O Vale de Yarchen abriga o maior assentamento monástico do mundo. Aqui, na fronteira entre o Tibete e a província chinesa de Sichuan, milhares de religiosas se instalaram em uma península. Elas vivem na pobreza, dominadas pelo temor permanente de serem expulsas. A entrada de estrangeiros é proibida. Uma equipe de reportagem chinesa visitou o local para GEO
Von Liu Zhen (Texto) e Yang Yankang (Fotos)


O mestre exige o mais rigoroso isolamento nas horas de estudos e meditação. Como as monjas não podem se recolher às celas de um mosteiro, elas cavam buracos na terra e erguem por cima cabanas de chapas de metal, lonas e sacos plásticos
QUANDO PENSO NO VALE DE YARCHEN, vejo um céu límpido e profundamente escuro, semeado de bilhões de estrelas reluzentes.
Um céu pelo qual vale a pena viajar 4.000km, subir penosamente 11 contrafortes montanhosos, atravessar meia dúzia de rios e, nesse trajeto, arriscar a própria vida e a saúde.
TAMBÉM VEJO UMA MULTIDÃO PULSANTE de monjas, um mar de pontinhos vermelhos, como flores espalhadas pelo altiplano verdejante.
Mas a viagem começou com uma imagem bem diferente; na realidade, com a foto de uma minúscula cela, ou clausura. Dois sacos de entulho constituíam o caixilho da porta. Uma vara de madeira colocada por cima disso segurava um pano vermelho como cortina. Atrás dela uma mulher havia cavado para si um buraco na montanha e agora vivia ali, lia suas sutras, meditava. Como se tivesse se enterrado viva.

Um grupo de monjas se reúne diante dos portões do templo, para escutar de longe a um concerto. Não há, nem é permitida, muita distração neste eremitério a mais de 4.000m de altitude
Essa foto tinha sido tirada no Vale de Yarchen, perto de um monastério da Ordem Nyingma, a mais antiga das quatro escolas do Budismo tibetano. Com 10.000 monjas e monges, diziam, este local abrigava a maior comunidade monástica do mundo.
Mas procurei em vão por este lugar nos mapas chineses. Ele não consta, provavelmente, porque não deveria sequer existir. Ainda assim, eu sabia que mulheres de todas as províncias da China haviam se mudado para lá, a fim de dedicarem suas vidas ao Budismo tibetano. Alguém havia até me passado o número do celular de uma monja que vivia ali: Luosang.
Que intensidade de fé é necessária para que alguém queira passar toda a sua vida em um buraco na terra? Em meados de agosto parto de Xangai para visitar Luosang.
No aeroporto de Chengdu pego um táxi, mas o motorista se recusa a me levar até a Prefeitura de Ganzi, cidade que oficialmente pertence a Sichuan, mas que é majoritariamente habitada por tibetanos. O trecho que leva a Yarchen passa por aquele território que, em maio de 2008, foi devastado por um violento terremoto. O motorista explica que as avalanches de lama e os deslizamentos de terra ainda assolam a região. Ele não se deixa impressionar nem com a minha oferta de dinheiro; assim, vejo-me na obrigação de comprar a última passagem de ônibus para Ganzi.
Trinta e dois passageiros estão comigo no veículo, todos chineses da etnia han. Quando passamos por Wenchuan, aquela região que se transformou em sinônimo da catástrofe sísmica, prendemos a respiração. A região me dá a impressão de ser um gigantesco túmulo para as mais de 80.000 pessoas que perderam a vida no cataclismo.
ENVIO UM SMS PARA LUOSANG. A resposta vem em questão de minutos: ela também acabava de voltar de uma viagem; o mal das alturas a havia deixado muito doente. O Monastério de Yarchen fica a mais de 4.000m de altitude.
No dia seguinte, reconheço os nomes das localidades que aprendi ainda na minha época de escola: Monte Panpan, Meandro de Jianzi, Rio Dadu, Ponte Luding. Em 1934/35, ataques militares, fome e deslizamentos de terra quase impediram o Exército Vermelho de Mao Tsé-Tung de avançar nessa rota durante a sua Longa Marcha. Posso imaginar muito bem como foi isso: um risco esculpido na encosta montanhosa pretende ser a estrada. Quando um carro vem da direção oposta, somos obrigados a parar e deixar o outro passar, tremendo, à beira do precipício.
