Quando se mencionam as "obras malditas" (K. Axelos) do marxismo no século XX, dois nomes são inevitavelmente citados: György Lukács (1885-1971) e Karl Korsch (1886-1961).
José Paulo Neto
Os autores e os seus livros ― respectivamente, História e consciência de classe e Marxismo e filosofia, ambos de 1923 e ulteriormente considerados como fundantes do mal chamado marxismo ocidental (Merleau Ponty)1 ― foram "condenados" de cambulhada por figuras então de proa do movimento comunista e, por via da Terceira Internacional, no seu V Congresso Mundial ― realizado em Moscou, em 1924 ―, institucionalmente desautorizados como expressões filosóficas de "desvios" idealistas e neo-hegelianos. Mais precisamente: naquele evento, Zinoviev ― à data, o principal dirigente do organismo ― vituperou o " marxismo de professores que elucubram suas teorias marxistas", citou textualmente o italiano Graziadei além de Lukács e Korsch e concluiu esta passagem de sua intervenção com a frase definitiva: "Não podemos tolerar, na nossa Internacional Comunista, a presença desse revisionismo teórico"2. Paradoxal mas não inexplicavelmente, também os corifeus da socialdemocracia (como kautsky) somaram-se, na desqualificação das duas obras, aos críticos de extração bolchevique.
Os dois autores reagiram de modo muito diverso em face da "condenação". Lukács preparou um denso material de resposta a seus críticos, mas jamais o publicou: disciplinadamente, autocriticou-se e, malgrado divergências e discrepâncias, permaneceu até a morte vinculado organicamente ao movimento comunista.3 Korsch manteve suas posições, foi expulso do partido em 1926 e evoluiu de modo muito diverso4.
1.
Karl Korsch nasceu em Todsted, perto de Hamburgo, em 15 de agosto de 1886. Fez estudos de direito, filosofia e economia em várias universidades (Munique, Berlim, Genebra), até doutorar-se em direito pela Universidade de Iena5, em 1970, com a tese Die Beweislast beim qualifizierten Geständis (A ponderação da prova na confissão), um ano depois publicada em Bonn.
Entre 1912 e 1914, vive na Inglaterra; nestes anos, já casado com Hedda Korsch, née Gagliardi (que conhecera em 1908 e com quem terá duas filhas), mantém contatos com a Sociedade Fabiana e dedica-se ao estudo do direito inglês, de que resultará o ensaio, publicado em 1913, Beiträge zur Kenntnis und zum Verständnis des englischen Rechts (Contribuições ao conhecimento e à compreensão do direito inglês).
Retorna à Alemanha quando da eclosão da Primeira Guerra Mundial e dela participa como oficial. Em 1919, vincula-se ao centrista Partido Socialdemocrata Alemão Independente (USPD), em que pontificavam K. Kautsky e R. Hilferding; no ano seguinte, ingressa no Partido Comunista Alemão (KPD), no qual desempenhará papel proeminente até 1926 ― dirigiu, inclusive, a sua revista teórica, Die Internationale (A Internacional). Não foi apenas um protagonista do "movimento dos conselhos", também tematizou o "controle operário" num ensaio dado á luz em 1922, Arbeitsrecht für Betriebsräte (Direito do trabalho ao controle das fábricas)6; no mesmo ano, divulgou uma edição anotada da Crítica ao programa de Gotha, de Marx ― Randeglossen zum Programm der deutschen Arbeiterpartei (Glosas marginais ao programa do Partido Operário Alemão) ―, e publicou Kernpunkte der materialistischen Geschichtesaufflasung (Questões centrais da concepção materialistada história), em que critica Kautsky. Integrou em 1923 (como ministro da Justiça) o governo da efêmera república operária da Turíngia. Entre 1924 e 1928, foi deputado ao Reichstag, ao mesmo tempo em que continua desenvolvendo atividades acadêmicas: desde 1923, tornara-se professor de direito na Universidade de Iena. Rompe com a Terceira Internacional em 1925 e, um ano depois, é formalmente expulso do Partido Comunista Alemão, mas não interrompe sua militância política: articula outros dissidentes em torno da revista Kommunistische Politik (Política Comunista) e, em seguida, no periódico Gegner (Adversário). A partir de 1928, porém, desvincula-se de qualquer organização partidária.
A exclusão do Partido e a ausência de vínculos organizativos não interrompem a sua atividade intelectual: entre 1926 e 1930, publica vários ensaios, tematizando as lutas de classes na União Soviética, criticando a orientação da Terceira Internacional e debatendo a produção teórica marxista (por exemplo, o trabalho de E. Pachukanis). É de 1929 um novo livro contra Kautsky: Die materialistische Geschichtsaufflassung. Eine Auseinandersetzung mit Kautsky (A concepção materialista da história. Uma polêmica com Kautsky). E, em 1932, prefacia uma nova edição do livro 1 de O Capital.
