Monthly Archives: dezembro 2010

A invenção da duração

Vivemos o tempo de um jeito, mas o pensamos de outro: aí está talvez a grande descoberta da filosofia de Bergson

Eduardo Socha

Você está parado no trânsito às 6 da tarde. Ouve a rouquidão opaca dos motores dos ônibus, o zumbido das motos, a impaciência ocasional das buzinas. O tempo parece amordaçado como se não quisesse fluir também. Então você resolve tirar do bolso seu tocador de mp3, ajeitar bem os fones de ouvido e escolher uma faixa do álbum predileto. Sua experiência do tempo vai assumindo outra feição, e os instantes passam a se amalgamar uns aos outros com uma qualidade bastante distinta do tempo anterior. A quantidade de tempo não muda: um segundo continua um segundo, tautologia assegurada pela isocronia do ponteiro (ou display) do relógio. Mas você sente agora que os instantes se dilatam e se contraem segundo uma contingência peculiar, promovida pelo encadeamento sonoro da música. Antes amordaçado, o tempo agora corre mais rápido ou anda mais devagar, dando-lhe a certeza de que sua percepção da passagem do tempo, enquanto ouve música, não coincide com aquela enquanto ouvia apenas ruídos do trânsito. Ao contrário do que sugere a cadência fixa do relógio, você realmente não sente os instantes de maneira quantitativa e exata. Ou seja, a passagem do tempo não é vivida pela sua consciência à semelhança de um relógio, no qual uma série quantitativa, marcada pela divisão em segundos, minutos e horas estabelece previamente a equivalência de todos os instantes. Na realidade, você vive uma sucessão ininterrupta de momentos qualitativos que não são divisíveis entre si, que se misturam uns aos outros e se organizam em sua memória com um aspecto único e intraduzível.

Dito de outro modo, vivemos o tempo de um jeito, mas geralmente o pensamos de outro: esse enunciado, banal apenas na aparência, deu esteio a paradoxos reincidentes na história da filosofia. De fato, estamos condicionados a pensar o tempo como uma dimensão quantitativa, cujos elementos internos são homogênos e definidos de antemão, o que nos permite balizar o tempo por meio de segundos, minutos, horas, dias, meses, anos e outras unidades de medida, conforme a conveniência da nossa necessidade particular. Assim, por força do hábito e, mais do que isso, por imposições práticas e fundamentais de sobrevivência, identificamos o tempo com uma linha sequencial de eventos. Consequentemente, construímos instrumentos e técnicas a fim de mensurá-lo, orientando nossas atividades partindo de segmentações apropriadas, seja no uso do relógio de césio, da clepsidra, do calendário, do azimute do sol ou do ciclo das marés.

Contudo, no interior de nossa experiência vivida, sentimos o fluxo do tempo como uma multiplicidade indivisível e heterogênea, que a cada instante se altera, se dilata, se contrai, reconfigurando instantes já passados, criando expectativas para instantes futuros. Por maior que seja nossa capacidade de antecipação, vivemos sob a torrente criadora da imprevisibilidade e da mudança, o que não nos impede de agir e pensar com regimes específicos de previsibilidade. Tal constatação, que sentimos na experiência mais trivial do nosso dia a dia, poderia ser finalmente resumida assim: os instantes, em instrumentos como o relógio, são sempre iguais entre si; quando vividos, são sempre diferentes.

Fácil na aparência

Reconhecemos desde já, portanto, duas modalidades para definir a noção de tempo. Por um lado, há o tempo considerado em uma dimensão quantitativa, tempo que pode ser medido, representado conceitualmente, submetido a cálculos e previsões: o tempo objetivo que, afinal, não depende de nossa consciência nem de nossa situação particular. Por outro, há o tempo considerado como fluxo qualitativo, íntimo, ligado aos estados internos da nossa consciência e, por isso, refratário ao cálculo e ao conceito: o tempo subjetivo que corresponde à efetiva passagem dos instantes nas nossas diferentes situações de vida. Não se trata de dualismo, mas de duas faces distintas para compreendermos com maior precisão aquilo que designamos singularmente pela palavra “tempo”.

Não seria exagerado dizer que toda a obra filosófica de Henri Bergson (1859-1941) apoia-se na “descoberta” dessa realidade. Por mais singela que ela aparente ser, a distinção entre duas modalidades de compreensão do tempo convida a uma reforma complexa e radical do pensamento. Daí a grande armadilha na filosofia de Bergson, com a qual eventualmente se deparam tanto o leitor iniciante quanto o especialista. Sua linguagem às vezes mostra-se fácil e acessível na superfície das frases, nas metáforas balanceadas pela argumentação formal e impecável, na textura cristalina da prosa em um registro meditativo. Nesse sentido, não é casual que tenha recebido o Nobel de Literatura, em 1927, sem nunca ter escrito uma obra de ficção. No alcance de seu conteúdo e na profundidade da reforma que ambiciona, porém, a complexidade do projeto rigoroso de Bergson o coloca entre os precursores do pensamento contemporâneo, assegurando-lhe lugar no panteão dos pensadores mais ambiciosos da história da filosofia.

Sem dúvida, uma ousadia quase messiânica permeia a originalidade do gesto teórico de Bergson. Pois, tomando a confrontação do tempo como ponto de partida para o ato de filosofar, o pensamento bergsoniano ambiciona não apenas a revisão de uma filosofia específica (o que perpetuaria o anátema de Kant segundo o qual a metafísica se reduz a um eterno “palco de disputas” entre doutrinas), mas ambiciona a revisão da filosofia em geral. Ora, para Bergson, “filosofar consiste em inverter a marcha habitual do trabalho do pensamento”. Mas, para que tal inversão ocorra, torna-se necessário reenquadrar metodicamente alguns dos problemas clássicos da metafísica – como os problemas da liberdade, do ser, da necessidade e contingência, da relação entre corpo e alma – segundo os parâmetros oriundos da “descoberta da duração”.

Ilusões da percepção

Usamos a palavra “duração”, provavelmente o termo mais importante do pensamento de Bergson, e menos saturado de sentido do que a palavra “tempo”. Seu significado não poderia ser mais direto: a duração refere-se ao tempo qualitativo que descrevemos acima, àquela natureza contínua do tempo. Nas palavras do filósofo, trata-se daquilo “que sempre se chamou de tempo, mas o tempo percebido como indivisível”.

Bergson aponta para a confusão histórica que se estabelece entre a duração (tempo qualitativo), que não pode ser traduzida por símbolos, representações ou conceitos, e a medida da duração (tempo quantitativo, espacializado). No torvelinho dessa confusão, observa que a metafísica ocidental colocou para si uma série de dificuldades intransponíveis, que invadem o raciocínio de maneira não enunciada e sub-reptícia. Já na Antiguidade, os eleatas proscreviam ao tempo, à mudança, ao movimento, à mobilidade o direito de cidadania ontológica. Seriam, afinal, ilusões da nossa percepção e degradação de essências, pois “o verdadeiro é o que não muda”. Mas, para Bergson, os famosos “paradoxos de Zenão” já apontavam para a equivocidade caracterizada pela ausência de distinção entre tempo quantitativo e tempo qualitativo, ou seja, pela identificação exclusiva do tempo com uma projeção espacializada de instantes – equivocidade que se perpetuaria, por exemplo, na cisão platônica entre mundo inteligível e mundo sensível, no cogito cartesiano, ou nas antinomias descritas na Crítica da Razão Pura, de Kant.

Para além de paradoxos e antinomias, o que Bergson procura detectar historicamente na filosofia e também na ciência de seu tempo é tanto o privilégio ontológico concedido às formas estáveis, à imobilidade, às representações conceituais, quanto a desconfiança em relação aos sentidos, à mobilidade, à fluidez instável do devir, às sensações que se transfiguram na consciência, como fontes autênticas do conhecimento. O tom grandiloquente da declaração mostra o tamanho do combate a ser empreendido: “Nenhuma questão foi mais desprezada pelos filósofos quanto a do tempo e, no entanto, todos concordam em declará-la fundamental (…). A chave dos maiores problemas filosóficos está aí”, escreve em Duração e Simultaneidade, livro que se propõe a debater, em solo científico, nada menos do que o conceito implícito de tempo, assimilado como quarta dimensão do espaço, na Teoria da Relatividade, de Einstein. Para o filósofo, o exame da Teoria da Relatividade justifica-se na medida em que toda formalização científica carrega consigo os pressupostos de uma metafísica particular que resiste em se apresentar como tal.

Pensar em duração

Mas, em se tratando exclusivamente de filosofia, “inverter a marcha habitual” do pensamento significa mostrar, antes de mais nada, que boa parte de suas questões clássicas seria dissolvida como “falsos problemas” mediante o reconhecimento da natureza qualitativa do tempo. Para tanto, o método bergsoniano exige um pensar em duração – a intuição, que pouco ou nada tem a ver com a acepção que comumente damos à palavra.  O método comportaria duas etapas indissociáveis: a “etapa crítica” e a “etapa propositiva” (como esclarece o livro monumental de Bento Prado JúniorPresença e Campo Transcendental – Consciência e Negatividade na Filosofia de Bergson).

Na etapa crítica, cuja forma mais acabada seria o “lance de olhos na história dos sistemas” que Bergson realiza no último capítulo de Evolução Criadora (sua obra mais conhecida), descreve-se a progressiva racionalização do tempo e o ocultamento de seu aspecto qualitativo no campo do conhecimento. Bergson considera que o próprio embate epistemológico entre idealismo e realismo está contaminado pelos vícios de um jogo de ideias abstratas que não aderem efetivamente à realidade, que ignoram a presença substancial da duração.

Evidentemente, o jogo não é gratuito, pois há uma propensão natural do pensamento à dimensão prática da existência humana, e sua “marcha habitual” equivale a recortar da realidade a face útil, abstrata, calculável, que favorece a ação. “Pensar”, diz Bergson, “consiste em ir dos conceitos às coisas, e não das coisas aos conceitos”, o que leva a ciência e o senso comum a considerar o tempo e o espaço como coisas do mesmo gênero. Por isso, aliás, dizemos que podemos “medir”, “localizar” e “situar” um momento qualquer na “linha” do tempo – às vezes, não nos damos conta de que esses termos se aplicam não à duração em si, mas a uma projeção espacializada da duração na qual seria possível até “voltar” no tempo.

Ocorre que a inclinação pragmática do pensamento, que sobrepõe um feixe de conceitos e ideias à realidade, contamina a especulação metafísica, forçada a se acomodar aos hábitos de uma linguagem que estabiliza e cristaliza o devir em palavras e conceitos. Na etapa crítica, é preciso, portanto, denunciar a intrusão de uma concepção espacializada de tempo lá onde menos se espera. Assim, cada livro e cada ensaio de Bergson empenham-se na “depuração” crítica das concepções espacializadas da duração que permeiam o campo do conhecimento filosófico.

A partir daí, o filósofo reposiciona nossa maneira de entender a liberdade, a memória, a percepção, a existência, a linguagem, a evolução vital. Na etapa propositiva do método, paralela à crítica, trata de afirmar que tempo é processo, é justamente aquilo que impede que tudo seja dado de uma só vez.Pensar em duração é pensar a própria transição vivida entre os instantes, é ver na elaboração do tempo a indeterminação das coisas. Ao conceder maior estatuto ontológico àquilo que muda e se diferencia, ou seja, dando mais “Ser” ao “Tempo” do que às “Formas”, Bergson encontra na duração não mais o receptáculo formal e vazio a ser “preenchido” pelo conteúdo da experiência (como acontece no relógio), mas redescobre a duração como a experiência imediata à consciência, forma e conteúdo inseparáveis, trazendo implicações para um conhecimento que não mais reconstrói a realidade com base em conceitos e formas, mas que adere às “sinuosidades” e às diferenças qualitativas da realidade.

A tarefa parece difícil. “Sim, o tempo é um enigma singular, difícil de resolver”, sentenciava Thomas Mann em A Montanha Mágica. No entanto, tal enigma se dissipa quando resolvemos inverter a marcha habitual do pensamento. Quando reencontramos, afinal, nem que seja por um tempo, a interioridade vivida dos ruídos e silêncios do próprio tempo.

Fonte: Revista Cult – http://revistacult.uol.com.br

O que não é óbvio e nem ululante

Professor questiona pensamento positivista ainda vigente nas escolas e propõe nova forma de ensinar biologia, química e física.

Thiago Camelo

O que não é óbvio e nem ululante

Um retrato de Kant: o filósofo prussiano tentou transportar as teorias físicas de Newton para o mundo das ideias. Forças naturais pairariam sobre a ética dos homens (foto: Wikimedia Commons).

O ocidente teve lá seus momentos-chave. A construção do pensamento do lado de cá foi abalada, por exemplo, no século 16, quando a unidade política, religiosa e espiritual, a relação da Igreja com o Estado e as demais condições estabelecidas previamente foram questionadas. Isaac Newton e René Descartes lançaram-se em busca de novos modelos investigativos, mais deterministas, que rumaram a passos largos para ideias positivistas de mundo.

A ideia de clareza, tanto científica quanto ética, foi desconstruída pelas proposições humanas e científicas do início do século 20

Não era apenas nas ciências duras que se vislumbrava um novo mundo. O filósofo Emanuel Kant propunha um diferente olhar sobre a ética dos homens, estabelecendo visões que, grosso modo, corroboravam um comportamento individual que deveria ser condizente com leis pré-estabelecidas pela sociedade. Ou seja: propunha um mundo regido por regras claras.

Essa ideia de clareza, tanto científica quanto ética,  foi, em larga escala, desconstruída pelas proposições humanas e científicas do final do século 19 e início do século 20. Einstein talvez seja o bastião dessa desconstrução, dessa literal relativização das coisas.

Pois bem. E a educação, e o Alô, Professor com isso?

O doutor em educação pela PUC-RJ e docente da faculdade de educação da UFRJ Renato José de Oliveira ajuda a responder a pergunta, em artigo publicado na edição de novembro da revista Química Nova na Escola [PDF].

"Acho que a ciência mudou, não se pensa mais como no século 19, quando se viam uma natureza e um universo estáticos. Só que essa mudança ocorreu nos centros de pesquisa, na elaboração do conhecimento científico, não ocorreu nas salas de aula", explica Oliveira, que deu aula por mais de uma década no ensino médio de colégios da rede pública fluminense.

O professor, atualmente com 52 anos, responsabiliza – tanto no artigo quanto na conversa por telefone com a CH – os livros didáticos pelo olhar restrito. Segundo ele, esses livros estão "impregnados de cânones positivistas".

A ética nas escolas

Para Oliveira, a solução passaria por uma nova postura do professor diante do aluno. Na verdade, uma nova postura que superasse o positivismo e a ética kantiana. Ou seja, uma nova proposição de mundo e de ensino, que se chocaria com o que o químico chama de "farsa didática". Em vez da certeza de uma postura secular sobre as coisas do mundo (típica do positivismo e das ideias de Kant), o convívio saudável de certezas e incertezas.

No artigo, Oliveira afirma que alguns debates precisam ser levados à baia:

[...] Temas como o aborto, a eutanásia e os direitos sexuais podem ser trabalhados pelos professores de biologia quando abordarem, por exemplo, conteúdos como a origem da vida e a reprodução. Interfaces com a ética podem ser estabelecidas mediante a problematização desses temas: em que situações o aborto e a eutanásia merecem ser considerados crimes? A orientação sexual adotada por um individuo é motivo para considerá-lo melhor ou pior do que outro?

Uma das propostas do químico é dar margem sempre ao diálogo – atitude que gera, inevitavelmente, uma fundamental dialética. Cita Paulo Freire como teórico e educador que bebe dessa fonte, daqueles que percebem que o que é óbvio e ululante é, apenas, um lado de uma coleção de saudáveis dúvidas.

Fonte: Instituto Ciência Hoje – http://cienciahoje.uol.com.br

Pioneira centenária

Com vida média de 400 anos, araucária se recupera rapidamente em áreas desmatadas

Ricardo Zorzetto

Lugar ao sol: pinheiro nativo do Brasil exige muita luz para crescer

As florestas com árvores em forma de candelabro que Auguste de Saint-Hilaire conheceu no sul do Brasil há 200 anos quase não existem mais. Um século depois das andanças do naturalista francês pela região das antigas províncias de Curitiba, Santa Catarina e Rio Grande do Sul o corte de araucária para a produção de madeira e a extração de suas sementes para o consumo humano puseram em risco de extinção um dos poucos pinheiros nativos do país – e, com ele, plantas e animais que vivem a sua sombra nas florestas de araucária, um dos ecossistemas que integram a mata atlântica. Acredita-se que 20 milhões de hectares de florestas de araucária cobrissem planaltos e serras no Sul e no Sudeste do Brasil até o início do século passado. Hoje, segundo o mais amplo levantamento dos remanescentes de mata atlântica, publicado em 2009 na Biological Conservation, só 12,6% dos bosques de araucária resistem em trechos isolados de floresta que ocupam encostas e topos de morro, onde é difícil plantar grãos ou criar gado. E o que mais preocupa quem se importa com o futuro das araucárias é que não é fácil recuperar essas florestas para manter sua função ecológica ou aproveitar seu potencial econômico.

O ecólogo carioca Alexandre Fadigas de Souza, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), em São Leopoldo, Rio Grande do Sul, dedica-se há cinco anos a estudar o ciclo de desenvolvimento e as estratégias de regeneração da araucária. Nesse tempo relativamente curto, ele constatou que essa árvore majestosa, que se ergue sobre um tronco de até dois metros de diâmetro e madeira de boa qualidade para exibir seus galhos curva­dos para o céu a até 40 ou 50 metros do chão, acima das demais árvores da floresta, desempenha um papel mais importante do que se imaginava para a preservação das matas nativas.

Souza visitou regularmente no Rio Grande do Sul 26 trechos de matas nativas preservadas e florestas naturais afetadas por graus diferentes de exploração para a retirada de madeira. Ele coletou informações sobre o número e o porte das araucárias (brotos, árvores jovens ou adultas) e as características do local em que se encontravam na floresta e reuniu seus dados aos colecionados pela equipe do engenheiro florestal Solon Jonas Longhi, da Universidade Federal de Santa Maria, que na última década acompanhou os índices de crescimento e de mortalidade das araucárias na Floresta Nacional de São Francisco de Paula. Comparando as informações das araucárias com as de outras árvores, Souza concluiu que o pinheiro brasileiro é de fato uma espécie peculiar.

Vida longa – A araucária é o que os ecólogos chamam de espécie pioneira. É uma árvore de crescimento rápido e está entre as primeiras plantas a colonizar espaços abertos como clareiras ou campos abandonados, onde a luz é abundante. Mas não é uma pioneira qualquer. Ela alcança a maturidade mais tarde e começa a produzir sementes a partir dos 15 anos. Além disso, a maioria das espécies pioneiras morre poucas décadas após a maturidade, enquanto a araucária vive em média 400 anos – e pode chegar aos 700. Nesse tempo todo ela cria ao seu redor um ambiente favorável ao surgimento de espécies mais frágeis e de crescimento lento, que formam a segunda geração de árvores da floresta. Em artigo publicado em 2007 na Austral Ecology, Souza descreve a araucária como uma das raras árvores pioneiras de longa duração encontradas em florestas do Brasil.

Mas, nas caminhadas pelas matas, Souza descobriu que, uma vez formada a floresta, a araucária tem dificuldade de produzir novos indivíduos adultos. Ele encontrou exemplares jovens de araucária apenas em campos abertos e em áreas de floresta onde a copa das árvores não bloqueava completamente a visão do céu e deixava passar boa quantidade de luz, afirmou em artigo de 2008 na Acta Oecologica. Há duas explicações. A primeira é que os exemplares jovens de araucária sobrevivem pouco tempo à sombra. A segunda é que as sementes que a árvore produz de abril a setembro na forma de pinhas com até 30 centímetros de diâmetro são consumidas pela gralha-azul, pelo papagaio-charão e por cutias, cervos e porcos-do-mato. “Só 1% das sementes que caem no solo germina”, conta Souza, que este ano recebeu o prêmio Fundação Bunge na categoria ciências florestais.

E o que os animais não comem entra na dieta da população. Rica em carboidratos e proteínas, essas sementes, conhecidas como pinhão, estão em quase todos os pratos da culinária sulina. Em 2008 foram extraídas das florestas nativas 4,8 mil toneladas de pinhão, o que gerou uma renda de R$ 6,2 milhões, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Analisando as vendas de pinhão registradas de 1977 a 2007 no Rio Grande do Sul e nos últimos 14 anos em uma fazenda de Santa Catarina, Souza observou que a produção de sementes do pinheiro brasileiro não oscila como a de coníferas – árvores que produzem sementes nuas agrupadas em cones – do hemisfério Norte. Lá um pinheiro pode não gerar sementes no ano seguinte a uma safra portentosa, enquanto aqui a produção é mais constante. “Ela aumenta um pouco no ano seguinte ao do fenômeno El Niño, que faz chover mais no sul do país, e diminui após a seca provocada pelo La Niña”, explica.