As mulheres que decidem permanecer lá em cima no monastério, será que o fazem porque, simplesmente, não se dispõem a enfrentar esta viagem uma segunda vez?
No desfiladeiro mais elevado, quase 5.000m acima do nível do mar, descemos do ônibus. Iaques pastam flores silvestres à beira do caminho. Dos dois lados da estrada há pequenos lagos, fontes termais que brilham como lágrimas.
Atrás do passo, o panorama se alarga. As montanhas ficam menos íngremes, seus cumes mais suaves e arredondados. Suas encostas estão cravejadas de bandeiras de oração. Não sei se o vento realmente leva os mantras dos tibetanos para o céu, como eles acreditam, mas em todo o caso, as bandeirolas oscilam alegremente na brisa.
A dois ou três quilômetros do mosteiro vemos, subitamente, uma mesa à beira da estrada. Atrás dela, um policial. Ele controla os documentos de todos os viajantes, anota nomes e números. Uma velha senhora caminha nervosamente para lá e para cá diante da mesa; nos braços segura um menininho de 3 ou 4 anos.

Após o fim de um encontro, as mulheres retornam à sua península fluvial. Homens não podem cruzar a ponte para a cidade de barracas das monjas
A criança chora. Um tibetano que fala um pouco de chinês me explica que o neto da mulher está doente e que ela quer levá-lo ao hospital. Mas ela esquecera seus documentos ao partir de casa pela manhã. A mulher implora a permissão de trânsito. Sem sucesso.
Espero que Luosang esteja me esperando no ponto de parada do mosteiro. Afinal, todos os visitantes chegam ali. Não tenho a mais vaga ideia de como é a sua aparência, e mesmo que tivesse, as cabeças raspadas se parecem muito, umas com as outras. Ninguém está lá para me receber.
Tento ligar para Luosang, sem sucesso. Portanto, fico aguardando ao lado do imenso monastério, que parece reinar sobre o platô. Abaixo de mim, no vale, o rio faz um meandro. Na península que ele forma, localiza- se o assentamento das monjas. Como uma folha outonal que flutua sobre a água. O caminho principal, no meio, forma a haste da folha; o caule é constituído pela ponte pênsil localizada exatamente abaixo de mim, que cruza o rio e leva ao alojamento das reclusas, no qual homem nenhum pode entrar.
Muitos monastérios tibetanos têm essas acomodações separadas para as mulheres, nas quais geralmente vivem apenas algumas dezenas de monjas. Mas em Yarchen são milhares. Pois o Achuk Rinpoche, o lama superior do mosteiro, pertence àquele pequeno grupo de decanos que permitem às mulheres penetrar os mais profundos segredos da fé budista. Além disso, em seu templo não se leciona somente no idioma tibetano, mas também em chinês. Esta deve ser a razão para que ele atraia tantas monjas de toda a República Popular da China.
UM PEQUENO ÔNIBUS PASSA por mim. Por meio de gestos com as mãos e os pés dou a entender ao motorista tibetano que quero que ele me leve ao alojamento das monjas. Quando desço do veículo, vejo duas chinesas que estão se despedindo uma da outra. Uma delas olha par mim e vê minha bagagem.
"De onde é que você vem?", pergunta ela.
"De Xangai".
"Bem, ainda temos um quartinho vazio disponível, se você não tiver nada contra".
Como eu poderia ter algo contra? Finalmente um lugar no qual posso esticar as pernas e libertar minha mente. Mas nesse exato momento, minhas têmporas começam a latejar loucamente, a altitude. Completamente esgotada, deixo-me cair sobre a cama.
No meio da noite, sou acordada por um coral de vozes: as monjas do lado começaram a recitar seus textos de orações. Tateio no escuro em busca da vela. Em vão. Também não acho os fósforos. Finalmente, o monitor do meu celular me revela: são 4 horas da manhã. Escuto o murmúrio durante algum tempo e pego novamente no sono.