Com a chegada de Hitler ao poder (1933), deixa a Alemanha. Gira pela Inglaterra e pela Dinamarca, onde estabelece sólida e duradoura relação pessoal com B. Brecht. Em 1936, fixa-se nos Estados Unidos, trabalhando como professor e prosseguindo em sua atividade ensaística ― de que um primeiro produto é o seu Karl Marx (1938)7 ―, atividade de que são prova os inúmeros textos que publica, entre 1938 e 1946, em vários periódicos norte-americanos de esquerda e extrema-esquerda (Living Marxism, Modern Quaterly, New Essays, Partisan Review, Politics)8.
Faz uma viagem à Europa em 1950, pasando pela Alemanha e pela Suíça, e pronunciando conferências, mas seu exílio nos Estados Unidos prosseguirá até sua morte, ocorrida em 21 de outubro de 1961 (Belmont, Massachusetts), aos 75 anos de idade.
2.
Marxismo e filosofia ― com justiça o texto mais mencionado de toda a produção intelectual de Korsch ― foi originalmente publicado, em 1923, pelo periódico a que Grünberg vinculou seu nome9, e, no mesmo ano, tomou a forma de livro. Tratava-se de um ensaio contundente e enxuto, com poucas dezenas de páginas10, mas estava destinado, para a inicial surpresa de seu autor, a constitutir uma peça emblemática do dilema teórico-político vivido pela tradição marxista nos cruciais anos 1920 ― dilema fundamentalmente determinado pelo fracasso da revolução socialista no Ocidente (mais exatamente na Alemanha) e pelo consequente insulamento do projeto revolucionário na Rússia dos sovietes, insulamento que responde, em grande medida, pela degenerescência stalinista.
A eclosão da Primeira Guerra Mundial encontrou a tradição marxista hegemonizada por uma ideologização de cariz positivista, de que é paradigmática a concepção ideal elaborada por Kautsky, teórico par excellence da Segunda Internacional: uma interpretação evolucionista do processo histórico, de que derivava uma projeção da revolução como lógico, natural e inevitável resultado da dinâmica capitalista. Arquitetura ideal e prática política estavam aqui medularmente vinculadas: o materialismo mecanicista em que se assentava a concepção teórica (que formalmente se intitulava e se pretendia "dialética") fundava uma prática política (que, também formalmente, se apresentava como "revolucionária") de espera pelo dia D em que uma crise econômico-social de monta levaria à ruína necessária do Estado burguês.
A Revolução de Outubro e a conjuntura revolucionária europeia (Alemanha, Itália, Hungria) ― dois momentos de um mesmo processo ― revelaram, com nitidez cristalina, a completa inépcia da versão kautskiana do pensamento marxista e a incapacidade da orientação política dominante na Segunda Internacional, conectada àquela versão, para dirigir a ação revolucionária proletária. O fluxo revolucionário socialista, que vai crescendo até 1920-1921 e reflui em 1923, quando se registra a derrota da revolição alemã, cria as condições para um movimento de crítica radical ao marxismo vulgar, de que a produção mais representativa da Segunda Internacional era exemplar. Com efeito, a colocação, pelo movimento das classes sociais, da revolução socialista proletária na ordem do dia instaura as condições histórico-sociais para o resgate da inspiração teórico-revolucionária marxiana.
Este resgate implicava, todavia, condições também de natureza estritamente teórica ― em especial, e como preliminar, o expurgo da contaminação naturalista-positivista que viciava a vulgarização marxista; para tanto, tornava-se imperativa a restauração da dimensão dialética, componente estrutural do legado marxiano e herança (assumida criticamente por Marx) de Hegel. Ora, poucos eram os teóricos que, formados no eixo da Segunda Internacional, dispunham da cultura teórico-filosófica indispensável para uma empresa de tal porte11 (situação agravada pelo caráter até então inédito de textos marxianos que poderiam estimular diretamente a pesquisa nesse sentido). À parte Lenin12, os pensadores mais dotados que, com níveis de consciência individual muito diferenciados, propuseram-se a resgatar a dimensão dialética da teoria revolucionária marxiana nada incorporavam da ideologia dominante da Segunda Internacional ou de sua atmosfera intelectual ― antes questionavam-na abertamente; e foram três: Lukács, Korsch e Gramsci ― como, aliás, o primeiro deles o assinalou13. Ademais de se educarem politicamente fora dos marcos postos pela Segunda Internacional, tinham substância cultural universitária e sólido conhecimento da tradição hegeliana (caso dos dois primeiros) ou se formaram sob influxos de um diálogo crítico com intelectuais que mantinham relações com Hegel (caso de Gramsci14).