O comércio de pinhão pode ser mais rentável que a exploração de madeira de araucária ou pínus, afirmam Miguel Guerra e colaboradores em trabalho sobre a exploração e o manejo da araucária apresentado em 2003 no livro Sustentável mata atlântica. Mas, para que a exploração econômica se torne sustentável, será preciso replantar florestas. Souza constatou que, mais de 60 anos após o fim da exploração das matas, as populações de araucária ainda não se recuperaram.

Fonte: Revista da FAPESP – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

A bolha da segurança

A desarticulação entre insegurança e questões sociais e econômicas é uma tendência atual que acaba por tratar o problema da delinquência como responsabilidade apenas do infrator. Mas isolar dessa forma o indivíduo impede compreender os sistemas de relações dentro dos quais os seus atos fazem sentido

Laurent Bonelli

“Déjà vu”. Essa foi a triste sensação transmitida pela sucessão de eventos, iniciada em julho passado, em Grenoble e em Saint-Aignan (Loir-et-Cher). Jovens morreram ao tentar escapar das forças da ordem, o que acabou desencadeando atos de violência coletiva nas regiões onde eles viviam. O governo anunciou sua firmeza na luta contra a delinquência, além de um novo plano de ação. Pesquisas confirmaram que essa política tinha a aprovação da maioria da população. Certos eleitos da oposição, além de intelectuais e associações de defesa das liberdades, protestaram contra o caráter desmedido das medidas planejadas. Nos últimos 30 anos, os lugares e os protagonistas podem ter variado, mas a trama permaneceu espantosamente similar. Será o caso de se concluir que nada foi feito?

O ministro do Interior, Brice Hortefeux explica: “O combate pela segurança atropela todas as clivagens tradicionais. Há os que conhecem as realidades e agem; e aqueles que as negam para não mudar nada. Nós temos a coragem das palavras, a obstinação na ação e a obrigação de obter resultados” (Le Monde, 22-23 de agosto de 2010).

Por motivos de espaço no provedor, leia esta matéria na íntegra no site CONTROVÉRSIA. Clique no link abaixo. Obrigado.

http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=7608

Retaliação dos EUA ao WikiLeaks ameaça liberdade de expressão na internet

Eric Pfanner

Em maio de 2009, o Daily Telegraph desencadeou uma tempestade política na Inglaterra quando denunciou o abuso de despesas generalizado por parte dos membros do Parlamento. Entre as denúncias estavam: US$ 2.547 por uma casa flutuante para os patos no jardim de um legislador.

Julian Assange, fundador do WikiLeaks, é libertado após pagar fiança de 200 mil libras em Londres

Julian Assange, fundador do WikiLeaks, é libertado após pagar fiança de 200 mil libras em Londres

Os relatos foram baseados numa informação que vazou na forma de um disco de computador roubado que o Telegraph obteve de um funcionário público insatisfeito em troca de dinheiro, informaram na época.

Primeiro, o establishment político britânico foi quase unânime ao condenar o jornal. Falou-se em processar o Telegraph, e advogados do governo se prepararam com o Ato de Segredos Oficiais.

Eventualmente o bom senso prevaleceu e o governo recuou, percebendo que a ação legal deixaria a uma situação que já era ruim, ainda pior. Uma vez que a mensagem já havia vazado, atirar no mensageiro não fazia sentido. E o prejuízo à imagem da Inglaterra como defensora da transparência e da justiça teria sido enorme.

Vale a pena considerar o escândalo das despesas agora que o governo dos EUA está avaliando sua resposta ao vazamento ainda maior de informações secretas obtidas com a ajuda da tecnologia digital – a publicação de milhares de comunicações diplomáticas norte-americanas pelo site WikiLeaks. De acordo com relatos do The New York Times e do International Herald Tribune, sua edição global, que publicaram matérias baseadas nas informações, o Departamento de Justiça está examinando se processará Julian Assange, o fundador do WikiLeaks.

Há, é claro, algumas diferenças entre o escândalo das despesas e o que o WikiLeaks denomina “Cablegate”. As mensagens são certamente mais delicadas do que a informação que estava no disco do Telegraph – em alguns casos, sua publicação ameaça vidas, de acordo com o governo norte-americano. Mas os relatos de despesas fornecem provas imediatas mais concretas de um escândalo; os arquivos do WikiLeaks contêm muito mais comunicação do que escândalo.

Por outro lado, o suposto pagamento do Telegraph acrescenta um fator comercial à motivação do jornal ao publicar o escândalo; o Wikileaks, enquanto isso, diz que age puramente para promover a transparência.

Ainda assim, há um paralelo importante: um processo contra Assange nos EUA teria riscos significativos para os Estados Unidos. As questões envolvidas foram descritas com precisão num documento recente de política do Google, sobre os esforços do governo para impedir o livre fluxo de informação na internet.

O documento não menciona o WikiLeaks; e foi visto por muitos como uma resposta contra a política da China de filtrar a internet, depois das disputas do Google com os censores em Pequim. Mas ele contém um sumário útil dos diferentes tipos de censura praticados em todo o mundo, incluindo esta tática: “encorajar a auto-censura através de meios que incluem a vigilância e o monitoramento, ameaças de ação legal e métodos informais de intimidação.”

Isso soa bastante parecido com o que está acontecendo nos Estados Unidos nesse momento em relação ao WikiLeaks. Não é necessário que os Estados Unidos levantem um “Grande Firewall” ao estilo chinês para filtrar as críticas ao governo; se Assange for processado, os futuros informantes pensarão duas vezes antes de entrar em ação.

Isso seria um problema para o jornalismo norte-americano, e poderia ser ainda pior para as gigantes de tecnologia do país, cuja dominação global é baseada na ideia de que os valores norte-americanos estão alinhados com o espírito de abertura e liberdade de expressão que prevaleceu em geral na internet. A superioridade tecnológica não é o motivo pelo qual o Google, e não o Baidu da China, é o maior motor de busca do mundo.

Na saga do WikiLeaks, alguns comentaristas disseram que muito mais está em jogo, descrevendo o vazamento de informações, a beligerante resposta oficial e os esforços juvenis de hackers simpáticos ao WikiLeaks como os tiros iniciais de uma guerra cibernética há muito esperada.

Faz mesmo sentido para Washington responder alto? Esta é uma guerra em que a maior parte dos danos colaterais serão norte-americanos.

Fonte: Herald Tribune – http://www.iht.com/pages/index.php

“Precisamos de um socialismo ecológico”, afirma economista mexicano

Opera Mundi

Enrique Leff não é um velho hippie ou um ecologista fanático. Mas para o economista mexicano, é impossível discutir economia hoje sem levar em conta a crise ambiental e as mudanças climáticas. Um dos maiores expoentes da corrente “ecomarxista”, Leff é doutor em Desenvolvimento pela Universidade de Sorbonne, leciona Ecologia Política na Universidade Autônoma do México e coordena a Rede de Formação Ambiental para a América Latina e Caribe do programa da ONU para o Meio Ambiente (PNUD). Ele conversou com o Opera Mundi em Manaus durante o TEDx Amazônia, conferência independente realizada em Manaus.

Leff: a transição de uma lógica econômica e tecnológica para outra, com princípios ambientais

O senhor costuma dizer que a humanidade errou. Como esse erro gerou a atual situação, em sua opinião, uma “insustentabilidade da vida”?

A civilização ocidental gerou uma forma de compreensão que transforma o mundo em objeto, não respeitando a essência da natureza e do ser humano. As religiões judaico-cristãs pensavam o ser humano como criação divina, mas com direito de intervir sobre todos os seres vivos, com quase uma obrigação de subjugar a natureza. Depois houve muitos momentos de construção desse pensamento, como a fundação da metafisica, da filosofia grega. Ali se começa a pensar o mundo não como um ser complexo, mas como entes, coisas. É também o começo da fragmentação do mundo – não se via mais a vida em termos de processos complexos, interatuantes, interdependentes. E começava também uma obsessão de unidade do mundo, de ideias universais. Isso permanece ao longo de todo esse trajeto que vai desde a concepção originária da metafísica até a ciência moderna.

No fundamento da ciênca moderna essa lógica se perpetua?

Sim. A ciência não é o conhecimento universal. É um modo de produção de conhecimento. Mas foi idealizada pela modernidade como a forma suprema de criação de conhecimento. E pretende gerar um controle; é a ideia de controlar a natureza. A ciência pretendeu e pretende ainda chegar a um conhecimento objetivo da vida. Com isso, gerou também uma ideia de progresso, de que o destino dos seres humanos teria que ser um processo sempre crescente. Com todas essas ideias de fundo, vem o mito da ciência capaz de gerar conhecimentos sem a intervenção das paixões, dos interesses dos cientistas ou de grupos sociais.

Quando essa lógica passa da ciência para a economia?

No período da revolução industrial, dois fatos foram determinantes. O primeiro, a construção do novo modo de produção com a máquina de vapor, transformou a lógica do trabalho, surgindo o trabalhador desumanizado, destinado a produzir. Ao mesmo tempo, ciência econômica imaginada estava sendo estabelecida. Karl Marx fez uma crítica de uma lucidez maravilhosa e profunda para desentranhar onde que estava a relação social de dominação no modo de produção, que se pensava neutra…

Como uma lei natural.

Sim, como algo natural. Não se pensou que era uma relação de dominação, mas que o capital era mais forte que a força de trabalho, e assim se equilibravam as forças de produção para gerar uma produção de bem-estar. Uma falácia. A partir disso, a ciência e a tecnologia foram usadas para manter o capital produtivo, para salvar as crises cíclicas do capital. E finalmente a força de trabalho começou a ser substituída por uma aplicação direta da ciência convertida em tecnologia. Ou seja, não tem nem o humano. Hoje, o grande suporte do capital não é mais a força de trabalho. Isso gerou uma artificialidade, que é a economia completamente isolada da natureza. Não quer dizer que ela não utiliza a natureza, mas que utiliza a natureza já tratada como objeto, retirada dessa trama complexa que faz com que a biosfera continue a funcionar como um planeta vivo.

Onde Marx errou?

Marx foi o maior pensador crítico, mas nenhum pensamento é um pensamento final. Não conseguiu chegar nisso que agora chamamos de ecomarxismo, ou a segunda contradição: o capital estava se construindo sobre a destruição de suas bases ecológicas de sustentação. Estava objetivando, fragmentando a natureza, rompendo ciclos ecológicos necessários para manter a oferta de natureza de que a economia precisa. O que a economia fez foi explorar em demasia o trabalho, mas ao mesmo tempo, exauriu a natureza. Podemos dizer que Marx estava inserido no seu tempo. Em 1860 se acreditava que a natureza conseguiria se recuperar sempre. Não é o caso hoje. Mais de 100 anos depois, podemos fazer a crítica e avançar em uma conceitualização ainda mais complexa do que esse modo de produção gera. É por isso que precisamos de um socialismo ecológico, com foco na mudança dessa racionalidade econômica. Não é só uma questão do protelariado tomar os meios de produção, não é uma mudança de mãos do mesmo processo, é uma transformação profunda dessa racionalidade econômica.

Então, um marxista hoje tem que considerar a questão ambiental?

Sem dúvida. Hoje não se pode continuar a ser marxista sem pensar nessa contradição entre capital e natureza. O aquecimento global é gerado pela economia, não é uma coisa natural. É isso que ninguém compreende. Nem mesmo os cientistas, os políticos que discutem o aquecimento global. Precisamos entender que não é só uma questão da economia estar produzindo escassez da água, de recursos naturais, mas que está gerando a morte entrópica do mundo.

Como mudar essa racionalidade?

O primeiro passo é baixar a ciência do pedestal. A ciência construiu coisas maravilhosas, mas é só um modo de produção de conhecimentos. Não é o único, a vida humana gerou outros modos de compreensão do mundo. A academia não somente tem que ir para a interdisciplinaridade dentro da academia, mas debater os princípios científicos com outros princípios, como os saberes tradicionais. Hoje em dia há um grande debate se devemos seguir construindo pelas potencialidades da ciência e da tecnologia, ou se deve haver uma ética para normalizar essas potencialidades, porque a ciência gera grandes possibilidades, construiu a bomba atômica, o genoma humano que pode agora produzir seres vivos… É disso que estamos falando, é uma questão ética.

Outro conceito que você aponta nesse novo paradigma é o da alteridade…

A ciência gerou uma unificação do mundo através da dominação do sistema de mercado, a globalização econômica. Cria hábitos e formas de viver unificadas. A desconstrução desse modelo de produção deve pensar a produção a partir de potenciais ecológicos de cada território. A articulação entre a conformação de um território natural e uma cultura gera um mapa de modos diferenciados de produção que não podem ser unificados pela lei do mercado. Devemos conviver nessas diferenças. Mas a alteridade é um conceito ainda mais forte. A ciência diz que vamos construindo sobre as certezas que ela descobre, o que é errado. A verdade, se aceitarmos nossa condição de seres humanos, de seres simbólicos, é que nós não vamos nunca atingir um momento de totalidade, de sapiência absoluta.

Fonte: Opera Mundi – http://operamundi.uol.com.br/

"Brasil: outros 500"

banner_blog_novo

Durante a comemoração dos 500 anos da descoberta do nosso país, além de não serem convidados para a festa, os donos da casa ainda sofreram uma repressão sem igual.

Morgana Gomes

Foto: Rogério Andrade

Em meados de abril de 2000, centenas de brasileiros iniciaram uma marcha em direção à Coroa Vermelha e Santa Cruz de Cabrália (BA). A caminhada visava reunir representantes de comunidades indígenas e de outras minorias, que tinham como objetivo se opor ao governo, em uma manifestação pacífica, paralela as comemorações oficiais. De ambas as cidades, ativistas, militantes, indígenas, estudantes e cidadãos em geral pretendiam marchar até Porto Seguro, onde aconteciam as festividades da comemoração dos 500 anos de descoberta do Brasil. Mas isso nunca aconteceu. Em Porto Seguro, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso confraternizava com o ex-governador Antônio Carlos Magalhães e empresários numa festa "para gringo ver", sem se importar com as minorias, mas com a certeza de que as comemorações estavam totalmente amparadas por um esquema de segurança que incluía helicópteros, forças militares e de inteligência, em grande escala.

Nos dias anteriores, ônibus de manifestantes já tinham sido barrados na estrada de acesso a Porto Seguro, sem que nenhuma explicação fosse dada. O clima de terror, com policiais e soldados do exército por todos os lados, deixava claro que, durante a celebração não haveria nenhuma dissonância. No sábado, dia 22, eclodiam os primeiros confrontos entre policiais e manifestantes na BR-367, que liga Porto Seguro a Santa Cruz de Cabrália. No término dos mesmos, contabiliza- se 141 pessoas detidas. O chefe da Casa Militar do governo baiano, Cristovam Rios, afirmou que as prisões foram feitas sob a acusação de alteração da ordem pública e que a operação foi feita com a "aquiescência e o conhecimento" do general Alberto Cardoso (Segurança Institucional). Tais fatos foram divulgados pela imprensa. Porém, quem presenciou toda essa situação, caso do nosso entrevistado José Adão Pinto, afirma que a reação policial foi violenta demais para um país que se diz democrático.

José Adão tem histórico e conhece bem esse tipo de ação repressiva: livreiro de 63 anos, durante o período da ditadura pertencia à Corrente Revolucionária (braço mineiro da Aliança Libertadora Nacional) e, em consequência, teve que viver na clandestinidade, mas acabou sendo preso, foi torturado, ficou estéril devido às intermináveis sessões de choque nos órgãos genitais e apresenta hemorróidas, porque lhe introduziram um cabo de vassoura no ânus. Emocionado e um tanto decepcionado por recordar tais fatos, ele nos conta como foi sua participação no evento que, por sua vez, ainda lhe deixou uma enorme cicatriz na perna.

"Para reprimir os índios, rádios-patrulha rodavam sem cessar, com sirenes e faróis ligados, fazendo um imenso barulho, que cessava por alguns minutos, para recomeçar novamente em forma de buzinaço"

Leituras da História – Como e por que você decidiu participar da marcha?

José Adão Pinto - Desde os 15 anos sou militante político. Durante a ditadura militar fui preso (entre 1969 e 1974) e torturado, mas, como muitos brasileiros, também comemorei o início da era democrática. Só que não cruzei os braços; continuei engajado em movimentos sociais. Na época da comemoração dos 500 anos da descoberta do Brasil, militava no Movimento de Saúde Mental e junto a outros representantes de diversas ONGs, embarquei, na madrugada de 20 de abril, em um dos vários ônibus que saíram da Universidade de São Paulo (USP), com destino à Coroa Vermelha na Bahia, levando centenas de pessoas que iam protestar contra o governo durante as festividades. O plano era o de nos juntar a outros movimentos para, depois, ir até Santa Cruz de Cabrália e, em seguida, Porto Seguro. Mas a viagem foi cheia de percalços. Ainda no Estado de Paulo, fomos parados diversas vezes pela policia rodoviária que nos revistou. Mesmo assim, conseguimos prosseguir até Eunapólis (município do estado da Bahia que fica às margens da BR 101). Na rodoviária da cidade, deram os primeiros indícios do que iríamos enfrentar. As polícias rodoviária, militar e federal nos pararam por 8h. Revistaram os ônibus e indagaram alguns dos embarcados, antes de nos liberarem. Finalmente, no dia 21 de abril, já no cair da tarde, conseguimos chegar à Coroa Vermelha.

LDH – E, em seguida, o que houve?

JAP – Já na cidade, nos deslocamos para o Areial do Quilombo, lugarejo entre a aldeia dos Pataxós e Coroa Vermelha, onde acampamos sobre a faixa de areia da enseada local. À noite, enquanto ocorria uma assembléia indígena na aldeia, que culminou com a dança dos Pataxós, a polícia começou a agir. Para reprimir, de forma indireta, os índios, rádios-patrulha rodavam sem cessar, com sirenes e faróis ligados, fazendo um imenso barulho, que cessava por alguns minutos, para recomeçar novamente em forma de buzinaço. A movimentação inesperada incitou o medo em todos nós, que não conseguimos dormir devido ao barulho e a ansiedade.

Fonte: Leituras da História – http://leiturasdahistoria.uol.com.br/

Mercado e ideologia repaginam postais

Estudo do IG revela estratégias da Embratur em campanhas publicitárias

MARIA ALICE DA CRUZ

A sensualidade deixou de ser o cartão-postal do Brasil para países estrangeiros, porém, apesar do avanço em conseguir romper com essa imagem consolidada, quebrando o estereótipo, os novos cartões-postais ainda apresentam uma realidade distorcida dos destinos turísticos divulgados. Dentro da teoria da ideologia espacial, o doutor em geografia Marcelo Sotratti constatou que o Plano Aquarela, coordenado pela Embratur, investe em imagens que atendem mais a uma necessidade do mercado que a própria divulgação da diversidade brasileira. A escolha pelas paisagens, na opinião de Sotratti, atende a interesses econômicos e políticos. “É uma forma de produzir ideologias por trás das imagens divulgadas”, afirma.

Por meio da análise crítica dos conteúdos simbólicos textuais e imagéticos das peças publicitárias desenvolvidas pela Embratur, na gestão Lula, durante os anos de 2005 a 2010, Sotratti identificou os processos ideológicos que permeiam a produção e a promoção turística de cidades dotadas de patrimônio cultural. Ao todo, foram analisadas 1.450 imagens presentes nas ações promocionais da entidade voltadas aos turistas, parte das campanhas publicitárias e parte do banco de dados disponível para consulta no Portal Brasileiro de Turismo, alimentado pela própria autarquia.

Para ele, as paisagens, por serem dotadas de representações e conteúdos simbólicos diversos, assumem importância vital na promoção turística do patrimônio cultural, já que suas imagens alimentam o imaginário turístico e as posicionam de forma seletiva no espaço da cidade. A seletividade imaginária, permeada por processos ideológicos de natureza econômica e política, segundo o pesquisador, incentivam a produção turística dos espaços patrimonializados, criando espacialidades fragmentadas e desconectadas do contexto urbano.

Sotratti pautou-se na análise de três campanhas promocionais do Plano Aquarela voltadas diretamente ao público final por demonstrarem claramente a ideologia espacial que envolve as práticas sociais e sua importância na formação de um imaginário coletivo do turismo na valorização dos lugares e paisagens. De acordo com as diretrizes do Plano Aquarela, as campanhas deveriam ser veiculadas exclusivamente no exterior, em particular nos países emissivos prioritários designados pelas estratégias do plano. Também deveriam se concentrar nos públicos de renda média e alta, de forma a possibilitar um maior impacto da atividade turística na geração de receitas para o Brasil.

De acordo com o pesquisador, em todas as campanhas analisadas, foi observada uma orientação simbólica clara em relação à formação de uma imagem brasileira apoiada na diversidade cultural e ambiental. “Foi uma forma de substituir os estereótipos do Brasil como terra do samba, do carnaval e do futebol”, pontua.

A primeira campanha analisada por ele foi a “Brasil. Vire Fã”, realizada em três importantes mercados emissores de turistas para o Brasil: a América do Sul, a América do Norte e a Europa. As propagandas veiculadas buscaram uma forma de colocar o turista como peça publicitária. Segundo Sotratti, a estratégia comunicacional utilizada nesses países teve como objetivo apresentar a diversidade ambiental e cultural da oferta turística brasileira de forma a estimular o Brasil como destino turístico internacional e fixar a marca Brasil no imaginário do turista estrangeiro, além de possibilitar a criação de novos produtos brasileiros por parte dos canais de distribuição localizados em tais países.