Alto-falantes são instalados em Serthar para a transmissão de uma cerimônia religiosa. A cidade era considerada um dos principais centros do Budismo tibetano, até que as autoridades chinesas deram ordens para desocupar o local, em 2001, e destruíram grande parte do assentamento. Depois disso, milhares de monjas fugiram para o Vale de Yarchen
QUANDO ACORDO, já são quase 9 horas da manhã. Diante da porta, sou recebida pelas nuvens acres de fumaça das fogueiras. Ao redor do pátio há algumas cabanas, todas de tábuas de madeira pregadas e cobertas de plástico para proteger da chuva. As maiores talvez meçam 6m2; as menores, de 1 a 2m2. Devem ser cabanas de meditação, porque ali só seria possível dormir sentado. No meio do pátio encontra-se uma vala aberta, da qual emana um cheiro penetrante e fétido: provavelmente é ali que são despejados os excrementos.
No decorrer do dia, vejo que existem milhares de cabanas desse gênero na península. Plástico colado em plástico. Uma imensa favela. Para dar a volta ao redor dessa área de 10ha, gasto quase uma hora. E para reencontrar minha pequena cabana mais tempo ainda. E após apenas alguns passos, as minhas pernas parecem ser de chumbo; tão pesadas que mal consigo movê-las.
Devagar, digo a mim mesma: "Estamos no altiplano."
Pergunto a uma jovem monja onde fica o banheiro. Mas durante o caminho para lá, estanco subitamente: do outro lado do rio, a uma distância de um ou dois quilômetros, vejo milhares de monges e monjas descendo a colina em minha direção. Eles caminham em silêncio; só o som de suas passadas são audíveis, como um borbulhar de água que se torna cada vez mais barulhento. Aos poucos consigo divisar rostos isolados, faces coradas. Muitas monjas usam um colar de contas de oração ao redor do pescoço e sobre a cabeça um amplo capuz.
Mais tarde fico sabendo que todos eles passaram a manhã meditando em minúsculas celas que escavaram para si na montanha. Era uma dessas clausuras que eu tinha visto na foto em Xangai. Agora, o mar de túnicas vermelhas passa por mim, rumo à ponte, onde o fluxo se divide como um rio. Um braço logo preenche toda a ponte; o outro sobe lentamente a montanha, até a Estupa que brilha na luz dourada do sol. Pois é lá que Achuk Rinpoche, o mestre da meditação, leciona, ou quando ele está viajando, como nesta semana, um de seus representantes o faz.
O banheiro, ou, mais precisamente, a latrina. Ela está construída sobre palafitas diretamente sobre o rio.
Não muito longe do lugar onde as mulheres buscam água para beber e cozinhar. Vou me equilibrando sobre pranchas de madeira que rangem, estalam, e gemem sob meus pés até o tapume, e não acredito no que meus olhos veem. Um longo corredor com centenas de buracos no chão, a céu aberto. Buraco ao lado de buraco. Entre as mulheres agachadas sobre eles não existe nenhum tipo de divisória, nenhuma separação, nenhuma privacidade. Deve ser por isso que cada uma delas esconde sua cabeça embaixo do capuz. Mas eu não tenho capuz. Sendo assim, escolho um dos buracos bem perto da parede.
Eu também não tenho uma bacia para me lavar. Por isso, quando estou novamente na minha pequena cabana, levanto a cortina da habitação de minha vizinha, para perguntar onde eu poderia comprar algumas coisas.
E assim conheço Yanle.
Cabeça recém-raspada, um rosto delicado. Do jeito que ela está sentada lá no chão, ela realmente tem um ar de Buda. Mas como ela está mergulhada em sua prática de meditação, não quero incomodá-la. Dou meia volta para ir embora, quando ela abre os olhos. Tenho a impressão de que suas pestanas fizeram um sonoro cling, provavelmente por que já faz muito tempo que não vejo olhos tão brilhantes. Radiantes e límpidos.
