hierarquização?

Fundamentalmente, eles se dividem em dois níveis. Um deles seria o "modelo bolchevique": em um Estado muito fechado a tendência é que os grupos de mídia radical se organizem de forma centralizada, verticalizada, clandestina e com níveis hierárquicos muito bem definidos. Nesses casos, as pessoas envolvidas nesse processo de produção sabem que a qualquer momento um deles pode ser preso e isso pode significar o fim do projeto. Por isso, às vezes, a pessoa que passa a orientação não é conhecida.

Em outras situações, você tem experiências de mídias radicais opostas. É uma forma de organização praticamente anárquica, horizontal, sem lideranças e a forma de produção de conteúdo é mais coletiva, mais colaborativa.

A mídia radical se organiza de acordo com o contexto político, econômico e social no qual ela está inserida. Se for um ambiente muito fechado, ela tende a assumir a característica “bolchevique”. Mas se o espaço for mais democrático, ela tende a ser mais anárquica, colaborativa e, em alguns casos, com fóruns democráticos de decisão sobre como a mensagem será transmitida. Esse tipo de mídia se adapta à situação circundante.

Em uma de suas palestras você contou do caso de um grafiteiro que lhe disse: "O graffiti é a minha CNN".

Eu ouvi essa frase nos EUA. Lá os grupos de hip-hop possuem os quatro elementos – para alguns são cinco – entre eles o graffiti. Esses elementos têm a função de comunicar a opinião desses grupos divergentes com a comunidade. Muitos desses grupos usam o graffiti como uma forma de plataforma midiática, produzem conteúdo com um forte posicionamento político. Eu ouvi essa frase de um integrante de um grupo formado por jovens negros que luta contra o racismo. O graffiti que eles faziam, a mensagem que eles propunham, era frontalmente contra as diversas formas de manifestação de preconceito nos EUA.

Outros grupos têm feito isso pelo mundo afora, o graffiti tem assumido essa característica de funcionar como um veículo de comunicação de grupos divergentes. Quanto mais ele assume essa característica de funcionar como canal de diálogo para os grupos subalternos, mais ele assume e age como uma mídia radical informativa.

Esse menino foi muito feliz ao utilizar essa expressão. O graffiti é uma "nova CNN" porque é a forma como esses grupos usam para se comunicar e deixar claro o posicionamento contra-hegemônico que compartilham entre si.

A mídia radical tem a capacidade de produzir uma discussão que inclua toda a sociedade?

Nem sempre ela atinge a esfera pública global O que mais tem caracterizado a mídia radical é que ela tem constituído uma esfera pública radical, com um circuito de espaço que pode ser territorial, social, ou político no qual as suas ideias são discutidas e debatidas.

Às vezes, ela não atinge a esfera pública global, exceto em momentos de crise, mas ela gera a discussão entre os participantes desse grupos alternativos, que dependendo da forma de ruptura com a instituição do Estado ela pode ou não assumir características de esfera pública global.

No caso da Revolução Russa, no início de 1917, existia o Pravda que tinha um público pequeno, radical, quando estoura a Revolução, em Outubro, ele já é um jornal que atinge a esfera pública nacional. A crise se aglutinou de tal forma que o Pravda se tornou uma plataforma de contestação do governo czarista.

O que nós vimos agora no Norte da África, no Egito, em especial. Havia ali uma comunicação digital, muito pontual, que era uma esfera pública radical e alternativa e que com o passar do tempo e intensificação do conflito, passou a contaminar a esfera pública global. Ou seja, aquilo que era uma esfera parcial transformou-se em uma esfera pública ampla, a qual passou a influenciar a todos os principais pontos centrais da sociedade egípcia e criou uma situação de constrangimento para o governo Mubarak.

Algumas circunstâncias, principalmente aquelas que levam a um ponto de aglutinação de uma crise, pode fazer com que a mídia radical, compartilhada apenas pelo grupo que a produz, gere um debate amplo e global que atinja vários setores da sociedade.

Fonte: http://operamundi.uol.com.br/

A volta de Bébé Doc ao Haiti. O ultimo Macoute!

O retorno de Jean-Claude Duvalier ao Haiti, em janeiro passado, evoca a tradição de violência dos Tonton Macoute, a guarda particular do regime político mais impiedoso, corrupto e assustador que o Caribe já conheceu

Leituras da História

A Era de Papa e de Bébé Doc, misturou a selvageria dos Macoute com os mais assustadores rituais do vodu haitiano – uma religião originária da África Ocidental que incorporou influências dos nativos caribenhos.

Administrado da forma mais dolorosa possível aos opositores dos Duvalier, esse coquetel de barbarismo ganhou, no século passado, reputação só comparável à das atrocidades praticadas pela SS – sigla de Schutzstaffel (Tropas de Proteção) – nazista, e à das legiões de assassinos que serviram ao genocida cambojano Pol Pot.

No idioma créole - falado por 8 milhões de haitianos residentes no país e por mais três milhões de compatriotas deles espalhados pelo mundo -, Tonton Macoute quer dizer, literalmente, "Tio do Saco" – alusão à figura intimidadora assustadora do "homem do saco", também conhecido por "bicho papão".

Criada em 1959, a corporação Macoute consolidou-se, no decorrer das décadas seguintes, como uma força paramilitar, que obedecia diretamente as ordens do ditador François Duvalier. Os governos que sucederam o de Jean-Claude dissolveram a organização, porém muitos de seus antigos integrantes se tornaram insurgentes, e se mantiveram ativos até 2000, especialmente nos distúrbios políticos ocorridos em regiões rurais.

A história dessa tropa de bandidos é a história de um ditador que não confiava em seu Exército.

Hector Retamal/ AFP/Getty Images

Na noite do último dia 16 de janeiro, um domingo, oficiais e subalternos remanescentes da Milice de Volontaires de la Sécurité Nationale – Milícia dos Voluntários da Segurança Nacional – do Haiti, a poderosa MVSN, soberana no país entre 1959 e 1986, se reuniram defronte ao elegante Karibe Hotel, de Porto Príncipe. Suas mulheres trajavam prosaicas camisetas cor-de-rosa.

Os velhos Tontons Macoute – "Bichos Papões" -, guardiães da era de terror liderada pela Família Duvalier, não passam, hoje, de homens envelhecidos, pobres e ressentidos – mas dizer que a eles, aquele fim de semana, faltava uma perspectiva, não seria verdade.

Afinal, hospedado no Karibe se encontrava ninguém menos do que Jean-Claude Duvalier, o Bébé Doc – que a imprensa americana consagrou em todo o mundo como Baby Doc. Agora não mais o rapaz gorducho e de ar apalermado que os Estados Unidos obrigaram a se exilar no fim dos anos de 1980, mas um líder populista obstinado, de 59 anos e expressão facial quase sempre assustada. Um ex-ditador com milhões de dólares nos bancos da Europa, e milhares de mortes nas costas.

Seu nome e, especialmente, o de seu pai, o médico François Duvalier – o Papa Doc (chamado de "o Calígula Negro" por certos intelectuais europeus) – evocam um regime que, como poucos, demonstrou a capacidade da política em promover a barbárie.

Mas a aventura de Bébé Doc tem mostrado que o tempo faz mesmo diferença. Sem a milícia de uniforme cáqui dos Macoute para protegêlo, Jean-Claude passou o período de 23 a 29 de março internado no hospital do distrito de Canapé Vert, na periferia de Port-au-Prince. O filho de Papa Doc sentira dores no peito, disseram seus porta-vozes. Na manhã da terça, 29, enquanto se preparava para deixar o refúgio de seu quarto de hospital, Jean-Claude soube que o governo do presidente haitiano René Préval, pedira ajuda internacional para julgá-lo.

Nos 16 casos já formalizados contra ele no âmbito da Justiça haitiana, Bébé Doc é acusado pela atual Administração de seu país de violação de direitos humanos, desvio de recursos públicos e corrupção. O ex-presidente também é réu em um processo que lhe move a Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

Sua internação terminou de forma tão discreta e pouco explicada como começou. Uma bateria de exames nada teria apurado de grave no estado clínico do paciente. Mas o que o levou a escolher o hospital de Canapé Vert parece claro: o distrito foi um dos que mais sofreu com o terremoto que destroçou o país no ano passado. E o ex-presidente Duvalier tem dito que voltou ao Haiti para colaborar na reconstrução do país…

Liberado pela alta hospitalar, Jean-Claude entrou num utilitário de luxo escoltado por guarda-costas e pela Polícia local, e desapareceu no rumo de sua confortável residência, fincada nas colinas que dominam a capital haitiana. Lá ele permanece em prisão domiciliar.

Os Cagoulards

Em 1958, ao invés de tentar se impor com o apoio das Forças Armadas, o médico François Duvalier resolveu trilhar um caminho mais arriscado – seguindo o rastro de ditadores que o precederam, como Adolf Hitler -, e consolidar seu Poder por meio de uma tropa da sua mais completa confiança. Esses homens tornaram- se, então, um contrapeso ao Exército, com exclusivo dever de lealdade ao Palácio Nacional.

O Presidente Papa Doc organizaria o núcleo inicial desse agrupamento de guarda-costas com os Cagoulards – ou "encapuzados" -, agitadores que lhe haviam demonstrado lealdade durante a campanha presidencial de 1957. Nas semanas que precederam o pleito, a missão desses "correligionários" foi, basicamente, intimidar os outros candidatos – quase sempre por meio de métodos violentos.

Do interior do país Duvalier trouxe para essas fileiras de sua confiança os líderes rurais ou chefes de milícias que, até aquele momento, haviam precisado obedecer ao Exército. Por sua violência brutal e intimidadora – conhecida em todo o país -, ao deixarem a clandestinidade para ocuparem os alojamentos destinados aos guarda-costas de Papa Doc, os Cagoulards logo receberam do povo a alcunha de Tonton Macoutes.

O efetivo foi, dessa forma, constituído por homens cuja reputação oscilava entre espiões, chefetes de bando (de bairro), rufiões e malfeitores que, de olhar oculto sob as lentes de vistosos óculos rayban, viviam de extorsões. Esse, o sustentáculo político do regime de Papa Doc. Sua rotina: torturar e matar sem piedade. Em fins de 1959, o ditador recorreu à estrutura já existente da Guarda Presidencial do Exército, para enquadrar seu contingente de guarda-costas em algo parecido como uma unidade militar. Dessa forma ele ampliou os quadros dos Macoutes, primeiro conferindo a eles o status funcional de Milícia Civil, e logo depois o de Voluntários da Segurança Nacional.

Em não mais de quatro anos essa força já contava com o dobro dos integrantes das Forças Armadas. Seus destacamentos rurais armados se faziam presentes em todas as aldeias do interior. Logo se espalharam pelo país histórias horríveis sobre prisioneiros que tinham os olhos e a língua furados por finas e longas agulhas – no melhor estilo propagandístico do terror vodu. Outros inimigos do regime teriam sido torturados com choques elétricos e mutilações pelo corpo. Suas mães, esposas e filhas, violentadas por grupos de Macoutes ensandecidos.

O palco dessas atrocidades era, quase sempre, o cárcere das Casernes Dessalines – antigo quartel, erguido em 1912, que ocupa todo um quarteirão da Rua Monsenhor Guilloux, bem no centro da capital haitiana. Ali, em 1980, a jornalista Liliane Pierre-Paul, dona da Radio Haiti International, foi despida na frente de seus torturadores, e duramente espancada. O ex-jogador de futebol Bobby Duvall também sobreviveu ao martírio de Dessalines para relatar como os prisioneiros do Regime de Bébé Doc eram golpeados com tacos de beisebol.

AFP Photos          1970: perto da morte (em 1971) Papa Doc apresenta seu filho único Jean-Cleaude ao povo haitiano. Bébé Doc estaria, como o pai, entregue a proteção dos Milicianos Voluntários Da Segurança Nacional – os temíveis Tonton Macoutes (á direita)

A historiografia internacional aceita, rotineiramente, o cálculo de autoridades americanas, de que o Duvalierismo matou 30 mil opositores. Contudo, historiadores e jornalistas especializados na História haitiana – bem como defensores dos Direitos Humanos – estimam que, durante os seus 18 anos de glória, os Tonton Macoute podem ter eliminado – em fuzilamentos, sessões de tortura e rituais pretensamente religiosos (que incluíram muitos sepultamentos de pessoas vivas) -, mais de 150 mil pessoas, na sua maioria civis – todos opositores ou críticos opositores ou críticos dos Duvalier.

Fonte: http://www.cspublisher.com/

Os imigrantes, órfãos da globalização

A situação dos trabalhadores imigrantes é das mais significativas do mundo contemporâneo. A desregulamentação promovida pelo neoliberalismo permitiu o deslocamento dos capitais para qualquer parte do mundo que, por sua vez, pôde engajar força de trabalho nas melhores condições para eles.

Emir Sader

Para tomar casos concretos de países que mais exportam mão-de-obra no nosso continente, El Salvador e Equador dolarizaram as suas moedas, com as correspondentes consequências dramáticas que introduziram. Seguiram as indicações do FMI e tornaram-se vítimas privilegiadas do livre comércio. As suas economias foram abertas, a sua economia dolarizada, com um empobrecimento acelerado de toda a população e imigração maciça dos seus trabalhadores, buscando emprego e fontes de renda para envio às suas famílias.

El Salvador exportou maciçamente mão-de-obra para os EUA, o Equador para a Espanha. Trabalhadores que passaram a ser submetidos à superexploração da sua força de trabalho, seja por estar em condições de absoluta ilegalidade ou sem possibilidades de acolher-se às proteções possíveis do trabalho: legislação do trabalho, Justiça do Trabalho, sindicatos.

Eles se tornaram chave do ponto de vista económico, porque as taxas de exploração da sua força de trabalho alimentam fortemente o processo de acumulação de capital. No caso dos EUA, concentram-se – juntamente com os mexicanos e com outros imigrantes latino-americanos – no setor de serviços, que ganhou peso cada vez maior nesse país, conforme a estrutura produtiva foi em parte deslocada para outros países, com mão-de-obra muito mais barata – como México, China, entre outros.

No caso da Espanha, os trabalhadores equatorianos – juntamente com outros latino-americanos – alimentaram o boom da construção civil, motor do ciclo expansivo que explodiu recentemente pelas suas fragilidades na expansão do crédito, de forma similar ao que aconteceu nos EUA –, assim como se concentram nos trabalhos domésticos. Como sempre, trabalhos desqualificados, que não interessam aos trabalhadores espanhóis.

Esses trabalhadores são os mais fragilizados do ponto de vista da garantia dos seus direitos, em primeiro lugar, do emprego. Quando chegou a crise, foram os primeiros a perder os seus postos de trabalho, com todas as consequências, antes de tudo a suspensão do envio de recursos para as suas famílias nos seus países originários. Eles compõem o grosso das enormes taxas de desemprego nesses países – mais de 20% na Espanha e de mais de 45% entre os jovens, mesmo se uma parte deles não está computada, por estar em condições de absoluta informalidade.

Além da dimensão económica do fenómeno, há as dimensões sociais e culturais. São submetidos a formas de marginalização, são discriminados, quando não diretamente criminalizados. Concentram assim os trabalhadores imigrantes alguns dos principais problemas do mundo contemporâneo.

Mas um caso ainda mais grave tornou-se um dos exemplos mais escandalosos de catástrofe humanitária. Se os trabalhadores latino-americanos são aceites num país como a Espanha, mesmo com todas as limitações apontadas e outras mais, os africanos nem sequer conseguem chegar ao país. Fazem todos os esforços para tratar de chegar às costas espanholas, mas são simplesmente rejeitados. Semanalmente chegam nos mais diferentes tipos de embarcação, o que faz com que uma proporção alta não resista à travessia. Os outros são presos e devolvidos para os países de onde saíram.

Não há sequer estatísticas confiáveis sobre a sua quantidade, mas são vários milhares, rejeitados ou mortos. Não existem como cidadãos, ninguém os representa, não possuem nenhum direito, são invisíveis. Os espanhóis acostumaram-se a pequenas notas nos jornais sobre mais uma embarcação apreendida e o número de prováveis mortos. Mesmo dispostos a trabalhar em quaisquer condições, nem sequer quando a economia espanhola crescia eram aceites, menos ainda agora que o país tem uma economia literalmente falida.

São todos órfãos da globalização neoliberal. No caso dos africanos, os casos mais extremos, mais graves, mais desamparados. O livre comércio vale para as mercadorias e os serviços, mas não para os trabalhadores, os seres humanos.

Fonte: http://infoalternativa.org/

Governo, empresários e centrais sindicais unem-se em investida contra falso déficit previdenciário

As informações negativas não param de chegar. Seja pela mídia, pela internet ou pelos meios políticos ficamos sabendo que o capital está, de fato, domando o poder político e as tradicionais Centrais Sindicais. Todos mancomunados contra os interesses do povo.

Waldemar Rossi

Do lado do governo, Dilma está decidida a aumentar o tempo de trabalho para a aposentadoria. Sua proposta estabelece a idade mínima de 65 anos para os homens e 63 para as mulheres – claro, dos que produzem as riquezas deste país (L. Lazzarini, jornal Agora). Porém, oferece uma alternativa como novidade: o chamado "Fator 85/95". Sabem lá o que é isto?

Pois bem, trata-se de o trabalhador garantir que a soma dos anos trabalhados e do tempo que contribuiu para a Previdência atinja 95 anos para os homens e 85 anos para as mulheres. Veja lá: o trabalhador terá que provar que trabalhou, por exemplo, 50 anos e que contribuiu durante 45 anos, ou 55 anos trabalhados e 40 de contribuição, e assim por diante. Podemos destacar algumas aberrações desta proposta.

Primeiro: é a tese de que o trabalhador nasceu e vive para trabalhar, e não que trabalha para garantir a vida. É a inversão perversa de valores para a vida humana. O trabalhador comum não tem o direito de ser feliz e de desfrutar dos sabores da vida em tempo nenhum de sua existência E nem mesmo desfrutar dos bens que produz, a não ser o mínimo do mínimo para garantir a reposição de sua força de trabalho. Tem que produzir riquezas e mais riquezas para o capital. É a forma mais moderna de "legalizar a escravidão do trabalhador". Ou seja: é a legitimação da barbárie, é a volta aos tempos do escravismo: trabalhar de sol a sol e noite adentro, dormir, levantar para trabalhar de sol a sol e noite adentro, exaurindo sua vida no trabalho!

Segunda aberração: em tempo de neoliberalismo – que gera desemprego em alta escala, que provoca veloz rotatividade no trabalho (trabalho, desemprego; novo trabalho e novo desemprego, e assim por diante, durante toda a vida), que impõe condições precárias de contrato de trabalho, inclusive sem registro em carteira, que sonega direitos elementares para milhões de trabalhadores –, como nessas condições garantir a contribuição de pelo menos 35 anos? Quantos e quantas irão conseguir, por exemplo, contribuir com a Previdência por 40 ou 45 anos? E ter carteira assinada para provar que trabalhou por outros 40 ou 45 anos? Quantos trabalhadores e quantas trabalhadoras conseguirão o benefício da aposentadoria antes de partir desta para outra vida?

Terceira aberração: o que se visa, realmente, não é impedir o sacanamente apelidado "rombo da Previdência". Está provado que esse rombo só existe porque grandes empresas sonegam a Previdência Social (e isto a própria imprensa burguesa tem revelado de tempos em tempos). Especialistas vêm comprovando com dados oficiais que o rombo é uma mentira deslavada, uma falácia, "conversa mole pra boi dormir".

O real objetivo dessa reforma da Constituição é garantir crescimento de lucros para as empresas e, ao mesmo tempo, garantir superávit primário para pagar a agiotagem nacional e internacional. E isto aparece muito claramente quando o governo Dilma propõe "desonerar a folha de pagamento das empresas", eliminando a sua contribuição para a Previdência Social, a fim de facilitar a exportação… Em outras palavras, é preciso fazer aumentar os já extraordinários lucros empresariais. Só que isto irá onerar a Previdência (Estadão, Economia de 16/05/11).

Para compensar esse verdadeiro rombo previdenciário é necessário roubar do trabalhador o direito de alcançar a sua justa e legítima aposentadoria, isto depois de longos e penosos anos produzindo riquezas e gerando fabulosos lucros para os empresários, ladrões oficiais. Ladrões "legais", protegidos por leis ilegítimas que espoliam e esmagam o povo. Crime contra a humanidade, genocídio a conta-gotas, premeditado.

E para finalizar este pequeno artigo, vem a bomba do dia: "Desoneração da folha une Fiesp e Centrais". "Ao lado de dirigentes da Força Sindical e da Central Única dos Trabalhadores (CUT), o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) anunciou ontem a intenção das entidades de encaminhar nos próximos dias à presidente Dilma Rousseff um conjunto de propostas de longo prazo para o desenvolvimento da indústria nacional … As entidades reunidas ontem, de acordo com Skaf (presidente da Fiesp), estudam pedir desoneração na folha de pagamento dos 20% da contribuição ao Instituto Nacional de Seguro Social (INSS)" – Estadão, Economia- pág. B9, 24/05/11).

"Até tu, Brutus?", poderíamos perguntar para os dirigentes da CUT, cria dos trabalhadores para defesa dos seus direitos. Como enuncia o título dessa matéria, "Todos contra os trabalhadores: empresários, governo e centrais sindicais". Todos mancomunados. É preciso protestar contra tanta sacanagem e traição, antes que seja tarde demais! Acorda povo trabalhador, porque os alicerces dos seus direitos estão totalmente minados!

Waldemar Rossi é metalúrgico aposentado e coordenador da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo.

Fonte: http://www.correiocidadania.com.br/

Ana Flávia Ramos: Nenhuma escola é ilha

Tragédias como a ocorrida na Escola Municipal Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro, sempre provocam grande comoção pública, indignação e, obviamente, tristeza pelas muitas crianças perdidas no atentado. Além desses sentimentos, tais fatos provocam também um grande tsunami de “especialistas”, mobilizados em velocidade estonteante pela mídia, para dar laudos e explicações quase matemáticas sobre as motivações do assassino.

Ana Flávia C. Ramos

O atirador Wellington Menezes de Oliveira, segundo as informações desses “cientistas da tragédia” (que variam de “criminólogos” a policiais militares), era tímido, solitário, filho adotivo, “usuário” constante do computador (a “droga” dos tempos modernos segundo os “analistas”), ateu, islâmico, fanático, fundamentalista, portador do vírus da AIDS e, provavelmente, vítima de bullying na escola.

Certamente não há como contestar que todo ato humano, e por isso histórico, se explica a partir da análise de uma cadeia de relações complexas. Como digo aos alunos, nada tem resposta simples e direta. Entretanto, o tipo de questão levantada para entender o terrível ato de Wellington Menezes de Oliveira diz muito mais sobre nós mesmos do que sobre ele. Todos os nossos preconceitos estão embutidos nessas respostas. De fato, não sabemos, e talvez nunca saibamos, por que exatamente ele atirou contra cada uma das crianças (em sua maioria meninas), assim como não sabemos sobre as reais motivações dos muitos atentados como esse, ocorridos em países como Estados Unidos e Dinamarca. Mesmo depois de tudo o que se discutiu, ainda é difícil, por exemplo, explicar Columbine (abril de 1999).

Uma das coisas que mais tem me chamado a atenção é a recorrência da explicação que elege o bullying escolar como um dos fatores que podem desencadear esse tipo de ato violento. A explicação não é nova, Columbine é prova disso. Há mais de dez anos atrás, dois meninos entram em uma escola, de capa preta (quase como em um filme hollywoodiano) e atiram em seus colegas. “Especialistas”, gringos agora, se apressam em dizer as razões: divórcio nas famílias, videogames, filmes violentos, Marilyn Manson, porte de armas facilitado e, como não poderia faltar, bullying na escola.

É inegável que o bullying é uma realidade. É indiscutível que ele é extremamente nocivo e doloroso aos alunos que sofrem com ele. É evidente que há urgência em iniciar um debate para saber como sanar o problema. Mas a pergunta que fica é: o que de fato é o bullying? Ele é um sinal (histórico) de que? E ainda mais: ele é um problema restrito à escola? Por que os alunos são tão cruéis com seus colegas?

Michael Moore, cineasta norte-americano explosivo, tentou dar a sua interpretação para o atentado de Columbine com o documentário Bowling for Columbine (2002).  Moore, ao invés de repetir os clichês da mídia, foi implacável na destruição do senso comum das justificativas moralistas para o evento. Item por item, desde a desagregação da família, Manson, até a polêmica questão do porte de armas foram desconstruídos em sua narrativa. O foco centrou-se em respostas muito mais interessantes, localizadas não nos dois jovens assassinos, mas na sociedade americana. O imperialismo militarista dos Estados Unidos, a ação violenta em outros países, a política do medo (incentivada pelo Estado e pela grande mídia), que reforça e superestima dados sobre a violência urbana, sobre o fim de mundo, e, principalmente, a intolerância com todo tipo de diferença. Racismo, preconceito, homofobia, conflitos religiosos e luta de classes são só alguns dos ingredientes do caldeirão de ódios em que se transformou a sociedade americana.

Como crescer no Colorado, na “livre” América, e não ser conspurcado por esses valores? Como não idolatrar armas e achar que elas são um meio prático de solucionar problemas? Como viver imune a uma sociedade individualista, capitalista, que divide os seus cidadãos o tempo todo em “winners” e “losers”? E mais ainda, como não se deixar levar por uma sociedade que até hoje não consegue lidar com a diferença entre brancos e negros? Uma sociedade que até os anos 1960 não oferecia direitos, oportunidades e tratamentos iguais a todos os seus cidadãos, tem o que para oferecer ao pensamento dos estudantes? Os americanos, ainda hoje, estão preparados para o respeito à diferença? A relação que eles mantêm com os muçulmanos diz muito. Definitivamente a liberdade e o respeito ainda não se transformaram em uma unanimidade por lá.

É claro que mesmo Moore não chega a dar respostas definitivas sobre a questão. E mais ainda: é evidente que ele considera a forma pela qual a instituição ESCOLA trata seus alunos (hierarquias e classificações hostis), ignorando muitas vezes o bullying, tem sua responsabilidade no massacre. Assim como é nítido que a venda facilitada de armas e munição são coadjuvantes importantes da história. Mas Moore foi corajoso ao lançar em cada um dos americanos a responsabilidade da tragédia e discutir aquilo que ninguém teve coragem (ou má fé) de fazer. Nem a mídia, nem o governo, nem a sociedade. É preciso encarar os “monstros”, com franqueza, e não apenas “satanizar” o ambiente escolar, para dar algum significado para esses eventos.

Ontem no Terra Magazine o antropólogo Roberto Albergaria afirmou que a mídia e a sociedade brasileira desejavam o impossível: explicações para um “desvario sem significado”. Segundo ele, o que Wellington Menezes praticou foi o que os estudos franceses chamam de “violência pós-moderna”, caracterizada por uma ruptura irracional, sem explicação. De fato, talvez tenha sido um “ato irracional”, fruto de um momento de insanidade. Mas acredito que esse tipo de resposta não nos ajuda a resolver coisas importantes sobre nós mesmos. A tragédia no Realengo, a meu ver, pode e deve ser início de um debate importante sobre a nossa sociedade.

A tragédia na escola do Rio de Janeiro acontece num contexto bastante relevante. Em outubro de 2009, Geyse Arruda foi hostilizada por seus colegas de faculdade porque, segundo eles, ela não sabia se vestir de modo “apropriado” para freqüentar as aulas. Em junho de 2010, Bruno, goleiro do Flamengo, é suspeito de matar a ex-namorada, Elisa Samudio, por não querer pagar pensão ao filho. Suposta garota de programa, Samudio foi hostilizada na opinião de muitos brasileiros. Após rompimento, Mizael Bispo, inconformado, mata sua ex-namorada Mércia Nakashima em maio de 2010. Em novembro de 2010, grupos de jovens agridem homossexuais na Avenida Paulista, enquanto Mayara Petruso incita o assassinato de nordestinos pelo Twitter. E mais recentemente, em cadeia nacional, Jair Bolsonaro faz discurso de ódio contra homossexuais e negros. Tudo isso instigado e complementado pelo discurso intolerante, preconceituoso, conservador e mentiroso do candidato José Serra à presidência da República. A mídia? Estava ao lado de Serra, corroborando em suas artimanhas, reforçando preconceitos contra Dilma, contra as mulheres e contra os tantos mais “adversários” do candidato tucano.

Wellington matou mais meninas na escola carioca. Se, por um lado, jamais saberemos as reais razões que o fizeram agir dessa forma, por outro sabemos o quanto a sociedade brasileira tem sido, no mínimo, indulgente com atos de intolerância, machismo, ódio e preconceito contra mulheres, negros e homossexuais. Se não há uma ligação direta entre esses diversos acontecimentos, eles pelo menos nos fazem pensar o quanto vale a vida de alguém em um contexto de tantos ódios? Quantas mulheres morrerão hoje vítimas do machismo? Quantos gays sofreram violência física? Quantos negros sentirão declaradamente o ódio racial que impregna o nosso país? O que é o bullying se não o prolongamento para a escola desse tipo de mentalidade? Quantas pessoas apoiaram as declarações de ódio de Bolsonaro via Facebook? Aquilo que acontece no ambiente escolar nada mais é do que um microcosmo do que a sociedade elege como valores primordiais. E o Brasil, que por tanto tempo negou a “pecha” de racista e preconceituoso, vê sua máscara cair.

Não adianta culpar o bullying, achando que ele é um problema de jovens, um problema das escolas. Não adiante grades e detectores de metal nas entradas ou a proibição da venda de armas. Como professora, sei que o que os alunos reproduzem em sala nada mais é do que ouviram da boca de seus pais ou na mídia. Não adianta pedir paz e tolerância no colégio enquanto a mídia e a sociedade fazem outra coisa. Na escola, o problema do bullying é tratado como algo independente da realidade política, econômica e social do país. Mas dá pra separar tudo isso? Dá pra colocar a questão só em “valores” dos adolescentes, da influência do malvado do computador ou dos videogames? Ou é suficiente chamar o ato de Wellington de uma “violência pós-moderna” sem explicação? Das muitas agressões cotidianas, a da escola do Realengo é apenas uma demonstração da potencialidade de nossos ódios. A única coisa que me pergunto é: teremos a coragem de fazer esse tipo de discussão?

Ana Flávia C. Ramos é professora, historiadora pela Unicamp

Fonte: http://www.viomundo.com.br/

Alemanha anuncia fechamento de todas as usinas nucleares até 2022

Brasília – O governo da Alemanha anunciou hoje (30) acordo para o fechamento de todas as usinas nucleares do país até 2022. O anúncio, após uma reunião que terminou apenas na madrugada desta segunda-feira (30), foi feito pelo ministro do Meio Ambiente, Norbert Rottgen.

Da BBC Brasil

A chanceler Angela Merkel criou uma comissão de ética para analisar a energia nuclear após o desastre ocorrido na usina japonesa de Fukushima.

Após o grande terremoto e o tsunami que danificaram a usina japonesa e provocaram um dos maiores desastres nucleares da história, a Alemanha foi palco de grandes protestos contra a energia nuclear.

Rottgen afirmou que os sete reatores mais antigos do país, que já estavam parados por uma moratória determinada pelo governo, além da Usina Nuclear Kruemmel, não serão reativados.Mais seis reatores devem ser desligados até 2021, e os três mais novos devem ser desativados em 2022.

“É definitivo. O fim das últimas três usinas nucleares será em 2022. Não haverá cláusula para revisão”, afirmou o ministro. Antes da reunião que decidiu pelo fechamento das usinas nucleares, Merkel advertiu que muitas questões ainda têm que ser consideradas.

“Se você quer deixar algo, também tem que provar como a mudança vai funcionar e como podemos garantir o fornecimento duradouro de energia sustentável”. Antes da moratória nas usinas nucleares decretada em março, após o acidente em Fukushima, a Alemanha dependia da energia nuclear para 23% de seu suprimento.

A onda de protestos contra a energia nuclear na Alemanha fortaleceu o Partido Verde, que no fim de março venceu as eleições locais em Baden-Wuerttemberg, antes controlada pelo Partido Democrata Cristão, de Merkel.

Fonte: http://agenciabrasil.ebc.com.br/

São Paulo: segregação urbana e desigualdade

Provavelmente o maior avanço ocorrido no campo da ciência da geografia em todos os tempos tenha sido a consciência e a recente difusão da ideia (Lefèbvre, Harvey, Gottdiener e tantos outros) de que o espaço social no nosso caso, o espaço urbano – é socialmente produzido, ou seja, não é dado pela natureza, mas é produto produzido pelo trabalho humano. 

Flávio Villaça

    Introdução

    A partir dessa concepção do espaço social, e só a partir dela, foi possível inserir seu estudo na lógica do materialismo histórico, da dominação e do conflito de classes, coisa que não só não tinha sido possível antes, como também vinha entravando o desenvolvimento da geografia, impedindo-a de ultrapassar a etapa primária de uma ciência humana que se limitava à simples descrição do espaço.

    Este texto procura mostrar uma abordagem do espaço urbano como produto produzido.

    Parte da premissa de que nenhum aspecto da sociedade brasileira poderá ser jamais explicado /compreendido se não for considerada a enorme desigualdade econômica e de poder político que ocorre em nossa sociedade. O maior problema do Brasil não é a pobreza, mas a desigualdade e a injustiça a ela associada. Desigualdade econômica e desigualdade de poder político.

    Daí decorre a importância da segregação na análise do espaço urbano de nossas metrópoles, pois a segregação é a mais importante manifestação espacial-urbana da desigualdade que impera em nossa sociedade. No caso das metrópoles brasileiras, a segregação urbana tem uma outra característica, condizente com nossa desigualdade: o enorme desnível que existe entre o espaço urbano dos mais ricos e o dos mais pobres. Transferido para o campo do urbano, a premissa dada passa a ter o seguinte enunciado: nenhum aspecto do espaço urbano brasileiro poderá ser jamais explicado/compreendido se não forem consideradas as especificidades da segregação social e econômica que caracteriza nossas metrópoles, cidades grandes e médias.

    Da mesma forma, a segregação urbana só pode ser satisfatoriamente entendida se for articulada explicitamente (e não apenas implicitamente ou subentendida) com a desigualdade. Essa explicitação se dá desvendando-se os vínculos específicos que articulam o espaço urbano segregado com a economia, a política e a ideologia, por meio das quais opera a dominação por meio dele.

    Os avanços

    Destacamos, neste texto, seis aspectos nos quais nossas reflexões sobre segregação urbana (Villaça, 2009) se articulam explicitamente com a desigualdade e a dominação e avançam em relação à maioria dos estudos brasileiros atuais sobre o tema:

    Elas avançam no sentido de:

    1) … negar a forma clássica de segregação que se apresentaria sob a forma de círculos concêntricos, com os mais ricos no centro e os mais pobres na periferia.

    2) … historicizar a segregação. A falta de inserção histórica é uma das responsáveis por várias das limitações nas análises atuais sobre segregação urbana.

    3) … mostrar como se dá a relação entre a segregação e a totalidade das estruturas social e urbana. Sem isso, os estudos sobre segregação ficam incompletos e por isso inaceitáveis.

    4) … mostrar a relação entre a dominação e a segregação, esclarecendo as especificidades da dominação através do espaço urbano, ou seja, mostrar o papel do espaço urbano no processo de dominação.

    5) … abordar a segregação, não mais por bairro, mas por região geral da cidade; essa abordagem traz um enorme potencial explicativo muito maior que o da segregação por bairro, e só ela é capaz de explicar as relações aqui indicadas.

    6) Finalmente, e em síntese, avançam no sentido de explicar a segregação, e não apenas no de denunciá-la, descrevê-la ou medi-la.

    Os estudos tradicionais da segregação (como os da sociologia urbana americana entre as décadas de 1950 e 1970), e alguns produzidos no Brasil, não mostram objetivamente (às vezes, nem implicitamente) as relações entre, de um lado, a segregação e o restante da estrutura urbana, e, de outro, suas relações com os demais aspetos da totalidade social, ou seja, com seus aspectos econômico, político e ideológico.

    A forma mais tradicional de estudo da segregação urbana é aquela que aborda o centro versus periferia urbanos. Essa forma raramente é apresentada como segregação nem é analisada sob essa óptica. Tem o mérito de não ser por bairro, mas por região urbana ou conjunto de bairros. Entretanto, limita-se fundamentalmente a uma descrição. As abordagens sob a óptica centro versus periferia, quando ultrapassam a descrição, limitam-se a denunciar a injustiça, não conseguindo explicar a segregação nem articulá-la ao restante da estrutura urbana e da totalidade social. Além disso – e isso já seria motivo suficiente para rejeitá-la -, é falsa como descrição da segregação. Segundo ela, em nossas metrópoles (e também nossas cidades médias e grandes), a segregação dar-se-ia segundo círculos concêntricos, com os mais ricos no centro e os mais pobres na periferia. Essa falsa visão decorre da teoria dos círculos concêntricos da Escola de Chicago, do início do século XX. O Rio de Janeiro, por exemplo, sempre desmentiu essa visão, pois a Zona Sul nunca teve periferia pobre. Seja no início do século XX, tempo em que Ipanema e Leblon eram periferia, seja no tempo em que Barra da Tijuca o era, seja hoje, quando o Recreio dos Bandeirantes o é. Favela incrustada na mancha urbana (como a Rocinha) não é periferia segundo nenhum conceito do termo. Além disso, em São Paulo, Granja Viana, Alphaville ou Aldeia da Serra mostram que há décadas existem áreas mais ricas não só fora do centro, mas na periferia afastada.

    Abordagens recentes da segregação

    Talvez a forma mais destacada de estudo da segregação moderna seja sua manifestação sob a forma dos condomínios fechados. Esses estudos – como a maioria daqueles sobre segregação – não colocam a segregação num contexto histórico nem a articulam com o restante da estrutura urbana, como também não mostram explicitamente (às vezes deixando apenas subentendidas) as articulações entre a segregação e as esferas econômicas, políticas e ideológicas da sociedade. Enfim, não explicam esse tipo particular de segregação, limitando-se a articulá-lo ao advento da segurança, da violência urbana, dos interesses imobiliários, da cultura e dos novos valores por esses criados e/ou divulgados.

    Em que os condomínios fechados se distinguem das tradicionais formas de segregação, por classe e por bairro, que existem há mais de um século em nossas cidades? Em que se distinguem do Jardim América, Pacaembu ou Alto de Pinheiros? Só no tocante à proteção contra a violência? Aos controles de portaria? À produção imobiliária? No tocante à novidade imobiliária, eles em nada se distinguem desses bairros há 50 ou 80 anos. Há poucas interpretações dessas novidades que ultrapassem as relações com os interesses imobiliários (a criação de um novo "produto" imobiliário) ou com a questão da segurança. Em que e por que esses aspectos são algo significantemente novo? Claro que são novos. A questão é, insistimos, se são significantemente novos. Em que e por quê são irrelevantes ou relevantes? Como integrar sua análise a processos socioespaciais mas amplos? Como interpretar os condomínios fechados superando a denúncia e os interesses dos moradores? Sobre isso pouco ou nada tem-se falado.

    Esses estudos – como muitos estudos urbanos – têm um fundo não muito claro e nunca explicitado. É um fundo moral, ético, que destaca a injustiça. Quando destacam a opressão ou a dominação, fazem-no sob a óptica da injustiça. Como sua causa real não é estudada nem claramente explicitada, ela passa ao leitor (o que deve ocorrer também na cabeça de muitos dos autores) a ideia de que sua causa é a maldade, a ganância e os interesses mesquinhos dos homens. Nessa base ética está o maior perigo de qualquer análise social, as urbanas incluídas. Isso já foi denunciado há mais de um século por F. Engels ao criticar os socialistas utópicos que criticavam o capitalismo com base na ética. Criticou-os por acreditarem que com esse socialismo despontava o reino da razão e que com ele "a superstição, a injustiça, o privilégio e a opressão, seriam substituídos pela verdade eterna, pela eterna justiça, pela igualdade baseada na natureza e pelos direitos inalienáveis do homem" (Engels, s. d., p.19). A segregação é, assim, vista por esses estudos sob a óptica da justiça e da razão e assim moralmente condenável.

    Quais são os limites dos estudos da segregação por bairro, por classe social, ou daqueles que abordam os condomínios fechados ou o centro versus periferia?

    Já mostramos antes que essa visão é falsa. A descrição centro versus periferia não permite, por exemplo, que se articule a segregação com as estruturas urbana e social. Essa descrição não explica, por exemplo, por que o centro tradicional de nossas cidades cresce mais numa determinada direção do que em outras (ou isso nada tem a ver com a segregação urbana?). Pela própria lógica do esquema centro versus periferia, o centro deveria crescer mais ou menos uniformemente em todas as direções. No entanto, há mais de um século isso não ocorre em nossas metrópoles. Não explica ainda a articulação da segregação com as esferas econômicas, que se dá por meio da atividade econômica que maior interesse tem no espaço urbano: a atividade imobiliária. Não toca sequer nas articulações entre, de um lado, a segregação e, de outro, o poder político e a ideologia. Como tantas análises da segregação, ela enfatiza – explícita ou implicitamente – a desigualdade como injustiça, não deixando clara se ela é ou não devida à maldade dos homens.

    É preciso ultrapassar não só a descrição, mas especialmente a explicação fundada em razões éticas e morais.

    Em obras anteriores, abordamos a segregação por classes, mas não por bairros, mas por grandes conjuntos de bairros, ou seja, por grandes regiões da cidade. Com isso abriu-se uma enorme possibilidade de explicação e compreensão não só do próprio processo de segregação, mas também com suas articulações com aspectos fundamentais da sociedade.

    Descrever e explicar

    A diferença entre descrever e explicar não é simples e varia de um grupo de ciências para outro; ciências exatas abstratas (matemática), ciências exatas aplicadas, ciências da natureza ou ciências sociais. Vamos abordar apenas o caso das ciências sociais, de uma maneira simplificada, porém fundamental, e de um único processo social: a segregação urbana.

    Em que consiste explicar ou entender a segregação urbana? Temos insistido que a abordagem da segregação por região da cidade tem um poder explicativo muito maior do que sua abordagem por bairro. Isso porque ela permite uma melhor explicação da estrutura urbana como um todo e de suas articulação com os processos sociais fundamentais e do próprio processo de segregação.

    Simplificadamente, explicar qualquer processo social – a segregação urbana incluída – é articulá-lo à totalidade social (os aspectos econômico, político e ideológico da sociedade) e a seus movimentos. É por meio dele mostrar como a segregação se articula com a mais importante (mas não a única) das manifestações explicativas das transformações sociais, ou seja, a dominação social, que gera a desigualdade, especialmente acentuada no Brasil.

    Não basta, portanto, nem denunciar, nem medir a segregação em nossas grades cidades e metrópoles, seja por bairros, seja por conjuntos de bairros. É preciso explicá-la.

