Monthly Archives: abril 2011

A guerra na Líbia e o aprofundamento do conflito interimperialista

A declaração conjunta sobre a Líbia divulgada na última quinta-feira pelo presidente dos EUA, Barack Obama, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, e o primeiro-ministro britânico, David Cameron, não só acirra a guerra como intensifica as divisões dentro da Europa que estão por trás da operação neocolonial no norte da África.

Alex Lantier e David North

Enquanto a guerra é vendida como um empreendimento “humanitário”, pouca ou nenhuma atenção é dada – ao menos publicamente – à disputa cada vez mais amarga entre França, Grã-Bretanha e Estados Unidos, de um lado, e, do outro, Alemanha.

A característica mais marcante da declaração conjunta é o fato de não ter sido feita pela União Europeia ou pela OTAN. Do contrário, a declaração apareceu em francês e inglês, sob autoria do presidente Sarkozy, do premiê britânico Cameron e do presidente americano Obama, não incluindo a assinatura da chanceler alemã, Angela Merkel, cujo governo havia se abstido anteriormente na resolução que autorizava o primeiro ataque à Líbia. E, no entanto, essa declaração expande consideravelmente os objetivos de guerra das potências participantes – desde a defesa aos civis à política de troca de regime na Líbia. Intitulada “O bombardeio prossegue até a saída de Gaddafi”, e publicada no Washington Post, no Times de Londres, no Le Figaro, no International Herald Tribune e no al-Hayat, a declaração proclama que “é impossível imaginar um futuro para a Líbia com Gaddafi no poder”. O texto despreza qualquer outro desfecho para o conflito como uma “traição”.

O distanciamento entre a Alemanha e a França é de maior importância, uma vez que os dois países cumpriram historicamente papel principal na criação do cenário político do pós Segunda Guerra na Europa e são as maiores economias que usam o Euro, a moeda comum europeia.

Embora muitos observadores expressaram surpresa em relação à abstenção do governo alemão na votação do mês passado, ela foi uma sequência lógica das diferenças que haviam se expressado anteriormente, quando a Alemanha se opôs aos esforços de Sarkozy de construir uma união mediterrânea (UM) dominada pela França. Sarkozy propôs pela primeira vez criar a organização durante sua campanha eleitoral de 2007.

Berlim criticou a proposta como sendo uma iniciativa independente, feita por fora de um contexto europeu e concebida nos interesses da França. Como foi delineada a princípio, teria incluído apenas países com costa mediterrânea – excluindo a Alemanha, Grã Bretanha e Escandinávia, teria providenciado subsídios financeiros e um fórum privilegiado para as negociatas da França, não apenas com suas ex-colônias na Tunísia, Argélia e Marrocos, mas também com parceiros comerciais chaves da Alemanha na Turquia e nos Bálcãs.

Sarkozy calculou que a nova união iria ampliar a influência estratégica da França ao mesmo tempo em que produziria enormes lucros sobre as costas dos trabalhadores do Mediterrâneo europeu e árabe. Enquanto os déficits comerciais da França com a Alemanha aumentavam, economistas e políticos franceses esperavam que esses planos de UM ajudariam a França a implementar políticas de colaboração industrial e de terceirização com os países mediterrâneos e ajudá-los a competir com empresas alemãs.

O estamento político do Norte Europeu opôs-se aos planos de Sarkozy de “jogar milhões frescos no mar em direção ao sul”, nas palavras do jornal suíço Neue Zürcher Zeitung. Merkel persuadiu Sarkozy a deixar todos os países da UE adentrar a UM em março de 2008.

Na edição de março do Mediterranean Politics, Tobias Schumacher do Instituto Universitário de Lisboa explicou as objeções alemãs:

“Merkel argumentou que a criação de uma UM que incluísse apenas países de costa mediterrânea teria o potencial de colocar em movimento forças gravitacionais dentro da UE que poderiam gerar um processo de fragmentação e, eventualmente, desintegração. Ela lembrou Sarkozy, e assim todos os outros governos da UE, que o uso de fundos da UE para fins exclusivamente nacionais não poderia ser justificado. Muito ciente de que esses argumentos causariam preocupações nos governos de outros membros da UE, ela mal perdeu ocasião de dar seu recado, com o fim de aproximar percepções potencialmente diferentes entre si e assim sinalizar a outros países com potencial de veto que a Alemanha estava determinada a se opor a qualquer proposta baseada na exclusão de alguns membros da UE. Obviamente, essa estratégia foi pensada na intenção de fazer Merkel aparecer como defensora do “bem comum”, i. e., da própria existência da integração europeia e da UE. Por outro lado, as razões por trás dessa estratégia eram as de prevenir a França de se transformar a primus inter pares em questões de política exterior e assim subestimar o papel da Alemanha como ator principal dentro da UE e fazer ressurgir ambições coloniais da França”.

Sintomaticamente, Gaddafi foi outro opositor assumido dos planos de Sarkozy sobre a UM. Ele chamou a iniciativa de “um insulto” que os estavam “tratando como bobos” e insistiu que as potências europeias “consultem Cairo e Addis Abeba”, a sede da Liga Árabe e da União Africana, respectivamente.

Aparentemente prevendo os grandes interesses e perigos envolvidos em tais planos, Gaddafi voltou atrás nos planos de compras multibilionárias de jatos franceses Rafale. Isso inflamou ainda mais os ânimos do governo francês, que estava desesperado para vender os aviões.

Depois do colapso hipotecário americano, os descompassos financeiros dentro da Europa levaram a uma crise de dívida que começou na Grécia em 2009. As tensões aumentaram quando potências europeias guerrearam acerca de políticas econômicas e concessões a seus respectivos bancos. Após um encontro em maio passado, no qual Sarkozy teria ameaçado a retirar a França do Euro a fim de forçar a Alemanha a contribuir para o fundo de resgate, o presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet disse que a Europa se encontrava diante da “situação mais complicada desde a Segunda Guerra Mundial”.

A pesar do desgosto francês perante a derrubada do regime de Ben Ali na Tunísia em janeiro, a tensão contínua no Egito e ao redor do Oriente Médio deu a Sarkozy uma oportunidade. Ele se agarrou às revoltas na Líbia como um meio de avançar os mesmos interesses franceses no Norte da África que haviam sido antes bloqueados pela Alemanha. No dia 10 de março, Sarkozy se tornou o primeiro líder de Estado a reconhecer o Conselho de Transição Nacional com base em Benghazi como o governo líbio, em seguida pressionando uma resolução do Conselho de Segurança da ONU para autorizá-lo a entrar em guerra com Gaddafi.

Enquanto jogava esse jogo, Sarkozy sabia que ele poderia contar com a fraternidade de partidos da pseudoesquerda, como o Partido Socialista, o Novo Partido Anticapitalista e as organizações ambientalistas para beatificar uma guerra imperialista enquanto um exercício humanitário da proteção da vida de civis. Com sua típica combinação de trapaça e estupidez, esses partidos obedeceram, expondo seu papel de engrenagem na máquina de propaganda imperialista.

É difícil acreditar, porém, que os governos ocidentais possam ter sido tão cegos em relação às implicações históricas mais amplas de suas ações. Por sua vez, a Grã-Bretanha encorajou as ambições de Sarkozy a fim de desvencilhar a França de seus laços com a Alemanha e subestimar a influência política desta. Washington, ao consentir com o ataque francês à Líbia, calcula que não deverá enfrentar oposições da França a futuras incursões militares americanas.

A frente comum que o ex-secretário de defesa, Rumsfeld, satirizava como “Velha Europa” se quebrou. Porém, isso não significa que Obama refletiu até o fim sobre as implicações de seu apoio aos planos de Sarkozy. Ao participar de uma guerra publicamente rejeitada por Berlim, Washington fez tudo menos repudiar sua política de longas décadas de manutenção da unidade política e militar da Europa Ocidental. Está exacerbando tensões intraeuropeias em um continente já despedaçado por conflitos sobre políticas econômicas. Como aconteceu no passado, a Alemanha – temendo que seria manobrada e isolada por seus adversários históricos – buscará outros meios de proteger seus interesses. Mais uma vez, Washington desencadeou eventos que terão consequências desastrosas.

A guerra na Líbia é apenas mais uma jogada no tabuleiro de xadrez imperialista. Porém, aqueles que agora conduzem a guerra não jogam com peças de madeira, mas com a vida de milhares de pessoas na Líbia e ao redor do mundo. Com este impacto de longo alcance na estabilidade geopolítica da ordem capitalista internacional, a guerra prepara o terreno para conflitos cada vez maiores e devastadores.

[Traduzido por movimentonn.org]

Fonte: http://www.wsws.org/

Novos caminhos de Cuba

O 6º Congresso do Partido Comunista Cubano, recém-terminado, trouxe grandes novidades e desafios para os rumos do país.

Marco Piva

O 6º Congresso do Partido Comunista Cubano, recém-terminado, trouxe grandes novidades e desafios para os rumos do país. Parece que a resistência de setores duros da revolução foi quebrada diante da realidade econômica e da necessidade de oxigenar politicamente a sociedade. Todos os discursos mantiveram a profissão de fé no socialismo, mas se sabe que daqui para a frente o jogo será outro, com inflexões duríssimas ao formato histórico ali aplicado.

Ao ampliar as possibilidades de investimento estrangeiro no setor da cana-de-açúcar, os dirigentes cubanos sinalizam que até mesmo uma atividade umbilicalmente ligada à história do país sofrerá grandes transformações. Basta citar que Cuba saiu da condição de segundo maior produtor mundial de açúcar na década de 70 para integrar o time das nações importadoras de açúcar. Para uma nação que chegou à marca de oito milhões de toneladas de cana por ano, é preocupante ver imensas áreas de plantio ociosas ou abandonadas e uma produção que mal ultrapassa dois milhões de toneladas (safra 2010/2011). A saída é incrementar a participação das cooperativas privadas na exploração da terra e permitir sociedades cada vez mais flexíveis com empresas estrangeiras.

Outro desafio a curto prazo, talvez o maior deles depois do congresso, é a dispensa de 500 mil trabalhadores do setor público. Para um país de 11 milhões de habitantes se trata de um contingente nada desprezível que terá que buscar formas alternativas de sobrevivência num país sem muitas opções de emprego.

No campo político, Fidel Castro renunciou ao cargo de primeiro-secretário do comitê central, o que era esperado desde que uma doença ainda não bem esclarecida o derrubou há cinco anos. Junto com ele se aposentam alguns comandantes da revolução e isto abre espaço para a promoção de novos líderes, gente que sequer havia nascido em 1959. Os cargos de direção do Estado e do partido também não serão mais eternos. Mandatos de cinco anos, com direito a uma reeleição. Caberá a Raúl Castro a missão de compatibilizar uma transição histórica de liderança, calibrando o discurso dos ideais revolucionários e socialistas com a realidade do cotidiano do povo. Se a história o absolverá ou não, ainda é cedo para dizer.

Marco Piva é jornalista especializado em política internacional e colunista do ABCD Maior.

Fonte: http://www.revistaforum.com.br/

Cultura de margem e cultura oficial

Documentário de Régis Sauder questiona o que separa as escolas ricas de Paris dos bairros populares da periferia de Marselha

Bruno Carmelo

Talvez hoje em dia a escola francesa seja identificada fora do país pelo multiculturalismo exemplar de Entre os Muros da Escola, filme premiado dirigido por Laurent Cantet, que recriava artificialmente, numa única sala de aula, todas as contradições sociais que serviam ao diretor e ao discurso questionador da obra.

Existem no entanto outras visões, muito mais focadas nos guetos e micro-comunidades presentes na França. A periferia das grandes cidades é geralmente marcada por uma grande exclusão e marginalidade, não só econômica mas principalmente cultural e religiosa.

Contra o cristianismo majoritário no Brasil, por exemplo, as periferias francesas constituem encontros entre o catolicismo, o islamismo da África negra, o islamismo árabe médio-oriental ou magrebino, o judaísmo, budismo… na periferia de Paris, por exemplo, mais de um terço dos moradores é muçulmano.

Neste contexto, o documentário Nous, Princesses de Clèves (“Nós, Princesas de Clèves”) questiona não a sociedade inteira representada na sala de aula de Cantet, mas justamente o que separa as escolas ricas de Paris dos bairros populares da periferia de Marselha. O foco é portanto a relação com a educação, e principalmente com o livro-título, considerado o primeiro romance moderno francês e foco de uma disputa com o presidente Nicolas Sarkozy. De fato, Sarkozy representa a primeira figura da história do país a assumir a presidência que não corresponda à imagem do homem culto. Pelo contrário, ele mal terminou os estudos de direito, fala um francês frequentemente errado ou grosseiro, e solta seus melhores palavrões em ataques de fúria. Foi justamente o presidente que defendia a pouca importância deste livro, um dos principais da lista de leituras obrigatórias para o vestibular.

O conflito em questão é portanto de peso. O livro escolhido não é um romance qualquer, mas o símbolo da importância da educação, e da divisão sempre em voga entre cultura popular e cultura erudita. O linguajar do século XVII é trazido à periferia com seu vocabulário próprio, suas gírias e sua exclusão social pela própria língua. O documentário poderia se limitar a percepção destas diferenças, mas ele vai muito além. De maneira simples, elíptica e familiar, e com um orçamento limitadíssimo, o diretor busca algumas classes da periferia e segue o primeiro contato com o livro em questão. Depois, os alunos são questionados sobre sua identificação com a narrativa, e por fim eles são convidados a encenar trechos do romance.

Esta estrutura ternária implica diferentes relações entre os entrevistados e a cultura: na primeira, vê-se como se compreende a “cultura nacional”, num segundo momento analisa-se a inserção neste contexto de nação unitária (é bastante interessante ver todos estes jovens se identificarem com o príncipe e a princesa de Clèves, aborrecidos em sua corte real), e por fim confronta-se a própria linguagem atual à antiga. A releitura e encenação, claramente artificiais, deixam os jovens sonhar com o que desejariam ser: princesas, galantes conquistadores em contextos de amor à primeira vista. Os garotos cortam o cabelo, as meninas se maquiam para encarnar monarcas do século XVII.

Os sonhos, justamente. Em paralelo com a nobreza fictícia, a câmera do filme invade suas casas, fala com as mães, pais, amigos, e obtém revelações fortes destas pessoas com perspectivas de futuro não muito ambiciosas. Presos em suas casas com muitos outros irmãos, impedidos de ter uma relação amorosa por causa dos pais muçulmanos ou católico conservador, eles contam através do contraexemplo do livro seus problemas pessoais. No entanto, o filme está longe da simples denúncia social, articulando de maneira equilibrada tanto os discursos dos jovens quanto o dos professores, tanto as versões dos pais quanto a dos homens cultos (e arrogantes) de Paris. Neste contexto, La Princesse de Clèves torna-se uma oportunidade de estranhamento e de escapismo, de confrontação à herança histórica cristã-galesa-branca-tradicional que lhes é estranha, e que ironicamente tem a intenção de representar esta ideia homogênea e abstrata de nação. “Este livro não é para mim, ele não fala de mim”: a dificuldade diante de uma forma de conhecimento elitista é vencida pela boa vontade diante das câmeras. Mesmo claramente desinteressados pelos estudos, estes jovens pretendem passar no vestibular e entregam-se ao jogo de faz de conta proposto pelas câmeras e pelo filme.

Neste sentido, Nous, Princesses de Clèves transforma-se numa atividade pedagógica, certamente difícil de se implementar de maneira generalizada (nem todo mundo tem condições de fazer um filme para interessar os alunos), mas exemplar da educação lúdica e participativa que ainda está bem distante do ensino tradicional francês, com professores sentados atrás da mesa e proferindo solenemente o bom conhecimento. O projeto não carrega em si esta crença na educação como salvação à pobreza, e sim explora como esta crença esbarra nas dificuldades sociais, familiares, religiosas. É com certa amargura que a câmera abandona seus jovens diante dos resultados do vestibular, com alguns gritos de felicidade mas muitos choros de decepção. Não é preciso dizer que agora estes adolescentes terão que voltar para suas casas e tentar novamente, no ano seguinte, na esperança expressada por quase todos de sair dali, de abandonar a periferia, a família, e ir para outro lugar melhor.

Fonte: http://www.outraspalavras.net/

PSTI: Em 2009, produção nacional de software totalizou R$13 bi, um terço da receita total de serviços de TI

Em 2009, a receita bruta de serviços e subvenções das empresas que oferecem serviços de informática no país (conhecidas como empresas de Tecnologia da Informação – TI) com 20 ou mais pessoas ocupadas totalizou R$ 39,4 bilhões, dos quais 43,0% (R$ 16,9 bilhões) se concentraram em três produtos/serviços: desenvolvimento e licenciamento de uso de software customizável (personalizável) no país (R$ 5,9 bilhões, ou 14,9% do total), consultoria em sistemas e processos em TI (R$ 5,6 bilhões, ou 14,1% do total) e software sob encomenda para projeto e desenvolvimento integral ou parcial (R$ 5,5 bilhões, ou 14,0%).

IBGE – Comunicação social

A produção nacional de software (customizável, não customizável, sob encomenda e embarcado) totalizou R$ 13,0 bilhões, 33,1% da receita de serviços de TI em 2009 e três vezes a receita de representação e/ou licenciamento de uso de software produzido no exterior, que é de R$ 4,4 milhões (11,1%).

Das empresas pesquisadas, 11,1% tinham receita superior a R$ 30 milhões e foram responsáveis pela geração de 75,6% da receita total. Em relação à diversificação, as empresas com um produto, que somavam 46,4% do número de empresas, foram responsáveis por 28,0% da receita bruta de serviços, enquanto que as com 2 a 4 produtos (42,7% do total) predominaram no segmento, com 45,5% da receita.

A exportação dos serviços contabilizou uma receita de R$ 2,1 bilhões, correspondente a 5,4% do total da receita bruta e subvenções das empresas de TI pesquisadas, valor considerado pequeno se comparado com os grandes exportadores, como índia, Alemanha e Estados Unidos.

Essas e outras informações estão disponíveis na Pesquisa de Serviços de Tecnologia da Informação (PSTI) 2009, estudo que, pela primeira vez, mensurou a oferta de serviços de informática no Brasil, investigando 2.008 empresas com 20 ou mais pessoas ocupadas, que são as mais expressivas em termos de receita nessa área de serviços.

Três atividades concentram 43% da receita bruta de serviços de informática

Dos R$ 39,4 bilhões de receita bruta de serviços e subvenções das empresas de tecnologia da informação com 20 ou mais pessoas ocupadas, R$ 16,9 bilhões (43,0%) se concentraram em três produtos/serviços: desenvolvimento e licenciamento de uso de software customizável (personalizável) no país (R$ 5,9 bilhões, ou 14,9% do total), consultoria em sistemas e processos em TI (R$ 5,6 bilhões, ou 14,1% do total) e software sob encomenda para projeto e desenvolvimento integral ou parcial (R$ 5,5 bilhões, ou 14,0%).

Somados, os serviços de desenvolvimento e licenciamento de uso de software próprio no país, (customizável, não customizável, sob encomenda e embarcado) totalizaram R$ 13,0 bilhões em 2009, correspondendo a 33,1% da receita de serviços de TI no ano e três vezes a receita de representação e/ou licenciamento de uso de software produzido no exterior, que foi de R$ 4,4 milhões (11,1%).

Outros serviços que se destacaram pela contribuição para a receita bruta total foram: processamento de dados (R$ 4,7 bilhões, ou 12,1%), suporte e manutenção de software (R$ 3,3 bilhões, ou 8,4%), representação e/ou licenciamento de uso de software customizável desenvolvido por terceiros, no exterior (R$ 2,9 bilhões, ou 7,4%) e o desenvolvimento e licenciamento de uso de software não customizável desenvolvido no país (R$ 1,5 bilhão, ou 3,8%).

Na abordagem por porte das empresas pesquisadas e distribuição de receita bruta dos serviços de TI, aquelas com receita anual até R$ 5 milhões respondem por 55,8% do total de empresas, porém geraram apenas 5,0% da receita de serviços, enquanto as empresas com receita superior a R$ 30 milhões (11,1% do total) foram responsáveis pela geração de 75,6% da receita.

Empresas com 2 a 4 produtos respondem por 45,5% da receita

A análise de especialização e diversificação das empresas revelou que aquelas consideradas altamente especializadas (com 1 produto) eram maioria (46,4% do número de empresas) e foram responsáveis por 28,0% da receita bruta de serviços. Já as especializadas com diversificação (com 2 a 4 produtos) representaram 42,7% do número de empresas e foram predominantes no segmento, respondendo por 45,5% da receita. As empresas diversificadas (com 5 a 9 produtos) e as altamente diversificadas (10 ou mais produtos) constituíram, juntas, 10,9% das empresas e foram responsáveis pela geração de 26,5% da receita.

Com base na atividade principal desenvolvida, segundo categorias da Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) versão 2.0, observa-se a predominância de empresas compreendidas na atividade de desenvolvimento e licenciamento de programas customizáveis (27,3% do total), responsáveis pela geração de 31,0% do total da receita das empresas pesquisadas. Destacam-se, ainda, as empresas de consultoria em TI (participação de 17,8% no total da receita bruta e subvenções), desenvolvimento de programas sob encomenda (participação de 17,4%) e tratamento de dados (12,8%).

Empresas com mais produtos geram 49,4% da receita de exportações

O segmento de serviços de TI contabilizou, em 2009, uma receita de R$ 2,1 bilhões (US$ 1,1 bilhão) proveniente da exportação de serviços, correspondente a 5,4% do total da receita bruta e subvenções das empresas de TI pesquisadas. A receita de exportação pode ser considerada baixa em comparação com a da Índia (maior exportador mundial, com US$ 50 bilhões), Alemanha (US$ 17,9 bilhões), EUA (US$ 13,4 bilhões), Reino Unido (USS 13,0 bilhões), Israel (US$ 6,8 bilhões), China (US$ 6,2 bilhões) e Canadá (US$ 5,0 bilhões). As exportações brasileiras ficaram próximas das do Japão (US$ 1,0 bilhão). Os dados internacionais são da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Germany Trade & Investment.

As empresas diversificadas (com 5 a 9 produtos) e altamente diversificadas (com 10 ou mais produtos) foram responsáveis por 49,4% do valor das exportações. As empresas com receita acima de R$ 30 milhões geraram 88,7% do total da receita nacional de exportação.

Por atividade principal, as empresas de desenvolvimento de programas customizáveis foram as mais representativas em relação à receita total de exportação (55,8%). As empresas de desenvolvimento de programas não customizáveis ficaram com 19,0%. Já em termos relativos – comparando-se o impacto das exportações na geração de receita de cada atividade – o desenvolvimento de programas não customizáveis apresentou a maior proporção de receita de exportação (14,0% da sua receita).

Os Estados Unidos apareceram como o principal país de destino para os produtos de TI, com geração de R$ 1,5 bilhão, correspondendo a 72,7% do total da receita de exportação. O México configurou-se como o segundo destino, com 3,8% da receita, e as exportações para o Mercosul ficaram em terceiro lugar, com 3,1%.

Serviços têm maior demanda de TI, com ênfase em finanças e telecomunicações

O setor de serviços foi responsável pela geração de 51,8% das receitas brutas, com destaque para as atividades de finanças e de telecomunicações, que representaram, respectivamente, 18,3% e 10,0% da receita. Em segundo lugar ficou o setor público, com 18,2% da receita.

Fonte: http://www.ibge.gov.br/

Origens de uma doença mortal

Descoberta em 1984, a aids já agia na África no começo do século 20

Ernani Fagundes

O ano é 1900. Um homem com ferimentos abertos pela vegetação da selva da África procura sua caça no sudeste de Camarões. Sem dificuldades, encontra e captura um chimpanzé. Enquanto tenta escapar, o animal morde o agressor. O caçador abate o primata com uma faca, joga a presa ensanguentada sobre os ombros, também cheios de feridas, e segue seu caminho. Ele nem imagina, mas é uma das pessoas que carregam no sangue as primeiras infecções do SIV, o vírus da imunodeficiência dos símios. A variação desse organismo em humanos, o HIV, provocaria a doença que se chamaria aids (síndrome da imunoautodeficiência adquirida) e desencadearia uma verdadeira epidemia. Muito antes de ser descoberto, há 25 anos, o vírus passaria várias décadas provocando mortes sem causa definida. Hoje alguns passos dessa trajetória são conhecidos.

Nos primeiros anos do século 20, macacos contaminados eram carregados por comerciantes que desciam o rio Sangua, afluente do rio Congo, até a feira de Leopoldville (atual Kinshasa, na República do Congo). Ali, os comerciantes contaminados pelas primeiras mutações do SIV em HIV gastavam seu dinheiro com as prostitutas locais. "Assim, o vírus do chimpanzé, já presente no sangue de humanos, ganhou a capacidade de atingir outras pessoas pela relação sexual", diz o médico infectologista Stefan Cunha Ujvari, autor de A História da Humanidade Contada pelos Vírus. "A prostituição e os estupros durante as guerras de independência na África espalharam a doença, que ao longo do tempo foi confundida com muitas outras, como pneunomia e anemia profunda."

A disseminação para fora da África começou na década de 60. A guerra de independência de Guiné-Bissau levou uma onda de refugiados para Gâmbia, Senegal e Cabo Verde – e deste último país partiram pessoas infectadas para a Europa. O primeiro caso nas Américas foi registrado em 1978, no Haiti. No Brasil, a doença surgiu em 1981 e já tirou a vida de 190 mil pessoas.

Desde que foi identificada, a aids deixou cerca de 25 milhões de vítimas fatais. Atualmente, existem aproximadamente 33 milhões de portadores, mas a situação já é muito mais promissora. Ainda que a cura não tenha sido encontrada, a combinação de medicamentos descobertos nos últimos anos permite que o paciente tenha uma vida mais confortável.

Fonte: http://historia.abril.com.br/

Anistia Internacional divulga informe sobre ‘Sentenças de morte e execuções’ em 2010

Execução de condenado nos EUAA Anistia Internacional divulgou o informe: ‘Sentenças de morte e execuções 2010′.

Camila Queiroz

Execução de condenado nos EUA

O relatório revela que no ano passado, ao menos 527 pessoas foram executadas, em 22 países, um decréscimo com relação a 2009, quando as execuções chegaram a 714. Ainda em 2010, mais duas mil pessoas foram condenadas à morte, totalizando quase 18 mil em todo o mundo.

Apesar dos números, a organização avalia que cada vez menos países estão imputando a pena de morte e há uma tendência global à abolição da pena capital. O secretário geral da Anistia, Salil Shetty, explica que o movimento se opõe à pena capital em todos os casos.

"Nos opomos a ela independentemente da natureza do delito, das características do delinquente, ou do método utilizado pelo Estado para a execução. A pena de morte é cruel, desumana, ineficaz e injusta", declara

De acordo com o documento, 31 países aboliram a pena de morte na última década. Na Mongólia, país onde a pena de morte é segredo de Estado, o presidente decidiu suspendê-la.

Pena de morte nos EUA sefundo o estado

Pena de morte nos EUA conforme o estadoNos Estados Unidos, neste mês, o estado de Illinois aboliu a pena capital, somando-se a outros 15 estados. O país executou 46 presos e impôs 110 penas de morte em 2010, o que representa um decréscimo de 70% com relação à década de 1990. Ao todo, há mais de 3.200 pessoas nos "corredores da morte" dos EUA.

O Estado africano Gabón também suprimiu a pena de morte, totalizando, agora, 16 países abolicionistas membros da União Africana.

Um fato importante para manter a esperança é que, desde 2003, menos da metade dos países onde a pena de morte vigora tem realizado execuções. Também há informações de que em menos de um terço deles executou-se penas de morte em cada um dos últimos quatros anos.

O secretário geral da AI destaca que quando a Anistia iniciou a militância, havia apenas 16 países abolicionistas. Hoje, são 139. Entretanto, a Anistia sabe que os desafios ainda são muitos. Arábia Saudita, China, Estados Unidos, Irã e Iemên são os países que cometem mais execuções e, segundo o informe, violam as normas internacionais de direitos humanos.

Houve ainda alguns retrocessos, já que seis países e territórios retomaram as execuções e um deles ampliou o âmbito de aplicação da pena capital.

A Ásia e o Oriente Médio são as regiões em que ocorreram mais execuções – embora, no Oriente Médio, os números tenham diminuído com relação a 2009. Isto sem contar os homicídios não divulgados oficialmente pela China, Coreia do Norte, Malásia, Singapura e Vietnã.

Argélia, Emirados Árabes Unidos, Jordânia, Kuwait, Líbano, Marrocos, o território Saara Ocidental e Tunísia impõem penas de morte, mas não as executam.

Na Europa, perdeu-se uma grande conquista. Em 2009, não se havia levado a cabo nenhuma execução no continente, nem na ex-União Soviética. Mas, em 2010, a Bielorússia executou duas pessoas e condenou outras três à pena capital.

Em todo o mundo, muitas pessoas foram condenadas por delitos não-violentos. Um número expressivo relaciona-se às drogas, mas também há casos de execuções por adultério e blasfêmia. Salil denuncia que isto vai contra as normas internacionais de direitos humanos, "que, exceto no caso dos delitos mais graves, proíbem o uso da pena de morte".

Outro desrespeito às normas são as execuções de pessoas que cometeram delitos quando menores de 18 anos, ocorridas na Arábia Saudita, Emirados Árabes, Irã e Paquistão.

De acordo com o informe, as mortes em 2010 ocorreram por decapitação, eletrocução, enforcamento, injeção letal, disparos a queima-roupa na nuca ou no coração ou fuzilamento. Por vezes, as execuções foram realizadas em público.

O relatório Sentenças de morte e execuções 2010 na íntegra está disponível no link: http://www.amnistia-internacional.pt/dmdocuments/DeathPenalty_Report.pdf.

Camila Queiroz é jornalista da ADITAL

OS DIREITOS HUMANOS NOS EUA

EUA                                                                                           O soldado Bradley Manning — acusado de transmitir documentos à WikiLeaks — foi declarado "inimigo" dos Estados Unidos.

As altas patentes militares estadunidenses consideram um crime denunciar os crimes da sua tropa e ele será submetido a julgamento por um tribunal militar.

Desde agosto de 2010, está encarcerado numa cela de 3 x 2 metros, sem luz natural, durante 23 horas por dia.

Até agora podia estar vestido na sua cela, mas o regime de cárcere foi agravado e doravante tem que permanecer nu.

Fonte: http://socialismo.org.br/

“Como mudar o mundo”

Em 1976, muita gente no ocidente pensava que o marxismo era ideia a favor da qual se podia facilmente argumentar. Em 1986, a maioria das mesmas pessoas já não pensavam como antes. O que aconteceu nesse entretempo? Estarão todos aqueles marxistas enterrados sob uma pilha de filhos engatinhantes? Todo o marxismo terá sido desmascarado, com seus vícios expostos por novas pesquisas revolucionárias fortes? Terá alguém tropeçado em manuscrito perdido, no qual Marx confessou que era tudo mentira, piadinha?

Terry Eagleton

Resenha de Hobsbawm, Eric; Como mudar o mundo: Marx e o marxismo 1840-2011 (How to change the world: Marx and Marxism 1840-2011), 2011: Little  Brown, 470 pp.

Estamos falando, atenção, sobre 1986, poucos anos antes do colapso do bloco soviético. Como Eric Hobsbawm lembra nessa coleção de ensaios, não foi o colapso do bloco soviético que levou tantos crentes tão fiéis a mandar para a lixeira os cartazes de Guevara. O marxismo já estava em pandarecos desde alguns anos antes de o muro de Berlim vir abaixo. Uma das razões da debacle foi que o tradicional agente das revoluções marxistas, a classe trabalhadora, havia sido varrida do mundo por mudanças do sistema capitalista – ou, pelo menos, já não era maioria significativa. É verdade que o proletariado industrial encolheu muito, mas Marx jamais disse que a classe trabalhadora fosse composta só de proletários da indústria.

Em Das Kapital, os trabalhadores do comércio aparecem no mesmo nível que os trabalhadores da indústria. Marx também sabia muito bem que o maior, e muito maior, grupo de trabalhadores assalariados de seu tempo não eram os trabalhadores da indústria, mas os empregados domésticos, a maioria dos quais eram mulheres. Marx e seus discípulos jamais supuseram que alguma classe trabalhadora pudesse avançar sozinha, sem construir alianças com outros grupos oprimidos. E, embora o proletariado industrial devesse ter papel de liderança, nada permite supor que Marx supusesse que tivesse de ser maioria, para desempenhar seu papel.