Yanle é chinesa, tem 25 anos, e acabou de se formar no Seminário Budista em Xiamen, no sul da China. Ela passou 6 anos estudando lá. E veio para Yarchen há dois meses. Gostou tanto que decidiu comprar uma cabana para si e viver como monja. Uma cabana, conta ela, custa 10.000 yuan, cerca de R$ 2.300,00 (1.000 euros). Sem canalização de esgoto, sem energia elétrica, sem gás. Sua família não sabe que ela resolveu ser monja.
A AQUISIÇÃO DA CABANA foi um risco para Yanle: policiais já lhe ordenaram três vezes que fosse embora. Todos os monastérios no Tibete recebem do Departamento de Religião um número máximo de "tigelas de arroz", ou seja, lugares. Mas aqui as monjas já ultrapassaram de longe essa cota. Portanto, não é de estranhar que Yanle fique nervosa quando pego minha câmera. Afinal, ela não tem nenhuma garantia de que eu não seja uma espiã da polícia religiosa.
Como estou com fome, Yanle me indica o caminho para a cozinha, um minúsculo recinto com um fogareiro a gás com o bujão à frente. Lá dentro, encontro acocorada Yuan Ding, de 50 anos. Ela também é uma chinesa da etnia han e me conta que antigamente trabalhou na construção de estradas e pontes em Tianjin (Tientsin). Ela só fez os votos de se tornar monja quando se aposentou e partiu para radicar-se em Serthar.
Essa cidade monástica, não muito distante de Yarchen, foi considerada durante muito tempo um dos mais importantes centros do Budismo tibetano, com uma universidade frequentada não apenas por monges, como é costumeiro em Lhasa, a capital do Tibete, mas também por monjas. E, como em Yarchen, ali se lecionava tanto no idioma tibetano como em chinês. Por essa razão, milhares de mulheres de Hong Kong, Taiwan, Cingapura, Malásia e da China continental tinham se mudado para lá.

Proteger outras criaturas vivas é um princípio do Budismo. Esta monja comprou no mercado uma pomba destinada originalmente à panela. Em alguns instantes ela devolverá a liberdade à ave
MAS PARA OS REPRESENTANTES DAS AUTORIDADES CHINESAS, essa enorme afluência rapidamente tornou-se uma temeridade. Serthar foi declarada cidade fechada, vedada à entrada de qualquer estrangeiro. Em junho de 2001, eles enviaram caminhões com comandos de demolição para dar cabo dos alojamentos das monjas. Milhares de mulheres ficaram desabrigadas em poucos dias, e foram essas mulheres desalojadas que, logo em seguida, se instalaram na ilha, aos pés do monastério de Yarchen.
Em Serthar, relata Yuan Ding, muitas mulheres sofriam de tumores, feridas pustulentas, febres altas ou diarreia. Não havia médicos. Algumas estudantes de Medicina tentavam ajudá-las com os meios mais rudimentares possíveis. E Yuan Ding, que adquiriu com elas, naquela época, alguns de seus conhecimentos, hoje sabe fazer um pouco de massagem e conhece diversas plantas que macera para preparar medicamentos. Tudo isso agora beneficia a comunidade feminina local. Pois aqui não existem nem mesmo estudantes de Medicina.
Ela tira a tampa da panela sobre o fogareiro. Lá dentro, jazem alguns bolinhos de massa que me oferece. "Um pouco insossos, mas eles matam a fome", garante. Como a maioria dos budistas chineses, Yuan Ding não come carne de espécie alguma. Em alguns monastérios isso gerou certa tensão, pois até então os tibetanos vinham se alimentando, preferencialmente, de carne de carneiro. Hoje em dia, porém, muitas monjas e monges tibetanos seguem o exemplo dos chineses. Agora, fiquei sabendo, até o Dalai Lama só consome um bom filé durante suas viagens ao exterior.
Enquanto como, meu celular toca. É Luosang. Finalmente! Pouco depois, eu a encontro. Ela é muito mais delicada e miúda do que eu havia imaginado, com um rosto de traços finos e elegantes.