    A participação do espaço urbano na dominação social

    Para haver uma boa interpretação ou explicação de um processo social, é preciso haver antes uma boa descrição desse processo. Essa, entretanto, é uma condição necessária, mas não suficiente para uma boa explicação. Uma boa descrição não leva necessariamente a uma boa interpretação, mas uma má descrição leva necessariamente a uma má interpretação, a não ser por coincidência ou acaso (o que, cientificamente, não tem nenhum valor).

    No caso particular das cidades brasileiras, é indispensável articular o papel da segregação urbana nas produção da desigualdade e da dominação sociais. Isso porque a segregação (em geral, e em inúmeras de suas manifestações "oficiais") é aquela forma de exclusão social e de dominação que tem uma dimensão espacial. Essa dimensão aparece, por exemplo, na determinação, comum nos Estados Unidos até a década de 1970, de que os negros ocupem os últimos lugares dos ônibus (componente espacial), usem sanitários separados (componente espacial), frequentem escolas separadas (componente espacial) etc.

    Nenhum estudo do espaço urbano será satisfatório se não entender a segregação espacial urbana.

    Há muitas décadas, a segregação residencial vem sendo objeto de investigação por muitos estudiosos. Entretanto, não só as articulações aqui mencionadas não têm sido esclarecidas, como também apenas a segregação residencial tem sido estudada.

    Há tempos estamos desenvolvendo a tese de que a segregação deve ser analisada por região da cidade (e não por bairros) e ultrapassar a segregação residencial. Vamos aqui abordar essa ultrapassagem e analisar, também, a segregação dos empregos, do comércio e dos serviços.

    O estudo das relações entre espaço e sociedade é tão antigo quanto complexo. Nossa tentativa de enfrentar essa complexidade levou-nos a simplificar o "lado social" e o "lado espacial" da análise. Nasceu assim a ideia da região da cidade.

    O poder explicativo da segregação ficará tão maior quanto mais simples e profundo ele for, ou seja, quanto mais se conseguir sair do terreno movediço que, em geral, envolve o estudo das classes sociais. Do "lado social", dividimos então a sociedade metropolitana (no caso, São Paulo) em apenas duas classes sociais que chamaremos: "os mais ricos" ou "as camadas de mais alta renda", e os mais pobres ou os de "mais baixa renda".

    Do lado do espaço, essa simplificação teve suas consequências. Tendo em vista que qualquer metrópole tem centenas de bairros, a segregação por bairro acaba perdendo seu poder explicativo, pois essa quantidade leva a análise para um lado abstrato, já que conduz o estudo a bairros ideais ou tipologias de bairros. Esses poderiam, então, ser agrupados em regiões homogêneas. Isso, entretanto, não tem sido feito. Foi esse o caminho que exploramos ao analisar conjuntos de bairros ou regiões urbanas.

    Inicialmente, vejamos como se dá a segregação na capital paulista.

    Analisando distribuição espacial das classes sociais no município de São Paulo, verifica-se que há uma região geral da cidade onde ocorre uma excepcional concentração das classes de mais alta renda. Essa região é integrada por vários bairros, das mais distintas classes sociais, porém a maior parte daquelas classes está concentrada nessa região. Ela foi por nós chamada de Região de Grande Concentração das Camadas de Mais Alta Renda. No caso de São Paulo, é seu Quadrante Sudoeste mostrado nas figuras 1 a 8. Essas figuras mostram a segregação das camadas de mais alta renda do Quadrante Sudoeste de acordo com uma grande variedade de indicadores. Elas já foram apresentadas em outras obras nossas. Chamamos a atenção especialmente para o mapa que mostra o clima na cidade (Figura 4). Até o clima – que supostamente não seria obra dos homens – é mais ameno no Quadrante Sudoeste do que no restante da cidade. Isso se deve ao fato de essa região ter muito mais parques e ser muito mais arborizada do que o restante da cidade (como também da metrópole). No caso do Rio de Janeiro, o clima não é produzido (como em são Paulo), mas as camadas de mais alta renda sempre se apossaram das regiões ambientalmente mais favoráveis. Desde o final do século XIX, essa região é sua conhecida Zona Sul.

    O estudo da segregação das camadas de mais alta renda, ou dos mais ricos (e por oposição, a das classes de mais baixa renda), encarado do ponto de vista de uma região geral da cidade, permite as seguintes articulações:

  • Com os aspectos políticos: por meio da legislação urbanística, da atuação do Estado, especialmente sobre o sistema de transportes (produtor, como veremos adiante, de "localizações") ou da localização dos aparelhos do Estado. O Quadrante Sudoeste, enfatizado antes, é privilegiado tanto por esse sistema como por essas localizações.

  • Com os aspectos econômicos: especialmente por meio do mercado da terra, formação dos preços da terra e pela atividade imobiliária. Essas são muito mais dinâmicas no Quadrante Sudoeste e a terra ali tem preço mais alto (outras coisas sendo iguais).

    • Basta olhar os cadernos de imóveis dos principais jornais de qualquer metrópole brasileira para ver a concentração da atividade imobiliária nas respectivas áreas de concentração das camadas de mais alta renda.

      A Figura 1 mostra que, no Quadrante Sudoeste, concentram-se as áreas com "nenhuma ou baixa privação" social (áreas essas que respondem por 22,1% da população), numa pesquisa sobre Vulnerabilidade Social (Folha de S.Paulo, 23.2.2002, p.C-3).

      Segundo a fonte, o conceito de "vulnerabilidade social" desenvolveu-se ultimamente, fazendo parte, até mesmo, da Proposta de Carta Mundial do Di- reito à Cidade, aprovada no Fórum Social das Américas, realizado em Quito, Equador, em julho de 2004. A Figura 1 mostra os distritos de menor Vulnerabilidade Social do Município de São Paulo.

      A Figura 2 mostra a distribuição de negros na cidade. Ela mostra que, no Quadrante Sudoeste, está concentrada a maioria dos distritos com menor população negra. Neles há, no máximo, 10% de negros (pretos e pardos, na terminologia da pesquisa) (Folha de S.Paulo, 21.9.2003, p.C-4).

      A Figura 3 mostra que, no Quadrante Sudoeste, estão localizados todos os dez distritos considerados os "melhores locais para jovens" (nota acima de 0,65 numa escala de 0 a 1: quanto mais alta a nota, melhor para jovens é a região). Nessa pesquisa, foram considerados "percentuais de população jovem, mães adolescentes e viagens por lazer, além de crescimento populacional, mortalidade por homicídios, escolaridade, índice de mobilidade e rendimento familiar" (Revista da Folha, 24.8.2003, p.6).

      A Figura 4 mostra que o clima, no Quadrante Sudoeste, é mais ameno que no restante da zona urbana do município. Nesse Quadrante, a temperatura varia entre 25 e 29 graus, enquanto, na Zona Leste, varia de 29 a 33 graus. Nele a temperatura chega a ser 9 graus menor que na Zona Leste (Folha de S.Paulo, 15.2.2004, p.C-8). Nossa interpretação é que isso se deve ao fato de o Quadrante Sudoeste ser mais arborizado e ter mais praças e áreas verdes que a Zona Leste, por exemplo. O fato não tem relação com a altitude, como se poderia imaginar. A maior parte dos bairros ao longo do Rio Pinheiros, e mesmo afastados dele, como os Jardins América e Europa, Alto de Pinheiros e City Butantã, por exemplo (todos no Quadrante Sudoeste), tem a mesma altitude que a maior parte da Zona Leste. A Figura 4 mostra as Áreas de Temperatura Mais Amena, excetuadas, evidentemente, as regiões serranas da Zona Norte (Serra da Cantareira) e do extremo sul do município.

      A Figura 5 mostra que, no Quadrante Sudoeste, estão concentrados todos os seis distritos com mais alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do município. Numa escala de 0 a 1, sendo os valores mais altos representativos de melhores índices, esses distritos eram: Moema, com IDH igual a 0,884, o mais alto do município; Morumbi, com 0,860; Jardim Paulista, com 0,850; Pinheiros, com 0,833; Itaim Bibi, com 0,811; e Alto de Pinheiros, com 0,801. Nesse Quadrante, estava também localizada a maioria dos distritos com IDH acima de 0,651. Esses distritos reuniam apenas 13,53% da população do município. Dentre esses, apenas os distritos de Mooca, Tatuapé e Santana estavam fora do Quadrantes Sudoeste.

      A Figura 6 mostra que o Quadrantes Sudoeste concentra a totalidade dos distritos com as mais altas rendas médias domiciliares (acima de R$ 3.000,00, em valores da época) segundo a Pesquisa Origem e Destino realizada pelo Metrô em 1997.

      A Figura 7 mostra que, no Quadrante Sudoeste, estavam localizadas praticamente todas as Zonas Z-1 (Zonas Exclusivamente Residenciais Unifamiliares) do zoneamento que vigorou no município entre 1972 e 2004 (Feldman, 1996, p.164-5). Segundo o zoneamento aprovado em 2004 nos Planos Regionais, a absoluta maioria da Zonas Exclusivamente Residenciais (ZER) continuava concentrada no Quadrante Sudoeste.

      Embora com alguns distritos na Zona Norte, a maioria dos distritos com menor número de óbitos por homicídio por 100 mil (abaixo de 5) estava localizada no Quadrante Sudoeste.

      Com processos ideológicos, por meio dos quais a classe dominante produz e difunde ideias que visam esconder os processos reais de produção do espaço urbano desigual, que não é necessariamente centro versus periferia.

      Tendo em vista que este último é muito pouco abordado e conhecido (apesar de sua grande importância), vamos falar mais sobre ele. A ideologia domina o pensamento da maioria que o adota como verdadeiro. Trata-se de entender quem produz esse pensamento e com que finalidade. Daremos apenas dois exemplos, lembrando sempre que, sem a nossa abordagem da segregação por regiões urbanas, eles seriam impossíveis. O primeiro se refere à identificação com "a cidade", daquela parte da cidade de interesse da classe dominante. O segundo, mostra, além desse aspecto, também outro que chamaremos de "naturalização dos processos sociais". O primeiro é ilustrado pela seguinte ideia dominante: "A cidade do Rio de Janeiro está comprimida entre o mar e a montanha". Nada mais falso. Isso vale apenas para a Zona Sul. Essa zona (a zona ocupada pela classe dominante) é assim identificada com "a cidade". Assim, quando a prefeitura abre uma nova via na Zona Norte, ela está beneficiando a Zona Norte. Quando ela abre uma via na Zona Sul, ela está beneficiando "a cidade".

      O segundo exemplo mostra os dois casos antes mencionados. A ideia dominante é: o centro da cidade está se "deteriorando". A deterioração, ou apodrecimento, é um processo natural que só ocorre com os seres vivos. Essa ideia pretende esconder o processo real rotulado de "decadência!" e que é de responsabilidade da classe dominante, mas que não quer assumi-lo. A verdade é que a chamada "decadência" decorreu do fato de essa classe ter abandonado o centro, dele retirando suas lojas, escritórios, cinemas etc., e mesmo suas moradias, como as da Av. São Luís. Justamente a partir do momento em que o centro deixa de ser patrocinado pelas elites e passa a ser patrocinado pela maioria popular, cria-se a ideia de que ele está se deteriorando. Mais ainda. Justamente quando a maioria toma conta do centro, cria-se a ideia de que esse não é mais o centro da cidade, e que essa teria um novo centro. Esse ter-se-ia mudado para a Av. Paulista, ou para a Av. Faria Lima, ou para toda a região que inclui dessa avenida até o vale do Rio Pinheiros. Torna-se também dominante a ideia de que essa suposta decadência seria motivada pela velhice e obsolescência dos edifícios centras (deterioração). Essa ideia tornou-se plenamente aceita pela maioria das populações de nossas metrópoles. Se a idade dos edifícios fosse uma importante causa da "decadência" dos centros, o que seria dos centros de Roma, Paris, Berlin, Madri ou Londres? A realidade é que a classe dominante considera que o centro que for seu (e não o da maioria) será o centro da cidade. Há mais de um século, a clientela de alta renda vem abandonando o centro de São Paulo e deixa seus "restos" para as camadas populares (às quais pertence hoje todo o centro "velho"). O deslocamento do centro de São Paulo – sempre na direção de crescimento dos bairros residenciais dos mais ricos – pode ser traçado pelo deslocamento de ruas que sintetizam o comércio e/ou serviços das elites. Inicialmente a Rua XV de Novembro (até o final do século XIX) depois a Rua Direita, depois a Rua Barão de Itapetininga, depois para a Av. Paulista e parte do final da Rua Augusta, até chegar hoje à Av. Faria Lima, à Marginal do Rio Pinheiros e à Av. Luís Calos Berrini. Já no final da década de 1940, prenunciando sua "decadência", a Rua Direita tornou-se, nas noites de fim de semana, um tradicional ponto do footing dos negros.

      A produção dessa ideologia seria impossível sem a abordagem da segregação por região da cidade.

      Em outras oportunidades, já desenvolvemos várias considerações a respeito dessas ideias, que fazem parte de um processo mais amplo de dominação por meio do espaço urbano. Resumidamente, podemos já adiantar, essa dominação se dá pela desigual distribuição das vantagens e desvantagens do espaço produzido; essas vantagens e desvantagens dizem respeito especialmente à manipulação, pela classe dominante, dos tempos gastos nos deslocamentos espaciais dos habitantes da cidade.

      A estrutura urbana e os deslocamento espaciais

      A importância que a segregação por região apresenta para a compreensão da estrutura urbana é mostrada ao longo de todo esta seção, mas vamos destacar apenas os seguintes aspectos, que mostram como:

      a) … a abordagem da segregação por região da cidade permite seu relacionamento com toda a estrutura urbana, ao focalizar a inter-relação entre a produção do espaço urbano como um todo, com a segregação das residências dos mais ricos (e, por oposição, a dos mais pobres), com a segregação dos seus locais de emprego e serviços e finalmente com a dominação por meio do espaço urbano.

      b) … ela faz aflorar novos possíveis tipos de segregação problematizando seu conceito. É o caso da segregação dos locais de emprego destacada neste texto.

      A segregação dos empregos: o espaço

      Ao falarmos da segregação e da localização dos empregos, estaremos falando do espaço.

      As ideias desenvolvidas a seguir sobre estrutura urbana e segregação dos locais de emprego referem-se a São Paulo, mas poderiam perfeitamente referir-se a Rio de Janeiro, Belo Horizonte ou Salvador. Acredito que o estudioso de cada cidade ou metrópole brasileira não encontrará dificuldade em fazer as necessárias adaptações. Essa possibilidade, aliás, é uma outra esclarecedora vantagem da abordagem da segregação por região da cidade. Toda cidade brasileira acima da média tem uma região geral segregada tal como a aqui descrita para São Paulo. Ela existe no Rio, com sua conhecida Zona Sul, especialmente em décadas mais recentes, com o crescente advento da Barra da Tijuca como local de shoppings, serviços e escritórios em geral, e corporativos em particular. O mesmo ocorre com todas as Regiões Metropolitanas do Brasil, como em Porto Alegre (Independência/Moinhos de Vento), em Belo Horizonte (Lourdes/Savassi), em Recife (Boa Viagem), em Curitiba (Batel), em Fortaleza (Aldeota), ou Salvador (região do Iguatemi). Isso facilita muito aos moradores dessas metrópoles a transposição, para elas, das questões aqui apresentadas.

      Iniciemos destacando que a localização dos empregos terciários apresenta um duplo interesse para a população que deles se utiliza; na maior parte dos casos (os empregos que atendem o público), cada ponto de emprego desse setor é não só um local de emprego, mas também um local de atendimento da população nas suas compras e nos seus serviços. Assim, a concentração dos empregos terciários tem um duplo interesse, coisa que não ocorre com o setor secundário, que não atende o público.

      Todas as nossas metrópoles desenvolveram sua Área de Grande Concentração das Camadas de Alta Renda. Como já foi aqui mostrado, no caso da Região Metropolitana de São Paulo, essa área é seu Quadrante Sudoeste. Partindo do centro, situam-se nesse Quadrante os bairros de Higienópolis, Pacaembu, Consolação, Av. Paulista, Vila Mariana, Aclimação, Ipiranga, Sumaré, Perdizes, Vila Pompeia, Altos da Lapa e Pinheiros, Jardins, Butantã, Morumbi e vizinhanças, Moema, Brooklin, Alto da Boa Vista, Granja Julieta etc. Para aqueles que pensam que aí está tout São Paulo, lembramos que essa região, incluindo os bairros populares nela contidos, não abrange nem 20% da população da Região Metropolitana, e que dela estão excluídos as zonas Norte e Leste (até Mogi das Cruzes), além de ABCD, Mauá e Ribeirão Pires, Guarulhos, Osasco, Carapicuíba etc. Dela estão também excluídos, embora localizados fora do município, porém dentro do Quadrante Sudoeste ou suas bordas (confirmando nossa tese de direção única de crescimento), os bairros de Granja Viana, Tamboré, Alphaville e Aldeia da Serra. No caso do Rio, a segregação é ainda mais acentuada. Sua conhecida Zona Sul, da Glória ao Recreio dos Bandeirantes, e incluindo a Rocinha e suas demais favelas, tem apenas 10% da população da Região Metropolitana.

      A segregação residencial tem sido muito estudada há décadas. Vamos apenas acrescentar a ela a segregação dos empregos e dos locais de compras e serviços. Trata-se de uma abordagem tão particular quanto fundamental. Vamos mostrar o caso de São Paulo, destacando as concentrações dos empregos da maioria (os mais pobres) e da minoria mais rica.

      É sabido que a absoluta maioria dos empregos em nossas metrópoles é constituída pelos empregos do setor terciário. Nesse setor, trabalha a maioria dos mais ricos (a recíproca não é verdadeira). No setor terciário, está a grande concentração dos empregos dos mais ricos, especialmente nos escritórios (das várias profissões liberais e ainda os das atividades modernas como o marketing, a publicidade, comunicação, propaganda, informática etc.) nas sedes das corporações multinacionais, nos bancos e nas financeiras, nas sedes das empresas médias e grandes das mais variadas naturezas, consultórios etc., e ainda no comércio varejista. Esses empregos estão concentrados numa única área, que é precisamente a mesma onde estão concentradas suas residências dos mais ricos, que é justamente o Quadrante Sudoeste da cidade. As já mencionadas figuras mostram a segregação dos mais ricos nesse Quadrante segundo vários indicadores.

      No Quadrante Sudoeste de São Paulo, concentram-se não apenas os locais de emprego dos mais ricos, mas também seu comércio (seus shoppings), suas escolas elementares e secundárias, as escolas de judô ou natação (que frequentemente exigem também o deslocamento da mãe), os salões de beleza, os hospitais, os parques, os pet-shops, as choperias e áreas de diversão (Vila Madalena ou Moema), os médicos, as academias de ginástica, os dentistas… até suas igrejas e cemitérios! Enfim, toda uma infinidade de serviços prestados aos mais ricos. Assim, os mais ricos minimizam os tempos de deslocamento para os locais de diversão, lazer, compras e serviços de todos os membros da família.

      A maior parte dos mais ricos trabalha no setor terciário. A maior parte dos mais pobres também trabalha no setor terciário. Os mais ricos produziram uma única área de concentração dos seus empregos (os do terciário). Entretanto, essa área é também uma área de concentração dos empregos dos mais pobres. Só que para esses ela está longe de ser a única.

      Os mais pobres têm várias áreas de concentração dos seus empregos, além de tê-los (ao contrário dos mais ricos) tanto no setor secundário (indústrias) como no terciário.

      Antes de prosseguir, destacamos que, quando se fala em "local do emprego", está-se falando tanto do emprego da mulher como do marido; no caso dos mais pobres, como também no dos filhos adolescentes (majoritariamente, o caso dos mais pobres).

      Iniciemos pelos locais de concentração dos empregos terciários.

      Os estabelecimentos do setor terciário são extremamente espalhados pelo espaço urbano; basta pensar nas centenas de lojas, farmácias, oficinas diversas, bares e padarias, pequeno comércio etc. que há espalhados por toda a cidade, até mesmo nos bairros pobres. Há, entretanto, áreas onde esses empregos são excepcionalmente concentrados.

      Apesar de os empregos terciários serem espalhados, a classe dominante, que neles predominantemente trabalha, produziu uma única área onde esses empregos são mais concentrados. Isso não quer dizer que os empregos dos mais ricos ali predominem; pelo contrário. Além disso, a classe dominante também produziu a área de grande concentração das suas moradias, onde ocorre igualmente a grande concentração de seus próprios locais de emprego, comércio e serviços. Como já foi dito, nessa área ocorre também uma grande concentração dos empregos dos mais pobres (pessoal de limpeza, garçons, vendedores, balconistas, auxiliares em geral, pessoal de mais baixa qualificação, seguranças etc.) que nelas, aliás, predominam.

      Além dessa, os mais pobres têm várias outras áreas de concentração de empregos terciários. Em primeiro lugar, destacam-se os "decadentes" centros principais de nossas metrópoles, que são, cada vez mais, áreas de grande concentração de empregos dos mais pobres. Não vamos desenvolver aqui a questão da importância do centro "antigo" para a estrutura urbana. No passado, ele já foi um elemento fundamental. Hoje, já não se pode afirmar isso com tanta segurança. Além dele, há ainda as concentrações representadas pelos subcentros de comércio e serviços, todos eles populares, com diminuta participação dos mais ricos (subcentros da Lapa, de Pinheiros, de Santo Amaro, da Penha etc.), e ainda os centros – todos eles populares – que são os centros principais de muitos municípios da Região Metropolitana, como o centro de Santo André, o de São Bernardo, o de Guarulhos, o de Osasco, o de Mauá, o de Poá etc. Todos são não só centro de empregos, como também centros de comércio e serviços. Note-se que essas são apenas as áreas de grande concentração dos empregos terciários, pois, como já foi destacado, tais empregos são muito espalhados. Isso dificulta ainda mais os deslocamentos moradia/trabalho dos mais pobres.

      Vejamos agora as concentrações espaciais dos empregos industriais.

      A participação dos mais pobres sobre o total de empregos industriais é muito maior que a participação dos mais ricos. Numa indústria de tamanho médio ou maior, há relativamente poucos empregos dos mais ricos para muitos milhares de empregos dos mais pobres. Assim, uma zona industrial é uma zona de concentração dos empregos dos mais pobres, mas não é uma zona de concentração dos empregos dos maios ricos.

      A grande maioria dos que trabalham na indústria é constituída pelos mais pobres. Não é verdade que a recíproca seja verdadeira, mas a parcela dos mais pobres que trabalha na indústria é bem maior que a dos mais ricos. Assim, a segunda fonte de emprego, que é a indústria, é muito mais importante para os mais pobres do que para os mais ricos. Daí decorre que a localização das zonas industriais é muito mais importante para os mais pobres do que para os mais ricos, que, aliás, moram afastados delas.

      A proximidade ao emprego industrial não é disputada pelos mais ricos, por isso os mais pobres a disputam. Assim, sempre que possível, os trabalhadores dessas zonas procuram localizar-se perto das zonas industriais (especialmente ABCD, Guarulhos e Osasco).

      Isso mostra por que a Zona Leste – que quase não tem indústrias -, do Belém/Mooca a Mogi das Cruzes, é a grande região dos mais pobre da metrópole. Servida por apenas uma linha de metrô (incompatível com suas dimensões demográficas ) e por um péssimo serviço ferroviário suburbano, é a região dos "derrotados", ou seja, dos que perderam a disputa (de pobre versus pobre) pela proximidade do emprego industrial e da maior concentração de empregos terciários da metrópole (que na época já era também sua maior concentração desses empregos dos mais pobres: o centro "velho"). Dada a pobreza de sua população, também não se desenvolveu na Zona Leste (ao contrário do Quadrante Sudoeste ou do ABCD), uma grande rede de subcentros de comércio e serviços. A Zona Leste já teve, no passado, o segundo (depois do centro principal) maior subcentro diversificado da metrópole – o Brás. O processo de "decadência" por que passou esse bairro, semelhante ao do centro principal, bem reflete o empobrecimento da população da região por ele polarizada – a Zona Leste – a partir de meados do século XX. Além disso, o Brás tornou-se muito central; por isso, consideramos que a Zona Leste se inicia no Belém/Mooca.

      Os mais pobres têm, então, várias áreas de concentração de seus empregos. Várias concentrações terciárias e várias zonas industriais. Os mais ricos têm apenas uma.

      Ao comandar a produção do espaço urbano, a classe dominante comanda não só a sua produção material e direta, seu valor e seu preço (comandando o mercado imobiliário). Comanda também as ações do Estado sobre esse espaço (legislação urbanística, localização dos aparelhos de Estado, produção do sistema de transportes etc.) e ainda a produção das ideias dominantes a respeito dele. Tudo isso na verdade é o que especifica o espaço urbano.

      Os deslocamentos espaciais: o tempo

      Ao falarmos dos deslocamentos da população, estamos falando do tempo. Vamos falar muito da relação espaço/tempo mais adiante. Já adiantamos, porém, que a otimização dos tempos gastos no deslocamento espacial (tempo) dos moradores das cidades é o mais importante fator explicativo da organização do espaço urbano e do papel desse na dominação social que se processa por meio dele. A classe dominante manipula a produção desse espaço priorizando sempre a otimização dos seus tempos de deslocamento.

      Os tempos gastos pelos habitantes das cidades em seus deslocamentos espaciais há muitas décadas vêm sendo objeto de pesquisas muito desenvolvidas pela engenharia de tráfego. São pesquisas que investigam os deslocamento da população entre os locais de moradia e de trabalho, compras, ensino etc., e ainda as razões desses deslocamentos. Em São Paulo, essas pesquisas vêm sendo feitas decenalmente pela Cia. do Metrô há mais de quatro décadas, e em toda a Grande São Paulo. São as chamadas Pesquisas OD, ou seja, de Origem e Destino das viagens feitas pela população. As pesquisas OD partem de um espaço urbano dado. Mesmo quando baseadas em projeções das transformações do espaço urbano, essas se fazem a partir de tendências histórias de comportamento do mercado, especialmente o mercado imobiliário. A partir daí, avaliam os mais diversos deslocamentos territoriais da população (incluindo os a pé) segundo os meios de transporte utilizados e os motivos dos deslocamentos (trabalhar, ir às compras, à escola etc.).

      Baseados na ideia exposta no início – a de que o espaço urbano não é um dado da natureza, mas é produto produzido -, estamos procurando mostrar como é produzido esse espaço que, por sua vez, produz determinados deslocamentos dos habitantes da cidade.

      As pesquisas OD estudam deslocamentos que sempre partem da moradia: moradia/local de emprego, moradia/local de compras, moradia/escola etc. Tendo em vista que os mais pobres têm várias concentrações de seus locais de trabalho, o que ocorre então com os deslocamentos dos membros das famílias mais pobres? O marido trabalha num local, a esposa em outro local diferente (em geral, não só longe de sua moradia, mas também longe do emprego do marido), os filhos adolescentes trabalham em outro local e as crianças vão a uma escola ou a uma creche que, talvez, por sorte, esteja perto da casa ou dos locais de trabalho da mãe ou do pai. A eventual existência de escolas ou creches perto das residências dos mais pobres não chega a atenuar minimamente seus problemas de deslocamento.

      Embora as mais importantes viagens urbanas sejam as que ligam os locais de moradia aos locais de trabalho, há outras viagens – típicas das pesquisas OD – também importantes; são as viagens moradia-escola, moradia-compras e serviços, e moradia-lazer. Entretanto, a importância dessas outras viagens para os mais ricos é muito diferente do que o é para os mais pobres.

      Tal como entre os mais ricos, também entre os mais pobres o deslocamento moradia-emprego envolve tanto o deslocamento do marido como o da mulher. Mas a semelhança para por ai. Entre os mais pobres, é maior o número de trabalhadores por família, pois o número de adolescentes que trabalha é maior que nas famílias ricas. Por isso, seus deslocamentos, além de mais numerosos, são também mais penosos. Isso produz um grande impacto sobre a família mais pobre, especialmente sobre a economia familiar e sobre a saúde dos seus membros (cansaço e redução das horas de sono, por exemplo). Para os mais pobres, é pequeno o peso dos deslocamentos motivados pelo destino das crianças. Essas evidentemente não vão à aula de natação, nem de judô, nem de balé. Vão com a mãe para alguma creche ou escola que, por sorte, possa haver perto do emprego da mãe, ou ficam em casa (com a avó ou com alguma vizinha), ou vão a pé à escola próxima. Além disso, os deslocamentos entre moradia-comércio e moradia-serviços (shopping centers, academias, parques, diversões, cinemas, restaurantes, bancos, salões de beleza, pet-shops etc.) são muito maiores entre os mais ricos do que entre os mais pobres. Portanto, para os mais ricos, além dos deslocamentos moradia-trabalho, há vários outros também importantes, embora não tanto quanto esses. Para os mais pobres, não.

      Finalmente, cabe destacar – apenas no tocante aos deslocamentos urbanos – que os mais pobres não são penalizados somente pela estrutura espacial urbana que produz os locais de origem e destino de suas viagens. São também muito penalizados por outros fatores associados aos deslocamentos espaciais, especialmente a propriedade e o uso de veículos privados (os mais ricos têm dois, três ou mais automóveis por família, que os usam quase diariamente e para as mais variadas finalidades) e ainda pelos sistemas viário e de transportes que, sabidamente, sempre privilegiaram os mais ricos.

      O peso das obras urbanas referentes a transporte – tempo de deslocamento – é enorme. Nossos governantes – prefeitos e outros – conferem uma escandalosa prioridade às obras voltadas para o transporte privado individual, em detrimento do transporte coletivo público. Em qualquer metrópole brasileira, o sistema viário da área de concentração dos mais ricos é muito melhor e maior que no restante da cidade. No Rio, enquanto 90% da população é atendida por um péssimo serviço de trens suburbanos e ônibus, o metrô já está em Ipanema e em breve chegará ao Leblon e à Barra da Tijuca. Em São Paulo, são gastos bilhões de dólares em rodoanéis, túneis e via expressas, enquanto sua Região Metropolitana tem um metrô menor que o de Santiago do Chile (onde a construção do metrô é caríssima pela necessidade de proteção contra terremotos), cuja população da Região Metropolitana é um quarto da de São Paulo.

      Conclusão

      O controle do tempo de deslocamento é a força mais poderosa que atua sobre a produção do espaço urbano como um todo, ou seja: sobre a forma de distribuição da população e seus locais de trabalho, compras, serviços, lazer etc. Não podendo atuar diretamente sobre o tempo, os homens atuam sobre o espaço como meio de atuar sobre o tempo. Daí decorrem a grande disputa social em torno da produção do espaço urbano e a importância do sistema de transporte como elemento da estrutura urbana.

      Daí decorre também a segregação como um mecanismo espacial de controle dos tempos de deslocamento.

      É assim que é produzido o espaço que, por sua vez, produz os pontos de origem e destino dos deslocamentos das populações urbanas.

      No Quadrante Sudoeste da Cidade de São Paulo, ocorre uma tripla segregação dos mais ricos: das suas residências, de seus empregos (os do setor terciário) e ainda do seu comércio e de seus serviços.

      Este texto apresentou não só uma visão mais ampla da segregação socioespacial típica de nossas metrópoles, mas também uma visão que mostra como o espaço urbano se integra à desigualdade socioeconômica e o seu papel na dominação social.

      A obscena desigualdade que existe na sociedade brasileira se manifesta na enorme segregação que se observa em nossas cidades. Essa segregação cria um ônus excepcional para os mais pobres e uma excepcional vantagem para os mais ricos.

      Ao contrário do que se pensa, o tempo e o espaço urbanos não são obras da natureza, mas produtos do trabalho humano. No caso urbano, o tempo se manifesta fundamentalmente por meio do tempo gasto pelos moradores da cidade em seus deslocamentos espaciais. Como mostramos, esse tempo está intrinsecamente ligado ao espaço urbano produzido. Assim, tanto quanto o clima em São Paulo ou seu espaço urbano, também o tempo não é produto da natureza.

      No espaço urbano, como em outras esferas sociais, a dominação social se faz mediante desigual distribuição, entre as classes sociais, dos frutos do trabalho.

      Fonte: http://www.scielo.br/

      68,1% das estatais federais inovaram em 2008

      A taxa de inovação das empresas estatais federais chegou a 68,1% em 2008. Isso significa que, das 72 estatais investigadas, 49 implementaram produto e/ou processo novo ou substancialmente aprimorado entre 2006 e 2008. A informação é da Pesquisa de Inovação nas Empresas Estatais Federais 2008.

      IBGE - Comunicação Social

      O percentual de empresas inovadoras observado é superior aos 38,6% verificados para empresas industriais e dos serviços selecionados no âmbito da Pesquisa de Inovação Tecnológica (PINTEC 2008), excluídas as estatais federais.

      As estatais federais gastaram R$ 5,6 bilhões nas atividades inovativas em 2008, o que representa 1,7% do faturamento de cerca de R$ 330 bilhões. O estudo mostra que as inovações das estatais federais foram baseadas especialmente na realização de atividades contínuas de pesquisa e desenvolvimento (P&D).

      Segundo a pesquisa, mais da metade das estatais federais enfrentou obstáculos à inovação em 2008. Os dois principais foram a dificuldade para se adequar a padrões, normas e regulamentações e a rigidez organizacional, cada um deles citado por 64,3% das estatais federais, percentual superior aos mencionados pelas empresas da PINTEC em geral (32,4% e 31,4%, respectivamente), cujo principal obstáculo foram os elevados custos da inovação, apontado por 73,1% das empresas investigadas.

      Esta é a primeira pesquisa do IBGE a investigar isoladamente as estatais federais, além de setores que nunca tinham sido estudados pelo instituto. O estudo engloba as atividades econômicas de eletricidade e gás; construção; comércio; transporte, armazenagem e correio; atividades financeiras, de seguros e serviços selecionados; atividades imobiliárias; atividades profissionais, científicas e técnicas; atividades administrativas e serviços complementares; e outras atividades de serviços.

      Realizada com o apoio do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) e do Departamento de Coordenação e Governança das Empresas Estatais Federais do Ministério do Planejamento (DEST/MPOG), a Pesquisa de Inovação nas Empresas Estatais Federais 2008 investigou 72 empresas de um conjunto de 118 empresas acompanhadas pelo DEST (http://www.planejamento.gov.br/secretarias/upload/Arquivos/dest/estatistica/
      110406_Est_atividade.pdf), incluindo uma multiterritorial.

      Estatais federais investem mais em atividades de P&D que empresas em geral

      Entre as 49 estatais inovadoras, 37 tinham mais de 500 pessoas ocupadas. A inovação apenas em processo predominou em 33,3% das estatais inovadoras, ao passo que 30,6% delas inovaram em produto e processo e 4,2% apenas em produto. Trata-se de um comportamento diferente do observado pelas empresas em geral da PINTEC 2008, em que as inovações em produto e processo predominaram em 17,2% das inovadoras.

      Dentre as estatais federais inovadoras, 27,8% realizaram inovação de produto para o mercado nacional e 29,2% implementaram processo novo direcionado ao mercado interno, percentuais superiores aos registrados para as empresas em geral (4,4% e 2,4%, respectivamente). Isso porque grande parte das estatais federais são as únicas produtoras de um bem e/ou as únicas a oferecer determinado serviço.

      Entre as atividades empreendidas para inovar, destacaram-se as de P&D, que, desenvolvidas internamente, representaram 42,9% nas estatais contra 11,9% no âmbito da PINTEC 2008; já a aquisição externa ficou em 34,7% entre as estatais frente a 4,2% para as empresas da PINTEC 2008. Nas estatais inovadoras, cerca de 10 mil pessoas se envolveram nesta atividade, 53% com ensino superior, sendo 27% com pós-graduação.

      Dos R$ 5,6 bilhões investidos pelas estatais em inovação, o gasto em P&D interno foi de R$ 3,5 bilhões. Das 19 inovadoras que investiram em P&D interno, 17 desenvolveram a atividade continuamente (89%), percentual superior ao da PINTEC (72%).

      Mais da metade das estatais federais enfrentou obstáculos à inovação em 2008

      Entre 2006 e 2008, 57,1% das estatais federais investigadas enfrentaram ao menos um obstáculo de importância alta ou média para a inovação. Entre eles, detacaram-se a dificuldade para se adequar a padrões, normas e regulamentações e a rigidez organizacional, cada um citado por 64,3% das estatais que tiveram dificuldade em inovar, percentual superior ao do conjunto de empresas do âmbito da PINTEC 2008 (32,4% e 31,4%, respectivamente), retratando dificuldades do setor público ligadas a entraves burocráticos e legais. Outro obstáculo foi a falta de pessoal qualificado (57,1%), como já havia sido observado nas empresas da PINTEC 2008 em geral (58,8%).

      Por outro lado, dois itens com grande expressão no âmbito geral da PINTEC 2008, os elevados custos da inovação (73,1%) e os riscos econômicos excessivos (65,6%), não foram apontadas pela grande maioria das estatais federais, com percentuais de 35,7% e 17,9%, respectivamente.

      Quase 92% das estatais inovadoras implementaram mudanças organizacionais

      Entre as inovações não tecnológicas, percebeu-se que 91,9% das empresas estatais federais inovadoras em produto e/ou processo também realizaram alguma inovação organizacional e 38,8% alguma inovação de marketing. O principal destaque foram as inovações em técnicas de gestão (85,7%), principalmente se comparado à PINTEC 2008, em que 48,1% das empresas implementaram esta modificação.

      A organização do trabalho foi apontada por 71,4% das estatais federais inovadoras, porém também foram observadas taxas próximas a 50% nos dois outros itens que caracterizam este tipo de inovação: técnicas de gestão ambiental (51,0%) e relações externas (49,0%), taxas superiores àquelas observadas nas empresas da PINTEC 2008 em geral (48,1%, 45,9%, 28%, 18,9%, respectivamente). Quanto às inovações de marketing, o movimento foi contrário, com índices maiores nas empresas da PINTEC 2008 em geral (69%), já que grande parte das estatais não têm o foco no mercado.

      Marca é o principal método de proteção utilizado nas estatais federais

      Das estatais federais investigadas, 29,2% utilizaram algum tipo de proteção para garantir a apropriação dos resultados da inovação. A marca foi o método mais utilizado por estatais federais (26,5%), ligeiramente superior ao verificado nas empresas do âmbito geral da PINTEC 2008 (25,0%). Entretanto, na comparação com a PINTEC 2008, destacaram-se as patentes, com 20,4% contra 8,8%; o direito de autor, com 14,3% contra 2,8%; e o segredo industrial, com 12,2% contra 8,5%.

      Cooperação destaca-se como fonte de inovação nas estatais federais

      As estatais federais criaram mais relações de cooperação do que as empresas do âmbito da PINTEC. Das 49 estatais inovadoras, 71,4% estabeleceram alguma relação de cooperação entre 2006 e 2008, enquanto nas investigadas pela PINTEC a taxa foi de 10,4%. Os principais parceiros das estatais federais foram universidades e institutos de pesquisa, com 51,4% frente aos 31,2% da PINTEC 2008.

      Entre as estatais, as cinco principais fontes de informação utilizadas para inovar entre 2006 e 2008 foram áreas internas à empresa (71,4%), fornecedores (59,2%), clientes e consumidores (59,2%), universidades e outros centros de ensino superior (59,2%) e conferências, encontros e publicações especializadas (59,2%). As duas últimas não estavam entre as cinco principais fontes de informação das empresas da PINTEC 2008.

      Melhoria na qualidade foi o principal impacto nas estatais federais inovadoras

      Todas as estatais inovadoras apontaram ao menos um impacto proveniente da inovação como relevante, em especial a melhoria da qualidade dos produtos (83,7%), o aumento da flexibilidade de produção (83,7%) e o aumento da capacidade produtiva (75,5%), estes últimos diretamente ligados à produtividade. Em seguida, aparecem a manutenção (69,4%) e a ampliação (61,2%) da participação da empresa no mercado, considerado o menos importante (46,9%).

      No âmbito geral da PINTEC, os principais impactos relacionavam-se à posição da empresa no mercado (manteve ou ampliou a participação – 76,4% e 68,5%, respectivamente), à melhoria da qualidade dos produtos (75,5%) e a melhorias no processo (aumento da flexibilidade de produção e da capacidade produtiva, ambos com 68,0%).

      Financiamento governamental é superior nas estatais federais inovadoras

      Entre as empresas estatais que inovaram, 24,5% receberam algum tipo de incentivo governamental para inovar, percentual ligeiramente superior ao observado nas empresas da PINTEC em geral 2008 (22,3%), em que se destaca o financiamento à compra de máquinas e equipamentos (13,5%).

      Nas estatais federais esse percentual foi de 2,0%, já que os gastos da inovação foram realizados, principalmente, em P&D. Além disso, os instrumentos de apoio do governo utilizados pelo maior número de empresas foram: outros (12,2%) – bolsas oferecidas pelas Fundações de Amparo à Pesquisa (FAP’s) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e outros programas de governo; financiamento a P&D em parceria com universidades (10,2%); e incentivo fiscal a P&D – Lei do Bem (6,1%).

       

      Fonte: http://www.ibge.gov.br/

      Mãos traiçoeiras

      Tumbas, joias e quadros famosos atiçam a cobiça de gatunos há milênios

      Álvaro Oppermann

      No mundo dos grandes roubos, não são apenas os homens que enchem as mãos com o ouro do vizinho. A roubalheira já incitava brigas e discórdias entre os deuses da mitologia grega. Autólico, filho de Hermes, era conhecido como o Príncipe dos Ladrões: se o pai tinha os pés leves, ele tinha as mãos, chegando até a surrupiar Zeus. O importante, no entanto, é que ninguém gosta de ladrão, mas muitos bem que se deliciam com uma história de golpes – e suas tramoias mirabolantes. E, já que cada época rouba aquilo que mais lhe é importante, os ladrões acabam com a cara e o feitio do tempo em que nasceram.

      Na Idade Média, por exemplo, o fanatismo religioso explicou o furto de corpos de santos da Igreja. Na Renascença, surgiu o mercado negro de arte roubada. Já na Revolução Francesa, época de insurgência popular contra a realeza, o ladrão Cadet Guillot limpou o tesouro de Luís XVI (levando até mesmo a coroa do rei) e nunca foi condenado. Mas, além dele, outras figuras têm um passado suspeito, como Adam Worth, o criminoso vitoriano que inspirou sir Arthur Conan Doyle na criação do arqui-inimigo de Sherlock Holmes, o Professor Moriarty. Ou ainda Leonardo Notarbartolo, o ladrão do roubo mais high-tech da História.

      Dez roubos que marcaram a história

      De caixões a barras de prata e livros gigantes, não há o que pare um bom ladrão

      Joias – 1111 a.C.