A mensagem publicitária implícita nesta campanha buscava a fidelização dos turistas que já estiveram no Brasil outras vezes, projetando ainda uma imagem de país desejável, familiar, seguro e diversificado. Em uma de suas fases, a “Brasil. Vire Fã” teve como protagonistas turistas estrangeiros que estiveram no Brasil, inserindo-os nas peças publicitárias com seus rostos pintados como observamos comumente nos grandes eventos esportivos mundiais. Na fase da campanha turística brasileira, as cores que compõem os rostos dos turistas estrangeiros estão presentes na Marca Brasil e representam simbolicamente elementos brasileiros correlacionados pelos turistas estrangeiros, como o azul (céu e água), vermelho (festas populares), amarelo (sol e luminosidade), verde (florestas) e branco (religiosidade).

Diante das imagens publicadas no site da Embratur, principal objeto de estudo da tese, Sotratti percebeu que existem contradições entre a prática e o discurso que a Embratur utiliza. Eles promovem um Brasil diferente da diversidade cultural e ambiental. Dentro do plano de marketing baseado na diversidade, os destinos mais escolhidos pela empresa são os mesmos divulgados há mais de 30 anos: Salvador e Rio de Janeiro. Segundo Sotratti, porque é mais seguro trabalhar com um cartão-postal já conhecido. Apesar de ser uma campanha para mudar a imagem do Brasil lá fora, principalmente a imagem divulgada pela mídia internacional, a Embratur continua a focar o carnaval e o réveillon carioca e baiano, principalmente. “Eles até demonstram querer divulgar o Brasil da diversidade, mas o mercado acaba tendo um discurso maior” enfatiza.

Intitulada “Brasil. Sensacional!”, a segunda campanha da autarquia teve como objetivo promover a diversidade cultural e ambiental brasileira a partir da conjugação de imagens de dois destinos diferentes associados aos segmentos prioritários do Plano Aquarela, a saber, sol & praia. Segundo informações presentes no site do Ministério do Turismo, o conceito “Sensacional”, evidente na campanha, faz referência direta à mensagem global presente na Marca Brasil e ainda reforça as constatações do Plano Aquarela que apontam que 85,4% dos turistas estrangeiros tiveram suas expectativas superadas e 94% recomendariam o Brasil como destino turístico. Por poucos pontos, a Embratur conseguiria atingir a meta estabelecida ao criar o Plano Aquarela, não fosse a crise internacional de 2009, que atingiu também a área de turismo.

A terceira aposta foi o aprimoramento do site, voltado para atrair turistas pela internet. De acordo com o pesquisador, um estudo feito pela Embratur com a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas – Fipe – apontou que 27,6% dos turistas estrangeiros que vieram para o Brasil em 2008 utilizaram a internet como principal fonte de informação para a viagem. Nesse sentido, a autarquia investe 30% de sua verba em publicidade em estratégias on-line, segundo informações do site do Ministério do Turismo, e ainda está presente em redes de relacionamento como Facebook, Twitter e Hi5.

Uma nova forma de promoção de um Brasil moderno e atraente pode também ser observada na frequente utilização de imagens do patrimônio cultural refuncionalizado no portal da Embratur, segundo o pesquisador. Restauram e transformam shopping centers. Os caminhos coloridos como os de Barcelona também estão entre os investimentos que viraram moda, na opinião de Sotratti. “Usam deste artifício para se comparar a grandes destinos”, esclarece.

Apesar da maquiagem, a proibição da venda do Brasil do sexo acabou tendo um efeito benéfico para melhorar a imagem no exterior, atingindo até mesmo as agências internacionais, que podem ser multadas se insistirem na circulação desse tipo de imagem. A aposta por uma ação comercial favoreceu a vinda de turistas internacionais ao Brasil.

Incoerência

De acordo com Sotratti, os cartões-postais servem para analisar a forma como o governo interpreta as diversidades. E a primeira incoerência, na sua opinião, está na escolha das imagens, a partir do momento que a Embratur restringe-se a grandes monumentos – casarões, igrejas – por uma necessidade de se comparar ao patrimônio cultural europeu, quando na verdade o Brasil que o turista procura está no patrimônio imaterial, formado por festas, gastronomia e manifestações culturais.

Além disso, o pesquisador observou uma preocupação maior em mostrar a estética da fotografia do que divulgar o destino. As imagens são velhas conhecidas, entre elas o Pelourinho, na Bahia. Na foto, tudo fica mais bonito. Já que o imaterial não é protagonista, ganha então a monumentalidade, em que as edificações são representadas sem a presença das pessoas que passam o dia todo diante delas. Nas fotos de monumentos, as pessoas são tiradas da rua para que a imagem possa ilustrar o site.

Sotratti chama para debate a questão mais séria deste tipo de marketing, que é a idealização social nos espaços de patrimônio. Imagens de pessoas vendendo fitinhas do Bonfim, que, na verdade, são moradores de rua e viciados em drogas. “Esta é uma interpretação equivocada de processo de exclusão social dessas áreas”, questiona. Outro equívoco são os pintores que colocam suas obras nas calçadas, pois, no dia a dia, eles são expulsos e há conflito entre eles e as galerias de arte. A baiana do acarajé, na opinião de Sotratti, parece onipresente, mas, na verdade, são dezenas de mulheres de negócio.

O plano, segundo Sotratti, teve como objetivo profissionalizar o turismo no Brasil e equiparar os grandes destinos internacionais a vários destinos. “Isso traz dinheiro para agências e grandes operadoras”, afirma. Mas esse processo de profissionalização pode não gerar desenvolvimento pessoal e territorial quando a população local não é inserida, na opinião de Sotratti. “Em termos de distribuição de renda, não foi a melhor forma de agir, pois a população não se insere”, contesta o pesquisador. De acordo com ele, não houve preocupação em capacitar a população para atuar na área.

A tese contribui para a expansão do universo da geografia, pois o turismo é um processo que permeia a distribuição do espaço. O estudo propicia condições de analisar de forma complexa e ampla questões associadas à geografia, à semiótica e à antropologia. “Analisar a importância e o significado das paisagens dotadas de patrimônio cultural por meio de imagens empregadas na promoção turística internacional amplia a discussão sobre o papel do turismo no processo de proteção e refuncionalização de áreas patrimonializadas”, conclui.

Fonte: Jornal da UNICAMP – http://www.unicamp.br/

A obra-prima de Gaudí

Quando o papa celebrou ali uma missa no outono passado, a Sagrada Família estava em obras havia 128 anos – e até hoje não foi concluída. O projeto da igreja, inspirado na natureza, segue à frente de seu tempo.

Jeremy Berlin
Foto:
Pere Vivas

A obra-prima de Gaudí

Arquitetura de Gaudí

"Meu cliente não tem pressa", costumava dizer Antoni Gaudí. Religioso, o arquiteto referia-se a Deus, explicando por que a Igreja da Sagrada Família estava demorando tanto para ficar pronta. Quase um século depois, a obra ainda não foi terminada – um sonho de torres e fachadas rebuscadas que se ergue 170 metros acima do centro de Barcelona e atrai os olhares (e os euros) de cerca de 2 milhões de visitantes por ano. Em novembro de 2010, o papa Bento XVI conferiu à igreja o estatuto de basílica. E é provável que o edifício seja afinal concluído em 2026. Se história gera mais história, também chegou a hora de reavaliar esse empreendimento épico de Gaudí – assim como as concepções premonitórias que lhe serviram de base.

Os surrealistas contavam com Gaudí entre seus membros, ao passo que George Orwell achava a igreja "um dos edifícios mais medonhos do mundo". Tão excêntrica quanto o próprio Gaudí, a concepção da Sagrada Família foi inspirada na fé e no amor pela natureza do arquiteto. Ele percebeu que o mundo natural está repleto de formas curvas, não de linhas retas. Assim, concebeu seus edifícios de uma premissa simples: se a natureza é obra de Deus, e se as formas derivam da natureza, então a melhor maneira de venerar a Deus é projetar edifícios que sejam um reflexo da obra divina. Como diz o estudioso catalão Joan Bassegoda Nonell, "a famosa frase de Gaudí – ‘A originalidade é o retorno à origem’ – significa que o início de tudo é a natureza tal como foi criada por Deus".

Nascido em 1852, perto do vilarejo de Reus, desde pequeno Gaudí era fascinado pela geometria e pelas maravilhas naturais do interior da Catalunha. Depois de formado em arquitetura, ele desenvolveu um estilo próprio uma síntese

de neogótico, art nouveau e elementos orientais. Para Gaudí, a forma e a função eram indistinguíveis. Somente era possível chegar à beleza estética por meio da eficiência estrutural que prevalece no mundo da natureza. "Não há arte que não se origine na natureza", concluía ele.

Em 1883, Gaudí herdou o projeto da Sagrada Família de outro arquiteto, que já havia concluído os alicerces de uma estrutura neogótica tradicional. Gaudí concebeu então um edifício que seria uma espécie de história visual de Cristo elevando-se ao céu, mas sabia que sua vida não seria suficiente para levar a cabo o imenso projeto. Por mais de 12 anos antes de sua morte, em 1926 – no último ano ele passou a morar no canteiro de obras -, Gaudí delineou seus planos sob a forma de modelos geométricos tridimensionais, em vez de plantas convencionais. Embora muitos tenham sido destruídos por vândalos durante a Guerra Civil Espanhola, esses modelos revelaram-se indispensáveis aos sucessores do artista. "Eles contêm o DNA estrutural do edifício", explica o arquiteto Mark Burry, que vem trabalhando na Sagrada Família há 31 anos, recorrendo a desenhos e tecnologia digital para facilitar a tradução dos conceitos de Gaudí para os atuais encarregados da construção. "É possível extrair a concepção arquitetônica global até mesmo de fragmentos. As maquetes revelam o modo como Gaudí lidava com os desafios arquitetônicos: recorrendo a uma ideia complexa e holística e expondo-a de tal modo que outros possam entendê-la e levá-la adiante após a sua morte."

Segundo Adrian Bejan, as fachadas da Sagrada Família estão baseadas na "seção áurea", a proporção geométrica "por trás de toda arte esteticamente agradável". Esse renomado professor de engenharia mecânica considera Gaudí um predecessor e alguém "que caminhava na corda bamba que separa a arte da ciência. Ele entendeu que a natureza está apoiada nas leis da matemática. O mais resistente é intrinsecamente mais leve, mais eficiente e, portanto, mais belo".

No âmago de Gaudí há uma verdade atemporal. Como diz Bassegoda Nonell: "A lição que Gaudí deixa não é a de que devemos copiar as suas soluções, mas buscar a inspiração na natureza, que nunca sai de moda".

Fonte: National Geographic – http://www.natgeo.com.br/

Antropologia renovada

Eduardo Viveiros de Castro é reconhecido por ter renovado o pensamento antropológico.

Juvenal Savian Filho e Wilker Sousa
Fotos:
Lucas Zappa

“Viveiros de Castro é o fundador de uma nova escola na antropologia. Com ele me sinto em completa harmonia intelectual.” Essas palavras são do antropólogo e pensador francês Claude Lévi-Strauss (1908-2009) a respeito da obra do brasileiro Eduardo Viveiros de Castro. Professor de antropologia do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ele é reconhecido nacional e internacionalmente por seus estudos em etnologia indígena – o ensaio “Os Pronomes Cosmológicos e o Perspectivismo Ameríndio”, publicado em 1996, recebeu traduções para diversas línguas e foi incluído em duas antologias britânicas de textos-chave da disciplina, a primeira centrada na antropologia da religião, a outra dedicada à teoria antropológica geral. Em 2009, publicou na França o livro Métaphysiques Cannibales, no qual resume as implicações filosóficas e políticas de suas pesquisas entre os povos indígenas brasileiros. No Brasil, seu livro mais conhecido é A Inconstância da Alma Selvagem, publicado em 2002, que reúne estudos escritos ao longo de sua carreira até então. Uma segunda coleção, trazendo seus ensaios mais recentes, está em preparação, devendo ser publicada pela editora CosacNaify em 2012, sob o título A Onça e a Diferença.

Seu currículo inclui atividades intelectuais em âmbito mundial. Foi professor-associado nas universidades de Manchester e Chicago e ocupou a cátedra Simón Bolívar de Estudos Latino-americanos da Universidade de Cambridge. Foi diretor de pesquisas no Centro Nacional de Pesquisa Científica, em Paris, tornando-se membro permanente da Equipe de Pesquisa em Etnologia Ameríndia. Ainda na França, foi agraciado em 1998 com o Prix da La Francophonie, concedido pela Academia Francesa.

Aos 59 anos de idade, construiu uma obra potente e irretocável. Viveiros de Castro recebeu a reportagem da CULT em sua sala no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, e falou sobre seu trabalho, a atual política indigenista, a crise ambiental e a inserção do Brasil na economia mundial.

CULT – Como se dá seu trabalho de campo e com que regularidade o senhor visita as comunidades indígenas?
Eduardo Viveiros de Castro –
O principal de minhas pesquisas de campo com os povos indígenas da Amazônia fez-se entre os anos 1975 e 1988. Estive por breves períodos entre os Yawalapiti do Parque do Xingu, em Mato Grosso (hoje o estado deveria ser chamado de Mato Ralo), os Kulina do Rio Purus, no Acre, os ianomâmis da Serra de Surucucus, em Roraima, e finalmente entre os Araweté do Igarapé Ipixuna, no Médio Xingu, Pará. Apenas entre os Araweté realizei o que se pode chamar de uma pesquisa etnográfica, que requer uma convivência demorada com o povo estudado, o aprendizado da língua nativa (no meu caso, bem incipiente) e o envolvimento emocional e cognitivo – o compromisso existencial – com as questões e preocupações da vida da comunidade que generosamente aceitou receber o antropólogo. Minha estada com os Araweté não foi tão longa quanto deveria: morei no Ipixuna por cerca de dez meses, entre 1981 e 1983, quando precisei deixar a área por motivos de saúde (malárias repetidas). Depois voltei algumas vezes, em visitas curtas, perfazendo 14 meses até 1995. Isto é, na melhor das hipóteses, a metade do que se precisa para fazer um bom trabalho de campo. Mas cada um faz o que pode. Há quem aprenda mais depressa, outros precisam de mais tempo. Além disso, há povos que demandam muitos anos de convivência até que as coisas comecem a fazer sentido para o pesquisador, e outros que são mais abertos e mais diretos. Por fim, tudo depende daquilo que se quer estudar. De qualquer maneira, não me vejo como um grande pesquisador de campo. Sou um etnógrafo apenas razoável.

Há cerca de um mês, após 15 anos de ausência, voltei ao Ipixuna para uma rápida visita. A desculpa para uma ausência tão demorada, a rigor indesculpável, foi que a vida me levou para longe da Amazônia: ensino, família, períodos de residência no exterior, o lento trabalho da escrita, o peso da idade… Isso para não mencionar algumas dificuldades que acabei tendo com a autoridade indigenista local, em Altamira (PA), por causa das empresas evangélicas que queriam se instalar entre os Araweté. Aos olhos desses missionários, eu era uma espécie de Satã que estava ali entravando a almejada conquista espiritual dos índios. Assim que parei de ir com mais frequência ao Ipixuna, esses missionários conseguiram se insinuar nas aldeias, com a complacência da administração indigenista. O estrago que causaram, até agora, ainda não parece ter sido grande demais. O mérito, naturalmente, é dos próprios Araweté.

Retornei a convite dos Araweté – não foi o primeiro que me fizeram, nesses 15 anos – e da nova administração da Funai em Altamira, com quem tenho a firme intenção de colaborar, nessa fase histórica tão difícil que se abre agora para os povos indígenas do Médio Xingu, com a construção do Complexo Hidrelétrico de Belo Monte. Está na hora também de passar o bastão e apresentar alguns de meus estudantes do Museu Nacional aos Araweté, para que possam continuar o trabalho.

O senhor concorda que, nas últimas duas ou três décadas, os “índios” têm aparecido mais no debate político e nos veículos de comunicação? Por que isso demorou tanto tempo?
Em seu livro Tristes Trópicos, Lévi-Strauss conta uma anedota reveladora. Era o começo dos anos 1930, ele estava de partida para o Brasil, onde ia ensinar sociologia na USP. Lévi-Strauss encontra o embaixador brasileiro na França, Luiz de Souza Dantas, em um jantar de cerimônia, e lhe pergunta sobre os índios brasileiros, que já então muito lhe interessavam. Ao perguntar ao embaixador como deveria proceder para visitar alguma comunidade indígena, este lhe respondeu: “Ah, meu senhor, no Brasil há muito tempo não há mais índios. Essa é uma história muito triste, mas o fato é que os índios foram exterminados pelos portugueses, pelos colonizadores, e hoje não há mais índios no Brasil. É um capítulo muito triste da história brasileira. Há muitas coisas apaixonantes a serem vistas no Brasil, mas índios, não há mais um só…” Lévi-
-Strauss conta que, naturalmente, quando chegou ao Brasil, descobriu que não era bem assim.

Isso não quer dizer que o embaixador (cuja aparência física, diz maliciosamente Lévi-Strauss, indicava uma óbvia contribuição indígena) estivesse mentindo deliberadamente, procurando negar uma realidade vergonhosa mas sabida. De fato, o embaixador não sabia que havia índios no Brasil; o Brasil que ele representava diplomaticamente não continha índios. O Brasil era um país desesperado para ser moderno, então não havia, porque não podia haver, mais selvagens aqui. Outro fato curioso: em 1970 (portanto, 40 anos depois do diálogo de Lévi-Strauss com o embaixador), o censo indígena da Funai indicava, para o estado do Acre, a notável população de “zero indivíduo”. Oficialmente, não havia mais índios no Acre. Aí começam a abrir as estradas por lá, a derrubar a mata, a botar boi, e eis que começam a aparecer índios a atravancar a expansão dos pastos e a destruição da floresta. (Junto com índios, como se sabe, começaram também a aparecer os seringueiros, que se imaginava como mais outra “raça” em extinção. E bem que se tentou extingui-los naquela época – lembrem-se de Chico Mendes.) Ora, índios sempre houve lá no Acre, todo mundo no Acre sabia que eles estavam lá, mas eles não existiam em Brasília, ou melhor, para Brasília. Agora sabe-se e aceita-se que o estado do Acre abriga, atualmente, 14 povos indígenas, alguns de significativa expressão demográfica, como os Kaxinauá e os Kulina. O Acre é um estado profundamente indígena, dos pontos de vista cultural, histórico e demográfico. Na verdade, ele é hoje o principal exportador de práticas e símbolos indígenas (mais ou menos transformados) para o Brasil urbano atual.

A que mais se deve essa redescoberta dos índios nas últimas décadas?
Tudo começou com uma iniciativa fracassada do governo militar, em 1978, que visava extinguir os índios, entenda-se, acelerar o processo de desconhecimento da população indígena, consagrar seu não reconhecimento como um componente diferenciado dentro da chamada “comunhão nacional”. Completar o processo de “assimilação”, isto é, de desindianização, que se entendia como inexorável e desejável ao mesmo tempo. O governo propôs um projeto de lei para “emancipar” os índios, isto é, extinguir a tutela oficial do Estado que os protegia. O verdadeiro objetivo da medida era liberar as terras indígenas, terras públicas, de domínio da União, inalienáveis, para que entrassem no mercado fundiário capitalista. Ao declarar que esta ou aquela população indígena não “era mais” índia, porque seus membros falavam português, ou usavam roupa etc., o que o projeto de lei pretendia era entregar as terras públicas de posse dos índios nas mãos dos interesses proprietariais particulares. Simplesmente se queria tirar os índios da frente do trator do capital: em vez de índio, que venham o gado, a soja, os madeireiros, o latifúndio, o mercado de terras, a mineração, a estrada, a poluição e tudo que vem junto. E que muitos chamam de “desenvolvimento”.

Mas, naquele momento, os idos de 1978, quando estava se consolidando a resistência organizada à ditadura, muito da insatisfação política da classe média, dos intelectuais principalmente, se cristalizou em torno da questão indígena, como se ela fosse uma espécie de emblema do destino de todos os brasileiros. É também nesse momento que tomam ímpeto o movimento negro, o movimento feminista, a politização ativa da orientação sexual, a emergência de diversas minorias, diversas diversidades por assim dizer: étnicas, locais, sexuais, ocupacionais, culturais etc. A luta de classes assumia cada vez mais o caráter de uma integração parcial de uma série de diferenciais traçados sobre outros eixos que a economia pura e simples (as relações de produção). Começam a surgir outros atores políticos. É o momento da especulação e da experimentação generalizadas: outras práticas do laço social, outras imagens da sociedade, que não se reduzem ao par Estado-classes sociais, mas que envolvem outras formas de vida, outros territórios existenciais. Os índios foram importantes por sua força exemplar, seu poder de condensação simbólica. Eles apareceram como portadores de outro projeto de sociedade, de outra solução de vida que contraprojetava uma imagem crítica da nossa.