O dilema teórico-político antes referido consistiu exatamente no seguinte: a conjuntura inaugurada pela Revolução de Outubro (1917) permitiu às forças revolucionárias romper politicamente com a inepta estratégia da Segunda Internacional (a estratégia socialdemocrata), assim como o ascenso revolucionário no Ocidente (1918-1923) ofereceu objetivamente as bases sociopolíticas imediatas para o resgate da dialética na tradição marxista. É neste restrito lapso temporal que se criam as condições para elaborações como História e consciência de classe e Marxismo e filosofia e também para os germes que, desenvolvidos irregular e pouco sistematicamente, anos depois configurarão os gramscianos Cadernos do cárcere. Entretanto, o processo de ruptura teórica que estes textos (os de Lukács e Korsch, descontados o destino dos Cadernos sobre a dialética leninianos e o dos Cadernos do cárcere gramscianos, dada a posteridade do registro e, sobretudo, da publicitação do pensamento de Gramsci) inauguraram não foi mais do que um episódio. As condições sociopolíticas que o propiciaram foram revertidas a partir de 1923 ― com a derrota da revolução na Alemanha ― e inteiramente liquidadas na segunda metade da década, quando o isolamento da União Soviética, submetida ao cerco imperialista, a bolchevização da Terceira Internacional e dos partidos a ela ligados levaram ao surgimento do stalinismo. Em poucas palavras: foi brevíssima a conjuntura que poderia permitir uma ruptura, completa e radical, teórica e prático-política, com as hipotecas que comprometiam o marxismo vulgar desenvolvido na/pela Segunda Internacional. O emergente stalinismo e a bolchevização enterraram por décadas o ajuste de contas com as medulares contaminações positivistas e naturalistas que o marxismo vulgar introduziu duradouramente na tradição marxista, e as duas obras de Korsch e Lukács acabaram por permanecer como ícones isolados de uma possibilidade abortada.
3.
O íntimo parentesco da matriz de pensamento desenvolvida por Lukács e Korsch nos começos dos anos 1920 tem vários indicadores indiscutíveis, muito além da tentativa de recuperar a dialética (e, pois, a herança de Hegel) como estruturadores da obra marxiana, com claríssimas incidências no plano prático-político que, de fato, conduziram, à época, a nítidos posicionamentos doutrinários e estreitos ― com tudo se passando, para ambos, como se a revolução, em escala mundial, estivesse em curso (não esquecer que os próprios e principais dirigentes da Revolução Russa inicialmente a descreveram como o "prólogo da revolução mundial"15).
De fato, os dois autores combateram então igualmente em duas frentes: criticaram tanto o marxismo vulgar quanto as alternativas (conservadoras, burguesas) que a ele se contrapunham ― assim, o seu fogo crítico incide, é verdade que diferencialmente, quer sobre o mecanicismo, o naturalismo e o reducionismo das contaminações positivistas na tradição marxista, quer sobre a elaboração burguesa das ciências sociais, notadamente a sociologia em vias de institucionalização acadêmica; e o caráter de suas críticas é muito similar. Contudo, o trato do marxismo vulgar, tanto em Korsch como em Lukács, não se volta apenas contra o passado (a Segunda Internacional): ambos se confrontam com a sua continuidade contemporânea, no interior mesmo da Internacional Comunista ― de que é prova inconteste o rechaço que ambos manifestam em face do Tratado de materialismo histórico, de Bukharin16.
Mas é preciso salientar que os dois autores, lavrando na mesma seara que colidia frontalmente com a herança teórica e política da Segunda Internacional (e não só com ela), e sendo igualmente combatidos pela "nova ortodoxia comunista" (tal como, a nosso juízo impropriamente, Korsch designará o dogmatismo do marxismo tornado ideologia oficial), não produziram obras comparáveis. O lugar comum segundo o qual História e consciência de classe e Marxismo e filosofia constituem as "obras malditas do marxismo do século XX", se tem procedência ao indicar ― além de suas bases teóricas similares e algumas de suas implicações prático-políticas aproximadas ― o verdadeiro exílio a que elas foram condenadas na tradição marxista, esse lugar comum também pode induzir a colocá-las no mesmo nível teórico. Uma tal equalização é despropositada: Marxismo e filosofia carece da exaustiva fundamentação filosófica sobre a qual se ergue História e consciência de classe17; sobretudo, há algo que as distingue essencialmente: a apreensão das mediações entre teoria e práxis (nomeadaemnte a práxis política revolucionária)18.
Concordando-se ou não com as complexas mediações que o Lukács de 1923 leva em consideração entre estes dois níveis ― e não esquecer que, polêmicas e problemáticas, tais mediações conferiam ao Partido Comunista, claramente pensado à moda de Lenin, um estatuto privilegiado ―, o fato é que, na estrutura teórica de História e consciência de classe, sistemas de mediações entre teoria e práxis, consciência e ser, ideologia e ação político-interventiva são centrais. E aquilo de que carece, justamente, a reflexão korschiana de 1923 é, na consideração da relação entre teoria e práxis, a apreensão e a ponderação das mediações.
4.
Contundente e apaixonado, o ensaio de Korsch, escrito na maturidade dos seus 37 anos, é o que de mais seminal ele produziu em sua vida. Apóia-se numa tese central: a de que a debilidade prático-política revelada pela capitulação socialdemocrata do 4 de agosto de 1914 ― quando, no dizer de Rosa Luxembur, a socialdemocracia "tornou-se um cadáver malcheiroso" ― manifestou mais do que inépcia política ou traição (sem, naturalmente, excluí-las); trazendo à luz uma tendência perceptível há décadas, tinha raízes teóricas, condensadas no abandono da dialética materialista de Marx-Engels ― abandono devido à incompreensão, própria do marxismo vulgar, da relação entre a ciência fundada pelos dois pensadores e a filosofia.