Mas, sim, algo aconteceu, sim, entre 1976 e 1986. Acossada por uma crise de lucros, a produção de massa à moda antiga deu lugar a produção em menor escala, mais versátil, descentralizada e pós-industrial, a uma cultura ‘pós-industrial’ de consumo, de tecnologia da informação e da indústria de serviços. A terceirização e a globalização viraram a nova ordem do dia. Mas isso não implicou mudança essencial no sistema; só levou a geração de 1968 a trocar Gramsci e Marcuse por Said e Spivak. Ao contrário, o sistema estava então mais poderoso que nunca, com a riqueza ainda mais concentrada em poucas mãos e as desigualdades de classe crescendo rápidas. Foi isso, ironicamente, que fez disparar as esquerdas em busca da saída mais próxima.

As ideias radicais degradadas, oferecidas como mudança radical, pareciam cada vez mais implausíveis. A única figura pública que denunciou o capitalismo nos últimos 25 anos, diz Hobsbawm, foi o Papa João Paulo II. Duas ou três décadas depois, os covardes e fracos de coração assistiram à glória de um sistema tão exultante e impregnável, que só precisava cuidar de manter abertas as caixas de autoatendimento dos bancos em todas as ruas e esquinas.

Eric Hobsbawm, que nasceu no ano da Revolução Bolchevique, permanece amplamente comprometido com o campo marxista – fato que se deve destacar, porque é fácil ler seu livro sem se aperceber desse compromisso. Isso, pela consistência do saber do autor, não porque salte de galho em galho. O autor conviveu com tantas das turbulências históricas sobre as quais discorre, que é fácil fantasiar que a própria história falaria nessas páginas – efeito da sabedoria enxuta, que tudo vê, desapaixonada. Difícil pensar em outro crítico do marxismo, assim tão competente para refletir sobre as próprias crenças com tanta honestidade e equilíbrio.

Hobsbawm, é claro, não tem a onisciência do Espírito Absoluto hegeliano, apesar do saber cosmopolita e enciclopédico. Como muitos historiadores, não é muito afiado no campo das ideias e erra ao sugerir que os discípulos de Louis Althusser trataram O Capital de Marx como se fosse, basicamente, trabalho de epistemologia. Nem o Espírito de Hegel trataria o feminismo, sequer o feminismo marxista, com tão gélida indiferença, ou dedicaria só rápidas notas laterais a uma das mais férteis correntes do marxismo moderno – o trotskismo. Hobsbawm também pensa que Gramsci seja o mais original pensador que o ocidente produziu desde 1917. Talvez queira dizer o mais original pensador marxista, mas nem isso está absolutamente claro. Walter Benjamin, com certeza, seria candidato mais bem qualificado para esse trono.

Mas fato é que até os mais eruditos estudiosos de marxismo têm muito a aprender nesses ensaios. É parte, por exemplo, do fundo de comércio do materialismo histórico que Marx esgrimiu com decisão contra os vários socialistas utópicos que o cercavam. (Um deles acreditava que, no mundo ideal, o mar viraria limonada. Marx, sem dúvida, preferiria Riesling.) Hobsbawm, ao contrário, insiste em que Marx teria dívida substancial com esses pensadores, que iam “dos penetrantemente visionários, até os psiquicamente perturbados”. Fala claramente do caráter fragmentário dos escritos políticos de Marx, e insiste, acertadamente, em que a palavra “ditadura”, na expressão “ditadura do proletariado”, que Marx usou para descrever a Comuna de Paris, tem significado absolutamente diferente do que hoje se conhece. A revolução deveria ser vista não simplesmente como repentina transferência do poder, mas como prelúdio de longo, complexo, imprevisível período de transição. Dos últimos anos da década dos 1850 em diante, Marx já não considerava nem iminente nem provável qualquer repentina tomada do poder. Por mais que tenha elogiado entusiasticamente a Comuna de Paris, Marx pouco esperava dela. Nem a ideia de revolução seria simploriamente oposta à ideia de reforma, da qual Marx foi defensor persistente.

Como Hobsbawm poderia ter acrescentado, houve revoluções praticamente sem derramamento de sangue, e alguns espetacularmente sanguinolentos processos de reforma social.

No absorvente ensaio sobre A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra de Engels, o livro é apresentado como o primeiro estudo de todos os tempos sobre como lidar com toda a classe trabalhadora, não só com específicos setores das indústrias. Na opinião de Hobsbawm, a análise que ali se fez do impacto social do capitalismo ainda não foi superada, em vários aspectos. O livro não pinta seu objeto com cores suaves: a ideia de que todos os trabalhadores fossem famintos ou vivessem em miséria absoluta, ou que jamais ultrapassariam a linha da sobrevivência, não tem qualquer fundamento. Tampouco tem fundamento a burguesia que lá se vê, apresentada como bando de vilões de coração de pedra. Como tantas vezes acontece, cada um só vê o que já conhece: Engels, ele próprio, era filho de uma rico industrial alemão proprietário de uma fábrica de tecidos em Salford, e usava seus mal-havidos lucros para ajudar a alimentar, vestir e dar teto à família Marx — essa, sim, sempre à beira da miséria. Engels gostava de caçar raposas; herói de dois mundos, do proletariado e dos colonizadores irlandeses, sabia unir teoria e prática e amou apaixonadamente sua amante irlandesa da classe operária.

Marx antevia como inevitável a vitória do socialismo? Sim, como se lê no Manifesto Comunista, que Hobsbawm não concorda que seja documento determinista. Isso, em parte, porque Hobsbawm não discute o tipo de inevitabilidade que estaria em questão. Marx escreve às vezes como se as tendências históricas fossem forças da natureza e operassem como as leis naturais; mas, ainda assim, nada explica por que, depois do capitalismo, viria o socialismo, como resultado lógico.

Se o socialismo é historicamente predeterminado, por que tanto empenho na luta política? A explicação está em que Marx esperava que o capitalismo se tornasse cada vez mais explorador; e que a classe trabalhadora cresceria muito, em poder, em números e em experiência acumulada. Nesse quadro, os homens e mulheres trabalhadores, satisfatoriamente racionais, rapidamente encontrariam todos os motivos necessários para levantar-se contra seus opressores. Mais ou menos como, para os cristãos, o livre arbítrio que rege as ações humanas é parte de um plano preordenado por Deus, assim também, para Marx, o acirramento das contradições do capitalismo forçaria os homens e mulheres a, livremente, decidirem dar cabo dele. A ação humana consciente traria a revolução. O paradoxo está em que a ação livre consciente é, em certo sentido, predeterminada como em escrituras.

A verdade é que não se pode falar sobre o que homens e mulheres livres seriam obrigados a fazer em dadas circunstâncias, porque, se são obrigados a fazer, seja o que for, não são livres. É possível que o capitalismo esteja nas últimas, à beira da ruína, mas nada assegura que, depois dele, venha algum socialismo. Pode vir algum fascismo, ou a barbárie.

Hobsbawm nos lembra uma frase curta mas muito significativa do Manifesto Comunista pela qual, universalmente, todos os especialistas sempre passam apressados: o capitalismo, escreve Marx sinistramente, pode terminar “na ruína comum das classes concorrentes”. Não se deve descartar a possibilidade de que o único socialismo que talvez venhamos a conhecer seja o que nos for imposto por circunstâncias materiais, depois de uma catástrofe nuclear ou ecológica.

Como outros crentes do progresso infinito no século 19, Marx não considera a possibilidade de o engenho humano avançar tanto no campo da tecnologia, que acabe por se autodetonar. Aí está uma das várias vias pelas quais se pode demonstrar que o socialismo não é historicamente inevitável, como, de fato, nada é. Marx não viveu o suficiente para ver como a democracia social consegue subornar qualquer paixão revolucionária.

Poucos trabalhos mereceram tantos elogios das classes médias, com tanto embaraçoso fervor, quanto O Manifesto Comunista. Do ponto de vista de Marx, as classes médias foram, de longe, a força mais revolucionária na história humana, e sem seu empenho na luta pelos próprios objetivos e a riqueza espiritual que acumularam, o socialismo fracassaria. Esse, desnecessário dizer, foi dos mais agudos e certeiros prognósticos de Marx.

O socialismo no século 20 tornou-se mais necessário precisamente onde era menos possível: em regiões atrasadas do mundo, socialmente devastadas, politicamente obscurantistas, economicamente estagnadas, onde nenhum pensador marxista apareceu antes que Stalin sequer sonhasse em ali deitar raízes. Ou, pelo menos, tentar deitar raízes com o socorro massivo de nações azeitadas. Nessas condições terríveis, o projeto socialista está destinado a converter-se em monstruosa paródia dele mesmo.

Assim também, a ideia de que o marxismo leva inevitavelmente a essas monstruosidades, como Hobsbawm observa, “é tão racional e justificável quanto a tese de que o cristianismo levará necessariamente ao absolutismo papal; ou que todo o darwinismo levará à glorificação do livre mercado”. (Hobsbawm não considera a possibilidade de o darwinismo levar ao absolutismo papal – que bem se aplica, como descrição racional, a Richard Dawkins.)

Hobsbawm, contudo, lembra também que Marx foi, de fato, generoso demais com a burguesia, vício do qual não é muito frequentemente acusado. No momento em que surgiu o Manifesto Comunista, os sucessos econômicos eram muito mais modestos do que Marx imaginava. Numa curiosa arquitetura de tempos, o Manifesto descreveu, não o mundo que o capitalismo havia criado em 1848, mas o mundo que haveria depois de transformado, como era seu destino, pelo capitalismo. O que Marx tinha a dizer não era exatamente verdade, mas viria a ser verdade, digamos, à altura do ano 2000, resultado da transformação operada pelo capitalismo.

Até os comentários sobre a abolição da família foram proféticos: mais da metade das crianças nos países ocidentais avançados nascem hoje, ou são criadas, por mães solteiras; e metade de todas as moradias nas grandes cidades são ocupadas por um só morador.

O ensaio de Hobsbawm sobre o Manifesto comenta “a eloquência obscura, lacônica” e nota que, como retórica política “tem força quase bíblica”. “O novo leitor”, escreve ele, “dificilmente deixará de ser fascinado pela convicção apaixonada, pela brevidade concentrada, pela força intelectual e estilística desse extraordinário panfleto.” O Manifesto inaugurou um novo gênero, um tipo de declaração política do qual se serviram artistas como os Futuristas e os Surrealistas, cuja redação e vocabulário audaciosos e as hipérboles de escândalo fizeram, dos próprios manifestos, obras de arte.

O gênero literário “manifesto” é uma mistura de teoria e retórica, de fato e ficção, programático e performativo, que ainda não foi tomado seriamente como objeto de estudo.

Marx, ele próprio, também foi artista. Pouco se fala sobre o quanto era extraordinariamente estudado e culto e o quanto investiu, de aplicado trabalho, no estilo literário de seus escritos. Ansiava por livrar-se do “lixo econômico” de Das Kapital, para poder dedicar-se integralmente ao seu grande livro sobre Balzac.

O marxismo trata de lazer, não de trabalho. É projeto que deve ser apoiado por todos que detestam ter de trabalhar. O marxismo afirma que as mais preciosas atividades são feitas “porque sim e deixe-me em paz”, e que a arte é, nesse sentido, o paradigma da autêntica atividade humana. O marxismo diz também que os recursos materiais que tornariam possível a sociedade onde seria possível essa vida humana já existem em princípio, mas são geridos de tal modo que a maioria é obrigada a trabalhar tão duro quanto trabalhavam nossos ancestrais no Neolítico. Fizemos, pois, extraordinários progressos e, ao mesmo tempo, progresso nenhum.

Nos anos 1840, argumenta Hobsbawm, não era de modo algum improvável concluir que a sociedade estivesse às portas da revolução. Improvável, isso sim, seria a ideia de que, em meia dúzia de décadas a política da Europa capitalista estaria transformada pela ascensão de partidos e movimentos das classes trabalhadoras. Pois foi o que aconteceu.

E foi nesse momento que a discussão sobre Marx, pelo menos na Grã-Bretanha, passou, de admiração cheia de cautelas, a, praticamente, histeria.

Em 1885, Balfour – e ninguém menos revolucionário que Balfour – comentou os escritos de Marx, elogiando a força intelectual e o brilho do raciocínio econômico. Muitos comentaristas liberais e conservadores levaram realmente muito a sério aquelas ideias econômicas. Quando as mesmas ideias assumiram a forma de força política, porém, começaram a aparecer os primeiros trabalhos ferozmente antimarxistas. A apoteose foi a espantosíssima revelação, por Hugh Trevor-Roper, de que Marx não trazia qualquer contribuição original à história das ideias.

A maioria desses críticos, aposto, teriam rejeitado a ideia marxista de que o pensamento humano é muitas vezes modelado, curvado, pela pressão de interesses políticos,  fenômeno que atende quase sempre pelo nome de “ideologia”.

Só recentemente o marxismo voltou à agenda planetária, ali metido, ironicamente, por um capitalismo agonizante. “Capitalismo em Convulsão” – em manchete do Financial Times em Londres, em 2008. Quando os capitalistas começam a falar sobre o capitalismo, aposte: o sistema está em estado crítico. Nos EUA, nenhum jornal (e nenhum capitalista), até agora, se atreveu tanto.

Há muito mais a admirar em How to Change the World. Numa passagem sugestiva sobre William Morris, o livro mostra que era lógico que brotasse em Londres uma crítica baseada nas artes e nos artesanatos, do capitalismo; em Londres, onde o capitalismo industrial avançado impunha ameaça mortal a todas as artes e artesanatos. Um capítulo sobre os anos 1930 traz fascinante relato das relações entre o marxismo e a ciência – e foi o único período, Hobsbawm anota, em que os cientistas naturais deixaram-se atrair em números significativos, pelo marxismo. Aparecia no horizonte a ameaça de um fascismo irracionalista; e os traços “iluministas” do credo marxista – a fé na razão, na ciência, no progresso humano e no planejamento social – atraíram homens como Joseph Needham e J.D. Bernal. Durante o renascimento histórico seguinte do marxismo, nos anos 1960 e 1970, essa versão do materialismo histórico seria deslocada pelos parâmetros mais culturais e filosóficos do chamado Marxismo Ocidental. De fato, a ciência, a razão, o progresso e o planejamento já eram então mais inimigos que aliados, em guerra contra novos cultos libertários, do desejo e da espontaneidade. Hobsbawm mostra, no máximo, uma simpatia ilustrada pelo pessoal de 1968, o que não surpreende, em membro eterno do Partido Comunista. A idealização, naqueles anos, da Revolução Cultural na China, ele sugere, com bastante razão, teria tanto a ver com a China quanto o culto do “bon sauvage”, no século 18, teria a ver com o Tahiti.

“Se algum pensador deixou marca que ainda se vê no século 20”, diz Hobsbawm, “foi Marx”. Setenta anos depois da morte de Marx, para o bem ou para o mal, um terço da humanidade vivia sob regimes políticos inspirados por seu pensamento. Bem mais de 20% continuam a viver. O socialismo foi descrito como o maior movimento de reforma da história da humanidade. Poucos intelectuais mudaram o mundo, de modo tão objetivo e prático. É coisa que se diz, mais, de estadistas, cientistas e generais, não de filósofos ou teóricos da política. Freud pode ter mudado a vida de muita gente, mas não se sabe que tenha mudado governos.

“Os únicos pensadores individualmente identificáveis que alcançaram status comparável” – escreve Hobsbawm – “são os fundadores das grandes religiões do passado; e, com a única possível exceção de Maomé, nenhum deles triunfou nem tão rapidamente, nem em escala comparável”. Mas poucos, como Hobsbawm destaca, previram que seriam tão célebres também pela miséria extrema ou pelo exílio de judeu atormentado por furúnculos, homem que observou um dia, falando de si próprio, que ninguém jamais escrevera tanto sobre dinheiro, nem vivera com menos dinheiro, que ele.

Vários dos ensaios reunidos nesse livro já foram publicado, mas dois terços deles eram inéditos em inglês. Os que não leiam italiano podem, agora, ler vários importantes ensaios de Hobsbawm editados primeiro naquela língua, entre os quais três importantes revisões da história do marxismo, de 1880 a 1983. Bastariam esses ensaios, para tornar valiosíssimo o novo volume, mas há mais, sobre o socialismo pré-Marx, Marx sobre as formações pré-capitalistas, Gramsci, Marx e o trabalhismo, que ampliam consideravelmente o âmbito da nova seleção.

How to Change the World é o trabalho de um homem que chegou a idade em que a maioria de nós dar-se-á por feliz se conseguir sair sozinho do fundo da poltrona, sem precisar de duas enfermeiras e um guindaste, mestre também da pesquisa histórica. Não será, com absoluta certeza, o último trabalho desse espírito indomável.

Tradução: Coletivo VilaVudu

Fonte: http://www.outraspalavras.net/

Queda na taxa de natalidade pode conter crescimento da China

Demógrafos dizem que a força de trabalho chinesa começará a encolher em apenas cinco anos

Sharon La Franiere

Demógrafos dizem que a força de trabalho chinesa começará a encolher em apenas cinco anos

Segundo as leis de planejamento familiar da China, a maioria dos casais está proibida de ter mais do que um filho. Wang Hong e seu marido, Zhang Jingfeng, estão entre aqueles a quem foi concedida uma segunda chance –mas a recusaram.

Em vez disso, eles concentraram seus recursos em seu filho sociável de 9 anos, dedicando dois quintos de sua renda anual de 20 mil yuans, aproximadamente US$ 3 mil, para enviá-lo a uma escola particular.

“Eu tenho que criar boas circunstâncias para ele”, disse Wang, 33 anos, cujo lar pouco mobiliado é aquecido por um fogão a lenha. “Se eu tivesse outro filho, qual seria nosso padrão de vida?” O raciocínio de Wang ressalta um argumento apresentado com crescente insistência por demógrafos que querem que a China abandone sua limitação a um só filho: como o casal em Yicheng, eles argumentam, a maioria dos chineses deseja apenas um só filho de qualquer forma.

Talvez mais importante, os economistas argumentam que a baixa taxa de natalidade da China, antes uma vantagem econômica, agora está destinada a conter o crescimento econômico do país.

A ascensão da China dependeu em parte de um imenso aumento no número de trabalhadores como percentual da população. Este aumento criou mão-de-obra barata e produtiva para suas fábricas, minas e canteiros de obras.

Agora o tamanho da força de trabalho está estabilizando. Os demógrafos dizem que ela começará a encolher em apenas cinco anos, apesar de que lentamente no início.

Enquanto isso, o número de idosos inchará tão rápido que, em 2040, as projeções mostram que a idade média dos chineses será maior do que a dos americanos, mas os chineses desfrutarão de apenas um terço da renda per capita, corrigida pelo custo de vida. Os especialistas dizem que isso tornará a China o primeiro grande país a envelhecer antes de estar plenamente desenvolvido economicamente.

“Há uma tremenda crise demográfica iminente, sem precedente na história chinesa”, disse Wang Feng, que chefia o Centro Tsinghua para Políticas Públicas em Pequim, uma divisão da Instituição Brookings com sede em Washington, em uma entrevista. “Muito poucas pessoas ainda defendem essa política.”

Mas à medida que aumentam os pedidos para relaxamento dessa política, e aumentam os indícios oficiais de redução das restrições, também aumentam as preocupações de que a cultura do filho único agora esteja tão enraizada entre os chineses que as autoridades poderão não conseguir encorajar mais nascimentos mesmo se tentarem.

Um crescente corpo de pesquisa sugere que grande parte do declínio da fertilidade chinesa ao longo das últimas três décadas não se deve à política de um só filho e suas várias permutações, mas sim da queda típica da natalidade que ocorre quando as sociedades se modernizam.

Por exemplo, em Yicheng, o condado na província rural de Shanxi onde Wang vive, os casais estão isentos da política de um só filho há um quarto de século. Segundo um experimento do Estado que foi deliberadamente mantido em segredo até poucos anos atrás, os casais eram autorizados a ter dois filhos caso se casassem três anos mais tarde do que a idade mínima para o restante do país. Inicialmente, era também exigido que aguardassem seis anos entre o primeiro e segundo nascimentos.

Todavia, a população no condado cresceu no mesmo ritmo que o restante do país. “As pessoas acham que não têm dinheiro para ter dois filhos”, disse Shi Aixiang, um diretor de pré-escola em Yicheng.

A tendência parece ser a mesma em Jiangsu, uma província costeira ao norte de Xangai. Pesquisadores entrevistaram quase 4.400 mulheres que estavam autorizadas a ter dois filhos. Menos de um terço das mães com um filho disse querer um segundo, de acordo com um estudo publicado em 2009 pela revista “Asian Population Studies”.

Em Xangai, tantos casais aptos decidiram contra ter um segundo filho que, em 2009, funcionários públicos começaram a visitar seus lares para tentar fazê-los mudar de ideia. Cai Yong, um demógrafo da Universidade da Carolina do Norte, disse que as taxas de fertilidade em Xangai e Pequim eram ambas estimadas em 0,7 –menos de um filho por casal, e metade do que muitos demógrafos estimam ser a taxa de maternidade nacional.

Tudo isso sugere que pode não haver muito que a China possa fazer para manipular o número de nascimentos. Mas parece que à medida que a realidade do encolhimento da força de trabalho se aproxima, as restrições por parte do governo estão relaxando.

O primeiro-ministro Wen Jiabao disse ao legislativo nacional no mês passado que a China melhoraria “progressivamente a política básica de planejamento familiar do Estado”. Foi a segunda vez desde outubro que a liderança chinesa insinuou um ajuste na política.

Os demógrafos disseram que a mudança mais provável seria permitir aos casais em algumas províncias ter um segundo filho caso o marido ou a esposa sejam filhos únicos. Atualmente, a maioria dos casais urbanos é autorizada a ter um segundo filho se tanto o marido quanto a esposa forem filhos únicos.

Esta seria a mais recente erosão da Grande Muralha do planejamento familiar. Desde que a política foi adotada em 1980, as autoridades chinesas têm constantemente enfraquecido aquela que ainda é a iniciativa mais ousada do mundo de controle do instinto de procriação. Pelo menos 22 isenções foram adicionadas –algumas amplas, algumas tão obscuras que apenas as autoridades do governo parecem saber requisitá-las.

Mesmo assim, Wang, do Centro Tsinghua, um dentre um grupo de demógrafos que analisou as várias isenções e os dados dos 450 distritos da China, calcula que 63% dos casais chineses estão limitados a apenas um filho.

As autoridades do governo dizem que a política evitou um total de 400 milhões de nascimentos em 30 anos. Mas Wang e Cai estimam que pelo menos 45% desses nascimentos não teriam ocorrido de qualquer modo, à medida que os casais limitam o tamanho de sua família para se adequarem à mudança da paisagem econômica.

Os demógrafos também argumentam que a China superestimou a taxa real de fertilidade para ajudar a justificar as restrições a um só filho. No início dos anos 90, a taxa de fertilidade da China caiu abaixo do que os demógrafos chamam de nível de reposição, ou o número de nascimentos necessários para uma geração substituir a si mesma. Oficialmente, a China estima a atual taxa de fertilidade em 1,8 criança por mulher. Mas Cai e outros demógrafos estimam que a taxa real é de apenas 1,5 criança.

Os acadêmicos também estão consternados com o desequilíbrio de gênero que ocorreu após a política de um só filho. Quando entrou em vigor, a China estava próxima do padrão de nascimento da maioria das sociedades: entre 103 e 107 meninos para cada 100 meninas. Vinte e cinco anos depois, 119 meninos chineses nasceram para cada 100 meninas, um dos maiores desequilíbrios de sexo do mundo, segundo um estudo de 2009 publicado pelo “The British Medical Journal”. Em 2005, a China tinha 32 milhões de homens a mais com menos de 20 anos do que mulheres, uma disparidade que os pesquisadores dizem que apenas se agravará nas próximas duas décadas, o que poderia provocar instabilidade social.

Wang e outros acadêmicos atribuem grande parte do desequilíbrio à regra que permite que muitos casais rurais tenham um segundo filho, caso o primeiro seja uma menina. As regiões cobertas pela isenção, eles dizem, apresentam em média quase 130 nascimentos de meninos para cada 100 meninas. Os pesquisadores acreditam que grande parte da disparidade vem de casais que usam exames de ultrassom para identificar e abordar os fetos femininos.

Inicialmente, a queda na fertilidade da China trabalhou a seu favor. O número de dependentes do país –crianças e idosos– caiu significativamente em comparação aos cidadãos em idade de trabalho. “A China entrou em um incrível ponto ideal demográfico”, disse Michael Pettis, um professor da Universidade de Pequim e economista do Fundo Carnegie para a Paz Internacional. Segundo algumas estimativas, o crescimento no percentual de trabalhadores sobre não trabalhadores foi responsável por 15% a 25% do crescimento econômico da China entre 1980 e 2000.

Mas agora os economistas dizem que o fenômeno de menos nascimentos está se transformando em um elemento negativo. Wang disse que a China já tinha 14% menos pessoas na faixa dos 20 anos em comparação com a década passada. Nos próximos 20 anos, ele disse, o número dessas pessoas encolherá mais 17%, enquanto o percentual da população da China com 65 anos ou mais deverá dobrar para 16%. Em 2050, quase um entre cada quatro chineses será idoso, segundo projeções da ONU.

Arthur Kroeber, diretor administrativo da Dragonomics, uma empresa de pesquisa econômica de Pequim, disse que a crescente produtividade dos trabalhadores da China poderia conter o impacto dos números menores. A elevação da idade para aposentadoria – uma proposta que o governo está estudando para as mulheres, que normalmente se aposentam mais cedo do que os homens – também poderia escorar a força de trabalho.

“Mas inevitavelmente, a mudança na relação de dependência significa que a taxa de crescimento econômico desacelerará”, ele disse.

No final, concordam muitos especialistas, as políticas populacionais do governo não são páreo para as forças demográficas inexoráveis que moldarão as próximas décadas. “Minha visão é de que eles absolutamente não precisam dela”, disse Kroeber sobre a política de um só filho. “Mas também acho que se a abolirem agora, não teria impacto nenhum.”

*Xiyun Yang, em Yicheng e Pequim, contribuiu com reportagem

Tradução: George El Khouri Andolfato

Fonte: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/

Falta de diploma impede classes mais baixas de ter uma "segunda chance"

“Destino daqueles que saem de uma formação inicial sem diploma é muito preocupante e deveria constituir uma prioridade absoluta das políticas públicas", diz especialista

Benoît Floch

Destino daqueles que saem de uma formação inicial sem diploma é muito preocupante e deveria constituir uma prioridade absoluta das políticas públicas, diz especialista

O sociólogo e professor da Universidade Paris-8, Camille Peugny, conversou com o "Le Monde" sobre a importância da educação superior. Ele é autor de “Le Déclassement” (Ed. Grasset, 2009).

Le Monde: A pesquisa do Céreq [Centro de Estudos e Pesquisas sobre as Qualificações] confirma que, com ou sem crise, nossa sociedade não tem conseguido ajudar aqueles que não têm diploma a se inserirem corretamente no mercado de trabalho. É uma fatalidade?

Camille Peugny: A crise financeira de 2008 só veio a exacerbar tendências estruturais. As dificuldades de inserção dos jovens no mercado de trabalho já vinham aparecendo desde o início dos anos 1980, período em que quase 25% dos jovens ativos saídos da escola há até quatro anos estavam desempregados. Em todo o período, aqueles sem diploma foram os mais afetados.

Não é algo específico da França: esse papel protetor do diploma, especialmente em período de crise, também se observa entre nossos vizinhos europeus. No entanto, o peso determinante da formação inicial na França leva aqueles que não têm diploma para um beco sem saída muito preocupante, em razão da falta de uma verdadeira segunda chance. A formação profissional, por exemplo, beneficia mais os indivíduos que já saem diplomados de uma formação inicial.

Le Monde: A diferença entre diplomados e não-diplomados cresceu muito nas últimas décadas. Como o senhor explica isso?

Peugny: A sociedade francesa vem enfrentando o desemprego em massa há mais de trinta anos. Nesse contexto de falta de empregos, os não-diplomados constituem uma variável de ajuste . Em período de retomada econômica, como no final dos anos 1980 ou final dos anos 1990, eles são empregados em formas precárias de emprego (trabalhos temporários), mas em período de recessão, eles são os primeiros a se verem desempregados.

Além disso, ao longo das duas últimas décadas, a porcentagem de diplomados entre os jovens aumentou regularmente: assim, a posição relativa dos não-diplomados na fila de espera foi se deteriorando. Somemos a isso o fato de que os diplomados universitários às vezes são obrigados a aceitar empregos que não correspondem a seu nível de qualificação, situação que apresenta muitas vantagens para os empregadores. A partir daí se entende o beco sem saída no qual se encontram os não-diplomados.

Le Monde: Pode-se falar em uma “geração perdida”?

Peugny: O destino daqueles que saem de uma formação inicial sem diploma é muito preocupante e deveria constituir uma prioridade absoluta das políticas públicas. Não ter diploma é ser condenado a carreiras marcadas pelo desemprego e pelos empregos precários. O que levanta outra questão, a da reprodução social: em nossa sociedade, o diploma também se herda em grande medida. Nos últimos 25 anos, a porcentagem de diplomados universitários aumentou mais de 20 pontos entre os filhos de executivos (mais de 70% hoje), mas entre filhos de operários, o aumento foi de somente 15 pontos (25%). Dentre os jovens nascidos entre 1981 e 1985, 50% dos filhos de operários não terminaram o colegial.

Se quisermos evitar que os derrotados sejam sempre os mesmos, há duas questões urgentes. Lutar contra a repetência escolar logo nos primeiros anos de estudos, investindo mais no ensino primário, e facilitar o acesso ao ensino superior para os filhos das classes populares, implementando, entre outras coisas, subsídios de verdade.

Tradução: Lana Lim

Fonte: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/lemonde/

América do Sul lidera o rearmamento mundial

O gasto militar mundial moderou consideravelmente seu ritmo de crescimento em 2010. O investimento global em defesa alcançou no ano passado US$ 1,63 bilhão, com aumento de 1,3% em termos reais em relação a 2009, contra um crescimento médio de 5% em toda a década anterior, segundo indica um estudo publicado pelo Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri na sigla em inglês).

Andrea Rizzi

O dado reflete de modo geral o impacto da crise financeira nos orçamentos militares. A estatística global, no entanto, é fruto de dinâmicas muito díspares. Em polos opostos, a América do Sul elevou seu gasto em 5,8%; a Europa o reduziu em 2,8%.

A região sul-americana registrou o aumento mais marcado do mundo. Os pesquisadores do Sipri sugerem três explicações principais para tanto. Em primeiro lugar, a crise econômica global teve um impacto muito menor na América do Sul que em outras regiões. Em segundo lugar, a ascensão geopolítica meteórica do Brasil exige um esforço militar por parte do gigante que marca a estatística regional. Em terceiro lugar, a persistência de ameaças à segurança interna em vários países da região – as Farc na Colômbia, o Sendero Luminoso no Peru – justifica um gasto sustentado.

O aumento do investimento é muito marcado. Situando-se ao redor de US$ 63 bilhões, o gasto coletivo da região continua sendo equivalente ao de um país como a França.

"Nos últimos anos houve certa preocupação sobre uma possível corrida armamentista na região. Sem dúvida chama a atenção um ciclo de crescimento tão forte e a aquisição de material adequado para guerras convencionais, em uma zona que não parece estar sob ameaças desse tipo", argumenta Carina Solmirano, pesquisadora do Sipri especializada em América Latina.

"No entanto, vários fatores parecem apontar para uma próxima moderação do gasto militar", prossegue a pesquisadora. "O novo governo do Brasil, que é o principal ator na região, anunciou cortes no orçamento da defesa em favor do gasto social; o Chile [terceiro maior investidor do subcontinente] debate há tempo uma reforma da lei secreta do cobre, pela qual as forças armadas recebem 10% das receitas da venda do metal e dispõem desses fundos com ampla margem de opção. A aprovação da reforma submeteria o gasto a maior controle parlamentar".

Ao contrário da tendência regional, a Venezuela experimentou uma súbita contração do gasto militar em 2010: 27% a menos. "O ciclo econômico negativo teve um impacto. No entanto, é difícil interpretar os dados venezuelanos, especialmente os de aquisição de armas. Parte dos fundos para a compra de armamento parece vir de créditos concedidos pela Rússia, mas que nem sempre se concretizam em aquisições reais. Outra parte procede do Fundo de Desenvolvimento Nacional, mas a distribuição das remessas não é totalmente transparente", observa Solmirano.

A Europa é a única que registra uma redução do gasto militar. Em termos absolutos, quatro países (Reino Unido, França, Alemanha e Itália) permanecem entre os primeiros dez investidores do mundo, segundo o Sipri. Entretanto, a dinâmica da última década fala uma linguagem clara: a China elevou seu gasto em 189%; a Rússia, 82%; a Índia, 54%. O investimento europeu se manteve estagnado, e entra em um ciclo de notável contração. A França reduziu o gasto em 8% em 2010. Os cortes no Reino Unido e na Alemanha serão aplicados este ano.

O secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, alertou recentemente sobre essa tendência, que do seu ponto de vista abre uma profunda brecha na aliança atlântica. Há dez anos os EUA representavam menos de 50% dos gastos da Otan; hoje, quase 75%. As primeiras semanas de intervenção militar na Líbia salientaram as claras limitações operacionais dos europeus sem o aliado americano. Apesar do grave déficit, Obama não contempla cortes militares drásticos, e sim um congelamento do crescimento. Os EUA representam 42% do gasto militar mundial.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Fonte: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/elpais/

Novas pesquisas mostram que peixes têm consciência e podem sentir dor

Más notícias para os entusiastas da pesca: os peixes podem ser mais do que meras máquinas de reflexo, como se pensava. Novas pesquisas mostram que, aparentemente, eles têm consciência e podem sofrer com a dor, e os pesquisadores estão pedindo que sejam tratados da mesma forma que mamíferos e aves.

Günther Stockinger

Fotografia submarina mostra várias espécies de peixes no mar do Timor Leste

Fotografia submarina mostra várias espécies de peixes no mar do Timor Leste

Será que milhões de pescadores amadores e esportivos estão errados? Eles acreditam que ter um anzol maligno preso na boca não machuca o peixe. Os entusiastas da pesca insistem que o sistema nervoso das criaturas aquáticas é primitivo demais para que sintam dor de verdade.

Depois de fisgarem o anzol, os peixes muitas vezes lutam de forma impressionante. Mas essa luta não confirma simplesmente como é pequena a agonia que vivenciam? “Se os anzóis de pesca fossem dolorosos, então um peixe fisgado não lutaria e aceitaria o puxar da linha de voa vontade, como um touro pode ser conduzido facilmente pelo anel nas narinas”, argumenta o pescador vienense Johann Braberntz no jornal “Der Fliegenfischer”.

Até agora, aficionados da pesca raramente foram acusados de crueldade, já que os peixes são vistos como forma de vida inferior. De fato, quase ninguém acredita que eles têm sentimentos como mamíferos e aves, e a maior parte das pessoas só têm sentimentos por animais de sangue quente.

Mas agora essa imagem de criaturas robotizadas que teriam uma memória de apenas três segundos está começando a rachar. As mais recentes descobertas de biólogos, neuro-anatomistas e pesquisadores de comportamento mostram que esses vertebrados antigos na evolução são muito mais do que máquinas de reflexo.

Pesquisadores da Universidade de Queen’s, em Belfast, provaram que, quando os peixes são sujeitos a estímulos de dor, os sinais não somem pela espinha. Os cientistas descobriram áreas da pele sensíveis diretamente por trás das brânquias de peixes dourados e trutas. Com a implantação de eletrodos, eles puderam mostrar que as células nervosas ali localizadas enviam sinais diretamente para o cérebro do peixe.

Quando os pesquisadores espetavam os animais com agulhas, uma fúria de mensagens neuronais eram transmitidas ao telencéfalo –a mesma região do cérebro onde os sinais de dor também são processados por animais e mamíferos.

Não um simples reflexo

Resultados similares agora foram alcançados com o salmão atlântico, a carpa e o bacalhau. “Esses estudos demonstram que áreas superiores do cérebro estão implicadas na resposta do peixe a eventos potencialmente dolorosos e que sua resposta não é um simples reflexo”, explica Lynne Sneddon, especialista em peixes da Universidade Chester, no Reino Unido.

Uma equipe de pesquisa espanhola pôde até identificar uma área no cérebro do peixe dourado que parece servir a uma função similar à do sistema límbico, região no cérebro humano que se torna altamente ativa quando as pessoas passam medo ou dor. Como nos mamíferos, esses receptores cerebrais no peixe consistem de uma série de estruturas anatômicas: sinais chegam para a amígdala e são processados por um filtro emocional, enquanto o hipocampo é para memória, mas também tem um papel importante na orientação espacial. Os pesquisadores buscaram por muito tempo em vão essas duas regiões, aparentemente porque estavam procurando no lugar errado. Acontece que, quando o peixe amadurece de embrião para adulto, sua arquitetura cerebral vira de fora para dentro: enquanto a amígdala e o hipocampo humanos são localizados profundamente nos hemisférios do cérebro humano, as estruturas comparáveis de um peixe desenvolvido se localizam diretamente na superfície do telencéfalo.

Testes comportamentais confirmaram esses resultados: os peixes dourados cujas estruturas comparáveis ao hipocampo no telencéfalo foram cirurgicamente desabilitadas subitamente perdem seu sentido de orientação –assim como os mamíferos cujas regiões cerebrais correspondentes foram desconectadas.

Além disso, quando os pesquisadores colocam as seções comparáveis à amígdala do telencéfalo fora de ação, os peixes deixam de aprender com os choques elétricos.

Isso prova que esses animais aquáticos supostamente insensíveis têm a estrutura necessária em suas cabeças para sentir medo e dor. “Apesar da estrutura e função do equivalente nos peixes ser muito mais que nosso sistema límbico, o fato que os cientistas descobriram a presença de estruturas similares é impressionante”, explica Victoria Braithwaite, zoóloga da Universidade Estadual da Pensilvânia.

Alguns anos atrás, Braithwaite causou comoção com outra descoberta que fez sobre a fisiologia dos peixes. Ela encontrou mais de 20 receptores de dor em torno da boca e da cabeça da truta –ironicamente localizados precisamente onde os anzóis penetram na carne do peixe.

Esses receptores frontais do sistema nervoso reagem não apenas aos espinhos, mas também ao calor e agentes químicos. Combinados com as fibras nervosas especializadas que transmitem impulsos de dor, os receptores funcionam como os de outros vertebrados.

Consciência da dor

Mas os peixes são capazes de converter sua percepção desses sinais complexos em uma consciência da dor? Uma série de testes comportamentais sugere que sim.

Trutas cujos lábios foram injetados com veneno de cobra ou acido acético ventilam vigorosamente com suas brânquias por quase três horas e meia, param de se alimentar, se agitam para trás e para frente no assoalho do tanque ou esfregam os lábios nas paredes de vidro. Elas demonstram muito mais do que reações de três segundos.

A truta que foi sujeitada a agentes químicos nocivos não deu atenção a uma torre de Lego colorida introduzida em seu tanque, apesar de normalmente evitar novos objetos, sugerindo que sua atenção estava dominada pela dor. Contudo, os peixes que receberam anestésicos simultaneamente demonstraram o grau usual de cautela em relação aos objetos estranhos –porque a morfina aparentemente eliminara a dor.

Uma equipe de 20 especialistas trabalhando para a Comissão da UE em Bruxelas recentemente avaliou os experimentos feitos sobre o tema. Como todas as descobertas atuais sobre a capacidade dos peixes sentirem dor se baseiam em um número limitado de espécies, inclusive trutas, carpas, peixe zebra e peixe dourado, o grupo concluiu que não é possível, por enquanto, fazer maiores generalizações. Ainda assim, os especialistas reconheceram as seguintes conclusões sobre a vida emocional dos peixes: “Com estudos de sistemas setoriais, estrutura cerebral e funcionalidade, dor, medo e estresse, há evidências para componentes neurais da sensibilidade em algumas espécies de peixe.”

Os especialistas não apenas acreditam que os peixes são capazes de ter medo e dor, mas também sensações de prazer. Por exemplo, a oxitocina –chamada frequentemente de “hormônio do amor”- também foi documentada nos peixes.

Os defensores da pesca esportiva negam essas declarações como antropomorfismos inadmissíveis. Eles dizem que os atributos humanos foram inocentemente atribuídos aos animais.

Apesar dos defensores da pesca não poderem mais negar que os peixes têm um sistema para detectar sensações de dor, eles ainda sustentam que apenas um córtex cerebral altamente desenvolvido como encontrado em mamíferos pode produzir uma consciência dos estímulos de dor registrados. “Não há uma criatura humana escondida em um cérebro de peixe”, argumenta o pesquisador norte-americano James Rose, especialista muitas vezes citado pela indústria da pesca.

“A dor e o sofrimento do peixe não foram provados”, concorda Robert Arlinghaus, especialista em peixe do Instituto Leibniz de Ecologia de Água Doce e Pesca em Berlim. “Simplesmente não sabemos se os peixes têm tais sentimentos”.

Fluido cerebral

Para muitos especialistas, porém, a falta de córtex cerebral não parece mais ser uma razão suficiente para eliminar a possibilidade de consciência da dor. Casos médicos notáveis lançaram dúvida sobre essa velha escola de pensamento: neurologistas ocasionalmente relatam casos de pessoas que só têm metade do cérebro. Enquanto outros têm sinapses, esses indivíduos têm apenas fluido cerebral –e ainda assim muitas vezes são altamente inteligentes e bem adaptados socialmente.

Outros pesquisadores estão indo além. Eles sustentam que descobriram que mesmo invertebrados têm certa consciência de dor. Robert Elwood, especialista em comportamento animal da Universidade do Queens, em Belfast, aplicou acido acético à antena sensível dos camarões. Os crustáceos subsequentemente esfregaram as áreas afligidas por até cinco minutos. De acordo com Elwood, essa reação é reminiscente de como mamíferos reagem à dor.

O polvo, o mais inteligente de todos cefalópodes, talvez tenha uma vida emocional ainda mais diversa. Esses animais, que são famosos por suas contorções impressionantes, nunca param de surpreender os pesquisadores: conseguem abrir um frasco de remédios à prova de crianças se souberem que há delícias escondidas ali dentro e fazem fugas noturnas de tanques famosos por sua segurança são comuns. “Há muitas razões por que as pessoas não querem pensar sobre a dor entre invertebrados”, diz Elwood.

Os pescadores por hobby ou esportivos estão com medo que novas leis possam ser introduzidas que limitem seu prazer em pescar.

As leis atuais na Alemanha já estipulam que os pescadores só podem sair com sua vara e pescar se estiverem em busca de comida ou reduzindo os estoques para manter as populações de peixe saudáveis. Torneios onde o pescado é devolvido à água após ter sido pesado foram proibidos –além de uso de peixes como isca viva.

Os biólogos, contudo, não suspeitam primariamente dos pescadores solitários em rios e lagos de cometerem atos de crueldade sem sentido. Sua atenção é dirigida principalmente para as fazendas de peixes e para a pesca de alto mar industrial.

De acordo com Braithwaite, zoóloga da Pensilvânia, daqui a 20 anos, quase metade de todos os peixes que comemos serão criados em enormes fazendas em torno do mundo. “Se nos preocupamos em proteger porcos e frangos na indústria de alimentos, não devemos excluir os peixes”, argumenta.

Ela também diz que mais atenção deve ser dada para as enormes frotas de barcos de pesca que navegam pelos oceanos do mundo, de forma a garantir que as criaturas “sejam mortas de forma rápida e limpa”. “A maior parte das pessoas certamente não se sente confortável com as enormes quantidades de peixe que sufocam lentamente nos conveses dos navios”, acrescentou.

As instalações de pesquisa também estão passando por fiscalização crescente, pois os peixes estão cada vez mais substituindo os camundongos e ratos em laboratórios. Sneddon, especialista em Chester, acha que seria apropriado no futuro aplicar “diretrizes humanas” para essas criaturas mudas nos experimentos. Assim como com mamíferos, diz ela, “os pesquisadores devem administrar analgesia se não interferir com os resultados dos estudos”.

Tradução: Deborah Weinberg

Fonte: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/

Descoberta ‘cidade subterrânea’ que abrigava imigrantes ilegais em Moscou

A polícia de Moscou descobriu uma "cidade subterrânea" que abrigava imigrantes ilegais na zona oeste da capital russa.

Oleg Antonenko

Segundo autoridades, trata-se de um abrigo antibombas que foi transformado em alojamento por donos de uma fábrica ilegal.

A descoberta foi feita por policiais e agentes do Serviço Federal de Segurança (FSB, sigla em russo) e do Serviço Federal de Imigração. Segundo as autoridades, a "cidade" é habitada por imigrantes ilegais da Ásia central.

"Cento e dez homens e mulheres foram encontrados vivendo na área subterrânea, que era resguardada por um muro de concreto de 4 metros de altura e arame farpado", disse Andrei Mishel, porta-voz do Ministério do Interior russo.

"As áreas habitadas possuíam banheiros, quartos e até salas para oração", afirmou o porta-voz.

De acordo com autoridades, as pessoas que viviam no local trabalhavam na produção de agulhas e lâminas para máquinas de costura.

O porta-voz do Ministério do Interior afirma que a entrada para o alojamento foi encontrada dentro das instalações de uma fábrica abandonada.

A região abriga ainda, além desta fábrica, uma indústria de tecnologia militar que produz sistemas para mísseis S-300 e S-400.

A maioria dos moradores irregulares corre o risco de ser deportado. Dezesseis deles, assim como o dono da fábrica, deverão ser processados por atividade criminosa.

Outras “cidades subterrâneas”

Alojamentos semelhantes foram descobertos em fevereiro, embaixo da estação de trem Kievsky, também em Moscou. Os ocupantes do local também eram imigrantes ilegais.

Relatos dão conta de que eles trabalhavam para uma empresa responsável por limpar a área da estação. Como resultado disto, mais de 30 casos de violações administrativas foram impostos à firma.

Em março, o Serviço Federal de Migração também descobriu uma fábrica de salsichas subterrânea, onde trabalhavam mais de 30 imigrantes do Tadjiquistão e da Moldávia.

Os trabalhadores não estavam registrados oficialmente em Moscou e viviam na própria fábrica, dormindo em camas de madeira feitas por eles mesmos.

Segundo o prefeito de Moscou, Sergei Sobyanin, a capital russa tem cerca de 250 mil imigrantes legalizados, além de milhões de ilegais.

No ano passado, depois de uma série de processos judiciais, cerca de 10 mil imigrantes ilegais foram deportados pelo governo russo.

Opiniões divididas

A questão da imigração ilegal continua dividindo fortemente as opiniões em Moscou.

Em março, o prefeito da cidade anunciou que, ao contratarem empregados, as empresas devem dar prioridade a moscovitas e russos, para só depois abrir espaço aos estrangeiros.

O Departamento Central de Assuntos Internos de Moscou afirma que imigrantes são responsáveis por cerca de 70% dos crimes cometidos na cidade.

No entanto, o porta-voz do Serviço Federal de Migração, Mikhail Tyurkin, disse que de acordo com estatísticas oficiais os estrangeiros são culpados por apenas 3,5% dos crimes cometidos na Rússia.

Recentemente, o representante do Comitê de Investigação da Rússia Aleksandr Bastrykin disse que estes índices de criminalidade se devem às condições em que vivem os imigrantes.

Fonte: http://noticias.uol.com.br/

O que é livro raro?

Quando se fala sobre livros raros, algumas questões relacionadas costumam vir à tona, como o conceito de raridade bibliográfica e a prática do colecionismo.

Márcia Carvalho Rodrigues

Sobre o colecionismo, sabe-se que é inerente ao ser humano a vontade de possuir objetos, de guardar coisas. Partindo desta premissa, é possível deduzir que um objeto cuja existência venha a se tornar conhecida, em algum momento será o “objeto de desejo” de alguém. Dessa necessidade humana de possuir, surgem as coleções.

Mas o que move esse desejo, esse impulso de guardar coisas, acumular objetos? Uma possível explicação seria o fato de que os seres humanos são dotados de um instinto de propriedade. Além do mais, possuir determinadas peças confere prestígio a quem as possui. É como se houvesse a possibilidade da transferência do significado e da importância do objeto para o seu detentor, uma apropriação do poder inerente à obra. Somando-se a isso, há ainda um desejo de conservação do patrimônio às gerações futuras, numa tentativa de preservar uma amostra das tradições, costumes, crenças etc., de uma época, representadas por artefatos intencionalmente selecionados.

Assim como qualquer outro objeto colecionável, o livro também carrega sua carga simbólica, e representa a materialização da cultura e do conhecimento. Consequentemente, assume características que vão além de sua finalidade inicial – a de servir de suporte à s ideias, passando a simbolizar o conhecimento em si, sendo objeto de status e poder, agregando características que o tornam também objeto de apreciação.

Colecionadores de livros raros escolhem suas obras em função, principalmente, da caracterização do livro enquanto objeto: belas encadernações, livros nos quais se encontram preciosas gravuras, exemplares que possuem anotações manuscritas de pessoas de destaque na vida pública ou em determinada área do conhecimento, tiragens especiais etc.

Sendo assim, livros tornam-se raros ou valiosos quando carregados de significado, ou seja, quando apresentam características que os elevam à categoria de símbolos, sejam estes de poder, de status, de riqueza ou de superioridade, deslocando-se do universo dos “livros comuns” para o universo das “raridades bibliográficas”.

Mas o que torna um livro raro?

Não existem fórmulas fáceis para determinar a raridade de um exemplar. Um livro pode se tornar valioso por seu conteúdo – por exemplo: os primeiros relatos de invenções e descobertas científicas, as primeiras edições de importantes obras literárias ou históricas; ou por suas características físicas – por exemplo: encadernações luxuosas contendo ouro e pedras preciosas, anotações manuscritas de uma pessoa ilustre, livro cujas ilustrações dão uma nova interpretação de um texto ou da obra de um artista de renome etc.

Pode-se dizer também que a raridade está direta e intimamente ligada à escassez da obra, ou seja, um livro alcança o status de raridade bibliográfica quando a sua procura excede a oferta, tornando-se difícil de ser encontrado devido a uma série de fatores que, isolados ou combinados entre si, determinam a importância dessa obra dentro do universo bibliográfico. Um exemplar único possui atributos que o tornam insubstituível, o que acaba incidindo diretamente na relação oferta-procura, aumentando o seu valor de mercado. Daí advém sua carga simbólica, seu status, sua representatividade: torna-se “objeto de desejo” de alguém.

Em geral, curadores de acervos, colecionadores de obras raras e livreiros antiquários fazem uso de uma metodologia própria, baseada em uma série de aspectos relacionados à obra, que norteia seu trabalho de identificação de raridades. Essa metodologia, sistematizada e apresentada pela bibliotecária Ana Virgínia Pinheiro (chefe da Divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional) em sua obra Que é livro raro1, sugere a observação das seguintes características:

Limite histórico

Deve-se observar os períodos que caracterizam a produção artesanal de livros. A antiguidade, por si só, não é suficiente para tornar um livro valioso sob o ponto de vista mercadológico. A importância do texto, as condições do exemplar e a demanda pela obra determinarão o valor de um livro antigo. No entanto, algumas categorias de livros são geralmente mais procuradas, incluindo:

- Todos os livros impressos antes de 1501: em meados de 1450, Johann Gutenberg (1397-1468) inventou, em Mogúncia (Alemanha), a imprensa de tipos móveis. Antes disso, os livros eram escritos manualmente, copiados um a um, de forma totalmente artesanal. Desde então, e até 1500, os livros impressos receberam a denominação de incunábulos (obras impressas nos primeiros anos após a invenção da imprensa, até 1500), e correspondem ao período que se pode chamar de “infância da imprensa”.

- Livros impressos nas Américas antes de 1801: nos séculos subsequentes à invenção de Gutenberg, a imprensa se difundiu rapidamente, porém de maneira irregular, chegando mais cedo em alguns lugares e mais tardiamente em outros. Assim, pode-se também considerar raros os livros impressos nas Américas até o ano de 1801, quando sua produção em papel artesanal perdeu representatividade e o livro impresso ganhou sua face industrial.

- Livros impressos no Brasil no período da Impressão Régia (1808-1822), podendo-se estender este período até o final do século, devido à demora com que se desenvolveu a imprensa em certas regiões do Brasil (no Rio Grande do Sul, por exemplo, a história da imprensa tem início em 1827, quando surgiu o primeiro periódico gaúcho: o Diário de Porto Alegre).

Aspectos bibliológicos

Deve-se observar características referentes ao processo e aos materiais utilizados na produção da obra. Deve-se considerar o tipo de papel utilizado na confecção da obra (ex.: pergaminho, velino); a presença de ilustrações produzidas de forma artesanal ou por um artista de renome, como calcogravuras, litogravuras e aquarelas; belas e luxuosas encadernações que utilizam materiais nobres e preciosos, como pedras e ouro; livros impressos em formatos peculiares, como edições em miniatura ou em formatos não usuais.

Valor cultural da obra

Um dos fatores mais relevantes na determinação de raridade é a importância intrínseca da obra, ou seja, o quão importante o livro é considerado na sua área. Devido a este fator, as primeiras edições (também chamadas de edições princeps) de uma obra importante para determinada área do conhecimento são bastante valorizadas. Este é o caso, por exemplo, das seis primeiras edições de On the origin of species (A origem das espécies), de Charles Darwin, que se tornaram atraentes para colecionadores por demonstrarem mudanças importantes no pensamento de Darwin ao longo do tempo. Da mesma forma que as edições princeps, edições censuradas, expurgadas e tiragens reduzidas também costumam ser consideradas raras.

Pesquisa bibliográfica

Diversos repertórios bibliográficos consagrados podem – e devem, sempre que possível – ser utilizados na pesquisa sobre determinado autor ou obra. Tais repertórios são obras monumentais que apresentam informações detalhadas sobre as obras e seus autores. É o caso, por exemplo, da Bibliographia Brasiliana, de Rubens Borba de Moraes, reeditada recentemente pela editora da USP. Esta obra, em dois volumes, é considerada a principal fonte de referência de livros raros sobre o Brasil, pois reúne descrições e comentários sobre livros publicados entre 1504 e 1900 referentes ao Brasil, além de livros de autores brasileiros do período colonial, impressos fora do país.

Características do exemplar

Deve-se observar a integridade física do exemplar (quanto mais preservado, maior será seu valor de mercado); características como a presença de marcas de propriedade (assinaturas, carimbos, ex-libris); a presença de anotações manuscritas de pessoa ilustre (notas marginais, grifos, observações manuscritas); a presença de dedicatórias e autógrafos.

Exemplares cujo antigo proprietário é ou foi uma pessoa famosa ou importante para alguma área do conhecimento tendem a aumentar o valor de mercado do mesmo. Da mesma forma, autógrafos, inscrições ou dedicatórias, ex-libris, carimbos ou outras marcas distintivas, comprovadamente autênticos, também contribuem para tornar o livro raro: o objeto livro passa agora a representar o proprietário e toda a sua influência. Torna-se, portanto, um intermediário entre o leitor e o ilustre proprietário.

Há que se observar, porém, que autores contemporâneos costumam assinar muitas cópias de seus livros em eventos organizados para promover a venda de suas obras (lançamentos, feiras do livro etc.). Por serem comuns nos dias de hoje, os autógrafos normalmente acrescentam pouco ao valor de mercado do livro. Sendo assim, às vezes, torna-se necessário consultar um especialista com amplo conhecimento do mercado livreiro para avaliar um exemplar assinado.

Baseadas nos aspectos acima mencionados, as bibliotecas costumam elaborar uma série de critérios para determinação de raridade, buscando assegurar tratamento adequado às suas obras. Além de estabelecerem regras sobre o que será considerado raro, esses critérios balizam o trabalho do bibliotecário, contribuindo para sanar a dúvida inicial sobre o que vem a ser um livro raro.

Enfim, para alcançar o status de raridade, livros devem atender a pelo menos um dos requisitos acima mencionados, sendo que alguns conseguem atender a vários requisitos ao mesmo tempo. Livros raros são luxos, objetos de desejo que bibliotecas e colecionadores ambicionam ter para si. Cabe aos curadores de acervos, bibliotecários, colecionadores, pesquisadores, livreiros etc. buscar subsídios para que essas obras sobrevivam à ação do tempo, para que gerações futuras possam se deliciar com os prazeres de ler, ver ou manipular um livro raro.

Márcia Carvalho Rodrigues é bibliotecária, mestre em letras, cultura e regionalidade e coordenadora do Setor de Processamento Técnico da Biblioteca Central da Universidade de Caxias do Sul.

Fonte: http://www.comciencia.br/

Águas urbanas

As águas urbanas geralmente incluem abastecimento de água e saneamento. Nessa perspectiva, saneamento envolve a coleta de tratamento de efluentes domésticos e industriais, não inclui drenagem urbana, gestão dos resíduos sólidos, porque ainda perdura uma visão desatualizada da gestão das águas urbanas da cidade.

Carlos E. M. Tucci

Águas urbanas envolvem componentes que permitem o desenvolvimento ambiental sustentável e utilizam os conceitos da gestão integrada dos recursos hídricos (GIRH), necessários para planejamento, implementação e manutenção da infra-estrutura da cidade. Nesse contexto, ficam denominados Gestão Integrada das Águas Urbanas. Neste artigo, analisam-se o desenvolvimento urbano e suas relações com as águas urbanas no Brasil. A gestão dos recursos hídricos no Brasil é realizada por bacias hidrográficas, e o domínio é federal ou estadual. Examinam-se as possibilidades de gestão da água na cidade e na bacia hidrográfica no contexto institucional brasileiro.

Desenvolvimento urbano

Estrutura urbana

O DESENVOLVIMENTO urbano se acelerou na segunda metade do século XX com a concentração da população em espaço reduzido, produzindo grande competição pelos mesmos recursos naturais (solo e água), destruindo parte da biodiversidade natural. O meio formado pelo ambiente natural e pela população (socioeconômico urbano) é um ser vivo e dinâmico que gera um conjunto de efeitos interligados, que sem controle pode levar a cidade ao caos.

O desenvolvimento sustentável urbano tem o objetivo de melhorar a qualidade da vida da população e a conservação ambiental. É também essencialmente integrador na medida em que a qualidade de vida somente é possível com um ambiente conservado que atenda às necessidades da população, garantindo harmonia do homem e da natureza.

Os principais componentes da estrutura da gestão da cidade envolvem os seguintes elementos:

Planejamento e gestão do uso do solo: trata da definição, por meio do Plano Diretor Urbano, de como a cidade é prevista para ser ocupada e suas correções com relação ao cenário do passado e do presente;

Infra-estrutura viária, água, energia, comunicação e transporte: planejamento e gestão desses componentes da infra-estrutura que podem ser de atribuição de implantação pública ou privada, mas devem estar regulados pelo município;

Gestão socioambiental: a gestão do meio ambiente urbano é realizada por entidades municipais, estaduais ou federais de acordo com a estrutura institucional. A gestão envolve a avaliação e aprovação de projetos, monitoramento, fiscalização e pesquisa para que o desenvolvimento urbano seja socioambiental sustentável.

Indicadores

Os sistemas urbanos são primordialmente áreas de consumo e moradia. Possuem diferentes dimensões ou integração de várias áreas como Regiões Metropolitanas. Em 1900, 13% da população mundial eram urbanas, atualmente chegam a 50%, ocupando apenas 2,8% do território do globo. A população urbana no Brasil chega a 83%. Em 2010 está previsto que 50,8% da população urbana do mundo estarão na ásia e 13,4%, na América Latina e Caribe. O mundo está se tornando cada vez mais urbano em razão do desenvolvimento econômico, gerando pressão sobre o ambiente ocupado pela urbanização.

Os principais indicadores do desenvolvimento urbano são os seguintes:

• População: taxa de crescimento, migração e densificação urbana;

• Econômico: renda, produto bruto e perfil de produção;

• Uso do solo: distribuição por tipo de uso do espaço urbano em residencial, comercial e industrial, áreas públicas.

A urbanização aumenta com o crescimento econômico, quando o perfil da renda se altera e o emprego se concentra mais nos serviços e na indústria do que na agricultura. Com a urbanização, a taxa de natalidade tende a diminuir em razão de vários fatores sociais.

O crescimento urbano ocorrido nas últimas décadas transformou o Brasil num país essencialmente urbano (83% de população urbana). Esse processo se deu especialmente nas Regiões Metropolitanas (RM) e nas cidades que se transformaram em pólos regionais. As RM possuem um núcleo principal com várias cidades circunvizinhas. A taxa de crescimento do núcleo da RM é pequena, enquanto o crescimento da periferia é muito alto. As cidades acima de um milhão de habitantes crescem a uma taxa média de 0,9% anual, enquanto os pólos regionais com população entre cem mil e quinhentos mil (cidades médias segundo Ipea/IBGE (MMA, 2000)) crescem a uma taxa de 4,8% (IBGE, 1998). Todos os processos inadequados de urbanização e impacto ambiental que se observaram nas RM estão se reproduzindo nas cidades de médio porte. Cidades com população acima de cem mil habitantes correspondem a 51% da população total do país, distribuídos em 212 municípios, enquanto os trinta maiores municípios (acima de quinhentos mil) representam 27% da população.

Desde o século passado, o desenvolvimento urbano passou a criar padrões de concentração urbana. Nas grandes cidades, houve um processo de desconcentração urbana em direção à periferia, deixando o centro das cidades despovoado e degradado. Dificuldades de vias de transporte, aumento de tráfego, deterioração do transporte têm levado a mudanças de atitude nesse processo.

No Brasil, em algumas cidades, a população em área irregular ou informal chega a 50% (MMA, 2000). O crescimento da população favelada tem sido significativo, e mesmo o seu adensamento é preocupante. O crescimento populacional ocorre especialmente na população de baixa renda, e a população favelada deve dobrar nos próximos dez anos, chegando a 13,5 milhões de pessoas. Isso reflete o déficit habitacional resultado da situação econômica, já que a participação do Estado no aumento da moradia foi da ordem de 27% (MMA, 2000).

Os principais problemas relacionados com a infra-estrutura e a urbanização nos países em desenvolvimento, com destaque para a América Latina, são:

Grande concentração populacional em pequena área, com deficiência no sistema de transporte, falta de abastecimento e saneamento, ar, água poluída e inundações. Essas condições ambientais inadequadas reduzem condições de saúde, qualidade de vida da população, impactos ambientais, e são as principais limitações ao seu desenvolvimento.

Aumento da periferia das cidades de forma descontrolada pela migração rural em busca de emprego. Esses bairros geralmente estão desprovidos de segurança, de infra-estrutura tradicional de água, esgoto, drenagem, transporte e coleta de resíduos sólidos, e são dominados por grupos de delinqüentes geralmente ligados ao tráfico de drogas.

A urbanização é espontânea e o planejamento urbano é realizado para a cidade ocupada pela população de renda média e alta. Para áreas ilegais e públicas, existe invasão e a ocupação ocorre sobre áreas de risco como de inundações e de escorregamento, com freqüentes mortes durante o período chuvoso. Parte importante da população vive em algum tipo de favela. Portanto, existem a cidade formal e a informal. A gestão urbana geralmente atinge somente a primeira.

Impactos sobre águas urbanas

O planejamento urbano é realizado para a cidade formal, e para a cidade informal são analisadas tendências dessa ocupação. Os principais problemas relacionados com a infra-estrutura de água no ambiente urbano são:

• Falta de tratamento de esgoto: grande parte das cidades da região não possui tratamento de esgoto e lança os efluentes na rede de esgotamento pluvial, que escoa pelos rios urbanos (maioria das cidades brasileiras);

• Outras cidades optaram por implantar as redes de esgotamento sanitário (muitas vezes sem tratamento), mas não implementam a rede de drenagem urbana, sofrendo freqüentes inundações com o aumento da impermeabilização;

• Ocupação do leito de inundação ribeirinha, sofrendo freqüentes inundações;

• Impermeabilização e canalização dos rios urbanos com aumento da vazão de cheia (sete vezes) e sua freqüência; aumento da carga de resíduos sólidos e da qualidade da água pluvial sobre os rios próximos das áreas urbanas;

• Deterioração da qualidade da água por falta de tratamento dos efluentes tem criado potenciais riscos ao abastecimento da população em vários cenários, e o mais crítico tem sido a ocupação das áreas de contribuição de reservatórios de abastecimento urbano que, eutrofizados, podem produzir riscos à saúde da população.

Existe uma visão limitada do que é a gestão integrada do solo urbano e da sua infra-estrutura, e grande parte dos problemas destacados aqui foi gerada por um ou mais dos aspectos destacados a seguir:

Falta de conhecimento: da população e dos profissionais de diferentes áreas que não possuem informações adequadas sobre os problemas e suas causas. As decisões resultam em custos altos, e algumas empresas se apóiam para aumentar seus lucros;

Concepção inadequada dos profissionais de engenharia para o planejamento e controle dos sistemas: uma parcela importante dos engenheiros que atuam no meio urbano está desatualizada quanto à visão ambiental e geralmente busca soluções estruturais que alteram o ambiente, com excesso de áreas impermeáveis e conseqüente aumento de temperatura, inundações, poluição, entre outros;

Visão setorizada do planejamento urbano: o planejamento e o desenvolvimento das áreas urbanas são realizados sem incorporar aspectos relacionados com os diferentes componentes da infra-estrutura de água. Uma parte importante dos profissionais que atuam nessa área possui uma visão setorial limitada;

Falta de capacidade gerencial: os municípios não possuem estrutura para o planejamento e gerenciamento adequado dos diferentes aspectos da água no meio urbano.