      Golpe à egípcia

      De acordo com o Museu Britânico, o primeiro ladrão de túmulos processado no Egito foi Amenpanufer, acusado de surrupiar ouro e joias de tumbas de faraós no Vale dos Reis. Seu roubo mais notório foi o da câmara mortuária de Sobekemsaf. "Eu roubei, sim, por força do hábito", teria dito. Para o historiador T.E. Peet, Amenpanufer encobria uma rede de corrupção da nobreza.

      Prata – 44 a.C.

      Assalto a Herodes

      Na Judeia, um golpe limpou o cofre do governador Herodes. Hezekiah ben Garon, autor do plano, era líder dos zelotes, o partido extremista judaico. Ele e seu bando ludibriaram a guarnição, disfarçando-se de pastores, e afanaram a carga de prata que estava prometida a Cássio, conspirador no assassinato de Júlio César.

      Corpo – 1087

      Santo furto

      Uma comitiva da cidade italiana de Bari foi à Ásia Menor com uma missão peculiar: roubar o cadáver de são Nicolau (que gerou a lenda do Papai Noel), patrono da cidade de Mira (na atual Turquia). Os furtos fúnebres fomentaram um lucrativo comércio na Idade Média. Bari se tornou, então, um centro de peregrinação. Mas, para driblar o mandamento "Não roubarás", os juristas católicos criaram um artifício: o furto teria sido, na verdade, um mero translado. Arte – 1473

      Imbróglio polonês

      A pintura O Juízo Final, de Hans Memling, foi roubada do navio que a transportava dos Países Baixos para Florença quando a embarcação foi rendida pelo capitão Pawel Beneke. Misteriosamente, a obra apareceu na Catedral de Gdansk, na Polônia, gerando um incidente diplomático. O Vaticano mediou a discussão e o quadro permaneceu na Polônia. Foi o primeiro caso ilustre de roubo de arte no Ocidente.

      Joias – 1792

      Assalto em Paris

      O diamante mais famoso do mundo, o Hope, tem um passado nebuloso: ele seria, na verdade, o Azul de França, de Maria Antonieta. A joia foi surrupiada por Cadet Guillot – que roubou também a coroa de Carlos Magno. Em 1813, a pedra reapareceu em Londres. Comprada pelo banqueiro Henry Hope, acabou doada ao Museu Smithsoniano. Arte – 1648

      O livro do demo

      A Bíblia do Diabo foi escrita por um monge beneditino no século 13, que teria feito pacto com o demônio para terminá-la. A história é talvez apócrifa. A bíblia ganhou o apelido, contudo, por causa de uma ilustração do capeta. Com 92 cm de altura, 50 cm de largura e mais de 70 kg, ela foi roubada em Praga durante a Guerra dos Trinta Anos, como um espólio de guerra, por mercenários do rei sueco Karl VIII. Até hoje, a obra permanece na Suécia. Arte – 1878

      Gênio do Crime

      Numa noite enevoada de Londres, o quadro A Duquesa de Devonshire sumiu da galeria Thomas Agnew & Sons. Foi um roubo de Adam Worth, conhecido na Scotland Yard como Napoleão do Crime. O furto, porém, foi inútil: o retrato da jovem Georgiana Spencer não teve comprador. Em 1901, nos EUA, Worth, já velho e doente, negociou um resgate e o quadro voltou ao mercado. Arte – 1911

      Sorriso roubado

      Disfarçado de funcionário do Louvre, o pintor Vincenzo Peruggia roubou o quadro Monalisa. Entre os suspeitos estavam o pintor Pablo Picasso e o poeta Guillaume Apollinaire – Peruggia só foi descoberto em 1913. Sua motivação era patriótica: queria que a obra voltasse à Itália. A pena de Vincenzo foi leve e os jornais italianos o trataram como herói. Dinheiro – 1934

      Inimigo nº 1

      Uma onda de assaltos a bancos varre os EUA. Nenhum gângster é tão famoso quanto John H. Dillinger, o Inimigo Público Nº 1. Depois de fugir da prisão, ele é acusado de assaltar o Security National Bank – um roubo de 46 mil dólares. O FBI promoveu uma caçada humana a Dillinger, que foi morto a tiros. Joias – 2003

      Roubo CSI

      Uma gangue italiana, chamada Escola de Turim, planeja durante um ano e meio o roubo ao Distrito dos Diamantes de Antuérpia, na Bélgica. Leonardo Notarbartolo e seu grupo estudam a planta do local, clonam chaves eletrônicas e descobrem como passar despercebidos. O bando limpou 123 dos 160 cofres (US$ 100 milhões em pedras).

      Fonte: http://historia.abril.com.br/

      A Síria e o imperialismo dos EUA

       Quando o imperialismo dos EUA se empenha num ataque a qualquer governo ou movimento, os movimentos políticos dos trabalhadores e dos progressistas para uma transformação precisam forçosamente de reunir o maior número de informações disponíveis e assumir uma posição.

      Sara Flounders

      Cartoon de Vicman.

      É uma cobardia manter-se neutro e é uma traição alinhar com o polvo imperialista, que procura dominar o mundo.

      Isto é o ABC dos movimentos dos trabalhadores ao longo dos 150 anos de lutas com consciência de classe. É a própria base do marxismo. Reflecte-se nas canções sindicais que lançam o desafio "De que lado é que estás?" e por intermédio dos dirigentes sindicais que explicam vezes sem conta: "Uma ofensa feita a um é uma ofensa feita a todos".

      O mundo árabe está a ser abalado por uma explosão social. O imperialismo americano e todos os antigos regimes da região a ele ligados estão a tentar desesperadamente gerir e conter esta revolta de massas, que ainda está em evolução, canalizando-a de modo a não ameaçar o domínio imperialista na região.

      Os EUA e os seus colaboradores também estão a tentar dividir e corroer as duas alas de resistência – as forças islâmicas e as forças nacionalistas seculares – que, em conjunto, derrubaram as ditaduras apoiadas pelos EUA no Egipto e na Tunísia. Há neste momento um esforço concertado dos EUA para virar essas mesmas forças políticas contra dois regimes na região que se têm oposto ao domínio dos EUA no passado – a Líbia e a Siria.

      Tanto a Líbia como a Síria têm os seus problemas de desenvolvimento, que são exacerbados pela crise geral do capitalismo global e por décadas de compromissos que lhes foram impostos quando tentavam sobreviver num ambiente hostil de ataques permanentes – políticos, por vezes militares, e que incluíam sanções económicas.

      Os bombardeamentos dos EUA/NATO sobre a Líbia clarificaram a posição do imperialismo em relação a este país. Os exploradores transnacionais estão apostados em apoderar-se totalmente das mais ricas reservas de petróleo da África e eliminar os milhares de milhões de dólares com que a Líbia estava a contribuir para o desenvolvimento de países africanos muito mais pobres.

      A Síria também é um alvo do imperialismo – por causa da sua heróica defesa da resistência palestina durante décadas e da sua recusa em reconhecer a ocupação sionista. Não podemos esquecer o apoio da Síria ao Hezbollah na sua luta para acabar com a ocupação israelense do Líbano e a sua aliança estratégica com o Irão.

      Embora seja difícil compreender uma grande parte da situação interna da Síria, é importante assinalar que, nesta luta em curso, apareceram nítidas declarações de apoio ao governo sírio e contra as tentativas dos EUA de desestabilização vindos de Hugo Chávez da Venezuela, do secretário geral do Hezbollah Seyyed Hassan Nasrallah do Líbano e de diversos dirigentes exilados do Hamas, a organização palestina que foi eleita pela população de Gaza. Estes líderes políticos têm sofrido campanhas de desestabilização dos EUA que utilizaram maquinações dos media empresariais, de grupos da oposição financiados a partir do exterior, de assassínios programados, de operações especiais de sabotagem e de operacionais da Internet bem treinados.

      Do lado da supostamente "oposição democrática" estão reaccionários como o senador Joseph Lieberman, presidente da poderosa Comissão de Segurança Nacional do Senado, que apelou ao bombardeamento da Síria a seguir ao da Líbia. Os veementes apoiantes da oposição na Síria incluem James Woolsey, antigo director da CIA e conselheiro da campanha presidencial do senador John McCain.

      A Wikileaks denuncia o papel dos EUA

      Um artigo intitulado "Os EUA apoiaram secretamente grupos da oposição síria", de Craig Whitlock (Washington Post, 18 de Abril) descreveu com grande pormenor as informações contidas em telegramas diplomáticos americanos que a Wikileaks enviou a agências noticiosas de todo o mundo e publicou no seu sítio web. O artigo resume o que esses telegramas do Departamento de Estado revelam sobre o financiamento secreto de grupos políticos da oposição, incluindo a difusão de programação anti-governamental no país através de televisão por satélite.

      O artigo descreve esses esforços, financiados pelos EUA, como fazendo parte de uma "campanha já antiga para derrubar Bashar al-Assad, o líder autocrático do país" que assumiu o poder durante o mandato do presidente George W. Bush e continuou com o presidente Barack Obama, apesar de Obama ter afirmado estar a reconstruir as relações com a Síria e ter enviado um embaixador para Damasco pela primeira vez em seis anos.

      Segundo um telegrama de Abril de 2009 assinado pelo principal diplomata americano em Damasco na altura, as entidades sírias "consideravam obviamente quaisquer fundos americanos destinados a grupos políticos ilegais como equivalentes a um apoio à alteração do regime". O artigo do Washington Post descreve com algum pormenor as ligações entre a TV Barada da oposição, financiada pelos EUA, e o papel de Malik al-Abdeh, que está na sua direcção e distribui vídeos e protestos actualizados. Al-Abdeh também está na direcção do Movimento para a Justiça e Democracia, que é presidido pelo seu irmão, Anas Al-Abdeh. Os telegramas secretos "relatam receios persistentes entre os diplomatas americanos de que os agentes de segurança sírios tenham descoberto o rasto do dinheiro a partir de Washington".

      Papel da Al Jazeera

      Talvez que o desafio mais revelador e a denúncia da campanha de desestabilização na Síria tenha surgido com a demissão de Ghassan Ben Jeddo, o jornalista mais conhecido do noticiário da televisão Al Jazeera e chefe do seu escritório de Beirute. Bem Jeddo demitiu-se como forma de protesto pela cobertura preconceituosa da Al Jazeera, referindo-se sobretudo a uma "campanha de difamação contra o governo sírio" que transformou a Al Jazeera numa "agência de propaganda".

      A Al Jazeera fez uma cobertura favorável do imparável levantamento popular de milhões no Egipto e na Tunísia. Mas este canal de notícias por satélite também noticiou extensivamente todas as reivindicações e acusações políticas, independentemente de serem ou não consubstanciadas, feitas pela oposição política tanto na Síria como na Líbia. Tornou-se na voz mais forte na região, seguida por milhões de visitantes, a clamar pela intervenção "humanitária" dos EUA, zonas de interdição aérea e bombardeamento da Líbia. Portanto é importante compreender a posição da Al Jazeera como uma corporação de notícias, principalmente quando ela afirma ser a voz dos oprimidos.

      A Al Jazeera, que tem a sede em Qatar, nunca noticia que 94 por cento da força de trabalho no Qatar é formada por imigrantes que não têm quaisquer direitos e existem em condições de quase escravatura. A repressão brutal do movimento de massas na monarquia absoluta do Bahrein, que fica mesmo ao lado de Qatar e está hoje ocupada por tropas sauditas, também pouca cobertura recebe da Al Jazeera.

      Será que esta censura existe porque as Notícias TV Al Jazeera são financiadas pelo monarca absoluto de Qatar, o emir Sheikh Hamad bin Khalifa Al Thani?

      È muito importante assinalar que a Al Jazeera nunca se refere à imensa base militar americana Central Command ali mesmo em Qatar. Os aviões de controlo remoto levantam regularmente daquela base em missões secretas por toda a região. Qatar também tem enviado aviões para participar no bombardeamento dos EUA/NATO na Líbia.

      Qatar trabalha em ligação estreita com o Departamento de Estado dos EUA apoiando a intervenção americana na área. Qatar foi um dos primeiros estados árabes, e o primeiro dos estados do Golfo, a estabelecer relações com Israel. Durante o bombardeamento de Gaza por Israel, em 2009, cancelou essas relações mas já propôs restabelecê-las.

      O Facebook e a contra-revolução

      A CIA e a National Endowment for Democracy tornaram-se especialistas na utilização duma barragem dos media sociais, tal como o Facebook, o Twitter e o Youtube para atulhar os governos visados com milhões de mensagens fabricadas, boatos falsos e imagens.

      Alertas fabricados sobre lutas e divisões entre facções rivais nas forças armadas da Síria, com vista a provocar demissões, vieram a provar-se serem falsos. Por exemplo, o major general al-Rifai (Ret.) desmentiu, por não terem fundamento, notícias difundidas por televisão satélite de que estava a liderar uma divisão nas forças armadas. Acrescentou que já se tinha reformado há dez anos.

      Izzat al-Rashek, da Comisão Política do Hamas, e Ali Baraka, representante do Hamas no Líbano, desmentiram publicamente afirmações de que a liderança desta organização de resistência palestina estava a mudar-se de Damasco para Qatar. Ali Baraka explicou que isso era uma invenção americana para pressionar Mahmoud Abbas da Fatah e impedir a reconciliação palestina, agudizando o conflito entre os movimentos de resistência e a Síria.

      O governo sírio denunciou que franco-atiradores tinham disparado sobre manifestações, visando militares e policiais na tentativa de levar a polícia a abrir fogo sobre os manifestantes.

      Boatos, publicações anónimas na Internet e notícias por televisão satélite destinadas a agudizar diferenças sectárias fazem parte da campanha de desestabilização.

      Carácter duplo da Síria

      Não é difícil perceber porque é que o imperialismo dos EUA e os seus peões na região, incluindo Israel e as monarquias corruptas dependentes da Jordânia, do Qatar e dos Emirados Árabes Unidos e da Arábia Saudita, querem ver uma ‘mudança de regime’ na Síria.

      A Síria é um dos poucos estados árabes que não tem relações com Israel. Várias organizações de resistência palestina têm escritórios no exílio na Síria, incluindo a Hamas. A Síria é um estreito aliado do Irão e do Líbano.

      A Síria actualmente não é um país socialista nem país revolucionário. O capitalismo, com as suas inevitáveis desigualdades, não foi derrubado. Há uma classe capitalista na Síria, muita gente dentro dela beneficiou das ‘reformas’ que privatizaram antigas indústrias anteriormente na posse do estado.

      No entanto, o estado sírio representa forças contraditórias. Tem sido um bastião na defesa das conquistas alcançadas nas lutas anti-colonialistas e nos levantamentos das massas árabes nos anos 60 e 70. Durante esse período foram feitas muitas conquistas sociais importantes, foram nacionalizadas as principais indústrias e recursos que tinham pertencido ao capital estrangeiro e foram feitos importantes avanços nos cuidados de saúde garantidos, nos padrões de vida e na educação.

      A Síria, sob o Partido Baath Socialista Árabe, é um país rigorosamente laico. Manteve a liberdade de religião para toda a gente, embora sem permitir que um grupo religioso dominasse ou fosse promovido pelo estado.

      Mas o regime na Síria também tem reprimido duramente as tentativas dos movimentos de massas, com base no Líbano e na Síria, que pretendiam continuar a lutar. Justificou a repressão dos movimentos passados apontando para a sua posição precária mesmo ao lado de Israel, o impacto das duas guerras israelenses em 1967 e 1973, e a consequente ocupação israelense e anexação da importante região dos Montes Golan na Síria durante 44 anos.

      Anos de sanções dos EUA e anteriores tentativas de desestabilização também tiveram um efeito cumulativo. O aparelho de estado, sempre temeroso duma intervenção externa continuada, passou a ter medo da mudança.

      É essencial reconhecer este carácter duplo e não desculpar nem ignorar todos os problemas que daí decorrem.

      A Síria ainda tem o fardo acrescido de albergar mais de 500 mil refugiados palestinos e seus descendentes nos últimos 63 anos. As condições destes são melhores do que em qualquer dos países vizinhos porque, ao contrário do Líbano e da Jordânia, os cuidados de saúde, o ensino e a habitação são acessíveis aos palestinos na Síria.

      O impacto da guerra do Iraque

      A maciça invasão americana e a destruição do Iraque vizinho, o debate Bush-Blair sobre um ataque semelhante à Síria em 2003, e as novas e duras sanções sobre a Síria aumentaram a pressão intensa.

      Mas o factor mais perturbador nunca é discutido nos media: mais de um milhão e meio de iraquianos invadiram a Síria para fugir aos últimos oito anos de ocupação dos EUA.

      Esta foi uma invasão brutal para um país com uma população de 18 milhões em 2006. Segundo um relatório de 2007 do gabinete do Alto Comissário para Refugiados dos EUA, a chegada diária de 2 000 iraquianos desesperados teve um impacto enorme sob todos os aspectos da vida da Síria, em especial nos serviços prestados pelo estado a todos os seus cidadãos e a todos os refugiados. A Síria tem o nível mais alto de direitos cívicos e sociais para refugiados em toda a região. Outros países vizinhos exigem uma conta bancária mínima e impedem a entrada de refugiados pobres.

      A chegada inesperada destes refugiados iraquianos teve um impacto dramático nas infra-estruturas, nas escolas primárias e secundárias garantidas, nos cuidados de saúde grátis, na disponibilidade de habitações e noutras áreas da economia. Levou a um aumento de custos a todos os níveis. Os preços dos géneros alimentícios e dos bens básicos aumentaram 30 por cento, os preços do imobiliário de 40 por cento e as rendas de casa em 150 por cento.

      Os refugiados iraquianos também beneficiaram dos subsídios estatais sírios na gasolina, na alimentação, na água e noutros bens essenciais fornecidos a toda a gente. Uma massa tão grande de gente desempregada levou ao abaixamento dos salários e a uma concorrência acrescida nos empregos. O impacto das dificuldades económicas globais durante este período difícil agudizou os problemas. (Middle East Institute, 10/Dezembro/2010, relatório sobre Cooperação com Refugiados)

      Os EUA criaram a crise de refugiados, que provocou a deslocação de mais de 25 por cento da população iraquiana, por causa da violência sectária. No entanto, são os que aceitam o menor número de refugiados e dão menos do que o custo de um dia de guerra no Iraque para os custos de assistência das Nações Unidas. As sanções americanas na Síria aumentaram as deslocações económicas.

      Tudo isto reforçou a consciência do governo sírio e da população quanto aos perigos da ocupação americana e da desestabilização interna e quanto ao banho de sangue que pode resultar da violência sectária instigada pelos EUA.

      Washington afirma estar preocupado com a instabilidade na Síria. Mas o imperialismo americano enquanto sistema é obrigado a criar a instabilidade. O domínio esmagador e o poder das corporações militares e petrolíferas na economia dos EUA e os enormes lucros dos contratos militares reforçam infindavelmente o pendor para procurar soluções militares.

      Todas as declarações feitas pelo governo sírio têm reconhecido a importância de fazer reformas internas importantes embora mantendo a unidade nacional num país extremamente diversificado que tem diferenças históricas na religião, nas tribos e nas regiões e contém actualmente 2 milhões de refugiados.

      As diversas nacionalidades, religiões e grupos culturais na Síria têm todo o direito de fazer parte deste processo. Mas o que eles precisam sobretudo é do fim da constante e cruel intervenção dos EUA.

      EUA fora da Síria!

      Fonte: http://resistir.info/

      Rochas revelam glaciação no Nordeste há 300 milhões de anos

      Geleiras cobriram o território do Nordeste brasileiro há cerca de 300 milhões de anos, revela pesquisa do Instituto de Geociências (IGc) da USP. O estudo do professor Antônio Carlos Rocha Campos identificou rochas formadas pelo acúmulo de detritos transportados pelo gelo na Bahia, Alagoas e Sergipe, além de áreas no norte de Minas Gerais, em Goiás e no Tocantins. Também foram encontradas marcas de erosão (estrias) produzidas pela passagem de geleiras sobre substrato rochoso mais antigo e sulcos formados pelo deslocamento de icebergs arrastando-se sobre fundos de lagos e mares.

      Júlio Bernardes

      Em Curituba (SE), arrasto de iceberg deixou sulco largo e raso no fundo de lago ou mar

      De acordo com o professor, o Brasil teria passado por seis idades glaciais, algumas delas com duração de dezenas de milhões de anos. “A glaciação estudada aconteceu quando o território brasileiro fazia parte do supercontinente de Gondwana, que reunia América do Sul, África, as penínsulas Arábica e da Índia, Austrália, Nova Zelândia e Antártida”, diz. “Conforme a massa de terra deslocou-se na direção do Pólo Sul geográfico, nas suas partes mais altas começou a haver precipitação de neve, que se acumulou, transformando-se em gelo que cobriu toda a região, movimentando-se para as regiões mais baixas”.

      Os primeiros indícios dessa glaciação foram encontrados na Bacia do Paraná, em 1888, sob a forma de rochas típicas do ambiente glacial. “Quando avançam, as geleiras arranham (erodem) o substrato como se fossem grandes lixadeiras, englobando detritos rochosos e empurrando-os. Os detritos vão se acumular mais adiante de forma desorganizada, sem estratificação, misturando diversos tipos de rocha”, explica Rocha Campos.

      A glaciação de Gondwana teria durado cerca de 30 milhões de anos. “Imaginava-se que ela tivesse alcançado apenas o Sul, Sudeste e Centro Oeste do Brasil, mas surgiram referências a rochas glaciais no norte de Minas Gerais, Goiás, Tocantins, sul da Bahia, Alagoas e Sergipe, que foram então estudadas”. Em todos esses locais foram encontradas rochas formadas de material transportado e depositado pela geleira (tilitos).

      Icebergs

      Na região de Igreja Nova, em Alagoas, foram encontradas numerosas estruturas erosivas glaciais em rochas mais antigas, sob a forma de estrias ou ranhuras, ao lado de calhas longas (20 a 30 metros), mas formadas pelo arrasto de icebergs sobre sedimento de fundo marinho. “Na medida em que os blocos de gelo se desprenderam das geleiras, eles passaram a flutuar até tocar o fundo deixando aí o seu rastro”.

      Detritos não selecionados transportados pela geleira se acumulam em Côcos (BA)

      Segundo Rocha Campos, o estudo dos registros glaciais rochosos servem para entender o funcionamento das glaciações. “Por exemplo, se as rochas glaciais estão cobertas por outras formadas em clima mais quente, mas separadas por rochas intermediárias, são um indício de que o degelo pode ter sido mais gradual”, conta. “Pelas evidências encontradas em rochas e nos testemunhos de gelo da Antártida, a última glaciação na Terra teria sido muito oscilante, envolvendo várias fases de avanço e recuo das geleiras”.

      A pesquisa teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Os resultados serão apresentados em artigo científico, em fase de elaboração, em publicação a ser definida. Novos estudos terão como foco depósitos glaciais terciários da Antártida de cerca de 35 milhões de anos, entre os períodos Eoceno e Oligoceno, quando o manto de gelo antártico começou a se formar.

      “As glaciações são processos cíclicos, com começo, meio e fim, e cada uma delas produz depósitos sedimentares contendo rochas diferentes, vindos de regiões extensas, e até longínquas, às vezes de grande espessura, como é o caso da Bacia do Paraná”, ressalta o professor, que realiza pesquisas sobre rochas glaciais desde 1961. “Por meio desses indícios, pode-se verificar se a glaciação foi de curta duração ou se estendeu por um maior intervalo de tempo.”

      Júlio Bernardes – jubern@usp.br

      (Imagens cedidas pelo pesquisador)

      Fonte: http://www.usp.br/

      Relatório aponta necessidade "urgente" de limitar gases do efeito estufa

      Greenpeace lança réplicas de monumentos em praia de Cancún para alertar para as consequências da mudança climática

      Leslie Kaufman

      Greenpeace lança réplicas de monumentos em praia de Cancún para alertar para as consequências da mudança climática

      O establishment científico dos EUA emitiu um duro alerta para a população americana na quinta-feira (12): não só o aquecimento global é algo real, como seus efeitos já estão se tornando sérios e passou a ser “urgente” a necessidade de uma política nacional forte que limite a emissão de gases de efeito estufa.

      O relatório, apresentado pelo National Research Council, um braço da National Academy of Sciences, não endossou nenhuma abordagem legislativa específica, mas chegou a dizer que atribuir alguma espécie de preço às emissões de dióxido de carbono, o principal gás de efeito estufa, teoricamente seria um componente essencial de qualquer plano futuro.

      “Os riscos associados a se continuar fazendo as coisas da maneira de sempre são uma preocupação muito maior do que os riscos associados a se empreender esforços de resposta ambiciosos, mas calculados”, conclui o relatório. “Isso porque muitos aspectos de uma política ‘excessivamente ambiciosa’ podem ser revertidos ou senão tratados, se necessário, por mudanças posteriores de política, ao passo que mudanças adversas no sistema climático são muito mais difíceis (na verdade, na escala temporal de nossas vidas, pode ser impossível) de se ‘desfazer’.”

      O relatório, “America’s Climate Choices” [As escolhas climáticas dos EUA], foi encomendado pelo Congresso muitos anos atrás para oferecer um “conselho voltado para a ação” sobre como a nação deveria reagir às possíveis consequências de uma mudança climática.

      Mas a resposta chega em uma época na qual esforços para adotar uma política de mudança climática foram suspensos em Washington, com muitos dos republicanos que controlam a Assembleia manifestando ceticismo em relação à ciência da mudança climática. Outros legisladores, incluindo alguns democratas, se preocupam com o fato de que qualquer nova lei resultaria em preços mais altos para a energia, prejudicando a economia.

      O relatório descobriu que, não só a ciência por trás das previsões de mudança climática é sólida, como também são profundos os riscos de uma inação contínua para as gerações futuras. Notou-se que o nível do mar já está se elevando em muitas cidades americanas, e a temperatura média do ar nos Estados Unidos aumentou em 2 graus nos últimos 50 anos.

      Os autores do relatório – uma combinação incomum de cientistas do clima, empresários e políticos – disseram que estavam cientes de que a disposição política sobre a mudança climática havia mudado de forma significativa desde a época em que o comitê foi formado, em 2009. Como o relatório também era sobre aconselhamento de políticas, o conselho nomeou mais do que cientistas, incluindo Jim Geringer, um republicano conservador e ex-governador do Estado de Wyoming.

      Albert Carnesale, presidente do painel e chanceler emérito da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, disse que esperava que a diversidade do painel e o fato de que muitos dos envolvidos no trabalho não terem uma “inclinação prévia” ajudariam a vendê-lo até para políticos céticos.

      “É um problema que deve ser resolvido com urgência, e o que fizemos de diferente foi enxergá-lo como um problema de gerenciamento de risco”, disse Carnesale.

      Embora ninguém saiba a forma exata dos riscos, Carnesale explicou, sabemos que eles são reais o suficiente para serem abordados. E que com o tempo eles ficarão mais difíceis de serem abordados. “Não sabemos exatamente quando o tsunami quebrará ou quão alto ele vai ser, mas sabemos que ele está chegando, e devemos nos preparar”, disse.

      Mas o representante Joe L. Barton (republicano do Texas), que tem liderado o movimento contra mais regulamentações sobre a emissão de carbono, desprezou as descobertas do conselho em uma entrevista na quinta-feira. “Não vejo nada de substancial nesse relatório que acrescente à base de conhecimento necessária para se tomar uma decisão esclarecida sobre quais passos devem ser tomados para abordar a mudança climática, se é que devem ser tomados”, disse Barton.

      Embora o relatório caracterize a mudança climática como um problema em necessidade urgente de atenção, ele deixa as prescrições de política altamente específicas aos legisladores.

      Para muitos dos que se preocupam com a mudança climática, esse é um defeito comum de relatórios do gênero. “Esse é um problema clássico – a divisão entre a realidade científica e a coragem política”, disse Paul W. Bledsoe, um conselheiro sênior junto ao Bipartisan Policy Center que trabalhou com essas questões no Congresso e na Casa Branca. “As organizações científicas relutam em pregar prescrições de política detalhadas, ao passo que atores políticos hesitam quanto às realidades científicas”.

      O relatório delineou quatro áreas que requerem ações federais imediatas.

      Para começar, ele enfatizou que reduzir as atuais emissões de carbono é fundamental para evitar que os Estados Unidos tenham de fazer escolhas desastrosas no futuro. Embora não tenha chegado ao ponto de recomendar uma taxa sobre o carbono, o comitê elogiou sua eficácia.

      “Análises sugerem que a melhor forma de amplificar e acelerar tais esforços, e de minimizar custos gerais (para qualquer meta nacional de redução de emissões), está em colocar um preço crescente e abrangente, que cubra uniformemente toda a nação” sobre emissões de carbono, de maneira que leve a “grandes investimentos em eficiência energética e tecnologias de baixo carbono”, escreveu o comitê.

      Ele também pediu para que o governo federal exerça um papel muito mais ativo na pesquisa de novas tecnologias e na adaptação da nação às mudanças no mundo natural que já são inevitáveis. Mesmo com uma redução na produção de carbono, disse o relatório, alguma mudança climática continuará a ocorrer.

      Ele observou que, enquanto muitas das cidades e Estados americanos estão tomando atitudes para atenuar a produção de carbono e se preparar para condições mais quentes e úmidas, o governo federal poderia ajudar a coordenar essas atividades, ao mesmo tempo em que incentivasse mais pesquisas e desenvolvimento.

      “O governo federal”, disse o relatório, “deveria dar início imediato ao desenvolvimento de uma estratégia nacional de adaptação e construir instituições duradouras para implementar essa estratégia e melhorá-la com o tempo.” Por fim, embora esse relatório tenha sido idealizado, ao contrário do IPCC da ONU [Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática], por americanos para americanos, os autores observaram que a mudança climática é um problema mundial, e que a nação tem a obrigação de permanecer comprometida com a comunidade internacional para encontrar possíveis soluções.

      Tradução: Lana Lim

      Fonte: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/

      China enfrenta desertificação acelerada

      Em Turpan, no noroeste do país, os sistemas tradicionais não conseguem mais atender à demanda de água

      Harold Thibault

      Tempestade de areia atinge o noroeste da China em abril

      Tempestade de areia atinge o noroeste da China em abril

      Sentado ao lado de seu pai no quintal de uma antiga casa tradicional uigure de tijolos ocre, Kalik comemora: “Nós conseguimos produzir 500 quilos de uva por dia”, diz. Essa produtividade é um milagre, considerando as condições climáticas às quais está submetida Turpan, oásis situado em pleno deserto, na região de Xinjiang, extremo noroeste da China. O solo é seco, muitas vezes arenoso. As chuvas não passam de 20 milímetros ao ano.

      O jovem sabe que deve sua produção, que sustenta toda sua família, ao canal que passa a alguns passos da propriedade e foi escavado quatro séculos atrás. É uma das artérias do karez, um sistema de irrigação que remonta a mais de dois milênios e que serviu de corda de segurança para esse oásis, funcionando como parada para as caravanas que tomavam a antiga Rota da Seda. Esses canais de irrigação, outrora chamados de “qanats”, se encontram em diversas regiões áridas da Ásia Central.

      “A água é doce, ela provém diretamente da Tian Shan”, explica Kalik, evocando as Montanhas Celestiais, a cordilheira que atravessa a região a quilômetros de Turpan. A rede de canais subterrâneos permite que a água das montanhas chegue até essa depressão, ao mesmo tempo em que evitam a evaporação nessa zona onde a temperatura pode chegar a 50 graus Celsius durante os meses de verão.

      Na frente da casa ainda florescem cerejeiras, mas o milagre tem sido colocado duramente à prova há alguns anos. A algumas ruas de lá, os trabalhadores migrantes se empenham nos canteiros de obras de concreto, que aos poucos vão tomando conta dos antigos bairros tradicionais. O sistema de irrigação acompanha com dificuldades o ritmo de crescimento. Turpan não escapa da urbanização maciça e da superexploração dos recursos naturais. Para uma cidade chinesa, ela continua tendo uma dimensão modesta, mas a população hoje ultrapassa os 600 mil habitantes, sendo que em 1949 ela possuía 67.300.

      Nos lençóis freáticos

      Se os habitantes conseguiram cultivar em pleno deserto uma uva que se tornou famosa em todo o país, foi graças aos 5 mil quilômetros de canais. Mas, superexplorados e mal cuidados, estes secaram. Somente 300 dos 1.237 karez registrados em 1957 ainda estão em funcionamento. O ecossistema que havia se organizado em torno deles está se degradando.

      Ao mesmo tempo, a produção agrícola, principal fonte de atividade econômica em Turpan, decolou.  A área a ser irrigada passou de 60 mil hectares em 1970 para 113 mil em 2008. Como os karez não fornecem mais água o suficiente para garantir os rendimentos e alimentar as habitações modernas, o vilarejo começou a retirar diretamente dos modestos lençóis freáticos.

      Como consequência direta dessa decisão, seu nível tem baixado de 1,5 a 2 metros por ano, calcula o Banco Mundial. “Com o rápido crescimento econômico desses últimos anos, o consumo de água vem subindo e ultrapassa as quantidades disponíveis, levando a um uso excessivo dos lençóis”, observava a instituição em 2010.

      “Nos cinco últimos anos, a água se tornou menos abundante, isso se vê particularmente em julho e agosto”, constata Liu Daohong, um trabalhador agrícola que chegou há dez anos da província central de Henan. Ele trabalha em um campo irrigado diretamente pelos lençóis freáticos. Assim como ele, muitos migrantes Han, a etnia maioritária na China, vieram se instalar em Turpan, atraídos pela possibilidade de encontrar um emprego no setor agrícola, nessa região onde a maioria da população pertence à etnia uigure.

      A alguns quilômetros ao sul da cidade, a constatação é similar no “jardim botânico”, na verdade um laboratório de pesquisa no meio da natureza sobre a capacidade das plantas de resistirem em zona árida extrema e de servirem de barreira natural contra o avanço do deserto. “Há dez anos, nós podíamos encontrar água a 18 metros de profundidade, mas hoje é preciso perfurar entre 25 e 30 metros. Preferimos utilizar a água a uma profundidade de 156 metros, pois é menos salgada”, explica um professor da Academia de Ciências chinesa, especializada no combate à desertificação.

      Ao se conscientizar sobre a ameaça que pesa sobre Turpan, a China deu início a grandes obras, cujo custo deverá ser de US$ 204 milhões (R$ 330 milhões). Três reservatórios serão construídos nas montanhas próximas, a fim de assegurar o abastecimento de água durante o ano, a um custo de US$ 142 milhões (R$ 230 milhões).

      No papel, esses projetos apresentam o papel histórico dos karez. Mas as autoridades locais não parecem realmente convencidas do futuro desses canais: do total de somas liberadas, somente US$ 500 mil serão dedicados à recuperação de um único karez, um projeto apresentado como um experimento.

      Tradução: Lana Lim

      Fonte: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/lemonde/

      Inimigo Insuspeito

      Um novo padrão de resistência a antibióticos poderá nos expor a uma enorme variedade de infecções bacterianas

      Maryn McKenna

      EM MEADOS DE 2008, Timothy Walsh, da Cardiff University, no País de Gales, recebeu e-mail de um amigo. Era Christian Giske, médico da faculdade de medicina do Instituto Karolinska, da Suécia. Ele tratava de um homem de 59 anos, hospitalizado em janeiro daquele ano em Örebro, cidadezinha a cerca de 160 km de Estocolmo. Diabético havia anos, o paciente sofrera vários derrames cerebrais e recentemente desenvolvera profundas úlceras cutâneas (também chamadas de úlceras de decúbito ou pressão). Mas nada disso era o assunto de Giske. O médico estava preocupado com uma bactéria que um rotineiro exame de cultura havia revelado na urina do homem. Walsh, que dirige um laboratório de genética da resistência bacteriana, estaria disposto a dar uma olhada no microrganismo?

      Walsh concordou e submeteu a amostra a mais de uma dezena de ensaios. Tratava-se de uma Klebsiella pneumoniae, bactéria que, em pacientes hospitalizados, é uma das causas mais frequentes da pneumonia e de infecções da corrente sanguínea. Mas essa linhagem tinha uma novidade: um gene que Walsh nunca vira antes. Ele tornava a Klebsiella, já resistente a muitos antibióticos utilizados em tratamentos médicos críticos, insensível ao único grupo remanescente que funcionava de modo confiável e seguro – os carbapenemas, ou medicamentos de último recurso. Os pesquisadores descobriram que a única medicação com efeito sobre a cepa resistente era a colistina, fora de uso há anos devido aos seus efeitos tóxicos nos rins. Walsh chamou a enzima produzida por esse gene de Nova D’lhi metalo-beta-lactamase, ou NDM-1, devido à cidade onde o paciente adquiriu a infecção antes de retornar à Suécia.

      Se havia um caso desses, refletiu Walsh, provavelmente haveria outros, e ele, Giske, e uma equipe de colaboradores foram à procura de pistas nessa direção. Em agosto de 2010, eles publicaram seus relatos na revista médica Lancet Infectious Diseases: eles haviam detectado 180 casos de pacientes portadores do gene. O NDM-1 estava amplamente difundido em Klebsiellas na Índia e no Paquistão, e já se alastrara para o Reino Unido por meio de viajantes que estiveram no sul da Ásia para tratamento médico ou visita a amigos e familiares. Pior, em alguns poucos casos, o microrganismo havia se propagado para outro gênero bacteriano – de Klebsiella para Escherichia coli, bactéria que vive nos intestinos de animais de sangue quente e é onipresente em nosso ambiente. Essa transferência levantou a possibilidade de o gene não permanecer confinado a hospitais e infecções hospitalares, mas espalhar-se transportado por bactérias alojadas em pessoas comuns e alastrando-se por apertos de mãos, beijos ou maçanetas de portas, entre outros meios.

      A transferência também sugeriu outra possibilidade: de que o delicado e oscilante equilíbrio entre microrganismos e medicamentos, estabelecido em 1928 com a descoberta da penicilina, estava a ponto de desmoronar e pender a favor das bactérias. Nesse caso, muitas infecções fatais, controladas durante décadas com antibióticos, estariam na iminência de voltar à tona como numa vingança.

      UM NOVO PADRÃO DE RESISTÊNCIA

      O FIM DO MILAGRE DOS ANTIBIÓTICOS não é um tema novo. Desde que surgiram houve resistência a eles: a primeira bactéria resistente à penicilina apareceu antes mesmo que o medicamento chegasse ao mercado, na década de 1940. E, durante quase todo esse período, os médicos têm alardeado a possibilidade de um esgotamento de opções medicamentosas, devido à propagação global de organismos resistentes à penicilina nos anos 50, seguida por uma insensibilidade à meticilina nos anos 80 e à vancomicina na década de 90.

      Dessa vez, porém, o prognóstico de uma maldição pós-antibiótica vem de uma parte diferente do mundo microbiótico. Os genes que conferem resistência aos carbapenemas – não apenas o NDM-1, mas toda uma lista alfabética de outros tipos – surgiram no decorrer da última década em um grupo particularmente desafiador de bactérias, chamadas gram-negativas. Essa designação, que empresta o nome de um cientista dinamarquês do século 19, indica superficialmente a reação a uma técnica de coloração que ilumina a membrana celular. Mas sua conotação é muito mais complexa. Bactérias Gram-negativas são promíscuas: elas inter cambiam facilmente fi lamentos de DNA, de modo que um gene de resistência que surge, por exemplo, na Klebsiella, pode migrar rapidamente para a E. coli, Acinetobacter e outras espécies gram-negativas. (Comparativamente, é muito mais provável que os genes resistentes em espécies gram- positivas se agrupem dentro do próprio grupo.) Os germes gram-negativos são mais difíceis de ser eliminados com antibióticos, porque dispõem de uma membrana em camada dupla que até medicamentos potentes têm dificuldade de penetrar; e eles também apresentam certas defesas celulares internas. Além disso, existem menos opções para combatê-los. As empresas farmacêuticas estão desenvolvendo poucos antibióticos de nova geração de qualquer gênero. Contra as persistentes bactérias proteicas gram-negativas, elas nem ao menos têm novos compostos de reserva ou em processo de elaboração.

      O que tira o sono das autoridades do sistema de saúde é a possibilidade de genes resistentes aos carbapenemas se propagar sem ser detectados, além dos hospitais, no organismos que provocam doenças comuns e cotidianas – como a E. coli, responsável pela maioria dos milhões de infecções do trato urinário.

      MILAGRE ANTIBIÓTICO

      A BATALHA DE 83 ANOS entre bactérias e antibióticos desenvolvidos para enfrentá-las situa-se em algum ponto entre um jogo eletrônico “Whack-a-Mole” (em que o jogador deve desferir marteladas nas cabeças que despontam de buracos em um tabuleiro na máquina ou no monitor do computador) e uma estratégia nuclear de “destruição mútua garantida”. Para quase todos os antibióticos desenvolvidos, as bactérias criaram um fator de resistência que as protege de ataques. E para quase todo fator de resistência as companhias farmacêuticas produziram uma alternativa mais potente – até agora. Com o tempo, a batalha gradualmente foi pendendo para o lado dos microrganismos, como uma gangorra que se desequilibra lentamente. Afinal, as bactérias têm a evolução a seu lado. Elas precisam de apenas 20 minutos para produzir uma nova geração, enquanto é necessário uma década ou mais para pesquisa e desenvolvimento de um novo medicamento. Além disso, qualquer utilização de antibióticos estimula o aparecimento da resistência ao exercer o que é conhecido como “pressão seletiva”. Tipicamente, algumas poucas bactérias, com mutações aleatórias bem-sucedidas, sobrevivem ao ataque do antibiótico. Elas se reproduzem, preenchem o espaço vital que o medicamento criou (limpou) para elas ao matar suas congêneres mais fracas, e transmitem à nova geração os genes que as protegeram. (Por isso é tão importante tomar a dose completa de antibióticos: para eliminar todas as bactérias de uma infecção e não apenas as mais frágeis e suscetíveis.) Mas a resistência não se propaga apenas por herança genética. Ao intercambiar filamentos de DNA, as bactérias podem adquirir resistência sem terem sido expostas ao medicamento contra o qual os genes as protegem.

      Pode-se observar esse padrão cíclico de resistência na evolução do Staphylococcus aureus, um organismo gram-positivo de membrana única. Primeiro ele tornou-se insensível à penicilina, em seguida às suas formas sintéticas – inclusive à meticilina, o que lhe rendeu o nome de Staphylococcus aureus resistente à meticilina, ou SARM (também conhecido por sua sigla em inglês MRSA, de Methicillinresistant Staphylococcus aureus). Depois, ele tornou-se refratário às cefalosporinas, como o Keflex e, por fim, à vancomicina, o potente medicamento de último recurso contra a SARM. As bactérias gramnegativas seguiram padrão similar, neutralizando as penicilinas, cefalosporinas, os macrolídeos (eritromicina e azitromicina, ou Zitromax) e as lincosamidas (Clindamicina). Mas até recentemente, os carbapenemas conseguiam combater segura e confiavelmente mesmo as infecções mais persistentes, tornando-se a última barreira entre infecções tratáveis e intratáveis. Esses medicamentos eram baratos, confiáveis e de amplo espectro, ou seja, agiam contra muitos organismos, e eram muito, muito potentes.