"O Brasil tem a oportunidade única de ser um dos lugares onde um novo modelo de sociedade e de civilização poderia se constituir"

"Se tudo é humano, nós não somos especiais" [em referência à mitologia indígena]

Mas, desde o século 16, a vida indígena aparece como uma imagem crítica da vida “ocidental”.
Sim, sem dúvida. Há uma frase de um jovem filósofo que eu admiro muito, Patrice Maniglier, um grande especialista em Lévi-Strauss, aliás: “A antropologia nos devolve uma imagem de nós mesmos na qual nós não nos reconhecemos”. É por isso que ela é importante, porque nos devolve algo, ela nos “reflete”. Mas a gente vê essa imagem e não se reconhece nela. “Então nós, humanos, somos assim também? Podemos ser isso? Somos isso, em potência? Temos em nós a capacidade de viver assim? Essa é uma solução de vida ao nosso alcance, como espécie?” Em suma: “É possível ser feliz sem carro, geladeira e televisão?”. Isso nos dá um susto, um susto com valor de conhecimento. Os índios, desde o século 16, desempenharam essa função para a reflexão político-filosófica ocidental (para uma muito pequena parte dela, na verdade). E essa mesma função, mas modernizada, especificada e tornada mais evidente pelo fato de que os índios brasileiros da década 1970 – a década que inicia a ocupação destrutiva em larga escala da Amazônia – eram nossos conterrâneos e nossos contemporâneos, eles nos ensinavam algo não só sobre nós mesmos como sobre nosso projeto de país, o Brasil que queríamos, e que não era certamente o Brasil que tínhamos. Então, foi em torno das sociedades indígenas como diferença emergente que se constituiu a resistência contra o projeto de emancipação: uma resistência contra o projeto de privatização econômica, o branqueamento político e a estupidificação cultural do Brasil.

Os antropólogos, nesse contexto, começam a se organizar como categoria, aliando-se aos índios como atores políticos. Houve, é claro, antropólogos que tiveram um papel importantíssimo na história não só da causa indígena, mas da própria República, como Roquette Pinto ou Darcy Ribeiro, antes de (e durante) essa época. Mas naquele momento, no fim da década de 1970, os antropólogos se constituem como corporação para interpelar o governo e se opor ao projeto de emancipação. Essa mobilização sensibilizou a sociedade, entenda-se, outros intelectuais, militantes políticos de outras causas, advogados, juristas, artistas, e também as camadas médias urbanas, os estudantes… Ao mesmo tempo, e muito mais importante, os índios como que “acordaram” para seu poder de intervenção nos circuitos nacionais e internacionais de comunicação. Eles deixavam ali de ser um elemento do folclore nacional, de um passado vago e distante, e passavam a atores políticos do presente, signos críticos e urgentes de uma ultracontemporaneidade: signos do futuro, na verdade.

Enfim, é nesse momento, fim dos anos 1970, que ganha vulto todo o movimento de auto-organização de coletivos que não são mais redutíveis nem aos partidos nem aos sindicatos: a célebre “sociedade civil organizada”. É então também que começam a aparecer figuras indígenas individuais com destaque político. A primeira delas foi Mário Juruna, um deputado que foi tratado folcloricamente pela imprensa, mas que teve um papel estratégico para a emergência dos índios no cenário político-ideológico nacional e internacional (lembremos do Tribunal Russell). Juruna, que marcou presença por alguns gestos muitos simples, de grande “pega” midiática, ficou famoso com seu gravador – um edificante signo do poder da “tecnologia” nas mãos de um “selvagem”; melhor ainda, e agora de verdade, um dispositivo que preservava a potência e a imediatez da oralidade, o registro semiótico em que os indígenas se sentem completamente em casa – que armazenava as promessas e declarações de autoridades e políticos. Depois, promessa quebrada, declaração falseada pelos fatos, Juruna tocava seu gravador na frente da “otoridade” e dizia: “Mas não foi o contrário que o senhor falou?” “O senhor não havia prometido isso?” Depois de Mário Juruna, o protagonismo indígena, coletivo e individual, proliferou: associações, federações, líderes de grande expressão como Ailton Krenak e David Kopenawa.

Qual o papel da Constituinte de 1988 nesse processo?
Esse processo do fim da década de 1970 culminou em 1988, com a Constituinte e a Constituição, que tiveram um papel fundamental para formalizar a presença dos índios dentro da comunhão nacional. É aqui que se começa a reconhecer direitos coletivos, coisa que, salvo engano, mal existia no Brasil: direitos difusos, direitos coletivos, comunidades sujeitos de direito, índios, quilombolas. Uma vitória imensa, atestável no ódio que a Constituição de 1988 desperta na direita, sempre à espreita de uma oportunidade para “reformar” a Constituição, isto é, para desfigurá-la, e sempre eficaz na protelação da indispensável regulamentação de diversos artigos constitucionais.

O senhor vê com bons olhos as políticas de proteção dos direitos indígenas na era Lula?
Houve grandes conquistas, a mais importante, sem dúvida, o reconhecimento da terra indígena Raposa Serra do Sol. Mas manteve-se, ou mais, acentuou-se o projeto de governo baseado na equação falaciosa entre desenvolvimento e crescimento, em uma ideia de crescimento a qualquer preço e, nesse sentido (eu sublinho: apenas nesse sentido), o governo Lula manteve sua continuidade com todos os governos anteriores, pelo menos até Vargas e incluindo os governos da ditadura. Uma ideia de que é preciso conquistar o Brasil, ocupá-lo, civilizá-lo, modernizá-lo, desenvolvê-lo, implicando com isso a ideia de que os índios não são brasileiros, não estão lá, não vivem em suas terras segundo seus próprios esquemas civilizacionais, não possuem uma cultura viva e eficaz. Tudo isso se baseia em um modelo cultural falido, a ideia de modernidade.

E qual é esse modelo?
É o modelo de industrialização intensiva, poluente, de exportação maciça de matéria-prima, monocultura, agronegócio, transgênicos, agrotóxicos, petróleo… Ele bate de frente com os interesses das populações indígenas e, arrisco-me a dizer, com as perspectivas de toda a população do país e do planeta. O que precisamos é imaginar uma forma econômica com algum futuro, capaz de assegurar o suficiente para todos, uma vida que seja boa o bastante para as gerações vindouras. Então, eu tenho sérias restrições não à política indigenista do governo Lula – aliás, o atual presidente da Funai [Márcio Augusto Freitas de Meira] é um colega que admiro e respeito –, mas o problema é que essa política indigenista sempre teve de se dobrar aos imperativos de uma geopolítica nacional e internacional ambientalmente desastrosa. Toda vez que algum setor do governo ameaçou criar dificuldades para essa geopolitica desenvolvimentista, foi obrigado a entrar na linha, ou sair de cena. Veja Marina Silva. No caso da Funai, a tendência foi seguir os limites estreitos de manobra deixados pela Casa Civil e seu implacável desenvolvimentismo.

Qual seria, então, a alternativa a esse modelo?
O Brasil tem a oportunidade única de ser um dos poucos lugares da Terra onde um novo modelo de sociedade e de civilização poderia se constituir. Somos um dos poucos países do mundo que tem recursos suficientes para inventar outra ideia e outra prática de desenvolvimento. Parece que aprendeu muito pouco com a história recente do mundo. Quando se exporta soja e gado, está se exportando o quê? O solo, a água do país. Para fazer 1 quilo de carne, são necessários 15 mil litros de água; para 1 quilo de soja, são necessários 1.800 litros. O Brasil é o maior exportador de “água virtual” do mundo. Isso para não falarmos nos insumos venenosos: hormônios para o gado, fertilizantes, agrotóxicos… O Brasil é o maior consumidor de defensivos agrícolas do planeta. Imagine o risco sanitário a que estamos expostos. Todas essas maravilhas que tanto aumentam a produtividade agrícola (e ao mesmo tempo baixam a qualidade e a segurança dos alimentos) são-nos enfiadas garganta abaixo por grandes companhias transnacionais como a Monsanto, cuja ficha ambiental e política é mais que suja, é imunda.

E está em curso a polêmica sobre a construção da hidrelétrica de Belo Monte. Quando se fala em hidrelétricas, bem, de fato talvez seja melhor do que a energia nuclear – em princípio, uma vez que a questão do lixo nuclear está bem longe de ser resolvida, além dos problemas de segurança –, mas quais são as implicações do ponto de vista, por exemplo, do abastecimento de água? E, aliás, para quem vai o principal da energia elétrica que é produzida por uma grande hidrelétrica como Tucuruí, ou Belo Monte? Vai para a população ou para as fábricas de alumínio, os projetos de extração e processamento de cobre e níquel da Amazônia? O que fazem essas fábricas de alumínio? Latas de saquê e cerveja, principalmente. Por que as fábricas de alumínio estão aqui? Por que países como o Japão não querem gastar uma imensa quantidade de energia para mover as cubas eletrolíticas onde se funde o alumínio? É melhor que um país grande, periférico e perdulário detone seus rios. A usina de Tucuruí, concebida durante o regime militar, significou 2 bilhões de reais de subsídio para as indústrias de alumínio, como constatou um especialista recentemente. O destino real da energia produzida pelo Complexo Hidrelétrico de Belo Monte ainda é uma espécie de segredo de Estado. Mas parece que essa energia virá principalmente para o Sul e o Sudeste, ou servirá para alimentar novas indústrias eletrointensivas – cobre, bauxita, níquel – no Norte, algumas aliás
não nacionais (a direita vive falando no perigo de uma invasão estrangeira da Amazônia; ela já aconteceu, mas como é uma invasão do capital, parece que pode…). Os benefícios para a população, e especialmente para a população local, são muito duvidosos.

Como se deu seu contato com o pensamento de Lévi-Strauss?
Meu contato com Lévi-Strauss antecede meu contato com a antropologia. Foi enquanto eu fazia ciências sociais, em um curso de teoria literária dado por Luiz Costa Lima. Foi ele quem me aconselhou a fazer antropologia. Isso foi nos idos de 1969, 1970. Naquele momento, o estruturalismo antropológico estava penetrando em diversas áreas das ciências humanas, como a psicanálise e a crítica literária, então o Costa Lima, professor de literatura e grande teórico da área, resolveu dar um curso sobre As Mitológicas na sociologia da PUC-Rio, onde eu estudava.

O senhor poderia apresentar-nos o conceito do perspectivismo indígena?
Esse é um assunto sobre o qual hesito um pouco em falar, porque o termo “perspectivismo indígena” se tornou excessivamente popular no meio antropológico, e a ideia que ele designa começa a sofrer o que sofre toda ideia que se difunde muito e rapidamente: banalização, de um lado, despeito, de outro. Passa a servir para tudo, ou a não servir para nada. De qualquer forma, não fui eu quem inventou sozinho a teoria do perspectivismo indígena; foi um trabalho de grupo, em que se destaca a colaboração formativa que mantive com minha colega Tânia Stolze Lima. Tomamos emprestado do vocabulário filosófico esse termo de perspectivismo para qualificar um aspecto marcante de várias, senão de todas, as culturas nativas do Novo Mundo. Trata–se da noção de que o mundo é povoado por um número indefinidamente indeterminado de espécies de seres dotadas de consciência e cultura. Isso está associado à ideia de que a forma manifesta de cada espécie é uma “roupa” que oculta uma forma interna humanoide, normalmente visível apenas aos olhos da própria espécie ou de certos seres transespecíficos, como os xamãs. Até aqui, nada de muito característico: a ideia de que a espécie humana não é um caso à parte dentro da criação, e de que há mais gente, mais pessoas no céu e na terra do que sonham nossas antropologias, é muito difundida entre as culturas tradicionais de todo o planeta.

O que distingue as cosmologias ameríndias é um desenvolvimento sui generis dessa ideia, a saber, a afirmação de que cada uma dessas espécies é dotada de um ponto de vista singular, ou melhor, é constituída como um ponto de vista singular. Assim, o modo como os seres humanos veem os animais e outras gentes do universo – deuses, espíritos, mortos, plantas, objetos e artefatos – é diferente do modo como esses seres veem os humanos e veem a si mesmos. Cada espécie de ser, a começar pela nossa própria espécie, vê-se a si mesma como humana. Assim, as onças, por exemplo, se veem como gente: cada onça individual vê a si mesma e a seus semelhantes como seres humanos, organismos anatômica e funcionalmente idênticos aos nossos. Além disso, cada tipo de ser vê certos elementos-chave de seu ambiente como se fossem objetos culturalmente elaborados: o sangue dos animais que matam é visto pelas onças como cerveja de mandioca, o barreiro em que se espojam as antas é visto como uma grande casa cerimonial, os grilos que os espectros dos mortos comem são vistos por estes como peixes assados etc. Em contrapartida, os animais não veem os humanos como humanos. As onças, assim, nos veem como animais de caça: porcos selvagens, por exemplo. É por isso que as onças nos atacam e devoram, pois todo ser humano que se preza aprecia a carne de porco selvagem. Quanto aos porcos selvagens (isto é, aqueles seres que vemos como porcos selvagens), estes também se veem como humanos, vendo, por exemplo, as frutas silvestres que comem como se fossem plantas cultivadas, enquanto veem a nós humanos como se fôssemos espíritos canibais – pois os matamos e comemos.

E o que é o humano?
É essa capacidade de socialidade. Antes, tudo era transparente a tudo, os futuros animais e os futuros humanos, vamos chamar assim, se entendiam, todos se banhavam num mesmo universo de comunicabilidade recíproca. Lévi-Strauss tem uma definição muito boa, dada numa entrevista. O entrevistador pergunta: “O que é um mito?”. Lévi-Strauss responde: “Bom, se você perguntasse a um índio das Américas, é provável que ele respondesse: ‘Um mito é uma história do tempo em que os animais falavam’”. Essa definição, que parece banal, na verdade é muito profunda. O que ele está querendo dizer é que o mito é uma história do tempo em que os homens e os animais estavam em continuidade, se comunicavam entre si. Na verdade a humanidade nunca se conformou por ter perdido essa transparência com as demais formas de vida, e os mitos são uma espécie de nostalgia da comunicação perdida.

Essa é de fato uma noção universal no pensamento ameríndio, a de um estado originário de coacessibilidade entre os humanos e os animais. As narrativas míticas são povoadas de seres cuja forma, nome e comportamento misturam atributos humanos e não humanos, em um contexto de intercomunicabilidade idêntico ao que define o mundo intra-humano atual. O propósito da mitologia, com efeito, é narrar o fim desse estado: trata-se da célebre separação entre “cultura” e “natureza” analisada nas Mitológicas de Lévi-Strauss. Mas não se trata aqui de uma diferenciação do humano com base no animal, como é o caso em nossa mitologia evolucionista moderna. A condição original comum aos humanos e animais não é a animalidade, mas a humanidade. Os mitos contam como os animais perderam os atributos herdados ou mantidos pelos humanos; os animais são ex-humanos, e não os humanos ex-animais. Se nossa antropologia popular vê a humanidade como erguida sobre alicerces animais, normalmente ocultos pela cultura – tendo outrora sido “completamente” animais, permanecemos, “no fundo”, animais –, o pensamento indígena conclui ao contrário que, tendo outrora sido humanos, os animais e outros seres do cosmo continuam a ser humanos, mesmo que de modo não evidente.

Se tudo está impregnado de humanidade, quais são as consequências disso para o modo de vida indígena?
Se tudo é humano, nós não somos especiais; esse é o ponto. E, ao mesmo tempo, se tudo é humano, cuidado com o que você faz, porque, quando corta uma árvore ou mata um bicho, você não está simplesmente movendo partículas de matéria de um lado para o outro, você está tratando com gente que tem memória, se vinga, contra-ataca, e assim por diante. Como tudo é humano, tudo tem ouvidos, todas as suas ações têm consequências.

Fonte: Revista Cult – http://revistacult.uol.com.br

Plano Nacional da Educação é encaminhado ao Congresso

Ricardo Carvalho

Mais objetivo do que seu antecessor, PNE para os próximos dez anos defende valorização do magistério e 7% do PIB para o setor.

O projeto de lei do Plano Nacional de Educação (PNE) para o decênio 2011-2020 foi encaminhado ao Congresso Nacional na manhã desta quarta-feira 15. A solenidade ocorreu no Palácio do Planalto com participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do ministro da Educação, Fernando Haddad, além de representantes da Conferência Nacional de Educação (Conae), responsáveis pela elaboração da nova proposta.

Criado em 1996 para estabelecer os principais objetivos da educação nacional por dez anos, a primeira versão do PNE, que vigorou entre 2001 e 2010, foi marcada pelo excesso de metas. Das 295, menos de 30% foi cumprida até o final deste ano. “O importante é fixar menos metas e fiscalizá-las. Quando se vigia a ação, fica mais fácil adequar os meios às finalidades propostas”, defendeu o pedagogo Dermeval Saviani em entrevista à Carta na Escola (leia a matéria de Fernando Vives). Nesse aspecto, o novo PNE parece ser promissor: são 20 metas e dez diretrizes objetivas que contemplam valorização dos professores, acesso aos ciclos de ensino do infantil ao superior, alfabetização, entre outros.

Outro ponto que diferencia os dois planos trata de financiamento. Quando foi aprovado, o primeiro PNE previa que 7% do PIB brasileiro deveria ir para a educação, mas o então presidente Fernando Henrique Cardoso vetou a proposta. Com a aprovação da Emenda Constitucional 59, no final de 2008, o Presidente da República fica obrigado a destinar um porcentual do PIB à área. O texto enviado ao congresso por Haddad e Lula estipula os mesmos 7%.

Uma vez enviado ao Congresso, o projeto de lei será discutido no próxima administração. A previsão é de aprovação no primeiro semestre de 2011.

Metas e desafios
Cerca de 20% das metas afetam a valorização e formação do corpo docente. Primeiro, o PNE estipula que todos os professores do ensino básico deverão ter ensino superior, sendo metade com formação continuada com pós-graduação. Além do mais, os sistemas de ensino terão de elaborar, num prazo de dois anos, planos de carreira para o magistério.

As metas do PNE são as seguintes:

1.Universalizar, até 2016, o atendimento escolar da população de 4 e 5 anos, e ampliar, até 2020, a oferta de educação infantil de forma a atender a 50% da população de até 3 anos.

2.Universalizar o ensino fundamental de nove anos para toda a população de 6 a 14 anos.

3.Universalizar, até 2016, o atendimento escolar para toda a população de 15 a 17 anos e elevar, até 2020, a taxa líquida de matrículas no ensino médio para 85%, nesta faixa-etária.

4.Universalizar, para a população de 4 a 17 anos, o atendimento escolar aos estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação na rede regular.

5.Alfabetizar todas as crianças até, no máximo, os oito anos de idade.

6.Oferecer educação em tempo integral em 50% das escolas públicas de educação básica.

7.Atingir as seguintes médias nacionais para o IDEB até 2021
Anos iniciais do ensino fundamental: 6,0
Anos finais do ensino fundamental: 5,5
Ensino médio: 5,2

8.Elevar a escolaridade média da população de 18 a 24 anos de modo a alcançar mínimo de 12 anos de estudo para a população do campo, da região de menor escolaridade no país e dos 25% mais pobres, bem como igualar a escolaridade média entre negros e não negros, com vistas à redução da desigualdade educacional.

9.Elevar a taxa de alfabetização da população com 15 anos ou mais para 93,5% até 2015 e erradicar, até 2020, o analfabetismo absoluto e reduzir em 50% a taxa de analfabetismo funcional.

10.Oferecer, no mínimo, 25% das matrículas de educação de jovens e adultos na forma integrada à educação profissional nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio.

11.Duplicar as matrículas da educação profissional técnica de nível médio, assegurando a qualidade da oferta,

12.Elevar a taxa bruta de matrícula na educação superior para 50% e a taxa líquida para 33% da população de 18 a 24 anos, assegurando a qualidade da oferta.

13.Elevar a qualidade da educação superior pela ampliação da atuação de mestres e doutores nas instituições de educação superior para 75%, no mínimo, do corpo docente em efetivo exercício, sendo, do total, 35% doutores.

14.Elevar gradualmente o número de matrículas na pós-graduação stricto sensu por meio das agências oficiais de fomento.

15.Garantir, em regime de colaboração entre a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, que todos os professores da educação básica possuam formação específica de nível superior, obtida em curso de licenciatura na área de conhecimento em que atuam.

16.Formar 50% dos professores da educação básica em nível de pós-graduação lato e stricto sensu, garantir a todos formação continuada em sua área de atuação.

17.Valorizar o magistério público da educação básica a fim de aproximar o rendimento médio do profissional do magistério com mais de onze anos de escolaridade do rendimento médio dos demais profissionais com escolaridade equivalente.

18.Assegurar, no prazo de dois anos, a existência de planos de carreira para os profissionais do magistério em todos os sistemas de ensino.

19.Garantir, mediante lei específica aprovada no âmbito dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, a nomeação comissionada de diretores de escola vinculada a critérios técnicos de mérito e desempenho e à participação da comunidade escolar.

20.Ampliar progressivamente o investimento público em educação até atingir, no mínimo, o patamar de 7% do produto interno bruto do país.