Águas urbanas

As águas urbanas englobam o sistema de abastecimento de água e esgotos sanitários, a drenagem urbana e as inundações ribeirinhas, a gestão dos sólidos totais, tendo como metas a saúde e conservação ambiental. Nesta seção, inicialmente é apresentada uma visão histórica do desenvolvimento das águas urbanas.

Fases das águas urbanas

A sociedade agrícola era formada de pequenos grupos ou núcleos que convergiram para as cidades atuais. Até o século XX, o desafio das cidades era evitar a proliferação de doenças, especialmente pelas condições sanitárias dos efluentes da própria população que contaminava suas fontes de abastecimento, criando condições ideais de proliferação de doenças infecciosas.

O abastecimento de água de fontes seguras e a coleta de esgoto, com despejo a jusante (sem tratamento) do manancial da cidade, tiveram como finalidade evitar doenças e seus efeitos, mas acabaram transferindo os impactos para jusante. Essa fase é chamada de higienista. O crescimento urbano no referido século se acelerou depois da Segunda Guerra Mundial, ocorreu um boom de crescimento populacional, chamado de baby boomer. Esse processo foi seguido da urbanização acelerada, levando uma alta parcela da população para as cidades nesses países, resultando novamente em colapso do ambiente urbano em razão dos efluentes sem tratamento e da poluição aérea.

Para controle desse impacto, no início da década de 1970 houve um marco importante com a aprovação do "Clean Water Act" (Lei de água limpa) nos Estados Unidos. Essa legislação definiu que todos os efluentes deveriam ser tratados com a melhor tecnologia disponível para recuperação e conservação dos rios. Foram realizados investimentos maciços em tratamento de esgoto doméstico e industrial, recuperando em parte a qualidade da água dos sistemas hídricos (rios, lagos, reservatórios e costeiro). Isso permitiu melhorar as condições ambientais, evitar a proliferação de doenças e a deterioração de fontes de abastecimento. Nessa mesma época, verificou-se que era insustentável continuar a construção de obras de drenagem que aumentassem o escoamento em razão da urbanização, como a canalização de rios naturais. Procurou-se revisar os procedimentos e utilizar sistemas de amortecimento em detrimento de canalização. Essa tem sido denominada fase corretiva das águas urbanas.

Apesar dessas ações, verificou-se que persistia uma parte da poluição em razão das inundações urbanas e rurais, chamadas de poluição de fontes difusas. Desde os anos 1990, esses países têm investido no desenvolvimento de uma política de desenvolvimento sustentável urbano baseado no tratamento das águas pluviais urbanas e rurais, conservação do escoamento pluvial e tratamento dos efluentes em nível terciário para retirada de nitrogênio e fósforo que eutrofizam os lagos. A base desse desenvolvimento no uso do solo é a implementação da urbanização, preservando os caminhos naturais do escoamento e priorizando a infiltração. Essa fase tem sido denominada desenvolvimento sustentável (Tabela 1).

Nos países em desenvolvimento, as cidades variam de estágio. Inicialmente, quando a população é pequena, o abastecimento é realizado a partir de poços ou de um corpo d’água próximo, e o esgoto é despejado na drenagem (quando existe) ou evolui para poços negros ou fossas sépticas. Existe o risco de a água de abastecimento ser contaminada pelo próprio esgoto. Esse cenário é dramático quando o solo tem baixa capacidade de infiltração, as fossas não funcionam e o esgoto escoa pelas ruas ou por drenagem. Esse estágio é anterior ao higienismo, o que provoca a proliferação de doenças transmitidas pela água. Nesse estágio pré-higienista, doenças como diarréia são a principal causa de mortalidade infantil.

O Brasil infelizmente está ainda na fase higienista em razão de falta de tratamento de esgoto, transferência de inundação na drenagem e falta de controle dos resíduos sólidos.

Água e esgoto

Os serviços de água e esgoto no Brasil são resumidos na Tabela 2. Pode-se observar que a cobertura de água é alta no Brasil, mas é baixa a cobertura de coleta e tratamento de esgoto.

Os serviços de água possuem problemas crônicos: preservação dos mananciais urbanos, perda de água na distribuição e falta de racionalização de uso da água em nível doméstico e industrial.

O desenvolvimento urbano tem produzido um ciclo de contaminação, gerado pelos efluentes da população urbana, que são o esgoto doméstico/industrial e o esgoto pluvial. Esse processo ocorre em razão de:

• Despejo sem tratamento dos esgotos sanitários nos rios, contaminando este sistema hídrico.

• O esgoto pluvial transporta grande quantidade de poluição orgânica e de metais que atingem os rios nos períodos chuvosos.

• Contaminação das águas subterrâneas por despejos industriais e domésticos, por meio das fossas sépticas, vazamento dos sistemas de esgoto sanitário e pluvial, entre outros.

• Depósitos de resíduos sólidos urbanos, que contaminam as águas superficiais e subterrâneas, funcionando como fonte permanente de contaminação.

• Ocupação do solo urbano sem controle do seu impacto sobre o sistema hídrico.

Com o tempo, locais que possuem abastecimento tendem a reduzir a qualidade da sua água ou exigir maior tratamento químico da água fornecida à população. Portanto, mesmo existindo hoje uma boa cobertura do abastecimento de água no Brasil, essa pode ficar comprometida se medidas de controle do ciclo de contaminação não ocorrerem.

A legislação de proteção de mananciais aprovada na maioria dos Estados brasileiros protege a bacia hidrográfica utilizada para abastecimento das cidades. Nessas áreas, é proibido o uso do solo urbano que possa comprometer a qualidade da água de abastecimento.

Por causa do crescimento das cidades, essas áreas foram pressionadas à ocupação pelo valor imobiliário da vizinhança e pela falta de interesse do proprietário em proteger a área, já que essa perdeu o valor em razão da legislação e ainda necessita pagar impostos que recaem sobre ela. Essas áreas são invadidas pela população de baixa renda, e a conseqüência imediata é o aumento da poluição. Muitos proprietários incentivaram a invasão até para poder vender a propriedade para o poder público.

A principal lição que se pode tirar desse cenário é que, ao se declarar de utilidade pública a bacia hidrográfica do manancial, essa deveria ser adquirida pelo poder público ou criar valor econômico para propriedade, mediante a geração de mercado indireto para a área (mercado de compensação ambiental, solo criado etc.), ou ainda outros benefícios para os proprietários, para compensar a proibição pelo seu uso e incentivá-lo a preservá-la. Por exemplo, no Sul ou Sudeste a disponibilidade hídrica média é de 20 l.s-1.km-2. Considerando 60% desse valor como a vazão regularizada, 1 ha permite abastecer sessenta pessoas ou quinze famílias. A área poderia ser alugada por 0,5% do valor da propriedade por mês com o compromisso do proprietário de preservar a área em condições naturais. O valor do aluguel representaria um aumento do valor do preço da conta de água de 5% a 15%. Esse aumento seria o preço a ser pago para garantir a qualidade da água ao longo do tempo.

A cobertura de coleta de esgoto é de 77% se forem consideradas as fossas (Tabela 2), mas a cobertura de tratamento de esgoto é baixa, comprometendo a qualidade da água, já que contamina os mananciais. Considerando o total da demanda da população de água, a sua carga resultante tratada antes de despejada nos rios é seguramente inferior a 15%. Isso resulta em sete a onze mil toneladas de DBO despejados por dia nos sistemas hídricos brasileiros. Essa poluição provoca doenças de veiculação hídrica e deterioração do ambiental natural. Cada habitante está recebendo um subsídio ambiental por não pagar pelos seus impactos.

No Brasil, as empresas de saneamento nos últimos anos têm investido em redes de coleta de esgoto e estações de tratamento, mas a parcela do volume gerado pelas cidades que efetivamente é tratado antes de chegar ao rio é ainda muito pequena. Algumas das questões são as seguintes:

• Quando as redes de esgoto são implementadas ou projetadas, muitas vezes não foi prevista a ligação da saída das habitações ou dos condomínios a elas. Dessa forma, as redes não coletam o esgoto projetado e as estações não recebem o esgoto para o qual têm a capacidade. O projeto foi elaborado de forma inadequada ou não foi executado como deveria, pois o esgoto continua escoando pelo pluvial para o sistema fluvial.

• Como uma parte importante das empresas cobra pelo serviço de coleta e tratamento, mesmo sem que o tratamento seja realizado, qual será o interesse das empresas em completar a cobertura de coleta e tratamento do esgoto? Outro cenário freqüente é o de aumentar a coleta sem tratamento, agravando o problema à medida que concentra a poluição nos rios. Do mesmo modo, qual é o interesse da empresa na eficiência na redução das perdas se pode transferir os custos para o preço final? Como a empresa terá interesse em reduzir a demanda por racionalização, se isso representará menor receita? Observa-se a falta de indicadores de eficiência para os serviços e de compensações para essa eficiência à medida que a água é racionalizada.

• Quando for implementado o sistema de cobrança pela poluição, quem irá pagar as penas previstas para a poluição gerada?

Essas questões geralmente estão relacionadas com a gestão dos serviços e o desenvolvimento socioeconômico.

Drenagem urbana e inundações urbanas

O escoamento pluvial pode produzir inundações e impactos nas áreas urbanas em razão de dois processos, que ocorrem isoladamente ou combinados:

Inundações de áreas ribeirinhas: são inundações naturais que ocorrem no leito maior dos rios por causa da variabilidade temporal e espacial da precipitação e do escoamento na bacia hidrográfica;

Inundações em razão da urbanização: são as inundações que ocorrem na drenagem urbana por causa do efeito da impermeabilização do solo, canalização do escoamento ou obstruções ao escoamento.

Inundações de áreas ribeirinhas – Os rios geralmente possuem dois leitos: o leito menor, onde a água escoa na maior parte do tempo, é limitado pelo risco de 1,5 a dois anos. As inundações ocorrem quando o escoamento atinge níveis superiores ao leito menor, atingindo o leito maior. As cotas do leito maior identificam a magnitude da inundação e seu risco. Os impactos pela inundação ocorrem quando essa área de risco é ocupada pela população (Figura 1). Esse tipo de inundação geralmente ocorre em bacias médias e grandes (> 100 km2).

Essas condições ocorrem em razão das seguintes ações:

• No Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano das cidades, geralmente não existe nenhuma restrição quanto à ocupação das áreas de risco de inundação, a seqüência de anos sem enchentes é razão suficiente para que empresários desmembrem essas áreas para ocupação urbana.

• Invasão de áreas ribeirinhas, que pertencem ao poder público, pela população de baixa renda.

• Ocupação de áreas de médio risco, de freqüência menor, mas quando ocorre inundação sofrem prejuízos significativos.

O gerenciamento atual não incentiva a prevenção desses problemas, já que, à medida que ocorre a inundação, o município declara calamidade pública e recebe recurso a fundo perdido. Para gastar os recursos, não é preciso realizar concorrência pública. Como a maioria das soluções sustentáveis passa por medidas não-estruturais, que envolvem restrições à população, dificilmente um prefeito buscará esse tipo de solução, porque geralmente a população espera por uma obra. Ao passo que, para implementar as medidas não-estruturais, ele teria que interferir em interesses de proprietários de áreas de risco, que politicamente é complexo em nível local.

Para buscar modificar esse cenário, é necessário um programa em nível estadual ou federal para apoiar tecnicamente as soluções dos municípios, e a educação da população, além de atuação junto aos bancos que financiam obras em áreas de risco.

Inundações por causa de urbanização – As enchentes aumentam a sua freqüência e magnitude em razão da impermeabilização do solo e da construção da rede de condutos pluviais. O desenvolvimento urbano pode também produzir obstruções ao escoamento, como aterros, pontes, drenagens inadequadas, obstruções ao escoamento junto a condutos e assoreamento. Geralmente essas inundações são vistas como locais porque envolvem bacias pequenas (< 100 km2, mas freqüentemente bacias < 10 km2).

À medida que a cidade se urbaniza, em geral, ocorrem os seguintes impactos:

• Aumento das vazões máximas (Figura 2) em várias vezes e da sua freqüência em virtude do aumento da capacidade de escoamento através de condutos e canais e impermeabilização das superfícies.

• Aumento da produção de sedimentos pela falta de proteção das superfícies e pela produção de resíduos sólidos (lixo).

• A deterioração da qualidade da água superficial e subterrânea, em razão de lavagem das ruas, transporte de material sólido e de ligações clandestinas de esgoto cloacal e pluvial.

• Por causa da forma desorganizada como a infra-estrutura urbana é implantada, tais como: (a) pontes e taludes de estradas que obstruem o escoamento; (b) redução de seção do escoamento por aterros de pontes e para construções em geral; (c) deposição e obstrução de rios, canais e condutos por lixos e sedimentos; (d) projetos e obras de drenagem inadequadas, com diâmetros que diminuem a jusante, drenagem sem esgotamento, entre outros.

Os sólidos totais

Os dois tipos principais de sólidos são os sedimentos gerados pela erosão do solo, em razão do efeito da precipitação e do sistema de escoamento, e os resíduos sólidos produzidos pela população. A soma desses dois componentes é chamada de sólidos totais.

No desenvolvimento urbano, são observados alguns estágios distintos da produção de material sólido na drenagem urbana, como seguem:

a) estágio de pré-desenvolvimento: a bacia hidrográfica naturalmente produz uma quantidade de sedimentos transportada pelos rios em razão das funções naturais do ciclo hidrológico;

b) estágio inicial de desenvolvimento urbano: quando ocorre modificação da cobertura da bacia, pela retirada da sua proteção natural, o solo fica desprotegido e a erosão aumenta no período chuvoso, aumentando também a produção de sedimentos. Exemplos dessa situação são: enquanto um loteamento é implementado, o solo fica desprotegido; ruas sem pavimento; erosão pelo aumento da velocidade do escoamento a montante por áreas urbanizadas; na construção civil por falta de manejo dos canteiros de obras onde ocorre grande movimentação de terra. Esse volume é transportado pelo escoamento superficial até os rios. Nessa fase, existe predominância dos sedimentos e pequena produção de lixo;

c) estágio intermediário: parte da população está estabelecida, ainda existe importante movimentação de terra por causa de novas construções. Em virtude da população estabelecida, existe também uma parcela de resíduos sólidos que se soma aos sedimentos;

d) estágio de área desenvolvida: nessa fase praticamente todas as superfícies urbanas estão consolidadas, resultando numa produção residual de sedimentos em razão das áreas não-impermeabilizadas, mas a produção de lixo urbano chega ao seu máximo com a densificação urbana.

Qualidade da água do pluvial

A quantidade da água na drenagem pluvial possui uma carga poluente alta por causa das vazões envolvidas. O volume dessas vazões é mais significativo no início das enchentes. Os primeiros 25 mm de escoamento superficial geralmente transportam grande parte da carga poluente de origem pluvial (Schueller, 1987).

Uma das formas de avaliar a qualidade da água urbana é pelos parâmetros que caracterizam a poluição orgânica e a quantidade de metais. Schueller (1987) cita que a concentração média dos eventos não se altera em razão do volume do evento, sendo característico de cada área drenada.

A rede de esgoto pode ser combinada (sanitário e pluvial num mesmo conduto) ou separada (rede pluvial e sanitária separada). A legislação estabelece o sistema separador, mas na prática isso não ocorre em razão das ligações clandestinas e da falta de rede de esgoto sanitário. Por causa da falta de capacidade financeira para implantação da rede de esgoto, algumas prefeituras têm permitido o uso da rede pluvial para transporte do esgoto sanitário, o que pode ser uma solução inadequada à medida que esse esgoto não é tratado. Quando o sistema sanitário é implementado, a grande dificuldade envolve a retirada das ligações existentes da rede pluvial, o que na prática resulta em dois sistemas misturados com diferentes níveis de carga.

A qualidade da água da rede pluvial depende de vários fatores: da limpeza urbana e sua freqüência; da intensidade da precipitação e sua distribuição temporal e espacial; da época do ano e do tipo de uso da área urbana.

Gestão das águas urbanas

A gestão das ações dentro do ambiente urbano pode ser definida de acordo com a relação de dependência da água através da bacia hidrográfica ou da jurisdição administrativa do município, do Estado ou da nação. A tendência da gestão dos recursos hídricos tem sido realizada através da bacia hidrográfica, no entanto a gestão do uso do solo é realizada pelo município ou grupo de municípios numa Região Metropolitana. A gestão pode ser realizada de acordo com a definição do espaço geográfico externo e interno à cidade.

Os planos das bacias hidrográficas têm sido desenvolvidos para bacias grandes (> 1.000 km2). Nesse cenário, existem várias cidades que interferem umas nas outras, transferindo impactos. O plano da bacia dificilmente poderá envolver todas as medidas em cada cidade, mas deve estabelecer os condicionantes externos às cidades, como a qualidade de seus efluentes, as alterações de sua quantidade, que visem à transferência de impactos. O mecanismo, já previsto na legislação, para gestão dos impactos da qualidade da água externa às cidades é o enquadramento do rio dentro dos padrões do Conama. No entanto, esses padrões não estabelecem padrões para controle do aumento da vazão por causa da urbanização.

A gestão do ambiente interno da cidade trata de ações dentro do município para atender aos condicionantes externos previstos no Plano de Bacia para evitar os impactos. Esses condicionantes geralmente buscam minimizar os impactos da quantidade e melhorar a qualidade da água no conjunto da bacia, além dos condicionantes internos que tratam de evitar os impactos à população da própria cidade. Para esses dois espaços existem gestores, os instrumentos utilizados e as metas da gestão, como descrito na Tabela 3. A construção global dessa estrutura de gestão esbarra em algumas dificuldades:

• Limitada capacidade dos municípios para desenvolverem a gestão, considerando a maioria desses.

• O sistema de gestão das bacias ainda não é uma realidade consolidada na maioria dos países da América do Sul.

• Reduzida capacidade de financiamento das ações pelos municípios e o alto nível de endividamento.

No primeiro caso, a solução passa pelo apoio estadual e federal mediante escritórios técnicos que apóiem as cidades de menor porte no desenvolvimento de suas ações de planejamento e implementação. O segundo dependerá da transição e evolução do desenvolvimento da gestão no país. O terceiro dependerá fundamentalmente do desenvolvimento de um programa em nível federal e mesmo estadual, com um fundo de financiamento para viabilizar as ações.

Tendências

As metas do milênio propostas pelas Nações Unidas envolvem vários aspectos nos quais a gestão das águas urbanas faz parte. Os principais são: (a) redução da falta de água potável e coleta e tratamento de esgoto em 50% até 2015; (b) redução da pobreza, em que a vulnerabilidade a eventos naturais e antrópicos tem peso muito grande, já que a vulnerabilidade a secas e inundações é um dos principais fatores de pobreza. Para atingir as Metas do Milênio em 2002 em Johanesburgo foi estabelecido que os países deveriam buscar desenvolver Planos de Recursos Hídricos para atingir as várias metas. Esses planos na realidade envolviam desenvolver a gestão dos recursos hídricos nos países.

O Brasil evoluiu no processo quanto à Gestão de Recursos Hídricos, pois ao implantar a Lei de Recursos Hídricos deu o primeiro passo instituindo o mecanismo amplo de gestão das águas, criou os instrumentos como outorga, cobrança e enquadramento dos rios (metas de qualidade da água), estabelecendo as condições de contorno para as cidades quanto à contaminação dos rios. Recentemente concluiu o Plano Nacional de Recursos Hídricos (MMA, 2006) e foi aprovada (janeiro de 2007) uma nova Legislação de Saneamento Ambiental que integra os mecanismos econômicos. Implementou as instituições como a Agência Nacional de Águas e estão em andamento as agências estaduais e os Conselhos e Comitês de bacia. Portanto, o processo está se encaminhando de forma adequada. No entanto, no âmbito das ações no saneamento observa-se o seguinte:

a) Atualmente no país existe um universo de várias cidades com serviços privatizados (empresas de direito privado é da ordem de 10%), com serviços públicos municipais e a grande maioria com serviços de empresas públicas estaduais. As empresas estaduais representam aproximadamente 82% da população atendida para abastecimento e 77% da população no esgoto (Ipea, 2002).

b) A cobertura de coleta de esgoto é média se forem consideradas as fossas, mas baixa cobertura de tratamento de esgoto que compromete o todo, já que contamina os mananciais.

c) A vulnerabilidade a eventos pluviais das cidades é alta, o que agrava a situação de pobreza na periferia das cidades. Os maiores prejuízos não são necessariamente materiais, mas sociais.

Para que o país possa atingir as metas do milênio e aumentar o abastecimento e o atendimento de coleta e tratamento de esgoto reduzindo esse déficit em 50% até 2005, seria necessário atuar especialmente sobre o seguinte:

• Aumentar o abastecimento de água na área rural e da população de baixa renda, buscando atingir os níveis de cobertura total de água segura.

• O déficit em coleta de esgoto é ainda de 32,9%; portanto, para buscar as metas, representaria reduzir esse déficit para 16,4%.

• O maior problema, no entanto, se encontra na redução no tratamento de esgoto, cujo déficit se encontra em 81,8%. Dentro da metas do milênio representaria reduzir para 40,9%.

Estudo realizado pelo PMSS em 2003-2004 (apud Esbe, 2006) menciona a necessidade de um investimento de R$ 178 bilhões em vinte anos para atingir a universalização, representando 0,6% do PIB. Tucci (2005a) apresentou a necessidade de investimento para um Programa Nacional de águas Pluviais que controlasse os impactos na drenagem e inundação das cidades, e identificou um total de R$ 21,5 bilhões em 24 anos para solução desses impactos, representando até 0,2% do PIB num ano. Com base nessas estimativas, é possível antever a necessidade de investimentos da ordem de 0,8% do PIB para o saneamento ambiental (sem incluir resíduos sólidos). Essa quantia representaria a ordem de R$ 16 bilhões por ano em água, esgoto e drenagem para, no horizonte de aproximadamente vinte anos, existir um processo sustentável de desenvolvimento urbano. Caso esse investimento fosse realizado como previsto em Tucci (2005a), iniciando com as cidades maiores para as menores em termos prioritários, as maiores cargas seriam contidas nos próximos anos.

A evolução da cobertura dos serviços nos últimos cinco anos (~1% ), no entanto, é inferior ao crescimento habitacional brasileiro (2001-2005), o que tem levado a um aumento do déficit e não necessariamente a uma redução (Esbe, 2006). As principais dificuldades existentes são relacionadas com:

a) Aspectos institucionais relacionados com a gestão das companhias, mudança de legislação e falta de eficiência dos serviços na medida em que não existem parâmetros, metas bem definidas de atendimento e eficiência dos serviços. A ineficiência é transferida aos usuários, já que os serviços não possuem competitividade.

b) Econômico-financeiro, como o contingenciamento dos recursos e a capacidade de endividamento dos municípios e financiamento permanente.

Atualmente falta integrar efetivamente as metas da Gestão dos Recursos Hídricos às do Saneamento Ambiental. Apesar de essa integração estar implicitamente prevista na legislação, na prática não ocorre. O Plano da Bacia Hidrográfica prevê o enquadramento dos rios, e as cidades deveriam atuar no controle dos efluentes urbanos para atingir a meta do enquadramento dos rios internos e externos à bacia. No entanto, é necessário que existam planos e que estes enquadrem os rios nos quais as cidades influenciam, seguidos de um plano de ações para atingir as metas.

Fonte: http://www.scielo.br/

A conexão entre humanos e animais

Os animais capazes de nos olhar de volta são especiais

NATALIE ANGIER

A história de amor dos humanos com os animais é longa, complexa e cheia de caprichos. Os animais são nossos melhores amigos e nossas almas gêmeas, mas são também nossos experimentos de laboratório e nossa comida. Amamos animais, mas sacrificamos milhões de cães e gatos abandonados todos os anos. Gastamos bilhões de dólares por ano com nossos animais de estimação e outros bilhões com proteção de animais e causas conservacionistas, mas esse valor torna-se pequeno quando comparado aos bilhões gastos com carne e caça e aos outros bilhões dedicados à erradicação de animais considerados pragas.

"Somos seletivos em relação aos animais que amamos; mesmo os que adoramos vivem à nossa disposição e são submetidos a crueldades", disse Alexandra Horowitz, professora de psicologia no Barnard College, em Nova York. Horowitz, autora do livro "Cabeça de Cachorro", e pesquisadores vêm prestando atenção estreita ao vínculo entre humanos e animais, área de estudo conhecida como antrozoologia.

Em nosso amor por outros animais e nossa curiosidade insaciável em relação às sensações, os sentimentos e os impulsos dos animais, cientistas enxergam chaves que revelam alguns dos aspectos mais essenciais da humanidade. Eles também enxergam o amor por animais como um caso clássico de biologia e cultura operando em conluio.

Mas o modo como nossos impulsos animais se expressam é um assunto fortemente cultural e contingente. Grupos humanos incorporaram animais em suas cerimônias religiosas, por meio de sacrifícios de animais ou do uso de máscaras de animais. Outros fizeram extenso uso folclórico e metafórico de animais.

O antropólogo David Aftandilian, da Universidade Cristã do Texas, escreve em "What Are the Animals to Us?" (o que os animais representam para nós?) que o urso é presença constante nas histórias das culturas circumpolares "porque anda sobre duas patas e consome os mesmos alimentos que as pessoas comem", e, através da hibernação, parece morrer e renascer.

Pesquisadores identificam a origem do amor pelos animais na capacidade humana de inferir os estados mentais de outros, algo que, segundo evidências, teria emergido entre 50 mil e 100 mil anos atrás. Possuidores dessa característica, nossos ancestrais não apenas puderam participar de intercâmbios sociais mais e mais sofisticados, como puderem manipular outras espécies e prever seus atos, antevendo para onde uma presa poderia estar se dirigindo ou atraindo uma rena, que lambe sal, impregnando um tronco de árvore com o tipo apropriado de resíduo humano.

Não demorou para que humanos começassem a atribuir características e motivações humanas a qualquer coisa que possuísse rosto, voz ou trajetória -ursos, morcegos, tempestades, a lua.

James Serpell, presidente da Sociedade Internacional de Antrozoologia, propôs que a disposição de antropomorfizar foi crucial para domesticação dos animais e a criação de laços com eles. Os humanos se sentiram atraídos pelos animais que pareciam reagir a seus gestos.

Animais como lobos desviam seus olhos quando são vistos, mas cães e gatos olham de volta. Outra coisa, disse Horowitz, é que os rostos dos cachorros "são flexíveis, e os cachorros conseguem levantar os lábios em um sorriso. Os animais que parecemos amar mais são os que nos olham e assumem expressões."

Os cães estiveram entre os primeiros animais domesticados, aproximadamente 10 mil anos atrás, em parte devido a sua notável facilidade em responder aos humanos e também por sua disposição de trabalhar. Especialmente úteis na caça, eram enterrados com seus donos.

No entanto, os principais textos sagrados das religiões monoteístas contêm poucas referências benévolas aos cães, e os cachorros têm sido um item de cardápio. Os astecas criavam uma espécie de cachorro sem pêlos para ser consumido, e, segundo o antrozoólogo Anthony L. Podberscek, da Universidade Cambridge, nas feiras da Coreia do Sul são vendidos cachorros para que sejam consumidos como carne ao lado de cachorros para servir de bichos de estimação. Normalmente, a elevação de um animal ao status de animal de estimação significa que ele é retirado da cadeia alimentar humana.

Os padrões de manutenção de animais como bichos de estimação variam segundo o tempo e as culturas e podem assemelhar-se a memes sociais contagiosos.

Harold Herzog, professor de psicologia na Universidade Western Carolina, na Carolina do Norte, em seu livro "Some We Love, Some We Hate, Some We Eat" (alguns nós amamos, alguns nós odiamos, alguns nós comemos), descreve o crescimento da classe média na França do século 19. "Em 1890", o guarda-roupa de um cachorro parisiense elegante poderia incluir "botas, um robe, um traje de banho, roupa de baixo e uma capa de chuva".

As pessoas demonstram paixão por seus animais de estimação; algumas podem até mesmo se dispor a morrer por eles. "Em estudos feitos sobre a razão de pessoas terem se recusado a abandonar Nova Orleans durante o Katrina, um número surpreendente de pessoas disse que não podia deixar seus bichos de estimação para trás", disse Herzog, aludindo ao furacão de 2005.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/

Intervenção cirúrgica

Para ex-modelo somali, Facebook é instrumento essencial no combate à circuncisão feminina

LÚCIA GUIMARÃES

A somali Waris Dirie é muito mais conhecida por ter sofrido o violento ritual de mutilação genital feminina aos 5 anos do que por ter se submetido ao lamentável, mas indolor, papel de Bond girl na encarnação do agente secreto britânico vivida pelo ator Timothy Dalton.

Andrea Bruce/NYT

Andrea Bruce/NYT

O maior desafio é mostrar que revolução não se restringiu a manifestações na Praça Tahrir

Dirie, autora do best seller internacional Flor do Deserto, de 1998, tornou a violência rotineira contra mulheres da África e do Oriente Médio ainda mais conhecida quando suas memórias foram transportadas para o cinema. Flor do Deserto, o filme, com uma outra supermodel, a etíope Liya Kebede no papel de Waris Dirie, recria a dolorosa cena que Dirie quer gravar na memória coletiva para poupar outras gerações.

Descoberta em Londres aos 18 anos pelo fotógrafo Terence Donovan enquanto varria a lanchonete de fast food onde trabalhava, Dirie havia fugido de sua família de nômades aos 13 anos para escapar de um casamento forçado. Caminhou até a capital, Mogadiscio, e foi despachada num avião para Londres para trabalhar como doméstica para a família do embaixador da Somália.

Ela foi uma das mais solicitadas modelos negras da década de 90. Hoje, aos 45 anos, não desfila mais e vive em Viena, com cidadania austríaca, onde opera sua fundação Flor do Deserto. Dirie viajou o mundo como embaixadora da ONU para denunciar a mutilação genital feminina. Ela falou ao Estado por e-mail, de Viena.

Mulheres são as mais afetadas pela guerra, mas menos de 3% daqueles que assinam tratados de paz desde 1992 são mulheres. Como elas podem ser incluídas nos processos de paz?

O que você descreve é bastante lógico. Na maioria dos países, as mulheres dificilmente estão envolvidas em qualquer processo político, incluindo os de guerra. Se estivessem, muitos conflitos ao redor do mundo já estariam solucionados. Mulheres compõem metade de qualquer sociedade. O sistema político que ignora esse dado está fadado a enfrentar problemas cedo ou tarde. Em relação ao envolvimento de mulheres em processos de paz, eu acho que ele virá naturalmente, uma vez que mulheres sejam incluídas em todas das decisões políticas e sociais de um país.

Um livro recente do antropólogo Aud Talle diz que mulheres somalis morando na Noruega têm mudado sua atitude em relação à circuncisão feminina e agora se opõem à prática. Qual a importância das sociedades e governos ocidentais em pressionar as comunidades de imigrantes para pôr fim a essa prática? Qual a sua visão sobre a recente controvérsia na França em relação ao uso da burca?

O exemplo de mulheres somalis na Noruega demonstra o seguinte: se as mulheres imigrantes vivem em uma sociedade que mostra ativamente os papéis que as mulheres podem desempenhar na sociedade, elas vão adotar ao menos em parte essas atitudes no cotidiano. Acho que esse é um bom estímulo também para as mulheres ocidentais darem um bom exemplo e mostrar o que é ser uma mulher independente para mulheres vindas de um contexto cultural diferente.

Todas as meninas submetidas à mutilação genital também são forçadas a aguentar casamentos arranjados?

Nem todas, mas é muito comum. Casamentos arranjados, que são basicamente a venda da própria filha para outra família ou homem, e a mutilação genital são, na essência, sintomas diferentes da mesma doença. E essa doença é olhar para mulheres e tratá-las como se fossem objetos, não seres humanos.

Pessoas sempre dizem que mais mulheres no poder trarão mais justiça e igualdade. Contudo, num país como Bangladesh, onde há uma primeira-ministra e a líder da oposição é uma mulher, mulheres ainda são atacadas com ácido nas ruas, geralmente por recusarem casamentos arranjados ou investidas sexuais. Como explicar essas discrepâncias numa sociedade?

É como colocar uma mulher no topo de uma empresa dominada por homens e dirigida por uma cultura do "macho". Ela não vai fazer diferença, a menos que a cultura dentro da empresa mude também. O mesmo é verdadeiro para sociedades. São as sociedades que têm de mudar, não o sexo das pessoas no topo.