      Talvez as pesquisas nos possibilitem sair desse dilema com mais uma classe inédita de antibióticos – pelo menos até que as bactérias os neutralizem mais uma vez. Mas sem a perspectiva do aparecimento de novos medicamentos nessa “janela de produção”, de 10 anos, capaz de eliminar essas superbactérias de última geração, é possível que tenhamos de conviver com o risco de muitos tipos de infecções intratáveis por um tempo desconfortavelmente longo.

      A situação já seria suficientemente grave se estivesse limitada às poucas centenas de casos que apresentaram o gene NDM-1 até agora. Mas nos últimos cinco anos, outro germe que confere uma resistência similar – chamado KPC, abreviação de Klebsiella pneumoniae carbapenemase – propagou-se rapidamente pelo mundo.

      EXPONDO UMA AMEAÇA OCULTA

      QUANDO WALSH E GISKE PUBLICARAM seus resultados sobre o NDM-1 na revista Lancet Infectious Diseases, no verão passado, imediatamente desencadearam furor internacional. Autoridades indianas da área de saúde protestaram com veemência, acusando os médicos ocidentais de tentar invejosamente minar a florescente indústria do turismo médico do subcontinente.

      A primeira detecção do KPC não provocou esse tipo de alvoroço. Ele chegou discretamente em 1996, em uma entre centenas de amostras bacterianas colhidas em hospitais de 18 estados americanos. O projeto que as solicitou, chamado Icare, era um esforço conjunto dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) e da vizinha Emory University, ambos sediados em Atlanta, na Geórgia. (A sigla Icare, em inglês, significa Project Intensive Care Antimicrobial Resistance Epidemiology ou “Projeto de Terapia Intensiva da Epidemiologia de Resistência Antimicrobiana”.) A meta do projeto era saber como os antibióticos estavam sendo utilizados em unidades de terapia intensiva e outros departamentos hospitalares, na esperança de antever onde o próximo organismo resistente poderia aparecer.

      Uma cultura isolada, enviada por um hospital nunca identificado publicamente da Carolina do Norte, revelou ser uma Klebsiella. Isso não era incomum. Trata-se de uma infecção hospitalar comum, consequência quase inevitável dos tratamentos intensivos: elevadas doses de antibióticos de amplo espectro abalam a ecologia do trato intestinal e provocam diarreia, que contamina o ambiente ao redor dos pacientes e as mãos dos profissionais que tratam deles. “Se você considerar pacientes internados em uma UTI, sedados, acoplados a um respirador, eles não podem se levantar e ir ao banheiro”, pondera Arjun Srinivasan, diretor-adjunto do CDC para programas de prevenção de infecções associadas à assistência médica. “ Se eles forem incontinentes, a equipe de profissionais terá de higienizá-los. Há muitos equipamentos próximos aos pacientes e muitas superfícies que podem ser contaminadas.”

      Se a infecção por Klebsiella em uma UTI não foi uma surpresa, os resultados de sua análise foram. Como esperado, a cultura isolada da Carolina do Norte mostrou ser resistente a uma longa lista de antibióticos, inclusive a penicilina e alguns outros medicamentos parecidos. Mas a amostra também era resistente a dois carbapenemas – imipeném e meropeném – aos quais a Klebsiella sempre havia respondido. A amostra não era totalmente resistente, mas os resultados dos testes do CDC indicaram que doses elevadas de carbapenemas seriam necessárias para tratar qualquer infecção provocada por ela. A enzima que proporcionava aquela resistência atacou os medicamentos carbapenêmicos antes mesmo que eles pudessem atravessar a membrana interna na parede bacteriana.

      Ninguém havia observado um padrão de resistência como o KPC antes. Ele deixou os epidemiologistas que o manipulavam inquietos – como se estivessem pressentindo o soar de um alarme distante. “Era um novo tipo de resistência, mas quando há apenas uma cultura isolada, você não sabe quanto comum ela será”, explica Jean B. Patel, vice- diretor do Departamento de Resistência Antimicrobiana, do CDC. “E durante um longo tempo não apareceram outras culturas isoladas como essa.”

      Durante anos, a amostra de Klebsiella da Carolina do Norte permaneceu um feliz acaso preocupante. Então, em meados do ano 2000, pacientes em quatro UTIs do Hospital Tisch, parte do Centro Médico Langone, da New York University, na zona leste de Manhattan, começaram a desenvolver infecções excepcionalmente agressivas de Klebsiella, resistentes a quase todas as categorias de drogas que um médico de UTI gostaria de utilizar. Foi a primeira vez que médicos da NYU viram infecções resistentes a carbapenemas. Catorze pacientes contraíram pneumonias altamente resistentes a medicamentos, bem como infecções cirúrgicas e da corrente sanguínea. Outros 10 eram portadores da bactéria KPC, porém assintomáticos. Oito dos 24 morreram. Ao fazer uma análise laboratorial, o hospital descobriu que a cepa de Klebsiella que tinham exibia o mesmo gene KPC que a amostra original da Carolina do Norte.

      Em breve, o hospital também experimentaria o desafio de conter o microrganismo resistente. Com tantos medicamentos que se mostraram ineficientes, a única opção foi impor a antiquada ferramenta de uma limpeza rigorosa, para garantir que a bactéria resistente não se espalhasse ainda mais pelas mãos de profissionais desavisados. O Centro Médico Langone isolou os pacientes infectados e exigiu que qualquer um que entrasse em seus quartos vestisse roupas e luvas esterilizadas e descartáveis, e controlou o uso de substâncias para lavar a desinfetar as mãos. Quando essas medidas se mostraram insuficientes, eles mudaram as soluções desinfetantes utilizadas nas UTIs. Como elas persistiram, eles concentraram os cuidados em pacientes infectados e descobriram que alguns deles, com infecções do trato urinário, estavam sendo respingados quando suas bolsas coletoras de urina eram trocadas – respingos que contaminavam tanto os profissionais como o ambiente.

      Dois anos depois, a mesma superbactéria altamente resistente apareceu de alguma forma em hospitais do Brooklyn, reforçando ainda mais como pode ser difícil conter a Klebsiella que abriga o gene KPC. Um hospital identificou dois pacientes infectados em agosto de 2003, colocou-os em isolamento e imediatamente intensificou suas práticas de controle de infecções e, ainda assim, no final de fevereiro de 2004, outros 30 casos diagnosticados haviam se espalhado pelo hospital. Outra instituição identificou um paciente em dezembro de 2003; encontrou dois outros em fevereiro do ano seguinte e mais 24 pacientes adicionais até o final de maio daquele ano – todos infectados no hospital, apesar dos esforços agressivos para estancar a propagação do microrganismo.

      Bactérias portadoras do KPC apareceram no Hospital do Harlem, onde provocaram um surto de sete infecções de corrente sanguínea em 2005; apenas dois pacientes sobreviveram. Elas também surgiram no Centro Médico Mount Sinai, na Upper East Side, bairro nobre de Nova York, onde os pesquisadores começaram a testar todos os pacientes admitidos em três unidades de terapia intensiva, na esperança de controlar a epidemia que se espalhava rapidamente. O que eles descobriram ajudou a explicar por que as bactérias estavam se tornando um sério problema: 2% de todos os pacientes de UTI eram portadores da cepa resistente – sem manifestar sintomas, mas constituindo um risco de infecção para os outros.

      Os hospitais de Nova York haviam se transformado em incubadores de germes resistentes, algo que os números nacionais confirmaram. Em 2007, 21% das amostras de Klebsiella coletadas na metrópole portavam o gene KPC, em comparação aos 5% constatados no restante do país. Em 2008, os hospitais nova-iorquinos informaram que os índices de KPC haviam saltado para 38%.

      Pacientes internados em UTIs estão gravemente enfermos por definição – eles sofrem de trauma, câncer, falência de órgãos –; portanto, a morte deles pode ser difícil de estabelecer, sem uma causa específica. Mas em certos casos que envolvem o KPC não há dúvida, avalia John Quale, professor-adjunto de medicina do Centro de Ciência da Saúde da State University of New York, mais conhecido como Suny/Downstate Medical Center, no Brooklyn, que tratou alguns dos primeiros casos na cidade de Nova York. “Evidentemente, houve situações em que o tratamento falhou apesar de todos os esforços”, declara ele. “E pacientes morreram.”

      A partir de nova york, a Klebsiella KPC se alastrou. Primeiro, ela foi encontrada em lugares frequentemente visitados pelos nova-iorquinos – Nova Jersey, Arizona e Flórida – e depois muito mais além.

      A resistência aos carbapenemas não é uma doença notificável; ou seja, um laboratório clínico que detecta sua presença não é obrigado a informar as autoridades de saúde pública. Consequentemente, a real dimensão da propagação do gene é desconhecida. Mas em 2009 metade dos hospitais de Chicago havia descoberto o KPC em pelo menos alguns de seus pacientes. Um ano depois, a proporção de hospitais da cidade que reportavam a presença do gene havia saltado para 65%. No final de 2010, a superbactéria já havia infectado gravemente pacientes hospitalares em 37 estados americanos. Quando o CDC começou a rastrear a superbactéria, as autoridades constataram que os hospitais estavam despreparados para sua chegada. “Vimos reiteradas vezes que uma cultura isolada enviada para nós acabaria não sendo a primeira em um hospital”, declara Patel, do CDC. “Ao verificarem seus dados anteriores, os cientistas descobriam casos prévios que simplesmente não tinham chamado a atenção de ninguém.”

      Em fevereiro de 2005, um homem de 80 anos que sofria de câncer da próstata procurou atendimento de emergência perto de onde vivia, em Paris. Após ser internado, os médicos constataram que ele estava infectado por bactérias Klebsiella do KPC provavelmente oriundas de uma cirurgia a que se submetera em Nova York alguns meses antes. Essa foi a primeira propagação do KPC dos Estados Unidos para outro país de que se tem conhecimento; mas não a última. Pouco tempo depois, organismos portadores de KPC foram detectados na Colômbia, no Canadá, na China e na Grécia. Em um hospital de Tel Aviv, essas bactérias provocaram um surto que afetou 45 pessoas e se alastrou por meio de pacientes e profissionais de saúde para a Inglaterra, Noruega, Suécia, Polônia, Finlândia, Brasil e Itália.

      E AGORA?

      DE ACORDO COM UMA DECLARAÇÃO da Organização Mundial da Saúde (OMS) em novembro passado, as autoridades da área de saúde agora consideram a disseminação da resistência a carbapenemas – de KPC, NDM-1 e outros genes – um “fenômeno de saúde pública de interesse internacional”. (Este ano, a agência internacional escolheu como tema do Dia Mundial da Saúde, em 7 de abril, a “Resistência antimicrobiana e sua propagação global”.) A declaração se deve, em parte, ao pouco que pode ser feito para inibir a propagação de organismos resistentes a carbapenemas: só alguns antibióticos ainda são eficientes para combatê-los e estão longe de ser perfeitos.

      A maioria dessas infecções ainda responde à tigeciclina, medicamento mais recente, e à colistina, um antibiótico descoberto décadas atrás. A tigeciclina, liberada em 2005, foi a primeira de uma nova classe de antibióticos chamada glicilciclinas e, como as bactérias nunca tinham sido expostas ao seu mecanismo de ação, têm sido lentas para desenvolver resistência. Mas a tigeciclina não se dispersa bem no sangue ou na bexiga, o que a torna ineficaz para combater infecções da corrente sanguínea e do trato urinário provocadas pelo KPC e o NDM-1. (Além disso, no ano passado, o FDA atualizou o rótulo da tigeciclina e acrescentou a advertência de que alguns pacientes com infecções graves inexplicavelmente correm maior risco de morte.) A colistina, em contraposição, pertence a um pequeno grupo de medicamentos, chamados polimixinas, que remonta à década de 1940. Ela tem seus próprios problemas: além de danificar os rins, ela não penetra bem nos tecidos. Essas restrições impediram que fosse amplamente utilizada durante décadas e pode ser justamente isso que preservou sua utilidade durante tanto tempo – à medida que seu emprego aumentou nos últimos anos, a resistência a ela também se intensificou.

      Mas além da tigeciclina e da colistina praticamente não temos nada. Entre 1998 e 2008, o FDA aprovou 13 novos antibióticos. Apenas três deles tinham mecanismos de ação inéditos – algo contra o que as bactérias ainda não têm resistência. Em 2009, a Sociedade Americana de Doenças Infecciosas somou os esforços de pesquisa para criar novos antibióticos. Entre as centenas de pedidos de aprovação para medicamentos submetidos anualmente ao FDA, 16 antibióticos em algum estágio de desenvolvimento. Oito deles destinavam-se ao tratamento de bactérias Gram-negativas, mas o número de remédios que de fato podiam ser utilizados contra organismos altamente resistentes era nulo.

      Essas estatísticas defendem a tese de que, sem afirmá-lo explicitamente, a maior parte da indústria farmacêutica decidiu que é um desafio muito grande desenvolver medicamentos para combater infecções resistentes a carbapenemas que só podem ser utilizados pouco tempo antes que surja nova resistência e não vale a pena pesquisar e desenvolvê-los. “Estamos chegando ao ponto em que precisamos começar a investir seriamente muito dinheiro em compostos novos – algo que nunca vimos antes e, mais importante, que as bactérias também não viram antes”, adverte Walsh. “E não necessitamos de apenas um ou dois. Precisamos de 10 ou 20.”

      A expansão da epidemia obrigou os hospitais a reavaliar suas próprias medidas de assepsia. Os que conseguiram controlar as bactérias dizem que o esforço exige um esforço descomunal. Seus protocolos incluem higienizar os pacientes diariamente com antissépticos e limpar todas as superfícies em seus quartos, incluindo cantos e frestas de monitores e computadores a cada 12 horas. “Preocupo- me com a desinfecção de superfícies. É onde os hospitais tipicamente pecam”, relata Michael Phillips, chefe do departamento de controle de infecções do Centro Médico Langone, onde ocorreu o surto inicial em Nova York. Phillips ajudou a desenvolver um inédito projeto chamado “equipe limpa”, que reúne peritos em controle de infecções com o pessoal de manutenção do edifício hospitalar. A equipe eliminou a ocorrência de várias infecções decorrentes da assistência médico-hospitalar nos primeiros seis meses.

      As mais recentes notificações de KPC mostram precisamente o quanto os profissionais de saúde devem ser obstinados por limpeza. No ano passado, 28 pacientes em dois hospitais franceses foram infectados por Klebsiella resistente por meio de endoscópios, tubos flexíveis de fibras ópticas inseridos pela garganta até o trato digestivo. Os hospitais acreditavam ter esterilizado seus equipamentos, mas a KPC passara despercebida.

      As equipes de profissionais da saúde também estão intensificando a vigilância, na esperança de identificar pacientes portadores de bactérias resistentes para que sejam isolados antes de infectar outros. A França, por exemplo, criou o teste obrigatório com esfregões retais para todos os pacientes que foram hospitalizados em outros países. O exame, realizado no primeiro dia subsequente à sua admissão em um hospital francês, visa verificar a presença de uma infecção resistente a multimedicamentos. “Em meu hospital recebemos um paciente transferido do Marrocos que era portador de resistência a carbapenemas”, relatou Patrice Nordmann, chefe dos departamentos de bacteriologia e virologia do Hôpital Bicetre, em Paris, que tratou o primeiro caso francês de KPC, em 2005. “Isolamos o paciente, soamos o alarme e evitamos um surto.” Em 2009, o CDC publicou diretrizes abrangentes para ajudar os hospitais a controlar bactérias resistentes a carbapenemas. A agência não recomendou a estratégia francesa de testar todos os pacientes antes de admiti-los argumentando que as bactérias ainda estavam distribuídas de forma muito desigual pelo país para justificar o custo e tempo gasto pelos funcionários.

      Manter organismos resistentes a carbapenemas fora de hospitais não é importante apenas para controlar surtos entre pacientes debilitados. É também imprescindível para prevenir sua disseminação entre os profissionais de saúde. Quale e outros que documentaram a propagação da KPC em Nova York especulam que algumas dessas bactérias podem ter sido transportadas involuntariamente por médicos, enfermeiras e equipes de nível intermediário que trabalhavam em várias instituições. Mais importante ainda é impedir que bactérias portadoras de KPC compartilhem seus genes de resistência com outras espécies bacterianas, como a E. coli, presentes no hospital, mas que também prosperam fora dele. Uma E. coli fortifi cada por KPC poderia escapar da instituição, ficando fora do alcance de qualquer esquema de vigilância.

      Olhando para o futuro, os pesquisadores preveem que linhagens de bactérias gram- negativas completamente resistentes surjam muito antes que os medicamentos que poderiam combatêlas. Alguns nem precisam imaginar que isso aconteça; eles já viram isso acontecer. Há três anos, médicos do Hospital St. Vincent’s, em Manhattan, trataram dois casos de Klebsiellas resistentes a tudo o que existia em seus arsenais. Um paciente sobreviveu. O outro morreu. “É uma raridade para um médico no mundo desenvolvido ter um paciente vítima de uma infecção avassaladora para a qual não existem opções terapêuticas”, escreveram eles em uma revista de medicina. “Não tínhamos um tratamento eficaz a oferecer.” A não ser que a evolução bacteriana desacelere ou que o desenvolvimento de medicamentos acelere, casos como esse em breve poderão tornar-se muito mais comuns.

      Maryn McKenna Maryn McKenna é repórter autônoma de ciências e blogueira da Wired. Ela cobriu surtos de doenças na maioria dos continentes e é autora dos livros Superbug: the fatal menace of MRSA (Free Press, 2010) e Beating back the devil: on the front lines with the disease detectives of the Epidemic Intelligence Service (Free Press, 2004).

      Fonte: http://www2.uol.com.br/sciam/r

      A geografia num contexto de mudanças

      O ano de 2011 teve um primeiro semestre agitado. Revoltas no mundo islâmico contra ditadores sanguinários e seus aparelhos de estado, o mundo rico patina diante de uma crise de grandes proporções, com epicentro nos Estados Unidos, mas com evidente repercussão nos estados-nacionais mais desregulamentados, o acidente com a usina nuclear de Fukushima coloca em questão o uso da energia nuclear. O que dizer então das mudanças maléficas no Código florestal? O geógrafo tem muito a dizer nesta conjuntura.


      “A reprodução continuada do espaço se realiza como aspecto fundamental
      da reprodução ininterrupta da vida”
      Ana Fani Alessandri Carlos in ”A produção do Espaço Urbano”


      Ricardo Alvarez

      Dia 29 de maio é o dia do geógrafo. A data serve essencialmente como momento de reflexão sobre os rumos da geografia no mundo contemporâneo e sua capacidade em explica-lo, serve ainda ao debate da condição do professor em seu trabalho como educador num contexto complexo e permeado de novos paradigmas nas relações familiares e sociais, serve enfim, à discussão mais ampla dos rumos de nossa sociedade, cada vez mais escrava do consumismo, submetida ao trabalho penoso, mal remunerado e sob a pressão constante do desemprego.

      Matéria prima para a análise desta realidade prenhe de contradições não falta. A reprodução das relações sociais ocorre em ritmo cada vez mais acelerado, espelho fiel do mesmo ritmo com que o capital se reproduz e gera lucros. Neste contexto falta-nos tempo para diversão, lazer e leitura, o trabalho nos exaure, mas em contrapartida os exemplos das mazelas de funcionamento do sistema capitalista, que direciona os rumos da sociedade, se fazem cada vez evidentes.

      Vejamos o caso da aprovação do novo Código Florestal, na Câmara dos Deputados. Por que ampliar a área de plantio e de uso da pecuária? As terras hoje à disposição das atividades econômicas não são suficientes no Brasil para dar conta da demanda interna e externa? Faltam novas terras ou carecemos de uma ação enérgica do governo federal no sentido de inibir a especulação da terra no campo forçando-as a produzir?

      Os dados do Censo Agropecuário de 2006 mostram que nos 20 anos que o separam do levantamento de 1985 o Brasil reduziu em 20 milhões de hectares a área utilizada. Se voltássemos aos 374 milhões de hectares dos anos 80 contra os 354 milhões de hoje estávamos abastecidos de um novo Sergipe de terras prontas para a produção.

      É evidente que não precisamos derrubar mais matas ciliares reduzindo a umidade do ambiente, nem tampouco admitir o uso de terras de maior declividade para a pecuária correndo o risco da erosão e assoreamentos de nossas redes de drenagem para ampliar a área de produção. Precisamos sim combater a especulação de terras no campo, forçar o pagamento de impostos mais pesados para terras improdutivas, realizar uma reforma agrária radical e assentar os pequenos produtores, além de impulsionar a agricultura familiar.

      O Brasil é muito grande e os limites da produção no campo não estão dados pelas “barreiras ambientais” impostas pelo Código Florestal atual. O buraco é mais embaixo.

      A aprovação da polêmica matéria passa por outros canais, que não o da defesa da vida, da produção e da natureza. Estão em jogo os lucros extraordinários do agronegócio, seu desejo em ocupar novas e mais baratas terras, a oportunidade de ampliar a produção de matérias primas e produtos primários num contexto de alta dos preços de alimentos e das commodities no mercado internacional.

      Passa também por uma combinação de variáveis estruturais e conjunturais. De um lado um governo fragilizado pela escolha em fazer o jogo das elites transportando as relações de comércio para dentro do parlamento, pagando um preço alto pelas negociações com o fisiologismo dos partidos e deputados da base de sustentação e mesmo dentro do próprio partido da presidenta. De outro lado por uma condição conjuntural que colocou no bojo do debate do Código Florestal Antônio Palocci, homem forte do governo e digno representante do capital financeiro e seus interesses, abatido pelas denúncias de enriquecimento veloz.

      Como se pode observar o nervo está sempre exposto, e só mesmo com muita mídia e trabalho ideológico para esconder as verdadeiras razões que impulsionam os interesses do capital através de seus representantes.

      Os geógrafos, como cientistas sociais, tem a responsabilidade de desvendar as relações sociais que se ocultam diante da paisagem, tem um papel importante de trazer luz às entranhas ocultas por onde caminham as relações sociais que criam esta paisagem e produzem o espaço geográfico.

      A esperança da mudança passa pela compreensão da realidade e pela certeza de que ”um outro mundo é possível”. Navegamos cotidianamente nestas águas dotadas de uma dupla condição: o real e a possibilidade do novo. Podemos reforçar os interesses burgueses e exaltar as qualidades da sociedade capitalista (embora haja pouco o que destacar), ou de outro lado limpar o opaco dos óculos e mostrar que a vida pode ser diferente, plena, justa, fraterna e igualitária.

      Escreveu o professor Milton Santos num de seus livros: “O simples nascer investe o indivíduo de uma soma inalienável de direitos, apenas pelo fato de ingressar na sociedade humana”. Pronto, simples assim. As pessoas precisam de terra para trabalhar, produzir e viver, bem que lhe é retirado em nome da especulação e das necessidades dos mercados mundiais.

      No mesmo dia em que a Câmara dos Deputados aprovava o malfadado projeto de Código Florestal, Maria do Espírito Santo e José Cláudio Ribeiro da Silva, lutadores do povo eram assassinados no Pará. Não foram os primeiros, num país que convive com este tipo de crime de longa data. Nem serão os últimos, pois as vaias que foram dadas na Câmara quando do anúncio de suas mortes dá muito bem o tom com que fazendeiros e ruralistas enxergam àqueles que “ameaçam” suas propriedades.

      Apesar da violência a luta pela terra não cessa, mostrando-nos que os movimentos sociais estão vivos e pulsam, pois não há saída contra a miséria e opressão senão lutando. Foi assim que ocorreu na África.

      Quem diria que verdugos travestidos de líderes insubstituíveis e fantoches dos interesses ocidentais tombariam ou seriam obrigados a fazer importantes concessões no Oriente Médio, na África mediterrânea e adjacências, depois da massa ganhar as ruas e em uníssono e gritar de peito cheio que “a paciência acabou”?

      Quem diria que a União Europeia esfarelaria depois de flexibilizar as fronteiras ao capital, centralizar a gestão e deixar sua periferia ao relento? Como reduzir os impactos da crise de 2008 que desestruturou a produção e o consumo criando grande confusão sobre suas causas? Observa-se uma Europa que oscila entre mobilizações sociais por mudanças na economia, em defesa do emprego e da renda e por investimentos sociais, ao mesmo tempo em que líderes reacionários e neofascistas resgatam o velho e sujo discurso da culpa dos imigrantes sobre o quadro atual.

      A eleição de Obama também é simbólica neste sentido. Independente dos descaminhos de seu governo, sua chegada ao poder foi marcada por um sentimento de mudança que orientou o voto de boa parte de seus eleitores. Socialmente pouco avançou, fez significativas concessões ao grande capital rentista – como manter os gestores da crise em cargos chaves no governo -, além de dar continuidade à política externa militarizada e agressiva herdada de seus antecessores. Sem dar sinais efetivos de recuperação econômica em função da manutenção de uma política de favorecimento do grande capital especulativo, sua popularidade despenca, apesar do respiro conseguido com o assassinato de Osama Bin Laden.

      O expansionismo imperialista dos EUA (que tem nas invasões do Afeganistão e do Iraque seu ponto alto), a violência do Estado de Israel contra os Palestinos, a falta de empregos, em especial aos adolescentes, a rejeição às ditaduras militares ou civis, a luta pela manutenção de direitos trabalhistas, as reivindicações por infraestrutura e serviços sociais básicos, enfim, há um quadro de reivindicações que tem sido objeto de ação dos mais diversos movimentos sociais espalhados pelo mundo num crescente indiscutível. As lutas sociais ganham corpo neste início de século XXI depois de décadas de hegemonia neoliberal.

      Embora o acidente coma usina nuclear de Fukushima tenha origem num fenômeno natural, é certo que a empresa privada que a administra tem um histórico de desrespeito às normas básicas de segurança das usinas e aos direitos de seus trabalhadores. Ganhou um grande presente com as privatizações japonesas nos anos 80 e 90, que lhe rendeu lucros estratosféricos, desde então.

      Parece-nos que o momento histórico que se avizinha trás consigo um forte questionamento contra as políticas neoliberais e seus efeitos, mesmo que ainda desarticulados e apoiados em várias frentes de luta. A questão que se coloca é que esta fase de acumulação do capital se esgotou, chegou ao seu limite, mas isto ainda não foi percebido pelos chefes de estado dos países ricos, que insistem em aplicar políticas de desregulamentação e redução do estado na economia, em consonância com interesses das grandes corporações transnacionais.

      Neste quadro de luta social pontual, mas carregada de energia e desejo de mudança, em contrapartida à falta de rumos e perspectivas do capitalismo em crise em sua fase neoliberal, pode-se afirmar que as lutas serão mais intensas e com maior visibilidade externa.

      Para reduzir os efeitos nefastos da crise não basta dissimular a realidade com caras novas, como é o caso de Obama e Sarkozy (conservadores em essência), nem tampouco a eleição de mulheres (novidades neste meio, como Merkel, Bachelet e Dilma). Não é a pirotecnia que fazer acender as luzes do novo caminho para o capitalismo. Falta-lhe uma nova formulação em substituição à tragédia social gerada pela desregulamentação e o estado mínimo.

      A hora é propicia para uma recomposição das forças anticapitalistas, que devem ter claro que se sua pauta é diversa, seus objetivos se confundem.

      Ricardo Alvarez

      Geógrafo, é professor e editor do site Controvérsia

      O pré-sal, a Petrobras, o Brasil e os Assassinos Econômicos

      Equipe de trabalho de Geopolítica Internacional dos Recursos Naturais do Sindipetro ALSE

      Dalton F. Dos Santos

      Assassinos econômicos

      Assassinos econômicos, de acordo com John Perkins –um deles–, são profissionais altamente remunerados cujo trabalho é lesar países ao redor do mundo em golpes de trilhões de dólares. O Departamento de Estado dos Estados Unidos da América e o Secretário de Estado –Condoleezza Rice– afirmam que os assassinos econômicos é uma “total ficção”. Ou já caiu no esquecimento geral que os dados geológicos do pré-sal foram roubados? Ou Condoleezza Rice acha que ninguém aqui, na América Latina e Caribe, sabe que a IV frota americana (tropa da ARMY Force) já está instalada em cima do pré-sal na Bacia de Santos?

      Os assassinos econômicos –pessoas recrutadas a dedo por organizações de espionagens (extremamente secretas) do imperialismo– são treinados para exercer o trabalho que se destina a construir o império dos Estados Unidos da América. O imperialismo dá aos assassinos econômicos as drogas mais fortes da cultura capitalista –o sexo, o poder e o dinheiro que seduzem as pessoas recrutadas para fazerem o serviço sujo. Os assassinos econômicos são colocados como consultores nas diversas empresas privadas como, por exemplo, de engenharia, construção civil para que, quando apanhados com a mão na botija, não pode haver ligação com o governo.

      Os assassinos econômicos cooptaram também todos os governos brasileiros, o último deles, o de Luiz Inácio Lula da Silva!

      Foram cooptando os governos dos países pobres (países em desenvolvimento ou os emergentes) que os assassinos econômicos construíram o maior império da história do mundo, os Estados Unidos da América. Cooptados pelos assassinos econômicos, os governos dos países emergentes como, é costumeiro, o do Brasil executa a prática da manipulação econômica, da mentira e da falcatrua.

      A principal tarefa dos assassinos econômicos é conseguir o endividamento dos países pobres. Cooptados, os governos dos países depauperados fazem enormes empréstimos e, ao mesmo tempo, aumentam as taxas de juros para bem remunerar o capital especulativo nacional e internacional. Em seguida, confiscam os recursos que deveriam ir para os investimentos sociais, via superávit primário, economia para pagar os juros e serviços da dívida pública (interna e externa). Assim é que a maior parte do dinheiro tomado emprestado volta para os Estados Unidos da América e os países miseráveis ficam com a dívida mais imensos juros. E, na prática, tornam-se criados, escravos dos Estados Unidos da América.

      A criação da Estatal Pré Sal tem como único objetivo destruir a Petrobras e atender os interesses dos Estados Unidos da América!

      Logo, um país como o Brasil é obrigado a entregar aos Estados Unidos da América os recursos fósseis sob o pré-sal, descobertos pela Petrobras. E o governo Lula ainda tem que ajudá-los na instalação da base militar na região de águas ultra profundas, a IV frota americana (tropa da ARMY Force). Da mesma forma que o governo Lula colabora com a tropa da ARMY Force também, no Haiti, para garantir a segurança da rota do petróleo da Arábia Saudita até o sudeste dos Estados Unidos da América. Os Estados Unidos da América vão mais além, obrigam o governo brasileiro a criar a Estatal Pré-Sal para bancá-los na exploração e produção dos campos petrolíferos de águas ultra profundas. É dessa forma que os Estados Unidos da América transformam-se num império monstruoso, bem sucedido.

      Os Estados Unidos da América já consumiram quase 90% das suas reservas totais. Dependem do petróleo do Oriente Médio e estão de “olho gordo” nas reservas do pré-sal que podem ser de até 90 bilhões de barris, quase a reserva do Iraque.

      O que sobra para a imensa maioria do povo latino americano e caribenho é a miséria!

      A figura da corporatocrácia (constituída pelas transnacionais, bancos e governo) visada pelos assassinos econômicos é o governo. É o governo que tem que ser cooptado pelos assassinos econômicos. O PAC –“pacotão do crescimento dos industriais monopolistas”– que remodela a geografia e as leis da América Latina e Caribe, bancado pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Social), é um projeto vendido pelos assassinos econômicos também ao governo Lula. Na verdade, o PAC é o apelido do IIRSA, aqui no Brasil. O projeto IIRSA objetiva transformar o continente latino americano e caribenho numa ilha de escravidão, a fim de garantir a eficiência do projeto “novo século estadunidense”.

      Os leilões continuam no governo Lula!

      O governo Lula já anunciou a possibilidade de a décima rodada de leilão de petróleo acontecer ainda este ano. Esta é outra forma eficiente de entrega da riqueza do Brasil para os países imperialistas.

      A dívida do Brasil já passa de um trilhão e meio de reais! Quanto mais o governo Lula amortiza os juros da dívida mais a dívida cresce. No semestre que já passou o governo tinha que amortizar 156 bilhões de reais, mas o superávit primário só garantiu 90 bilhões de reais. A diferença que é de 66 bilhões de reais foi incorporada à dívida total, é somada ainda a elevação do juro que agora passou para 13%, o que garante a eternidade da dívida pública (interna e externa). Leia abaixo o artigo de Frederico Lisbôa Romão.

      O pré-sal, a Petrobras e o Brasil

      Frederico Lisbôa Romão*

      Em 08 de novembro de 2007, as vésperas da realização da Nona Rodada de Licitação para exploração, desenvolvimento e Produção de Petroleo e Gás Natural a Petrobrás anunciou as primeiras avaliações feitas sobre as reservas da sua maior província petrolífera, particularmente da área denominada de Tupi, localizada na bacia de Santos. Desde então não cessam de surgir surpresas, suposições, novas descobertas e prognósticos variados. A polêmica é plenamente justificável. O Brasil anuncia aos quatro ventos descobertas gigantescas de novos campos no mesmo instante em que o mundo desenvolvido se depara com crise energética, em função da incongruência entre seu consumo e sua produção do petróleo, cuja resultante é a patente escassez desse óleo sem haver no horizonte próximo sucedâneo à altura. A flagrante repercussão não é sem motivo. Apesar das críticas e acusações que sofreu o presidente da ANP, Haroldo Lima, por ter em abril desse ano anunciado que o campo gigante de Tupi teria reservas em torno de 33 bilhões de barris de óleo equivalente –boe, provocando inclusive oscilações na bolsa, hoje, passados não mais de quatro meses, aquela previsão se tornou rapidamente conservadora. Os prognósticos atuais são muito pomposos.

      As novas e alvissareiras descobertas se encontram abaixo de uma espessa camada de sal, daí a denominação pré-sal, a aproximadamente 6.000 metros de profundidade. O bloco está distribuído entre o litoral dos estados do Espírito Santo até Santa Catarina, em área de aproximadamente 800 quilômetros, abrangendo as bacias sedimentares do Espírito Santo, de Campos, bem como a bacia de Santos. As primeiras análises apontam para a existência de óleo leve de boa densidade 30º API (American Petroleum Institute).

      Inicialmente, previam-se reservas em torno de 5 bilhões de boe, passando-se para 8 bilhões, permitindo-se,ora, prognósticos que já posicionava o Brasil como exportador de petróleo. O presidente da ANP em abril falou em 33 bilhões. Hoje as previsões vão de 100 a 338 bilhões de boe. Para se poder compreender melhor o que representam esses números é necessário saber que atualmente as reservas provadas do Brasil são da ordem de 14 boe, as da Arábia Saudita 264 boe.

      O tamanho da riqueza, como não podia ser diferente, está fazendo a temperatura das discussões e decisões políticas crescerem rapidamente. Em julho foi criada uma comissão de sete pessoas (4 ministros e três presidentes de estatais) para, em 60 dias, apresentar a Lula propostas de regras para a exploração do pré-sal. Mais recentemente, pronunciamentos do Presidente da República e do Ministro das Minas e Energia (este último coordena a comissão afim), apontaram na direção da criação de uma nova empresa puramente estatal, que teria o fim último de gerir respectiva riqueza; ou seja, a Petrobrás ficaria de fora, pois como falou o presidente Lula, o petróleo do pré-sal não pode ser explorado por “meia dúzia de empresas”.

      Essa proposta de retirar das mãos da Petrobrás a exploração dessa imensa riqueza suscita imperativamente uma vigorosa discussão no conjunto da população brasileira. Apresentam-se algumas questões à guisa de melhor problematizar o tema:

      • Em primeiro plano é importante frisar que, a despeito de todas as investidas contrárias, a Petrobras soube até hoje cumprir seu papel, sendo a adquirida auto-suficiência e a alta tecnologia de prospecção de petróleo prova inconteste.

      • Segundo, como justificar regras, as quais excluem a empresa que pesquisa e utiliza seu know how na descoberta fique de fora da exploração? O prêmio por seu esforço e sua competência seria seu esvaziamento? De tal sorte, na prática é isso que vai ocorrer, pois o que são 14 bilhões próximos dos 100, 200 ou 300 bilhões de boe.

      • Terceiro, a tecnologia para exploração em águas profundas é patrimônio da Petrobras e dos seus trabalhadores de forma técnica e tácita, logo surge mais uma questão: em que local essa nova empresa vai buscar a tecnologia, será que a Petrobras além da descoberta, dos seus dados, também terá que disponibilizar seus trabalhadores, perdendo memória técnica? Se isso ocorrer além do esvaziamento financeiro a Petrobras também sofrerá o esvaziamento técnico.

      • Quarto, sob a batuta da Petrobrás, por sua história de luta, seu enraizamento na sociedade, o povo brasileiro tem garantia de que a riqueza descoberta estará segura; quanto a essa nova empresa só restam interrogações? A proposta é que será puramente estatal; mas até quando? O governo Lula passa e depois?

      • Quinto, outra salvaguarda fundamental da Petrobrás e, portanto, das riquezas que a mesma administra são seus trabalhadores. A qualidade técnica e o compromisso dos mesmos são fatos insofismáveis. Sua capacidade de luta e questionamento ao status quo já foi posto à prova em diversos momentos da história política brasileira, neste tocante, mais recentemente, é digna de nota a greve dos petroleiros de 1995, sabido fator de resistência à política privatista do governo FHC, e nessa nova empresa como será?

      É importante salientar que reservas minerais ou vegetais, por mais riqueza que elas representem, não têm sido sinônimo de fartura para seus países e seus povos, muitas vezes significam mesmo o oposto. O que dizer dos diamantes da África do Sul, das minas de cobre do Potossi na Bolívia, do petróleo na Nigéria e mesmo do Pau-Brasil, Cana de Açúcar, Borracha, Cacau, Café, Ferro, Manganês, etc., etc., etc, do Brasil? O Brasil tem pressa, sua desigualdade social e seu povo faminto não podem esperar, sabe-se disso, porém não foi e não é por falta de riqueza que falta educação, saúde, segurança, e qualidade de vida para grande maioria do nosso povo. A dimensão das descobertas do pré-sal, a responsabilidade ética com as futuras gerações exigem decisões abertas, para além dos palácios e comissões incorporando a voz do conjunto da sociedade. É imprescindível a criação de fóruns de discussão, incorporando a presença e os pontos de vista de organizações e entidades a exemplo da: OAB, ABI, UNE, CNBB, DIEESE, CONFEA, MST, CONTAG, Centrais Sindicais, Federações de Trabalhadores, Centrais do Movimento Popular.

      *Frederico Lisbôa Romão, é doutor em Ciências Sociais pela UNICAMP – Tec. Op. Pl. Petrobras (+55(xx)7999770535 ) / Equipe de trabalho de Geopolítica Internacional dos Recursos Naturais do Sindipetro ALSE

      O governo Lula serve “àqueles que têm no lugar do coração, um cofre”!

      Os homens mais ricos do mundo são ou não são íntimos dos governos? Eles fazem ou não fazem inúmeras parcerias público-privadas ou diversas empresas misturadas com os governos? Esses parceiros dos governos conquistam riquezas, não pela excelência na eficiência produtiva e pelo marketing brilhante, mas por serem excelentes em fazerem “lobbies” num antro de picaretas e exercerem influência política junto ao governo Lula. Isso só não é enxergado por aquele que não quer ver, ou tem o rabo preso.

      Os assassinos econômicos fazem com que os governos criem leis que elimine a concorrência –é o caso da criação da estatal do pré-sal pelo governo Lula para eliminar a Petrobras da concorrência no livre mercado do setor petróleo e do gás natural– e garanta às transnacionais dos países capitalistas imperialistas os meios eficientes e as condições adequadas para a criação de monopólios e cartéis apoiados pela força política dos governos, no caso da entrega das reservas do pré-sal, a força política do governo Lula.

      Não é necessário ser um especialista em geopolítica internacional dos recursos naturais para identificar o modo descarado de propaganda do governo de Luis Inácio Lula da Silva para entregar de “mão beijada” as reservas do pré-sal aos Estados Unidos da América. O que já mandaram o Lula fazer foi dar o primeiro passo –“lançar a discussão da criação da estatal do pré-sal”. O lançamento dessa discussão é feito pelo governo Lula com base num compromisso “humanitário” –a educação–, quando, na verdade, o objetivo real é a garantia dos contratos lucrativos para as transnacionais dos países capitalistas imperialistas, impulsionando o declínio irreversível do padrão de vida da imensa maioria da população brasileira.

      Felizmente, existem pessoas maravilhosas que lutam para melhorar a sorte e o destino da humanidade contra a oposição dos capitalistas imperialistas sem coração que se preocupam apenas com os seus lucros. Ou melhor, como é dito pelo TOETA – “eles têm no lugar do coração, um cofre”!

      A luta que deve ser feita para derrotar o governo e o imperialismo é a luta pela nacionalização dos recursos naturais de toda a América Latina e Caribe e por uma Petrobrás 100% brasileira!

      Dalton Francisco Dos Santos / Geólogo Pleno da Petrobas e Diretor do Sindipetro de Alagoas e Sergipe/Conlutas, Brasil. / Email: santos240@gmail.com

      Fonte: http://www.soberania.org/

      A Costa do Marfim, cindida pela guerra, enfrenta um duro caminho de volta à paz

      Em um desdobramento bem recebido em torno do mundo, Laurent Gbagbo, o governante da Costa do Marfim, foi preso com a ajuda do Ocidente. A prisão serviu de advertência a todos os ditadores que ignoram o resultado de eleições livres. Gbagbo deixa para trás um país dividido pela guerra civil e que terá que enfrentar um processo duro e longo de reconciliação.

      Horand Knaup

      Gbagbo preso por tropas da oposição

      Gbagbo preso por tropas da oposição

      Os olhos da África voltaram-se para a Costa do Marfim. Será que novamente um presidente democraticamente vencido ia conseguir se manter no poder, usando truques e tropas, apesar de um resultado eleitoral claro contra ele –e contra os desejos expressos da comunidade internacional?

      Laurent Gbagbo fracassou. Foi preso na tarde de segunda-feira (11/4), após as forças francesas na antiga colônia cercarem a casa onde ele estava entrincheirado na última semana. Gbagbo esteve no poder por mais de 10 anos e recusou-se a deixar o cargo quando seu rival Alassane Ouattara venceu as eleições presidenciais em novembro, de acordo com resultados certificados pela ONU.