Fonte: Carta Capital – http://www.cartacapital.com.br/

Ofertas de equipamentos hospitalares e número de médicos aumentam, leitos diminuem e desigualdades regionais permanecem

IBGE

O número de estabelecimentos de saúde em atividade total ou parcial aumentou de 77 mil em 2005 para 94 mil em 2009 (22,2%). Das 52 mil unidades assistenciais públicas em atividade, 95,6% são municipais e, das 42 mil unidades particulares, 90,6% têm fins lucrativos. O número de estabelecimentos sem internação acompanhou o crescimento do total de unidades, aumentando 22,7% em relação a 2005 e chegando a 67,9 mil em 2009, o que corresponde a 72,2% do total pesquisado. A proporção de estabelecimentos públicos sem internação está diminuindo gradativamente, pois o setor aumentou apenas 3,5% ao ano de 2005 a 2009, contra 9,9% ao ano do setor privado, onde se destacam as regiões Norte (16,4% ao ano) e Sul (12,1%). Os 19,3 mil estabelecimentos exclusivos de apoio à diagnose e terapia (SADTs) correspondem a 20,5% do total de unidades de saúde em atividade em 2009 e, entre eles, 90,8% são privados.

Do total de estabelecimentos sem internação entrevistados, apenas 39,3% tinham serviços de apoio ao diagnóstico ou procedimentos terapêuticos, contra 90,4 % dos com internação. Entre esses, no setor público, o percentual foi de 92,3% e, no setor privado, de 89,2%. Entre 2005 e 2009, o país ficou com menos 390 estabelecimentos com serviços de internação no setor privado. O setor público aumentou sua oferta de internação em 112 estabelecimentos, resultando em uma perda líquida de 280 unidades. Apenas a região Norte registrou aumento (2,3%) na oferta de serviços de internação, enquanto todas as demais regiões tiveram queda, com destaque para o Centro-Oeste (-7,8%). Os leitos para internação também tiveram redução de oferta: menos 11.214 leitos entre 2005 e 2009. Dos 431,9 mil leitos registrados, 152,8 mil (35,4%) eram públicos e 279,1mil (64,6%) privados. A taxa nacional em 2009 foi de 2,3 leitos/mil habitantes, abaixo do parâmetro estabelecido pelo Ministério da Saúde, de 2,5 a 3 leitos/mil habitantes; apenas a região Sul se manteve nessa faixa, com 2,6 leitos/mil hab. Entre 2005 e 2008, o número de internações registrou queda de 0,2%, com quase 23,2 milhões de internações, dos quais 15,0 milhões foram no setor privado.

Praticamente todos os equipamentos hospitalares tiveram aumento, apesar de ainda haver diferenças regionais. A oferta de ressonância magnética aumentou em mais de 100%, de 415 para 848 estabelecimentos entre 2005 e 2009. Na região Norte, onde a oferta geral de equipamentos é menor, o número de mamógrafos por 100 mil habitantes passou de 0,8 em 2005 para 1,1 em 2009. Para os aparelhos de ultrassom, o maior aumento anual (7,7%) ocorreu no Sul, onde a oferta por 100 mil habitantes (11,0) ficou acima da média nacional de 10,1. A oferta de equipamentos de hemodiálise estava em 9,8 por 100 mil habitantes; o Nordeste apresentou o maior aumento (9,2% ao ano) e ali o indicador ficou em 7,6 por 100 mil hab. Desses equipamentos, apenas 10,3% pertenciam ao setor público, cabendo ao setor privado financiado pelo SUS 83% das máquinas. Essas e outras informações estão disponíveis na Pesquisa de Assistência Médico-Sanitária (AMS) 2009, feita em parceria com o Ministério da Saúde, que investigou todos os estabelecimentos de saúde, públicos e privados, com ou sem internação, em todo o país, com localização geográfica via GPS e questionários eletrônicos preenchidos na internet.

A AMS 2009 registrou em 2009 um universo de 105.270 estabelecimentos de saúde, sendo 3.741 desativados (parados, mas com possibilidade de reabertura), 4.080 extintos (ou seja, tiveram suas atividades encerradas definitivamente), 96.450 em atividade e 999 em atividade parcial (em funcionamento, mas com pelo menos uma atividade paralisada ou desativada). A análise dos indicadores usou como base, porém, os 94.070 estabelecimentos de saúde em atividade ou em atividade parcial que não tinham terceirização de nenhum tipo ou tinham terceirização em suas dependências.

95,6% dos estabelecimentos públicos de saúde do país são municipais

O número de estabelecimentos de saúde em atividade total ou parcial passou de 77 mil em 2005 para 94 mil em 2009, um aumento de 22,2%, que corresponde a uma taxa anual de crescimento de aproximadamente 5,1%. Das 52 mil unidades assistenciais públicas em atividade, 95,6% eram municipais, 1,8% federais e 2,5% estaduais. Dos 42 mil estabelecimentos privados de saúde, 90,6% eram com fins lucrativos, contra 87,9% em 2005, apresentando uma tendência para a diminuição da proporção de estabelecimentos sem fins lucrativos. Os estabelecimentos com vínculo com o Sistema Único de Saúde (SUS), que, em 2005, representavam 30,6% dos particulares, passaram para 27,1% em 2009.

O SUS se manteve em 2009 como a fonte de financiamento mais frequente para os estabelecimentos de saúde, alcançando 67,2%, embora tenha tido ligeira queda em relação à sua participação em 2005, que era de 70,9%. Em segundo lugar, veio o pagamento direto (particular) das atividades, presente em 42,7% dos estabelecimentos, seguido pelos planos de saúde com 35,5% e os planos próprios, em apenas 2,8% dos estabelecimentos.

Estabelecimentos sem internação aumentaram 22,7% de 2005 a 2009

Em 2009, os 67,9 mil estabelecimentos de saúde sem internação (como, por exemplo, os que só tinham serviços ambulatoriais e emergências) representavam aproximadamente 72,2% do total pesquisado, com aumento de 22,7% em relação a 2005. O maior percentual de estabelecimentos sem internação (69,8%) no âmbito da pesquisa (que não inclui, por exemplo, consultórios médicos particulares), está no setor público. Porém, a proporção vem caindo, na medida em que o setor teve crescimento de 3,5% ao ano, contra 9,9% do setor privado, no período pesquisado. A região Norte apresentou o maior índice de crescimento do setor privado sem internação (16,4% ao ano), seguida pela região Sul (12,1%), enquanto o menor índice ficou com o Centro-Oeste (6,0%). No setor público, os índices de crescimento foram bem menores, variando de 1,2% no Norte, a 4,7% no Nordeste.

Os estabelecimentos sem internação têm diferentes perfis, conforme a natureza: enquanto 72,4% dos públicos eram de atendimento geral e apenas 6,0% especializados, nos estabelecimentos privados somente 3,2% eram de atendimento geral e 60,4 % especializados.

A assistência médica oferecida pelo estabelecimento sem internação com atendimento ambulatorial estava essencialmente concentrada nas especialidades básicas (75,3%) e o atendimento em outras especialidades era realizado somente em 26,5% desses estabelecimentos. Para a psiquiatria, esse percentual era ainda menor, não passando de 5,4%. O atendimento ambulatorial sem médico (que inclui serviços de imunização, parteiras etc.) era oferecido em 8.017 estabelecimentos sem internação em todo o país, com maiores proporções nas regiões Norte (20,6%) e Centro-Oeste (20,0%). No Sul, apenas 10,7% dos estabelecimentos sem internação ofereciam esse serviço. Dos 6.118 estabelecimentos com neonatalidade, 33,7% eram estabelecimentos sem internação.

90,8% dos estabelecimentos exclusivos para exames e procedimentos terapêuticos são privados

Os 19,3 mil estabelecimentos exclusivos que oferecem serviços de apoio ao diagnóstico (exames) ou procedimentos terapêuticos (SADTs) representavam, em 2009, 20,5% do total de estabelecimentos de saúde em atividade, contra 17,6% em 2002. Deles, 90,8% eram do setor privado, mas o público ampliou sua participação de 7,6% em 2005 para 9,2% em 2009. O crescimento no período ficou em 12,5% ao ano para o setor público e 6,9% para o setor privado. Os maiores índices de aumento anual desse tipo de serviço no setor público foram registrados no Nordeste (18,5%) e Sudeste (11,9%).

Os estabelecimentos exclusivos de SADT constituíam 55,8% do total que declarou realizar exames de análises clínicas, 55,1% daqueles com oferta de anatomia patológica, 26,65% dos com ultrassonografia e 36,3% dos que ofereciam tomografia.

Os serviços de apoio ao diagnóstico (exames) ou procedimentos terapêuticos foram informados, também, por 32,9 mil estabelecimentos com ou sem internação que tinham tais serviços nas suas dependências (excluídos 22,3 mil estabelecimentos que só realizam serviços de imunização).

Do total de estabelecimentos sem internação entrevistados, apenas 39,3% tinham exames ou procedimentos terapêuticos, contra 90,4% dos com internação. Os estabelecimentos sem internação apresentaram 5,2% de disponibilidade de serviços de análises clínicas, 2,0% para anatomia patológica, 3,0% para radiologia médica e 6,8% para a radiografia odontológica. A eletrocardiografia, que se destacou como um dos serviços mais oferecidos, só chegou a 8,5% desses estabelecimentos, caracterizando um baixo nível de oferta de exames de apoio ao diagnóstico nestes estabelecimentos.

De uma forma geral, em ordem decrescente, os serviços mais informados foram de: análises clínicas, fisioterapia, eletrocardiografia, ultrassonografia e radiologia médica. Entre os serviços com menor oferta no país, lideram o radioimunoensaio, a radioterapia, a cintilografia, a litotripsia e a hemodinâmica.

Serviços e leitos de internação aumentam na região Norte e caem no restante do país

A desativação dos estabelecimentos privados com internação confirma tendência de redução iniciada em 1999. O setor privado perdeu 390 estabelecimentos com internação no período de 2005 a 2009, já o setor público, registrou um aumento de 114 estabelecimentos, resultando em uma queda de 276 estabelecimentos com internação e indicando um aumento na participação relativa do setor público na oferta de serviços com internação, que de 35% em 2002 passa a assumir 41,3% em 2009.

Apenas a região Norte registrou aumento (2,3%) na oferta de serviços de internação, enquanto todas as demais tiveram queda, com destaque para o Centro-Oeste (-7,8%) e o Nordeste (-5,6%). No setor público, o crescimento da oferta foi mais expressivo no Norte (9,3%) e Sudeste (7,3%).

Acompanhando a tendência observada nos estabelecimentos com internação, os leitos também tiveram redução de oferta em 11214 leitos na comparação entre 2005 e 2009. No total, foram registrados 432 mil leitos, sendo 152,9 mil (35,4%) públicos e 279,1 mil (64,6%) privados. Mais uma vez, a região Norte foi a única a ter aumento de 4,2% no total de leitos em relação a 2005.Os leitos privados no país tiveram uma queda de 5,1% no período considerado. Os parâmetros do Ministério da Saúde são de 2,5 a 3 leitos por mil habitantes. A taxa nacional em 2009 foi de 2,3 leitos/mil habitantes. A região Sul foi a única que atingiu o parâmetro oficial, com 2,6 leitos, enquanto as regiões Norte e Nordeste continuaram as mais desprovidas (1,8 e 2,0 leitos por mil habitantes, respectivamente).

SUS financia 79,4% dos serviços de emergência

Em 2009, os serviços de emergência no país somavam 6.999 estabelecimentos, assim distribuídos: no Sudeste, 2.712; no Nordeste, 1.791; no Sul,1.228; no Centro-Oeste, 673; e no Norte, 591. O SUS era a fonte financiadora de 79,4% deles, seguido pelo pagamento direto de particulares (em 42,8% dos estabelecimentos) e pelos planos de saúde (42,4%).

Em 2008, internações na rede particular superaram em duas vezes as da rede pública

O número de internações no ano de 2008 registrado pela AMS 2009 foi de aproximadamente 23,2 milhões, registrando queda relativa (-0,2%) em relação às internações no ano de 2004. Nos dois anos analisados, embora a distância tenha se reduzido e o crescimento geral tenha se sustentado pelo setor publico, era predominante a presença do setor privado (16,2 milhões em 2004 e 15,0 milhões em 2008).

O comportamento nas internações no período 2004/2008 não foi uniforme em todas as regiões do país, tendo sido negativo nas regiões Sudeste (-8,5%) e Norte (-4,4%), enquanto o maior destaque positivo foi no Centro-Oeste (12,7%).

A participação do setor público foi maior no Norte (62,8%) e Nordeste (50,5%), ficando abaixo de 35,0% nas demais regiões. Nesse setor, o número de internações diminuiu em relação a 2004 nas regiões Norte (-0,6%), Centro-Oeste (-2,9%) e Sul (-4,8%). No Sudeste, o aumento ficou em 27,1% e, no Nordeste, 25,2%.

Por outro lado, no setor privado o número de internações só não apresentou queda no Sul (12,4%) e Centro-Oeste (23,1%). No Sudeste, a queda chegou a -18,3%. Os estabelecimentos privados que informaram prestar atendimento ao SUS foram responsáveis por 72,4% das internações neste setor. No Sul, essa contribuição alcançou 83,6% do total de internações do setor privado. No Nordeste foi de 75,8%, no Centro-Oeste 67,0%, no Sudeste 67,4% e no Norte 61,1%.

O número médio de internações por leito passou de 52 em 2005 para 54 em 2009. O crescimento anual desse índice no período para o leito público ficou em 3,1%. No leito privado, houve queda de 0,6%.

O número de internações por cem habitantes recuou de 12,8 em 2005 para 12,2 em 2009. No Norte, o indicador ficou em 11,5 e no Nordeste em 10,5. Entre 2004 e 2008, o Sudeste apresentou queda relativa de -11,7% e o Norte de -9,2% na taxa de internação.

Dos postos de trabalho médico, 40,2% estavam concentrados nas capitais

De acordo com a AMS, a oferta de postos de trabalho de nível superior cresceu 26,9% entre 2005 e 2009 (de 870,4 mil para 1,1 milhão). Esse aumento foi mais acentuado no Norte (42,0% no período). Nas demais regiões, o crescimento ficou entre 21,8% e 28,3%.

Em 2009, os médicos eram os profissionais em maior número dentre aqueles com nível superior: 57,6% (636 mil). Os enfermeiros vieram em seguida, com 14,8% (163 mil).

Do total dos postos de trabalho de nível superior, 51,4% eram ofertados no Sudeste, seguido pelo Nordeste (21,4%), Sul (15,2%), Centro-Oeste (7,0%) e Norte (5,0%). A distribuição dos postos médicos segue a mesma ordem: Sudeste (54,2%), Nordeste (19,4%), Sul (15,0%), Centro-Oeste (6,7%) e Norte (4,6%).

Ao se analisar a distribuição dos postos trabalho médicos por mil habitantes em 2009, o Sudeste permanece liderando (4,3 postos de trabalho por mil habitantes), seguido por Sul (3,4), Centro-Oeste (3,1), Nordeste (2,3) e Norte (1,9). A média nacional ficou em 3,3.

O número de vagas não acompanhava a distribuição da população: as capitais, que contavam com 23,7% da população em 2009, concentravam 40,2% dos postos médicos (5,6 postos médicos por mil habitantes nas capitais e 2,6 nos demais municípios). Em 2005, a relação era de 5,1 por mil habitantes em capitais e 2,2 nos outros municípios. A concentração em capitais em 2009 era mais significativa na região Sul (7,8 por mil contra 2,8 por mil nos demais municípios).

Os médicos atuando em estabelecimentos de saúde concentravam-se em dez áreas de atuação: clínico geral (16,7%), pediatra (10,0%), gineco-obstetra (9,5%), médico de saúde da família (6,3%), cirurgião geral (5,8%), ortopedista (5,5%), cardiologista (5,2%), anestesista (4,3%), radiologista (3,7%) e oftalmologista (3,3%).

O setor privado participava com 55,7% dos postos de trabalho médico, contra 44,3% do público. Desde 1999, a área privada oferece a maioria destes postos de trabalho, com destaque para Sudeste (58,5%), Sul (64,3%) e Centro-Oeste (54,7%). Já os empregos públicos eram maioria no Norte (62,2%) e Nordeste (54,1%).

Entre os postos de trabalho de nível técnico/auxiliar por ocupação, a predominância era da subárea de enfermagem, com 72,9% (35,7% auxiliares e 37,2% técnicos de enfermagem) – pouco abaixo do resultado de 2005 (74,9%, com 53,4% auxiliares e 21,5% técnicos de enfermagem). Houve melhoria na qualificação das equipes de enfermagem, crescimento de 101,1% dos postos de trabalho dos técnicos e diminuição de 21,0% dos postos de auxiliares.

De 2005 a 2009, Norte reduziu desigualdade na oferta de equipamentos médicos

A AMS 2009 indica que, embora haja grandes desigualdades regionais na oferta de equipamentos hospitalares, praticamente todos apresentaram aumento desde 2005. Aqueles de tecnologia mais avançada, como mamógrafos, tomógrafos e ultrassom, estavam mais disponíveis em todas as regiões na comparação entre os dois períodos – com destaque para a ressonância magnética, que em 2005 constava como um dos serviços menos oferecidos (415 estabelecimentos) e passou a 848 em 2009, apresentando aumento de mais de 100% no período.

No Norte, onde a oferta de equipamentos é menor, o número de mamógrafos por 100 mil habitantes passou de 0,8 para 1,1 (crescimento anual de 7,0%, acima da média nacional de 5,3%). Também no Norte, a oferta de tomógrafos por 100 mil habitantes aumentou de 0,48 para 0,87 entre 2005 e 2009, ficando pouco acima da metade da média nacional (1,6).

Para os aparelhos de ultrassom, o maior aumento anual (7,7%) ocorreu no Sul, onde a oferta por cem mil habitantes ficou em de 11,0 e acima da média nacional de 10,1. Por outro lado, no Norte o indicador estava em 6,9 por cem mil.

A oferta de equipamentos de hemodiálise estava em 9,8 por cem mil habitantes. O Nordeste apresentou o maior aumento (9,2% ao ano) e ali o indicador ficou em 7,6 por cem mil. No Sudeste, esse indicador era de 12,0 por cem mil e a taxa de crescimento anual entre 2005 e 2009 ficou em 6,0%. Desses equipamentos, apenas 10,3% pertencem ao setor público, cabendo ao setor privado financiado pelo SUS 83% das máquinas. Os estabelecimentos com internação reuniam 32,8% desses equipamentos, e a oferta desses estabelecimentos no setor privado foi três vezes maior que no público.

Houve aumento anual na oferta de aparelhos de raios-X por 100 mil habitantes na região Norte, de 1,9% ao ano, passando de 5,8 (2005) para 6,3 (2009).

Fonte: IBGE – www.ibge.gov.br

Gangues do Rio: capoeira era reprimida no Brasil

No início do século 19, grupos de capoeiristas usavam as ruas cariocas para exibir suas habilidades e resolver as diferenças. Enquanto a polícia reprimia os lutadores, a elite temia uma revolta dos escravos.

Antonio Neto

O escravo Felipe Angola caminhava sozinho pelas vielas do Rio de Janeiro. Naquele 10 de setembro de 1810, estava longe dos olhos do seu senhor, o comerciante Francisco José Alves, mas era observado de perto. De repente, foi surpreendido por uma patrulha da Guarda Real. Emboscado, tentou uma manobra que dominava: atacou os guardas com um movimento de pernas. Sua habilidade e força não bastaram para conter os três policiais, que o levaram preso. Felipe se tornou o primeiro escravo a ir para trás das grades no Rio de Janeiro por ser capoeirista. A arte marcial (ainda) não era um crime. Só o suficiente para transformar seus adeptos em criminosos em potencial, para uma polícia que agia à revelia da lei.

Praticada por negros de diversas origens africanas, a capoeira não era proibida no início do século 19.A elite carioca, entretanto, se sentia ameaçada pela presença marcante dos capoeiristas (ou “capoeiras”) nas ruas. Enquanto as gangues de lutadores usavam sua arte marcial para disputar território e se defender da polícia, os brancos assistiam a essa agitação temendo que os escravos resolvessem se rebelar para valer. Esse medo tinha sido potencializado pelas notícias da revolta ocorrida no Haiti em 1791. Na ilha caribenha, os escravos tinham abandonado as plantações de cana, destruído engenhos e massacrado proprietários de terra e colonizadores franceses.

Entre os cariocas, a proporção de escravos não parava de aumentar. Em 1808, quando a família real portuguesa chegou ao Rio fugindo dos exércitos de Napoleão, houve uma explosão demográfica na cidade. Os mais de 15 mil portugueses que deixaram Lisboa para acompanhar o rei dom João VI fizeram crescer a demanda por cativos. Em 1821, os escravos eram 46 mil, metade da população do Rio.

Nas freguesias onde viviam, muitas vezes isoladas pela geografia carioca, os capoeiras passaram a se reunir em “maltas”. Essas gangues, formadas por negros africanos e brasileiros, escravos e alforriados, quando se encontravam lutavam até sangrar. “As maltas viviam uma rivalidade crônica, o que era esperado em uma sociedade regida pela violência, e não pela harmonia entre as raças”, diz o historiador Carlos Eugênio Líbano Soares, autor de A Capoeira Escrava e Outras Tradições Rebeldes no Rio de Janeiro (1808-1850). Graças aos arquivos policiais que documentavam as prisões dos capoeiras, historiadores como Soares reconstituíram o que ocorria nas ruas daquela época.