Com a revolução na ordem do dia (1917 = "prólogo da revolução mundial"), a problematização desenvolvida por Kosch, sem substimar seu nível teórico, é medularmente política: trata-se de adequar a teoria do proletariado à sua práxis, que, neste momento, é práxis política revolucionária. Mais: trata-se de fazer a teoria constituir-se como se constituiu originalmente em Marx-Engels ― como expressão (teórica) do movimento revolucionário do proletariado. E a condição elementar para tanto consiste em trazer à teoria a dialética que, posta a atualidade da revolução, estava no primeiro plano da realidade histórica. Se já se determinara que não há política revolucionária sem teoria revolucionária19, em Korsch se determina que o caráter revolucionário da teoria está hipotecado ao seu método/conteúdo dialético ― e, para garantir este caráter, a ciência fundada por Marx-Engels ainda não prescinde da filosofia (de uma filosofia determinada), ainda (quando a revolução mundial está no seu "prólogo" ― depois tudo se transformará, até as ciências matemáticas!) é, também ela, a seu modo, filosofia20.
O leitor acompanhará a argumentação de Korsch, as suas inúmeras digressões, as inferências e ilações que extrai e/ou desenvolve ao longo do ensaio. Não cabe aqui sumariá-las. Mas este é o lugar para ressaltar que a relação teoria/práxis é posta por Korsch como uma relação imediata e direta: seu texto não deixa dúvidas quanto a este ponto. Se ele busca mediações entre a filosofia de Hegel e a revolução burguesa21, não o faz com os mesmos cuidado e rigor quando busca pensar o marxismo, especialmente o que lhe era contenporâneo; se pesquisa medações, para ser consequente com a afirmação hegeliana que tanto aprecia (a filosofia vista como "a sua época apreendida pelo pensamneto") quando trata da relação filosofia burguesa/realidade, no caso do marxismo contenta-se com a efetiva abstração segundo a qual a "nova ciência de Marx e de Enhels" é a "expressão geral do movimento revolucionário autônomo do proletariado". Esta concepção não é exclusiva da argumentação central de Marxismo e filosofia: é a concepção de Korsch dos anos 1920 ― reafirmada noutro texto, de março de 1923, em que o "socialismo científico" é identificado à "consciência de classe organizada do proletariado"22. Não há equívoco nessas abstrações, mas lhes falta a concreção que as tornaria verdadeiras. Substantivamente, Korsch acaba por pensar a teoria (de Marx-Engels) não mais que como a expressão ― racional e científica ― da práxis.
Do ponto de vista teórico, a mais evidente consequência necessária dessa concepção é, no limite, uma distinção puramente formal entre teoria e práxis ou, ainda, a dissolução da peculiaridade teórica na práxis. Uma tal concepção redutora da teoria, além de implicações específicas, limita compulsoriamente a compreensão das instãncias mediadoras da práxis política ― não é casual que Marxismo e filosofia não pronuncie uma só palavra sobre a problemática da organização do proletariado revolucionário, uma só frase sobre o partido revolucionário (sua natureza, sua estrutura, sua função, seus limites etc.)23.
5.
Mas este ensaio de Korsch é, como referimos, seminal ― nele comparecem, ainda que sem desdobramentos intensivos, algumas ideias absolutamente fecundantes, à época e depois (sejamos diretos: atuais hoje), para o desenvolvimento da tradição marxista. Três delas, entre outras, merecem a atenção do leitor.
A primeira diz respeito à concepção da obra marxiana como exemplar de uma sólida e coerente unidade. Mesmo assinalando inflexões na constituição do pensamento de Marx (e de Engels), sublinhando alterações, enfatizando giros ― por exemplo, a diferença introduzida na reflexão de Marx pela descoberta da relevância da crítica da economia política na análise social ―, Korsch sustenta a inteireza unitária (não identitária) da teoria social de Marx.
Em segundo lugar (e, de alguma forma, em estreita relação com o anterior), a claríssima recusa de compatibilizar esta teoria social com os "recortes epistemológicos" que passaram a fundar (e legitimar) as ciências sociais. Há, em Marxismo e filosofia, uma concepção de fundo ― mais que argumentos ― para demosntrar a genética relação de exclusão entre a "ciência do proletariado" e a discursividade das disciplinas sociais aurônomas e parcelares.
Em terceiro lugar, Korsch contribui decisivamente para esclarecer a relação Marx-Engels: são fundamentais as suas observações acerca, de uma parte, da indescartabilidade da filosofia hegeliana para a constituição da nova dialética de Marx e, de outra, do caráter extremamente complexo das operações teórico-críticas que permitiram a Marx fundar uma "nova ciência", reduzindo a pó a vulgarização relativa à mera "inversão" materialista.