      Na noite de segunda-feira, Gbagbo, que foi colocado sob proteção das tropas da ONU, apareceu na televisão e pediu às facções em guerra que deixassem as armas. Era a admissão final de derrota. Ouattara, presidente reconhecido internacionalmente da Costa do Marfim, agora tem liberdade para agir, ao menos por enquanto. As sanções impostas pelo bloco regional da África Ocidental, Ecowas, os EUA e a UE devem ser suspensas em breve, os bancos devem reabrir e as exportações de cacau, a fonte de renda mais importante do país, devem recomeçar. Ao menos essa é a esperança.

      O ministro de relações exteriores da Alemanha, Guido Westerwelle, saudou a prisão de Gbagbo. “Temos a esperança que a guerra civil agora terminará rapidamente”, disse ele. A Costa do Marfim agora tem uma verdadeira chance de um reinício pacífico e democrático, disse ele.

      Nação destruída

      Vai levar tempo, contudo, para a vida na Costa do Marfim voltar ao normal. Milhares de empresas, fábricas e lojas, especialmente na capital comercial de Abidjan, foram saqueadas, e as centenas de empresários que fugiram do país nos últimos meses e não estão com pressa de voltar. Muitos na comunidade empresarial apoiavam Gbagbo e duvidam profundamente de Ouattara.

      O novo presidente enfrenta uma tarefa difícil de unir o país. Para pôr fim ao conflito, ele vai ter que buscar a reconciliação com as pessoas que apoiavam Gbagbo.

      “Peço aos compatriotas que se abstenham de toda forma de violência e vingança”, disse Ouattara em um discurso na televisão na noite de segunda-feira, pedindo uma “nova era de esperança”. “Nosso país virou uma página dolorosa da história”, disse ele, instando as milícias jovens a deixarem as armas e prometendo restaurar a segurança à nação.

      A violência étnica multiplicou-se durante o longo cabo de guerra de Ouattara com Gbagbo, particularmente no oeste do país. Centenas de pessoas foram mortas, e os dois lados do conflito cometeram atrocidades contra civis, segundo grupos de assistência.

      Ouattara disse que Gbagbo, sua mulher e assessores serão levados à justiça. Mas ele também prometeu criar uma Comissão de Reconciliação de Verdade ao estilo da sul-africana, para lançar luz sobre todos os crimes e abusos de direitos humanos.

      A própria credibilidade de Ouattara foi manchada por relatos que suas tropas cometeram massacres nas últimas semanas. A Corte Criminal Internacional em Haia agora poderá investigar o presidente e seus comandantes assim como Gbagbo.

      “O pesadelo terminou”

      A derrota de Gbagbo tornou-se inevitável. Antes de sua prisão, tanques franceses avançaram para a residência presidencial onde ele tinha se entrincheirado por uma semana.

      Um dos combatentes de Ouattara, Issard Soumahro, disse à Associated Press que a invasão da residência começou após os ataques aéreos da ONU e da França no domingo. “Atacamos e invadimos parte da residência. Ele estava lá com a mulher e o filho. Ele não estava ferido, mas estava cansado e com a bochecha inchada pelo tapa que levara de um soldado”, disse Soumahro.

      As cenas televisionadas mostraram Gbagbo sendo levado para fora da casa com uma camiseta branca sem manga e colocando uma camisa colorida. Ele foi interrogado e levado ao Hotel Golf. “O pesadelo acabou para as pessoas da Costa do Marfim, há muita celebração. Ele está preso em um lugar seguro, aguardando julgamento”, disse o embaixador de Ouattara na ONU, Youssoufou Bamba.

      Os analistas, contudo, dizem que julgar Gbagbo especificamente em uma corte na Costa do Marfim pode gerar mais inquietação. O ministro de relações exteriores britânico, William Hague, exigiu um julgamento justo e disse que, nos últimos meses, o ex-presidente tinha “agido contra qualquer princípio democrático”. Ele acrescentou que há muito que o Reino Unido considerava Ouattara como o presidente de direito e que esperava que a mudança de liderança permitiria uma forma de avançar “democrática e pacífica”. Contudo, Hague também pediu que Gbagbo fosse tratado com respeito e que tivesse “um processo judicial justo e bem organizado”.

      Ainda não está claro qual papel o Ocidente e a França em particular tiveram na operação. Os militares franceses negaram envolvimento na prisão de Gbagbo, mas parece pouco provável que a milícia de Ouattara possuísse o treinamento ou o equipamento para executar tal operação. Além disso, o fato de Gbagbo ter sido levado vivo sugere envolvimento externo, assim como a presença de veículos armados da ONU garantindo a rua que levava à residência cercada quando as tropas de Ouattara entraram no prédio.

      Uma advertência a todos os déspotas

      O Ocidente insistiu que Gbagbo devia renunciar. Ele tentou se manter no poder com a ajuda das forças armadas. Sanções internacionais contra ele e seus assessores não resolveram o conflito. No final de março, forças leais a Ouattara lançaram uma ofensiva e conquistaram grandes partes do país em dias. Contudo, elas encontraram forte resistência em Abidjan. Finalmente, no dia 4 de abril, as forças da ONU e da França intervieram e destruíram a maior parte dos arsenais de Gbagbo.

      As tropas da ONU foram autorizadas por uma resolução a usarem todos os meios a sua disposição para proteger a população, já que as tropas de Gbagbo usaram repetidamente civis como alvo. Mas o grupo Human Rights Watch disse que as forças de Ouattara eram igualmente culpadas de matar centenas de civis e de cometer outros atos de violência.

      Na segunda-feira, jovens celebraram a prisão de Gbagbo nas ruas de Abidjan, onde as pessoas ficaram presas em suas casas com poucos alimentos e água enquanto as batalhas se desdobravam por 10 dias. Os mantimentos reduzidos assim como os frequentes cortes de energia e a falta de suprimentos médicos alimentaram temores de um desastre humanitário, caso as autoridades não agissem rapidamente.

      A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, disse que a prisão de Gbagbo era um sinal para todos os governantes autocráticos do mundo. Ela disse que os ditadores deveriam notar que “eles não podem desrespeitar a voz de seu próprio povo em eleições livres e justas”. Ela acrescentou que “haverá consequências para os que se mantêm no poder”.

      A prisão também poderá servir como advertência para as elites políticas do Zimbábue, Congo e Quênia, cujas eleições devem ocorrer brevemente.

      Tradução: Deborah Weinberg

      Fonte: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/

      Camada Pré-Sal

      O que é a camada pré-sal, petróleo, poços, gás natural, produção, formação, localização da camada, importância 

      Sua pesquisa

      camada pré-sal                                                 Localização da camada pré-sal (no destaque)

      O que é e localização

      A camada pré-sal é um gigantesco reservatório de petróleo e gás natural, localizado nas Bacias de Santos, Campos e Espírito Santo (região litorânea entre os estados de Santa Catarina e o Espírito Santo). Estas reservas estão localizadas abaixo da camada de sal (que podem ter até 2 km de espessura). Portanto, se localizam de 5 a 7 mil metros abaixo do nível do mar.

      Informações importantes sobre a camada pré-sal

      Estas reservas se formaram há, aproximadamente, 100 milhões de anos, a partir da decomposição de materiais orgânicos.

      Os técnicos da Petrobras ainda não conseguiram estimar a quantidade total de petróleo e gás natural contidos na camada pré-sal. No Campo de Tupi, por exemplo, a estimativa é de que as reservas são de 5 a 8 bilhões de barris de petróleo.

      Em setembro de 2008, a Petrobras começou a explorar petróleo da camada pré-sal em quantidade reduzida. Esta exploração inicial ocorre no Campo de Jubarte (Bacia de Campos), através da plataforma P-34.

      Futuro

      Se forem confirmadas as estimativas da quantidade de petróleo da camada pré-sal brasileira, o Brasil poderá se transformar, futuramente, num dos maiores produtores e exportadores de petróleo e derivados do mundo. Porém, os investimentos deverão ser altíssimos, pois, em função da profundidade das reservas, a tecnologia aplicada deverá ser de alto custo.

      Acredita-se que, somente por volta de 2016,  estas reservas estejam sendo exploradas em larga escala. Enquanto isso, o governo brasileiro começa a discutir o modelo de exploração que será aplicado.

      Fonte: www.suapesquisa.com/geografia/

      O que a morte Bin Laden esconde?

      Queima de arquivo, conjuntura interna no Paquistão e necessidade de se alavancar a popularidade de Barack Obama podem ser algumas das explicações

      Eduardo Sales de Lima

      Barack Obama vibrou. A notícia é a de que o terrorista saudita Osama Bin Laden foi executado com um tiro na cabeça em uma operação realizada no dia 1º por 24 homens de um grupo de elite da Marinha estadunidense. Até o fechamento desta edição (no dia 3), a filmagem da operação, transmitida ao vivo na Casa Branca, ainda não havia sido veiculada.

      Esse e outros fatos colocam as circunstâncias da morte de Bin Laden atrás de uma cortina nebulosa. Para o clima ficar ainda mais incompreensível, o Pentágono anunciou que o corpo do terrorista foi lançado no mar da Arábia e se defende de tal ação argumentando que seu túmulo poderia se transformar num santuário do radicalismo.

      Surgem as dúvidas. Por que somente agora o encontraram? E toda a tecnologia à disposição dos agentes secretos estadunidenses? Por que eles não se valeram dos inimigos políticos paquistaneses da Al Qaeda?

      “Tudo indica que Bin Laden estava sendo monitorado e acompanhado há anos pelos Estados Unidos”, afirma o professor de geopolítica da Fundação Santo André, Marcelo Buzetto. Para sustentar sua posição, ele cita o livro Guerra e globalização, do escritor canadense Michel Chossudovsky, que aponta que, já em 2001, o dia a dia do saudita era observado pela inteligência estadunidense, visto que haviam surgido informações de que, na época, ele teria sido atendido num hospital paquistanês.

      Vulnerável

      Bin Laden estava vulnerável, fácil de ser capturado. É o que defende Buzetto. Segundo ele, “setores da oposição ao governo do Paquistão já denunciavam há vários anos que o terrorista vivia no país e nunca houve nenhum movimento, até mesmo diplomático, dos Estados Unidos, para capturá-lo”, acrescenta.

      O professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Virgílio Arraes, também se embrenha na política paquistanesa para compreender o assassinato de Bin Laden, mas acredita que a localização do terrorista pode ter sido justamente atribuída a um “dissenso” criado dentro do governo. “Enfraquecido, o atual governo pode ter negociado com os Estados Unidos a entrega de Bin Laden em troca de maior apoio político e econômico, dado que não seria possível para o grupo dele [Bin Laden] residir próximo a uma academia militar incólume por muito tempo, a não ser que houvesse um acordo (oficioso, ao menos)”, conclui.

      Aliás, de acordo com o sociólogo José Farhat, por conta desse dissenso dentro do governo paquistanês e por este país se configurar como uma “democracia de fachada”, algumas instalações governamentais que apoiam os Estados Unidos e aliados tendem a sofrer uma escalada de ataques terroristas.

      Tribunal

      Ainda sobre as circunstâncias do assassinato do saudita, por que os Estados Unidos perderam a grande oportunidade prendê-lo e, por meio de interrogatório, descobrir até onde os braços da Al Qaeda vão?

      “Não terem o cuidado de o prenderem e levá-lo a um julgamento, se fosse o caso, até a um tribunal internacional, só fortalece a tese de queima de arquivo. Ou seja, demos armas, dinheiro e apoio politico a ele, e depois perdemos o controle”, acredita Buzetto (leia matéria nesta página).

      O professor de geopolítica reforça que não é a primeira vez na história que os Estados Unidos neutralizam ex-aliados. Ele traça um paralelo com a história política do ex-presidente do Iraque. “Saddam Hussein iniciou a guerra Irã-Iraque com o dinheiro e as armas dos Estados Unidos, e, de 1980 a 1988, foi aliado dos Estados Unidos. Foi morto [enforcado em 2006] após aquele julgamento apressado”, lembra.

      Mesmo com todas as dúvidas e rumores que rondam as ações e intenções de Barack Obama, grande parte da imprensa internacional celebra o acontecimento como a “vitória contra o terrorismo”. O presidente estadunidense comemorou ainda mais, dado o repentino aumento de alguns pontos percentuais de sua popularidade. “É a primeira vitória de Obama nas duas guerras, ainda que simbólica. Isso pode significar um ânimo maior na campanha eleitoral para a presidência [em 2012], mas não nos dois confrontos [Iraque e Afeganistão], já perdidos”, opina Virgílio Arraes.

      Ofensiva imperialista

      Para a historiadora Arlene Clemesha, professora de história árabe da Universidade de São Paulo (USP), o anúncio da morte de Bin Laden poderia representar o início do fim de uma era de “guerra contra o terror”. De fato, poderia. “Deixa de existir o motivo para os Estados Unidos manterem sua presença no Afeganistão, no Iraque e no Paquistão; eles poderiam anunciar realmente o fim de uma era difícil para os árabes, para os islâmicos e para o mundo”, salienta Clemesha.

      Mas a vitória da “liberdade” e da “democracia” parece que ainda não foi alcançada com a morte de Bin Laden, de acordo com a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, que fez questão de lembrar que o assassinato do líder da Al Qaeda “não deve frear o combate ao terror”.

      Declarações de mesmo tom de Hillary reforçam uma outra tese, a de Marcelo Buzetto. “O assassinato de Osama também pode significar nova ofensiva do imperialismo sobre o norte da África e o Oriente Médio”, afirma. Para ele, Obama quer se aproveitar da brecha de poder aberta a partir das revoltas no mundo árabe para impedir o crescimento da influência de figuras como Bin Laden.

      Mas, tal argumento, que destaca o assassinato do saudita como uma forma de barrar sua influência no mundo, não deve ser levado tão em conta, segundo Arlene Clemesha. Ela pondera que a chamada Primavera Árabe, pelo seu caráter democrático, já demonstrou a irrelevância do terrorista no mundo árabe-islâmico.

      Fonte: http://www.brasildefato.com.br/

      Inflação em alta no mundo todo acende o sinal de alerta

      Pelo menos duas vezes, em abril, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, declarou que o mundo está passando por um surto inflacionário. No último dia 26, por exemplo, disse isso para justificar que o Brasil “não está mal na foto”, quando comentou o aumento da inflação no país, que atingiu em março 6,3% no acumulado de doze meses. Antes disso, em 18 de abril, Mantega já havia avaliado que o atual cenário econômico mundial tem sido afetado pela alta no preço de commodities como petróleo, minérios, milho e soja.

      Carolina Ramos

      A declaração do dia 26 foi feita na palestra que Mantega realizou no Palácio do Planalto durante a plenária do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, órgão consultivo da Presidência da República composto por representantes da sociedade civil. Já a do dia 18 foi dada em Nova York, quando o ministro falou para investidores em evento organizado pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos.

      A avaliação do ministro leva em consideração o aumento da inflação em países tidos como mais estáveis economicamente, a exemplo de alguns dos 15 que fazem parte da zona do euro, entre eles a Suécia. Em março, os índices inflacionários dessas nações subiram para, em média, 2,7%, os maiores desde 2008, quando as taxas alcançaram 3,2%. Outro exemplo do aumento inflacionário no mundo é ilustrado pela China que, ao lado do Brasil, faz parte do chamado BRIC, bloco dos principais países emergentes, formado ainda por Rússia e Índia. Também em março, a inflação aumentou no gigante asiático e chegou a 5,4%, acima dos 4,9% registrados em fevereiro, impulsionada pela alta dos preços dos alimentos.

      É justamente o aumento de commodities, como os grãos, que justificam a subida da inflação em outras partes do mundo, na avaliação do economista Fernando de Holanda Barbosa, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) do Rio de Janeiro. “Esse é um problema comum do Brasil e de outros países no momento. Mas eles têm como sair dessa situação transitória em curto prazo”, comenta Barbosa.

      O economista Giuliano Contento Oliveira, professor do Instituto de Economia da Unicamp, destaca que, segundo as estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI), tende a ocorrer uma desaceleração de aumento dos preços já em 2011, comparativamente a 2010. “Em muitos países que fazem uso do regime de metas para a inflação, o aumento dos preços tende a superar a meta em 2011. Mas nada que sinalize um quadro de aumento descontrolado dos preços”, diz.

      Oliveira afirma que as pressões inflacionárias significativas em diversas economias do mundo estão associadas, além do aumento dos preços das commodities, à política monetária altamente expansionista dos Estados Unidos. “Quando esses dois fatores se juntam com um ritmo de atividade econômica em expansão, o aumento dos preços acaba assumindo maior vigor”, analisa. De acordo com o economista, contudo, isso não significa a inexistência de pressões inflacionárias decorrentes do aumento da demanda. No caso do Brasil, por exemplo, o aumento dos preços verificado no setor de serviços – tanto os públicos, como transportes e energia elétrica, quanto privados, como TV por assinatura e internet – revela que a elevação dos preços se deve somente em parte à expansão dos preços de grãos e minérios. Com o aumento do poder aquisitivo no país, a demanda por energia e internet, por exemplo, cresceu mais que a oferta.

      Já no caso das commodities, principalmente as agrícolas, o aumento dos preços está relacionado ao que os especialistas chamam de choque de oferta. Como explica Oliveira, isso ocorre quando fatores que influenciam a produção afetam adversamente sua oferta, como, por exemplo, uma quebra de safra agrícola. Nesses casos, ocorre uma contração da oferta e subsequente aumento dos preços. “O aumento dos preços de commodities no período recente tem sido causado, em grande medida, pelo crescimento acelerado da demanda chinesa e pelas operações especulativas realizadas nos mercados futuros”, explica o economista da Unicamp.

      Campeã inflacionária

      Além desse aumento geral da inflação que, no momento, é registrado em vários países, vale destacar o caso daqueles que, continuamente, apresentam altos índices inflacionários. O principal exemplo é o da Venezuela, cuja inflação, medida pelo índice de preços ao consumidor, atingiu 25,1% em 2009 e 27,2% em 2010. É a maior taxa do mundo e estima-se que, ainda em 2011, ela possa atingir até 30%. “Com uma inflação desse tamanho, a elevação interna dos preços acaba tendo um impacto desfavorável sobre o câmbio (com a desvalorização da moeda local, o bolívar)”, observa Oliveira. Na análise do economista, o resultado, como era de se esperar, é a repercussão negativa do governo Hugo Chávez, comprovada pelas últimas pesquisas de opinião mostrando um índice de reprovação ao presidente superior ao de aprovação. “Uma coisa é certa: não será o exército que irá eliminar, de forma duradoura, a inflação na Venezuela”.

      Barbosa, da FGV-Rio, coloca o caso da Venezuela como exemplo de uma sociedade politicamente fraca, com dificuldades de fazer alianças com outros grupos. “Estado e mercado têm que ser fortes. São duas instituições complementares. O estímulo ao emprego e à saúde empresarial são necessários como forma de geração de dinheiro, que paga impostos e, portanto, arca com os gastos do governo. Se o financiamento das despesas ocorre com a emissão de moeda, a produção do país fica desestimulada, entre outras consequências”, analisa. A emissão de moeda para colocar mais dinheiro em circulação é uma das formas de compensar gastos públicos superiores à arrecadação. Se, por um lado, a fraqueza institucional do Estado pode ser relacionada a economias frágeis, por outro lado, um Estado forte garante situação econômica bem mais confortável. È o caso da Suíça e da Noruega, com invejável taxa de 1% de inflação. “Temos que mirar em exemplos como o desses países, que apresentam justiça social e excelência de serviços”, afirma Barbosa.

      Não há risco de hiperinflação

      Apesar de merecer atenção, o surto inflacionário mundial, como qualificado pelo ministro Mantega, passa longe do risco de hiperinflação, catástrofe que, no passado, afligiu não somente países emergentes como o Brasil, mas também nações desenvolvidas como a Alemanha. “Neste momento, seria forçado falar em risco de hiperinflação mundial. Temos visto, sim, uma pressão de alta sobre os preços”, comenta Oliveira, da Unicamp. Para ele, não há elementos capazes de justificar esse cenário atualmente. “Primeiro, porque as principais economias desenvolvidas estão tentando evitar justamente a deflação. Segundo, porque o compromisso da autoridade monetária na contenção da inflação é muito grande atualmente no mundo todo, ainda que em diferentes intensidades e com algumas exceções”, avalia.

      Hiperinflação é uma doença, como explica Barbosa, da FGV/Rio. Sua origem é fiscal, ou seja, o Estado é incapaz de pagar suas contas porque gasta mais do que arrecada e, assim, emite mais moeda. Em consequência disso, a inflação aumenta. Para curar essa doença, é necessário atuar sobre a origem, que é fiscal, e cobrir despesas governamentais sem emissão de moeda.

      O melhor exemplo nesse sentido é o da Alemanha, que enfrentou um dos piores casos de hiperinflação da história em 1923, quando o país havia acabado de sair derrotado da Primeira Guerra Mundial e endividado com as nações que haviam vencido. Para se financiar, o governo recorreu ao amargo remédio da impressão de moeda em várias ocasiões. Resultado: aumento da inflação que, em outubro de 1923, bateu na estratosférica taxa de 29,5 mil por cento ao mês, ou 20,9% ao dia.

      “Foi um aumento continuado, generalizado e descontrolado dos preços, resolvido com o ‘milagre do Rentenmark’”, explica Oliveira, se referindo ao nome da moeda de transição adotada na época. A partir dela, foi realizada uma reforma monetária e a confiança, recuperada. “Pode-se dizer, nesse sentido, que a fixação da taxa de câmbio garantiu o fim súbito da inflação. Um dólar passou a equivaler a 4,2 Retenmark”, diz.

      Em tempos mais recentes, a hiperinflação também foi registrada em países da América Latina. Na Argentina, chegou a bater em 5.000% ao ano, e o câmbio fixo foi visto como solução, com o peso valendo o mesmo que um dólar. “Um país que sofre o mal da hiperinflação é aquele que perde a soberania sobre a sua moeda. No contexto dos anos 1980, esses países estavam em meio à crise da dívida externa. Não dispunham de divisas (recursos de fora) para viabilizar planos de estabilização bem-sucedidos”, comenta Oliveira. Ele explica que, nesses casos, a experiência internacional indica a conveniência do uso de âncora cambial. “A fixação da taxa de câmbio para estabilizar as expectativas demanda certo nível de reservas internacionais”. Como o câmbio fixo facilitou o endividamento em dólar e a Argentina não tinha reservas suficientes, teve que decretar o calote da dívida externa em 2001. Só a renegociação da dívida pôde trazer de volta a confiança dos investidores e a recuperação da economia do país vizinho.

      Fonte: http://www.comciencia.br/

      O modelo de desenvolvimento urbano de São Paulo precisa ser revertido

      Este artigo objetiva apontar as principais alterações que são necessárias no modelo de desenvolvimento de São Paulo, com base nos objetivos definidos no Plano Diretor Estratégico, em vigor desde 2003.

      Nabil Bonduki

      A continuidade do modelo que há décadas orienta as políticas urbanas na cidade – baseado na expansão ilimitada da mancha urbana, na prioridade para o automóvel, na excessiva impermeabilização do solo, no esvaziamento demográfico nas áreas consolidadas, nos processos imobiliários tradicionais e na formação de periferias carentes de infraestrutura, serviços e empregos – levará a cidade para uma condição de insustentabilidade, agravando as condições caóticas já presentes. O texto mostra que existem opções consistentes, mas que sua aplicação exige aprofundar o planejamento participativo, mobilizando a sociedade, pois a mudança de um modelo fortemente arraigado contraria interesses consolidados.

      Apresentação

      O urbanismo sempre caminhou na corda bamba, entre ser prática profissional, disciplina científica ou utopia. Desde as cidades ideais do Renascimento, passando pelo socialismo utópico de Owen e Fourrier do início

      do século XIX – que nada mais era senão planos de cidades imaginárias – e chegando ao urbanismo moderno, das vanguardas à Carta de Atenas, sonhar com ambientes habitáveis livres da desigualdade, com equilíbrio entre o ambiente construído e a natureza, onde pudesse reinar a paz, a solidariedade, a igualdade, a cidadania e a tranquilidade sempre foi o motor que impulsionou o debate de ideias novas para impulsionar o desenvolvimento urbano.

      No final do século XX, porém, parecia que as energias utópicas tinham desaparecido do imaginário da sociedade e da cidade do futuro. O urbanismo estava se tornando marketing urbano, uma prática a serviço do mercado. A derrocada do falso socialismo soviético, o desencanto com ideologias transformadoras que empolgaram várias gerações desde o Iluminismo e a Revolução Francesa, a predominância do materialismo consumista, o vigor do mercado, regido pelas ideias neoliberais, e a falsa crença de que a ciência poderia prever e determinar tudo o que irá acontecer estavam levando nosso tempo, inexoravelmente, a esse apagão de energias utópicas, que foi chamado de "fim da história".

      Passou a vigorar uma descrença de que seria possível reverter, com ações coletivas, processos em curso, levando o cidadão a buscar em soluções individuais as respostas para as questões que o preocupam, situação que é particularmente forte no Brasil. O risco de violência é enfrentado com segregação e confinamento; a precariedade do transporte coletivo com o automóvel individual; a depredação ambiental com a criação de uns microcosmos de verde junto ao condomínio; a poluição do ar, com fins de semana na serra ou à beira mar; a água maltratada com garrafas pet de mineral. Soluções insuficientes a que apenas os estratos altos e médios podiam ter acesso. Para o restante da população, restava a barbárie. A criação de guetos protegidos dos males da metrópole (condomínios fechados, carros blindados, shoppings policiados, ambientes vigiados) parecia ser a única saída para superar um ambiente urbano pouco acolhedor e agressivo.

      Esse clima modificou-se na primeira década do século XXI. O 11 de Setembro de 2001 representou, simbolicamente, a ruína da falsa noção de segurança que os guetos estritamente vigiados pareciam garantir. A onda de assaltos a condomínios e shopping centers, que se tornou rotina em São Paulo, mostra que a lógica da segregação não garante segurança. A crise mundial do capitalismo de 2008/2009 expôs o que já sabíamos, ou seja, que o mercado não pode correr solto, sem uma forte presença reguladora do Estado, o que desmontou os que, no Brasil, ainda defendiam uma maior desregulamentação dos processos urbanos. Os desastres climáticos, por sua vez, vêm mostrando que o "desenvolvimento a qualquer custo", a orgia consumista e o modo de vida vigente no país, com os padrões impostos pelo mercado e assumidos pela classe média são insustentáveis no futuro próximo.

      Novas esperanças, contudo, ressurgiram. A criação de novas redes globais focadas na transformação, como o Fórum Social Mundial, com sua máxima "Um novo mundo é possível", e a articulação de pessoas por meio da internet mostram que a sociedade global dá sinais de vitalidade e de inconformismo. Superando formas clássicas de organização, novas redes mobilizam a sociedade, articulando cidadãos antes isolados, e lançam outros jeitos de construir desejos coletivos. De diferentes maneiras, recupera-se o vigor utópico, elemento indispensável para o renascimento do urbanismo.

      Isso porque, sem utopia, não há urbanismo. Ele se reduziria a uma mera prática tecnocrática e burocratizada, enfrentando mais os efeitos do que as causas dos problemas urbanos, e perderia seu impulso transformador. É normal ouvir as pessoas comuns e até mesmo alguns especialistas afirmarem que as grandes metrópoles, sobretudo nos países pobres, não têm jeito. Em São Paulo, isso é muito comum, particularmente nos dias em que enchentes ou congestionamentos-monstro paralisam a cidade e apavoram os cidadãos. Não por outra razão, mais da metade da população, porcentagem que chegou a 65% em 1999, afirma que deixaria a cidade se pudesse.

      Superar essa visão pessimista é essencial para que a sociedade possa se engajar na construção de alternativas. Para isso, é necessário recuperar as energias utópicas, uma dimensão passional capaz de convencer os cidadãos de que eles podem mudar processos que parecem imutáveis. Somente quando a população da cidade acreditar que é possível uma substancial alteração do quadro atual, de modo a tornar São Paulo viável do ponto de vista da qualidade de vida do conjunto de seus moradores e do equilíbrio ambiental e urbano, será possível construir esse caminho, que pode parecer utópico, mas que está ao nosso alcance, desde que se criem consensos sobre alguns aspectos fundamentais da vida da cidade e que se articule o poder público, autônomo dos interesses particulares, para coordenar esse processo transformador. Se fosse simples e fácil, não seria uma utopia.

      Neste artigo, busca-se abrir um debate sobre alternativas para o desenvolvimento urbano de São Paulo. Ele somente pode ser construído mediante um processo de planejamento participativo, onde o poder público tem um papel fundamental, mas que exige o engajamento da sociedade. Não é fácil enfrentar um modelo urbanístico e um modo de vida que sustentam interesses econômicos sólidos; apenas se a sociedade tomar consciência de que eles são insustentáveis, ele poderá ser revertido.

      A metrópole que temos

      É evidente que São Paulo, assim como as outras metrópoles brasileiras, não pode continuar crescendo a partir do modelo urbano que hoje vigora. A cidade, no início do século XXI, caminha para o caos, e somente com a alteração desse modelo poder-se-á ter esperança de um futuro melhor.

      A desigualdade urbana, funcional e social se aprofunda, gerando uma cidade partida e segregada. A mancha urbana se expande horizontalmente destruindo as áreas de proteção ambiental e gerando, por um lado, assentamentos precários distantes e carentes de infraestrutura, e, por outro, condomínios fechados de média e alta rendas, acessíveis apenas por meio de automóvel. A migração diminuiu e a população cresceu pouco a partir de 1990 (cerca de 0,7% ao ano no município de São Paulo, e 1,65% na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) nos últimos vinte anos), mas de uma forma muito desigual: as áreas mais bem urbanizadas perderam população, enquanto as regiões mais distantes, as áreas de interesse ambiental e os municípios mais pobres da Região Metropolitana continuam com crescimento elevado.

      A expansão física é ainda mais grave. O espraiamento horizontal da RMSP tende a criar uma megametrópole quase inteiramente ocupada, reduzindo os espaços verdes ainda não urbanizados entre a região de Campinas, a Baixada Santista, a conurbação de São José dos Campos e a de Sorocaba. O modelo de condomínios fechados de baixa densidade se expande exatamente nessa região, tendendo a eliminar um cinturão verde que ainda existe no entorno da massa urbanizada. O processo colaborará para o aquecimento global, para alterar o comportamento hídrico, com sérias consequências no abastecimento de água e no agravamento das enchentes, além de aprofundar o modo de vida baseado no automóvel individual, única forma de acessar esses assentamentos. Esse modelo de urbanismo é incompatível com o transporte coletivo.

      Os 53 distritos do município de São Paulo mais bem urbanizados e dotados de equipamentos e empregos perderam moradores, incluindo os bairros fortemente verticalizados. Áreas dotadas de infraestrutura e oportunidades, que vivem com o trânsito congestionado, se esvaziam de moradores; equipamentos já instalados, como escolas e postos de saúde, passam a apresentar ociosidade, enquanto o poder público é forçado a construir equipamentos nos bairros distantes que se adensam. Escolas fechadas nas áreas mais consolidadas e "escolas de lata" nas periféricas distantes são a imagem desse fenômeno.

      A desigualdade territorial tem graves consequências para a mobilidade urbana. No distrito da República, existem mais de seiscentos empregos para cada cem moradores, índice que na Cidade Tiradentes, no extremo da Zona Leste, cai para oito. O deslocamento pendular dos bairros-dormitório para o centro expandido gera a superlotação do sistema viário e de transporte coletivo. Nessas viagens, há quem enfrente terríveis seis horas diárias em coletivos, perdendo, literalmente, um terço de sua vida útil no deslocamento.

      A prioridade para o automóvel, que marcou a visão de progresso do século XX, marcada pela implantação de vias expressas e complexos viários, agrava esse problema, pois o sistema viário não comporta os quase sete milhões de veículos cadastrados na RMSP. O trânsito virou o pesadelo dos paulistanos, apesar de a prioridade nos investimentos públicos ter se dirigido para a ampliação do viário em detrimento do transporte coletivo. Não por acaso, o único plano integralmente implantado em São Paulo foi o tristemente famoso Plano de Avenidas, uma proposta de abertura de avenidas radiais e anéis perimetrais que orientou, dos anos 1930 ao final dos anos 1960, as insuficientes obras públicas na cidade.

      Edifícios obsoletos, vazios ou subutilizados povoam o centro antigo, abandonado pela elite, onde mais de 18% dos domicílios estavam vagos em 2000. Numa outra paisagem, uma grande quantidade de galpões permanece sem utilização ao longo das orlas ferroviárias, área com grande potencial de transporte coletivo de massa, onde empreendimentos imobiliários começam a ser implantados desvinculados de uma estratégia urbana.

      Enchentes são agravadas pela impermeabilização do solo, gerada tanto pela prática oficial, que vigora desde os anos 1930, de implantar avenidas e vias expressas nos fundos de vale, como pela ocupação irregular do solo. A tolerância ou incapacidade de coibir usos e ocupações irregulares marca um desrespeito às normas urbanísticas e ambientais.

      Por falta de política e planejamento habitacional, mais de dois milhões de pessoas habitam irregularmente as regiões de proteção ambiental. Recente levantamento realizado pelo IPT mostrou que existem cerca de 110 mil moradias em áreas de risco, a maioria ocupando faixas de saneamento de córregos e encostas íngremes, ou seja, Áreas de Proteção Permanentes, segundo a definição do Código Florestal. Nas três últimas décadas, a população moradora em favelas cresceu em índices muitos superiores aos da população em geral.

      Degradação do meio ambiente, desertificação do espaço público e desprezo pela memória urbana e social marcam uma cidade com identidade ameaçada. Calçadas estreitas, obstruídas ou não implantadas, poluição do espaço aéreo, córregos transformados em esgotos e a agressividade dos motoristas tornam ainda mais difícil a vida na cidade. Para garantir acesso às suas garagens, moradores criam degraus nas calçadas e as obstruem com portões que avançam para além do lote privado. Resultado de processos imobiliários formais ou informais ou da falta de civilidade dos moradores, o desrespeito ao espaço público é a regra na cidade.

      Será que essa situação pode ser revertida e a metrópole dar a volta por cima, se tornando viável, ambientalmente sustentável, com um novo modelo urbano e um modo de vida mais simples e equilibrado?

      Construindo um caminho alternativo: é possível surgir uma nova São Paulo no século XXI?

      A utopia de uma cidade mais justa e sustentável, capaz de garantir qualidade de vida para os seus cidadãos e de se desenvolver de modo equilibrado com o meio ambiente pode parecer distante para muitos. "Esta cidade não tem mais jeito" é uma frase que se ouve com frequência em referência ao nosso futuro. A utopia de uma cidade melhor desapareceu do imaginário da população, que preferiria se mudar se isso fosse possível.

      Isso, porém, não é fácil: São Paulo oferece um tão amplo leque de oportunidades de trabalho, negócios, lazer e sociabilidade que atraem uma vasta população, incapaz de se desvincular da cidade. Muitos se mudaram para fora da cidade, como para um condomínio fechado situado num raio de cem quilômetros da capital, situação frequente na população de renda mais alta, mas permanecem ligados profissionalmente a ela e passam a viver um cotidiano selvagem de deslocamento casa-trabalho, modelo de vida que exige horas na estrada e no trânsito e vários automóveis em cada domicílio. As entradas da cidade pelas principais rodovias apresentam, nas primeiras horas da manhã, congestionamentos parecidos com as avenidas mais movimentadas.

      Os que optam por essa alternativa perdem a riqueza e a diversidade do cotidiano urbano, "onde se respira o ar de liberdade", como se dizia na Idade Média, e têm que se contentar com a monocórdia e pacata vida entre iguais num território permanentemente vigiado.

      A questão básica que precisa ser enfrentada é como reverter o atual modelo de crescimento da megametrópole, baseado na expansão horizontal periférica (de baixa renda) ou dispersa (de média ou alta renda); na verticalização de baixa densidade populacional na área consolidada; no uso intensivo do automóvel; no afastamento entre o emprego e a moradia; na produção exagerada de lixo; na deterioração das zonas mais antigas e de interesse histórico e na ocupação e destruição das áreas de proteção ambiental. Encontrar um caminho que interrompa esse processo e que, gradativamente, possa ser substituído por um novo modelo de desenvolvimento urbano que maximize as potencialidades de macrometrópole e, ao mesmo tempo, minimize os gravíssimos impactos socioambientais que hoje tendem a inviabilizar nosso futuro é o grande desafio.

      O Plano Diretor Estratégico do Município de São Paulo (PDE), aprovado em 2002, apontou um caminho possível, embora tenha limitações, pois foi resultado de uma ampla negociação com diferentes setores sociais, cujos interesses nem sempre permitem alterações significativas no modelo urbano predominante. Mas ele é um dos mais avançados planos diretores implantados no Brasil no recente ciclo de planejamento marcado pela Constituição de 1988 e pelo Estatuto da Cidade (2001), regidos pelos princípios da função social da propriedade, direito a habitação, planejamento participativo e recuperação social da valorização imobiliária gerada pelos investimentos públicos. Os novos instrumentos urbanísticos criados por esse dispositivo legal, entretanto, só podem ser aplicados se previstos nos planos diretores e regulamentados por leis municipais específicas, aprovadas pelas câmaras de vereadores, o que dificulta sua implementação.

      Prevendo a utilização desses instrumentos, o PDE apresentou os eixos fundamentais para uma reversão desse modelo de desenvolvimento urbano que predomina na cidade. No entanto, sua implementação tem sido truncada. Embora alguns dos instrumentos previstos e das ações estratégicas por ele previstas tenham começado a ser implantada em 2003, foram interrompida a partir de 2005, com a mudança da administração e, quando foram retomadas parcialmente, não estavam articuladas com uma estratégia global para a cidade.

      Apesar disso, hoje existe certo consenso entre os vários setores da sociedade, pelo menos no discurso, em relação à maioria dos principais objetivos do PDE, que são estratégicos e de longo prazo. Para alcançá-los, entretanto, é necessário colocar em prática, no curto prazo, instrumentos, programas e ações estratégicas indispensáveis para gerar os resultados esperados, o que tem sido postergado.

      Os desafios para mudar o modelo urbano de São Paulo

      Reduzir as desigualdades urbanas é um desafio-síntese para tornar a cidade melhor. O modelo de uma cidade segregada, que tenha guetos que se assemelham à Suíça e enormes territórios com imensas carências e precariedade, deve ser combatido com vigor, implicando priorizar investimentos nas áreas mais carentes e usar os instrumentos tributários e urbanísticos para redistribuir riqueza. A adoção de alíquotas progressivas de acordo com o valor do imóvel, adotada nas regras do IPTU a partir de 2002, é um mecanismo nesse sentido, cobrando mais dos imóveis mais valorizados e isentando os de baixo valor.

      A criação da outorga onerosa do direito de construir, ou seja, o solo criado mediante o uso mais intenso da terra, regulamentada pelo PDE, é outro instrumento para estimular a descentralização dos investimentos imobiliários privados. Isso se obtém cobrando pelo solo criado proporcionalmente mais das incorporações localizadas nos bairros consolidados, mais valorizados e procurados pelo mercado, privilegiando as regiões intermediárias e periféricas.

      Reduzir as desigualdades também significa aproximar a habitação, incluindo a social, dos empregos e equipamentos, mediante duas ações estratégicas combinadas: levar a urbanização, a regularização fundiária, empregos e serviços para as áreas periféricas, que devem ser estruturadas e qualificadas do ponto de vista urbanístico, e estimular o uso residenciais, com incentivos e subsídios para as rendas mais baixas nas áreas que concentram os empregos – centro expandido e zona sudoeste. Dessa forma, podem-se reduzir a necessidade e o tempo de deslocamento, reduzindo a necessidade de uso do automóvel e meio de transporte motorizado.

      Uma qualificação menos desigual dos espaços públicos é fundamental. A grande maioria dos parques bem estruturados da cidade está nos bairros de classes média e alta, enquanto, nas regiões de maior exclusão, as poucas áreas verdes existentes estão depredadas. Nessas regiões, favelas ocuparam os espaços livres, gerando um passivo ambiental que precisa ser enfrentado, até mesmo para aumentar a permeabilidade do solo na cidade, iniciativa que é indispensável para enfrentar as enchentes.

      Baseado nessas premissas, o PDE estabeleceu objetivos para reestruturar a cidade, que podem ser sistematizados em oito desafios-síntese. São desafios que valem, de uma maneira geral, para a Região Metropolitana como um todo, pois as questões urbanas fundamentais são as mesmas.

      Desafio 1: conter o processo de expansão horizontal da metrópole;

      Desafio 2: reduzir a necessidade de deslocamento, aproximando o emprego da moradia;

      Desafio 3: reestruturar o transporte coletivo e estimular sua utilização, coibindo o uso de automóvel;

      Desafio 4: reabilitar e repovoar, com inclusão social, o centro metropolitano expandido e bairros consolidados, revertendo o atual processo de esvaziamento populacional;

      Desafio 5: regularizar, urbanizar e qualificar loteamentos irregulares e favelas situados nas áreas periféricas;

      Desafio 6: criar novas centralidades e estimular a geração de empregos nas áreas que se caracterizam como cidades-dormitório;

      Desafio 7: conter o adensamento construtivo e estimular o adensamento populacional na área consolidada;

      Desafio 8: valorizar e qualificar os espaços públicos, ampliar as áreas verdes, a arborização e a permeabilidade do solo.

      Como enfrentar esses desafios?

      O que precisa ser feito para São Paulo alcançar esses objetivos? Como cresceria a cidade? Qual o modo de vida e a sociabilidade que seus habitantes teriam? Como se moveriam? Como se relacionariam com o meio físico?

      Reverter o modelo em curso exige muita determinação do poder público, até mesmo para tomar medidas pouco populares e que, certamente, poderão contrariar interesses econômicos. Isso requer que se amplie o apoio da sociedade organizada, obtido a partir de um amplo pacto gerado por um processo participativo, de modo que os cidadãos mais conscientes se tornem defensores dos principais eixos de transformação que devem ser buscados.

      A chave para essa verdadeira revolução urbana é dar melhor aproveitamento e distribuição para os recursos que temos, evitando o desperdício, o consumo exagerado e a opulência. Isso significa evitar a expansão horizontal das cidades; utilizar mais e melhor o solo que já está urbanizado e os imóveis já edificados; reabilitar o parque edificado obsoleto; reurbanizar as áreas subutilizadas ou precariamente construídas; misturar usos e classes sociais para reduzir a necessidade de longos deslocamentos; gerar menos lixo e reciclar o utilizado; economizar e reutilizar a água; racionalizar o uso da energia; equilibrar a relação entre o espaço edificado e o meio ambiente; priorizar o espaço viário para veículos com maior capacidade de transportar as pessoas.