Os registros da polícia também ajudaram a entender o nascimento da arte marcial. Como a maioria dos escravos brasileiros ficava na zona rural, durante muito tempo chegou-se a acreditar que acapoeira teria nascido em senzalas ou quilombos. “A capoeira aparece nos documentos do século 19como hegemonicamente urbana”, afirma Soares, que considera o Rio como um dos berços da luta, no século 17. Nos documentos históricos em que Soares fez sua pesquisa, há apenas um caso em que apalavra “capoeira” é mencionada sem se referir à luta. Esse era o nome de um tipo de cesto de palha usado pelos escravos para carregar mercadorias na zona portuária do Rio. Esses estivadores negros foram os primeiros a exibir as técnicas da arte marcial, competindo entre si nas praias para ver quem era o mais hábil. O nome “capoeira” teria passado dos cestos para os escravos e para seus movimentos de ataque e defesa.

Quando saiu das praias, a capoeira deixou de ser apenas diversão e passou a arma de combate. As disputas se espalharam pelas ruas que hoje formam o centro histórico da cidade. Os escravos eram obrigados a cruzar a cidade para realizar suas tarefas diárias, e as brigas entre os capoeiras costumavam ocorrer quando rivais se encontravam ao longo do caminho.

A maioria dos escravos urbanos tinha como rotina fazer compras em armazéns e quitandas, livrar-se do lixo e, principalmente, trazer água limpa para uso doméstico. “Não havia água encanada e era preciso buscá-la todos os dias. Assim, para manter seu domínio informal, escravos de uma determinada área tendiam a repelir cativos de outros lugares”, diz Soares. As fontes da cidade estavam sempre rodeadas de gente. O maior reservatório público ficava no largo da Carioca. Seu chafariz, construído em 1723 (e demolido em 1925), assistiu a exibições dos capoeiras.

A ausência de leis que proibissem a capoeira não impediu que os castigos contra seus praticantes se tornassem cada vez mais severos, principalmente após a chegada da família real portuguesa. Para as autoridades, qualquer manifestação cultural dos negros passou a ser malvista. A capoeira era alvo das patrulhas mesmo quando não provocava desordem. Em 31 de maio de 1815, por exemplo, dez escravos de uma mesma malta foram presos pela Guarda Real sob a alegação de que estavam praticando “capoeiragem”.

Chibatadas e servidão

A prisão foi apenas a primeira punição para os capoeiras. Mas ela passou a ser acrescida de castigos corporais. Um edital oficial de 6 de dezembro de 1817 estabeleceu a pena de 300 chibatadas aos praticantes da arte presos em flagrante. Em abril de 1821, o intendente geral de polícia, Paulo Fernandes Viana, recomendou ao governo que as festas de negros (palco de prática de capoeira) fossem banidas.

No Brasil de dom Pedro I, os capoeiras detidos pela polícia do Rio de Janeiro ganharam um destino certo: os trabalhos forçados, que haviam se tornado comuns no fim da colônia, combinados às chibatadas. Em agosto de 1824, começou a ser erguido um dique para o conserto de grandes navios na ilha das Cobras, próxima à orla carioca (a construção só ficaria pronta em 1861). A necessidade de mão-de-obra fez com que muitos dos capoeiras presos no Arsenal da Marinha (então a maior casa de detenção do Rio) fossem obrigados a trabalhar lá. Seus senhores ficavam indignados. Não necessariamente por razões humanitárias – os cativos eram vistos como propriedades caras que não deviam se desgastar trabalhando de graça para o Estado.

O africano Francisco Congo foi um dos que receberam a pena de três meses de trabalhos forçados no dique da ilha das Cobras. Às 5 da tarde de 29 de setembro de 1824, ele foi preso com outros três escravos por praticar capoeira no cruzamento das ruas do Sabão e da Vala (atual rua Uruguaiana, no centro do Rio). O senhor de Francisco, Domingos José Fontes, apelou ao imperador para que tivesse seu escravo devolvido. Alegou que o cativo lhe servia há mais de dez anos. Ao pedido escrito, Fontes anexou uma certidão médica dizendo que Francisco não podia com trabalhos pesados. Lamentou em vão a falta do escravo, que seguiu à disposição do Arsenal da Marinha e ainda recebeu 200 açoites, conforme estipulado por uma nova lei daquele ano.

Em poucos anos de Império, a arbitrariedade na aplicação das penas aos capoeiras parecia sem limite. O forro Manoel Crioulo, por exempo, foi sentenciado a dois anos de trabalhos em obras públicas e mandado ao Arsenal da Marinha em 14 de maio de 1827, por ter dado “uma bofetada de mão aberta”. Mas, mesmo sendo considerados marginais e desordeiros pelo Estado, os capoeiras acabaram sendo solicitados para, quem diria, manter a ordem. Em junho de 1828, as tropas estrangeiras do Exército Imperial, formadas principalmente por irlandeses e alemães, ameaçaram um levante militar por conta do atraso no pagamento de seus soldos. Armados, com o apoio das autoridades, escravos e capoeiras formaram milícias e conseguiram conter a agitação dos mercenários amotinados. Foi uma demonstração de poder e tanto.

Guerra nas ruas

O ano de 1831 foi marcado pela oposição dos liberais ao reinado de dom Pedro I. Eles acusavam o imperador de discriminar os brasileiros e cometer abusos. Em contrapartida, portugueses defendiam amanutenção do monarca e de antigos privilégios. Os ânimos andavam exaltados.

Em 11 de março os portugueses enfeitaram janelas e sacadas de suas casas e comércios na região da Candelária. Saudavam o imperador, que chegava de uma viagem a Minas Gerais. Quando passeava pela rua da Quitanda, o sapateiro negro José Antônio foi insultado por um grupo de lusos. Eles exigiam que ele e suas duas acompanhantes tirassem do braço os laços que ostentavam, com as cores da pátria brasileira. Os três se recusaram e se queixaram à polícia sobre a agressão. A partir daquele momento, o acirramento entre portugueses e brasileiros entrou numa escalada sem volta.

Durante o dia 13, enquanto militares se insurgiam contra o “imperador tirânico”, um grupo de negros armados de paus ocupou as ruas ao redor do largo da Carioca bradando “constituição” e “independência”. Os monarquistas saíram a campo com o apoio de marinheiros e caixeiros portugueses. Xingamentos deram lugar a pedras, cacos e garrafas. Capoeiras distribuíam golpes certeiros enquanto os brancos se defendiam como podiam. Foram feitos disparos de pistolas e pelo menos dois negros caíram mortos. A multidão se dispersou, temporariamente.

O temporal que caiu sobre a cidade naquela noite acalmou os ânimos, mas os conflitos seguiram. Já era madrugada do dia 15 quando uma patrulha da polícia evitou que mais de mil homens armados se digladiassem em pleno Paço Imperial. A sorte de dom Pedro, contudo, foi selada por esses episódios, conhecidos como “as noites das garrafadas”. A elite brasileira e o Exército seguiram pressionando por mudanças no regime, até que, em 7 de abril de 1831, o monarca abriu mão do trono em favor do filho de 5 anos. Como o menino era jovem demais, os liberais assumiram o governo, no período chamado Regência.

O apoio dado pelos capoeiras à queda do imperador, entretanto, não garantiu a eles nenhum privilégio. Pelo contrário: o sucesso de sua atuação nos conflitos de rua acabou sendo interpretado pela elite como uma ameaça. Afinal, se voltassem a agir juntas, as gangues de escravos do Rio representariam um sério perigo para os senhores. Dessa forma, os primeiros anos do período regencial foram marcados pela expectativa de um levante da chamada “gente preta”.

O temor acabou se traduzindo em repressão. Mas a Polícia da Corte não fez uso só da força. Com táticas de espionagem e delação, ela sufocou uma a uma todas as agitações promovidas sob aliderança dos capoeiras. A pior ocorreu em1835, com a repercussão da Revolta dos Malês, iniciada em 25 de janeiro, em Salvador. Contida na Bahia em dois dias, a insurreição acabou não chegando ao Rio. Os poucos negros que tentaram insuflá-la foram detidos. Nos anos posteriores, as gangues não conseguiram atuar de forma coesa. Isoladas, eram presas fáceis para as autoridades e não tinham força para articular um movimento que exigisse direitos e liberdade. “Os cativos não representavam um grupo social coeso. A população escrava brasileira era fragmentada”, afirma o historiador Soares. “Se aqui tivesse havido uma suposta unidade racial, pensamento só vigorante a partir do fim do século 19, a escravidão teria sido eliminada em dias, como ocorreu no Haiti.”

Nem mesmo a abolição da escravidão e a proclamação da República serviram para acabar com arepressão contra os capoeiras. Em 11 de outubro de 1890, foi promulgado o código penal do novo regime. Em seu artigo 402, ficou estabelecida uma pena de dois a seis meses de prisão para quem praticasse a arte marcial nas ruas. Para os chefes das maltas, essa punição seria aplicada em dobro, enquanto os reincidentes poderiam ficar presos por até três anos. A capoeira, finalmente, havia se tornado crime, para o alívio da elite que vivera amedrontada por quase um século.

Ginga secular

Os movimentos descritos nos arquivos policiais do Império se parecem com os golpes de hoje

Cabeçada

Como o próprio nome diz, trata-se de uma cabeçada aplicada contra o peito ou o queixo do oponente, aproveitando um momento de vacilo

“Crispim Quissamã e José Benguela foram encontrados a jogar as cabeçadas e castigados com 300açoites e três meses de prisão.”

(25 de agosto de 1819)

Aú

Movimento de entrada na roda de capoeira, que também pode ser usado como golpe ofensivo. O jogador leva as duas mãos ao chão e estica as pernas para o alto

“José Moçambique fugiu da Ucharia Real, onde estava preso em correção, e foi apanhado na rua de São Pedro, em gestos de capoeiragem, jogando pernas para o ar para se defender.”

(31 de janeiro de 1820)

Meia-lua de compasso

Agachado sobre uma das pernas, com ao menos uma das mãos apoiadas no chão, o jogador faz ummovimento de rotação e ataca com o calcanhar

“O escravo Antônio Mina tentou matar seu senhor com golpes de compasso e depois tentou fugir, sendo perseguido pelos outros escravos.”

(31 de julho de 1839)

Uma arte, dois mestres

Legalizada por Getúlio Vargas, a capoeira ganhou o mundo

Proibida logo no começo da República, a capoeira continuou, por muito tempo, vista como hábito de delinqüente. Sua prática só deixou de ser crime em 1937, na onda nacionalista do Estado Novo de Getúlio Vargas. Foi nesse mesmo ano, em Salvador, que a academia de Manuel dos Reis Machado, o mestre Bimba, recebeu licença para funcionar (antes disso, existira ilegalmente por cinco anos). Bimba, que viveu entre 1900 e 1974, foi o primeiro a criar um projeto esportivo e pedagógico para o jogo, com 52 golpes e contragolpes. O resultado foi a capoeira regional, cujos movimentos privilegiam o ataque e buscam atingir o tronco do adversário para derrubá-lo. A outra vertente de capoeira praticada hoje foi criada por Vicente Ferreira Pastinha, mestre Pastinha, nascido em 1889. Defensor das tradições escravas, ele manteve características lúdicas na sua técnica, chamada de capoeira angola. Na academia de Pastinha, aberta em 1935 (dois anos antes de sua morte), os alunos aprendiam um jogo com bastante dança, centrado na ginga das pernas e na defesa, com golpes dados para tentar apenas desequilibrar o oponente.

O curioso é que a imagem dessa arte tão brasileira começou a melhorar graças a um espanhol. Radicado no Rio, o arquiteto e engenheiro Adolfo Morales de los Rios Filho publicou uma série de artigos sobre o tema no jornal Rio Sportivo em agosto de 1926. Segundo ele, a capoeira deveria ser vista como um tipo de defesa pessoal “tão poderoso quanto o boxe britânico e norte-americano, a savate francesa e parisiense, o jiu-jítsu japonês e a clássica luta romana”. Dito e feito. Hoje a capoeira é ensinada em diversos países. Até mesmo Hollywood se rendeu a ela, que chegou a tomar o lugar do caratê e do kung fu em alguns filmes dos anos 1990. A partir daí, sua prática acabou sendo adotada por estrelas de cinema como Halle Berry e Charlize Theron (o interesse começou quando elas treinavam para os filmes de ação Mulher Gato e Aeon Flux, respectivamente).

Fonte: Agência Brasil – http://www.agenciabrasil.gov.br/

Entre a Utopia e a História

Paulo Marçaioli

Caio Prado Jr.

O Mundo do Socialismo é obra pouco comentada e debatida do autor de Formação do Brasil Contemporâneo (1943) e História Econômica do Brasil (1945). O Ensaio foi lançado em 1962 e corresponde a uma síntese da experiência de Caio Prado Júnior em viagem de dois anos pela URSS e China Popular. Uma razão para o ostracismo do livro pode ser o seu relativo perecimento frente aos acontecimentos que, a partir do final dos anos 60, foram sinalizando de maneira mais evidente contradições do mundo do socialismo: o autoritarismo político viabilizado pela não ocorrência plena da socialização produtiva; o processo de burocratização; a restauração gradual do capitalismo de mercado – Glasnost e Perestroika (1985) e colapso formal da URRS (1991).

Identificamos em algumas passagens certa previsão de futuro (implícita em todo livro) que não se concretizou: a generalização do socialismo em nível mundial. Assim, os países do mundo socialista vão sendo apresentados como parte de uma marcha histórica inevitável pós-capitalista.

Um leitor apressado poderia desde já ir descartando as teses de Caio Prado ao não levar em consideração o universo de escolhas e informações daquele escritor naquele momento da história. E mais: as previsões partem da convicção de um intelectual e ativista marxista num contexto de batalha de ideias (Guerra Fria) e dentro de um momento em que ainda há, o âmbito de expressiva parcela do movimento socialista internacional, a percepção de que o que se passava na URSS sinalizava de fato um futuro pós-capitalista, a construção de um novo mundo, sob novas bases econômicas, políticas e culturais.

Pois é dentro deste quadro de enfrentamento e disputa de ideias que a obra pode ser interpretada e resgatada para atualidade. O Mundo do Socialismo é diferente de um memorial de viagens. A intenção do autor – já sinalizada logo no início do prefácio – é descrever de forma panorâmica como os países do mundo socialista vão encontrando soluções concretas para os problemas da liberdade, da igualdade social, da democracia e da marcha ao comunismo. Para isto, Caio Prado Jr. vai se servindo daquilo que vê para, de maneira comparativa, estabelecer em que aspectos o socialismo vai encaminhando uma nova sociedade em contraponto ao capitalismo.

A tônica anticapitalista do ensaio tem bastante atualidade: o significado do direito, estado e liberdade no âmbito do capitalismo são desconstruídos, assim como as teses (também atuais) que procuram isolar a alternativa socialista: sua "ineficácia prática", seu lado supostamente contrário à "natureza humana", seu aspecto "autoritário", etc. No que se refere às experiências do socialismo, a sua defesa teórica perpassa a obra e vai além da experiência soviética: o objetivo não é o do julgamento histórica daquela experiência, mas de uma proposta de interpretação do mundo do socialismo, sem qualquer ilusão de neutralidade e levando em consideração prática políticas testemunhadas pelo autor.

Liberdade e Igualdade

A liberdade e igualdade no capitalismo surgem como uma peça de ficção e, através da confrontação da liberdade e igualdade praticadas no mundo do socialismo, Caio Prado Jr. vai dialogando e debatendo com os argumentos anti-soviéticos. No capitalismo, a liberdade é formal e se conforma no sentido de viabilizar a livre negociação de compra e venda da força de trabalho. A liberdade é individual e se encerra na liberdade alheia: ocorre que, numa sociedade desigual e dividida entre patrões e trabalhadores, a liberdade de cada um vai variar de acordo com a situação do indivíduo frente aos meios de produção. De modo análogo, a igualdade também é, no capitalismo, apenas formal, incide sobre uma personalidade abstrata e não vinculada às condições concretas da vida.

As saídas para o problema da liberdade e da igualdade no mundo do socialismo partem da diferenciação teórica dos dois modos de produção: a propriedade dos meios de produção. A socialização implica em um novo tipo de liberdade, em que os indivíduos deixam de se confrontar uns aos outros, para (a liberdade) se afirmar pela vontade geral: é condição para a plena liberdade a ocorrência da igualdade e o interesse coletivo vai sendo confundido com os interesses individuais conforme se processam a socialização da economia e da política, mudança de valores e culturas, etc. Finalmente, o trabalho assume um papel central na consolidação da nova sociedade igualitária: perde seu aspecto de mercadoria e assume um caráter ético, é destinado a interesses da coletividade da qual cada indivíduo participa e aufere todas vantagens da vida.

Evidentemente, Caio Prado Jr. não funda teorias da liberdade e igualdade no livro. O resgate destes temas pelo autor, de maneira didática, pareceu-nos ser um dos pontos altos do livro. A reconstrução de utopias e novos tipos de sociedade parte deste confronto de idéias, que não só vai desideologizando as premissas do capitalismo, como sinalizando, ainda que parcialmente e de forma limitada às condições históricas, a forma como se daria o socialismo e a utopia comunista. Trata-se de uma tarefa central na luta contra-hegemônica atual: a reconstrução do sonho de sociedades pós-capitalistas que superem tudo o que aparenta ser "naturalizado" e sem história.

Contrapartida

Evidentemente, uma análise mais detalhada de um Mundo do Socialismo não pode furtar-se a uma crítica radical do stalinismo e do ocultamento pelo autor (não sabemos se consciente ou não e em que medida) de contradições referentes às perseguições políticas dentro do campo socialista, ao personalismo político, ao problema da heterogestão dos meios de produção, ao fortalecimento e centralização do aparato estatal em detrimento do poder local (tese não reconhecida pelo autor, que, pelo contrário, vê sinais do definhamento estatal), etc. Esta dupla dimensão – da utopia socialista em sentido mais geral e da história da revolução russa, com todas as contradições que escapam ao juízo de Caio Prado Jr. – é inevitável quando se lê textos de personagens engajados na história. Procuramos aqui apenas propor a leitura da obra chamando atenção para aquilo que ela tem de atual e sinalizando um justo acerto de contas não só com o Mundo Do Socialismo mas com todo o pensamento caio pradiano.

Sínteses

Caio Prado Jr. escreve seu livro na condição de um viajante que procura enfrentar a mistificação promovida pela direita em torno do mundo do. Talvez, o fato do olhar partir de um viajante, alguém exterior àquele processo, possa ter contribuído para o que se pode chamar de "erros da análise", "excesso de otimismo", "ingenuidade", etc. Ainda, a firmeza com que defende a experiência daquele processo e a forma como procura debater direta e francamente com os adversários do socialismo – a narrativa remete mesmo a uma peça de argumentação de um advogado de defesa do socialismo – faz do Mundo do Socialismo ainda uma boa ferramenta de luta. Por um lado por sua atual denúncia do capitalismo. Por outro como boa descrição e análise das linhas gerais do socialismo e do resgate de utopias. Já viria em boa hora uma nova edição desta obra e a sua redescoberta militante.

Uma passagem final

"Não se justifica assim qualquer atitude de prevenção e hostilidade de princípio contra o mundo do socialismo, de cuja rica experiência histórica nos devemos necessariamente valer. Não para servilmente a copiar, e sim para aproveitá-la convenientemente. Tanto mais que entre as grandes lições dessa experiência estão aquelas que nos permitirão evitar os escolhos em que esbarraram, como tinham de esbarrar, os pioneiros e a vanguarda do socialismo, obrigados como foram a desbravar um terreno ainda indevassado e virgem. (…) É nesse sentido que orientei minha viagem pelo mundo do socialismo. Penso que se todos aqueles que julgam necessária a transformação do mundo em que vivemos, e a instauração de novas formas de vida social e de convivência humana libertas das mazelas do capitalismo, adotasse o critério de procurar no mundo do socialismo uma fonte de experiências a fim de as adaptar convenientemente aos lugares onde vivem e atuam, as questões hoje pendentes e que tão gravemente afetam a vida de quase toda a humanidade incluída no mundo capitalista, encontrariam soluções muito mais fáceis, seguras e rápidas" [Caio Prado Jr. - O Mundo do Socialismo]

Paulo Marçaioli é estudante e militante do PSOL-Valinhos (SP)

Fonte: Fundação Lauro Campos – http://www.socialismo.com.br

Políticas florestais devem focar incentivo a preservação

Marcelo Henrique Nascimento

Na mesma época em que se realizava a Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP 16), quando os olhos do mundo se voltam para problemas como o desmatamento no Brasil, uma pesquisa realizada na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP mostrou que a nossa política para preservação da cobertura de matas nativas está longe do ideal. Especialmente se comparada à política aplicada por outros países, como os europeus, onde o foco no incentivo à preservação – e não na punição aos que não a respeitam– tem gerado sucesso na redução do desmatamento do continente.

Na Europa, proprietário recebe para conservar; no Brasil, ele paga

Intitulado Comparação de políticas florestais do Brasil com as de alguns países da Europa e das Américas, o estudo do professor Carlos José Caetano Bacha tem a premissa de que é importante tentar absorver o exemplo desses países para melhorar a eficiência em solo brasileiro, onde se concentra a maior área de florestas do globo.