A evolução teórico-política de Korsch após a sua ruptura com as organizações políticas do movimento comunista não o levou a um imediato afastamento do núcleo teórico que explicitou em Marxismo e filosofia. Ao contrário,na sua "Anticrítica", procura defendê-lo, ao mesmo tempo em que revisa radicalmente a sua relação com Lenin24 e se distancia politicamente da experiência soviética. Mas, a pouco e pouco, a partir de meados dos anos 1930, Korsch foi abrindo um fosso entre sua reflexão e a tradição marxista (o seu Karl Marx já o indica): aquele distanciamento político foi se acentuando fortemente, derivando num obsessivo anti-sovietismo e, no plano teórico, resultou numa completa minimização do contributo de Marx e de Engels à causa socialista25.
Levando em conta esta evolução, um marxista do calibre de Hobsbawm não hesita em afirmar, depois de reconhecer a importãncia de algumas das formulações de Korsch em 1923, que, "definitivamente, não há uma razão fundamental, hoje, pela qual devêssemos lê-lo"26. Permitimo-nos discordar do historidor ilustre, recordando a notação de Lukács, feita em março de 1967, acerca da representatividade do seu História e consciência de classe: "Um poderoso momento histórico de transição debatia-se então [à época da redação do livro] por sua expressão teórica. Mesmo quando uma teoria não expressava a essência objetiva da grande crise, mas apenas uma tomada de posição típica diante dos seus problemas fundamentais, ela ainda podia adquirir um certo significado histórico. Esse era o caso, creio hoje, de História e consciência de classe"27. A notação cabe, como uma luva, também para Marxismo e filosofia: para além de seus méritos singulares (configuradores de sua seminalidade), o ensaio korschiano de 1923 dispõe da representatividade que só as raras obras, e os raros autores, que protagonizaram o dilema da ruptura teórica e prática com o marxismo vulgar possuem ― e por esta representatividade e pela persistência do dilema vale a pena ser lido.
6.
A presente tradução de marxismo e filosofia não é a primeira em português: há mais de trinta anos, esta obta de Korsch teve uma edição lusitana, desde muito esgotada28.
A versão que agora se publica no Brasil ― e em que se procurou preservar as marcas estilísticas próprias de Korsch que, todos reconhecem, não é propriamente um escritor de prosa cristalina29 ― teve por base a edição francesa (K. Korsch. Marxisme et philosophie. Paris: Minuit, 1968, tradução de Claude Orsoni), cotejada com a edição alemã (K. Korsch. Marxismus und Philosophie. Frankfurt: Eueopäische Verlagsantalt, 1966). Mas, ressalte-se, o conteúdo do volume que o leitor tem em mãos difere tanto da edição alemã quanto do da edição francesa (e, ainda, da já mencionada lusitana) no que toca não só aos capítulos30, mas também ao fato de que invertemos a ordem de apresentação da Anticrítica, pospondo-a ao ensaio Marxismo e filosofia. Esta inversão restabelece a ordem cronológica dos dois textos e nos parece mais favorável à compreensão da polêmica expressa na Anticrítica.
Quando possível, as referências bibliográficas e textuais de Korsch ― nem todas completas e suficientes ― foram remetidas a versões já existentes em português, indicadas por nós entre colchetes (aliás, todas as notas entre colchetes são da nossa responsabilidade); mas cumpre observar que a sua tradução nem sempre coincide exatamente com a apresentada nas versões referidas. Para maior clareza, por vezes repetimos a fonte de Korsch, mesmo quando não houvesse necessidade de fazê-lo. E sempre que um título em alemão aparece pela primeira vez, ele foi traduzido.
Importante assinalar que, originalmente, Marxismo e filosofia não tinha as cacterísticas com que hoje se apresenta ao leitor: o ensaio, como já dissemos, um texto de cerca de meia centena de páginas, teve a sua primeira publicação no número 2, de 1923 do Archiv für die Geschichte des Sozialismus und der Arbeiterbewegung (Arquivo de História do Socialismo e do Movimento dos Trabalhadores), de Grünberg, e, no mesmo ano, uma edição autônoma em brochura31. A "Anticrítica", redigida em 1929, só passou a fazer parte de Marxismo e filosofia em 1930, quando Korsch publicou, através do editor C. L. Hirschfeld (Leipzig), a segunda edição.
A presente tradução ― para a qual foi inestimável a colaboração de Carlos Nelson Coutinho ― tem um expreso objetivo: contribuir para tornar acessíveis a um maior número de leitores um pensador e uma obra que, sem dúvidas extremamente problemáticos, também sem dúvidas permanecem seminais para todos aqueles que se confrontam com a sociedade do capital e, neste confronto, querem valer-se do acervo da tradição marxista.