No livro The Honor Code, o filósofo ganense-americano Kwame Appiah disse que algumas práticas sociais, como pés enfaixados e atrofiados e a escravidão, chegaram ao fim em parte porque chega uma hora em que as pessoas que seguiam uma velha ordem são expostas ao ridículo e à vergonha. Você acredita que esse possa ser o caso da violência de cunho religioso contra mulheres?

Acho que a violência contra as mulheres nunca é baseada na religião ou na cultura, embora muitas vezes seja justificada dessa forma. A violência contra as mulheres é baseada no medo do poder e da força da mulher. Pense nisso: os homens têm dominado mulheres por tanto tempo… Você pode compará-los a um ditador, que também teme perder poder, dinheiro e influência se permitir aos presumivelmente mais fracos ter voz.

A liberdade de reprodução sofreu um revés nos Estados Unidos recentemente com iniciativas como o fim do financiamento da Planned Parenthood. Você acha que esses contratempos podem afetar a liberdade reprodutiva em países que dependam muito de ajuda internacional?

Espero que não. O controle de natalidade é extremamente importante em países em desenvolvimento, especialmente na África Subsaariana. Vários estudos têm demonstrado a forte relação entre o acesso ao controle de natalidade e a educação sexual e a saúde da mulher em geral. Além disso, o HIV continua a ser uma questão extremamente importante no mundo em desenvolvimento.

Você acredita que a rede social, na medida em que contribui para estimular mudanças políticas na África e Oriente Médio, também possa ajudar a promover uma mudança geracional que vá beneficiar as jovens?

A rede social tem um enorme potencial para promover mudanças, especialmente em regimes antigos e restritivos, nos quais as pessoas não têm possibilidade de expressar abertamente suas opiniões ou usar os meios de comunicação tradicionais para promover suas ideias. Minha fundação usa com sucesso a rede social para alcançar os jovens e promover uma mudança na percepção sobre a mutilação genital, divulgar informações e, claro, para interagir uns com os outros. Leio todos os comentários postados no Facebook e é muito bom ver tantas pessoas engajadas na luta contra a mutilação genital feminina e para promover os direitos das mulheres.

Fonte: http://www.estadao.com.br/

Especuladores da fome fazem preço dos alimentos aumentar

Não são apenas más colheitas e mudanças no clima; especuladores também estão por trás dos preços recordes nos alimentos. E são os pobres que pagam por isso.

John Vidal

Os mesmos bancos, fundos de investimento de risco e investidores cuja especulação nos mercados financeiros globais causaram a crise das hipotecas de alto risco (sub-prime) são responsáveis por causar as alterações e a inflação no preço dos alimentos. A acusação contra eles é que, ao se aproveitar da desregulamentação dos preços dos mercados de commodities globais, eles estão fazendo bilhões em lucro da especulação sobre a comida e causando miséria ao redor do mundo. O artigo é de John Vidal.

Há pouco menos de três anos, as pessoas da vila de Gumbi, no oestede Malawi, passaram por uma fome inesperada. Não como a de europeus,que pulam uma ou duas refeições, mas aquela profunda e persistente fome que impede o sono e embaralha os sentidos e que acontece quando não se tem comida por semanas. Estranhamente, não houve seca, a causa tradicional da mal nutrição e fome no sul da África, e havia bastante comida nos mercados. Por uma razão não óbvia o preço de alimentos básicos como milho e arroz havia quase dobrado em poucos meses. Não havia também evidências de que os donos de mercados estivessem estocando comida. A mesma história se repetiu em mais de 100 países em desenvolvimento.

Houve revolta por causa de comida em mais de 20 países e governos tiveram que banir a exportação e subsidiar fortemente os alimentos básicos. A explicação apresentada por especialistas da ONU em alimentos era de que uma “perfeita” conjunção de fatores naturais e humanos tinha se combinado para inflar os preços. Produtores dos EUA, diziam as agências da ONU, tinham disponibilizado milhões de acres de terra para a produção de biocombustíveis; preços de petróleo e fertilizantes tinham subido intensamente; os chineses estavam mudando de uma dieta vegetariana para uma baseada em carne; secas criadas por mudanças no clima estavam afetando grandes áreas de produção.

A ONU disse que 75 milhões de pessoas se tornaram mal nutridas em função do aumento de preços. Mas uma nova teoria está surgindo entre economistas e mercadores. Os mesmos bancos, fundos de investimento de risco e investidores cuja especulação nos mercados financeiros globais causaram a crise das hipotecas de alto risco (sub-prime) são responsáveis por causar as alterações e a inflação no preço dos alimentos. A acusação contra eles é que, ao se aproveitar da desregulamentação dos preços dos mercados de commodities globais, eles estão fazendo bilhões em lucro da especulação sobre a comida e causando miséria ao redor do mundo.

Conforme os preços sobem além dos níveis de 2008, fica claro que todos estão agora sendo afetados. Os preços da comida está subindo até 10%por ano no Reino Unido e na Europa. Mais ainda, diz a ONU, os preços deverão subir pelo menos 40% na próxima década. Sempre houve uma modesta, mesmo bem-vinda, especulação nos preços dos alimentos e tradicionalmente funcionava assim. O produtor X se protegia contra o clima e outros riscos vendendo sua produção antes da colheita para o investidor Y. Isso lhe garantia um preço e o permitia planejar o futuro e investir mais, e dava ao investidor Y um lucro também. Num ano ruim, o fazendeiro X tinha um bom retorno. Mas num ano bom, o investidor Y se saía melhor.

Quando esse processo era controlado e regulado, funcionava bem. O preço da comida que chegava ao prato e do mercado de alimentos mundial ainda era definido por reais forças de oferta e demanda. Mas tudo mudou no meio dos anos 1990. Na época, após um pesado lobby de bancos, fundos de investimento de risco e defensores do "mercado livre" nos EUA e no Reino Unido, as regulamentações no mercado de commodities foram abolidas. Contratos para comprar e vender alimentos foram transformados em “derivativos” que poderiam ser comprados e vendidos por negociantes que não tinham relação alguma com a agricultura. Como resultado, nascia um novo e irreal mercado de “especulação de alimentos”.

Cacau, sucos de fruta, açúcar, alimentos básicos e café agora são commodities globais, assim como petróleo, ouro e metais. Então, em 2006, veio o desastre das hipotecas podres e bancos e especuladores correram para jogar os seus bilhões de dólares em negócios seguros, alimentos em especial. “Nós notamos isso [especulação de alimentos] pela primeira vez em 2006. Não parecia algo importante então. Mas em 2007, 2008 aumentou rapidamente”, disse Mike Masters, gerente de um fundo no Masters Capital Management, que confirmou em testemunho ao Senado dos EUA em 2008 que a especulação estava inflando o preço mundial dos alimentos. “Quando você olha para os fluxos, se tem uma evidência forte. Eu conheço muitos especuladores e eles confirmaram o que está acontecendo. A maior parte do negócio agora é especulação – eu diria 70 a 80%.” Masters diz que o mercado agora está muito distorcido pelos bancos de investimentos. “Digamos que apareçam notícias sobre colheitas ruins e chuvas em algum lugar. Normalmente os preços vão subir algo em torno de 1 dólar (por bushel). Quando se tem 70-80% de mercado especulativo, sobe 2 a 3 dólares para levar em conta os custos extras. Cria volatilidade. Vai acabar mal como todas as bolhas de Wall Street. Vai estourar.”

O mercado especulativo é realmente vasto, concorda Hilda Ochoa-Brillembourg, presidente do Strategic Investment Group de Nova York. Ela estima que a demanda especulativa para o mercado agrícola de futuros tenha aumentado entre 40 e 80% desde 2008. Mas a especulação não está apenas em alimentos básicos. No ano passado, o fundo Armajaro, de Londres, comprou 240 mil toneladas – mais de 7% do mercado mundial de cacau – ajudando a elevar o preço do chocolate ao seu mais alto valor em 33 anos. Enquanto isso, o preço do café pulou 20% em apenas três dias, resultado direto de aposta de especuladores na quebra do preço do café.

Olivier de Schutter, Relator da ONU para o Direito à Alimentação, não tem dúvidas que especuladores estão por trás do aumento de preços. “Os preços do trigo, do milho e do arroz tem aumentado de modo significante, mas isso não está ligado a estoques ou colheitas ruins, mas sim a negociantes reagindo a informações e especulações do mercado”, ele diz. “As pessoas estão morrendo de fome enquanto os bancos estão se matando para investir em comida”, diz Deborah Doane, diretora do Movimento Global de Desenvolvimento de Londres.

A FAO, órgão da ONU para agricultura, se mantém diplomaticamente evasiva, dizendo, em junho, que: “Fora mudanças reais em oferta e procura em alguns commodities, o aumento dos preços pode também ter sido amplificado pela especulação no mercado de futuros”. A [visão da] ONU tem o apoio de Ann Berg, uma das mais experientes negociantes do mercado de futuros. Ela argumenta que diferenciar commodities dos mercados de futuro e os relacionados com investimento sem agricultura é impossível. “Não existe maneira de saber exatamente [o que está acontecendo]. Tivemos a bolha das casas e o não-pagamento dos créditos. O mercado de commodities é outro campo lucrativo [onde] os mercados investem. É uma questão sensível. [Alguns] países compram direto dos mercados. Como diz um amigo meu. “O que para um homem pobre é um problema, para o rico é um investimento livre de riscos”.

Tradução: Wilson Sobrinho

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/

ONU: dois pesos, duas medidas

Em 1994, Ruanda foi palco de um genocídio perpetrado durante 100 dias por radicais hutus contra tutsis e hutus moderados, resultando na morte de cerca de um milhão de pessoas. Os principais acusados pela indiferença são os mesmos que aprovaram a resolução do Conselho de Segurança contra a Líbia, ou seja, EUA, França e Grã-Bretanha, além da Bélgica.

Larissa Ramina

A Líbia foi o primeiro país em toda a história do Conselho de Direitos Humanos da ONU a ser suspenso de suas atividades por violação dos direitos humanos. Seria a Líbia o primeiro Estado a ocupar uma cadeira no Conselho a violar aqueles direitos? O que dizer das prisões norte-americanas em Guantânamo e da expulsão dos ciganos na França, para citar só dois exemplos?

O Conselho de Segurança da ONU adotou, em 17 de março, uma resolução autorizando ataques aéreos contra as forças de Muamar Khadafi. A resolução foi adotada com dez votos a favor e cinco abstenções. Abstiveram-se todos os países do BRIC – Brasil, Rússia, Índia, China, e mais a Alemanha. Rússia e China, portanto, não fizeram uso de seu direito de veto. Os BRIC articularam-se com base na condenação do uso da força nas relações internacionais e na busca do diálogo.

Ao contrário da expectativa de alguns círculos, a abstenção brasileira significou, no mínimo, que não haverá uma ruptura total com os rumos da política externa antecessora, nem mesmo diante da visita de Obama ao Brasil. A liderança de Dilma Roussef não penderá para o alinhamento automático com os EUA. Como bem salientou Luiz Aberto Moniz Bandeira, a defesa dos interesses nacionais brasileiros não significa, absolutamente, antiamericanismo. A opção brasileira de se abster demonstra maturidade e, sobretudo, coerência.

A resolução contra a Líbia só pôde ser adotada quando os EUA tornaram possível seu não envolvimento direito, delegando a execução das operações militares à França e ao Reino Unido, com o apoio da Liga Árabe, e com base em uma resolução do Conselho de Segurança, precavendo-se assim de reviver a situação ocorrida no Iraque.

A Líbia integrará, portanto, a lista de antigos aliados ocidentais que se tornaram alvos militares por “violação dos direitos humanos”, junto com o Panamá de Manuel Noriega, o Iraque de Saddam Husseim e o Afeganistão do Talibã. De “cachorro louco”, Khadafi passou a amigo do Ocidente quando reconheceu, em 2003, sua responsabilidade no atentado contra o avião da PanAm que explodiu sobre a cidade de Lockerbie, em 1988, deixando 270 mortos, e desistiu de seu projeto de desenvolver armas nucleares. Em 2006, os EUA anunciaram a retirada da Líbia da lista de países terroristas e puseram fim ao seu isolamento internacional, viabilizando contratos milionários na área energética, inclusive com outros importantes países membros da OTAN.

Um dos maiores crimes contra os direitos humanos do século XX, entretanto, ocorreu sob os olhos indiferentes da comunidade internacional, sem que a ONU adotasse quaisquer medidas. Em 1994 a Ruanda, país sem qualquer importância estratégica cravado no coração da África, foi palco de um genocídio perpetrado durante 100 dias por radicais hutus contra tutsis e hutus moderados, resultando na morte de cerca de um milhão de pessoas. Os principais acusados pela indiferença são os mesmos que aprovaram a resolução do Conselho de Segurança contra a Líbia, ou seja, EUA, França e Grã-Bretanha, além da Bélgica.

O Bahrein, por sua vez, está sendo palco dos mais graves protestos da maioria xiita contra a elite sunita desde a década de noventa, que pede o fim da monarquia e a garantia das liberdades democráticas. Nesse caso, não se aventou a possibilidade de discutir a situação no âmbito das ONU, apesar da ocupação do país por tropas da vizinha Árabia Saudita e dos Emirados Árabes. O detalhe que faz a diferença, é que o microestado abriga a V Frota dos EUA responsável por vigiar o petróleo no Golfo Pérsico. A situação no Iêmen, da mesma forma, não mereceu atenção ocidental. A política externa de Barack Obama, portanto, coincide na essência com aquela de George Bush.

Coincidência ou não, a conduta da ONU também difere diante de situações similares, e a lei internacional é aplicada com mais ou menos rigor de acordo com a conveniência. Dois pesos, duas medidas.

Larissa Ramina é Doutora em Direito Internacional pela USP

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/

Democracia e religião

O Ocidente bloqueou campo político no Oriente Médio e facilitou a ascensão dos fundamentalismos

Vladimir Safatle

As reações de setores da opinião pública às revoltas no mundo árabe expõem um belo sistema projetivo. Pois podemos dizer que, muitas vezes, eles acabam por projetar, como se fosse exclusividade do Oriente Médio, problemas que são também nossos. Um exemplo paradigmático aqui é a relação entre política e religião.

Gostamos de acreditar que nossas sociedades ocidentais são sistemas políticos laicos, no interior dos quais a força das crenças religiosas deu lugar à possibilidade de uma confrontação eminentemente política, no mais das vezes técnica e racional. Para nós, isso representaria um ganho dos processos de modernização que ainda não teria sido alcançado pelo mundo árabe. Dessa forma, conservamos o velho esquema da supremacia cultural do Ocidente e de seu pretenso progresso histórico.

No entanto, essa versão é dificilmente sustentável. Primeiro, porque nossas sociedades não conseguiram resolver o problema de sua laicidade. Basta lembrar como a última eleição presidencial no Brasil virou um conflito a respeito de temas ligados à maneira com que dogmas religiosos relativos à família e à procriação interferem na gestão da vida social. Quem esqueceu a maneira com que candidatos à Presidência beijaram imagens de santos? Mas como ignorar que a maioria da população brasileira é católica e tem o direito de expressar suas convicções, fazer-se ouvir no momento de decidir sobre a configuração das leis do Estado? Bem, basta tirarmos a palavra

“católica” e colocarmos a palavra “muçulmana” para repetirmos o mesmo tipo de discurso veiculado por organizações como a Irmandade Muçulmana.

Mas deixemos de lado o Brasil. Lembraria que uma das perguntas tradicionais nos debates televisivos da eleição presidencial norte-americana é exatamente “qual trecho da Bíblia o senhor prefere?”. Lembraria também que a Alemanha é governada por um partido que se diz democrata-

cristão. Certamente os não cristãos não conseguem entender por que devam ser governados por um partido que diz defender os valores cristãos.

Poderíamos tentar contemporizar esse fato dizendo que o cristianismo é totalmente compatível com a democracia. Mas talvez seria mais correto afirmar que a democracia é, simplesmente, indiferente ao cristianismo (ou ao budismo, ao islamismo, ao judaísmo etc.).

O cristianismo, por sua vez, pode ser extremamente excludente, persecutório e intolerante contra aqueles que não comungam seus dogmas.

Devemos lembrar esses pontos para afirmar que a relação entre política e religião está longe de ser uma questão resolvida, tanto no Ocidente quanto no Oriente. O Oriente Médio precisará inventar um meio de equalizar esse problema, da mesma forma que nós também precisamos. Nossas conquistas nesse campo são mais frágeis do que imaginamos.

No entanto, nossa desconfiança em relação ao que se passa atualmente no Oriente Médio talvez venha, em larga medida, do medo que temos do caráter violento do fundamentalismo islâmico. Melhor seria lembrar como tal fundamentalismo é um fenômeno recente. Ele tem, no máximo, 30 anos. Países hoje com grandes contingentes de fundamentalistas, como o Afeganistão, eram, até a década de 1970, animados por lutas políticas laicas.

Nesse sentido, não esqueçamos que tal recrudescência do sentimento religioso no Oriente Médio é o resultado direto de um longo bloqueio, patrocinado pelo Ocidente, de modificações políticas nos países árabes. Desde os anos 1950, o Ocidente vem sistematicamente minando todos os movimentos políticos árabes de autodeterminação e independência. O caso da conspiração contra o líder nacionalista iraniano Mossadegh é aqui paradigmático.

Por outro lado, os regimes mais corruptos e totalitários da região foram apoiados de maneira irrestrita pelo Ocidente (Paquistão, Arábia Saudita, Jordânia, Tunísia, Egito). Ou seja, a experiência cotidiana de um árabe em relação aos valores modernizadores e democráticos ocidentais é que eles servem apenas para justificar o contrário do que pregam. Os árabes fizeram a prova do caráter formalista e “flexível” dos valores ocidentais.

Nesse ambiente de cinismo e bloqueio do campo político, o retorno à tradição religiosa com suas promessas de revitalização moral é sempre uma tendência. Foi isso que aconteceu. Ou seja, não se trata aqui de traço arcaizante nenhum típico de civilizações refratárias ao nosso “choque civilizatório”. Trata-se de um sintoma recente de bloqueio do potencial transformador do campo político. Por isso, podemos esperar que essa nova vaga de revolta política no Oriente Médio permita a reconstrução do campo político e o esvaziamento de tendências fundamentalistas.

Vladimir Safatle – vladimirsafatle@revistacult.com.br

Fonte: http://revistacult.uol.com.br/

A peãozada deu uma lição aos comissários

Nutridos pela Viúva, os comissários acharam que conversa de peão era coisa de pobre, e acabaram atropelados

ELIO GASPARI

Reapareceu no meio da mata amazônica, dentro do canteiro de obras da Camargo Corrêa, o eterno conflito dos trabalhadores da fronteira econômica com as arbitrariedades e tungas a que são submetidos por grandes empreiteiros, pequenos empresários, gatos e vigaristas.

Num só dia, incendiaram-se 45 ônibus e um acampamento na obra da hidrelétrica de Jirau, em Rondônia. Em poucos dias, a peãozada zangou-se também nos canteiros de Santo Antônio (RO), nas obras da Petrobras de Suape (PE) e em Pecém (CE). Ocorreram problemas até em Campinas (SP). Estima-se que entraram em greve 80 mil trabalhadores da construção civil. Esse setor da economia emprega 2,4 milhões de brasileiros.

Do nada (ou do tudo que fica escondido nas relações de trabalho nos acampamentos), estourou um dos maiores movimentos de trabalhadores das últimas décadas. Sem articulação, redes sociais ou ativismo político, apanhou o governo de surpresa. Assustado, ele mandou a tropa da Força Nacional de Segurança. Demorou uma semana para que o Planalto acordasse.

Numa época em que os sindicalistas andam de carro oficial, o representante da CUT foi a Rondônia com um discurso de patrão, dizendo que os trabalhadores não podiam parar uma obra do PAC. (Essa mesma central emitiu uma nota condenando o bombardeio da Líbia.)

Paulo Pereira da Silva, marquês da Força Sindical, disse que nenhuma das duas grandes centrais está habituada a lidar com multidões. De fato, nas obras de Jirau e Santo Antônio juntam-se 38 mil trabalhadores. Há sindicatos na área, mas eles mal lidam com as multidões dos associados. Disputam sobretudo o ervanário de R$ 1 milhão anual que rende a coleta do imposto sindical da patuleia.

As lideranças políticas e sindicais nascidas no rastro dos movimento de operários do final dos anos 70, quando pararam 200 mil trabalhadores no ABC por conta de um barbudo chamado Lula, mudaram de andar. Preocupados com a distribuição de cargos e de Bolsas Ditadura, esqueceram-se dos sujeitos que precisam da cesta básica.

Não perceberam que as mudanças sociais ocorridas no país haveriam de chegar aos alojamentos dos peões das grandes obras.

Ou as grandes empreiteiras se dão conta de que devem zelar pela qualidade e pelo cumprimento de seus contratos trabalhistas, ou marcas como a da Camargo Corrêa, da Odebrecht e da OAS ficarão marcadas pelas patas dos gatos que entram no recrutamento de seus trabalhadores.

Entre as reivindicações de Santo Antônio estava a instalação de banheiros exclusivos para mulheres. Alô, doutora Dilma.

Nenhuma dessas empresas foi fundada por um empreendedor genial nem tentou um empreendimento de ambição comparável à Fordlândia. Foi na matas da Amazônia que, no século passado, Henry Ford atolou seu projeto de extração e industrialização da borracha.

Maus modos, incompreensão e complexo de superioridade resultaram numa revolta que destruiu boa parte das instalações do empreendimento. Isso em dezembro de 1930. (As grandes empreiteiras deveriam obrigar seu diretores a ler "Fordlândia", do professor americano Greg Grandin.)

Felizmente os tempos mudaram, e a Força Nacional de Segurança disparou balas de borracha. Em 1996, diante dos sem-terra de Eldorado do Carajás, a PM paraense disparou tiros de verdade e matou 19 pessoas.

FAVELA, ASHWAIYYAT, GECEKONDULAR

Acaba de sair nos Estados Unidos um grande livro. É "Arrival City" ("Cidade de Chegada – Como a Maior Migração da História Está Mudando Nossa História"), do jornalista anglocanadense Douglas Saunders. Ele estudou e acompanhou a vida de um tipo de comunidade das grandes cidades.

No Brasil, chamam-se favelas; no Egito, ashwaiyyat; na Turquia, gecekondular, e na China, cun. Nelas aglomeram-se algo como 800 milhões de pessoas que deixaram o campo em busca do futuro nas grandes cidades, ou descendem de pessoas que fizeram essa rota.

O trabalho de Saunders vem sendo festejado pela audácia de sua conclusão: "A periferia é o novo centro do mundo". Seu livro já foi comparado ao "Morte e Vida de Grandes Cidades", de Jane Jacobs, que mudou a maneira de pensar as políticas urbanas a partir dos anos 60.

Descrevendo essas comunidades, Saunders mostra que nelas não vivem apenas miseráveis marginalizados, mas empreendedores emergentes de um mundo novo, uma nova classe média global.

O mundo pagou caro por não entender a essência das migrações dos séculos 19 e 20. Não entendê-las agora seria um desastre. É emocionante sua narrativa da transformação de Jardim Ângela, um pedaço do inferno paulistano nos anos 80, na comunidade que é hoje.

Quando a periferia tem acesso ao crédito, a escolas, empregos e polícia livre de demofobia, ela decola. E quando seus moradores são pura e simplesmente transferidos para conjuntos residenciais, geralmente as iniciativas fracassam.

Como o livro de Jane Jacobs levou 48 anos para ser editado no Brasil, não custa avisar que a edição do e-book (em inglês) custa US$ 13,99.

De graça, há um artigo de Saunders no sítio da revista "Foreign Policy".

VALE X BUFFETT

O comissariado resolveu derrubar Roger Agnelli da presidência da Vale. Se ele cometeu algum erro, foi o de se aproximar demais do Planalto.

Quem comprou R$ 1.000 em ações da Vale em 2001, quando Agnelli assumiu a presidência da empresa, tem hoje R$ 16.830. Se tivesse entregue a mesma quantia ao mago Warren Buffett, teria uns R$ 2.000. O trabalhador que aplicou os mesmos R$ 1.000 de seu FGTS na Vale em março de 2002 tem agora R$ 13.230.

BOBA, NUNCA

Pode-se fazer tudo por Marina Silva, menos acreditar que ela não soubesse o que havia na clorofila do Partido Verde quando entrou nele para disputar a Presidência da República.

MARCO MAIA MICOU

Ao vetar o artigo da medida provisória que prorrogava concessões de estabelecimentos comerciais estabelecidos nos aeroportos, a doutora Dilma Rousseff mostrou que sua caneta está cheia de tinta.

Para dizer o mínimo, a coligação de amigos que defendia o mimo ia do DEM ao PT. O patrono do regalo, deputado Marco Maia (atual presidente da Câmara), estava tão seguro da força dessa coalizão que, ao conseguir a aprovação do contrabando, disse o seguinte: "Garanto que ela não veta". Ao seu lado estava o líder do governo, deputado Cândido Vaccarezza, que esclareceu: "Não garanto que ela sancione".

DUAS FRENTES

O ministro Guido Mantega resolveu desafiar a lei da gravidade. Tem contas a acertar com Antonio Palocci, seu antecessor e atual chefe da Casa Civil, e resolveu acertar contas com Luciano Coutinho, presidente do BNDES. É areia demais para seu caminhão.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/

Além da geografia

Hilgard Sternberg dedicou a vida a entender as relações entre homem e natureza

Maria Guimarães

               © Peg Skorpinski/UC Berkeley

Cocar e geógrafo: apaixonado pela Amazônia

Apesar do nome com tons estrangeiros e da carreira construída desde 1964 na Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos, Hilgard O’Reilly Sternberg foi e nunca deixou de ser um geógrafo brasileiro. No dia 2 de março, aos 93 anos, ele faleceu deixando uma obra em que investigou a geografia, a ecologia e a antropologia da região que abriga a maior floresta tropical e a maior bacia fluvial do mundo.

Desde que se encantou com o vasto mundo das águas amazônicas, nos anos 1940, Sternberg jamais deixou de percorrer os meandros desses rios. Sua tese A água e o homem na várzea do Careiro, concluída em 1956 e publicada apenas em 1998 pelo Museu Paraense Emílio Goeldi, foi pioneira em chamar atenção para a dependência entre as populações ribeirinhas e os cursos d’água. Ele investigou também as consequências dessa relação para os rios, que se tornam graves quando o desmatamento aumenta o fluxo de água e reduz a calha dos rios por acúmulo de sedimentos, causando enchentes letais para as comunidades que vivem às suas margens.

Foi um trabalho fundamental, avalia o geógrafo Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro, da Universidade de São Paulo (USP). Ele ressalta também um estudo sobre enchentes no Vale do Paraíba, no interior paulista. “Sternberg fez uma análise meteorológica, examinou o povoamento, o uso desregrado do solo”, conta. “É uma abordagem que tem todo um dinamismo e evoca também o passado histórico.” Essa visão integrada destaca o trabalho de Sternberg na geografia brasileira.

Filho de imigrantes – um alemão e uma irlandesa –, Sternberg nasceu em 1917 no Rio de Janeiro, onde foi presidente da Sociedade de Geografia do Brasil de 1944 a 1964 e fundou o Centro de Investigação em Geografia do Brasil. Em 1956, foi um dos responsáveis pela realização do Congresso Internacional de Geografia, o primeiro num país tropical. Foi professor na Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Ele era jovem e talentoso, praticava uma geografia muito dinâmica e era um professor exigente e um grande incentivador”, lembra Monteiro. E aterrorizou uma geração de diplomatas em formação com sua rigorosa disciplina no Instituto Rio Branco: para ele, os representantes brasileiros no exterior também precisavam ser geógrafos.

Em sua casa nas colinas de Berkeley, onde vivia com sua mulher, Carolina, Sternberg construiu um labirinto de livros e mapas onde estava longe de se perder. “Carolina mantinha tudo aquilo organizado”, conta Monteiro, “e ainda fazia uma feijoada para os alunos do curso que ele dava sobre o Brasil em Berkeley”.

Mesmo longe da realidade do Amazonas, como quando deixava o carro no estacionamento da Universidade de Berkeley com vagas reservadas a ganhadores do Prêmio Nobel para almoçar no clube dos professores, até os últimos anos ele nunca deixou de estudar e falar com paixão sobre os descaminhos gerados pelo mau uso do solo e da biodiversidade. A herança deixada por Sternberg nas gerações de geógrafos que formou e influenciou continua atual na relação cada vez mais conturbada entre a natureza e o ser humano.

Fonte: http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

Governo chinês teme seu próprio povo

Ativistas vestidos como soldados chineses e monge fazem performance em Taiwan para lembrar os 52 anos da insurreição tibetana contra o governo da China

Wieland Wagner

Ativistas vestidos como soldados chineses e monge fazem performance em Taiwan para lembrar os 52 anos da insurreição tibetana contra o governo da China

Pequim está se assegurando que os ativistas chineses pró-democracia, desejosos de sua própria “Revolução Jasmim”, não tenham sucesso em copiar os norte-africanos. A repressão do governo beira a paranoia, mas o Partido Comunista sabe que o milagre econômico que mantém a estabilidade social está em risco.

Tudo é vermelho, desde os tapetes até as cadeiras e bandeiras. Em sequência absolutamente coreografada, Hu Jintao, presidente do país e secretário geral do Partido Comunista, e os outros membros do governo chinês entram no Grande Salão do Povo, alegremente, aplaudindo uns aos outros ao som da banda militar. As roupas coloridas das minorias nacionais, como tibetanos e uigures, são incluídas como um interlúdio étnico obrigatório.

À primeira vista, tudo estava do jeito que sempre foi todos os anos, quando o Congresso Nacional do Povo, o parlamento-espetáculo em Pequim, se reúne, e os comunistas chineses celebram seus sucessos. Mas algo estava diferente desta vez. Era como se um penetra estivesse perturbando a demonstração artificial de harmonia, alguém cujo nome não pudesse ser citado, mas que deixa todos nervosos igualmente.

Só na cabeça

O monstro que deixa todo o país no limite chama-se “Revolução Jasmim”. Ativistas na Internet escolheram o termo inspirados na rebelião da Tunísia do mesmo nome, para uma série de manifestações nas quais os chineses iriam às ruas exigir maior liberdade de expressão. Até agora, contudo, tais levantes existiram puramente na cabeça ansiosa dos líderes do país. O fascínio com a liberdade que gerou os levantes populares no distante Norte da África não teve um eco mensurável entre os 1,3 bilhão de chineses. Isso porque há um mundo de diferença entre as perspectivas de futuro da China, resultado de seus sucessos econômicos, e a desesperança que muitos súditos dos ditadores árabes enfrentam.

Ainda assim, a forma como os líderes do partido chinês se relacionam com a derrubada dos autocratas árabes é denunciadora. Eles aumentaram a vigilância de seu próprio povo com a ajuda de uma enorme operação de segurança, em um grau que a República do Povo não via desde as Olimpíadas de Verão em 2008, em Pequim.

Reagindo à inquietação do Oriente Médio, o líder do Partido Comunista reuniu as autoridades das províncias e os militares em um retiro em fevereiro. O vice-presidente Xi Jinping, que deve substituir Hu em breve, também estava presente. O tema do encontro era como as autoridades poderiam impedir o conflito social e guiar a opinião pública da Internet na direção desejada.

O grupo chegou à conclusão que as revoltas e manifestações que ocorreram no Norte da África não devem acontecer na China em primeiro lugar. Desde então, palavras como “jasmim” têm sido inteiramente bloqueadas na Internet. Até mesmo uma música tradicional folclórica que louva as flores fragrantes da “Mo Li Hua” (“flor de jasmim”) foi vítima dos censores. As autoridades também colocaram mais de 100 dissidentes, advogados e ativistas em prisão domiciliar.

Caça aos repórteres

A superpotência nascente parece estar caçando um fantasma. Em vários finais de semana, a polícia isolou áreas de shoppings nas maiores cidades da China, inclusive Wangfujing, a famosa zona de pedestres em Pequim, cujo nome também foi para a lista negra da Internet.

Em vez dos manifestantes temidos, apenas grandes números de policiais e outras forças de segurança à paisana apareceram e caçaram os repórteres estrangeiros. Alguns policiais levaram cães de ataque, enquanto outros estavam disfarçados de garis. A polícia também desligou segmentos das redes de telefonia celular por alguns períodos. Alguns correspondentes estrangeiros, inclusive repórteres da rede de televisão alemã ARD e da revista “Stern”, foram interrogados por horas. Um jornalista da Bloomberg News até apanhou.