      Conter o crescimento horizontal da cidade implica proibir novos parcelamentos a partir de uma linha limítrofe da área já urbanizada, isso envolvendo todos os municípios incluídos na macrometrópole. O objetivo é consolidar um cinturão verde, de baixíssima densidade no entorno da Região Metropolitana de São Paulo, impedindo que ela se conurbe integralmente com as outras aglomerações urbanas, que formam a chamada macrometrópole.

      Essa diretriz exige que o Rodoanel não se converta em um mecanismo de estímulo à urbanização dispersa, de caráter claramente especulativo, mas em uma barreira para o crescimento urbano, ladeada por um grande parque em forma de anel. Isso requer que se impeçam acessos secundários, mesmo nas estradas a ele ligadas. Sem essa medida, não só as áreas de proteção dos mananciais situadas no entorno da metrópole poderão se ocupadas, como irá se criar uma área urbanizada contínua de duzentos quilômetros de diâmetro, um verdadeiro desastre ambiental.

      Esse cinturão verde precisa ser ocupado com atividades produtivas e rentáveis, de caráter complementar à metrópole, com atividades compatíveis com a preservação ambiental. A criação de mecanismos de pagamento por serviços ambientais precisa ser estudada com seriedade, como mecanismo de compensação pela manutenção de uma vasta área no entorno da metrópole sem ocupação urbana. Mas também devem ser estimuladas outras propostas de ocupação desse cinturão.

      Um exemplo é a Comuna da Terra, projeto em desenvolvimento pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Essas comunas são assentamentos organizados em pequenas áreas, implantados no entorno das grandes cidades e formados por trabalhadores da área urbana, antigos migrantes de zonas rurais. Algumas unidades já estão instaladas, como a Comuna da Terra Dom Tomás Balduíno, no município de Franco da Rocha. Ali se produzem e se beneficiam produtos para ser comercializados na própria Região Metropolitana. Lei federal que exige que 30% das comprar realizadas pelo poder público para a merenda escolar seja proveniente da agricultura familiar pode ser um excelente estímulo para essa atividade, que geralmente sofre pela inexistência de mercado.

      Assentamentos como as Comunas da Terra podem ser alternativas sustentáveis para esse cinturão, mantendo-se a atividade rural, agregando-se a população em torno de locais providos de equipamentos coletivos, com uma qualidade de vida e uma sociabilidade bastante diferenciada do que se tinha nas zonas rurais antigas.

      Atividades de lazer, com manutenção e/ou recuperação da cobertura vegetal e baixíssima densidade construtiva, é outra opção adequada para esse cinturão, considerando a enorme demanda existente na cidade, sobretudo pela população de baixa renda, que vive nas periferias e, portanto, a uma pequena distância dessa região. A criação de opções de lazer com qualidade junto à cidade é indispensável para São Paulo. Com a melhoria da renda da população, processo inevitável ante o crescimento da economia e melhor distribuição de renda, toda a população desejará um feriado prolongado fora da cidade. A continuar o atual modelo, em vez de gozar de lazer, a população urbana passará dias em estradas congestionadas, o que já ocorre em algumas ocasiões.

      A restrição ao crescimento horizontal exige um melhor aproveitamento e um adensamento da área já urbanizada. Isso é perfeitamente possível, pois a densidade de ocupação na RMSP, por incrível que possa parecer, ainda é relativamente baixa. A área urbanizada na região soma 2.200 km2 (sem contar com os condomínios dispersos), onde vivem cerca de vinte milhões de habitantes. Isso significa uma densidade bruta de noventa habitantes por hectare, índice ainda bastante baixo.

      Nesse aspecto reside a chave da questão urbana em São Paulo: se a metrópole não deve crescer horizontalmente, onde irão ser implantados os empreendimentos imobiliários necessários para abrigar a demanda habitacional futura e os novos estabelecimentos comerciais, serviços e outros usos não residenciais? Acreditamos ser possível dar melhor aproveitamento aos espaços urbanizados, de modo a propiciar melhor qualidade tanto para os usos já existentes como para as necessidades futuras.

      Como foi mostrado, o crescimento populacional tanto do município como da Região Metropolitana vem caindo significativamente e tenderá a baixar gradativamente nas próximas décadas. Isso significa que a demanda por espaço pode ser gradativamente menor. No entanto, a expansão territorial da cidade tem sido determinada, em grande medida, pelo abandono do parque edificado, por novos hábitos de consumo do espaço, seja residencial ou de comércio e serviços e, sobretudo, por um modelo de desenvolvimento urbano equivocado.

      Não é por acaso que bairros que se verticalizam, com forte adensamento construtivo, perdem população. O modelo das incorporações imobiliárias, em parte relacionadas com as peculiaridades do Sistema Financeiro da Habitação, é responsável por isso, pois rejeita edificações de uso misto no lote, como existiram no passado, com térreo e sobrelojas com comércio e serviços e residencial nos demais pavimentos. Nos edifícios residenciais existe uma grande quantidade de espaços ociosos, nos térreos, onde poderiam estar atividades que acabam por ocupar, com baixíssima densidade, outros terrenos muito bem localizados.

      Ademais, o tamanho médio das famílias vem caindo fortemente; em São Paulo, prevê-se que, em 2020, deva alcançar apenas 2,53 membros. Isso significa que as unidades habitacionais podem ter dimensões mais reduzidas, particularmente nas faixas de rendas média e alta, que ocupam áreas extremamente privilegiadas da cidade; são apartamentos que permanecem vazios a maior parte do dia. Por sua vez, novos condomínios criam verdadeiros clubes privados, utilizando exageradamente o espaço urbano em vez de se optar pela utilização de equipamentos coletivos, privados (clubes) ou públicos. Com melhor aproveitamento das áreas já urbanizadas, a necessidade de expansão seria muito menor.

      É evidente que essas opções exigem alterações tanto no modo de vida e expectativas da população como na ação dos agentes imobiliários. São mudanças necessárias se quisermos garantir sustentabilidade para uma metrópole da dimensão de São Paulo.

      É claro que a cidade continuará requerendo áreas para novos empreendimentos. A alternativa é crescer para dentro, com a estruturação de regiões subutilizada. Esse processo de reocupação deve ser desenvolvido em um novo tipo de empreendimento, com planejamento e ordenação urbanística. O atual modelo de incorporação imobiliária, geralmente unifuncional, onde cada empreendedor estabelece isoladamente as características de seu projeto, como a volumetria do edifício, dentro de regras genéricas estabelecidas pelo zoneamento, precisa ceder lugar para o planejamento completo de grandes áreas, com desenho urbanístico previamente definido, rompendo com o modelo do condomínio isolado e unifuncional.

      A moradia poderia estar harmonicamente associada a usos não residenciais, configurando novos núcleos urbanos, com espaço público aberto para a cidade, onde o trabalho, o consumo e o lazer possam estar próximos à moradia, reduzindo a necessidade de longos deslocamentos urbanos.

      São Paulo tem inúmeras regiões onde isso poderia ocorrer, algumas demarcadas no Plano Diretor, como as áreas de operações urbanas ao longo das ferrovias, que formam uma ferradura em torno da área mais consolidada da cidade, e as mais de novecentas Zonas Especiais de Interesse Social, áreas vazias, deterioradas ou ocupadas por favelas e loteamentos irregulares, e muitas podem ser inteiramente reurbanizadas. Não devemos temer por processos de reestruturação completa de algumas áreas da cidade, desde que isso não afete o patrimônio urbano e a memória e, o que é muito importante, não desloque, mas, ao contrário, atraia moradores de baixa e média baixa rendas.

      Dentre as áreas que requerem reabilitação, uma das mais importantes é o centro histórico e os bairros que ficam no seu entorno. Trata-se de um desafio que exige ações de peso para reverter o processo combinado de subutilização e de exclusão que ela vem sofrendo. É necessário compatibilizar a reabilitação com a produção de habitação, até mesmo para a população de baixa renda, objetivando aproximar o morar do trabalhar. Para isso, foram criadas as Zonas Especiais de Interesse Social, mas é necessário muito mais: investimentos públicos para ampliar a oferta, ações para baratear os preços de prédios e terrenos para a produção habitacional, combatendo com forte carga tributária a ociosidade e a subutilização de terrenos (incluindo os ocupados por estacionamentos), prédios e galpões industriais vazios.

      Os instrumentos previstos no PDE para combater a especulação e dar função social às propriedades precisam ser utilizados em todo o seu potencial. O imposto progressivo sobre imóveis vazios, ociosos ou subutilizados levou quase oito anos para ser regulamentado pela Câmara Municipal, sem que o Executivo tivesse tomado qualquer iniciativa para acelerar sua aprovação. A lei, embora positiva, ainda é insuficiente para alcançar os resultados esperados.

      Por sua vez, o mecanismo que a municipalidade está utilizando para promover a reabilitação da regiões de Santa Ifigênia (chamada também de "Cracolândia" ou "Nova Luz"), a concessão urbanística, foi adotado sem amplo debate público e sem um projeto urbanístico definido. Por essas razões, tem tido efeito contrário aos seus objetivos, aprofundando a deterioração da região e gerando forte oposição de moradores e comerciantes. Em vez de se desenvolver um plano com participação da sociedade, mobilizando a iniciativa privada do modo articulado com iniciativas públicas e de organizações locais, busca-se transformar a recuperação urbana de um bairro como um negócio imobiliário. É exatamente o que não se deveria fazer.

      Nessas regiões mais antigas, marcadas pela memória e indispensáveis para o fortalecimento da identidade da cidade, devem-se desenvolver ações mais contundentes para reabilitar e reciclar edifícios verticais construídos entre os anos 1930 e 1970, que logo terão entre cinquenta e cem anos de vida. São Paulo já foi demolida duas vezes: nos final do século XIX, quando foi derrubada a cidade de taipa, erguida pelos portugueses e tupis; e em meados do século XX, quando foi a vez da cidade de tijolos, edificada pelos imigrantes italianos, portugueses e espanhóis. Construiu-se uma selva de concreto vertical que, gradativamente, vai virando obsoleta. Essa não será posta abaixo sem um alto custo ambiental e urbano, que precisa ser evitado. A demolição dos edifícios São Vito e Mercúrio, promovida pela prefeitura e que gerou grande quantidade de entulhos, para suprimir moradias no centro onde elas são fundamentais para um novo modelo de desenvolvimento urbano, mostra um equívoco que não pode se repetir.

      Essa opção para enfrentar os edifícios obsoletos deve ser evitada a qualquer custo. Por meio do desenvolvimento de novas tecnologias de reabilitação e reciclagem de edifícios, a cidade poderá se renovar sem demolir, gerando novos espaços habitáveis, na perspectiva de crescer para dentro, equilibrando melhor os usos urbanos complementares, com maior possibilidade de deslocamento a pé.

      Outra ação estrutural para equilibrar a relação entre habitação e emprego é a criação de novas centralidades e postos de trabalho nas áreas periféricas da Região Metropolitana. Sem uma intervenção forte do poder público, mediante planos de desenvolvimento econômicos nas diferentes regiões – estimulando a instalação de novas atividades e geração de mais empregos onde hoje predomina uma verdadeira cidade-dormitório -, isso não tem condições de ocorrer. Foi o que começou a ser implementado entre 2003 e 2004, com o Plano de Desenvolvimento Econômico da Zona Leste, previsto no PDE, que objetivou criar uma nova centralidade em uma região onde uma população de mais de seis milhões de moradores não tem opções de emprego. Mas, em 2005, a proposta foi paralisada pela prefeitura.

      O desenvolvimento urbano das áreas periféricas, para que elas possam atrair atividades econômicas, exige qualificação urbanística e regularização fundiária, articuladas com programas de inclusão social e de economia solidária, capaz de estimular o empreendedorismo na população local. A transformação desses assentamentos periféricos precários em bairros de verdade, com infraestrutura, áreas verdes, equipamentos, documentação de posse e organização social teria enorme repercussão na redução da violência e mudaria a cara dos bairros-dormitório que caracterizam a região, marcada por uma paisagem indefinida e acinzentada.

      Com usos mais bem distribuídos, é possível reduzir a extrema necessidade de mobilidade que hoje é a regra na cidade. Mais moradia onde existem empregos, melhor distribuição das atividades econômicas, beneficiando áreas carentes de oportunidade de trabalho, e, ainda, empreendimentos imobiliários com misturas de uso contribuem para deslocamentos por distâncias menores. Mas em uma metrópole a questão de mobilidade será sempre um requisito importante.

      O PDE incluiu uma proposta de reorganização do sistema de transportes na cidade que apenas começou a ser implantado. Baseado em um subsistema estrutural, composto por metrô, trens metropolitanos e corredores de ônibus em faixas exclusivas, e um subsistema de alimentação capilar, com veículos de menor capacidade chegando próximo às áreas de moradia, articulados pelo bilhete único, buscou-se criar uma condição de deslocamento por transporte coletivo capaz de competir com os automóveis.

      No entanto, essa proposta, que prometia tornar o deslocamento por transporte coletivo tão confortável e rápido como o uso dos automóveis, ficou pela metade. Desde 2005, nenhum novo corredor de ônibus foi implantado na cidade. O sistema de alimentação nunca foi efetivamente implantado; sua ausência dificulta um acesso rápido às estações de metrô e trem. Assim, a utilização de veículos individuais, apesar dos brutais congestionamentos, continua apresentando enormes vantagens competitivas em relação ao uso de transporte coletivo. Os investimentos em metrô e trens urbanos são indispensáveis para um enfrentamento estrutural do problema, mas são excessivamente elevados e geram resultados apenas no longo prazo.

      Em contrapartida, têm tido continuidade os maciços investimentos no sistema viário, sem que haja faixas para o transporte coletivo, como ocorreu recentemente no alargamento da Marginal do Tietê, obra de 1,3 bilhão de reais, destinada exclusivamente aos automóveis e que agravou os problemas de transbordamento do rio. Esse tipo de obra funciona como um atrativo para reforçar um paradigma que deveria ser alterado. Para que o transporte coletivo se generalize, é necessário que ele possa competir em igualdade de condições com o deslocamento por automóvel. Alcançar essa condição é um desafio fundamental para que um novo modelo urbano possa ser implantado em São Paulo.

      Fonte: http://www.scielo.br/

      Entrevista com Milton Santos

      "O sonho obriga o homem a pensar"

      Maurício Silva Junior

      Milton Santos

      Doutor Honoris Causa em 14 universidades do Brasil e do mundo, ganhador do Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud, tido como o Nobel da área, o geógrafo Milton de Almeida Santos não se conforma com a supervalorização que a humanidade dá  à tecnologia. "As pessoas têm atribuído vida à técnica, mas as coisas não nos comandam", defende com ênfase. Autor de mais de 40 livros e 300 artigos em revistas científicas da vários países, o professor esteve este mês na UFMG, convidado para ministrar a aula inaugural da Escola de Engenharia, no auditório da Reitoria. Em seguida, Milton Santos concedeu a seguinte entrevista ao BOLETIM:

      BOLETIMO senhor tem feito severas críticas à globalização. Como a conceituaria?

      MILTON SANTOS – A globalização, parafraseando o teórico e revolucionário russo Lênin, é a face suprema do imperialismo. A humanidade esperou milênios para se globalizar, o que não aconteceu antes porque não havia as condições materiais necessárias. Com o aumento da produção e o desenvolvimento de técnicas avançadas, um pequeno grupo de empresas as seqüestrou. As corporações usam estes recursos extraordinários em seu próprio benefício e em prejuízo da humanidade.

      BOLETIMO acirramento da crise brasileira pode tornar a população mais consciente da realidade?

      MILTON SANTOS – Isso já  está  acontecendo. Há uma sede muito grande de entender. É o que vejo sobretudo entre os jovens. Os interesses da classe média, por exemplo não coincidem mais com globalização e com as ações dos partidos. Ela já não se reconhece nem mesmo na ação das facções progressistas. Se a classe média não se vê nos partidos, as coisas ficam sem estruturação. E por que não acreditar que os partidos podem mudar, para serem capazes de acolher os anseios da sociedade?

      BOLETIM - Qual o papel da Universidade nesse contexto?

      MILTON SANTOS – A Universidade é importante na medida em que é capaz de codificar e entregar à sociedade o discurso que as pessoas desejam, necessitam. É preciso produzir algo que seja crível, audível, utilizável e eficaz politicamente.

      Muitos economistas que escrevem em jornais publicam diariamente o desejo de empresas das quais são consultores.

      BOLETIMO senhor diz que passamos por um período em que só as grandes corporações fazem política. E o que realizam os políticos atualmente ?

      MILTON SANTOS – O que falta aos políticos de hoje é a contribuição dos intelectuais. Não estamos oferecendo um conjunto de idéias a eles.

      BOLETIMComo o senhor analisa a utilização de tecnologias e meios de comunicação na atualidade?

      MILTON SANTOS – Quando eu falo meio, estou me referindo a território. E acho que o território é a mensagem. Nele, estamos todos juntos e separados. Somos conduzidos igualmente a um destino e obtemos resultados diferentes. Em Belo Horizonte, por exemplo, estão todos juntos: ricos, pobres, classe média, brancos, negros, índios. A técnica em si não é a mensagem. Ela só é utilizada por quem tem poder: as grandes agências de notícias, universidades, editoras e as igrejas locais. São essas instituições que seqüestram os meios.

      BOLETIM - Como o senhor analisa a excessiva difusão de informações?

      MILTON SANTOS – Não há  produção excessiva de informação, mas de ruído. Existem o fatos. As notícias são interpretação deles. Como as agências de notícias pertencem às grandes empresas, os acontecimentos são analisados de acordo com interesses pre-determinados. Muitos economistas que escrevem em jornais, por exemplo, publicam diariamente o desejo de empresas das quais são consultores. As notícias são publicadas como expressão da realidade e o discurso acaba se tornando hegemônico. É essa mesma indústria que transforma em best seller um livro do Jó Soares, antes mesmo do lançamento. E aí de novo eu convoco a Universidade, como espaço alternativo para difundir nossas idéias. A palavra é uma paulada. Eu venho até a UFMG, falo para 200 pessoas e o resultado é formidável.

      BOLETIMComo viver no mundo da pressa e criticá-lo ao mesmo tempo?

      MILTON SANTOS – O que se pode fazer é viver apresado, para garantir a subsistência, mas sem perder de vista a construção de um sonho. É o sonho que obriga o homem a pensar.

      BOLETIM - O homem de hoje é um ser ético?

      MILTON SANTOS – O ser humano agora é convocado a não ser ético. E às vezes as pessoas seguem essa tendência porque precisam sobreviver, criar os filhos, sustentar a família. Mas, no fundo, todos guardam a consciência do que é bom, com a esperança de utilizá-la um dia.

      Obs. (*) Maurício Guilherme Silva Jr. é Jornalista e ex-acessor de imprensa da UFMG. A entrevista acima, foi realizada pelo mesmo, enquanto trabalhava no BOLETIM, periódico jornalístico da Universidade Federal de Minas Gerais e gentilmente cedido para reprodução em nosso site.

      Fonte: http://www.visaogeografica.com/

      O declínio do capitalismo e o fim do crescimento global

      O capitalismo necessita de adversários credíveis que atuem como corretivos da sua tendência para a irracionalidade e para a auto-destruição

      Jorge Beinstein

      capitalismo

      A “recuperação” foi apenas, um alívio passageiro obtida por uma sobredose de “estímulos” que preparou o caminho para uma recaída que se anuncia terrível.

      As fanfarronices dos longínquos anos 1990 sobre o milênio capitalista neoliberal passaram a ser curiosidades históricas; talvez suas últimas manifestações (e já defensivas) foram as campanhas midiáticas, que nos assinalavam o rápido fim das “turbulência financeiras” e o imediato retorno da marcha triunfante da globalização.

      No início do último trimestre de 2010, as expectativas optimistas do alto comando do planeta (chefes de estado, presidentes de bancos centrais, gurus da moda e outras estrelas dos “media”) começaram a dar lugar a um pessimismo avassalador. Falam da trajetórias das economias centrais em forma de W, como se após o esvaziamento iniciado em 2007-2008 tivesse ocorrido uma recuperação real, hoje seguido por uma segunda queda, e em cujo término chegaríamos a uma expansão duradoura do sistema, algo como uma segunda penitência que permitiria às elites purgar seus pecados (financeiros) e retomar o caminho ascendente.

      A “recuperação” foi apenas um alívio passageiro obtido por uma sobredose de “estímulos” que preparou o caminho para uma recaída que se anuncia terrível. Como o paciente não tem cura, a sua doença não é o resultado de um acidente, de uma mau comportamento ou de um ataque de um vírus (que a super ciência da civilização mais sofisticada da história, mais cedo ou mais tarde, possa controlar), mas sim o passar inexorável do tempo, o envelhecimento irreversível que chegou à etapa senil.

      A modernidade capitalista já quase não tem horizontes de referência, o seu futuro visível se retrai a uma velocidade inesperada, a sua possível sobrevivência parece apenas ser possível em forma de um cenários monstruosos, marcados por genocídios, militarizações e destruições ambientais, cuja magnitude não tem precedentes na história humana.

      O capitalismo tornou-se finalmente mundial, no sentido mais estrito do termo, logrando chegar até os recantos mais escondidos. Nesse sentido, pode dizer-se que a civilização burguesa de raiz ocidental é agora a única civilização no planeta (incluindo adaptações culturais muito diversas). Mas a vitória da globalização chega ao mesmo tempo em que começa o seu declínio; em outras palavras, se olharmos para este novo século a partir da perspectiva do domínio global de longo prazo do capitalismo, aparece-nos como a primeira etapa de seu declínio e, em consequência, a condição necessária, mas não suficiente, está instalada para a emergência do post capitalismo.

      Despesas militares mundiais em 2010

      Estamos entrando numa nova era caracterizada pela esfriamento do capitalismo global e pelos fracassos das tentativas para relançar as economias imperialistas, o que coincide com o atolamento na guerra colonial da Eurásia. Nesta área, os Estados Unidos e seus aliados estão a sofrer um desastre geopolítico o qual apresenta, numa primeira aproximação, a imagem de um império cercado. Mas por trás dessa imagem se desenvolve um processo surdo de relançamento imperialista, de nova ofensiva apoiada por seu aparato militar e uma ampla gama de dispositivos de comunicação e ideológicos que a acompanham. Os Estados Unidos vão configurando na sua marcha uma renovada estratégia global e uma política de estado cujos primeiros passos foram dados já no fim da presidência de George W. Bush e que tomou forma com a chegada de Obama à Casa Branca. O império decadente, como outros impérios decadentes do passado, tenta superar o seu declínio econômico utilizando ao máximo aquilo que considera a sua vantagem comparativa: o aparato militar. Sua agressividade aumenta o ritmo do seu declínio industrial, comercial e financeiro, suas ilusões militaristas são a compensação psicológica para suas dificuldades diplomáticas e económicas e incentiva o desenvolvimento de aventuras perigosas, de massacres nas áreas periféricas e de atitudes neofascistas.

      A nova estratégia inclui o lançamento de uma combinação de ações militares, comunicacionais e diplomáticas, destinadas a fustigar os inimigos e concorrentes, provocar disputas e desestabilizações, criando conflitos e situações mais ou menos caóticas capazes de debilitar as potências medias e grandes e a partir daí restaurar posições de força actualmente em declínio. Como exemplo, podemos citar a extensão da agressão contra o Afeganistão-Paquistão, as ameaças (e preparativos) de guerra contra o Irão e contra a Coreia do Norte, a provocação de contradições entre o Japão e a China, etc..

      Além disso, desde o fim da era Bush, se desenvolvem grandes ofensivas sobre a África e especialmente sobre a América Latina, o tradicional quintal do fundo, hoje atravessado por governos esquerdizantes, mais ou menos progressistas que acabaram por configurar um espaço relativamente independente do amo colonial. Aí, a ofensiva dos EUA, aparece como um conjunto de acções concertadas com uma forte dose de pragmatismo, destinadas a recontrolar a região. Sua essência fica revelada quando se detecta o seu objetivo; não se trata agora principalmente de ocupar mercados, de dominar indústrias, de extrair benefícios financeiros, pois já não estamos no século XX. A mirada imperial aponta em direção a recursos naturais estratégicos (petróleo, grandes territórios agrícolas produtores de biocombustíveis, água, lítio, etc). Em muitos casos as populações locais com suas instituições, sindicatos e o conjunto das suas redes sociais constituem obstáculos a seus projetos, barreiras a eliminar ou a reduzir ao estado vegetativo (nesse sentido, o que ocorreu no Iraque pode ser considerado um caso exemplar).

      É necessário tomar consciência de que o poder imperial colocou em marcha uma estratégia de conquista de longo prazo no estilo daquela que implementou na Eurásia; trata-se de uma tentativa depredadora-genocida cujo único precedente na região foi o que ocorreu há quinhentos anos com a conquista colonial.

      O fenómeno é tão profundo e imenso que se torna quase invisível aos olhares progressistas, maravilhados com os êxitos fáceis obtidos durante a década passada. Os “progressistas” buscam vias de negociação, equilíbrios “civilizados”, oscilando de fracasso em fracasso porque o interlocutor racional para suas propostas só existe na sua imaginação.

      Hoje, o sistema de poder do império se apoia numa “razão de Estado” baseada no desespero, produzida por um cérebro senil, em última instância, uma razão delirante que vê os acordos, as negociações diplomáticas ou as manobras políticas de seus próprios aliados-lacaios como portas abertas para os seus planos agressivos. A única coisa que realmente lhe interessa é recuperar os territórios perdidos, desestabilizar os espaços não controlados, golpear e golpear para voltar a golpear. A sua lógica se constrói sobre uma sonhada vaga de reconquista cuja magnitude por vezes ultrapassa os próprios estrategas imperiais (e obviamente, a um amplo leque de dirigentes políticos norte-americanos).

      Mas o império está doente, é gigantesco mas está cheio de pontos fracos, o tempo corre contra ele, traz novos males económicos, novas degradações sociais e amplifica as áreas de autonomia e rebelião.

      O esgotamento dos estímulos

      No final de 2010 assistiu-se ao esgotamento dos incentivos financeiros injetados nas potências centrais, processo iniciado a partir do aprofundamento da crise global em 2007-2008.

      O caso norte-americano foi descrito de maneira contundente por Bud Comrad, economista chefe da Casey Research: “Em 2009, o governo federal teve um déficit fiscal de cerca de US$ 1,5 trilhões; por seu turno, a Reserva Federal gastou cerca de US$ 1,5 trilhões para comprar dívidas de hipotecas e, assim, evitar o colapso deste mercado. Isso significa que o governo gastou US$ 3 trilhões para uma pequena recuperação avaliada em 3% do PIB, cerca de 400 bilhões de dólares em crescimento económico. Pois bem, gastar US$ 3 trilhões para obter US$ 400 bilhões é um péssimo negócio… ” [1] .

      Com as políticas de “estímulo” (uma espécie de neokeynesianismo-neoliberal) não chegou a recuperação durável das grandes potências; o que realmente chegou foi uma avalanche de dívidas públicas: entre 2007 (último ano antes da crise) e 2010, a relação entre a dívida pública e o produto interno bruto passará de 64% a 84% na Alemanha, de 64% a 94% na França, de 63% a 100% nos Estados Unidos e de 44% a 90% na Inglaterra [2] .

      Logo a seguir aconteceu o que inevitavelmente teria que acontecer: iniciou-se a segunda etapa da crise a partir da explosão da dívida pública grega que antecipava outras na União Europeia, afetando não só os países devedores mais vulneráveis mas também os seus principais credores, diante dos quais se levantava a ameaça de uma sobreacumulação de ativos de crédito-lixo: em fins de 2009, as dívidas dos chamados “PIIGS” (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha, ou seja, os países europeus expostos pelo sistema mediático como os mais vulneráveis) em relação a França, Inglaterra e Alemanha somavam uns 2 trilhões de dólares, soma equivalente ao 70% do Produto Interno Bruto da França ou a 75% do da Inglaterra.

      Se a primeira fase da crise foi marcada por incentivos do governo para o setor privado e a expansão da dívida pública, a segunda fase começa com o início do fim da generosidade do Estado (além de algumas possíveis futuras tentativas de reativação): a chegada dos cortes de gastos, reduções salariais, aumentos nas taxas de juros, em síntese, a porta de entrada para uma época de contração ou estagnação econômica que se irá mantendo no tempo e se estendendo no espaço.

      Estamos nos movendo para o arrefecimento do motor da economia global; os países do G7 sentem-se esmagados pela dívida na sequência de uma reativação débil e efémera graças às políticas de subsídios. Suas dívidas públicas e privadas vieram crescendo até aproximarem-se agora do seu ponto de saturação; em 1990 as dívidas totais do G7 (públicas + privadas) representavam cerca de 160% da soma dos seus Produtos Internos Brutos; no ano 2000 tinham subido a 180% e em 2010 superavam 380% (110% para as dívidas pública e 270% para as dívidas privadas) [3] .

      A escolha a enfrentar agora é simples: tentar acumular mais dívidas, o que lhes permitiria adiar a recessão por um tempo curto (com alta probabilidade de descontrole e elevada turbulência no sistema global), ou entrar em breve num período de recessão (com esperança de controle) que se anuncia muito prolongada; na realidade não se trata de duas alternativas antagónicas, mas sim de um único horizonte negro ao qual se pode chegar por distintos caminhos e a várias velocidades.

      Hipertrofia financeira

      A chuva de estímulos, transferências massivas de renda para as elites dominantes (com rendimentos aceleradamente decrescentes) aparece como o capítulo mais recente de um amplo ciclo de hipertrofia financeira originada nos anos 1970 (e talvez um pouco antes) quando o mundo capitalista, imerso em uma gigantesca crise de sobreprodução, teve que utilizar, a partir do seu centro imperial, os Estados Unidos, as suas duas muletas históricas: o militarismo e o capital financeiro. Por trás de ambos fenômenos se encontrava um velho conhecido: o Estado, aumentando os seus gastos bélicos, flexibilizando os seus controles sobre os negócios financeiros, introduzindo reformas no mercado laboral que abaixavam os salários em relação aos aumentos da produtividade.

      O processo foi encabeçado pela superpotência hegemônica mas integrando os dois espaços sub-imperialistas associados (Europa Ocidental e Japão). É necessário esclarecer que a unipolaridade no mundo capitalista, com as suas consequências económicas, políticas, culturais e militares, se iniciou em 1945 e não em 1991, embora a partir desta última data (com o derrube da URSS) se tenha tornado planetária.

      Tratou-se de uma mudança de época, de uma transformação que permitiu controlar a crise embora degradando o sistema de forma irreversível. As grandes burguesias centrais se deslocaram na sua maior parte para as cúpulas dos negócios especulativos, fundindo interesses financeiros e produtivos, convertendo a produção e o comércio em complexas redes de operações governadas cada vez mais por comportamentos de curto prazo. A hegemonia parasitária, rasgo distintivo da era senil do capitalismo tomou conta dos grandes negócios globais e engendrou uma subcultura, na realidade uma degeneração cultural desintegradora, baseada no individualismo consumista que foi desestruturando os fundamentos ideológicos e institucionais da ordem burguesa. Daí derivaram os fenômenos de crise de legitimidade dos sistemas políticos e dos aparelhos institucionais em geral servindo de caldo de cultura para as deformações mafiosas das burguesias centrais e periféricas (complexo leque de lumpem-burguesias globais).

      Teto energético e “destruição criadora”

      Do ponto de vista das relações entre o sistema econômico e a sua base material, a depredação (como comportamento central do sistema) começou a tomar o lugar da reprodução. Na realidade, o núcleo cultural depredador existiu desde o grande avanço histórico do capitalismo industrial (em fins do século XVIII, principalmente na Inglaterra) e ainda antes durante o longo período pré-capitalista ocidental. Marcou para sempre os sistemas tecnológicos e o desenvolvimento científico, começando pelo seu pilar energético (carvão mineral e depois o petróleo) e seguindo por uma ampla variedade de explorações mineiras de recursos naturais não renováveis (essa exacerbação depredadora é um dos rasgos distintivos da civilização burguesa comparada com as civilizações anteriores); no entanto, durante as etapas de juventude e maturidade do sistema a depredação estava subordinada à reprodução ampliada do sistema.

      A mutação parasitária dos anos 1970-1980-1990 não permitiu superar a crise de sobreprodução mas sim torná-la crónica, embora controlada, amortecida, exacerbando a pilhagem dos recursos naturais não renováveis e introduzindo grandes escalas técnicas que possibilitaram a sobre-exploração de recursos renováveis, violentando, destruindo os seus ciclos de reprodução (é o caso da agricultura baseada em transgénicos e herbicidas de alto poder destrutivo, como o glifosato). Isso ocorria quando vários desses recursos (por exemplo, hidrocarbonetos), se aproximavam do seu nível máximo de extração.

      A avalanche do “curto-prazismo” (da financeirização cultural do capitalismo) liquidou toda possibilidade de planificação a longo prazo de uma possível reconversão energética, o que coloca o tema da viabilidade histórico-civilizacional das vias de reconversão (economia de energia, recursos energéticos renováveis, etc). Viabilidade no contexto das relações de poder existentes, das suas estruturas industriais e agrícolas, em síntese, do capitalismo concreto, inseparável da obtenção de “lucros-aqui-e agora”. Não nos referimos já à probabilidade da sobrevivência das gerações futuras.

      O sistema tecnológico do capitalismo não estava preparado para uma reconversão energética, a questão não era uma preocupação prioritária para as elites dominantes (o que não lhes impedia de “preocupar-se” com o problema). Não é a primeira vez na história do declínio das civilizações que os interesses imediatos das classes superiores entram em antagonismo com a sobrevivência a longo prazo.

      O tecto energético que encontrou a reprodução do capitalismo converge com outros tectos de recursos não renováveis que afectarão rapidamente um amplo espectro de actividades mineiras. A isto se soma a exploração selvagem dos recursos naturais renováveis. Apresenta-se assim um cenário de esgotamento geral de recursos naturais a partir do sistema tecnológico disponível, mais concretamente, do sistema social e seus paradigmas, quer dizer, do capitalismo como estilo de vida (consumista, individualista, autoritário-centralizador-depredador).

      Da crise crônica de sobreprodução para a crise geral de subprodução

      De outro ângulo, a crise de recursos naturais, indissociável do desastre ambiental, converge com a crise da hegemonia parasitária. Nas primeiras décadas da crise crônica, o processo de financeirização impulsionou a expansão consumista (sobretudo nos países ricos), a concretização de importantes projetos industriais e de subsídios públicos para a procura interna, de grandes aventuras militares imperialistas; mas ao fim do caminho as euforias se dissiparam para deixar a descoberto imensas montanhas de dívidas públicas e privadas. A festa financeira (que teve durante o seu trajecto numerosos acidentes) se converte em teto financeiro que bloqueia o crescimento.

      As turbulências de 2007-2008 podem ser consideradas como o ponto de partida para o crepúsculo do sistema; a multiplicidade de crises que explodiram nesse período (financeira, produtiva, alimentaria, energética) convergiram com outras como a ambiental ou a do Complexo Industrial Militar do Império, atolado nas suas guerras asiáticas. Esse somatório de crises não resolvidas travam, impedem, a reprodução ampliada do sistema.

      Vista a partir do longo prazo, a sucessão de crises de sobreprodução no capitalismo ocidental durante o século XIX não marcou um simples encadeamento de quedas e recuperações a níveis cada vez mais altos de desenvolvimento das forças produtivas; o que acontecia é que a cada depressão o sistema se recompunha mas acumulando no seu trajecto massas crescentes de parasitismo.

      O cancro financeiro irrompeu de forma triunfal, dominante entre fins do século XIX e começos do século XX, obtendo o controlo absoluto do sistema sete ou oito décadas depois; mas o seu desenvolvimento havia começado muito tempo antes, financiando estruturas industriais e comerciais cada vez mais concentradas e os estados imperialistas de onde se expandiam as burocracias civis e militares. A hegemonia da ideologia do progresso e do discurso produtivista serviu para ocultar o fenómeno, instalou a ideia de que o capitalismo, ao invés das civilizações anteriores, não acumulava parasitismo mas somente forças produtivas que, ao expandir-se, criavam problemas de inadaptação, superáveis no interior do sistema mundial, resolvidos através de processos de “destruição criadora”. O parasitismo capitalista em grande escala, quando se tornava evidente, era considerado como uma forma de “atraso” ou uma “degeneração” passageira na marcha ascendente da modernidade.

      Essa maré ideológica influenciou também boa parte do pensamento anticapitalista (em última instância “progressista”) dos séculos XIX e XX, convencido de que a corrente imparável do desenvolvimento das forças produtivas terminaria por afrontar as relações capitalistas de produção, saltando por cima delas, esmagando-as com uma avalanche revolucionária de operários industriais dos países mais “avançados” aos quais se seguiriam os dos chamados “países atrasados”. A ilusão do progresso indefinido ocultou a perspectiva da decadência e dessa maneira deixou a meio caminho o pensamento crítico, lhe retirou radicalidade, com consequências culturais negativas para os movimentos de emancipação dos oprimidos do centro e da periferia.

      Por seu lado, o militarismo moderno tem as suas raízes mais recentes no século XIX, desde as guerras napoleônicas, chegando à guerra franco-prussiana, até irromper, na primeira guerra mundial, como “Complexo Militar Industrial” (embora seja possível encontrar antecedentes importantes no Ocidente nas primeiras indústrias de armamento de tipo moderno, aproximadamente a partir do século XVI). No seu começo, ele foi apercebido como um instrumento privilegiado das estratégias imperialistas e como reactivador económico do capitalismo, mas este é apenas um aspecto do fenómeno que ocultava ou subestimava a sua profunda natureza parasitária, o fato de que por trás do monstro militar ao serviço da reprodução do sistema se ocultava um monstro muito mais poderoso a longo prazo: o do consumo improdutivo, causador de défices públicos que, no fim do seu percurso, não incentivam mais a expansão mas sim a estagnação ou a contracção da economia.

      Actualmente, o Complexo Militar Industrial norte-americano (em torno do qual se reproduzem os seus sócios da NATO) gasta em termos reais mais de US$ 1 trilhão, contribui de maneira crescente para o déficit fiscal e, por conseguinte, para o endividamento do Império (e a prosperidade dos negócios financeiros beneficiários do dito défice). A sua eficácia militar é declinante mas a sua burocracia é cada vez maior, a corrupção penetrou em todas as suas actividades e já não é o grande gerador de empregos, como em outras épocas, pois o desenvolvimento da tecnologia industrial-militar reduziu significativamente esta função (a época do keynesianismo militar como eficaz estratégia anti-crise pertence ao passado). Ao mesmo tempo, é possível constatar que nos Estados Unidos se produziu uma integração de negócios entre a esfera industrial-militar, as redes financeiras, as grande empresas energéticas, os grupos mafiosos, as “empresas” de segurança e outras actividades muito dinâmicas, conformando assim o espaço dominante do sistema de poder imperial.

      Nem a crise energética em torno da chegada do Peak Oil (a faixa de máxima produção petrolífera mundial, a partir da qual se desenvolve o seu declínio) deveria ser restringida à história das últimas décadas; é necessário entendê-la como a fase declinante do amplo ciclo da exploração moderna dos recursos naturais não renováveis, desde o começo do capitalismo industrial que pôde realizar o seu arranque e posterior expansão graças a esses combustíveis energéticos abundantes, baratos e facilmente transportáveis, desenvolvendo em primeiro lugar o ciclo do carvão, sob hegemonia inglesa no século XIX, e logo o ciclo do petróleo, sob hegemonia norte-americana no século XX. Este ciclo energético condicionou todo o desenvolvimento tecnológico do sistema e foi a vanguarda da dinâmica depredadora do capitalismo estendida ao conjunto dos recursos naturais e do ecossistema em geral.

      Em síntese, o desenvolvimento da civilização burguesa durante os dois últimos séculos (com raízes num passado ocidental muito mais antigo) terminou por engendrar um processo irreversível de decadência; a depredação ambiental e a expansão parasitária, estreitamente interrelacionadas, estão na base do fenômeno. A dinâmica do desenvolvimento econômico do capitalismo, marcada por uma sucessão de crises de sobreprodução, constitui o motor do processo depredador-parasitário que conduz inevitavelmente a uma crise prolongada de subprodução (o capitalismo obrigado a crescer e a depredar indefinidamente para não perecer, termina por destruir a sua base material). Existe uma interrelação dialética perversa entre a expansão da massa global de lucros, sua velocidade crescente, a multiplicação das estruturas burocráticas civis e militares de controlo social, a concentração mundial de rendimentos, a subida da maré parasitária e a depredação do ecossistema.

      Isso significa que a superação necessária do capitalismo não aparece como o passo indispensável para prosseguir “a marcha do progresso”, mas, em primeiro lugar, como tentativa de sobrevivência humana e do seu contexto ambiental.

      A decadência é a última etapa de um amplo super ciclo histórico, sua fase declinante, seu envelhecimento irreversível (sua senilidade). Extremando os reducionismos, tão praticados pelas “ciências sociais”, poderíamos falar de “ciclos” de distinta duração: energético, alimentar, militar, financeiro, produtivo, estatal, etc., e assim descrever em cada caso percursos que se iniciam no Ocidente, entre fins do século XVIII e começos do século XIX, com raízes anteriores e envolvendo espaços geográficos crescentes até assumir finalmente uma dimensão planetária, para, em seguida, cada um deles entrar em declínio. A coincidência histórica de todos esses declínios e a fácil detecção de densas interrelações entre todos esses ciclos nos sugerem a existência de um único super ciclo que os inclui a todos. Trata-se do ciclo da civilização burguesa que se expressa através de uma multiplicidade de “aspectos” (produtivo, moral, político, militar, ambiental, etc.).

      Declínio do Império

      Toda a história do capitalismo gira, desde fins do século XVIII, em torno do domínio, primeiro inglês e em seguida estadunidense. Capitalismo mundial, imperialismo e predomínio anglo-norteamericano constituem um só fenômeno (agora decadente).

      A articulação sistêmica do capitalismo aparece historicamente indissociável do articulador imperial, mas num futuro previsível não aparece nenhum novo imperialismo global ascendente; em consequência, o planeta burguês vai perdendo uma peça decisiva do seu processo de reprodução. A União Europeia e o Japão são tão decadentes como os Estados Unidos. A China baseou a sua espectacular expansão numa grande ofensiva exportadora para os mercados, agora em declínio, dessas três potências centrais.

      O capitalismo vai ficando à deriva a menos que prognostiquemos o surgimento próximo de um tipo de mão invisível universal (e burguesa) capaz de impor a ordem (monetária, comercial, político-militar,etc.). Neste caso estaríamos extrapolando ao nível da humanidade futura a referência à mão invisível (realmente inexistente) do mercado capitalista afirmada pela teoria económica liberal.