Notas:
1 Da larga bibliografia sobre o marxismo ocidental (e seus representantes), refira-se, ilustrativa e aleatoriamente: N.McInnes, The Western Marxists (Londres: Alcove Press, 1972); G. S. Jones et al., Western Marxism: A Critical Reader (Londres: Verso, 1978); R. Jacoby, Dialectic of Defeat (New York: Cambridge University Press, 1981); J. G. Merquior, O marxismo ocidental (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987); K. Anderson, Lenin, Hegel and the Western Marxism (Chicago: University of Illinois Press, !995); P. Anderson, Considerações sobre o marxismo ocidental. Nas trilhas do materialismo histórico (São Paulo: Boitempo, 2004).
2 No longo discurso inaugural de Zinoviev, esta parte (que reservava ataques também ao italiano A. Bordiga) intitula-se "A luta contra o ‘ultra-esquerdismo’ e io revisionismo teórico"; toda ela encontra-se reproduzida em Peter Ludz, org., Georg Lukács: Schiriften zur Ideologie und Politik (Newied-Berlim: Luchterhnd, 1967, p. 719-726).
3 Redigido provavelmente entre 1923 e 1926, o material referido só veio à luz postumamente (em 1996), sendo vertido ao inglês pouco depois ― ver G. Lukács, A Defense of History and Class Consciousness. Talism and the Dialectic (Uma defesa de História e consciência de classe. Reboquismo e dialética) (Londres: Verso, 2000). A visão retrospectiva do teórico húngaro sobre História e consciência de classe e a sua cuidadosa autocrítica podem ser lidas especialmente no texto que escreveu em 1967 para a primeira reedição autorizada da obra ― disponível em G. Lukács: História e consciência de classe (São Paulo: Martins Fontes, 2003) ― mas há também elementos em pertinentes em G. Lukács, Pensamento vivido. Autobiografia em diálogo (São Paulo: Ad Hominem; Viçosa: editora da Universidade Federal de Viçosa, 1999).
4 A partir de finais dos anos 1960, a divulgação de textos de Karl Korsch (muitos deles até então praticamente inacessíveis, ademais de outros inéditos) veio crescendo; as edições mais autorizadas são as que, nos volumes da sua Gesamtausgabe, faz a Europäische Verlagsanstalt (Frankfurt) desde 1980. Paralelamente, a bibliografia sobre ele registrou notável aumento ― os títulos têm se multiplicado, na Europa e nos Estados Unidos. As poucas indicações seguintes podem oferecer ao leitor interessado várias fontes para avançar no conhecimento do autor:
a) textos dedicados especialmente a Korsch: C. Pozzoli (org.), Über Karl Korsch (Frankfurt: Fischer, 1973); P. Goode, Karl Korsch: A Study in Western Marxism (Londres: Macmillan, 1979); M. Buckmiller (org.), Zur Aktualität von Karl Korsch (Frankfurt: Europäische Verlagsanstalt, 1981);
b) textos em que há significativas considerações sobre Korsch: G. Vaca, Lukács o Korsch? (Bari: De Donato, 1969); A. Arato e P. Breines, The Young Lukács and the Origins of Western Marxism (New York: The Seabure Press, 1979); E. J. Hobsbawm, Revolucionários. Ensaior contemporâneos (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982); M. Jay, Marxism & Totality. The Adventures of a Concept from Lukács to Habermas (Berkeley-Los angeles: University of California Press, 1984); L. Kollakowski, Las principales corrientes del marxismo. III. La crisis (Madri: Alianza, 1985); L. Sochor, "Lukács e Korsch: a discussão filosófica nos anso 20", em E. J. Hobsbawm (org.), História do marxismo (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, v.9);
c) textos de introdução a obras de Korsch: K. Axelos, apresentação a Korsch, Marxisme et philophie (Paris: Minuit, 1964); E. Gerlach, introdução a K. Korsch, Marxismus und Philosophie (Frankfurt: Europäische Verlag, 1966); F. Halliday, introdução a K. Korsch, Marxism and Philosophy (Londres: new Luft Books, 1970); A. Sánchez Vázquez, prólogo a K. Korsch, Marxismo y filosofia (México, D.F.: Era, 1971); S. Bricianier, apresentação a Karl Korsch, Marxisme et contre-revolution dans la prière moitié du XXe. siécle (Paris: seuil, 1975); D. Kellner, introdução a K. Korsch, Karl Korsch: Revolutionary Theory (Austin: University of Texas Press, 1977).
Na revista Telos, editada nos Estados Unidos (em Saint Louis) por Paul Piccone, encontram-se, nos números 26 (inverno de 1975-1976), 27 (verão de 1976) e 34 (inverno de 1977-1078), substantivos materiais sobre Korsch.
5 Esta universidade ― aliás, aquela à qual Marx apresentou, em 1841, a sua dissertação sobre a diferença entre as filosofias da natureza de Demócrito e Epicuro ―, a que Korsch, em 1923, retornará como professor, foi caracterizada por Hobsbawm como "ultradireitisra" (ver Revolucionários… ed. cit., p. 157).