As forças de segurança chinesas também atacaram alguns representantes da mídia Ocidental em seus apartamentos, usando visitas noturnas para intimidar repórteres para que “cooperassem”. Se não, as autoridades advertiram que iam recusar a extensão de seus vistos de trabalho no final do ano.

O regime acredita que o aumento da pressão contra a mídia ocidental fechará os vãos no muro de censura chinês, com o qual o gigante está se isolando com sucesso do resto do mundo. Twitter, Facebook e YouTube há muito foram bloqueados.

“Melhorar o gerenciamento da informação”

Agora, Pequim quer apertar ainda mais as rédeas. O governo vai “melhorar o gerenciamento das redes de informação”, anunciou o premier, Wen Jiabao, em seu relatório ao Congresso Nacional do Povo.

As medidas planejadas fazem parte de um amplo plano de segurança, com o qual o Partido Comunista pretende forçar a “harmonia social” que está constantemente evocando. Neste ano, o governo planeja aumentar os gastos com polícia, segurança e polícia parlamentar, tribunais e prisões em 13,8%, para 624,4 bilhões de yuans (cerca de R$ 160 bilhões).

Assim, o regime vai reforçar mais a polícia do que o exército, que presta contas diretamente ao partido. De acordo com os números oficiais, os gastos do governo com o Exército da Libertação do Povo aumentarão em 12,7%, para 601.11 bilhões de yuans.

No final, porém, até o orçamento militar –que mal reflete o desenvolvimento de novos sistemas de armas como aviões invisíveis aos radares e porta-aviões- existe para preservar o poder. O dinheiro está sendo fornecido para aumentar o padrão de vida de 1,3 milhão de soldados, assegurando sua lealdade.

Mas será que os governantes em Pequim têm razão para estarem nervosos? A China superou seu competidor, o Japão, como a segunda maior nação industrializada do mundo no ano passado, quando sua economia cresceu em 10,3%. Um novo estudo da firma de consultoria em administração norte-americana McKinsey prevê que a República do Povo pode se tornar o maior mercado do mundo de bens de luxo até 2015.

Abusos crônicos

Os líderes chineses, contudo, sabem melhor do que qualquer um que o milagre econômico com o qual eles legitimam seu poder está em perigo. Por exemplo, as autoridades das províncias estão alimentando o boom imobiliário vendendo cada vez mais terra, e gerando ressentimentos no processo.

Agricultores que protestam contra a expropriação de suas terras são atormentados por policiais ou homens do governo e podem até ser jogados nas chamadas “prisões clandestinas”, sem acusações.

Apesar desses riscos, milhares de chineses se rebelam contra as autoridades comunistas a cada ano, quase sempre em protesto contra os mesmos abusos crônicos: corrupção, apreensão de terras, poluição ambiental e baixos salários.

Para lidar com esses males, o governo está tentando mudar a receita de desenvolvimento contínuo da China em seu novo plano de cinco anos, que vai até 2015. Sob o plano, a economia vai crescer mais lentamente e de forma mais sustentável no futuro –por 8% neste ano. O premier Wen também promete deter a inflação de preços, estimular os gastos do consumidor e instaurar maiores proteções para um ambiente já danificado.

A mudança em curso, contudo, também vem com riscos para o regime. Isso é especialmente aplicável à inflação no mercado imobiliário, que o Partido Comunista pôde segurar por algum tempo. Donos de apartamentos recentemente protestaram na parte leste de Pequim, porque os apartamentos em novos prédios do bairro estavam sendo oferecidos à venda abaixo do preço de mercado. Os cidadãos se sentiram traídos pela quantia que investiram nos apartamentos que compraram há um ano por um valor mais alto.

Tais protestos na capital são uma causa de preocupação para os líderes do partido, que até agora, contaram com a nova classe média como um de seus pilares mais leais de apoio contra potenciais agitadores, como trabalhadores migrantes e minorias.

Busca por pontos problemáticos

Agora, os governantes da China estão em situação delicada. Quanto mais reprimem os protestos legítimos, maior o ressentimento que suas ações geram. Mas desde a revolução da Tunísia, a China está assumindo uma linha dura. “A estabilidade é o lugar que todos os corações querem alcançar”, escreve Jiefang Ribao, porta-voz do Partido comunista em Xangai.

Enquanto isso, a vigilância do Estado continua a crescer. A cidade de Pequim planeja introduzir em breve uma tecnologia de telefone celular que usa sinais de posicionamento para automaticamente detectar grandes agrupamentos de pessoas. O sistema foi desenvolvido para desfazer engarrafamentos, dizem seus inventores.

Pode ser verdade, mas também está claro que o sistema vai permitir que as forças de segurança encontrem potenciais locais de manifestações ainda mais rapidamente no futuro.

Tradução: Deborah Weinberg

Fonte: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/

Karl Korsch: Marxismo e filosofia

Quando se mencionam as "obras malditas" (K. Axelos) do marxismo no século XX, dois nomes são inevitavelmente citados: György Lukács (1885-1971) e Karl Korsch (1886-1961).

José Paulo Neto

Karl Korsch                                                                          Os autores e os seus livros ― respectivamente, História e consciência de classe e Marxismo e filosofia, ambos de 1923 e ulteriormente considerados como fundantes do mal chamado marxismo ocidental (Merleau Ponty)1 ― foram "condenados" de cambulhada por figuras então de proa do movimento comunista e, por via da Terceira Internacional, no seu V Congresso Mundial ― realizado em Moscou, em 1924 ―, institucionalmente desautorizados como expressões filosóficas de "desvios" idealistas e neo-hegelianos. Mais precisamente: naquele evento, Zinoviev ― à data, o principal dirigente do organismo ― vituperou o " marxismo de professores que elucubram suas teorias marxistas", citou textualmente o italiano Graziadei além de Lukács e Korsch e concluiu esta passagem de sua intervenção com a frase definitiva: "Não podemos tolerar, na nossa Internacional Comunista, a presença desse revisionismo teórico"2. Paradoxal mas não inexplicavelmente, também os corifeus da socialdemocracia (como kautsky) somaram-se, na desqualificação das duas obras, aos críticos de extração bolchevique.

Os dois autores reagiram de modo muito diverso em face da "condenação". Lukács preparou um denso material de resposta a seus críticos, mas jamais o publicou: disciplinadamente, autocriticou-se e, malgrado divergências e discrepâncias, permaneceu até a morte vinculado organicamente ao movimento comunista.3 Korsch manteve suas posições, foi expulso do partido em 1926 e evoluiu de modo muito diverso4.

1.

Karl Korsch nasceu em Todsted, perto de Hamburgo, em 15 de agosto de 1886. Fez estudos de direito, filosofia e economia em várias universidades (Munique, Berlim, Genebra), até doutorar-se em direito pela Universidade de Iena5, em 1970, com a tese Die Beweislast beim qualifizierten Geständis (A ponderação da prova na confissão), um ano depois publicada em Bonn.

Entre 1912 e 1914, vive na Inglaterra; nestes anos, já casado com Hedda Korsch, née Gagliardi (que conhecera em 1908 e com quem terá duas filhas), mantém contatos com a Sociedade Fabiana e dedica-se ao estudo do direito inglês, de que resultará o ensaio, publicado em 1913, Beiträge zur Kenntnis und zum Verständnis des englischen Rechts (Contribuições ao conhecimento e à compreensão do direito inglês).

Retorna à Alemanha quando da eclosão da Primeira Guerra Mundial e dela participa como oficial. Em 1919, vincula-se ao centrista Partido Socialdemocrata Alemão Independente (USPD), em que pontificavam K. Kautsky e R. Hilferding; no ano seguinte, ingressa no Partido Comunista Alemão (KPD), no qual desempenhará papel proeminente até 1926 ― dirigiu, inclusive, a sua revista teórica, Die Internationale (A Internacional). Não foi apenas um protagonista do "movimento dos conselhos", também tematizou o "controle operário" num ensaio dado á luz em 1922, Arbeitsrecht für Betriebsräte (Direito do trabalho ao controle das fábricas)6; no mesmo ano, divulgou uma edição anotada da Crítica ao programa de Gotha, de Marx ― Randeglossen zum Programm der deutschen Arbeiterpartei (Glosas marginais ao programa do Partido Operário Alemão) ―, e publicou Kernpunkte der materialistischen Geschichtesaufflasung (Questões centrais da concepção materialistada história), em que critica Kautsky. Integrou em 1923 (como ministro da Justiça) o governo da efêmera república operária da Turíngia. Entre 1924 e 1928, foi deputado ao Reichstag, ao mesmo tempo em que continua desenvolvendo atividades acadêmicas: desde 1923, tornara-se professor de direito na Universidade de Iena. Rompe com a Terceira Internacional em 1925 e, um ano depois, é formalmente expulso do Partido Comunista Alemão, mas não interrompe sua militância política: articula outros dissidentes em torno da revista Kommunistische Politik (Política Comunista) e, em seguida, no periódico Gegner (Adversário). A partir de 1928, porém, desvincula-se de qualquer organização partidária.

A exclusão do Partido e a ausência de vínculos organizativos não interrompem a sua atividade intelectual: entre 1926 e 1930, publica vários ensaios, tematizando as lutas de classes na União Soviética, criticando a orientação da Terceira Internacional e debatendo a produção teórica marxista (por exemplo, o trabalho de E. Pachukanis). É de 1929 um novo livro contra Kautsky: Die materialistische Geschichtsaufflassung. Eine Auseinandersetzung mit Kautsky (A concepção materialista da história. Uma polêmica com Kautsky). E, em 1932, prefacia uma nova edição do livro 1 de O Capital.

Com a chegada de Hitler ao poder (1933), deixa a Alemanha. Gira pela Inglaterra e pela Dinamarca, onde estabelece sólida e duradoura relação pessoal com B. Brecht. Em 1936, fixa-se nos Estados Unidos, trabalhando como professor e prosseguindo em sua atividade ensaística ― de que um primeiro produto é o seu Karl Marx (1938)7 ―, atividade de que são prova os inúmeros textos que publica, entre 1938 e 1946, em vários periódicos norte-americanos de esquerda e extrema-esquerda (Living Marxism, Modern Quaterly, New Essays, Partisan Review, Politics)8.

Faz uma viagem à Europa em 1950, pasando pela Alemanha e pela Suíça, e pronunciando conferências, mas seu exílio nos Estados Unidos prosseguirá até sua morte, ocorrida em 21 de outubro de 1961 (Belmont, Massachusetts), aos 75 anos de idade.

2.

Marxismo e filosofia ― com justiça o texto mais mencionado de toda a produção intelectual de Korsch ― foi originalmente publicado, em 1923, pelo periódico a que Grünberg vinculou seu nome9, e, no mesmo ano, tomou a forma de livro. Tratava-se de um ensaio contundente e enxuto, com poucas dezenas de páginas10, mas estava destinado, para a inicial surpresa de seu autor, a constitutir uma peça emblemática do dilema teórico-político vivido pela tradição marxista nos cruciais anos 1920 ― dilema fundamentalmente determinado pelo fracasso da revolução socialista no Ocidente (mais exatamente na Alemanha) e pelo consequente insulamento do projeto revolucionário na Rússia dos sovietes, insulamento que responde, em grande medida, pela degenerescência stalinista.

A eclosão da Primeira Guerra Mundial encontrou a tradição marxista hegemonizada por uma ideologização de cariz positivista, de que é paradigmática a concepção ideal elaborada por Kautsky, teórico par excellence da Segunda Internacional: uma interpretação evolucionista do processo histórico, de que derivava uma projeção da revolução como lógico, natural e inevitável resultado da dinâmica capitalista. Arquitetura ideal e prática política estavam aqui medularmente vinculadas: o materialismo mecanicista em que se assentava a concepção teórica (que formalmente se intitulava e se pretendia "dialética") fundava uma prática política (que, também formalmente, se apresentava como "revolucionária") de espera pelo dia D em que uma crise econômico-social de monta levaria à ruína necessária do Estado burguês.

A Revolução de Outubro e a conjuntura revolucionária europeia (Alemanha, Itália, Hungria) ― dois momentos de um mesmo processo ― revelaram, com nitidez cristalina, a completa inépcia da versão kautskiana do pensamento marxista e a incapacidade da orientação política dominante na Segunda Internacional, conectada àquela versão, para dirigir a ação revolucionária proletária. O fluxo revolucionário socialista, que vai crescendo até 1920-1921 e reflui em 1923, quando se registra a derrota da revolição alemã, cria as condições para um movimento de crítica radical ao marxismo vulgar, de que a produção mais representativa da Segunda Internacional era exemplar. Com efeito, a colocação, pelo movimento das classes sociais, da revolução socialista proletária na ordem do dia instaura as condições histórico-sociais para o resgate da inspiração teórico-revolucionária marxiana.

Este resgate implicava, todavia, condições também de natureza estritamente teórica ― em especial, e como preliminar, o expurgo da contaminação naturalista-positivista que viciava a vulgarização marxista; para tanto, tornava-se imperativa a restauração da dimensão dialética, componente estrutural do legado marxiano e herança (assumida criticamente por Marx) de Hegel. Ora, poucos eram os teóricos que, formados no eixo da Segunda Internacional, dispunham da cultura teórico-filosófica indispensável para uma empresa de tal porte11 (situação agravada pelo caráter até então inédito de textos marxianos que poderiam estimular diretamente a pesquisa nesse sentido). À parte Lenin12, os pensadores mais dotados que, com níveis de consciência individual muito diferenciados, propuseram-se a resgatar a dimensão dialética da teoria revolucionária marxiana nada incorporavam da ideologia dominante da Segunda Internacional ou de sua atmosfera intelectual ― antes questionavam-na abertamente; e foram três: Lukács, Korsch e Gramsci ― como, aliás, o primeiro deles o assinalou13. Ademais de se educarem politicamente fora dos marcos postos pela Segunda Internacional, tinham substância cultural universitária e sólido conhecimento da tradição hegeliana (caso dos dois primeiros) ou se formaram sob influxos de um diálogo crítico com intelectuais que mantinham relações com Hegel (caso de Gramsci14).

O dilema teórico-político antes referido consistiu exatamente no seguinte: a conjuntura inaugurada pela Revolução de Outubro (1917) permitiu às forças revolucionárias romper politicamente com a inepta estratégia da Segunda Internacional (a estratégia socialdemocrata), assim como o ascenso revolucionário no Ocidente (1918-1923) ofereceu objetivamente as bases sociopolíticas imediatas para o resgate da dialética na tradição marxista. É neste restrito lapso temporal que se criam as condições para elaborações como História e consciência de classe e Marxismo e filosofia e também para os germes que, desenvolvidos irregular e pouco sistematicamente, anos depois configurarão os gramscianos Cadernos do cárcere. Entretanto, o processo de ruptura teórica que estes textos (os de Lukács e Korsch, descontados o destino dos Cadernos sobre a dialética leninianos e o dos Cadernos do cárcere gramscianos, dada a posteridade do registro e, sobretudo, da publicitação do pensamento de Gramsci) inauguraram não foi mais do que um episódio. As condições sociopolíticas que o propiciaram foram revertidas a partir de 1923 ― com a derrota da revolução na Alemanha ― e inteiramente liquidadas na segunda metade da década, quando o isolamento da União Soviética, submetida ao cerco imperialista, a bolchevização da Terceira Internacional e dos partidos a ela ligados levaram ao surgimento do stalinismo. Em poucas palavras: foi brevíssima a conjuntura que poderia permitir uma ruptura, completa e radical, teórica e prático-política, com as hipotecas que comprometiam o marxismo vulgar desenvolvido na/pela Segunda Internacional. O emergente stalinismo e a bolchevização enterraram por décadas o ajuste de contas com as medulares contaminações positivistas e naturalistas que o marxismo vulgar introduziu duradouramente na tradição marxista, e as duas obras de Korsch e Lukács acabaram por permanecer como ícones isolados de uma possibilidade abortada.

3.

O íntimo parentesco da matriz de pensamento desenvolvida por Lukács e Korsch nos começos dos anos 1920 tem vários indicadores indiscutíveis, muito além da tentativa de recuperar a dialética (e, pois, a herança de Hegel) como estruturadores da obra marxiana, com claríssimas incidências no plano prático-político que, de fato, conduziram, à época, a nítidos posicionamentos doutrinários e estreitos ― com tudo se passando, para ambos, como se a revolução, em escala mundial, estivesse em curso (não esquecer que os próprios e principais dirigentes da Revolução Russa inicialmente a descreveram como o "prólogo da revolução mundial"15).

De fato, os dois autores combateram então igualmente em duas frentes: criticaram tanto o marxismo vulgar quanto as alternativas (conservadoras, burguesas) que a ele se contrapunham ― assim, o seu fogo crítico incide, é verdade que diferencialmente, quer sobre o mecanicismo, o naturalismo e o reducionismo das contaminações positivistas na tradição marxista, quer sobre a elaboração burguesa das ciências sociais, notadamente a sociologia em vias de institucionalização acadêmica; e o caráter de suas críticas é muito similar. Contudo, o trato do marxismo vulgar, tanto em Korsch como em Lukács, não se volta apenas contra o passado (a Segunda Internacional): ambos se confrontam com a sua continuidade contemporânea, no interior mesmo da Internacional Comunista ― de que é prova inconteste o rechaço que ambos manifestam em face do Tratado de materialismo histórico, de Bukharin16.

Mas é preciso salientar que os dois autores, lavrando na mesma seara que colidia frontalmente com a herança teórica e política da Segunda Internacional (e não só com ela), e sendo igualmente combatidos pela "nova ortodoxia comunista" (tal como, a nosso juízo impropriamente, Korsch designará o dogmatismo do marxismo tornado ideologia oficial), não produziram obras comparáveis. O lugar comum segundo o qual História e consciência de classe e Marxismo e filosofia constituem as "obras malditas do marxismo do século XX", se tem procedência ao indicar ― além de suas bases teóricas similares e algumas de suas implicações prático-políticas aproximadas ― o verdadeiro exílio a que elas foram condenadas na tradição marxista, esse lugar comum também pode induzir a colocá-las no mesmo nível teórico. Uma tal equalização é despropositada: Marxismo e filosofia carece da exaustiva fundamentação filosófica sobre a qual se ergue História e consciência de classe17; sobretudo, há algo que as distingue essencialmente: a apreensão das mediações entre teoria e práxis (nomeadaemnte a práxis política revolucionária)18.

Concordando-se ou não com as complexas mediações que o Lukács de 1923 leva em consideração entre estes dois níveis ― e não esquecer que, polêmicas e problemáticas, tais mediações conferiam ao Partido Comunista, claramente pensado à moda de Lenin, um estatuto privilegiado ―, o fato é que, na estrutura teórica de História e consciência de classe, sistemas de mediações entre teoria e práxis, consciência e ser, ideologia e ação político-interventiva são centrais. E aquilo de que carece, justamente, a reflexão korschiana de 1923 é, na consideração da relação entre teoria e práxis, a apreensão e a ponderação das mediações.

4.

Contundente e apaixonado, o ensaio de Korsch, escrito na maturidade dos seus 37 anos, é o que de mais seminal ele produziu em sua vida. Apóia-se numa tese central: a de que a debilidade prático-política revelada pela capitulação socialdemocrata do 4 de agosto de 1914 ― quando, no dizer de Rosa Luxembur, a socialdemocracia "tornou-se um cadáver malcheiroso" ― manifestou mais do que inépcia política ou traição (sem, naturalmente, excluí-las); trazendo à luz uma tendência perceptível há décadas, tinha raízes teóricas, condensadas no abandono da dialética materialista de Marx-Engels ― abandono devido à incompreensão, própria do marxismo vulgar, da relação entre a ciência fundada pelos dois pensadores e a filosofia.

Com a revolução na ordem do dia (1917 = "prólogo da revolução mundial"), a problematização desenvolvida por Kosch, sem substimar seu nível teórico, é medularmente política: trata-se de adequar a teoria do proletariado à sua práxis, que, neste momento, é práxis política revolucionária. Mais: trata-se de fazer a teoria constituir-se como se constituiu originalmente em Marx-Engels ― como expressão (teórica) do movimento revolucionário do proletariado. E a condição elementar para tanto consiste em trazer à teoria a dialética que, posta a atualidade da revolução, estava no primeiro plano da realidade histórica. Se já se determinara que não há política revolucionária sem teoria revolucionária19, em Korsch se determina que o caráter revolucionário da teoria está hipotecado ao seu método/conteúdo dialético ― e, para garantir este caráter, a ciência fundada por Marx-Engels ainda não prescinde da filosofia (de uma filosofia determinada), ainda (quando a revolução mundial está no seu "prólogo" ― depois tudo se transformará, até as ciências matemáticas!) é, também ela, a seu modo, filosofia20.

O leitor acompanhará a argumentação de Korsch, as suas inúmeras digressões, as inferências e ilações que extrai e/ou desenvolve ao longo do ensaio. Não cabe aqui sumariá-las. Mas este é o lugar para ressaltar que a relação teoria/práxis é posta por Korsch como uma relação imediata e direta: seu texto não deixa dúvidas quanto a este ponto. Se ele busca mediações entre a filosofia de Hegel e a revolução burguesa21, não o faz com os mesmos cuidado e rigor quando busca pensar o marxismo, especialmente o que lhe era contenporâneo; se pesquisa medações, para ser consequente com a afirmação hegeliana que tanto aprecia (a filosofia vista como "a sua época apreendida pelo pensamneto") quando trata da relação filosofia burguesa/realidade, no caso do marxismo contenta-se com a efetiva abstração segundo a qual a "nova ciência de Marx e de Enhels" é a "expressão geral do movimento revolucionário autônomo do proletariado". Esta concepção não é exclusiva da argumentação central de Marxismo e filosofia: é a concepção de Korsch dos anos 1920 ― reafirmada noutro texto, de março de 1923, em que o "socialismo científico" é identificado à "consciência de classe organizada do proletariado"22. Não há equívoco nessas abstrações, mas lhes falta a concreção que as tornaria verdadeiras. Substantivamente, Korsch acaba por pensar a teoria (de Marx-Engels) não mais que como a expressão ― racional e científica ― da práxis.

Do ponto de vista teórico, a mais evidente consequência necessária dessa concepção é, no limite, uma distinção puramente formal entre teoria e práxis ou, ainda, a dissolução da peculiaridade teórica na práxis. Uma tal concepção redutora da teoria, além de implicações específicas, limita compulsoriamente a compreensão das instãncias mediadoras da práxis política ― não é casual que Marxismo e filosofia não pronuncie uma só palavra sobre a problemática da organização do proletariado revolucionário, uma só frase sobre o partido revolucionário (sua natureza, sua estrutura, sua função, seus limites etc.)23.

5.

Mas este ensaio de Korsch é, como referimos, seminal ― nele comparecem, ainda que sem desdobramentos intensivos, algumas ideias absolutamente fecundantes, à época e depois (sejamos diretos: atuais hoje), para o desenvolvimento da tradição marxista. Três delas, entre outras, merecem a atenção do leitor.

A primeira diz respeito à concepção da obra marxiana como exemplar de uma sólida e coerente unidade. Mesmo assinalando inflexões na constituição do pensamento de Marx (e de Engels), sublinhando alterações, enfatizando giros ― por exemplo, a diferença introduzida na reflexão de Marx pela descoberta da relevância da crítica da economia política na análise social ―, Korsch sustenta a inteireza unitária (não identitária) da teoria social de Marx.

Em segundo lugar (e, de alguma forma, em estreita relação com o anterior), a claríssima recusa de compatibilizar esta teoria social com os "recortes epistemológicos" que passaram a fundar (e legitimar) as ciências sociais. Há, em Marxismo e filosofia, uma concepção de fundo ― mais que argumentos ― para demosntrar a genética relação de exclusão entre a "ciência do proletariado" e a discursividade das disciplinas sociais aurônomas e parcelares.

Em terceiro lugar, Korsch contribui decisivamente para esclarecer a relação Marx-Engels: são fundamentais as suas observações acerca, de uma parte, da indescartabilidade da filosofia hegeliana para a constituição da nova dialética de Marx e, de outra, do caráter extremamente complexo das operações teórico-críticas que permitiram a Marx fundar uma "nova ciência", reduzindo a pó a vulgarização relativa à mera "inversão" materialista.

A evolução teórico-política de Korsch após a sua ruptura com as organizações políticas do movimento comunista não o levou a um imediato afastamento do núcleo teórico que explicitou em Marxismo e filosofia. Ao contrário,na sua "Anticrítica", procura defendê-lo, ao mesmo tempo em que revisa radicalmente a sua relação com Lenin24 e se distancia politicamente da experiência soviética. Mas, a pouco e pouco, a partir de meados dos anos 1930, Korsch foi abrindo um fosso entre sua reflexão e a tradição marxista (o seu Karl Marx já o indica): aquele distanciamento político foi se acentuando fortemente, derivando num obsessivo anti-sovietismo e, no plano teórico, resultou numa completa minimização do contributo de Marx e de Engels à causa socialista25.

Levando em conta esta evolução, um marxista do calibre de Hobsbawm não hesita em afirmar, depois de reconhecer a importãncia de algumas das formulações de Korsch em 1923, que, "definitivamente, não há uma razão fundamental, hoje, pela qual devêssemos lê-lo"26. Permitimo-nos discordar do historidor ilustre, recordando a notação de Lukács, feita em março de 1967, acerca da representatividade do seu História e consciência de classe: "Um poderoso momento histórico de transição debatia-se então [à época da redação do livro] por sua expressão teórica. Mesmo quando uma teoria não expressava a essência objetiva da grande crise, mas apenas uma tomada de posição típica diante dos seus problemas fundamentais, ela ainda podia adquirir um certo significado histórico. Esse era o caso, creio hoje, de História e consciência de classe"27. A notação cabe, como uma luva, também para Marxismo e filosofia: para além de seus méritos singulares (configuradores de sua seminalidade), o ensaio korschiano de 1923 dispõe da representatividade que só as raras obras, e os raros autores, que protagonizaram o dilema da ruptura teórica e prática com o marxismo vulgar possuem ― e por esta representatividade e pela persistência do dilema vale a pena ser lido.

6.

A presente tradução de marxismo e filosofia não é a primeira em português: há mais de trinta anos, esta obta de Korsch teve uma edição lusitana, desde muito esgotada28.

A versão que agora se publica no Brasil ― e em que se procurou preservar as marcas estilísticas próprias de Korsch que, todos reconhecem, não é propriamente um escritor de prosa cristalina29 ― teve por base a edição francesa (K. Korsch. Marxisme et philosophie. Paris: Minuit, 1968, tradução de Claude Orsoni), cotejada com a edição alemã (K. Korsch. Marxismus und Philosophie. Frankfurt: Eueopäische Verlagsantalt, 1966). Mas, ressalte-se, o conteúdo do volume que o leitor tem em mãos difere tanto da edição alemã quanto do da edição francesa (e, ainda, da já mencionada lusitana) no que toca não só aos capítulos30, mas também ao fato de que invertemos a ordem de apresentação da Anticrítica, pospondo-a ao ensaio Marxismo e filosofia. Esta inversão restabelece a ordem cronológica dos dois textos e nos parece mais favorável à compreensão da polêmica expressa na Anticrítica.

Quando possível, as referências bibliográficas e textuais de Korsch ― nem todas completas e suficientes ― foram remetidas a versões já existentes em português, indicadas por nós entre colchetes (aliás, todas as notas entre colchetes são da nossa responsabilidade); mas cumpre observar que a sua tradução nem sempre coincide exatamente com a apresentada nas versões referidas. Para maior clareza, por vezes repetimos a fonte de Korsch, mesmo quando não houvesse necessidade de fazê-lo. E sempre que um título em alemão aparece pela primeira vez, ele foi traduzido.

Importante assinalar que, originalmente, Marxismo e filosofia não tinha as cacterísticas com que hoje se apresenta ao leitor: o ensaio, como já dissemos, um texto de cerca de meia centena de páginas, teve a sua primeira publicação no número 2, de 1923 do Archiv für die Geschichte des Sozialismus und der Arbeiterbewegung (Arquivo de História do Socialismo e do Movimento dos Trabalhadores), de Grünberg, e, no mesmo ano, uma edição autônoma em brochura31. A "Anticrítica", redigida em 1929, só passou a fazer parte de Marxismo e filosofia em 1930, quando Korsch publicou, através do editor C. L. Hirschfeld (Leipzig), a segunda edição.

A presente tradução ― para a qual foi inestimável a colaboração de Carlos Nelson Coutinho ― tem um expreso objetivo: contribuir para tornar acessíveis a um maior número de leitores um pensador e uma obra que, sem dúvidas extremamente problemáticos, também sem dúvidas permanecem seminais para todos aqueles que se confrontam com a sociedade do capital e, neste confronto, querem valer-se do acervo da tradição marxista.

Notas:

1 Da larga bibliografia sobre o marxismo ocidental (e seus representantes), refira-se, ilustrativa e aleatoriamente: N.McInnes, The Western Marxists (Londres: Alcove Press, 1972); G. S. Jones et al., Western Marxism: A Critical Reader (Londres: Verso, 1978); R. Jacoby, Dialectic of Defeat (New York: Cambridge University Press, 1981); J. G. Merquior, O marxismo ocidental (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987); K. Anderson, Lenin, Hegel and the Western Marxism (Chicago: University of Illinois Press, !995); P. Anderson, Considerações sobre o marxismo ocidental. Nas trilhas do materialismo histórico (São Paulo: Boitempo, 2004).

2 No longo discurso inaugural de Zinoviev, esta parte (que reservava ataques também ao italiano A. Bordiga) intitula-se "A luta contra o ‘ultra-esquerdismo’ e io revisionismo teórico"; toda ela encontra-se reproduzida em Peter Ludz, org., Georg Lukács: Schiriften zur Ideologie und Politik (Newied-Berlim: Luchterhnd, 1967, p. 719-726).

3 Redigido provavelmente entre 1923 e 1926, o material referido só veio à luz postumamente (em 1996), sendo vertido ao inglês pouco depois ― ver G. Lukács, A Defense of History and Class Consciousness. Talism and the Dialectic (Uma defesa de História e consciência de classe. Reboquismo e dialética) (Londres: Verso, 2000). A visão retrospectiva do teórico húngaro sobre História e consciência de classe e a sua cuidadosa autocrítica podem ser lidas especialmente no texto que escreveu em 1967 para a primeira reedição autorizada da obra ― disponível em G. Lukács: História e consciência de classe (São Paulo: Martins Fontes, 2003) ― mas há também elementos em pertinentes em G. Lukács, Pensamento vivido. Autobiografia em diálogo (São Paulo: Ad Hominem; Viçosa: editora da Universidade Federal de Viçosa, 1999).

4 A partir de finais dos anos 1960, a divulgação de textos de Karl Korsch (muitos deles até então praticamente inacessíveis, ademais de outros inéditos) veio crescendo; as edições mais autorizadas são as que, nos volumes da sua Gesamtausgabe, faz a Europäische Verlagsanstalt (Frankfurt) desde 1980. Paralelamente, a bibliografia sobre ele registrou notável aumento ― os títulos têm se multiplicado, na Europa e nos Estados Unidos. As poucas indicações seguintes podem oferecer ao leitor interessado várias fontes para avançar no conhecimento do autor:

a) textos dedicados especialmente a Korsch: C. Pozzoli (org.), Über Karl Korsch (Frankfurt: Fischer, 1973); P. Goode, Karl Korsch: A Study in Western Marxism (Londres: Macmillan, 1979); M. Buckmiller (org.), Zur Aktualität von Karl Korsch (Frankfurt: Europäische Verlagsanstalt, 1981);

b) textos em que há significativas considerações sobre Korsch: G. Vaca, Lukács o Korsch? (Bari: De Donato, 1969); A. Arato e P. Breines, The Young Lukács and the Origins of Western Marxism (New York: The Seabure Press, 1979); E. J. Hobsbawm, Revolucionários. Ensaior contemporâneos (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982); M. Jay, Marxism & Totality. The Adventures of a Concept from Lukács to Habermas (Berkeley-Los angeles: University of California Press, 1984); L. Kollakowski, Las principales corrientes del marxismo. III. La crisis (Madri: Alianza, 1985); L. Sochor, "Lukács e Korsch: a discussão filosófica nos anso 20", em E. J. Hobsbawm (org.), História do marxismo (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, v.9);

c) textos de introdução a obras de Korsch: K. Axelos, apresentação a Korsch, Marxisme et philophie (Paris: Minuit, 1964); E. Gerlach, introdução a K. Korsch, Marxismus und Philosophie (Frankfurt: Europäische Verlag, 1966); F. Halliday, introdução a K. Korsch, Marxism and Philosophy (Londres: new Luft Books, 1970); A. Sánchez Vázquez, prólogo a K. Korsch, Marxismo y filosofia (México, D.F.: Era, 1971); S. Bricianier, apresentação a Karl Korsch, Marxisme et contre-revolution dans la prière moitié du XXe. siécle (Paris: seuil, 1975); D. Kellner, introdução a K. Korsch, Karl Korsch: Revolutionary Theory (Austin: University of Texas Press, 1977).