Quando se fala de políticas florestais, a grande diferença apontada por Bacha entre o Brasil e a Europa – onde foi constatada ampliação da cobertura florestal nos últimos 15 anos – é que aqui se adota o que ele chama de “política de comando e controle” em relação ao desmatamento, e lá é aplicada uma política de incentivo econômico à preservação florestal. O que quer dizer que enquanto o Brasil tenta deter o desmatamento através de uma legislação, com punições aos que a violarem, muitos países europeus incentivam financeiramente os donos das terras para a preservação.

Isso é feito da seguinte maneira: estima-se, por exemplo, quanto o proprietário ganharia se utilizasse a área de preservação para agricultura ou pecuária, e então esse valor é pago a ele, que por sua vez se compromete a preservar a cobertura florestal do terreno. Além disso, o governo cobre parte dos custos com reflorestamento.

Já no Brasil, a lei obriga o produtor a não desmatar, porém não fornece estímulos para que isso ocorra. Todos os custos para preservação e reflorestamento são do proprietário. Inclusive, caso ele tenha comprado a terra já desmatada, ele é obrigado por lei a arcar com o reflorestamento da reserva legal, mesmo sem ter tido culpa no processo. “Na Europa se recebe para conservar, enquanto que no Brasil se paga”, afirma Bacha.

Nos últimos anos, no entanto, algo parecido ao que é feito na Europa tem ocorrido no Brasil, para a preservação de nascentes de água, mas em uma proporção menor. O proprietário de uma terra que tenha uma nascente recebe um incentivo financeiro de governos municipais ou ONGs para não poluir ou afetar essa fonte. Só que mesmo com uma forma de aplicação semelhante à europeia, o número de beneficiados pelo sistema é muito pequeno. “São milhares nos países da Europa, enquanto que no Brasil são apenas dezenas”, completa Bacha, sendo que aqui há uma quantidade muito maior de terras do que nos países europeus.

América do Sul
Com a comparação entre as políticas florestais brasileira e europeia já em estágio de conclusão, a pesquisa entra agora em uma segunda fase. A ideia agora é averiguar as políticas de outros países da América do Sul, como Argentina, Uruguai e Chile. Mais especificamente no que diz respeito ao reflorestamento, no qual esses países têm obtido bons resultados.

Neles, têm-se conseguido avanços nessa área através de vantagens tributárias dadas na produção de celulose e madeira. Já no Brasil, predomina a concessão de crédito rural ao plantio de florestas, mas aquém da dimensão necessária. O foco então é analisar os instrumentos utilizados nesses países, com características econômicas semelhantes à nossa, e ver se essa política tem feito a diferença nesse sentido.

De acordo com Bacha, ainda é cedo para afirmar se as práticas adotadas por esses países são uma opção para o Brasil, que tem proporções muito maiores. Não se pode dizer que uma política seja melhor que a outra, exatamente pelas diferenças entre os países. Mas pode-se considerar as políticas que tiveram algum tipo de sucesso e tentar adaptá-las à nossa realidade.

O estudo de Bacha é apoiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Imagem: wikimedia

Mais informações: (19) 3429-4444, ramal 8719, ou email cjcbacha@esalq.usp.br

Fonte: Agência USP de Notícias – http://www.usp.br/agen/

Editora Regência

CONTOS COTIDIANOS

A EDITORA REGÊNCIA oferece a oportunidade para que autores iniciantes ou não, debutem em suas carreiras literárias ou ampliem seu currículo, participando da antologia CONTOS COTIDIANOS, livro que contará não só com novos autores, mas também escritores já atuantes no universo literário… Entre eles Sergio Prado (A Terceira Regência, ANA) e Judith Nogueira (Matéria na revista Psique 10/2010 e autora dos livros Contos Sem Fadas e Do Movimento Ao Verbo).

Introdução

Tanto a captação de um diálogo em uma fila de banco quanto o hábito de trazermos para nossa realidade eventos que não ocorreram de fato e deles tomarmos nota, nos diferencia daqueles que apenas observam, imaginam, sem nada extrair ou formular.
Sempre idealizei um escritor como um deus com poderes ilimitados..

Veja mais em: http://www.editoraregencia.com.br/2010/12/contos-cotidianos.html#more

Preço da gasolina nos EUA é o maior em dois anos

Clifford Krauss

Os preços da gasolina atingiram seu nível mais alto em dois anos antes dos feriados de Natal, produzindo tensão entre os consumidores que tentam esticar seus dólares.

O preço da gasolina no varejo aumentou acentuadamente no último mês, acompanhando os preços do petróleo cru, que aumentaram com o surto de importações da China e o enfraquecimento do dólar.

O preço nacional médio da gasolina subiu durante a semana passada de US$ 2,90 para US$ 2,98 por galão (isto é, US$ 0,788 ou R$ 1,347 por litro), segundo o Relatório Diário de Avaliação de Combustível da Associação Americana de Automobilismo. Embora especialistas digam que os preços provavelmente já atingiram seu pico este mês, a gasolina na bomba hoje está US$ 0,35 por galão mais cara que um ano atrás.

O Serviço de Informação de Preços do Petróleo estimou que os consumidores pagaram US$ 34 bilhões este mês por gasolina, contra cerca de US$ 27,6 bilhões em dezembro de 2009 – dinheiro que poderia ser gasto nas compras de Natal.

Michael Niemira, economista chefe do Conselho Internacional de Shopping Centers, disse que os comerciantes ainda não parecem ter sido prejudicados de maneira significativa pelo aumento da gasolina. "Não parece importar tanto, porque estamos tendo uma atividade econômica mais intensa, o que compensa", ele disse.

Niemira também comentou que os 20% de famílias de renda mais alta representam quase 40% dos gastos no comércio, e esse grupo se beneficiou de um aumento na Bolsa no último ano.

Mas Tom Kloza, analista chefe de petróleo no Serviço de Informação de Preços do Petróleo, disse que o aumento dos preços da gasolina pode ter um impacto psicológico, pois os consumidores os veem afixados em toda parte.

Um aumento de 10% no preço do petróleo cru nas últimas três semanas, chegando a US$ 90, foi especialmente oneroso para algumas regiões do país, como partes de Long Island e da Nova Inglaterra, que ainda dependem de petróleo para o aquecimento. Na sexta-feira, o preço do petróleo caiu US$ 0,58, terminando o dia em US$ 87,79.

Larry Goldstein, diretor da Fundação de Pesquisas de Política Energética, uma organização parcialmente financiada pela indústria do petróleo, disse que o aumento dos preços começará a desacelerar a recuperação econômica no início do próximo ano.

"Quando chegarem as contas depois das compras de Natal, haverá menos renda disponível no bolso das pessoas por causa do aumento de gastos com petróleo, que elas não podem evitar", ele disse. Goldstein previu que os aumentos do petróleo cortariam em pelo menos 0,25 ponto percentual o Produto Interno Bruto do próximo ano.

Ele disse que o crescimento mais lento será uma "consequência negativa imprevista" da recente facilitação quantitativa do banco central americano (Federal Reserve), que resultou em uma redução do valor do dólar e incentivou investidores a aplicar em ativos duros como petróleo. Como o petróleo é apreçado em dólares, os corretores globais tendem a apostar na alta de seu preço quando o dólar cai em relação a outras moedas.

Analistas de energia disseram que os preços do petróleo e da gasolina estavam provavelmente próximos de seu pico de inverno, porque os americanos geralmente dirigem menos em janeiro e os preços tendem a cair. Mas quando o tempo esquentar eles preveem outro surto.

"Teremos uma recuperação na primavera que vai nos levar para entre US$ 3,10 e US$ 3,50" por galão de gasolina na bomba, previu Kloza.

Os países produtores de petróleo e países consumidores como os EUA têm estado bastante satisfeitos com os preços do petróleo nos últimos anos, porque permaneceram altos o suficiente para encorajar investimentos mas substancialmente mais baixos que três verões atrás, quando o cru atingiu US$ 147 o barril e os americanos pagaram US$ 4 por galão.

A Organização de Países Exportadores de Petróleo, que se reúne em Quito, Equador, neste sábado, não deverá modificar as cotas de produção de cru que foram definidas dois anos atrás. As autoridades do petróleo da Arábia Saudita, que são as mais poderosas na organização, disseram estar satisfeitas com um preço do petróleo de US$ 70 a US$ 90 o barril.

O recente aumento nos preços do petróleo e da gasolina reflete em parte a modesta recuperação econômica.

O Departamento de Energia dos EUA estimou que a demanda de petróleo em 2010 aumentou 1,7%, ou 320 mil barris diários, em comparação com o ano passado. O departamento espera que a demanda aumente 0,9% adicionais, ou 170 mil barris por dia, em 2011. O país hoje consome 19,1 milhões de barris por dia.

"A resistência da demanda de gasolina nos EUA foi uma surpresa nos últimos meses", afirma um relatório divulgado na sexta-feira pela Agência Internacional de Energia, organização sediada em Paris que assessora os países industrializados.

A maioria dos especialistas em energia diz que os preços do petróleo e da gasolina vão continuar subindo, embora possa levar anos para que se aproximem dos picos de 2008.

No relatório de sexta-feira, a agência aumentou sua previsão global para a demanda de petróleo cru em 2011, mas ainda projeta um aumento modesto de 1,4 milhão de barris/dia em relação aos níveis de 2010, para 88,8 milhões de barris/dia. Isso se compara a um aumento de 2,4 milhões de barris/dia em 2010 em relação a 2009.

Fonte: The New York Times – http://www.nytimes.com

A crise europeia, grande tabu do debate político francês

Arnaud Leparmentier

Sem conseguirem um acordo com Berlim, os partidários do euro temem que a crise contagie a França e que venha uma década de estagnação como a japonesa

Sem conseguirem um acordo com Berlim, os partidários do euro temem que a crise contagie a França e que venha uma década de estagnação como a japonesa

Fim de tarde da quinta-feira, 25 de novembro. O embaixador da Alemanha reuniu no Hôtel de Beauharnais [sede da embaixada alemã em Paris] a fina flor franco-alemã para apresentar Axel Weber, presidente do Bundesbank [Banco Central alemão], candidato não declarado à presidência do Banco Central Europeu (BCE). Assim que veio a primeira pergunta, um deputado da UMP se levantou. “Jacques Myard, eurocético!” E disse tudo que pensava sobre o euro, prevendo seu fim próximo. Sem que ninguém protestasse. Uma cena difícil de imaginar até um ano atrás: os pessimistas são bem-vindos, enquanto os partidários do euro não soltam um pio.

Nicolas Sarkozy não disse nada sobre a crise irlandesa em seu pronunciamento transmitido pela TV no dia 16 de novembro. François Fillon se calou em seu discurso de política geral na quarta-feira (24), ao passo que na véspera, na Assembleia, a ministra das Finanças, Christine Lagarde, retrucava ao deputado soberanista Nicolas Dupont-Aignan, que defendia uma saída do euro: “É preciso evitar jogar lenha na fogueira”. Não falar a respeito é o lema dos dirigentes políticos em um país que deu 55% de votos negativos para a Constituição Europeia em 2005.

O palácio do Eliseu lembrou no domingo que a França não era ameaçada. “É o grande tabu”, acusa Dupont-Aignan. “O debate deveria ser sobre se a França deve deixar o euro. Ele não aconteceu porque toda a classe política e midiática defendeu essa moeda durante dez anos com unhas e dentes. Seu mundo está caindo. Todos falam a respeito, e ninguém diz”, garante o soberanista. Dupont-Aignan pretende concentrar sua campanha presidencial de 2012 na saída do euro. Jacques Myard espera. Durante a última recepção dos deputados no palácio do Eliseu, ele disse a Sarkozy: “Não lhe farei perguntas sobre o euro, os fatos falarão por si”.

Os fatos são a grande angústia, considerando que o governo persiste, como fazia Édouard Balladur em 1993, quando ele explicava que o franco não tinha nenhuma razão para se desatrelar do marco alemão. O deputado socialista François Hollande explica o desespero dos partidários do euro, do qual ele faz parte. “O princípio é, quanto menos se fala a respeito, melhor, por medo que as atenções se voltem para a França, depois de Portugal e Espanha”, analisa o candidato à primária socialista para as eleições presidenciais. “O mal-estar se torna ainda maior pelo fato de que os eurófilos estão com peso na consciência. O grande argumento há anos em favor do euro era que ele nos protegia. Na melhor das hipóteses, ele tem levado a planos de austeridade”.

A resposta está na atitude em relação à Alemanha. “Vai chegar um momento em que os alemães se recusarão a pagar”, se preocupa Hollande. Os eurocéticos têm uma escolha natural se a Espanha quebrar: desatrelar-se da Alemanha, seja pela escolha de Berlim em deixar a moeda única, seja pela saída do euro por parte dos países do Sul, seguidos pela França.

O presidente da Fundação do Centro, Jean-Louis Bourlanges, não crê nisso: os países do Sul não podem abandonar o euro, pois dessa forma sofreriam uma situação como a da Argentina, incapazes de se financiar. Além disso, a Alemanha tem muito interesse em permanecer no euro, para manter sua competitividade dentro do velho continente, como fez a China em relação aos Estados Unidos. Nesse contexto, segundo Bourlanges, o risco é “ser condenado a uma década de crescimento agonizante à moda japonesa”, enquanto os países do Sul – diferentemente da Irlanda, vítima de uma bolha especulativa – têm uma crise de competitividade quase insolúvel.

“Os franceses pensam que estão vivendo a austeridade. Não é verdade, eles ainda não estão. Agem como se a França estivesse protegida. Mas existe um cenário sombrio que poderá acontecer antes das eleições presidenciais de 2012, se não houver crescimento, se a especulação voltar e se as dificuldades dos bancos irlandeses e espanhóis começarem a se espalhar”, avisa Hollande.

Para escapar disso, seria preciso uma coordenação com a Alemanha, que reciclaria seus excedentes comerciais na Europa como já se fez em outros tempos com os petrodólares, sugere Bourlanges. Essa coordenação não aconteceu, por não haver um acordo entre Paris e Berlim. Sarkozy, depois de desprezar o rigor competitivo iniciado pelo chanceler social-democrata Gerhard Schröder na primeira metade de seu mandato, agora aprova tudo que a Alemanha faz.  Ele realizou de forma atropelada uma reforma da previdência para manter a boa classificação da França pelas agências financeiras. “A reforma da aposentadoria feita por Nicolas Sarkozy serviu de substituto para uma política de ajuste”, acusa Hollande. Já a esquerda está bem irritada, pois “não poderá prometer muito”.

Os federalistas ruminam suas desilusões dos anos 1990, os alertas de Jacques Delors, presidente da Comissão, que repetia que o euro não levava necessariamente a uma união política. Muitos faziam de conta que acreditavam no contrário, e querem continuar acreditando. O eurodeputado do partido Verde Daniel Cohn-Bendit critica a recusa de Angela Merkel e de Nicolas Sarkozy em fazer um movimento federal e elogia o presidente do BCE. “Trichet foi o maior federalista durante toda a crise”, garante Cohn-Bendit, enquanto o socialista Dominique Strauss-Kahn, diretor-geral do FMI, defende “uma autoridade orçamentária centralizada” frente ao BCE.

Bourlanges lamenta o erro que levou a matar o governo econômico ao querer opô-lo ao BCE. E denuncia uma falsa acusação: “Ao contrário do que dizem todos os esquerdistas, comparando Trichet a Greenspan, o euro não estrangulava a economia. Pelo contrário, ele induziu a uma política permissiva. O pacto de estabilidade era rígido, mas não rigoroso”, diz Bourlanges.

Tradução: Lana Lim

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

Febre nacionalista sacode a Rússia

Pilar Bonet

A febre nacionalista se estendeu neste fim de semana pela capital da Rússia e duas de suas principais cidades (São Petersburgo e Rostov no Don), cenário de várias manifestações contra a população caucasiana e do linchamento, no domingo, de um homem de aspecto centro-asiático em Moscou.

O ambiente havia se aquecido no sábado, junto ao Kremlin, com a violenta concentração de 5.500 exaltados que, ao grito de "Rússia para os russos" e "Matar, matar, matar", estavam dispostos a agredir cidadãos de "aparência não eslava" em represália pela morte de um torcedor do time de futebol Spartak em 6 de dezembro em Moscou. O torcedor, um russo, morreu por causa de um disparo de ar comprimido em uma briga na saída de um jogo. O suspeito do homicídio é um originário de Kabardino-Balkaria, território na zona russa do Cáucaso. No domingo, uma multidão matou a golpes, pontapés e facadas um homem centro-asiático em Moscou.

A suposta passividade policial na proteção aos cidadãos procedentes do Cáucaso (concretamente, diante de membros de comunidades culturais e étnicas diferentes da russa) provocou uma onda de nacionalismo de consequências imprevistas. Em Moscou, cerca de 30 pessoas ficaram feridas e outras 66 foram detidas em distúrbios próximos ao Kremlin. Os manifestantes lançaram pedras e barras metálicas e destruíram os enfeites da árvore de Natal na Praça de Manezh, para continuar depois seus atos de vandalismo em várias estações de metrô. A imagem pela televisão do primeiro-ministro Vladimir Putin cantando em inglês e tocando piano em um concerto beneficente em São Petersburgo contrastava de forma surreal com o que acontecia nas ruas da capital.

Em São Petersburgo, no sábado, e em Rostov no domingo, também houve manifestações nacionalistas pelo suposto desamparo dos russos, a comunidade majoritária do Estado, diante dos oriundos do Cáucaso. Em Rostov, cerca de 500 pessoas saíram à rua gritando "Rostov é uma cidade russa" em protesto pela morte de um universitário em uma briga com outro estudante aparentemente da Ingúchia (norte do Cáucaso).

"Objetivamente, e à margem do desejo dos manifestantes, o que está em jogo é a secessão do norte do Cáucaso da Rússia", opina o cientista político Dmitri Furman, segundo o qual está ocorrendo uma segregação entre a comunidade russa e outras do Cáucaso. As autoridades centrais tentam em vão atacar a emigração de russos do Cáucaso e agora tentam conter a agressividade provocada pelos originários daquelas regiões em parte da população, que vê seus compatriotas caucasianos como fontes de problemas e delitos.

No sábado em Moscou agentes usaram um mínimo de força contra os manifestantes e "com perigo de suas vidas, renunciaram ao uso das armas", segundo o ministro do Interior, Rashid Nurgaliev. A atuação da polícia na capital provoca opiniões opostas. A agência de notícias Ria-Novosti elogiou os órgãos da ordem pública, alegando que se não fosse por sua contenção poderia ter havido mais vítimas, e que protegeram pessoas de "aparência não eslava" que se encontravam no lugar.

Os setores liberais, no entanto, salientaram o contraste entre a brutalidade da polícia contra a oposição democrática, quando esta sai pacificamente à rua para defender o artigo 31 da Constituição (liberdade de manifestar-se e reunir-se), e as contemplações mostradas com a massa de nacionalistas enfurecidos. Os 66 detidos foram libertados ontem.

O ex-vice-chefe da Duma estatal, Vladimir Rijkov, disse ontem que as manifestações em Moscou e São Petersburgo mostram que "na Rússia o fascismo está no auge". Rijkov pediu a demissão do chefe de governo, Vladimir Putin, e do vice-chefe da Administração Presidencial, Viacheslav Surkov, considerado um dos inspiradores dos grupos juvenis ligados ao Kremlin que se definem como antifascistas e que atuam contra os liberais, mas não contra os nacionalistas. Os acontecimentos de sábado mostraram que "se houver uma explosão social, esta não será democrática, como nos anos 80, e sim nacionalista e radical de esquerda, vermelha-escura", declarou o ex-ministro russo Andrei Nichaiev.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Fonte: El País – http://www.elpais.com/

Conto de Natal: Maria e José na Palestina em 2010

As novas espalharam-se rapidamente sobre o estranho nascimento de uma criança judia junto ao Muro, num estábulo palestino

James Petras

Os tempos eram duros para José e Maria. A bolha imobiliária explodira. O desemprego aumentava entre trabalhadores da construção civil. Não havia trabalho, nem mesmo para um carpinteiro qualificado.

Os colonatos ainda seriam construídos, financiados principalmente pelo dinheiro judeu da América, contribuições de especuladores de Wall Street e donos de antros de jogo.

"Bem", pensou José, "temos algumas ovelhas e oliveiras e Maria cria galinhas". Mas José preocupava-se, "queijo e azeitonas não chegam para alimentar um rapaz em crescimento. Maria vai dar à luz o nosso filho um dia destes". Os seus sonhos profetizavam um rapaz robusto a trabalhar ao seu lado… multiplicando pães e peixes.

Os colonos desprezavam José. Este raramente ia à sinagoga, e nas festividades chegava tarde para fugir à dízima. A sua modesta casa estava situada numa ravina próxima, com água duma ribeira que corria o ano inteiro. Era mesmo um local de eleição para a expansão dos colonatos. Por isso quando José se atrasou no pagamento do imposto predial, os colonos apropriaram-se da casa dele, despejaram José e Maria à força e ofereceram-lhes bilhetes só de ida para Jerusalém.