6 Embora vinculado ao pensamento conselhista, a contribuiçpão teórica de Korsch a esta corrente comunista não tem a densidade daquela oferecida por autores como Max Adler ― Démocratie et conseils ouvriers (Paris: Maspero, 1967) ― e Paul Mattik ― Integração capitalista e ruptura operária (Porto: A Regra do Jogo, 1977). Ver, também, C. Coller e C. Smith (org.), La contre-révolution bureaucratique (Paris: UGE, 1973); A. Pannecköek et al., Conselhos operários (Coimbra: Centelha, 1975); P. Mattick et al., Comunistas de conselhos (Coimbra: Centelha, 1976).
7 Obra reeditada somente um quarto de século depois: K. Korsch, Karl Marx (New York: Russel, 1963).
8 No volume La contre-révolution bureaucratique, citado na nota 6, estão reunidos textos de K. Korsch, P. Mattick, A. Pannekoek, O. Rühle e H. Wagner, publicados em algumas das revista acima referidas, bem como informações sobre elas. É interesante observar que, nos primeiros anos de seu exílio americano, Korsch colabora com Kurt Lewin e com ele publica um ensaio sobre modelos matemáticos em psicologia e sociologia.
9 O periódico Archiv für die Geschichte des Sozialismusb und der Arbeiterbewegung (Arquivo de História do Socialismo e do Movimento dos Trabalhadores), que circulou entre 1911 e 1930, e que se tornou conhecido simplesmente como Grünbergs Archiv (Arquivo de Grünberg), era editado em Leipzig por Hirschfeld, e nele também foram publicados textos de Lukács (por exemplo, o ensaio "Moses Hess e o problema da dialética idealista"). Recorde-se que Carl Grümberg (1861-1940), professor da Universidade de Viena na última década do século XIX, assumiu em 1924 a direção do Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt (da qual se afastou em 1928, por razões de saúde); a relação entre Grümberg e o instituto (que patrocinará a "Escola de Frankfurt") é sumariada por Phil Slater no primeiro capítulo de Origem e significado da Escola de Frankfurt (Rio de Janeiro: Zahar, 1978).
10 O opúsculo só ganhará mais corpo quando, reeditado em 1930, Korsch lhe acrescentar a "Anticrítica".
11 Talvez Franz Mehring (1846-1919) constituísse, aqui, um caso particular de alta qualificação intelectual. De todo modo, sua morte torna especulativa qualquer hipótese acerca de um eventual protagonismo seu numa empresa como essa.
12 O único remanescente da Segunda Internacional que se mostrou qualificado para isso foi Lenin; prova-o a sua verdadeira descoberta de Hegel no exílio suíço, registrada nas reflexões que constituem os seus Cadernos sobre a dialética, um deles tomando como objeto específico a Lógica hegeliana (sob o título (sob o título de "Conspecto do livro de Hegel Ciência da lógica"; este exercício leniniano está disponível no tomo 6 das suas Obras escolhidas em seis tomos (Lisboa: Avante!; Moscou: Progresso, 1989, p. 89-212). Mas este material ― que traz à luz um pensador inteiramente diverso daquele que se identifica em Materialismo e empirocriticismo e que, ademais, é um pressuposto teórico de O Estado e a revolução ― permaneceu inédito até 1929, e Korsch, portanto, desconhecia-o à época da redação de Marxismo e filosofia, e, provavelmente por não ter tido acesso a ele, não o considerou quando da preparação da sua "Anticrítica". A importância prático-política da leitura de Hegel por Lenin, no seu exílio, é posta em relevo num breve ensaio de M. Löwy ― "Da grande lógica á estação Filândia" ―, inserto em seu livro Método dialético e teoria política (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975). A linha de pensamento inscrita nos Cadernos… leninianos, porém, não haveria de florescer no clima intelectual que se instautou sob Stalin.
13 "Nos anos vinte, Korsch, Gramsci e eu tentamos, cada qual seguindo seu próprio caminho, enfrentar o problema da necessidade social e da sua interpretação mecaniscista que constituía a herança da Segunda Internacional. Herdamos o problema, mas nenhum de nós ― nem mesmo Gramsci, talvez o mais dotado dos três ― o resolveu" (entrevista de Lukács à New Left Review, n. 68, July 1071, reproduzida no volume organizado por M. Löwy: G. Lukács. Littérature, philosophie, marxisme. Paris: PUF, 1978, p. 158).
14 Por razões históricas sobejamente conhecidas, o impacto teórico-político do pensamento de Gramsci ― diferentemente do de Lukács e de Korsch ― será muito mais tardio.
15 Rememorando o clima político da época, Lukács observou: "Considero essencial o fato de que éramos todos sectários messiânicos. Acreditávamos todos na revolução mundial como num fato para acontecer amanhã" (Pensamento vivido… ed. cit., p.77).