Como presente de boas-vindas, Luosang me oferece uma folha seca. Quando olho interrogativamente para ela, ouço que, no exato momento em que o Buda se tornou iluminado, o céu ficou radiantemente claro, e todas as folhas das árvores à sua volta secaram. Somente as folhas da árvore bhodi (uma espécie de figueira sagrada) permaneceram verdes. E essa folha, que ela agora estava me ofertando, vinha precisamente da árvore do Buda.
Ela a trouxera de uma viagem que fizera à Índia.
Luosang vem de uma família de camponeses da província de Qinghai. Ela conta que na época em que era criança ficava frequentemente doente; tanto que foi obrigada a abandonar a escola. No entanto, ao se recuperar, os habitantes da aldeia queriam nomeá-la professora. Mas Luosang queria ser monja.
Para famílias tibetanas, é uma grande honra entregar um filho à vida monástica. Quando chegou o dia de sua partida, porém, ninguém teve a coragem de lhe cortar os cabelos.
Nem os irmãos. Nem a mãe. No fim, foi o pai quem lhe raspou a cabeça. E durante a tonsura todos choraram.
Luosang sabia que a vida como monja é considerada particularmente promissora para alcançar para si mesma, e para outras criaturas vivas, a libertação do eterno ciclo de sofrimento. A causa desse sofrimento é uma ilusão espiritual que se estende por muitas e muitas reencarnações. Somente quando a pessoa a supera, é que se redime das garras da roda da vida.
Enquanto Luosang faz seu relato, encontramos ao lado da ponte pênsil um grupo de monjas que se acotovelam ao redor de um caminhão: há repolhos à venda, belíssimos exemplares que o motorista vai tirando da caçamba. As monjas balançam as hortaliças nos braços, como bebês; o luminoso verde claro contrasta vivamente com os hábitos vermelhos.
Acompanhada por Luosang visito o pequeno quiosque que vende de tudo o que as monjas possam necessitar para sua vida cotidiana, inclusive as vestes tradicionais. O manto de cima custa 30 yuan, cerca de R$ 7,00; uma túnica sai por 260 yuan o capuz por 4.
São peças preciosas, e a maioria das mulheres só tem o suficiente para comprar o hábito comum.

No alto, sobre o rio, ergue-se um imenso tapume cheio de buracos no chão: a instalação destinada "às necessidades", à qual se chega por um caminho de precárias pranchas de madeira
NOS DIAS SEGUINTES, sou inteirada de que, nos grandes monastérios, os monges são ricamente presenteados pelos fiéis: com alimentos, lenha, e também celulares, relógios e dinheiro. Apenas as monjas saem de mãos vazias, pois é considerado muito mais meritório presentear um monge do que uma monja. As escrituras sagradas dizem que muitos rituais importantes, e bem remunerados, devem ser celebrados por uma sangha, uma comunidade de monges ou monjas ordenados. Mas até agora, as mulheres não são plenamente ordenadas no Budismo tibetano (veja box à página 122). Em razão disso, a fonte de renda mais importante lhes é vedada.
A ajuda chega para elas de um lado absolutamente inesperado. O governo chinês paga a cada uma 400 yuan por mês, cerca de R$ 113,00 (48 euros), se elas estiverem devidamente registradas em um monastério. Mas a maioria das mulheres vive ilegalmente em Yarchen e depende da ajuda de suas famílias. Frequentemente, precisam coletar esterco de iaque durante horas a fio, só para poderem esquentar uma sopa para si.
À noite, asseguro a Luosang que sei encontrar o caminho até minha cabana sozinha. Ela insiste mil vezes para que eu tome muito cuidado com os cachorros. Vira–latas ferozes já teriam atacado e matado duas monjas e uma criança. "Ah, eu não tenho medo de cachorros", digo a ela levianamente. De volta à minha minúscula habitação, acendo velas e já me sinto uma verdadeira habitante monástica. Fico escutando as orações que são cantadas à minha volta, pego meus livros e leio à luz de velas.
Duas horas depois, mergulhado na noite escura, o Mosteiro cai em um silêncio sepulcral.
Pego no sono tranquilamente.
Mas subitamente um latido fanho, rouco e fundo me desperta. Isso não é um cachorro, penso comigo.