      O declínio da maior civilização jamais conhecida na história humana apresenta vários cenários para o futuro: alternativas de auto-destruição e de regeneração, de genocídio e de solidariedade, de desastre ecológico e de reconciliação do homem com seu meio ambiente. Estamos retomando um velho debate sobre alternativas interrompido pela euforia neoliberal; a crise rompe o bloqueio e nos permite pensar o futuro.

      Voltemos à reflexão inicial deste texto: o início do século XXI assinala um paradoxo crucial: o capitalismo assumiu claramente uma dimensão global, mas iniciou igualmente o seu declínio.

      Por outro lado, cem anos de revoluções e contra revoluções periféricas produziram grandes mudanças culturais: agora na periferia (completamente modernizada, isto é, completamente subdesenvolvida) existe um enorme potencial de autonomia nas classes baixas. Ali se apresenta o que de maneira talvez demasiado simplista poderíamos definir como património histórico democrático forjado ao longo do século XX. Os povos periféricos submergidos construíram sindicatos, organizações camponesas, participaram em votações de todo o tipo, fizeram revoluções (muitas delas com bandeiras socialistas), reformas democratizantes; na maior parte das vezes fracassaram. Tudo isto forma parte da sua memória, não desapareceu; pelo contrário, é experiência acumulada, processada em geral de maneira subterrânea, invisível para os observadores superficiais. Isto foi reforçado pela própria modernização que, por exemplo, lhes fornece instrumentos comunicacionais que lhes permite interactuar, intercambiar informações, socializar reflexões. Finalmente, a decadência geral do sistema, o possível começo do fim da sua hegemonia cultural, abre um gigantesco espaço para a criatividade dos oprimidos.

      A guerra euro-asiática engendrou um imenso pântano geopolítico do qual os ocidentais não sabem como sair, consolidou e estendeu espaços de rebelião e autonomia cuja contenção é cada dia mais difícil, situação perante a qual o Império redobra as suas ameaças e agressões. A Coreia do Norte não pôde ser dobrada, nem tão pouco o Irão, a resistência palestina segue de pé e Israel, pela primeira vez na sua história, sofreu uma derrota militar no sul do Líbano; a guerra do Iraque não pôde ser ganha pelos Estados Unidos o que os coloca ali numa situação na qual todos os caminhos conduzem à perda do poder nesse país.

      No outro extremo da periferia, América Latina, o despertar popular transcende os governos progressistas e deteriora estrategicamente as poucas oligarquias direitistas que ainda controlam o poder político. O projeto estadunidense de restauração de “governos amigos” tropeça num escolho fundamental: a profunda degradação das elites aliadas, sua incapacidade para governar em vários dos países candidatos à viragem para a direita, sendo que o Império não pode (não está em condições) de deter ou desacelerar a sua ofensiva, à espera de melhores contextos políticos. O ritmo da sua crise sobredetermina a sua estratégia regional; em última instância, isto não é completamente diferente da situação na Ásia onde a dinâmica imperial combina a sofisticação e a variedade de técnicas e estruturas operativas disponíveis com um comportamento absolutamente rude.

      Se observarmos o conjunto da periferia atual a partir do longo prazo histórico, vemos um poder imperial desorientado enfrentando uma onda gigantesca e plural de povos submergidos desde o Afeganistão até a Bolívia, desde a Colômbia até as Filipinas, expressão da crise da modernidade subdesenvolvida. É o começo de um despertar popular muito superior ao do século XX.

      Em meio a estas tensões aparece um leque colorido de ilusões periféricas fundadas na possibilidade de gerar uma desconexão encabeçada pelas nações chamadas emergentes; o que é no fundo uma fantasia que não toma em consideração o facto decisivo de que todas as “emergências” (as da Rússia, China, Brasil, Índia, etc) se apoiam na sua inserção nos mercados dos países ricos. Se esses estados que vêm praticando neokeynesianismos mais ou menos audazes, compensando o esfriamento global, quisessem aprofundar esses impulsos de mercado interno e/ou interperiféricos, se encontariam, cedo ou tarde, com as barreiras sociais dos seus próprios sistemas económicos, ou, para descrevê-lo de outra maneira, com os seus próprios capitalismos realmente existentes, em especial, os interesses das suas burguesias financeirizadas e transnacionalizadas.

      À medida que a crise se aprofunde, que as debilidades do capitalismo periférico se tornem mais visíveis, que as bases sociais internas das burguesias imperialistas se deteriorem e que o desespero imperial se agudize, a vaga popular global já em marcha não terá outro caminho senão o da sua radicalização, sua transformação em insurreição revolucionária. Complexa, possuindo distintas velocidades e com construções (contra)culturais diversas, avançando a partir de distintas identidades, até à superação do inferno. É somente a partir dessa perspectiva que é possível pensar o postcapitalismo, o renascimento (a reconfiguração) da utopia comunista, já não como resultado da “ciência” social elitista, a partir da superação pelo interior da civilização burguesa através de um tipo de “abolição suave” mas sim da sua negação integral em tanto que expansão ilimitada da pluralidade, recuperando as velhas culturas igualitárias, solidárias, elevando-as até um colectivismo renovado.

      Os movimentos insurgentes da periferia atual costumam ser apresentados pelos meios globais de comunicação como causa perdidas, como resistências primitivas à modernização ou como o resultado da atividade de misteriosos grupos de terroristas. A resistência no Afeganistão e na Palestina ou a insurreição colombiana aparecem nessa propaganda protagonizando guerras que nunca poderiam ganhar frente a aparelhos super poderosos; não faltam os pacificadores profissionais que aconselham os combatentes a pôr de lado a sua intransigência e negociar alguma forma de rendição vantajosa “antes que seja tarde demais”. O século XX deveria ser uma boa escola para aqueles que se impressionam com o gigantismo e a eficácia dos aparelhos militares (e dos aparelhos burocráticos em geral) porque este século viu o nascimento vitorioso dos grandes aparelhos modernos, como é hoje o Complexo Militar Industrial dos Estados Unidos, e também foi testemunha da sua ruína, da sua derrota diante de povos em armas, diante da criatividade e da insubmissão dos de baixo.

      Nos anos 1990, os neoliberais nos explicavam que a globalização constituía um fenômeno irreversível, que o capitalismo havia adquirido uma dimensão planetária que arrasava com todos os obstáculos nacionais ou locais. Não se davam conta de que essa irreversibilidade, transformada pouco depois em decadência global do sistema, abria as portas a um sujeito inesperado: a insurreição global do século XXI; o tempo (a marcha da crise) joga a seu favor. O império e seus aliados diretos e indiretos quiseram fazê-la abortar, começando por tentar apagar a sua dimensão universal, tratando mediaticamente de transformá-la (fragmentá-la) em uma modesta coleção de resíduos locais sem futuro, mas essas supostas resistências residuais possuem uma vitalidade surpreendente, se reproduzem, sobrevivem a todas as tentativas de extermínio e quando visionamos o percurso futuro do declínio civilizacional em curso, a profunda degradação do mundo burguês, o seu caminhar para a barbárie antecipando crimes ainda maiores, então a globalização da insurreição popular aparece como o caminho mais seguro para a emancipação das maiorias submergidas, o que é também a sua única possibilidade de sobrevivência digna.

      Jorge Beinstein é doutor em economia e professor catedrático das universidades de Buenos Aires e Córdoba, na Argentina, e de Havana, em Cuba. Dirige o Instituto de Pesquisa Científica da Universidade da Bacia do Prata e publica regularmente em Le Monde Diplomatique (em castelhano). Este texto é uma comunicação ao Primeiro Encontro Internacional sobre “O direito dos povos à revolta”, Caracas 7-8-9 Outubro de 2010.

      Fonte: http://correiodobrasil.com.br/

      O QUE É GEOGRAFIA CRÍTICA?

      A Geografia crítica — ou simplesmente Geocrítica — nasceu em meados da década de 1970, inicialmente na França e posteriormente na Espanha, Itália, Brasil, México, Alemanha, Suíça e inúmeros outros países.

      José Willian Vesentine

      1. As origens

      Essa expressão, na origem, foi criada ou pelos menos identificada com a obra A Geografia – isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra (de 1976), de Yves Lacoste, e com a proposta da revista Hérodote (cujo primeiro número também foi editado em 1976), que no início era uma revista de "geopolítica crítica" e também de geografia, com especial ênfase na renovação do seu ensino em todos os níveis.

      Pode-se dizer que os pressupostos básicos dessa "revolução" ou reconstrução do saber geográfico eram a criticidade e o engajamento. Por criticidade se entendia uma leitura do real — isto é, do espaço geográfico — que não omitisse as suas tensões e contradições, que ajudasse enfim a esclarecer a espacialidade das relações de poder e de dominação. E por engajamento se pensava numa geografia não mais "neutra" e sim comprometida com a justiça social, com a correção das desigualdades sócio-econômicas e das disparidades regionais. A produção geográfica até então, dizia-se — embora admitindo exceções: Réclus, Kropotkin e outros — , sempre tivera uma pretensão à neutralidade e costumava deixar de lado os problemas sociais (e até mesmo os ambientais na medida em que, em grande parte, eles são sociais), alegando que "não eram geográficos".

      É lógico que essa nova maneira de encarar a geografia não surgiu do nada. Ela se enraizou e floresceu num contexto de revisão de idéias e valores: o maio de 1968 na França, as lutas civis nos Estados Unidos, os reclames contra a guerra do Vietnã, a eclosão e a expansão do movimento feminista, do ecologismo e da crise do marxismo… E ela se alimentou de muito do que já havia sido feito anteriormente, tanto por parte de alguns poucos geógrafos quanto por outras correntes de pensamento que podem ser classificadas como críticas. Desde o seu nascedouro, a Geografia crítica encetou um diálogo com a Teoria crítica (isto é, com os pensadores da Escola de Frankfurt), com o anarquismo (Réclus, Kropotkin), com Michel Foucault, com Marx e os marxismos (em particular os não dogmáticos, tal como Gramsci, que foi um dos raros marxistas a valorizar a questão territorial), com os pós-modernistas e inúmeros outras escolas de pensamento inovadoras. Mas ela principalmente representou uma abertura para — e um entrelaçamento com — os movimentos sociais: a luta pela ampliação dos direitos civis e principalmente sociais, pela moradia, pelo acesso à terra ou à educação de boa qualidade, pelo combate à pobreza, aos preconceitos de gênero, de cultura/etnia e de orientação sexual, etc.

      Quase ao mesmo tempo, embora alguns anos antes, surgia na Grã-Bretanha e principalmente nos Estados Unidos a chamada Geografia radical, que significou uma reação dos geógrafos anglo-saxônicos — ou pelo menos de uma parte deles — contra o excesso de quantitativismo, contra a denominada Geografia pragmática, ou quantitativa, que predominou nesses países nos anos 1960 e na primeira metade da década de 70. Também a Geografia radical reprochou a pretensa neutralidade da tradição geográfica e, principalmente, o comprometimento implícito dessa Geografia quantitativa com o poder instituído, com o Estado capitalista e com as grandes empresas. Era preciso revirar a geografia, afirmava-se, usá-la a favor dos dominados, dos oprimidos ou, como diríamos hoje, dos excluídos.

      Da mesma forma que a Geografia crítica, a Geografia radical buscou subsídios tanto nos movimentos populares e sociais quanto nas correntes radicais de pensamento, em especial o marxismo. Neste ponto, ela diferiu um pouco da Geografia crítica, pois esta desenvolveu-se de forma um pouco mais aberta e pluralista, tendo maior convívio com outras correntes de pensamento e, inclusive, demonstrando sérias restrições ao socialismo real e ao marxismo "oficial" ou ortodoxo, o marxismo-leninismo. Além disso, a Geografia crítica sempre insistiu na renovação escolar, na crítica à escola e à geografia tradicionais, na necessidade de um novo ensino voltado para desenvolver no educando a criticidade, a inteligência no sentido amplo do termo (ao invés de mera capacidade de memorização) e, no final das contas, o senso de cidadania plena. Já a Geografia radical — talvez pelo fato de que a disciplina geografia foi excluída do currículo escolar das escolas fundamentais e médias dos Estados Unidos durante mais de três décadas (nos anos 1990 ela voltou, inclusive revalorizada) — pouco se preocupou com o ensino. O seu grande adversário — e portanto, o alvo a ser atingido — era a Geografia pragmática e não o tradicionalismo nas escolas fundamentais e médias e, por tabela, no ensino universitário.

      É sintomático o fato de que na última década do século XX, quando começou a ocorrer um forte movimento de reconstrução do sistema escolar norte-americano (suscitado em grande parte pela necessidade de concorrer no mercado internacional, sob novas condições históricas, com a Europa, com o Japão e com outras economias dinâmicas) e a sua abertura à revolução técnico-científica, à globalização e inclusive aos direitos humanos, os educadores e geógrafos escolares nesse país tiveram que buscar subsídios em outras sociedades — na França, na Alemanha, na Espanha e até mesmo no Brasil. Isso porque, nestes sistemas nacionais de ensino, a disciplina geografia nunca chegou a ser completamente eliminada e, além do mais, ocorreram aí nos anos 80 vigorosos movimentos de renovação na geografia escolar, algo que os Estados Unidos não vivenciaram nesse período. Pouco a pouco, nas escolas elementares e médias norte-americanas vai se tornando usual o ensino da geografia, inclusive com uma maior carga horária a partir de mais ou menos 1994, que se preocupa com as relações de gênero (homem/mulher), com a questão da orientação sexual, com novas formas de preconceito étnico e cultural, com as desigualdades internacionais e inter-regionais, com os problemas ambientais, etc., algo que para eles é novo em geografia (embora venha sendo introduzido a um ritmo acelerado), mas que para nós já se tornou relativamente banal desde os anos 1980.

      Vemos acima duas ilustrações representativas da Geografia radical (em cima) e da Geografia crítica (embaixo) nos seus primórdios.

      A imagem de cima, uma versão espanhola (publicada na revista Geo-critica, de Barcelona) de uma ilustração da revista norte-americana AntipodeA radical journal of Geography, mostra a atitude dos geógrafos radicais, que se apossam da geografia — aí representada como uma bela e desnuda mulher — e a carregam através do "rio do Compromisso", para horror de um geógrafo quantitativo, que vê com desespero essa atitude. Ao lado do geógrafo pragmático, no chão, existem alguns objetos que ele utiliza: são os modelos, que esquematizam e formalizam a realidade. Já o geógrafo radical, representado de forma bem diferente do quantitativo (mais jovem, com barba, sem terno nem malinha de executivo), carrega a geografia para o lado do rio onde existem problemas (vide a fábrica poluidora no fundo da ilustração) e pessoas reais, com os seus problemas e dilemas.

      A imagem de baixo, que foi publicada no número 2 da revista francesa Hérodote – Revue de géographie et de géopolitique, mostra uma sala de aula com uma série de alunos, que na realidade são pensadores famosos (Marx, Stálin, Lénin, Mao, Proudhon, Gramsci, Kropotkin… e até mesmo H.Kissinger no canto, com um chapéu de burro, na época ministro norte-americano para as relações exteriores) e estão observando um quadro-negro, no qual está desenhado um mapa. Todos eles estão aprendendo geografia, ou seja, estão procurando rever as suas idéias a partir de uma perspectiva espacial.

      Essas duas revistas — a francesa Hérodote (existente desde 1976) e a norte-americana Antipode (criada em 1969) — foram importantes nesses movimentos de renovação, pois eram nos anos 70 órgãos aglutinadores de geógrafos contestadores, grupos relativamente pequenos na época. Elas foram assim pólos de irradiação de novas idéias geográficas, mas essa função hoje já se espalhou e diversificou. Essas revistas ainda existem, mas tão somente como uma pálida expressão cultural e social do que representaram no passado, pois por um lado esses movimentos em grande parte convergiram e se expandiram (ou foram reatualizados) para outros lugares — nos quais surgiram bons trabalhos de pesquisas e novas (ou renovadas) publicações — e, por outro lado, essa Geografia crítica ou radical, ou simplesmente Geocrítica como advoga a mencionada revista espanhola, tornou-se cada vez mais complexa e plural, não se restringindo mais a grupos específicos que se expressam através de algumas poucas revistas.

      2. A fase atual

      Nos dias atuais existem geografias críticas, ou radicais, no plural. Afinal, toda oposição é mais ou menos unida no início, no processo de luta contra o status quo. É uma frente, que quanto começa a se tornar hegemônica manifesta todas as suas contradições, que inclusive são positivas na medida em que o pensamento único ou unívoco é autoritário e empobrecedor. E como o(s) adversário(s) já não existe mais, ou pelo menos não tem mais a presença marcante que tinha no passado — a geografia quantitativa praticamente sumiu do mapa, embora a matemática, a estatística, a lógica formal e os computadores continem a ser bastante utilizados, muitas vezes até mais que nos anos 60 ou 70, só que sob outros prismas diferentes daquele intrumental-pragmático; e a geografia tradicional já não tem a menor condição de cercear o pensamento crítico e nem mesmo de emular com ele –, a questão agora é a busca de caminhos próprios ou, infelizmente, para alguns, a acirrada disputa por poder, por lugares na mídia, nas publicações, nos departamentos, nas universidades, em cargos governamentais, etc.

      Desde o início havia uma clivagem latente entre os radicais anglo-saxônicos — que em grande parte foram oriundos da geografia quantitativa, que se esgotou nos anos 70, e procuraram construir uma teoria geográfica formal e esquemática, com freqüência inspirada numa leitura positivista do marxismo (a influência do althusserianismo aí foi enorme, paradoxalmente muito maior que na geografia francesa) — e os críticos latinos, que tiveram uma maior abertura à pluralidade teórico-metodológica e um produtivo diálogo com Foucault. Mas essa clivagem subdividiu-se, tornou-se cada vez mais complexa, não sendo mais suficiente para dar conta da situação hodierna. Sempre houve também, desde os anos 70, uma enorme dificuldade em encaixar a geografia física nesse movimento de renovação. Afinal, praticamente todos — ou pelo menos a imensa maioria — os pioneiros da geografia crítica ou radical eram identificados com a geografia humana, em especial com a geografia política/geopolítica, com a geografia urbana e com a geografia econômica. Foi no estudo do subdesenvolvimento, da justiça social, da pobreza e da marginalidade, das relações de poder no espaço, da construção social do espaço enfim, que a(s) geografia crítica ou radical se afirmou.

      A geografia radical anglo-saxônica, a bem da verdade, sequer tentou incorporar seriamente o estudo geográfico da natureza. Quando se consulta a revista Antipode na sua fase áurea, de 1969 até por volta de 1980, nem mesmo com o uso de uma lupa iremos encontrar algum artigo de geografia física. Talvez isso se deva, pelo menos em parte, à tradição acadêmica norte-americana de situar a geomorfologia como um ramo da geologia e a climatologia como um subproduto da física. Mas é inegável que quando se procura esmiuçar o que significa espaço na obra de algum geógrafo anglo-saxônico radical — seja em David Harvey, R. Peet, N. Smith, J.R. Short, P. Taylor, D. Slater, G. Parker ou qualquer outro do mesmo calibre –, dificilmente iremos nos deparar com alguma referência aos processos naturais em si. Em contrapartida, na geografia crítica houve desde o início uma tentativa de levar em conta não apenas a questão ambiental mas também a natureza em si. Podemos encontrar inúmeros artigos de Jean Tricard, de G. Bertrand e outros geógrafos físicos na revista Hérodote em sua fase áurea, de 1976 até meados dos anos 80. Inclusive existem nela números especiais dedicados ao estudo geográfico da natureza e às relações entre geografia e ecologia.

      Todavia, foram afinal movimentos basicamente exógenos à geografia, mesmo que eventualmente tenham contado com a contribuição de um ou outro geógrafo — isto é, a crise ambiental planetária, a eclosão do ecologismo e o advento de um novo pensamento holístico –, que ofereceram a esta a possibilidade de uma incorporação mais efetiva do estudo da natureza no bojo do processo de renovação crítica ou radical. As idéias de "a Terra, planeta vivo" (tão cara a Tricard, embora de inspiração em Lovelock), de uma abordagem holística do real (que não se confunde com a totalidade marxista, que possui um viés economicista e encara a natureza tão somente como recurso) e a expansão dos estudos de impactos ambientais (algo decorrente da necessidade social de preservar/conservar o meio ambiente), acabaram oferecendo uma nova luz no antigo dilema geográfico de integrar os estudos da sociedade e da natureza.

      Simplificando bastante, podemos concluir que existem inúmeras geografias críticas, que dependem fundamentalmente dos problemas estudados e da opção teórico-metodológica do estudioso. Sujeito e objeto se entrelaçam, pois como afirmou o filósofo Merleau-Pointy:

      "Não há uma pergunta que resida em nós e uma resposta que esteja nas coisas, um ser exterior a descobrir e uma consciência observadora. A solução está também em nós, e o próprio ser é problemático. Há algo da natureza da interrogação que se transfere para a resposta".

      Nesta outra ilustração da revista espanhola Geo-critica, podemos discernir quatro olhares geográficos diferentes sobre uma mesma(?) realidade, no caso uma pequena propriedade rural.

      No alto, de terno e gravata, vemos um geógrafo quantitativo imaginando que modelo matemático seria ideal para se explicar — ou esquematizar? — isso. Já do mesmo lado esquerdo, mas abaixo, temos o geógrafo (ou professor) tradicional, que procura sintetizar a paisagem, isto é, enfocar todos aqueles itens que fazem parte do esquema "a Terra e o Homem". Do lado direito, no alto, temos o geógrafo da percepção, que vai procurar retratar a " realidade vivida" das pessoas. E nesse mesmo lado, abaixo, temos o geógrafo radical, que só enxerga a pobreza (ou a exploração) existente nessa realidade.

      Sem dúvida que essa representação é caricatural, pois a diversidade de enfoques (e as nuanças que existem em cada um deles) é bem mais rica e complexa do que essa divisão em quatro geografias. Além disso, não há aí nenhuma referência ao estudo geográfico da natureza, que provavelmente seria levado em conta, nessas quatro visões, somente pelo tradicionalista. Mas talvez elas tenham sido as correntes geográficas mais representativas, pelo menos na geografia humana, nas décadas de 1970 e 80. Só que desde esta última década, os anos 80, já existe sem dúvida uma progressiva tendência no sentido de uma relativa convergência dessas correntes — cada uma aproveitando algo das outras. A geografia fenomenológica ou da percepção, por exemplo, tanto pode ser "de esquerda" ou crítica (quando não omite os problemas sociais e faz uso de autores como Merleau-Pointy, Sartre e outros fenomenológicos/existencialistas que nunca deixaram de valorizar as desigualdades e as relações de poder), como pode ser "tradicional" ou meramente subjetivista (quando, na trilha de autores como Yi-Fu, omite as relações sociais de dominação e enfoca o real numa perspectiva de "integração" do indivíduo ao meio). E a(s) geografia(s) crítica(s) tanto pode(m) ser dogmática e economicista (supervalorizando o "modo de produção", a exploração e o imperialismo), como também pode(m) ser pluralista, democrática, inovadora e inclusive assimilar métodos/técnicas fenomenológicos (tais como as experiências de vida e a História oral).

      Existe ainda a questão do ensino, pois é no sistema escolar que a geografia vê-se obrigada a reafirmar a sua unidade. Na pesquisa e na atividade docente a nível universitário cada um pode ser especialista e todos podem deixar de lado a questão da unidade da ciência geográfica. (Ou melhor, quase todos, pois sempre há os que ficam encarregados da discussão epistemológica). No ensino fundamental e médio, entretanto, ocorre o oposto, pois aí o geógrafo não pode se furtar ao desafio de analisar o natural e o social concomitantemente, nas suas especificidades e principalmente nas suas inter-relações.

      3. Geocrítica e Ensino

      A Geografia crítica escolar — isto é, aquela praticada no ensino fundamental e médio — possui uma dinâmica própria e relativamente independente da sua vertente acadêmica. É importante ressaltar esse fato, pois muitos imaginam, de forma ingênua ou até mesmo preconceituosa, que as disciplinas escolares (Matemática, Língua portuguesa, Ciências, História, Geografia…) tão somente reproduzem, de forma simplificada, os conteúdos que são criados e desenvolvidos na universidade, no ensino superior, na graduação e na pós-graduação. É como se o professor da escola fundamental e média fosse apenas um reprodutor do saber construído em outro lugar, o "lugar competente", e a sua tarefa consistisse essencialmente em adaptar esse saber à faixa etária do aluno. Seu labor seria então "didático" num sentido tradicional: como ensinar da melhor maneira um determinado conteúdo já pronto e que o educando deve meramente assimilar.

      Mas essa forma de ver é parcial e, no extremo, autoritária. Pois ela ignora que o professor e os seus alunos também podem ser co-autores do saber, também podem pesquisar e chegar a conclusões próprias e que não são meras cópias ou simplificações do conhecimento já pronto e instituído. O professor crítico e/ou construtivista — e não podemos esquecer que o bom professor é aquele que "aprende ensinando" e que "não ensina mas ajuda os alunos a aprender" — não apenas reproduz mas também produz saber na atividade educativa. E tampouco o educando pode ser visto como um receptáculo vazio que irá assimilar ou aprender um conteúdo externo à sua realidade existencial, psicogenética e sócio-econômica. Ele é um ser humano com uma história de vida a ser levada em conta no processo de aprendizagem, que reelabora, assimila à sua maneira –inclusive reconstruindo ou até criando –, o saber apropriado para tal ou qual disciplina.

      E na Geografia essa característica essencial da verdadeira atividade educativa talvez seja ainda mais acentuada do que em outras disciplinas, tais como, por exemplo, na Física ou na Matemática. Isso porque no ensino da Geografia é importantíssimo — é mesmo indispensável — o estudo e a compreensão da realidade local onde os alunos vivem, onde a escola se situa. Isso não está (nem poderia estar) nos manuais — no máximo existem neles dicas, ou esquemas sempre passíveis de aperfeiçoamento para se estudar este ou aquele aspecto dessa realidade –; e não se trata somente de "aplicar" as definições ou as explicações contidas no "conteúdo geral", mas também de (re)criar conceitos e explicações, descobrir coisas novas enfim.

      Por sinal, a Geografia escolar é anterior ao advento da chamada Geografia científica ou acadêmica. Parodiando um estudioso da História do pensamento geográfico, Horácio Capel, podemos lembrar que muito antes de existirem os geógrafos já existiam os professores de geografia. Isto é, muito antes de a Geografia ser considerada uma "ciência" ou uma disciplina universitária, muito antes dela ter sido institucionalizada em meados do século XIX (com Humboldt e Ritter), já existiam aulas de Geografia (para crianças, para adolescentes e até mesmo para adultos) e manuais que procuravam esquematizar esse saber escolar e prático (pois servia para viagens, para o comércio, para a guerra…). Podemos inclusive afirmar que, em grande parte, a institucionalização da Geografia no século XIX deveu-se fundamentalmente à necessidade de formar um número cada vez maior de professores dessa disciplina para o sistema escolar em (enorme) expansão no período. E o mesmo ocorreu no passado recente, com o surgimento da Geografia escolar crítica, e continua a ocorrer nos dias atuais, com inúmeras novas experiências no ensino elementar e médio que, em alguns casos, produzem inovações em relação ao que já existe na produção acadêmica.

      Dessa forma, não foi após e muito menos devido às revistas Antipode e Hérodote que o estudo crítico da Geografia se desenvolveu nas escolas elementar e média. Essas revistas devem ser vistas mais como um marco — ou um símbolo — na renovação da Geografia universitária e de pesquisas a nível superior, mas pouca importância tiveram (atenção: escrevemos pouca e não nenhuma) naqueles níveis de ensino. Não que esses níveis de ensino estivessem "atrasados" e levassem muitos anos para se atualizar. Nada disso. É que muito antes do advento das geografias radical e crítica (acadêmicas) já existiam centenas, talvez milhares de professores de Geografia a nível médio ou de 5a. à 8a. séries que inovavam as suas lições — inclusive buscando subsídios na economia, na sociologia, na história, no marxismo… e principalmente nas lutas sociais de suas épocas/lugares — e incorporavam o estudo do subdesenvolvimento e dos sistemas sócio-econômicos, das relações de gênero (homem/mulher), das sociedades ditas primitivas, dos problemas sociais urbanos, da reforma agrária (tema tão importante no Brasil do início dos anos 1960!), e isso em muitos casos ANTES desses temas serem abordados pelos compêndios ou mesmo pelas teses, artigos e livros acadêmicos de geografia. Uma parte importante dos geógrafos críticos acadêmicos começou como professores do ensino fundamental e médio, e foi em grande parte aí que eles iniciaram as suas reflexões e as novas abordagens, que depois foram sistematizadas/reelaboradas com vistas à produção de trabalhos universitários. Não é difícil entender porque isso ocorreu, e ainda ocorre: malgrado a idéia preconcebida segundo a qual o professor no ensino fundamental e médio não inova, não cria, não ousa sair da rotina e do tradicionalismo (a não ser quando algum novo "programa oficial" o obrigue a isso), em geral ele — ou melhor, alguns deles — faz tudo isso com uma freqüência maior do que os estudos acadêmicos. Ao contrário do que se imagina, é muito mais fácil (e freqüênte, convém enfatizar) inovar no conteúdo e nos métodos de um curso no ensino médio, em especial nas escolas públicas (ou em algumas particulares), do que em teses e outros trabalhos acadêmicos. (O que não significa que essas inovações não ocorram aqui. Elas ocorrem, sem dúvida, mas pelo menos na Geografia e nos anos 1960, 70 e 80 foram em geral posteriores, e não anteriores, ao que já se vinha fazendo, pelo menos em parte, no ensino médio). As regras na academia são mais sedimentadas e fechadas, o controle por parte das bancas, das comissões de publicações, etc., é maior e normalmente existe um maior apego aos estereótipos ou às idéias pré-definidas sobre o que deveria ser abordado naquele assunto X ou Y. Só para citar um exemplo, poderíamos lembrar que Yves Lacoste, cuja importância para a definição da Geografia crítica já foi mencionada, teve enormes dificuldades em conseguir ser aprovado (só o foi depois de várias tentativas e sendo obrigado a "caçar" em locais distantes professores titulares que aceitassem participar da sua banca!) na sua tese de livre-docência na França devido ao tema — "Unidade e diversidade do Terceiro Mundo (Das representações planetárias às estratégias sobre o terreno)" — e à abordagem geopolítica do assunto, considerados na época (em pleno início da década de 1980!) como "não geográficos" e políticos em demasia, isto é, "não neutros". Pois bem: esse geógrafo, que também começou como professor no ensino fundamental e médio (e autor de livros didáticos), já trabalhava com esse assunto na sua atividade docente e nos seus manuais muito antes de ter feito essa pesquisa acadêmica. Mesmo aqui no Brasil poderíamos escavar inúmeros casos similares, pois a abordagem, no ensino fundamental e médio, de temas/problemas tais como as relações de gênero, críticas ao socialismo real e à burocracia, choques culturais, orientação sexual, o novo racismo, etc., foi indiscutivelmente anterior a qualquer pesquisa, tese ou publicação oriundas dos departamentos de geografia das universidades.

      Isso não significa que não existam ou que não devam existir relações de complementariedade entre a universidade e os níveis elementar e médio de ensino. Mas essas relações são mais complexas do que a idéia simplista segundo a qual aqueles níveis de ensino devem apenas "simplificar" e reproduzir o conteúdo que é produzido na academia. Esta idéia, infelizmente dominante, costuma gerar verdadeiras aberrações: "propostas curriculares" ou PCN’s para o ensino fundamental e médio feitos por professores universitários que não têm experiência nesse nível de ensino e que desconhecem completamente a realidade dos alunos que aí estudam. Costuma-se também pura e simplesmente ignorar, e portanto não aproveitar, as experiências inovadoras que os professores — pelo menos alguns — estão produzindo nas escolas. O resultado, normalmente (existem algumas exceções, mas são casos em que os elaboradores tinham vasta experiência nesses níveis de ensino e contaram com a colaboração ativa de professores que atuam na sala de aula), é que esses currículos são impraticáveis e acabam não sendo operacionalizados (embora muitos professores sejam obrigados a fingir que os utilizem, para agradar a alguns burocratas que tentam controlar a atividade docente); esses currículos em geral estão aquém daquilo que muitos professores praticam e mais atrapalham do que ajudam na melhoria do sistema escolar.

      A Geografia crítica escolar, portanto, não consiste na mera reprodução na escola fundamental e média daquilo que foi anteriormente elaborado pela produção universitária crítica. Isso até pode ocorrer, mas não é — e nunca foi — o essencial ou mesmo a regra geral. O essencial é levar em conta a realidade dos alunos e os problemas de sua época e lugar. Como se sabe, a Geografia escolar crítica — ou as geografias, na medida em que não existe um caminho ou um esquema único — se opõe à Geografia tradicional e normalmente mnemônica (isto é, que enfatiza a memorização, a lista de fatos ou acidentes: cidades principais, unidades de relevo, rios e seus afluentes, tipos de climas, cidades-capitais, etc.), que tem por base o esquema "A Terra e o Homem". Mas é lógico que a própria Geografia tradicional conheceu várias fases e nuanças e nunca foi um bloco monolítico. Existiram aí autores que valorizaram a explicação e combateram veementemente a descrição e a memorização (por exemplo: Delgado de Carvalho, Pierre Monbeig, Nilo Bernardes e outros), que incluiram bons textos literários nos seus manuais (exemplo: Clóvis Dottori e outros) e até mesmo, em especial na última fase da Geografia tradicional francesa, com Pierre George e a sua entourage — a chamada "escola georgeana" –, que incorporaram novos temas (subdesenvolvimento, sistemas sócio-econômicos, "explosão demográfica", organização do espaço e planejamento, região como espaço polarizado, etc.) que em alguns casos demandaram uma análise crítica do real. Mas foi uma crítica limitada e parcial: nunca ancorada nos movimentos sociais, mas sim em um modelo de "ciência" objetiva e neutra; e tampouco incorporando ou dialogando com autores/escolas críticos (anarquismos, Foucault, Escola de Frankfurt, Lefebvre, Gramsci e outros marxistas, etc.); e, acima de tudo, essencialmente preocupada em valorizar a Geografia frente ao Estado e às grandes empresas através da proposta de uma "Geografia ativa" ou voltada para a ação (ou melhor, para o planejamento). A Geografia escolar crítica vai além desses avanços que ocorreram na Geografia tradicional — embora os assimilando à sua maneira — e preocupa-se basicamente com o desenvolvimento da autonomia, da criatividade e da criticidade do educando — com a cidadania, afinal, que é o resultado e a condição da existência de cidadãos ativos e participantes, que questionam e (re)constroem os direitos — e com uma sociedade mais justa e igualitária, na qual os direitos das minorias (inclusive o direito de ser diferente) sejam preservados.

      Um ensino crítico da Geografia, assim sendo, não se limita a uma renovação do conteúdo — com a incorporação de novos temas/problemas, normalmente ligados às lutas sociais: relações de gênero, ênfase na participação do cidadão/morador e não no planejamento, compreensão das desigualdades e das exclusões, dos direitos sociais (inclusive os do consumidor), da questão ambiental e das lutas ecológicas, etc. Ela também – e principalmente – implica em valorizar determinadas atitudes – combate aos preconceitos; ênfase na ética, no respeito aos direitos alheios e às diferenças; sociabilidade e inteligência emocional… — e habilidades (raciocínio, aplicação/elaboração de conceitos, capacidade de observação e de crítica, etc.).

      E para isso é fundamental uma adoção de novos procedimentos didáticos: não mais apenas ou essencialmente a aula expositiva, mas sim estudos do meio (isto é, trabalhos fora da sala de aula), dinâmicas de grupo e trabalhos dirigidos, debates, uso de computadores (e redes) e outros recursos tecnológicos, preocupações com atividades interdisciplinares e com temas transversais, etc. E muito menos pode-se omitir o estudo da natureza, a geografia física, como querem alguns. Não é porque alguns geógrafos críticos ou radicais famosos e importantes abordam somente temas sócio-econômicos que a geografia escolar deve fazer o mesmo. Esse geógrafos, na realidade, são especialistas e, via de regra, não possuem experiência (e nem qualquer interesse) no ensino elementar e médio. Só que, repetimos, o objetivo da disciplina escolar Geografia não é reproduzir o discurso desses geógrafos especialistas e sim levar o educando a compreender o mundo em que vive, o espaço geográfico da escala local até a global. E a compreensão desse espaço passa necessariamente pelo estudo da natureza-para-o-homem, das paisagens naturais enquanto encadeamento de elementos (clima, relevo, solos, águas, vegetação e biodiversidade), que possuem as suas dinâmicas próprias e independentes do social. E também passa, principalmente nos dias de hoje, pelo estudo da questão ambiental, que não pode prescindir da dinâmica da natureza (e suas alterações/reações frente à ação humana), e que é fundamental para se perscrutar os rumos da humanidade e de cada sociedade nacional neste novo século.

      Fonte: http://www.geocritica.com.br/

      Capital já ”exporta” prédios para os extremos da Região Metropolitana

      Em 2010, houve recorde imobiliário, com 70.781 unidades lançadas nas 39 cidades da Grande SP, 11% a mais do que a marca anterior

      Márcio Pinho e Nataly Costa

      A partir da metade do século passado, os bairros em torno do centro de São Paulo viram o número de prédios explodir. Depois, o boom imobiliário migrou para áreas mais distantes e até para cidades vizinhas, como o ABC, em busca de terrenos disponíveis e baratos. Agora, o mercado imobiliário bate recorde histórico de crescimento na Grande São Paulo, apoiando-se também em municípios mais extremos e antes "ignorados", como Suzano e Mogi das Cruzes.

      Werther Santana/AE

      Werther Santana/AE

      Santo André. O município recebeu 2.904 unidades lançadas no ano passado; a líder no ranking segue sendo São Paulo, com 37.815 unidades, mas a falta de lotes e o valor ampliam a migração

      Apenas em 2010, foram lançadas 70.781 unidades nas 39 cidades da Região Metropolitana, 11% a mais do que a marca anterior de 1997, de 63.410. O balanço é da Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp), que faz esse registro desde 1985.

      Em Mogi das Cruzes foram 5.068 unidades nos últimos cinco anos. Em período semelhante, no fim da década de 1990, foram lançadas apenas 57. Foi a sexta cidade que mais cresceu em 2010 entre as 39 da região. Na vizinha Suzano, a diferença também foi gigantesca: subiu de 256 para mais de 2.700.

      Esse crescimento se reflete na paisagem urbana. A Mogi das Cruzes marcada pela agricultura praticada por imigrantes japoneses hoje vê edifícios se multiplicarem em bairros como Nova Mogilar. Os condomínios-clubes, comuns na capital, estão entre os novos atrativos. No tradicional bairro industrial de César de Souza há condomínios com loteamentos para erguer casas.

      Já Suzano sempre teve vocação industrial e ainda atrai esse segmento, enquanto vê o crescimento de bairros residenciais e a atração de novos moradores, que podem pagar menos pelos apartamentos por causa da verba do programa Minha Casa Minha Vida, do governo federal.

      Atrativos. A cidade de São Paulo ainda é líder de lançamentos na região, com 37.815 novas unidades, mas perdeu terreno e hoje só corresponde por pouco mais da metade das novas unidades. O maior crescimento ainda é em cidades vizinhas, como Guarulhos, Alphaville/Tamboré/Barueri e Santo André – esta lançou 2.904 unidades em 2010.

      Segundo Luiz Paulo Pompéia, diretor da Embraesp, há uma segunda onda de expansão conforme os terrenos próximos da capital começam a encarecer. Ela abrange cidades cada vez mais distantes e até as que estão fora da Grande São Paulo.

      Segundo ele, são vários os atrativos. "As pessoas acabam encontrando unidades maiores e com custo menor, sem o trânsito da capital e com a tranquilidade de uma cidade menor", afirma Pompéia.

      Em comparação com São Paulo, um apartamento em Mogi das Cruzes de dois quartos saiu nos últimos cinco anos em média por R$ 110 mil. O valor é muito menor do que a média de uma área nobre de São Paulo, como Moema, onde uma unidade semelhante vale R$ 387 mil, mas não difere tanto do de Itaquera (zona leste): R$ 97 mil.

      A Rodovia Ayrton Senna e a linha da CPTM que chegam à região permitem ligação rápida com a capital. A Rodovia Mogi-Bertioga dá acesso ao litoral.

      Segundo Flávio Prando, vice-presidente de Habitação do Sindicato da Habitação (Secovi), as construtoras apostam também na valorização dos terrenos que virão com a construção do Trecho Leste do Rodoanel, que passará ao lado de Suzano.

      Ele aponta que, além de Mogi e Suzano, Arujá e Itaquaquecetuba tornaram-se alternativa de empreendimentos para a classe média-baixa. Perto da capital, os terrenos caros fazem com que as construtoras apostem em projetos de luxo para que o empreendimento compense.

      Crise. O desempenho de 2010 se deu no ano seguinte à crise econômica, quando as vendas foram bastante abaixo do normal. O número anual de novas unidades se mantinha na casa dos 60 mil e caiu para cerca de 53 mil em 2009.

      A retomada de investimentos, o momento econômico vivido pelo País e o fato de muitos lançamentos terem ficado congelados durante a crise contribuíram para a explosão de 2010, de acordo com os especialistas.

      Fonte: http://www.estadao.com.br/

      O QUE É GEOPOLÍTICA? E GEOGRAFIA POLÍTICA?

      É freqüente a confusão entre geografia política e geopolítica, que na verdade são imbricadas, se sobrepoem em grande parte, mas não se identificam totalmente. Existe uma história de cada um desses saberes que mostra suas origens, suas especificidades, embora em alguns momentos eles tenham se mesclado, se identificado.

      José Willian Vesentini

      A expressão geografia política existe há séculos. Há inúmeros livros dos séculos XVII, XVIII e XIX com esse título. Mas considera-se que geografia política moderna, pelo menos tal como a entendemos hoje — isto é, como um estudo geográfico da política, ou como o estudo das relações entre espaço e poder — nasceu com a obra Politische Geographie [Geografia Política], de Friedrich RATZEL, publicada em 1897. Ratzel, na verdade, não criou o rótulo "geografia política"; ela apenas redefiniu o seu conteúdo, apontando para o que seria um verdadeiro estudo geográfico da política, uma concepção de política que muito deve à leitura de Maquiavel. Antes dele era comum encontrar em obras com esse título a descrição dos rios ou montanhas de tal ou qual Estado – ou seja, qualquer fenômeno ligado ao Estado (o ser político por excelência) era tido como assunto de geografia política. Ratzel mostrou que o estudo da geografia política só vai se preocupar com o meio ambiente – as características "naturais" do território, por exemplo (localização, formato, proximidade do mar, etc.) – desde que isso tenha relações com a vida política. Ele procurou estabelecer uma série de temas pertinentes à geografia política, que continuam a ser atuais (embora outros tenham surgido posteriormente): o que é o Estado e quais as suas relações com o território, soberania e território, o que é política territorial (uma expressão criada por ele), a questão das fronteiras, o que significa uma grande potência mundial, etc.