16 A crítica de Lukács, muito mais desenvolvida do que a de Korsch, foi publicada no Archiv de Grünberg (n. 11, 1923), e pode ser lida em Antonio Roberto Bertelli (org.), Bukhárin, teórico marxista (Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1989, p. 41 e ss.). recorde-se que Gramsci também criticou o mesmo livro de Bukhárin ― ver A. Gramsci, Cadernos do cárcere (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999, v. 1, p. 114 e ss.). Por outro lado, não se esqueça o juízo de Lenin sobre o autor, anotado antes da publicação do Tratado…: "Bukharin não é somente um teórico muito valioso e importanto do Partido; [...] mas seus conceitos teóricos só podem ser classificados de plenamente marxistas com grande reserva porque há nele algo de escolástico (nunca estudou dialética e, penso, nunca a entendeu de todo)" (trecho do "testamento" de Lenin, com itálicos não originais). Ver Antonio Roberto Bertelli, Capitalismo de Estado e socialismo. O tempo de Lenin. 1917-1927 (São Paulo: IPSO_IAP, 1999, p. 87).
17 E ― faça-se justiça ao autor ― Korsch, como verificará o leitor desta obra, jamais ignorou essa diferença.
18 Um dos analistas que mais enfatizou este ponto crucial foi Sánchez Vásquez (ver o seu prólogo a Marxismo e filosofia, citado na nota 4).
19 Lenin, já em Que fazer?, anotara que "sem teoria revolucionária não pode haver também movimento revolucionário" (ver Obras escolhidas em três tomos. Lisboa: Avante!; Moscou: Progresso, 1977, v. 1, p. 96-97).
20 A observação sobre a matemática está num texto que precede a Marxismo e filosofia (ver, infra, o capítulo "A comcepção materialista da história", de 1922); quanto à filosofia, como Korsch nota depois da publicação de Marxismo e filosofia, no comunismo ela não será mais que "um ponto de vista ultrapassado" (ver, infra, o capítulo "A dialética materialista", de 1924); há plena continuidade entre essas considerações e o núcleo teórico de Marxismo e filosofia.
21 Há diferenças entre a apreciação de Korsch sobre a filosofia de Hegel em Marxismo e filosofia e aquela que ele enuncia após a Segunda Guerra Mundial, expressa numas sumárias "Teses sobre Hegel e a revolução" (reproduzidas no número 16, de 1959, da revista parisiense Arguments).
22 Ver, infra, o capítulo "A dialética de Marx".
23 Quanto a isso, é flagrante a diferença, que já sugerimos, entre Marxismo e filosofia e História e consciência de classe.
24 Assim, aquiele que no texto de 1923, aparecia como "fiel discípulo de Marx", o "arguto crítico", "o cérebro da revolução proletária na Rússia" etc., surge agora, na "Anticrítica", quase como um delinquente filosófico. Mas o ressentimento que brota dessas páginas, publicadas na segunda edição (1930) de Marxismo e filosofia, não deve obscurecer o fato de que Lenin de Materialismo e empirocriticismo merece críticas substantivas.
25 Minimização evidente, por exemplo, na segunda das suas "Dez teses sobre o marxismo hoje" (igualmente publicadas em Arguments, cit., supra, na nota 21), que reza: "Todas as tentativas para restaurar a doutrina marxista como um todo e em sua função original de teoria da revolução social da classe operária são atualmente utopias reacionárias". Mas cumpre observar que Martin Jay, em nota ao seu Marxism & Totality (cit., p. 147), remete a uma entrevista de Hedda Korsch, concedida a New Left Review (n. 76, Nov.-Dez. 1972), segundo a qual Korsch nunca rejeitou completamente o marxismo.
26 E. Hobsbawm, Revolucionários…, ed. cit., p. 162. Outro marxista, o já citado Sánchez Vázquez, mesmo observando que o Korsch dos últimos anos estava, como pensador, em "ruínas", considera, ao contrário, que muito da crítica korschiana "não perdeu a sua validez em nossos dias" (ver o prólogo citado na nota 4, p. 13 e 18).
27 G. Lukács. História e consciência de classe. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 28-29.
28 K. Korsch. Marxismo e filosofia. Porto: Afrontamento, 1977, tradução de Antonio Sousa Ribeiro.
29 Observa o responsável pela versão francesa que, em Marxismo e filosofia, "o pensamento só se deixa apreender através de frases intermináveis, nas quais a proliferação de advérbios, adjetivos e qualificativos de todas as espécies e a repetição excessiva dos termos constituem, de qualquer modo, o preço dos esforços do autor para conferir a mais exata expressão à nuance mais sutil" (K. Axelos, cit., p. 18). E anota outro conhecedor da obra de Korsch: "O estilo tumultuado de Korsch torna por vezes difícil acompanhar o curso de suas considerações" (L. Sochor, cit., p. 62).
30 O artigo "Lenin e a Internacional Comunista", de 1924, não procede das duas fontes citadas: foi traduzido a partir da edição que teve em K. Korsch. Marxismo y filosofia (México, D.F.: Era, 1971).
31 É ao epílogo desta edição que Korsch se refere na "Anticrítica", ao mencionar seu acordo com Lukács (ver, neste volume, p. 85).
Tradução, José Paulo Neto.
Fonte: http://socialismo.org.br/