Seria um lobo? O animal se joga com toda a força de seu corpo contra a porta da minha cabana. Será que fechei a porta? Só a minha cama me separa do animal, que ataca a porta enlouquecido.
Acendo minha lanterna de camping, na esperança de afugentá-lo com a luz, mas ele não liga.
Logo em seguida aparece um segundo cão no pátio. Ele vem correndo, rosnando e latindo, se prepara para um salto e pousa diretamente sobre o meu telhadinho frágil.
E lá fica, sem se mover. Um no telhado, o outro na porta, ambos ladrando loucamente. Passa-se uma meia hora mais ou menos até que os dois finalmente desistem e saem correndo. No dia seguinte, sinto-me abatida e cansada.
Luosang me conta ter pertencido à escola Gelug, do Dalai Lama. Mas agora ela não segue mais escola alguma. "Se não importa a que Ordem você pertence, então por que veio para cá?", pergunto. E, silenciosamente, penso: afinal, existem lugares mais agradáveis. Com água quente. Sem cachorros.
Luosang explica que está aqui por causa de Achuk Rinpoche, pois tinha ouvido falar de seus ensinamentos sobre a "Grande Perfeição", Dzogchen. Essa doutrina a fascina, porque, ao contrário das outras escolas, não existe um caminho de degraus que precisa ser obrigatoriamente percorrido. Trata-se antes de "desvendar o enigma da essência da natureza, do espírito"; de reconhecer por meio da meditação o que é a verdadeira natureza do espírito, e o que é a sua natureza imperfeita. Por isso, Achuk Rinpoche exige o mais rigoroso isolamento de seus alunos, tanto nos estudos como nas meditações. O objetivo é que recebam a luz, que pode atingi-los com a rapidez e a força de um raio, independentemente de serem monges ou monjas, ordenados ou não.´
O que Luosang não menciona, mas eu ouço de diversas fontes na península, é que circulam boatos, as mais fantásticas histórias sobre como Achuk teria realizado milagres, como teria devolvido a visão a cegos; a audição , a surdos; a fala, a mudos. E como teria curado loucos.

Giro das compras com soro intravenoso na mão. Em Yarchen não existe um hospital. O atendimento médico aqui é tão primitivo como o alojamento das monjas
NA MANHÃ SEGUINTE, Yanle parece particularmente bem disposta. Ela traz na mão uma flor de plástico, e anuncia: hoje se encarregará do atendimento de seu mestre. Pois mesmo que o enigma do espírito se revele de maneira diferente em cada ser humano, só se pode desvendá-lo com a ajuda de um mestre que tenha alcançado a perfeição, a natureza de Buda. Yanle está radiante, como se alguém tivesse ligado um interruptor de alegria, como uma lâmpada.
"Aquelas pessoas ainda a perseguem?", pergunto. Ela sabe que estou me referindo aos espiões da polícia religiosa. "Não importa", respode ela. "Hoje visitarei meu mestre. Essa flor não é linda? É a mais bela que pude encontrar".
"Não tão bonita como o seu radiante estado de espírito", digo.
Após uma semana tenho de partir. Yuan Ding me acompanha ofegante morro acima até a estrada, para me dar a sua bênção. E todas as outras monjas também vêm. Eu me apeguei a elas. Luosang irá comigo até o vale. No banco traseiro do táxi nos viramos para trás, para dar uma última olhada nas vestes vermelhas que se tornam cada vez menores. Para olhar para as mulheres que se enterram em um buraco na terra na esperança de encontrar uma verdade reluzente. No íntimo, a verdade delas mesmas.

A redatora LIU ZHEN, 30 anos, aqui com LUOSANG (à esquerda) e mais uma monja, precisou de 5 dias para fazer a viagem de Xangai até o Vale de Yarchen, uma árdua jornada de ônibus através de perigosas estradas montanhosas. Em 2009, o fotógrafo YANG YANKANG, 56 anos, recebeu pela segunda vez o prestigioso Prêmio Henri-Nannen de Fotografia.