Na revista Telos, editada nos Estados Unidos (em Saint Louis) por Paul Piccone, encontram-se, nos números 26 (inverno de 1975-1976), 27 (verão de 1976) e 34 (inverno de 1977-1078), substantivos materiais sobre Korsch.

5 Esta universidade ― aliás, aquela à qual Marx apresentou, em 1841, a sua dissertação sobre a diferença entre as filosofias da natureza de Demócrito e Epicuro ―, a que Korsch, em 1923, retornará como professor, foi caracterizada por Hobsbawm como "ultradireitisra" (ver Revolucionários… ed. cit., p. 157).

6 Embora vinculado ao pensamento conselhista, a contribuiçpão teórica de Korsch a esta corrente comunista não tem a densidade daquela oferecida por autores como Max Adler ― Démocratie et conseils ouvriers (Paris: Maspero, 1967) ― e Paul Mattik ― Integração capitalista e ruptura operária (Porto: A Regra do Jogo, 1977). Ver, também, C. Coller e C. Smith (org.), La contre-révolution bureaucratique (Paris: UGE, 1973); A. Pannecköek et al., Conselhos operários (Coimbra: Centelha, 1975); P. Mattick et al., Comunistas de conselhos (Coimbra: Centelha, 1976).

7 Obra reeditada somente um quarto de século depois: K. Korsch, Karl Marx (New York: Russel, 1963).

8 No volume La contre-révolution bureaucratique, citado na nota 6, estão reunidos textos de K. Korsch, P. Mattick, A. Pannekoek, O. Rühle e H. Wagner, publicados em algumas das revista acima referidas, bem como informações sobre elas. É interesante observar que, nos primeiros anos de seu exílio americano, Korsch colabora com Kurt Lewin e com ele publica um ensaio sobre modelos matemáticos em psicologia e sociologia.

9 O periódico Archiv für die Geschichte des Sozialismusb und der Arbeiterbewegung (Arquivo de História do Socialismo e do Movimento dos Trabalhadores), que circulou entre 1911 e 1930, e que se tornou conhecido simplesmente como Grünbergs Archiv (Arquivo de Grünberg), era editado em Leipzig por Hirschfeld, e nele também foram publicados textos de Lukács (por exemplo, o ensaio "Moses Hess e o problema da dialética idealista"). Recorde-se que Carl Grümberg (1861-1940), professor da Universidade de Viena na última década do século XIX, assumiu em 1924 a direção do Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt (da qual se afastou em 1928, por razões de saúde); a relação entre Grümberg e o instituto (que patrocinará a "Escola de Frankfurt") é sumariada por Phil Slater no primeiro capítulo de Origem e significado da Escola de Frankfurt (Rio de Janeiro: Zahar, 1978).

10 O opúsculo só ganhará mais corpo quando, reeditado em 1930, Korsch lhe acrescentar a "Anticrítica".

11 Talvez Franz Mehring (1846-1919) constituísse, aqui, um caso particular de alta qualificação intelectual. De todo modo, sua morte torna especulativa qualquer hipótese acerca de um eventual protagonismo seu numa empresa como essa.

12 O único remanescente da Segunda Internacional que se mostrou qualificado para isso foi Lenin; prova-o a sua verdadeira descoberta de Hegel no exílio suíço, registrada nas reflexões que constituem os seus Cadernos sobre a dialética, um deles tomando como objeto específico a Lógica hegeliana (sob o título (sob o título de "Conspecto do livro de Hegel Ciência da lógica"; este exercício leniniano está disponível no tomo 6 das suas Obras escolhidas em seis tomos (Lisboa: Avante!; Moscou: Progresso, 1989, p. 89-212). Mas este material ― que traz à luz um pensador inteiramente diverso daquele que se identifica em Materialismo e empirocriticismo e que, ademais, é um pressuposto teórico de O Estado e a revolução ― permaneceu inédito até 1929, e Korsch, portanto, desconhecia-o à época da redação de Marxismo e filosofia, e, provavelmente por não ter tido acesso a ele, não o considerou quando da preparação da sua "Anticrítica". A importância prático-política da leitura de Hegel por Lenin, no seu exílio, é posta em relevo num breve ensaio de M. Löwy ― "Da grande lógica á estação Filândia" ―, inserto em seu livro Método dialético e teoria política (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975). A linha de pensamento inscrita nos Cadernos… leninianos, porém, não haveria de florescer no clima intelectual que se instautou sob Stalin.

13 "Nos anos vinte, Korsch, Gramsci e eu tentamos, cada qual seguindo seu próprio caminho, enfrentar o problema da necessidade social e da sua interpretação mecaniscista que constituía a herança da Segunda Internacional. Herdamos o problema, mas nenhum de nós ― nem mesmo Gramsci, talvez o mais dotado dos três ― o resolveu" (entrevista de Lukács à New Left Review, n. 68, July 1071, reproduzida no volume organizado por M. Löwy: G. Lukács. Littérature, philosophie, marxisme. Paris: PUF, 1978, p. 158).

14 Por razões históricas sobejamente conhecidas, o impacto teórico-político do pensamento de Gramsci ― diferentemente do de Lukács e de Korsch ― será muito mais tardio.

15 Rememorando o clima político da época, Lukács observou: "Considero essencial o fato de que éramos todos sectários messiânicos. Acreditávamos todos na revolução mundial como num fato para acontecer amanhã" (Pensamento vivido… ed. cit., p.77).

16 A crítica de Lukács, muito mais desenvolvida do que a de Korsch, foi publicada no Archiv de Grünberg (n. 11, 1923), e pode ser lida em Antonio Roberto Bertelli (org.), Bukhárin, teórico marxista (Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1989, p. 41 e ss.). recorde-se que Gramsci também criticou o mesmo livro de Bukhárin ― ver A. Gramsci, Cadernos do cárcere (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999, v. 1, p. 114 e ss.). Por outro lado, não se esqueça o juízo de Lenin sobre o autor, anotado antes da publicação do Tratado…: "Bukharin não é somente um teórico muito valioso e importanto do Partido; [...] mas seus conceitos teóricos só podem ser classificados de plenamente marxistas com grande reserva porque há nele algo de escolástico (nunca estudou dialética e, penso, nunca a entendeu de todo)" (trecho do "testamento" de Lenin, com itálicos não originais). Ver Antonio Roberto Bertelli, Capitalismo de Estado e socialismo. O tempo de Lenin. 1917-1927 (São Paulo: IPSO_IAP, 1999, p. 87).

17 E ― faça-se justiça ao autor ― Korsch, como verificará o leitor desta obra, jamais ignorou essa diferença.

18 Um dos analistas que mais enfatizou este ponto crucial foi Sánchez Vásquez (ver o seu prólogo a Marxismo e filosofia, citado na nota 4).

19 Lenin, já em Que fazer?, anotara que "sem teoria revolucionária não pode haver também movimento revolucionário" (ver Obras escolhidas em três tomos. Lisboa: Avante!; Moscou: Progresso, 1977, v. 1, p. 96-97).

20 A observação sobre a matemática está num texto que precede a Marxismo e filosofia (ver, infra, o capítulo "A comcepção materialista da história", de 1922); quanto à filosofia, como Korsch nota depois da publicação de Marxismo e filosofia, no comunismo ela não será mais que "um ponto de vista ultrapassado" (ver, infra, o capítulo "A dialética materialista", de 1924); há plena continuidade entre essas considerações e o núcleo teórico de Marxismo e filosofia.

21 Há diferenças entre a apreciação de Korsch sobre a filosofia de Hegel em Marxismo e filosofia e aquela que ele enuncia após a Segunda Guerra Mundial, expressa numas sumárias "Teses sobre Hegel e a revolução" (reproduzidas no número 16, de 1959, da revista parisiense Arguments).

22 Ver, infra, o capítulo "A dialética de Marx".

23 Quanto a isso, é flagrante a diferença, que já sugerimos, entre Marxismo e filosofia e História e consciência de classe.

24 Assim, aquiele que no texto de 1923, aparecia como "fiel discípulo de Marx", o "arguto crítico", "o cérebro da revolução proletária na Rússia" etc., surge agora, na "Anticrítica", quase como um delinquente filosófico. Mas o ressentimento que brota dessas páginas, publicadas na segunda edição (1930) de Marxismo e filosofia, não deve obscurecer o fato de que Lenin de Materialismo e empirocriticismo merece críticas substantivas.

25 Minimização evidente, por exemplo, na segunda das suas "Dez teses sobre o marxismo hoje" (igualmente publicadas em Arguments, cit., supra, na nota 21), que reza: "Todas as tentativas para restaurar a doutrina marxista como um todo e em sua função original de teoria da revolução social da classe operária são atualmente utopias reacionárias". Mas cumpre observar que Martin Jay, em nota ao seu Marxism & Totality (cit., p. 147), remete a uma entrevista de Hedda Korsch, concedida a New Left Review (n. 76, Nov.-Dez. 1972), segundo a qual Korsch nunca rejeitou completamente o marxismo.

26 E. Hobsbawm, Revolucionários…, ed. cit., p. 162. Outro marxista, o já citado Sánchez Vázquez, mesmo observando que o Korsch dos últimos anos estava, como pensador, em "ruínas", considera, ao contrário, que muito da crítica korschiana "não perdeu a sua validez em nossos dias" (ver o prólogo citado na nota 4, p. 13 e 18).

27 G. Lukács. História e consciência de classe. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 28-29.

28 K. Korsch. Marxismo e filosofia. Porto: Afrontamento, 1977, tradução de Antonio Sousa Ribeiro.

29 Observa o responsável pela versão francesa que, em Marxismo e filosofia, "o pensamento só se deixa apreender através de frases intermináveis, nas quais a proliferação de advérbios, adjetivos e qualificativos de todas as espécies e a repetição excessiva dos termos constituem, de qualquer modo, o preço dos esforços do autor para conferir a mais exata expressão à nuance mais sutil" (K. Axelos, cit., p. 18). E anota outro conhecedor da obra de Korsch: "O estilo tumultuado de Korsch torna por vezes difícil acompanhar o curso de suas considerações" (L. Sochor, cit., p. 62).

30 O artigo "Lenin e a Internacional Comunista", de 1924, não procede das duas fontes citadas: foi traduzido a partir da edição que teve em K. Korsch. Marxismo y filosofia (México, D.F.: Era, 1971).

31 É ao epílogo desta edição que Korsch se refere na "Anticrítica", ao mencionar seu acordo com Lukács (ver, neste volume, p. 85).

Tradução, José Paulo Neto.

Fonte: http://socialismo.org.br/

Hábito alimentar de crianças é influenciado pelos pais

Na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, uma pesquisa avaliou o quanto crianças de 4 a 6 anos de idade gostam dos alimentos que habitualmente fazem parte do seu dia a dia e como os pais atuam em relação à alimentação de seus filhos.

Agência USP

O estudo faz pare da tese de doutorado da nutricionista Isa Maria de Gouveia Jorge. O interesse no tema veio da observação de que a prevalência de excesso de peso tem aumentado significativamente nas últimas décadas, inclusive entre as crianças desta faixa etária.

Somente 20% dos pais pesquisados percebem o excesso de peso dos filhos

Participaram da pesquisa 400 crianças de pré-escolas universitárias, nas quais foram verificados o estado nutricional e a aceitação de 29 alimentos habituais de suas dietas. Para medir o grau de gostar, ou seja, o quanto as crianças gostam dos alimentos, foram utilizadas fotografias padronizadas dos alimentos, na forma usualmente oferecidas às crianças e escala hedônica facial de cinco pontos. Também participaram do estudo 190 pais. Foram levantados dados referentes a escolaridade e estado nutricional dos pais e aplicado um questionário sobre atitudes e práticas alimentares frente à alimentação da criança.

A prevalência de excesso de peso e obesidade entre os pré-escolares foi de 31,9% (22,2% e 9,7%, respectivamente) e acompanha a tendência secular do aumento de ganho de peso da população infantil brasileira. A Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) 2008-2009, realizada pelo IBGE e Ministério da Saúde, revelou que o excesso de peso entre crianças de 5 a 9 anos foi de 33,5%, sendo considerado obesos, 16, 6% das crianças de sexo masculino e 11,8% do sexo feminino.

A prevalência de excesso de peso entre meninos foi de 34,6%, sendo 9,5% obesos, e entre as meninas, 29,2% sendo 9,8% obesas. Considerando que esta prevalência ocorre entre crianças menores do que os estudos da POF 2008-2009 o quadro revela a importância de se adotar medidas de prevenção precocemente na infância, antes da idade pré-escolar. Somente 20% dos pais pesquisados percebem o excesso de peso dos filhos.

Reconhecimento

Fatores culturais podem dificultar o reconhecimento dos pais de que o excesso de peso dos filhos seja um problema de saúde. Na pesquisa, este foi o fator de maior peso na probabilidade de as crianças apresentarem excesso de peso. O segundo fator foi o excesso de peso dos pais. A prevalência de excesso de peso entre os pais também foi alta (43,2%) sendo maior entre os familiares das crianças com excesso de peso, existindo uma associação positiva entre o excesso de peso dos pais e dos pré-escolares, ou seja, as chances de as crianças terem um ganho excessivo de peso são maiores quando os pais têm excesso de peso.

Quanto à aceitação de alimentos observou-se que, independentemente, do estado nutricional, sexo e idade, as crianças têm preferência por alimentos de alta densidade energética, ricos em gordura e/ou açúcares. Os mais aceitos foram batata frita, pizza, chocolate, salgadinhos tipo chips, salsicha, biscoito recheado e refrigerante. Entre os dez alimentos mais aceitos, somente três são saudáveis: frango, iogurte e melancia sendo os demais considerados não saudáveis e constituídos de alimentos industrializados, ricos em densidade energética, gorduras, açúcares e/ou sal e escassos em micronutrientes e fibras.

Entre os menos aceitos pelas crianças destacam-se as hortaliças incluindo entre elas o chuchu, sopa de legumes e purê de batatas. Em relação às atitudes e práticas de alimentação exercidas pelos pais observou-se uma relação com o estado nutricional dos pré-escolares, mas não com sexo ou idade. Geralmente os pais se sentem responsáveis pela alimentação de seus filhos e monitoram a ingestão de alimentos não saudáveis. Já a preocupação com excesso de peso está relacionada ao estado nutricional da criança. A preocupação é maior nos pais das crianças com excesso de peso.

Pressionar a criança a comer é uma prática mais comum entre os pais das crianças mais magras. Foi observado que a probabilidade das crianças gostarem do alimento que são pressionadas a comer é menor quando comparadas com as demais. Quanto às práticas de restrições de alimentos os dados não foram conclusivos, sendo necessários estudos complementares. A tese Aceitação de alimentos por pré-escolares e atitudes e práticas de alimentação exercidas pelos pais , realizada por Isa Maria de Gouveia Jorge no Departamento de Nutrição da FSP, teve orientação da professora Maria Elisabeth Machado Pinto e Silva.

Fonte: http://www.usp.br/

Brancos e índios unem-se para desvendar o passado

A quem pertencem os mortos? Nos Estados Unidos, essa pergunta tem sido fonte de tensão entre arqueólogos e povos indígenas nativos

Kate Wong

No entanto, alguns encontraram meios para trabalharem em conjunto. Os exemplos de cooperação estiveram em foco na sessão de abertura do encontro anual da Society for American Archaeology no fim de março.

A última primavera marcou o 20º aniversário do Ato para a Proteção e Repatriação dos Túmulos Nativos Americanos (NAGPRA – sigla em inglês para Native American Graves Protection and Repatriation Act), criado para facilitar o retorno de material cultural dos povos nativos – incluindo restos mortais humanos e objetos sacros – aos indígenas, que poderão ser novamente enterrados caso queiram. A lei exige que museus e outras instituições devolvam somente restos que possam ser encaminhados às tribos reconhecidas federalmente. Em maio passado, entretanto, regras adicionais entraram em vigor permitindo que tribos reivindiquem também restos não-identificados. Essas novas regras geraram críticas por parte dos arqueólogos e antropólogos que temem potenciais perdas no campo científico. Há ainda a preocupação de que as regras criadas possam impedir a repatriação correta ao longo do processo, e também que novas técnicas para estabelecer a afiliação cultural sejam disponibilizadas.

Em um encontro em Sacramento, pesquisadores fizeram referências à “apreensão” em torno das novas regras da NAGPRA, mas focaram no quanto os arqueólogos e os povos indígenas nativos podem se ajudar. A arqueóloga Wendy Teeter, da University of California, em Los Angeles, e a arqueóloga Desiree Martinez, membro da tribo Tongva, falaram sobre seus trabalhos na ilha Santa Catalina, perto da costa de Los Angeles, onde estudaram sítios arqueológicos datando 9 mil anos. Os antigos residentes da ilha participaram de uma extensiva rede de trocas de mercadorias que abrangiam o sul e sudeste da Califórnia. Teeter afirma que seu grupo está incorporando idéias dos atuais moradores da ilha e membros do povoado de Tongva na interpretação de dados, com uma abordagem mais “holística” para entender a relação entre os Tongva da Ilha Catalina e os Tongva continental. Martinez, explica que os dois povos Tongvas não são reconhecidos federalmente, embora haja uma campanha de longa data para seu reconhecimento ─ e o trabalho na Ilha Santa Catalina está os auxiliando a documentar sua cultura.

Outro exemplo de “simbiose intelectual” veio do arqueólogo Alstom Thoms da Texas A&M University e Ramon Vasquez, diretor executivo da organização “American Indians in Texas at Spanish Colonial Missions,” que discursaram sobre seus trabalhos no sítio localizado ao longo do Rio Medina, em San Antonio. Thoms estuda o padrão de utilização do solo e a caça dos povos que ali moraram cerca de 10 mil anos atrás. Ele contou que aprender as técnicas tradicionais de cozinhar dos índios nativos o ajudou a entender as estratégias de subsistência da tribo. Vasquez, nota que o conhecimento arqueológico sobre o que os ancestrais comiam levou à reintrodução de alguns desses alimentos em nossa dieta nos dias de hoje.

Membros da Nação Tap Pilam Coahuiltecan, que se consideram descendentes destes índios nativos, têm a esperança de diminuir suas altas taxas de diabetes e outras doenças que os aflige.

“O quanto mais os arqueólogos mantiverem contato com os indígenas,” Thom observou, “mais benefícios teremos todos nós”.

Fonte: http://www2.uol.com.br/

Corações e mentes

Por muito tempo o órgão vital ocupou um lugar de destaque na lógica da linguagem

Aldo Bizzocchi

Por muito tempo se acreditou que o coração fosse a sede da mente. Como os pensamentos, em geral, suscitam sentimentos, e vice-versa, ambos deviam nascer no mesmo lugar. (A distinção entre razão e emoção só ganhou força com a filosofia cartesiana, no século 17.) E como os sentimentos em geral mexem com nosso sistema circulatório, causando aperto no peito, palpitações, taquicardia, rubor das faces etc., era natural relacionar o que se passava no espírito (o termo "mente" não era usual) com o órgão do corpo que mais parecia afetado por esses estados, ou seja, o coração.

Embora o anatomista Herófilo de Alexandria já observasse no século 4 a.C. que os nervos se ligam todos ao cérebro, que considerou o centro da inteligência, a crença generalizada era a de que a sede do espírito era o coração. Tanto que, ao mumificar os mortos, os egípcios extraíam o cérebro pelas narinas com a ajuda de um gancho metálico, para descartá-lo. Já o coração era retirado e preservado em natrão (substância à base de carbonato de sódio) num vaso ricamente decorado chamado canopo, para que o morto pudesse reutilizá-lo no além-túmulo. Outros povos que praticavam a mumificação, como os incas, retiravam o coração do morto e o conservavam em urnas funerárias, demonstrando que o órgão era objeto de respeito e veneração. Enquanto isso, o cérebro, como as vísceras, era jogado fora.

Também o Evangelho testemunha a convicção de que o coração é a casa da alma. Em Mateus 15:17-20, Jesus diz: "Ainda não compreendeis que tudo que entra pela boca desce para o ventre, e é lançado fora? Mas o que sai da boca, procede do coração, e é isso que contamina o homem. Pois do coração procedem maus pensamentos, assassínio, adultério, prostituição, furto, falso testemunho, blasfêmia. São estas coisas que contaminam o homem". Ou seja, nem o Filho de Deus conhecia a fisiologia do sistema nervoso.

Origem

Essa crença se reflete em diversas expressões em que o coração é visto como a origem dos pensamentos e das emoções. Um exemplo em português é a expressão "de cor", que significa "de memória": cor é "coração" em latim. Daí vêm as expressões equivalentes par coeur em francês e by heart em inglês. Aliás, a palavra "coragem", do francês courage, deriva de coeur: o destemor é uma das qualidades do coração.

Mas há muitas expressões relacionando o coração à mente: ter bom coração é ter boa índole, isto é, nutrir pensamentos e sentimentos positivos em relação aos outros. Ter atitude mental amigável é ser cordial (do mesmo radical do latim cor). Partir o coração de alguém é causar sofrimento psíquico. Não ter coração é ser insensível. Ficar com o coração apertado é sentir angústia. Ter coração mole é ser benevolente em excesso. Coração pesado é peso na consciência. Balançar o coração de alguém é provocar paixão.

Temos também expressões idiomáticas como "Quem vê cara não vê coração" (não vê o caráter). Em inglês, temos to be young at heart, "ser jovem de espírito" (na verdade, ter mente jovem). E a curiosa expressão As a man thinks in his heart, so he is, que significa "Conforme um homem pensa dentro de seu coração, assim ele é". Ou seja, o coração "pensa".

A antiga medicina acreditava que os estados de espírito fossem o resultado da combinação de humores, isto é, líquidos, que temos no corpo (daí falar-se em bom ou mau humor). Esses humores seriam quatro: a bile negra (responsável pelo temperamento melancólico ou atrabiliário), a bile amarela (donde o temperamento colérico), a fleuma (daí o temperamento fleumático) e o sangue (temperamento sanguíneo).

Cérebro

Hoje sabemos que pensamentos e emoções são produto do cérebro. A atividade mental é fruto de reações químicas que geram correntes elétricas nos neurônios. As reações são desencadeadas por neurotransmissores e hormônios. Por isso, muitos estados emocionais negativos são tratados com medicamentos (tranquilizantes, estimulantes, antidepressivos).

Um bom modelo de como a mente opera foi proposto pelo psicólogo suíço Carl Gustav Jung. Para ele, a mente realiza quatro processos cognitivos: dois de percepção (a sensação e a intuição) e dois de julgamento (a razão e a emoção). A coisa funcionaria mais ou menos assim: nossa mente recebe o tempo todo informações do meio exterior pelos sentidos (sensação) e também do inconsciente por meio de lembranças e insights (intuição). Ao chegar à consciência, essas informações produzem primeiro sentimentos (emoção) e, a seguir, pensamentos (razão).

Impulso

É pelo fato de a emoção ser mais rápida e poderosa do que a razão que muitas vezes agimos por impulso – o que por vezes garante a nossa sobrevivência. (Imagine se fôssemos ficar ponderando o que fazer diante de um carro na iminência de nos atropelar.) Mas nos leva a tomar atitudes impensadas das quais nos arrependemos. São esses sentimentos e pensamentos que motivam nossas ações, as quais geram novas percepções e julgamentos, num ciclo interminável de interação com o meio.

Portanto, todas as emoções e pensamentos são produto da mente, que nada mais é do que o cérebro em funcionamento, e não do coração. Essa constatação, se hoje já não causa mais espanto, deve ter abalado corações e mentes no passado. A crença de que a sede do espírito é o coração deixou vestígios na linguagem até os dias de hoje. E, cá para nós, ter boa mente ou cérebro mole, estar com a mente apertada ou o cérebro partido e, sobretudo, balançar a mente ou ser dono do cérebro de alguém não é nada romântico.

Aldo Bizzocchi www.aldobizzocchi.com.br é doutor em linguística pela USP e autor de Léxico e Ideologia na Europa Ocidental (Annablume)

Fonte: http://revistalingua.uol.com.br/

Potencial Hidrelétrico e Energia Nuclear no Brasil

Durante palestra sobre o futuro da energia nuclear no contexto do sistema elétrico brasileiro, no Clube de Engenharia, o pesquisador e consultor em energia Joaquim de Carvalho frisou que o país ainda tem grande potencial de geração hidrelétrica a explorar e, com novas formas de se segmentarem os aproveitamentos, os impactos ambientais podem ser bem assimilados pelos ecossistemas micro-regionais.

Rogério Lessa

Mesmo assim, o custo da energia hidrelétrica será inferior ao da energia nuclear, que o país quer retomar. Se esse potencial for associado ao potencial eólico, para estruturar um sistema hidro-eólico, o Brasil poderá oferecer à sua população eletricidade, em termos per capita, em níveis comparáveis aos dos países considerados desenvolvidos, isto admitindo – como faz o IBGE – que a população se estabilizará em 215 milhões de habitantes, por volta de 2050.

"Acredito que construir novas usinas nucleares apenas para justificar o investimento já realizado em Angra poderia abalar seriamente o equilíbrio financeiro do setor elétrico brasileiro", disse, informando que a diferença entre o provável custo de geração de Angra III e o das novas hidrelétricas na Amazônia pode chegar a R$ 430 milhões por ano.

"Esses recursos poderiam ser aplicados no projeto do sistema nuclear de propulsão naval, que me parece, argumenta.

Como disse, mesmo no caso das hidrelétricas que o governo pretende construir na Amazônia e exigirão diversas precauções sócio-ambientais, além de investimento pesado em linhas de transmissão, o custo de geração hidráulica é significativamente inferior ao da geração nuclear: "O custo de geração de novas hidrelétricas na Amazônia poderá chegar a R$ 146,2 MW/h, enquanto em Angra III o custo real ficará em R$ 190 MW/h", contabiliza.

"O argumento de que as usinas nucleares nos permitirão dominar a tecnologia nuclear não é válido, pois o que se propõe é importar essa tecnologia, algo que não garante desenvolvimento algum", criticou.

"Os excelentes técnicos que operam as usinas de Angra são preparados para operar, não para projetar e construir usinas", salienta, em entrevista exclusiva ao Monitor Mercantil, reproduzida aqui pelo Correio da Cidadania. Por outro lado, ele reconhece que as radiações nucleares são indispensáveis à vida moderna "em praticamente todos os setores, daí a importância de criar e modernizar os nossos centros de pesquisa".

A entrevista completa pode ser lida abaixo:

Por que o senhor considera que há muito otimismo nas estimativas de custos de usinas nucleares?

Veja o caso de Angra III. O governo já destinou recursos no montante de R$10 bilhões para a conclusão da usina, sem incluir os juros durante a construção. A este valor deve ser somada a quantia de R$ 1,2 bilhão, correspondente ao que já foi investido na obra. Em meus cálculos, admiti que o BNDES financiará 70% do custo de Angra III, a juros de 7,5% ao ano (TJLP + 1%), e os 30% restantes pagariam taxas entre 8% e 12% ao ano. Admiti também que o custo do combustível será igual ao de Angra II.

Esse problema só ocorre no Brasil?

Não. As unidades que a Areva está construindo na Finlândia, por exemplo, já estão custando o dobro do estimado antes do começo da obra. Já nos Estados Unidos, as usinas implantadas entre 1966 e 1986 tiveram, em média, custos 200% acima do previsto.

Aqui no Brasil, o descomissionamento da usina implicará futuros investimentos da ordem de R$ 800 por kW elétrico instalado, o que, somado ao que será gasto na administração dos rejeitos de baixa e média atividade e na deposição final dos rejeitos de alta atividade, poderá incidir em torno de R$ 3/MWh na tarifa de geração, ao longo da vida útil da usina.

As hidrelétricas planejadas situam-se em regiões afastadas dos pólos de consumo. Isso não encarece a geração?

Não se pode esperar que a energia gerada na Amazônia tenha custos comparáveis aos das antigas, pois, entre outras coisas, deve-se acrescentar o custo da transmissão.

A não ser nos casos em que as novas usinas possam ser conectadas diretamente à rede básica, a incidência do custo de transmissão vai aumentando, na medida em que as novas usinas localizam-se em regiões mais afastadas dos pólos de consumo. Essa transmissão a longas distâncias pode chegar a R$ R$ 30 MW/h.

E no caso das usinas nucleares?

Neste caso, deve-se incluir o custo do combustível e também as despesas de descomissionamento da usina, ao cabo de sua vida útil, os quais podem chegar a R$ 800 por quilowatt elétrico da usina em questão. O montante deve ser trazido ao valor presente e incluído nos custos de geração, a fim de que, na época própria, haja recursos para o descomissionamento. Devem, ainda, ser acrescentados os custos de administração dos rejeitos de baixa e média atividade, e os da deposição final dos de alta atividade.

Tanto para as hidrelétricas como para as nucleares e as térmicas convencionais, os prêmios pagos às companhias de seguros são, em média, da ordem de 1% ao ano, sobre o capital investido.

Quais os impactos ambientais da geração hidrelétrica, em comparação com a nuclear?

As usinas hidrelétricas provocam inundações potencialmente desastrosas. Em contrapartida, oferecem a vantagem de pouco emitirem gases de efeito estufa. E as inundações podem ser muito reduzidas se, em vez de grandes projetos, optar-se por seccionar as bacias hidrográficas em projetos de menor porte, convenientemente escalonados.

As usinas nucleares praticamente não agridem o meio ambiente quando estão em operação rotineira, porém implicam o risco – muito pequeno, mas existente – de acidentes que podem liberar na biosfera produtos de fissão de alta atividade, com graves conseqüências, que se podem fazer sentir sobre extensas regiões, por centenas de anos.

Além disso, fica para as futuras gerações o problema dos rejeitos de alta atividade, cuja deposição final implicará importantes investimentos. E ainda existe a questão da segurança.

Qual é o problema da segurança?

A segurança das usinas geradoras e demais instalações nucleares (tratamento e enriquecimento de urânio, fabricação de elementos combustíveis, reprocessamento de combustíveis irradiados, depósitos de rejeitos etc.) implicará importantes e custosos aparelhos policiais. Assim, países que optem pelas usinas nucleares em seus sistemas elétricos poderão ser forçados a adotar métodos próprios de Estados policiais.

O movimento ambientalista aparentemente critica mais as hidrelétricas do que as termelétricas. Elas são menos agressivas ao meio ambiente?

Acredito que a oposição dos ambientalistas diminuirá de intensidade na medida em que compreenderem que, com bom planejamento, os inevitáveis impactos ambientais das futuras hidrelétricas são perfeitamente assimiláveis pelos ecossistemas amazônicos. As hidrelétricas, por sinal, se tornarão os melhores aliados das florestas, pois, se houver desmatamento, os assoreamentos, as cheias e as estiagens daí resultantes inviabilizarão o próprio aproveitamento hidroelétrico.

Qual o real impacto da construção de hidrelétricas na Amazônia?

Os novos aproveitamentos hidrelétricos na Amazônia devem ser projetados e implantados com base em rigorosos critérios de preservação do modo de vida, costumes e bem-estar das populações nativas.

Devem, igualmente, ser observados princípios fundamentais da sustentabilidade ambiental. Um aspecto inovador desses projetos será o emprego de turbinas do tipo bulbo na maioria deles. Graças a isso, os aproveitamentos serão de baixa queda, com reservatórios que inundarão áreas consideradas pequenas para hidrelétricas do porte delas, em média, cerca de 3 mil MW.

Rogério Lessa é jornalista do Monitor Mercantil, onde esta entrevista foi originalmente publicada.

Fonte: http://www.correiocidadania.com.br/

Com os pés na vida real

Tendo os afetos como foco e usando para isso os pensamentos de Nietzsche, Espinosa e teorias psicanalíticas, André Martins diz que a Filosofia só é válida se puder ajudar no dia a dia das pessoas

Patrícia Pereira

imagem: Marco Sobral

A Filosofia só tem valor se for capaz de transformar a vida real. É o que defende André Martins, professor associado da UFRJ, onde leciona nos departamentos de Filosofia e de Medicina Preventiva. Ele une em seus estudos os pensamentos de Nietzsche, Espinosa e teoria psicanalítica para, entre outras coisas, ajudar as pessoas a entender melhor suas vontades e escolhas. O que há em comum entre os três? O enfoque nos afetos. Tanto Nietzsche quanto Espinosa têm como conceito fundamental de suas filosofias, o afeto. Posição que contrariou os pilares da tradição filosófica e os fez serem vistos como malditos. Por outro lado, ter o afeto em foco é algo que os aproxima da Psicanálise. André Martins, doutor em Filosofia pela Université de Nice (1994) e doutor em Teoria Psicanalítica pela UFRJ (2002), se diz antes filósofo, depois psicanalista. Nesta entrevista, ele, que é vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação em Filosofia, membro do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e coordenador do Grupo de Pesquisas Spinoza e Nietzsche (SpiN), explica por que acredita que os homens podem ser livres em suas escolhas, desde que estas coincidam com seus afetos.