      Em síntese, esse geógrafo alemão não foi o primeiro autor a empregar esse rótulo, geografia política, nem mesmo o primeiro a escrever sobre o assunto – a questão do espaço geográfico na política. Essa análise a respeito da dimensão geográfica ou espacial da política é bastante antiga. Podemos encontrá-la em Aristóteles, em Maquiavel, em Montesquieu e em inúmeros outros filósolos da antiguidade, da Idade Média ou da época moderna. Mas normalmente essa preocupação com a dimensão espacial da política — tal como, por exemplo, a respeito do tamanho e da localização do território de uma cidade-Estado, em Aristóteles; ou sobre a localização e a defesa da fortaleza do príncipe, em Maquiavel; ou a ênfase na importância da geografia (física e principalmente humana) para a compreensão do "espírito das Leis" de cada Estado, em Montesquieu — era algo que surgia en passant, como um aspecto meio secundário da realidade, pois o essencial era entender a natureza do Estado ou das Leis, os tipos de governo ou as maneiras de alcançar e exercer eficazmente o poder. Com Ratzel inicia-se um estudo sistemático da dimensão geográfica da política, no qual a espacialidade ou a territorialidade do Estado era o principal objeto de preocupações. E com Ratzel a própria expressão "geografia política", que era comumente empregada nos estudos enciclopédicos dos séculos XVII, XVIII e mesmo XIX (as informações sobre tal ou qual Estado: sua população, contornos territoriais, rios, montanhas, climas, cidades principais, etc.), ganha um novo significado. Ela passa a ser entendida como o estudo geográfico ou espacial da política e não mais como um estudo genérico (em "todas" as suas características) dos Estados ou países.

      A palavra geopolítica, por sua vez, foi criada no início do século XX, mais precisamente em 1905, num artigo denominado "As grandes potências", escrito pelo jurista sueco Rudolf KJELLÉN. (Mas atenção: a palavra geopolítica é que foi criada por Kjellén, pois não há dúvida que essa temática é bem mais antiga, ou seja, as grandes preocupações geopolíticas não surgiram no início do século XX (preocupações sobre o que é e quem é uma potência mundial, como se dá a disputa mundial pelo poder entre os Estados, que estratégias seriam adequadas para tal ou qual Estado tornar-se a potência regional nesta ou naquela parte do globo, etc.). Isto é, já existia anteriormente juízos ou análises a respeito do poderio de cada Estado, das grandes potências mundiais ou regionais, com a importância ou o uso do espaço geográfico na guerra ou no exercício do poder estatal.

      Normalmente se afirma — em quase todas as obras sobre "história da geopolítica" — que os geopolíticos clássicos, ou os "grandes nomes da geopolítica", foram H.J. MacKinder, A.T. Mahan, R. Kjellén e K. Haushofer. Desses quatro nomes, dois deles (o geógrafo inglês Mackinder e o almirante norte-americano Mahan) tiveram as suas principais obras publicadas antes da criação dessa palavra geopolítica por Kjellén e, dessa forma, nunca fizeram uso dela. O outro autor, o general alemão Karl Haushofer, foi na realidade quem popularizou a geopolítica, devido às circunstâncias (ligações, embora problemáticas, com o nazismo e possível contribuição indireta para a obra Mein Kampf, de Hitler), tornando-a tristemente famosa nos anos 1930 e 40, em especial através da sua Revista de Geopolítica [Zeitschrift für Geopolitik], editada em Munique de 1924 a 44 e com uma tiragem mensal que começou com 3 mil e chegou a atingir a marca dos 30 mil exemplares, algo bastante expressivo para a época.

      A geopolítica, enfim, conheceu um período de grande expansão no pré-guerra, na primeira metade do século XX, tendo se eclipsado — ou melhor, ficado no ostracismo — depois de 1945. Ela sempre se preocupou com a chamada escala macro ou continental/planetária: a questão da disputa do poder mundial, que Estado (e por quê) é uma grande potência, qual a melhor estratégia espacial para se atingir esse status, etc. Existiram "escolas (nacionais) de geopolítica", em especial dos anos 1920 até os anos 1970, em algumas partes do mundo, inclusive no Brasil. Não escola no sentido físico (prédio e salas de aula), mas sim no sentido de corrente de pensamento, de autores — mesmo que um tenha vivido distante do outro, no espaço ou às vezes até no tempo — com uma certa identificação: no caso da geopolítica brasileira, ela consistiu principalmente no desenvolvimento de um projeto ("Brasil, grande potência") que se expressa como uma estratégia (geo)política e militar com uma clara dimensão espacial. A natureza pragmática, utilitarista (e para o Estado, único agente visto como legítimo) ou de "saber aplicável" sempre foi uma tônica marcante na geopolítica. Ela nunca se preocupou em firmar-se como um (mero?) "conhecimento" da realidade e sim como um "instrumento de ação", um guia para a atuação de tal ou qual Estado.

      A partir de meados dos anos 1970 a geopolítica sai do ostracismo. Ela volta a ser novamente estudada (a bem a verdade, ela nunca deixou de ser, mas de 1945 até por volta de 1975 esteve confinada em pequenos círculos, em especial militares). Só que agora, ao invés de ser vista como "uma ciência" (como pretendia Kjellén) ou como "uma técnica/arte a serviço do Estado" (como advogavam inúmeros geopolíticos, inclusive Haushofer), ela é cada vez mais entendida como "um campo de estudos", uma área interdisciplinar enfim (tal como, por exemplo, a questão ambiental). Em várias parte do globo criaram-se — ou estão sendo criados — institutos de estudos geopolíticos e/ou estratégicos, que via de regra congregam inúmeros especialistas: cientistas políticos, geógrafos, historiadores, militares ou teóricos estrategistas, sociólogos e, como não podia deixar de ser (na medida em que a "guerra" tecnológica-comercial hoje é mais importante que a militar) até mesmo economistas.

      Enfim, a palavra geopolítica não é uma simples contração de geografia política, como pensam alguns, mas sim algo que diz respeito às disputas de poder no espaço mundial e que, como a noção de PODER já o diz (poder implica em dominação, via Estado ou não, em relações de assimetria enfim, que podem ser culturais, sexuais, econômicas, repressivas e/ou militares, etc.), não é exclusivo da geografia. (Embora também seja algo por ela estudado). A geografia política, dessa forma, também se ocupa da geopolítica, embora seja uma ciência (ou melhor, uma modalidade da ciência geográfica) que estuda vários outros temas ou problemas. Exemplificando, podemos lembrar que a geografia também leva em conta a questão ambiental, embora esta não seja uma temática exclusivamente geográfica (outras ciências — tais como a biologia, a geologia, a antropologia, a história, etc. — também abordam essa questão). Mas a geografia — da mesma forma que as outras ciências mencionadas — não se identifica exclusivamente com essa questão, pois ela também procura explicar outras temáticas que não são rigorosamente ambientais tais como, por exemplo, a história do pensamento geográfico, a geografia eleitoral, os métodos cartográficos, etc.

      Esquematizando, podemos dizer que existiram ou existem várias interpretações diferentes sobre o que é geopolítica e as suas relações com a geografia política. Vamos resumir essas interpretações, que variaram muito no espaço e no tempo, em quatro visões:

      1. "A geopolítica seria dinâmica (como um filme) e a geografia política estática (como uma fotografia)". Esta foi a interpretação de inúmeros geopolíticos anteriores à Segunda Guerra Mundial, dentre os quais, podemos mencionar Kjellén, Haushofer e vários outros colaboradores da Revista de Geopolítica, além do general Golbery do Couto e Silva e inúmeros outros militares no Brasil. Segundo eles, a geopolítica seria uma "nova ciência" (ou técnica, ou arte) que se ocuparia da política ao nível geográfico, mas com uma abordagem diferente da geografia: ela seria "mais dinâmica" e voltada principalmente para a ação. Eles viam a geografia como uma disciplina tradicional e descritiva e diziam que nela apenas colhiam algumas informações (sobre relevo, distâncias, latitude e longitude, características territoriais ou marítimas, populações e economias, etc.), mas que fundamentalmente estavam construindo um outro saber, que na realidade seria mais do que uma ciência ou um mero saber, seria um instrumento imprescindível para a estratégia, a atuação político/espacial do Estado. Como se percebe, foi uma visão adequada ao seu momento histórico — não podemos esquecer que o mundo na primeira metade do século XX, antes da Grande Guerra, vivia uma ordem multipolar conflituosa, com uma situação de guerra latente entre as grandes potências mundiais — e à legitimação da prática de quem fazia geopolítica naquele momento. Ela também foi coeva e tributária de todo um clima intelectual europeu — especialmente alemão — da época, que fustigava o conhecimento científico ( a "ciência real", que era contraposta a uma "ciência ideal" ou "novo saber", que deveria contribuir para um "mundo melhor") pela sua pretensa "desconsideração pela vida concreta, pelas emoções, pelos sentimentos".

      2. "A geopolítica seria ideológica (um instrumento do nazi-fascismo ou dos Estados totalitários) e a geografia política seria uma ciência". Esta foi a interpretação de alguns poucos geógrafos nos anos 1930 e 40 (por exemplo: A. Hettner e Leo Waibel) e da quase totalidade deles (e também de inúmeros outros cientistas sociais) no pós-guerra. Um nome bastante representativo desta visão foi Pierre George, talvez o geógrafo francês mais conhecido dos anos 50 aos 70, que afirmava que a geopolítica seria uma "pseudo-ciência", uma caricatura da geografia política. Esta visão foi praticamente uma reação àquela anterior, que predominou anteriormente, no período pré-Segunda Guerra Mundial. Como toda forte reação, ela caminhou para o lado extremo do pêndulo, desclassificando completamente a geopolítica (da qual "nada se aproveita", nos dizeres de inúmeros autores dos anos 50 e 60) e até mesmo se recusando a explicá-la de forma mais rigorosa.

      3. "A geopolítica seria a verdadeira (ou fundamental) geografia". Esta foi a interpretação que Yves Lacoste inaugurou com o seu famoso livro-panfleto A Geografia – isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra, de 1976, e que serviu como ideário para a revista Hérodote – revue de géographie et de géopolitique. Nessa visão, a geografia de verdade (a "essencial" ou fundamental) não teria surgido no século XIX com Humboldt e Ritter, mas sim na antiguidade, junto com o advento dos primeiro mapas. O que teria surgido no século XIX seria apenas a "geografia dos professores", a geografia acadêmica e que basicamente estaria preocupada em esconder ou encobrir, como uma "cortina de fumaça", a importância estratégica da verdadeira geografia, da geopolítica enfim. A geopolítica — ou geografia dos Estados maiores, ou geografia fundamental — existiria desde a antiguidade na estratégia espacial das cidades-Estado, de Alexandre o Grande, por exemplo, de Heródoto com os seus escritos (obra e autor que, nessa leitura enviesada, teria sido um "representante do imperialismo ateniense"). Esta interpretação teve um certo fôlego — ou melhor, foi reproduzida, normalmente por estudantes e de forma acrítica — no final dos anos 1970 e nos anos 80, mas acabou ficando confinada a um pequeno grupo de geógrafos franceses que, inclusive, em grande parte se afastaram do restante da comunidade geográfica (ou mesmo científica) daquele país. Existe uma visível falta de evidências nessa tese — de comprovações, e mesmo de possibilidade de ser testada empiricamente (inclusive via documentos históricos) — e, na realidade, ela surgiu mais como uma forma de revalorizar a geografia, tão questionada pelos revoltosos do maio de 1968, tentando mostrar a sua importância estratégica e militar.

      4. "A geopolítica (hoje) seria uma área ou campo de estudos interdisciplinar". Esta interpretação começa a predominar a partir do final dos anos 1980, sendo quase um consenso nos dias atuais. Não se trata tanto do que foi a geopolítica e sim do que ela representa atualmente. E mesmo se analisarmos quem fez geopolítica, os "grandes nomes" que teriam contribuido para desenvolver esse saber, vamos concluir que eles nunca provieram de uma única área do conhecimento: houve juristas (por exemplo, Kjellén), geógrafos (Mackinder), militares (Mahan, Haushofer) e vários outros oriundos da história, da ciência política, da economia, da engenharia, etc. Não tem nenhum sentido advogar o monopólio desse tipo de estudo — seria o mesmo que pretender deter a exclusividade das pesquisas ambientais! –, já que com isso estaríamos desconhecendo a realidade, o que já se fez e o que vem sendo feito na prática. Existem trabalhos recentes sobre geopolítica, alguns ótimos, oriundos de geógrafos, de cientistas políticos (Luttuak…), de historiadores (H. Kissinger, P. Kennedy…), de sociólogos (Huntington…)de militares, etc. E ninguém pode imaginar seriamente que num instituto ou centro de estudos estratégicos e/ou geopolíticos — onde se pesquise os rumos do Brasil (ou de qualquer outro Estado-nação, ou mesmo de um partido político) no século XXI, as possibilidades de confrontos ou de crises político-diplomáticas ou econômicas, as estratégias para se tornar hegemônico no (sub)continente, para ocupar racionalmente a Amazônia, etc. — devam existir apenas geógrafos, ou apenas militares, ou apenas economistas ou juristas. Mais uma vez podemos fazer aqui uma ligação com o nosso tempo, com o clima intelectual do final do século XX e inícios do XXI. A palavra de ordem hoje é interdisciplinariedade (ou até transdisciplinariedade), pois o real nunca é convenientemente explicado por apenas uma abordagem ou uma ciência específica. O conhecimento da realidade, enfim, e mesmo a atuação nela com vistas a um mundo mais justo, é algo muito mais importante do que as disputas corporativistas.

      Fonte: http://www.geocritica.com.br/

      HISTÓRIA DA GEOGRAFIA

      Considerada por alguns como uma das mais antigas disciplinas acadêmicas, a geografia surgiu na Antiga Grécia, sendo no começo chamada de história natural ou filosofia natural.

      Portal São Francisco

      Grande parte do mundo ocidental conhecido era dominada pelos gregos, em especial o leste do Mediterrâneo. Sempre interessados em descobrir novos territórios de domínio e atuação comercial, era fundamental que conhecessem o ambiente físico e os fenômenos naturais. O céu claro do Mediterrâneo facilitava a vida dos navegantes gregos, sempre atentos s características dos ventos, importantes para sua navegação em termos de velocidade e segurança. Sobre tais experiências, os gregos deixaram para as futuras gerações escritos que contavam a sua vivência geográfica. Estudos feitos acerca do rio Nilo, no Egito, detalhavam, entre outras coisas, seu período de cheia anual.

      No século IV a.C., os gregos observavam o planeta como um todo. Através de estudos filosóficos e observações astronômicas, Aristóteles foi o primeiro a receber crédito ao conceituar a Terra como uma esfera. Em sua especulação sobre o formato da Terra, Strabo acabou escrevendo um obra de 17 volumes, ‘Geographicae’, onde descrevia suas próprias experiências do mundo – da Galícia e Bretanha para a Índia, e do Mar Negro à Etiópia. Apesar de alguns erros e omissões em sua obra, Strabo acabou tornando-se o pai de geografia regional.

      Com o colapso do Império Romano, os grandes herdeiros da geografia grega foram os árabes. Muitos trabalhos foram traduzidos do grego para o árabe. Ocorreram, no entanto, a partir daí, algumas regressões: após o ano de 900 d.C., as indicações de latitude e longitude já não apareciam mais nos mapas. De todo modo, os árabes acabaram recuperando e aprofundando o estudo da geografia, e já no século XII, Al-Idrisi apresentaria um sofisticado sistema de classificação climática. Em suas viagens à África e à Ásia, outro explorador árabe, Ibn Battuta, encontrou a evidência concreta de que, ao contrário do que afirmara Aristóteles, as regiões quentes do mundo eram perfeitamente habitáveis.

      Já no século XV, viajantes como Bartolomeu Dias e Cristóvão Colombo redescobririam o interesse pela exploração, pela descrição geográfica e pelo mapeamento. A confirmação do formato global da Terra veio quinze anos mais tarde, em uma viagem de circunavegação realizada pelo navegador português Fernando Magalhães, permitindo uma maior precisão das medidas e observações.

      Grandes nomes se empenharam no estudo das várias áreas da geografia. A geografia social, por exemplo, recebeu a dedicação de nomes como Goethe, Kant, e Montesquieu, preocupados em estabelecer em seu estudo a relação entre a humanidade e o meio ambiente. A geografia recebeu novas subdivisões, entre as quais, a geografia antropológica e a geografia política.

      Por volta do século XIX, surgia a Escola Alemã, apresentando o determinismo, que suportava a idéia de que o clima era capaz de estimular ou não a força física e o desenvolvimento intelectual das pessoas. Assim, afirmava que nas zonas temperadas a civilização teria um desenvolvimento mais elevado do que nas quentes e úmidas zonas tropicais. Já nos anos 30, a Escola Francesa lançava o possibilismo, que afirmava que as pessoas poderiam determinar seu desenvolvimento a partir de seu ambiente físico, ou seja, sua escolha, determinaria a extensão de seu avanço cultural.

      Chegaram os anos 60 com todas as suas revoluções, e o desejo de fazer da geografia um estudo mais científico, mais aceito como disciplina, levaram à adoção da estatística como recurso de apoio. No final da década, duas novas técnicas de suma importância para a geografia começavam a ser desenvolvidas: o computador eletrônico e o satélite, dando nova ênfase à disciplina.

      STRABO

      Geógrafo e historiador grego, nasceu em Amaseia, Pontus (agora Amasya, Turquia). Strabo começou seus estudos com Aristodemus e em 44 a.C. foi para Roma estudar com Tyrannion, ex-professor de Cícero. Antes de deixar Roma ele concluiu sua monumental obra de 43 volumes intitulada ‘Esboço Histórico’ da qual só sobraram pedaços.

      Em 31 a.C. Strabo começou suas viagens na Europa, Ásia e África, tendo viajado quase todo o mundo conhecido da época, ele voltou a Roma em 17 d.C. e escreveu seu mais importante trabalho de 17 volumes intitulado ‘Geographicae’ (ou Geografia). Esta foi a primeira vez que surgiu a palavra Geografia.

      Os volumes parecem mais o que hoje conhecemos como guias e eram escritos para uso militar. Esta obra é o principal documento daquela época conservado inteiro (com exceção de partes do volume sete) até os dias de hoje.

      ERATOSTHENES

      Matemático, astrônomo, geógrafo e poeta grego, nasceu em Cyrene (agora Shahhat, Líbia). Em 240 a.C. ele se tornou bibliotecário-chefe da Biblioteca de Alexandria, ficando responsável na sua época pelo maior acervo sobre o conhecimento humano até sua data. Eratosthenes é mais conhecido hoje pelo seu preciso cálculo da circunferência da Terra (erro de menos de 5%) numa época aonde não se acreditava que a Terra seria redonda. Para chegar a tais cálculos Eratosthenes empregou seus conhecimentos de astronomia para determinar a latitude de Assuã e Alexandria no Egito, e mediu a distância entre elas, tendo notado que a imagem da sombra de uma torre de igual altura em Aswan e Alexandria tinha diferentes comprimentos numa mesma hora do dia, ele chegou a conclusão que a Terra era redonda e calculou com seus dados a sua circunferência. O seu mais importante trabalho foi um tratado sistemático sobre geografia; após ficar cego com quase 80 anos se suicidou por inanição.

      PTOLOMEU

      Astrônomo e matemático grego, viveu em Alexandria, Egito e era cidadão romano. Seu primeiro trabalho e o mais importante foi o ‘Almagesti’ (Grande Obra), traduzido para o árabe 500 anos depois. Nesta obra ele propunha o sistema de geocentrismo o qual descrevia a Terra no centro do universo com o sol, planetas e as estrelas rodando em círculos ao seu redor. Este trabalho de Ptolomeu influenciou o pensamento astronômico durante mais de mil e quinhentos anos até ser substituído pela teoria heliocêntrica de Copérnico. Para a geografia sua mais importante obra foi ‘A Geografia’, uma tentativa de mapear o mundo conhecido da época, que listava latitudes e longitudes de locais importantes acompanhadas de mapas e uma descrição de técnicas de mapeamento. Nesta compilação Ptolomeu pegou dados seus e de Hiparco, Strabo e Marinus de Tiro. Mesmo com informações imprecisas este trabalho foi a principal ferramenta de orientação geográfica até o fim da renascença.

      HUMBOLDT, FRIEDRICH W. H. ALEXANDER VON

      Geógrafo, naturalista e explorador alemão, nasceu em Berlim, mais conhecido pelas suas contribuições a geologia, climatologia e oceanografia. Ainda jovem Humboldt foi apresentado a um grupo de intelectuais (entre os quais Moses Mendelssohn) pelo seu tutor. Em 1879 ele foi para a Universidade de Gottingen, aonde estudou arqueologia, física e filosofia. O seu interesse por botânica e explorações foi intensificado ao conhecer Georg Forster, que acabará de voltar de uma viagem ao redor do mundo com o famoso Capitão James Cook. Após um ano Humboldt largou Gottingen para estudar geologia com A.G. Werner na escola de minas de Freiburg e depois veio a se tornar inspetor de minas do governo da Prússia. Uma farta herança de sua mãe o permitiu se dedicar aos seus interesses por exploração científica.

      Em 1799, Humboldt explorou durante 5 anos a América Latina, visitando países como Equador, Colômbia, Venezuela, México e Peru, além de parte da bacia amazônica. Durante esta viagem ele coletou muitos dados sobre clima, fauna, flora, astronomia, geologia e sobre o campo magnético da Terra. Durante sua estada no Peru fez precisas medições sobre uma corrente fria descoberta por ele que veio a ser chamada pelo seu nome e hoje é mais conhecida como Corrente do Peru. Após uma breve estada nos Estados Unidos da América foi morar em Paris aonde ficou até 1827, período durante qual escreveu uma obra de 23 volumes com as descobertas feitas na viagem. Em 1827 viajou para Berlim e foi nomeado assessor do rei da Prússia. Em 1829 por convite do Czar russo Nicolau I viajou aos Montes Urais e Sibéria para fazer estudos geológicos e fisiográficos.

      O resto de sua vida foi dedicada a escrever sua principal obra intitulada ‘Kosmos’ na tentativa abrangente de descrever o universo como um todo e mostrar que tudo era interrelacionado. Humboldt foi o primeiro a mapear pontos isotérmicos (linhas conectando pontos geográficos de mesma temperatura) e impulsionando assim o estudo da climatologia.

      RITTER, KARL

      Geógrafo alemão, conhecido como fundador da moderna ciência da geografia. Ritter mostrou ao mundo o princípio da relação entre a superfície da Terra e a natureza e os seres humanos, era defensor constante do uso de todas as ciências para o estudo da geografia. Foi professor de geografia na Universidade de Berlin de 1820 até sua morte; seu mais importante trabalho, ‘Die Erdkunde’ (Ciência da Terra, 19 volumes, 1817-1859), enfatizava a influência de fenômenos físicos na atividade humana.

      RATZEL, FRIEDRICH

      Geógrafo e etnólogo alemão fundador da geografia política moderna (ou geopolítica), o estudo da influência do ambiente na política de uma nação ou sociedade. Dele originou-se o conceito de ‘espaço vivo’ (Lebensraum), que se preocupa com a relação de grupos humanos com os espaços do seu ambiente. Ele lecionou na Univesidade de Munique entre 1875 e 1886, e desta data até sua morte foi professor de geografia da Universidade de Leipzig. Seu conceito de ‘espaço vivo’ foi depois usado pelo Partido Nacional Socialista (Nazista) para justificar a expansão germânica e a anexação de territórios que precedeu a segunda guerra mundial.

      SISTEMATIZAÇÃO DA GEOGRAFIA: UMA ANÁLISE CRÍTICA

      O estudo da geografia abrange, hoje, grande complexidade de aspectos. O desenvolvimento dos meios de comunicação, o crescimento demográfico, descoberta de novos meios de explorar a superfície terrestre, a evolução da técnica em geral, e a entrada do capitalismo trará profundas transformações na geografia, no plano da realidade e no plano do saber.

      A geografia começa a ser observada a partir do momento em que se necessita orientação com a ajuda da ciência às expedições que abrirão as portas das civilizações. A articulação entre cientistas e exploradores compõe a espinha dorsal dos trabalhos.

      Há uma intensa controvérsia sobre a matéria tratada pela geografia, sendo atribuídas múltiplas definições a esta ciência. Algumas delas são:

      § Estudo da superfície terrestre: esta definição apóia-se no significado etimológico do termo Geografia – descrição da terra, por descrever todos os fenômenos manifestados na superfície do planeta, sendo uma espécie de síntese de todas as ciências.

      § Estudo da paisagem: mantendo concepção da ciência de síntese, pois associa múltiplos fenômenos estando visíveis a aspectos visíveis do real. Possui duas variantes: a morfológica que é descritiva, sendo objeto de estudo elementos e formas; e a fisiológica que relaciona elementos e dinâmicas observando o funcionamento da paisagem, nessa perspectiva seria a idéia de organismo com funções vitais e elementos que interagem;

      § Estudo da individualidade dos lugares: compreendendo o caráter singular de cada porção do planeta, através da descrição, podendo ter uma visão ecológica. Propõe-se o estudo de uma unidade espacial passível de ser individualizada;

      § Estudo da diferenciação de áreas: através da individualização e comparação, propondo uma perspectiva mais generalizada e explicativa. São buscadas as regularidades da distribuição e das inter-relações dos fenômenos;

      § Estudo das relações entre o homem e a natureza: que podem ser as influências da natureza sobre o desenvolvimento da humanidade, estudo das relações entre homem e natureza e com os dois tendo o mesmo peso, trabalhando com os fenômenos naturais e humanos.

      § Estudo do espaço: que só seria aceito se fosse concebido como um ser específico do real, com características e com uma dinâmica própria somente depois de demonstrar a afirmação efetuada. A expressão espaço aparece como vaga, ora estando associada a uma porção específica da

      superfície da Terra identificada seja pela natureza, seja por um modo particular como o homem ali imprimiu suas marcas, seja com referência a simples localização.

      Como ciência social a geografia tem como objeto de estudo a sociedade que, no entanto, é objetivada via cinco conceitos-chave que guardam entre si forte grau de parentesco, pois todos referem à ação humana modelando a superfície terrestre: paisagem, região, espaço, lugar e território.

      O percurso: busca de entendimento nas formas de análise

      A Geografia atual é um amálgama, mistura de elementos diversos que contribuem para formar um todo.

      Mesmo sendo um saber tão antigo quanto a própria história dos homens o atual discurso da geografia é o produto final dos embates que denominam as relações entre os imperialismos alemão e francês ao longo do século XIX, havendo uma luta entre concepções divergentes a respeito da forma como se dá a relação entre o homem e o meio.

      A Geografia nasce colada, de um lado, às lutas democráticas que se desenrolam nas cidades gregas e atravessam praticamente toda a sua história. A Geografia que irá desenvolver será a que veremos servindo ao Estado, concebida com relatos e mapas, e assim passará para a história como a Geografia.

      A relação feudalista /capitalista surge como questão do espaço, temas como domínio e organização do espaço, apropriação do território, variação regional, entre outro, estarão na ordem do dia na prática da sociedade alemã, e as primeiras colocações no sentido de uma Geografia sistematizada vão ser de Humboldt e Ritter, que criam uma linha de continuidade no pensamento geográfico.

      Dos romanos à "idade da ciência" (século XVIII-XIX) a geografia terá sua imagem alinhada como um inventário sistemático de terras e povos. A história da Geografia é um salto fantástico no tempo e no espaço, durante o correr dos séculos a Geografia não tem "escolas", então a partir do século XVIII desenvolver-se-ão as "escolas".

      A Escola Alemã

      A "escola alemã" que surge em duas vias de discussões: a "Geografia político-estatística" que define o papel da Geografia como sendo uma montagem do painel mais amplo e sistemático possível de uma dada conjuntura e a "Geografia pura" que assenta a tônica na unidade da base regional, sendo para ela critério os limites naturais do terreno. A Geografia não podia continuar sendo um quadro descritivo de uma dada situação conjuntural. O capitalismo alemão carecia de soluções práticas.

      O Kantismo foi decisivo nesta etapa, para Kant o conhecimento deve ser empírico havendo um "sentido interno" que revela o homem (Antropologia pragmática) e um "sentido externo", que revela a natureza (Geografia física). A Geografia é a localização do fenômeno no espaço.

      Outros importantes teóricos foram Humboldt e Ritter, sendo os precursores da Geografia moderna, eles vêem a Geografia como sendo a totalidade das coisas naturais e humanas, na qual os homens vivem e sobrevivem. Com Ratzel que o comprometimento da Geografia com os desígnios imperialistas da burguesia alemã mostrar-se-á com maior transparência, e dirá que o homem é que determina o seu meio natural (Determinismo).

      Humboldt possui conteúdos normativos explícitos, justificando a explicitação de seus próprios procedimentos de análise. O objeto geográfico é a contemplação da universalidade das coisas, de tudo que coexiste no espaço concernente a substâncias e forças, da simultaneidade dos seres materiais que coexistem na terra. O estudo reconhece a unidade na imensa variedade dos fenômenos, descobrindo pelo livre exercício dos pensamentos e combinando as observações a constância dos fenômenos em meio as suas variações aparentes. O seu método era o empirismo raciocinado (intuição a partir da observação).

      A obra de Ritter é metodológica, define o conceito de sistema natural como a área delimitada dotada de uma individualidade. A Geografia deveria estudar estes arranjos individuais e compará-los. O homem seria o principal elemento, ele fazia um estudo dos lugares. Sua análise era empírica, como ele dizia era necessário caminhar de "observação em observação". Procurava chegar a uma harmonia entre a ação humana e os desígnios divinos, manifestos na variável natureza dos meios. Possuía uma proposta antropocêntrica (homem é o sujeito da natureza) e regional (estudo da individualidade), valorizando a relação homem-natureza.

      A importância maior da proposta de Ratzel reside no fato de haver trazido, para o debate geográfico, os temas políticos e econômicos, colocando o homem no centro das análises. Mesmo que numa visão naturalizante, e para legitimar interesses contrários ao humanismo. Da crítica a Ratzel sairá o elemento-chave que é a teoria do possibilismo.

      A Escola Francesa

      A "escola francesa" propõe uma Geografia informativa e descritiva, ensinada nas universidades como disciplina auxiliar do ensino da história, tendo também uma feição informe e utilitária.

      Um de seus expoentes foi La Blache que personificará a escola por espelhar em suas idéias melhor que qualquer de seus companheiros as aspirações do Estado Francês. A escola apoiar-se-á no funcionalismo por via do qual absorve o positivismo.

      La Blache discute a relação homem-natureza, não abordando as relações entre os homens. É por esta razão que a carga naturalista é mantida, apesar do apelo à História, contida em sua proposta.

      A geografia divide-se em Geografia Física (Humboldt) e em Geografia Humana (Ritter). Haverá a separação entre Geografia Geral (Humboldt) e Geografia Regional (Ritter). Há uma reciprocidade de influências entre o homem e o meio, no interior da qual a vontade humana dota o homem de ampla possibilidade de dominar seu meio.

      A Escola Anglo-saxônia

      A "escola anglo-saxônia" apresenta a "Geografia quantitativa e teorética", e o substrato que lhe dá substância é a mundialização do capital; possui base neopositivista (positivismo lógico). Seu caráter revolucionário aplica o salto para a fase explicativa. Falhando, pois era mais conhecido o "terreno" pessoalmente que computadorizado.

      Nós a aprendemos e percebemos por força do próprio cotidiano, fazemos parte do espaço geográfico. A Geografia é um saber vivido e apreendido pela própria vivência. Mas nem sempre a aparência é o real. A realidade esconde-se por trás da aparência, "a ciência seria desnecessária se toda essência coincidisse com a sua aparência". Pode sim, haver semelhanças formais, da aparência fazem parte os aspectos visuais e a essência não é só o empírico, mas também a realidade causal.

      Os métodos da Geografia sendo usada como geometria do espaço, não procura causas, consiste em uma sucessão de passos cujo fim é a inferência causal: coligir dados compará-los, classificá-los, estabelecer generalizações e extrair explicação causal.Estes passos podem ser resumidos a três sucessivas: observação, formulação de hipóteses e inferência de leis; pela via da comparação extraem-se as "leis" (generalizações) e pela via das correlações extraem-se os "padrões".

      Temas para a análise da geografia

      Pela concepção do todo Ritter diz que a Geografia deveria ser estudada em partes individualizadas, mas interligadas por finalidades, formando um todo. Humboldt diz que o todo é uma unidade de diversidade e a síntese era feita a partir da relação existente entre a vida orgânica e a inorgânica. A Geografia alemã usa sínteses sucessivas, usando uma temática dos métodos.

      Na "escola francesa" a noção do todo ganha maior refinamento teórico, mas a Geografia super-ramifica-se e terá de se conformar em ser uma "síntese das ciências de análise". A síntese só se obterá ao nível da Geografia Regional que Lacoste dirá que é um todo articulado segundo uma integração que só na sua ordem escalar (escala geográfica) pode ser apreendido.

      Na "escola anglo-saxônica" determinada faixa do todo será analisada através de dados estatísticos e matemáticos, sendo que o resultado seria dado através da perspectiva genérica e explicativa do pensamento geográfico.

      A sociedade é o tema verdadeiro da Geografia. Ela estudá-la-á a partir daquilo que é a expressão material visível da sociedade: o espaço.

      A Geografia está na forma historicamente diferenciada de existência na relação visivelmente distinta com as condições materiais de existência, na forma específica da ligação orgânica entre o homem e a natureza de posse do produto do trabalho, na articulação das relações de conjunto e nas transfigurações espaços-formais.

      Do surgimento da crítica

      O pensamento da Geografia tem origem na antiguidade clássica (Grécia). É um período de dispersão do conhecimento geográfico, onde é impossível falar dessa disciplina como um todo sistematizado e particularizado. Sodré denomina-o de pré-história da Geografia.

      A sistematização tem início no século XIX com pressupostos históricos que se objetivam no processo do avanço e domínio das relações capitalistas de produção. Os pressupostos se baseiam na necessidade de que a terra toda fosse conhecida para que fosse pensado de forma unitária seu estudo; dados referentes aos pontos mais diversificados da superfície deveriam estar levantados e agrupados em alguns grandes arquivos.

      Existem outros pressupostos relacionados à evolução do pensamento, como o movimento ideológico e a transição do feudalismo-capitalismo na valorização de temas geográficos pela reflexão da época; afirmação das possibilidades da razão humana, a aceitação pela existência de uma ordem, manifestação de todos fenômenos, passível de ser apreendida pelo entendimento e enunciada em termos sistemáticos.

      A efetivação da Geografia ocorria no período de decadência ideológica do pensamento burguês, em que a prática dessa classe, então dominante, visava à manutenção da ordem social existente.

      Certamente, não se pode negar que a sistematização da Geografia, representada por suas escolas colaborou de forma decisiva para se justificar tanto o imperialismo alemão quanto o imperialismo francês.

      Entretanto, a sistematização possibilitou uma melhor compreensão da sociedade da qual fazemos parte e até de nós mesmos. Conhecimento este que é aplicado até os tempos atuais.

      Como podemos observar, as escolas surgidas nesse contexto de formação do pensamento geográfico estavam realizando uma análise do espaço geográfico de forma "acritica". Os movimentos de renovação da geografia e a própria geografia crítica, conforme o próprio nome já diz, vieram com o intuito de remodelar, revitalizar a forma de se fazer geografia e de se analisar o pensamento geográfico como um todo. Este trabalho ocorreu por meio de importantes geógrafos com Milton Santos e Hartshorne que fizeram pesadas críticas ao sistema decadente, mas não se limitaram apenas a criticar como também trouxeram novas teorias e formas de se trabalhar a geografia.

      A geografia finalmente estava voltando a ver o mundo de forma atualizada e crítica como deveria ser. Iniciava-se uma nova forma de pensar…

      Conclusão

      Considerada por alguns como uma das mais antigas disciplinas acadêmicas, a Geografia surgiu na Antiga Grécia, sendo no começo chamado de história natural ou filosofia natural. A Geografia se propõe a algo mais que descrever paisagens, pois a simples descrição não nos fornece elementos suficientes para uma compreensão global daquilo que pretendemos conhecer geograficamente.

      Ir além das aparências significa considerar que por trás de toda paisagem temos, necessariamente, uma dinâmica particular que a determina, que a constrói, que a mantém com determinada aparência. Estudar geograficamente o mundo, no todo ou em parte, é buscar entender como e por que as paisagens apresentam as características que observamos. A geografia deve propor-se a investigar, principalmente, o modo pelo qual a sociedade produz o espaço geográfico.O espaço geográfico não se revela apenas na aparência das coisas, mas, sobretudo na investigação das razões que determinam essa aparência. Podemos compreender que o espaço geográfico inclui a Natureza e o homem.

      O positivismo foi de fundamental importância para a Geografia, pois sua sistematização ocorreu de acordo com os princípios positivistas, como o empirismo que deixou fortes influências na Geografia. Os principais autores foram Humboldt que usou o método do raciocínio através do empirismo e da observação; e Ritter que mostrou ao mundo o princípio da relação entre a superfície da terra e a natureza e dos seres humanos, era defensor constante do uso de todas as ciências para o estudo da geografia.

      Já sabemos que só a partir deles a Geografia se tornou realmente uma ciência e que sua sistematização proporcionou que virasse uma ciência acadêmica que pudesse ajudar em questões atuais.

      Impulsionada por um período de acúmulo de arquivos e dados geográficos referentes a novas terras, a sistematização se torna necessária, potencializando a sintetize de informações e formando-se quadros e teorias geográficas. Tal período ainda não fora totalmente racionalizado, ou seja, seu conteúdo possui alguns traços e marcas da irracionalidade característica de um processo em iniciação. O processo geográfico não se encontra parado, pelo contrário ele flui pelas correntes sucessivas a esse período buscando sua firmação e aprimoramento.

      A busca da articulação entre natureza e sociedade não foi tarefa fácil para os geógrafos. Na verdade, construir uma ciência de articulação na época em que surgiu oficialmente a Geografia pareceria ser como remar contra a maré, pois nesse período a visão de ciência dominante privilegiava a divisão entre ciências da natureza e da sociedade.

      A fragmentação científica é sem dúvida a força que promove o primeiro impacto na existência da Geografia.

      "A geografia serve antes de mais para fazer a guerra". Esta frase de Yves Lacoste aparentemente simples resume perfeitamente este trabalho. A guerra aqui tratada, não é apenas uma guerra de armas e de dominação, mas principalmente, uma guerra de idéias, de teorias, de ciência.

      A Geografia em sua busca de novos caminhos e de novas interpretações do mundo se posiciona de uma forma crítica, direcionando sua contribuição para resgatar a importância do espaço no mundo atual. Anteriormente esse papel era o de fonte de recursos, de fornecedor de condições que facilitassem o processo de desenvolvimento. Atualmente busca-se o papel ativo do espaço na sociedade, como uma das instancias sociais e não como um pano de fundo onde as relações sociais ocorreriam. (SANTOS, 1978)

      Conceito de Geografia e Suas Divisões

      Etimologicamente, Geografia significa "descrição da Terra" mas, desde a antiguidade, teve duas orientações diferentes: alguns geógrafos, mais preocupados com a localização exata dos lugares e com a sua representação em mapas seguiram uma linha mais matemática; outros geógrafos, mais preocupados com as particularidades dos lugares, seguiram uma linha mais descritiva.

      Mais recentemente, a Geografia, quanto ao seu campo de investigação, tem sido dividida em Geografia Regional e em Geografia Geral. Enquanto a Geografia Geral procura o que há de regular e permanente nos fatos terrestres, explicando-os e relacionando-os entre si, a Geografia Regional procura explicar esses mesmos relacionamentos mas ao nível local.

      A Geografia pode ainda ser dividida em Geografia Física, Humana e Económica:

      Geografia Física

      Estudo do clima, do relevo e sua formação, da botânica e da zoologia;

      Geografia Humana

      Estudo da espécie humana e sua distribuição e estudo dos habitat rurais e habitat urbanos;

      Geografia Económica

      Estudo dos fenómenos relacionados com a produção e troca, tais como a localização/distribuição das matérias-primas, fontes de energia e outros recursos naturais.

      Objetivos da Geografia

      A Geografia comporta três objetivos principais:

      A compreensão das características particulares de determinada região, realçando os relacionamentos e a integração de diversos fenómenos (geológicos, climáticos, históricos, políticos, económicos, sociológicos, etc.) num quadro de unidade local ou regional;

      A compreensão da relação entre o Homem e o seu meio, enfatizando quer a influência do meio sobre o Homem, quer o impacto deste sobre o meio (Ecologia);

      A explicação dos aspectos sisemáticos de localização e interacção espacial, ou seja, a explicação de como se estrutura o espaço físico, de como o Homem se organiza socialmente no espaço e de como muda a concepção do espaço e a sua utilização.

       

      Objetivos gerais dos PCNs

      Espera-se que, ao longo dos oito anos do ensino fundamental, os alunos construam um conjunto de conhecimentos referentes a conceitos, procedimentos e atitudes relacionados à Geografia, que lhes permitam ser capazes de:

      Conhecer a organização do espaço geográfico e o funcionamento da natureza em suas múltiplas relações, de modo a compreender o papel das sociedades em sua construção e na produção do território, da paisagem e do lugar;

      Identificar e avaliar as ações dos homens em sociedade e suas conseqüências em diferentes espaços e tempos, de modo a construir referenciais que possibilitem uma participação propositiva e reativa nas questões socioambientais locais;

      Compreender a espacialidade e temporalidade dos fenômenos geográficos estudados em suas dinâmicas e interações;

      Compreender que as melhorias nas condições de vida, os direitos políticos, os avanços técnicos e tecnológicos e as transformações socioculturais são conquistas decorrentes de conflitos e acordos, que ainda não são usufruídas por todos os seres humanos e, dentro de suas possibilidades, empenhar-se em democratizá-las;

      Conhecer e saber utilizar procedimentos de pesquisa da Geografia para compreender o espaço, a paisagem, o território e o lugar, seus processos de construção, identificando suas relações, problemas e contradições;

      Fazer leituras de imagens, de dados e de documentos de diferentes fontes de informação, de modo a interpretar, analisar e relacionar informações sobre o espaço geográfico e as diferentes paisagens

      Saber utilizar a linguagem cartográfica para obter informações e representar a espacialidade dos fenômenos geográficos

      Valorizar o patrimônio sociocultural e respeitar a sociodiversidade, reconhecendo-a como um direito dos povos e indivíduos e um elemento de fortalecimento da democracia.

      Fonte: http://www.portalsaofrancisco.com.br/