Entrevista "Muitos monges apostam em inação"
A doutoranda Carola Roloff foi uma das primeiras mulheres da Europa a ter sido ordenada monja budista, tornando-se, essencialmente, igual a um monge. Ela leciona no Departamento de Cultura e História da Índia e do Tibete, na Universidade de Hamburgo, na Alemanha, e se dedica à pesquisa sobre a ordenação de monjas budistas.
Senhora Roloff, o Budismo tibetano é uma religião sexista?
Em princípio, não. Embora contenha alguns elementos discriminativos. Quando observamos a Filosofia, esta religião não é discriminatória em relação aos dois sexos. Mas na prática, o Budismo tibetano revela um outro lado, particularmente em relação às monjas.
Por que o estudo da religião é tão dificultado para as monjas? Por que elas são excluídas dos cargos mais altos?
Eu não parto do princípio de que uma única pessoa em particular lhes dificulte os estudos propositalmente. Mas a noção de que mulheres em posição de liderança estão no lugar errado se enraizou no decorrer de séculos nas instituições, embora houvesse algumas exceções. Além disso, existe uma forte necessidade de se manter a tradição, porque a cultura tibetana está muito ameaçada em razão da ocupação chinesa.
Até agora, as monjas não recebem ordenação plena no Tibete, mas em outros países isso acontece, não é?
Em 1985, eu viajei para Taiwan e fiz a minha promessa lá, com a autorização do Dalai Lama. Em Taiwan, na Coreia do Sul e no Vietnã existem tradições desse gênero; ali é normal que as mulheres ascendam na hierarquia budista. E a nós, ocidentais, os monges tibetanos certamente permitem esse tipo de desvio, mas não às tibetanas.
Mas como uma bhikshuni, uma monja plenamente ordenada, a senhora mesma poderia começar a ordenar mulheres tibetanas…
Uma ordenação desse tipo sempre tem de ser confirmada simultaneamente por uma ordem monástica. E é questionável se mulheres tibetanas gostariam de ser ordenadas por uma monja ocidental. A maioria dos monges deseja ser ordenada pelo lama superior de suas respectivas escolas: os seguidores da doutrina Gelug pelo Dalai Lama; os adeptos da escola Kagyü, pelo Karmapa. Acredito que as mulheres pensem da mesma forma.
Alguma monja já se dirigiu diretamente ao Dalai Lama e lhe disse: "Quero ser ordenada por você?"
Sim, eu fiz isso em 1981.
E?
Ele declinou com o argumento de que não poderia justificar sozinho uma tradição como essa, de ordenar monjas. Para isso, de acordo com a observância das regras da Ordem, ele precisa da concordância da comunidade monástica de sua Ordem. De fato, dez monges já bastariam para constituir uma comunidade dessas, mas o Dalai Lama busca o consenso. Por isso, ele pediu às monjas ocidentais que iniciassem uma campanha de esclarecimento entre os monges.
A senhora acredita que campanhas desse tipo poderiam melhorar o destino das monjas no Vale de Yarchen?
Creio que sim. Monjas ordenadas podem fundar suas próprias ordens monásticas, dirigir rituais importantes, e desse modo receber mais apoio material dos fiéis. Mas no Vale de Yarchen há uma outra questão muito mais importante: será que monges e monjas poderão exercer sua religião sob a ocupação chinesa? Até o momento, as condições de estudos só melhoraram nitidamente entre os tibetanos no exílio. Desde o início dos anos 80, existem programas de formação para monjas na Índia, nos quais elas podem estudar em nível de promoção.
Mas nem lá elas recebem os títulos correspondentes, não é?
Não, porque elas não podem estudar o código de Direito da Ordem até o fim enquanto não forem ordenadas plenamente. Alguns lamas se recusam a lhes conceder esses títulos, embora o Dalai Lama se engaje em prol da formação plena das mulheres, com seus títulos correspondentes. Depois disso, elas poderiam assumir todas as posições de liderança. Isso seria mais ou menos como se na Igreja Católica mulheres fossem ordenadas e pudessem dar os sacramentos. Entrevista conduzida pelo redator de GEO – Florian Hanig.