FILOSOFIA Nietzsche, Espinosa e Psicanálise. Como o senhor chegou a essa união? Como e por que direcionou seus estudos neste sentido?

André Martins Fiz doutorado em Filosofia na França, com o Clément Rosset, que é um grande filósofo e muito irreverente. Cheguei para fazer o doutorado e assistia a todas as aulas dele, que tinham as salas lotadas. Uma das disciplinas foi Teoria Psicanalítica, no curso de Filosofia. Foi aí que comecei a me interessar por Psicanálise, a comprar livros e a ler bastante. Paralelamente a isso, meu interesse sempre foi Nietzsche – também Deleuze e Foucault – e depois Espinosa, que chegou de forma arrasadora na minha vida e me conquistou. São autores que estão pensando o mundo sensível e de alguma forma as reações afetivas. É um tema próximo da Psicanálise. Por me interessar por esses autores, por uma filosofia imanente e não transcendente, por uma filosofia que pensa a vida, acabei me deparando com a questão dos afetos. E, a partir daí, fui também estudar Psicanálise, mas dentro desse percurso individual. Ao chegar ao Brasil, fiz um segundo doutorado em Teoria Psicanalítica e sou membro de sociedades psicanalíticas no Brasil e na França. Aí tudo começou a fazer sentido, a se juntar.

FILOSOFIA Nietzsche e Espinosa foram incompreendidos em vida e tidos como malditos ao longo da história da Filosofia. Além deste perfil em comum, o que mais aproxima esses dois filósofos? 

Martins O que os aproxima é o que está na origem do fato de eles terem sido incompreendidos e malditos. As filosofias de um e de outro têm pontos comuns que sempre foram polêmicos, pouco aceitos. O próprio Nietzsche me ajuda a responder a essa pergunta porque, em um cartão-postal que escreveu a um amigo, falou que se reencontra em Espinosa em cinco pontos capitais e também na tendência geral de sua filosofia. Ambos tomam o conhecimento como o mais potente dos afetos. O conhecimento ser visto como um afeto é algo completamente diferente da tradição filosófica. E é dito como sendo o afeto mais potente. O conhecimento, neste caso, tanto para Nietzsche quanto para Espinosa, é o conhecimento não só da realidade como dos próprios afetos. Se conhecemos a maneira como somos afetados, como funcionamos – nossas reações e motivações afetivas -, esse conhecimento é o que mais tem poder sobre os nossos afetos e, portanto, sobre as nossas ações. A tradição filosófica sempre buscou uma verdade a priori, ou seja, uma verdade em si ou formalmente verdadeira. Tanto Espinosa, no século XVII, quanto Nietzsche, no século XIX, tentam mostrar que uma verdade formal não existe. Segundo eles, nós só existimos no mundo sensível, na realidade, então a verdade consiste em conhecer esse mundo no qual a gente se insere e não conhecer uma verdade que seja formalmente impassível ou imutável. Esse é o grande ponto em comum entre eles, a tendência geral da filosofia dos dois que os distingue de toda a história da Filosofia.

imagem: Marco Sobral

FILOSOFIA E quais são os cinco pontos em comum entre os dois enumerados por Nietzsche? 

Martins São eles: a não existência do livre-arbítrio; a não existência do mal – e subentende-se, portanto, que não existe também o bem; a não existência de causas finais, ou seja, de que algo existe no mundo porque tem uma finalidade – por exemplo: Deus criou a fruta para alimentar o homem, ou uma dificuldade para que o homem aprenda a superá-la; a não existência do desinteresse – não existe desinteresse, existem ações interessadas interesseiras e ações interessadas não interesseiras, mas sempre existe o interesse e, por fim, o quinto ponto é a negação da ordem moral do mundo: Nietzsche e Espinosa negavam a existência de um sentido moral intrínseco às próprias coisas, aos acontecimentos, à existência. Acho que Nietzsche foi muito feliz em perceber que esses cinco pontos, que são os pilares da tradição filosófica de toda a história da Filosofia, em particular da Modernidade e do Humanismo, são falhos, não existem, são ficções. Nietzsche foi muito preciso em ver que Espinosa já denunciava esses pontos na aurora da Modernidade.

FILOSOFIA Falamos sobre os pontos em comum. E fazendo o oposto, qual seria o maior ponto de atrito e de divergência entre eles? 

Martins Diria que a principal diferença é de foco ou de tonalidade. Nietzsche é extremamente passional no jeito de escrever – na vida pessoal nem tanto, era uma pessoa serena, calma, apaziguadora, mas nos textos é muito passional e provocativo: "sou dinamite", "filosofar com o martelo". Espinosa, por oposição, não só no texto quanto na própria filosofia e, ao que parece, razoavelmente na própria vida pessoal, propõe um controle, um domínio sobre as paixões. Vejo que ambos têm filosofias distintas, porém muito próximas em pontos fundamentais. Nietzsche seria uma versão mais passional, mais apaixonada de um fazer filosófico. Espinosa seria uma versão mais sóbria ou racional desse mesmo fundo filosófico.intensificação das paixões alegres e das alegrias ativas. Quando Nietzsche fala do engajamento apaixonado, ele está pensando no que Espinosa chamaria de "paixões alegres". Mas o foco é diferente, Espinosa não está valorizando as paixões alegres, quer dizer, está, mas sem colocar o foco nelas. O objetivo de Espinosa são os afetos ativos, que estão para além das paixões alegres. Digamos, ter as paixões tristes é negativo para os dois, e aí viriam as paixões alegres e os afetos ativos, as alegrias ativas. Nietzsche não dá ênfase aos afetos ativos, embora eles estejam presentes também na filosofia dele. A ênfase que ele dá é – usando os termos de Espinosa – nas paixões alegres.

Nietzsche está sempre fazendo um elogio do engajamento individual da pessoa naquilo que ela faz. Ele preconiza um envolvimento apaixonado na vida, nas coisas que se faz na vida

FILOSOFIA O que seriam essas paixões alegres e tristes de Espinosa?

Martins Em Espinosa, um afeto alegre, que pode ser passivo – uma paixão alegre – ou ativo – que é sempre alegre -, é o afeto que aumenta a nossa potência de agir, de pensar, de estar no mundo, de existir. Esse é o afeto alegre: o que nos impulsiona, o que nos expande. É parecido com Nietzsche, que vai falar de uma "Vontade de Potência", que é uma vontade de expansão. O afeto triste, que é sempre passivo, ou seja, é sempre uma paixão triste, em Espinosa, é o afeto que nos oprime, que nos deprime, que vai contra a nossa potência de agir. Nietzsche vai falar contra o ressentimento, que é um afeto triste. Vai falar contra a submissão, contra seguir a moral do rebanho, contra fazer como todo mundo, que são afetos tristes. Muito embora o uso conceitual seja diferente, eles têm uma afinidade de compreensão do que são afetos. Basta pensar: em Espinosa, o afeto é um conceito central; em Nietzsche, também; e isso é raríssimo na história da Filosofia, que o conceito central de uma filosofia seja o afeto.

imagem: Marco Sobral

FILOSOFIA Afeto é uma palavra de nosso uso corrente, ligada a carinho. O que seria o afeto em Espinosa?

Martins É próximo de sentimento, mas não é exatamente sentimento. Poderíamos dizer que sentimentos são afetos, mas precisamos entender afeto no sentido mais amplo. Somos afetados sempre e inevitavelmente. E esses afetos nos movem, nos motivam, mesmo que não tenhamos consciência disso. Espinosa nos mostra, bem antes da Psicanálise, que são nossos afetos que nos movem, e que a razão não pode modificá-los, a menos que ela se torne uma razão afetiva. Afeto é a reação inevitável a tudo o que nos impressiona, a tudo o que nos marca, a tudo com o qual interagimos. Sofremos afecções e essas afecções, concomitantemente – ao mesmo tempo e não em um segundo momento -, geram afetos. Afetos resultam das interações, não brotam nunca do nada em nós. Em Nietzsche, afeto, no geral, é sinônimo de paixão. Essa paixão pode ser o que Espinosa chama de uma paixão alegre. Nietzsche não faz essa distinção, mas ele está pensando o afeto próximo de paixão e próximo de pulsão - trieb, no original alemão, o mesmo termo que depois Freud vai usar. Nietzsche pensa afeto como um sinônimo de pulsão – o que é muito próximo da ideia de afeto de Espinosa. Enfim, é diferente, mas eles estão em universos conceituais muito próximos.

FILOSOFIA Falando um pouco de liberdade. Para Nietzsche e Espinosa, os homens não seriam livres em suas decisões, mas determinados. Determinados de que forma ou pelo quê? 

Martins Não é bem assim. O homem pode ser livre em suas decisões, o problema é que o julgamento do homem é que não é livre de seus afetos. Para entendermos a posição dos filósofos, que neste ponto é a mesma, precisamos entender qual é a tradição à qual eles estão se opondo. A ideia do livre-arbítrio é de que o pensamento do homem, ou sua razão, existe de modo dissociado do corpo, de suas ações, do contexto cultural, histórico, social e de todas as relações humanas. É como se existisse uma razão pura, sem influências disso tudo – que seria, na tradição filosófica, a alma ou uma faculdade da alma. Ela teria o arbítrio, ou seja, o julgamento; julgaria de uma maneira isenta de tudo o que é da ordem da realidade. Esse livre-arbítrio é que é contestado tanto por Espinosa quanto por Nietzsche. Para eles, o livre-arbítrio não existe, é uma ficção. Por mais que a pessoa tente pensar de modo isento – isento da própria maneira de ver o mundo, da própria história de vida -, não é possível.

Espinosa mostra, antes da Psicanálise, que são nossos afetos que nos movem, e que a razão não pode modificá-los, a menos que se torne uma razão afetiva

FILOSOFIA Então a determinação pelos seus afetos seria por essas influências?

Martins O homem pode fazer escolhas livres. Só que essas escolhas não serão livres dos afetos, elas serão relativamente livres no sentido de que ele pode fazer opções, até mesmo racionalmente, mas se optar por algo que vá contra a natureza dele ou contra seus afetos, não vai adiantar nada, pois os seus afetos é que vão prevalecer. Optar por algo que aja sobre seus afetos, isso é o que ele pode fazer.

imagem: Marco Sobral

FILOSOFIA Mas o homem seria livre para decidir contra os afetos?

Martins Isso é o que a gente faz o tempo todo, não é? Vamos pensar em exemplos concretos: a pessoa quer parar de fumar e não consegue, quer emagrecer e não consegue, quer ser só bonzinho e não consegue. Por quê? Porque ela está na ficção do livre-arbítrio. Em outros termos, Espinosa diz que achamos que a vontade é livre, mas a vontade não é livre. Ela depende do corpo. Vivemos em uma cultura que se autoengana e, neste sentido, a história da Filosofia inteira está errada. Como se fosse possível, eficaz ou vantajoso tomar decisões contrárias ao nosso corpo e aos nossos afetos. Ou, para usar um termo de Espinosa, que é também um termo da Psicanálise, contrário ao nosso desejo. Segundo Espinosa, o desejo é a essência do homem. Então, por exemplo, se quero parar de fumar, o que eu posso fazer racionalmente? Pensar quais são as motivações que me levam a fumar, quais são os afetos que me levam a fumar e aí começar a atacar essas motivações e esses afetos e não simplesmente achar que minha vontade é livre e tentar impor essa vontade contra meu desejo humana. Espinosa e Nietzsche batem nesta tecla o tempo todo: não se pode ir contra a natureza humana. Por mais que se acredite e se iluda de que a vontade é livre, a pessoa não vai conseguir ir contra si mesma. E aí vai gerar o quê? Já misturando com a Psicanálise: vai gerar neurose, depressão, a pessoa vai entrar em crise. Não só em respeito à sexualidade como diversas outras coisas. Se estou sem fazer nada em que me sinta realizado, me expandindo, vou ficar deprimido, abatido. Não adianta uma pessoa que está com uma vida infeliz pensar que precisa ter força de vontade. E aí vêm todos os jargões, tanto da religião quanto da autoajuda, quanto da neurolinguística, de ficar repetindo "eu vou aguentar, eu vou aguentar". Você não está tendo o conhecimento como o mais potente dos afetos. Não está tentando entender o que em você faz que esteja infeliz e o que em você lhe motivaria, lhe deixaria mais realizado.

Tentando resumir: tanto para Espinosa quanto para Nietzsche, o homem pode ser livre em suas escolhas, desde que essa liberdade coincida com o afeto dele ou com o conhecimento dos afetos. Nietzsche não usa esses conceitos, de afetos ativos e passivos, paixões alegres para parar de fumar. É preciso dar uma volta. Espinosa diz que a razão, por mais que conheça uma verdade, não tem nenhum efeito contra um afeto mais forte. É preciso que ela seja afetiva para que possa transformar um afeto. Essa chave muda a história da Filosofia inteira e muda a vida de cada um, no dia a dia, conheça-se Filosofia ou não. Se entendermos que somos seres unos, corpo e alma – Espinosa muda o termo: corpo e mente -, como dois aspectos de uma coisa una que nós somos, então temos de prestar mais atenção em nossos afetos e não ficar dando murro em ponta de faca achando que a vontade pode ser livre ou que o nosso arbítrio pode ser livre. Não vamos conseguir algum efeito positivo impondo contra nós algo que não é possível. Em toda história, o que se fez, por exemplo, em relação à sexualidade? É pecado, tem de coibir, até hoje a igreja católica oprime o desejo sexual. Mas isso é da natureza e tristes, mas diz algo muito próximo. A liberdade em Nietzsche é você coincidir com você mesmo, é desejar o seu destino – fica mais vago, mas vai no mesmo sentido.

FILOSOFIA Tanto para Nietzsche quanto para Espinosa, a emoção domina a razão? Por isso os dois foram tão malvistos em um mundo dominado pela racionalidade?

Martins Não dá para dizer exatamente que eles propõem que a emoção domine a razão. Na vida real, normalmente a emoção domina a razão. Para Espinosa, é claro que isso é ruim – e isso ajuda a entender a diferença entre os dois. Para ele, a razão tem de dominar. Só que a razão de Espinosa não é a razão da tradição filosófica, é outra razão, é uma razão afetiva. Poderíamos dizer que tanto para Nietzsche quanto para Espinosa, os afetos dominam a razão. Para Espinosa, a razão deve dominar os afetos passivos, mas a própria razão é um afeto ativo. A razão é um afeto. E, em Nietzsche, a emoção deve dominar a razão, porque ele é um pensador passional. Mas aí entram todos os detalhes do pensamento de Nietzsche em que esse domínio da emoção sobre a razão também se dá junto a um elogio do conhecimento, a um elogio de certa razão. O termo que ele vai usar é de uma Gaia Ciência, de uma razão alegre.

imagem: Marco Sobral

FILOSOFIA Não é uma defesa incondicional dos instintos, de se fazer tudo o que se deseja? 

Martins Não é. Nem em Espinosa e nem em Nietzsche. Na tradição filosófica, há uma dicotomia: emoção versus razão. E, de modo geral, permanece no senso comum que Nietzsche – e talvez Espinosa – estaria do lado da emoção contra a razão. Isso é falso, porque eles estão criticando justamente essa dicotomia. Eles estão propondo outra ideia de razão – em Espinosa, uma razão afetiva e, em Nietzsche, uma Gaia Ciência – e outra ideia de emoção, no sentido de uma afetividade que abrange tudo, até a razão. Vai ser um tipo de emoção contra outro tipo de emoção. E o que eles têm como inimigo em comum é a razão tradicional, porque essa razão tradicional é que é fictícia, tanto para Espinosa quanto para Nietzsche. Isso muda o cenário. Eles foram tidos como malditos porque foram mal compreendidos, ou seja, porque se atribuiu a eles um lugar dentro de uma dicotomia que eles criticam. É a partir disso que se considera que tanto um quanto outro, cada um em sua época, propuseram filosofias escandalosas, contra a razão, dentro desta ideia de cada um fazer o que quiser, não existir mais moral. Não existe mesmo, mas existe ética, que é muito melhor. Quer dizer, se não mudamos o quadro conceitual, parece que eles estão propondo algo insustentável, e não é nada disso.

FILOSOFIA Além de filósofo, você é psicanalista. A Filosofia influencia, de alguma forma, seus estudos sobre Psicanálise?

Martins Sou primeiro filósofo e depois psicanalista. Quando vou estudar a Psicanálise, eu, filósofo, que gosto de Nietzsche e Espinosa – ou seja, dois filósofos que pensam o afeto, que pensam o mundo e questões tradicionais da Filosofia com a perspectiva dos afetos – não acredito em dogmas. Não vejo o texto de Freud como se fosse a Bíblia, o Antigo Testamento, e o texto de Lacan como se fosse o Novo Testamento, regidos pelo argumento de autoridade. A Filosofia já passou por isso quando, por exemplo, na Idade Média, os textos de Platão eram incontornáveis e não se podia contestar. Mas houve alguém que contestou, em parte: Aristóteles. É como se Freud fosse Platão e Aristóteles, Lacan. Eu diria que a Psicanálise está teoricamente na Idade Média, quando se prende a fundamentalismos e ortodoxias. Então esse tipo de dogmatismo, com um olhar filosófico, não faz sentido para mim. Por isso valorizo Winnicott, que, a meu ver, é o psicanalista mais aberto teórica e clinicamente. O meu olhar para a Psicanálise é um olhar de autocrítica. Não é um olhar de fora: a Filosofia criticando a Psicanálise. Isso porque eu sou psicanalista também. No outro sentido, a Psicanálise me ajuda a não cair na armadilha de uma Filosofia transcendental, apriorística, ou seja, me ajuda a conseguir ver a Filosofia como algo que está pensando o dia a dia, a realidade, a afetividade, o mundo real, concreto, o mundo sensível. Para mim, ou a Filosofia tem um poder de transformar a vida real ou ela não tem utilidade, a não ser como ferramenta para algo que venha ter algum peso de intervenção na vida. A Filosofia como um saber endógeno, que se retroalimenta e ponto-final, como muitas vezes é vista, para mim não tem valor.

imagem: Marco Sobral

FILOSOFIA Você trabalha com a Filosofia e a Psicanálise na área de Saúde Coletiva, visando a construir uma definição positiva de saúde. De que forma isso se daria? Como Filosofia e Psicanálise podem interferir em Saúde Coletiva? 

Martins Oriento dissertações de mestrado e teses de doutorado não só na Filosofia, mas também na Saúde Coletiva da UFRJ. E me dá muito prazer ter orientado trabalhos onde usamos, por exemplo, Espinosa para pensar a questão da obesidade; Deleuze para pensar o alcoolismo entre os trabalhadores da construção civil; Foucault para pensar o psicólogo da Polícia Militar. É um prazer ver o quanto a Filosofia tem a dizer sobre questões práticas do dia a dia da sociedade. E meu trabalho pessoal, na Saúde Coletiva, é a construção de uma definição positiva de saúde. Há uma definição negativa de saúde, que diz: "saúde é a ausência de doença". No meu entender, isso é péssimo. É imaginar – e é, infelizmente, o que vigora – que cuidar da saúde restringe-se a atacar a doença. Uma implicação disso é negligenciar a promoção da saúde e a prevenção que não seja medicamentosa nem cirúrgica. Fortalecer o corpo e o psiquismo de cada um de nós é algo que quase não existe. O médico muitas vezes tem tanto interesse em acabar com a doença que acaba também com o doente. Atacar a doença a qualquer preço pode ser feito em casos extremos, mas tem sido a ordem do dia. Isso gera também, de modo geral, a ideia de que quando se tem uma doença, existe uma peça da máquina do corpo humano que está doente, funcionando mal, então é preciso substituí-la. Não se pensa no corpo humano como um todo. Essa definição negativa de saúde é também um reflexo de uma questão filosófica de se considerar alma e corpo separados, e o corpo como uma máquina.

A Psicanálise me ajuda a não cair na armadilha de uma Filosofia transcendental, a conseguir ver a Filosofia como algo que está pensando o dia a dia

FILOSOFIA Além de ser autor do livro Pulsão de morte? (Ed. UFRJ, 2009) e organizador de O mais potente dos afetos (Martins Fontes, 2009), você está para lançar o livro As ilusões do eu. Já tem data prevista? 

Martins Martins Deve ser em maio deste ano. Foi um livro que organizei, com outros dois professores da USP, e que reúne 26 conferências do Segundo Congresso Internacional Espinosa e Nietzsche, realizado em São Paulo, no final de 2009. O tema é a crise da Modernidade e a crítica à ideia de sujeito – sujeito do livre-arbítrio, que determina suas ações a partir de sua própria razão ou da alma. Na apresentação, colocamos como epígrafe uma frase de Freud: "O eu não é mais senhor em sua própria casa". É uma frase que faz ligação com o título do livro e mostra o quanto Espinosa e Nietzsche estão na base não só da Psicanálise, como desse pensamento da afetividade inconsciente. O que eles estão dizendo, em outras palavras, é que nós somos motivados, inconscientemente, por nossos afetos.

Fonte: http://filosofiacienciaevida.uol.com.br/

Feiura, não

Médico dá instruções sobre embelezamento na década de 1920. Para ele, a fealdade podia ser causada até por vício

Christianne Theodoro de Jesus

                                      Um ser degenerado, de uma raça que precisava ser melhorada. Esta era uma ideia comum sobre o mestiço brasileiro no fim do século XIX e no início do XX. Discussões acaloradas no meio científico nacional se preocuparam com o aspecto físico desse indivíduo. O médico Renato Kehl (1889-1974), autor do livro A cura da fealdade (Editora Monteiro Lobato, 1923) – guardado na Divisão de Obras Gerais da Biblioteca Nacional – era um dos que se dedicaram a esse tema.

Mas a abrangência de seus estudos é tão ampla que é difícil definir o que ele considerava feio: ia desde narizes achatados a doenças como raquitismo e sífilis. Mesmo admitindo que a feiúra podia ter diversas causas – ambientais, climáticas, hereditárias etc. – Kehl assegurava que “são elas, em grande número, devido aos próprios indivíduos, adquiridas por desleixo, ignorância ou por vício”.

A crença na medicina e no poder da eugenia – teoria que propunha o melhoramento das raças – levou o médico a afirmar, num tom quase profético, que a beleza perdida podia ser recuperada por meios cirúrgicos: “o homem, capaz de talhar no mármore a Vênus de Milo, é capaz também de moldar plasticamente toda a humanidade”. Aliás, “moldar plasticamente” acabou se tornando uma profissão muito rentável.

A preocupação com o casamento ocupa boa parte do capítulo “A fealdade se evita”. Uma das propostas de Kehl para a prevenção da fealdade era a criação de um “exame de sanidade pré-nupcial”, obrigatório para todos os candidatos ao matrimônio, que determinaria “a proibição formal [do enlace] àqueles que não estejam em condições de higidez [saúde]”. O médico desaconselhou enfaticamente a viagem de lua de mel “tão em voga entre as famílias abastadas, por serem perniciosas (…). A pobre esposa (…) submete-se, nessa ocasião, a um traumatismo que abalará todo o seu ser, e é este o momento que escolhe para ajuntar às excitações conjugais”. Entre os traumas estavam trepidações de trem e corridas cansativas, que poderiam causar abortos.

Os procedimentos estéticos atuais deixariam Renato Kehl de cabelo em pé: acreditando que o avanço da medicina seria responsável pelo embelezamento dos indivíduos, rechaçava a maioria dos meios artificiais para aumentar a beleza da mulher. Considerava que “não consiste a terapêutica [para eliminar a feiura] em artifícios de toucador, em cremes, pomadas, tinturas”, métodos causadores de mudanças superficiais e criadores de “beldades falsas”.

O projeto de Kehl incluía um amplo programa de reforma do indivíduo, baseado não só na higiene corporal, mas também na educação moral – que fornecesse às pessoas, sobretudo às crianças, noções de “deveres individuais, de família e de pátria” – e nas intervenções cirúrgicas. Para o embelezamento do conjunto “crânio-facial”, nada mais indicado que uma massagem manual para tonificar a pele e exercícios para a musculatura da face; no tratamento dos incômodos cravos, pomada composta de cânfora, ácido fênico, vaselina e mentol. O uso de chapéus apertados devia ser evitado por homens e mulheres, pois contribuía para o enfraquecimento dos cabelos. Kehl também desaprovaria as técnicas utilizadas em larga escala nos salões de cabeleireiro de hoje: não se devia, segundo ele, “mantê-los aprisionados entre grampos e cremes”, muito menos “submetê-los à ação dos frisadores, fortemente aquecidos, que têm a desvantagem de queimá-los”.

Para a robustez do corpo, o médico indicava diversos exercícios físicos com gráficos mostrando a postura correta para evitar deformações na coluna. O asseio também devia ser impecável, tanto para a saúde como para evitar embaraços: quando há “falta de higiene e a troca rara de meias (…) os pés, nessas condições, exalam um cheiro forte e nauseabundo, incomodando não só o paciente como as pessoas com quem convive”.

O estudo do médico se baseava no legado de Francis Galton (1822-1911), o pai da eugenia. Kehl, que criaria em 1931 o Comitê Central do Eugenismo – um dos seus objetivos seria divulgar as teorias eugênicas de regeneração moral e física dos indivíduos –, escreveu mais de 500 páginas sobre a eliminação da feiúra, expondo vários métodos para atenuar ou eliminar os traços indesejados, uma “profilaxia da fealdade”. Ele partia das seguintes premissas: “a fealdade não é atributo natural da espécie humana” e “a beleza humana depende, na maioria das vezes, dos próprios indivíduos, bem como a fealdade”.

Fonte: http://www.revistadehistoria.com.br/

Fukushima: O horror atômico

Manifestação anti-nuclear reúne mais de 15 mil em Tóquio

Carta maior

A manifestação de domingo, que contou com a participação da juventude e de uma grande quantidade de mulheres e também com a presença de crianças, parece ser o despertar lento da consciência anti-nuclear japonesa. Depois do 11 de março ocorreram apenas algumas pequenas manifestações. Um mês após a tragédia, as incertezas continuam. E, apesar de toda a falta de informação confiável na imprensa japonesa, parece que estamos a presenciar a retomada histórica da luta anti-nuclear japonesa.

O apocalipse japonês explicado ao Ocidente

Como o 11 de setembro transformou os Estados Unidos, o 11 de março transformará o Japão. O cataclismo será um eletrochoque e a reconstrução se converterá no objetivo nacional do qual carecem hoje os japoneses? O fato de ter roçado o Apocalipse os levará a reconsiderar um modo de desenvolvimento, onde um único acidente pode transformar uma de suas megalópoles em um deserto envenenado? Estas perguntas dirigem hoje todo o futuro do Japão.

Jogando com o planeta

Especialistas nas indústrias nuclear e financeira nos garantiam que as novas tecnologias praticamente eliminaram os riscos de catástrofes. Eventos mostraram que isso não era verdade: não apenas os riscos existiam como suas consequências eram tão grandes que elas facilmente superaram os supostos benefícios dos sistemas que os líderes dessas indústrias promoviam. Para o planeta há mais um risco, que como os outros dois, é quase uma certeza: aquecimento global. Artigo de Joseph Stiglitz.

Japoneses e alemães pedem fim do uso de energia nulcear

Primeiros protestos em Tóquio e Nagoya pedem o encerramento de todas as centrais nucleares no Japão. Os manifestantes pediram ao governo que mude de política e adote fontes de energia renováveis em vez da energia nuclear. Exigiram também que seja divulgada mais informação sobre o acidente nuclear e que se assumam mais responsabilidades por aquilo que aconteceu desde o sismo e o tsunami que abalaram o país a 11 de Março. Nas quatro maiores cidades da Alemanha, mais de 200 mil pessoas foram às ruas protestar contra o uso da energia nuclear.

O medo nuclear assombra o mundo

Uma segunda Hiroshima poderia acontecer com o acidente nuclear no reator de Fukushima. Onde será a próxima Nagasaki? Nos EUA, com os seus 23 envelhecidos reatores de desenho idêntico aos de Fukushima? Na França, o país mais dependente de energia nuclear do mundo?Provavelmente não na Alemanha ou na Venezuela, que estão cortando os seus programas nucleares; nem no Reino Unido, o líder mundial de conversão de energia eólica captada no mar.

Fukushima provoca revisão nuclear

Um planeta pressionado por necessidades crescentes de energia e pela urgência de cortar as emissões de CO2 começa a se questionar o que deu errado e qual o futuro da energia nuclear após o acidente. Muito antes do evento japonês ter sido elevado para a categoria cinco, de sete possíveis, na Escala Internacional de Eventos Nucleares e Radioativos, a crise já havia cruzado fronteiras. Veja a posição de alguns cientistas, jornalistas, ativistas sobre o assunto.

Uma advertência ao mundo

A era nuclear iniciou não muito longe de Fukushima, quando os EUA se converteram na primeira nação na história da humanidade a lançar bombas atômicas sobre outro país, duas bombas que destruíram Hiroshima e Nagasaki, matando centenas de milhares de civis. O jornalista Wilfred Burchett foi o primeiro a descrever a “praga atômica” como a chamou: “nestes hospitais encontro gente que, quando as bombas caíram não sofreram nenhuma lesão, mas que agora estão morrendo por causa das sequelas”. Mais de 65 anos depois de Burchett escrever sua advertência ao mundo, o que aprendemos? O artigo é de Amy Goodman.

Uma nuvem de desconfiança mundo afora

O estado de alerta do público com segurança nuclear, como a emergência em Fukushima prova, é muito fácil de se elevar. O motivo é uma indústria que desde sua concepção, mais de meio século atrás, teve o segredo como conselheiro e, quando isso acontece, acobertamentos e mentiras geralmente seguem logo atrás. A noção da crise que cerca os reatores nucleares atingidos no Japão é exacerbada pelo fato de que, em uma emergência, a confiança pública nos promotores da energia atômica é virtualmente inexistente. O artigo é de Michael McCarthy.

Organizações exigem fim de usinas nucleares

Diante da gravidade da situação no Japão, 30 organizações sociais de países como México, Argentina, Peru, Guatemala, Chile, Canadá e Espanha, entre outros, se manifestaram nesta semana contra o uso deste tipo energia. Em carta aberta, ativistas pedem que usinas sejam desfeitas e que se busquem ‘verdadeiras soluções para os povos’. “Chernobyl e Fukushima são alertas que devem obrigar aos governos a que deixem de insistir em seguir promovendo estes projetos. A energia nuclear para provisionamento de energia e mais ainda com fins bélicos, deve parar”.

O excesso de confiança no setor nuclear

Um dos responsáveis da Agência Internacional de Energia Atômica teria advertido em 2008 o governo japonês para o risco de fortes sismos poderem pôr em causa a segurança das centrais japonesas. A central de Fukushima foi desenhada para resistir a sismos de escala 7, o sismo da passada sexta atingiu o grau 8,9. Aliás têm-se alimentado muitos fantasmas sobre as virtudes da organização da sociedade japonesa, mas a realidade é que o Japão apresenta um dos piores registos de acidentes graves na indústria nuclear. O artigo é de Rui Curado Silva.

Fukushima nunca mais!

Só uma crença acrítica na capacidade do sistema técnico controlar o mundo pode explicar o fato de um país como o Japão, situado no cinturão de fogo de contato de inúmeras placas tectônicas, tenha nada mais nada menos que 55 reatores nucleares como se isso fosse um detalhe. E olha que a palavra tsunami inventada pelos japoneses antes da era científica e tecnológica, foi simplesmente olvidada talvez porque as águas não pudessem ser tão facilmente controladas pela engenharia. O artigo é de Carlos Walter Porto-Gonçalves.

Tragédias naturais expõem a perda de limites

Nas catástrofes atuais, parece que vivemos um paradoxo: se, por um lado, temos um desenvolvimento vertiginoso dos meios de comunicação, por outro, a qualidade da reflexão sobre tais acontecimentos parece ter empobrecido, se comparamos com o tipo de debate gerado pelo terremoto de Lisboa, no século XVIII, que envolveu alguns dos principais pensadores da época. A humanidade está bordejando todos os limites perigosos do planeta Terra e se aproxima cada vez mais de áreas de riscos, como bordas de vulcões e regiões altamente sísmicas. Artigo de Marco Weissheimer.

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/