José, nascido e criado naquelas colinas áridas, resistiu e feriu uns tantos colonos com os seus punhos calejados pelo trabalho. Mas acabou abatido sobre a sua cama nupcial, debaixo da oliveira, num desespero total.

Maria, muito mais nova, sentia os movimentos do bebê. A sua hora estava a chegar.

"Temos que encontrar um abrigo, José, temos que sair daqui… não há tempo para vinganças", implorou.

José, que acreditava no "olho por olho" dos profetas do Antigo Testamento, concordou contrariado.

E foi assim que José vendeu as ovelhas, as galinhas e outros pertences a um vizinho árabe e comprou um burro e uma carroça. Carregou o colchão, algumas roupas, queijo, azeitonas e ovos e partiram para a Cidade Santa.

O trilho era pedregoso e cheio de buracos. Maria encolhia-se em cada sacudidela; receava que o bebê se ressentisse. Pior, estavam na estrada para os palestinos, com postos de controle militares por toda a parte. Ninguém tinha avisado José que, enquanto judeu, podia ter-se metido por uma estrada lisa pavimentada – proibida aos árabes.

Na primeira barragem José viu uma longa fila de árabes à espera. Apontando para a mulher grávida, José perguntou aos palestinos, meio em árabe, meio em hebreu, se podiam continuar. Abriram uma clareira e o casal avançou.

Um jovem soldado apontou a espingarda e disse a Maria e a José para descerem da carroça. José desceu e apontou para a barriga da mulher. O soldado deu meia volta e virou-se para os seus camaradas. "Este árabe velho engravida a rapariga que comprou por meia dúzia de ovelhas e agora quer passar".

José, vermelho de raiva, gritou num hebreu grosseiro, "Eu sou judeu. Mas ao contrário de vocês… respeito as mulheres grávidas".

O soldado empurrou José com a espingarda e mandou-o recuar: "És pior do que um árabe – és um velho judeu que violas raparigas árabes".

Maria, assustada com o caminho que as coisas estavam a tomar, virou-se para o marido e gritou, "Pára, José, ou ele dispara e o nosso bebê vai nascer órfão".

Com grande dificuldade, Maria desceu da carroça. Apareceu um oficial do posto da guarda, a chamar por uma colega, "Oh Judi, apalpa-a por baixo do vestido, ela pode ter bombas escondidas".

"O que acontece? Você já não gosta mais de apalpá-las?" respondeu Judith num hebreu com sotaque de Brooklyn. Enquanto os soldados discutiam, Maria apoiou-se no ombro de José. Por fim, os soldados chegaram a um acordo.

"Levanta o vestido e o que tens por baixo", ordenou Judith. Maria ficou branca de vergonha. José olhava para a espingarda desmoralizado. Os soldados riam-se e apontavam para os peitos inchados de Maria, gracejando sobre um terrorista ainda não nascido com mãos árabes e cérebro judeu.

José e Maria continuaram a caminho da Cidade Santa. Foram frequentes vezes detidos nos postos de controle durante a caminhada. Sofriam sempre mais um atraso, mais indignidades e mais insultos gratuitos proferidos por sefarditas e asquenazes, homens e mulheres, leigos e religiosos – todos soldados do povo Eleito.

Já era quase noite quando Maria e José chegaram finalmente ao Muro. Os portões já estavam fechados. Maria chorava em pânico, "José, sinto que o bebê está a chegar. Por favor, arranja qualquer coisa depressa".

José entrou em pânico. Viu as luzes duma pequena aldeia ali ao pé e, deixando Maria na carroça, correu para a casa mais próxima e bateu à porta com força. Uma mulher palestina entreabriu a porta e espreitou para a cara escura e agitada de José. "Quem é você? O que é que você quer?"

"Sou José, carpinteiro das colinas de Hebron. A minha mulher está quase a dar à luz e preciso de um abrigo para proteger Maria e o bebê". Apontando para Maria na carroça do burro, José implorava na sua estranha mistura de hebreu e árabe.

"Bem, você fala como um judeu mas parece mesmo um árabe", disse a mulher palestina a rir enquanto o acompanhava até à carroça.

A cara de Maria estava contorcida de dores e de medo; as contrações tornavam-se mais frequentes e intensas.

A mulher disse a José que levasse a carroça de volta para um estábulo onde eram guardadas as ovelhas e as galinhas. Logo que entraram, Maria gritou de dor e a palestina, a qual se juntou uma parteira vizinha, ajudou rapidamente a jovem mãe a deitar-se numa cama de palha.

E assim nasceu a criança, enquanto José assistia cheio de temor.

Aconteceu que passavam por ali alguns pastores, que regressavam do campo, e ouviram uma mistura de choro de bebê e de gritos de alegria e se apressaram a ir até ao estábulo levando as suas espingardas e leite fresco de cabra, sem saber se iam encontrar amigos ou inimigos, judeus ou árabes. Quando entraram no estábulo e depararam com a mãe e o menino, puseram de lado as armas e ofereceram o leite a Maria que lhes agradeceu tanto em hebreu como em árabe.

E os pastores ficaram estupefatos e pensaram: Quem seria aquela gente estranha, um pobre casal judeu, que chegara em paz com uma carroça com inscrições árabes?

As novas espalharam-se rapidamente sobre o estranho nascimento de uma criança judia junto ao Muro, num estábulo palestino. Apareceram muitos vizinhos que contemplavam Maria, o menino e José.

Entretanto, soldados israelenses, equipados com óculos de visão noturna, reportaram das suas torres de vigia que cobriam a vizinhança palestina: "Os árabes estão se reunindo junto ao Muro, num estábulo, à luz das velas".

Abriram-se os portões por baixo das torres de vigia e de lá saíram caminhões blindados com luzes brilhantes, seguidos por soldados armados até os dentes que cercaram o estábulo, os aldeões reunidos e a casa da mulher palestina. Um auto-falante disparou: "Saiam para fora com as mãos levantadas ou disparamos". Saíram todos do estábulo, juntamente com José, que deu um passo a frente de braços virados para o céu e falou:"A minha mulher Maria não pode obedecer às vossas ordens. Está amamentando o menino Jesus".

O original encontra-se no site de James Petras.

Tradução de Margarida Ferreira

Fonte: Jornal Brasil de Fato – http://www.brasildefato.com.br/

Com Berlusconi, "derrocada da Itália é inevitável"

Cathrin Schaer e Charles Hawley

O primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi sobreviveu milagrosamente a um voto de confiança no parlamento na última terça-feira

O primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi sobreviveu milagrosamente a um voto de confiança no parlamento na última terça-feira

Muita gente na Itália achava que o país poderia finalmente ver-se livre do “Cavaliere”. Mas não era isso o que o destino reservara aos italianos. O primeiro-ministro Berlusconi conseguiu sobreviver a dois votos de confiança na última terça-feira (14/12) para permanecer no poder.

No entanto, ao que parece este é um controle político precário.

A sua margem de vitória na casa inferior do parlamento italiano – com 314 votos favoráveis ao premiê e 311 contra – indica que Berlusconi poderá enfrentar dificuldades significantes para a aprovação dos seus projetos. O seu atual mandato de cinco anos só terminará em 2013, mas muitos analistas acreditam que antes disso haverá eleições.

“Sob o ponto de vista político e parlamentar, Berlusconi obteve uma vitória nítida”, afirmou na terça-feira, à agência de notícias Associated Press, Stefano Folli, um conhecido analista político italiano. “Mas, por outro lado, o governo dele estava fraco antes da votação, e continuará fraco depois dela”.

Mesmo assim, previsões do fim político de Berlusconi não foram exatamente raridades nos últimos anos, que foram marcados por todos os tipos de escândalos, desde alegações de conduta sexual condenável a corrupção. O primeiro-ministro sobreviveu a tudo isso – ao que parece, apostar no futuro dele é um risco.

Porém, a frustração entre a oposição é extrema. Confusões eclodiram na casa parlamentar inferior durante a votação da terça-feira, quando ficou claro que alguns parlamentares estavam mudando de lado e apoiando Berlusconi. Quando o resultado da casa inferior foi divulgado publicamente, os protestos nas ruas tornaram-se violentos. Cerca de cem pessoas saíram feridas nas manifestações, que incluíram apedrejamentos, incêndios de carros, destruição de vitrines de lojas e uso de gás lacrimogêneo. A polícia prendeu dezenas de pessoas.

Na quarta-feira, colunistas alemães analisaram atentamente as incertezas políticas na Itália e especularam sobre o futuro do país.

O jornal de centro-direita “Frankfurter Allgemeine Zeitung” disse:

“A maioria que ajudou Berlusconi a permanecer no cargo não é confiável; e ela não é suficiente para a construção de um governo estável. É quase inconcebível que o governo Berlusconi venha a contar com o poder necessário para implementar as reformas econômicas das quais o país tanto necessita – afinal, a Itália está sendo atentamente vigiada pelos mercados. Ainda que sob Berlusconi a Itália tenha experimentado um tipo de continuidade de liderança nem sempre associada ao país, os últimos anos foram anos perdidos. E existem poucas indicações de que essa situação mudará… Cresce a preocupação entre os parceiros da Itália na União Europeia de que a fragilidade de Roma esteja se tornando permanente”.

O “Suddeutsche Zeitung”, de centro-esquerda, opina:

“Berlusconi conseguiu mais uma vez salvar a própria pele – mas isso é um fato temporário. O futuro do seu governo não está de forma alguma garantido. O clima político poderá mudar novamente em breve; novas alianças poderão se formar e novos desafios surgir. Mas aquilo do qual a Itália realmente necessita diante da desoladora situação econômica do país e da turbulência dos mercados financeiros internacionais é de um governo capaz e estável.

Em vez de de concentrar nos problemas urgentes, Berlusconi deverá continuar desperdiçando um tempo valioso na tentativa de obter uma maioria para a aprovação de cada decisão. O premiê disse que o seu governo redobrará os seus esforços após o voto de confiança. Mas foi isso o que ele prometeu após o último voto de confiança em setembro. E ele fará isso novamente na próxima primavera. Mas, como sempre, nada acontecerá.

Cada vez mais, Berlusconi se parece com um mágico velho cujos truques pertencem a uma era passada. Antigamente tais truques fizeram sucesso, mas atualmente eles são basicamente entediantes. Berlusconi repete continuamente as mesmas velhas promessas que faz desde 1994. Durante 16 anos, a Itália vem esperando que ele as cumpra. Assim como Berlusconi utiliza meios cosméticos (e cirurgia plástica) para melhorar a sua aparência física.. ele está agora usando palavras simpáticas em uma tentativa de maquiar o seu governo cambaleante. Nem uma só palavra de autocrítica foi proferida. Berlusconi zomba da realidade e ignora os números como se o seu governo… não tivesse fracassado há muito tempo. Quando Berlusconi fala, a impressão que se tem é que ele não lê as estatísticas e que não ouve o que os críticos das suas políticas econômicas vêm dizendo – um grupo que inclui o presidente do banco central italiano, bem como as principais companhias e os sindicatos da Itália. Ele também mostrou-se ignorante no que diz respeito aos trabalhadores, aos desempregados, aos estudantes e às vítimas do terremoto de L’Aquila”.

Já o “Die Tageszeitung”, jornal de esquerda, faz a seguinte análise:

“Aqueles que gostam de reclamar do estado em que se encontra a política alemã deveriam observar a Itália e aquilo que foi apresentado como um sinal de esperança nas últimas duas semanas. Lá, o governo liderado por um empresário truculento chamado Berlusconi ficou perturbado pelo fato de um ex-neofascista chamado Fini ensaiar um passo carreirista. Segundo as pesquisas, novas eleições não teriam mudado nada… Mas as coisas não chegaram sequer a tal ponto. Silvio Berlusconi poderá continuar sendo o representante apropriado de um país cuja derrocada é quase inevitável.

Atualmente a mídia oposicionista está debatendo tópicos como a crise de euro e desentendimentos da coalizão, como se estes tópicos tivessem a mesma importância que conflitos de interesse e relações sexuais com menores de idade. Enquanto Berlusconi continuar atendendo às necessidades de entretenimento da população e poupando a maioria de sofrimentos políticos, ele só poderá lucrar com toda essa confusão”.

O conservador “Die Welt” analisa as coisas dessa forma:

“As leis da gravidade política não parecem se aplicar a Berlusconi. Ainda que recentemente o ar tenha se tornado mais rarefeito para ele, os seus oponentes políticos não deveriam apostar em um fim rápido do ‘Cavaliere’.

Há 16 anos, Berlusconi ingressou no palco político com a promessa de finalmente simplificar o cenário político italiano. Ele desejava tornar mais nítidos os contornos da centro-direita italiana, eliminar a calcificação política do país e reorientar a política para longe do clientelismo e em direção ao bem estar comum… E ele fracassou estrondosamente em relação a essas tarefas.

Por mais paradoxal que isso pareça ser, tais fatos tornam o seu sucesso ainda mais impressionante. Ele sobreviveu a uma profusão de escândalos e ataques que teriam significado o fim da carreira de qualquer político de menor calibre. Existe algo de miraculoso em relação à segurança de aparência onírica que ajudou Berlusconi a se manter no poder. E há também um outro lado desse fenômeno: quando a estrela de Berlusconi não mais brilhar, os italianos acordarão em meio a uma terra arrasada na qual as montanhas de lixo e os projetos não concluídos se destacarão”.

O “Financial Times Deutschland” argumenta:

Talvez Silvio Berlusconi venha a encarar o voto de confiança de ontem no parlamento como algo sobre o qual deva refletir. Talvez ele perceba que a situação não poderá permanecer como era antes – como a elevada dívida nacional, o vergonhoso crescimento econômico abaixo da média, a corrupção, os protestos estudantis e as pilhas de lixo não recolhido. É possível que ele consiga enfrentar a situação e apresentar um plano para o futuro do país. No entanto, isso não é provável. O mais provável é que ele continue seguindo em frente na mesma rota, contanto que seja capaz de permanecer no poder”.

Fonte: Der Spiegel – http://www.spiegel.de/

Cartografia do excesso

Brian Holmes

Ideias utópicas – como a ideia da "Terra espaçonave" – são circulares, multidimensionais, interrelacionadas: seu mapa arquetípico é a Via Láctea, as constelações infinitas. Mas o pensamento racional é instrumental, linear, ele distorce: e este é, exatamente, o problema com o mapa Mercator, a projeção mais comum do mundo. Buckminster Fuller, inventor da abóbada geodésica, criou o "Mapa Dymaxion"  para corrigir aquelas distorções. Primeiramente, a Terra se transforma em uma figura geométrica, um icosaedro: seus vinte triângulos se separam e são colocados, então, num plano, de modo que as massas da Terra irradiam de um nexo ao norte, sem separar os continentes ou ampliar as regiões polares. Fuller baseou suas ideias políticas nesse mapa: na “Expo Mundial de 1967” em Montreal, na cúpula do pavilhão dos EUA, ele quis apresentar uma projeção vasta de Dymaxion, e a animou com as estatísticas mais modernas, para que os visitantes pudessem visualizar o fluxo de recursos através da Terra e identificar os padrões estruturais, as desigualdades, as soluções com mais desperdícios ou as mais eficientes. As delegações das diferentes regiões deveriam se reunir para participar de sessões cooperativas, em um processo de resolução de problemas chamado "World Peace Game" jogo da paz mundial1. A ideia por trás dele era simples: igualdade funcional, democracia radical. “Fazer com que o mundo funcione para 100% da humanidade o mais rápido possível, com a cooperação espontânea, sem danos ecológicos ou desvantagens para qualquer um”2.

Gerardus Mercator era um estudioso protestante de Flanders; publicou seu mapa em 1569, para ajudar navegantes europeus a traçar rotas às costas distantes. A habilidade de navegar em linha reta levou ao mundo da economia capitalista. Oyvind Fahlström era um artista sueco que passou sua juventude no Brasil e morreu nos EUA. Seu mapa mundi foi pintado em 1972, pouco depois de Fuller imaginar sua utopia. O mapa de Fahlström se parece com a projeção Mercator: mas os oceanos praticamente desapareceram, os continentes são esmagados ou inflados pelas pressões políticas que a economia mundial traz. O espaço transborda com conflitos entre ricos e injustiçados, a CIA e aqueles que lutam pela liberdade, os capitalistas, os comunistas, os revolucionários.

Fahlström estava interessado na resistência e no excesso: pelos quais quero dizer a política mais a subjetividade do transbordamento, as estatísticas mais a invenção figurativa. Para ele, um mapa era um espaço plano governado por um sistema de regras, que servia para o jogo social; mas era igualmente um território aberto para um jogo imaginário3. No início dos anos 1970 ele criou uma série de jogos de tabuleiros de monopólio Monopoly, conhecido no Brasil como Jogo Imobiliário (Monopólio da CIA, Monopólio do comércio mundial, Indochina etc), nos quais a informação política e econômica fornece regras inflexíveis, seja qual for a paixão, seja qual for a nossa criatividade. Contudo, um trabalho como o seu Pentagon Puzzle (Quebra-cabeças Pentágono) – que inclui um detalhe de uma Terra quadrada e acorrentada – pôde igualmente ser desmontado, dispersado e suas partes introduzidas em outro jogo.

A utopia de Fuller não foi aceita para o pavilhão dos EUA em 1967: na entrada, os oficiais colocaram uma enorme águia dourada. Mas, hoje, o acesso à internet colocou grandes volumes de informação ao nosso alcance. Agora qualquer pode usar recursos de mapeamento. “O aspecto comunicativo do meu trabalho pode ser vastamente ampliado mediante o uso dos computadores e pelo uso da televisão, do vídeo e da tendência de miniaturização da comunicação em vídeo…. milhões de pessoas e multibilhões de dólares estão envolvidos apenas no desenvolvimento de tais equipamentos, pessoal especializado e knowhow, “escreveu Fuller em 19704. Parte da herança de Fuller está em osEarth Inc., uma usina de ideias (think-tank) e um compilador de base de dados que organiza sessões do jogo mundial em um gigantesco mapa Dymaxion, uma experiência de aprendizagem para os jovens. Entretanto, essa experiência é igualmente vendida às equipes de negócio das corporações listadas pela Fortune 500. “A sociedade civil global”, com todas suas cumplicidades e manipulações, está enquadrada no mapa de nossa situação atual.

Alguém duvida que as pinturas do monopólio de Fahlström, com seu enfoque na confrontação política, se aproximam muito mais dos jogos que o mundo realmente joga? Contudo as recentes rodadas de negócios e as demonstrações globais ainda lembram as ideias básicas de Fuller, igualdade funcional, democracia radical. E se começa a questionar: onde estão os artistas-cartógrafos de hoje?

Linhas de poder

O grupo conceptual baseado em Paris, Bureau d’Etudes, trabalha intensamente em duas dimensões. Para uma exposição recente chamada "Planeta dos Macacos" eles criaram pôsteres integrados dos laços de propriedade entre organizações transnacionais, uma visão sinóptica do jogo monetário mundial. Contra um fundo preto, formas semelhantes a brasões são decorados com os nomes dos estados, corpos de controle, think tanks, empresas e corporações financeiras. Entre essas formações são afixados textos sobre privatização e flexibilização. Alguns pontos levam às zonas azuis, cômico e surreal, como word-balloons (balões com diálogos) ou oceanos psíquicos: estes contêm contra-informação de grupos autônomos, manifestos, constituições, chamadas à ação…

Em vez de um catálogo, o visitante recebe três “Crônicas dos tempos de guerra” (Wartime Chronicles), folhas únicas que dividem os jogadores do poder em regiões de sobreposição. Uma delas é um polo de finanças, com fundos de pensão, gerentes de empresas e bancos, além de zonas cinzentas de fundações legitimadoras de poder. Outra mostra empresas de telecomunicações, grupos de mídia, redes de distribuição de bens de consumo. Então você quer chamar a polícia para deter esses criminosos? As instituições militares, as agências de inteligência, os fabricantes de armas e as companhias de satélites completam o quadro. Algumas citações aparecem nas laterais das folhas, como esta do artista Fabrice Hybert: “Meu primeiro colecionador, bem, grande colecionador… era um mediador para a Otan e grandes estruturas como essas, a Otan e países africanos ou sul-americanos, algo assim, outro era um mediador para toda a indústrias armamentista, bem, vocês sabem, é horrível mas ele tem esta capacidade de abstrair-se dessa cena… Eu, eu gosto de pessoas como essas"5.

Se os artistas estão falando naqueles termos, por onde você pode escapar? Existe uma aposta nessa exposição: pinte um retrato totalitário, totalmente preto, e as pessoas vão procurar rachaduras que conduzem a alguma outra dimensão. Outro folheto para levar, um texto de oito páginas chamado “Potenciais” explora o “conhecimento autônomo/poder” – ou a desconstrução e a reconstrução de máquinas complexas – com uma análise política de diferentes posições anarquistas, bem como mapas ou figuras que listam produtores dissidentes do conhecimento, squats e hacklabs, e um esquema que relaciona várias formas de trocas não-capitalistas. Um não-preço (0 euro) e uma nota contratual figuram em cada uma das folhas: “A presente publicação não pode ser adquirida, vendida ou destruída. Todas as pessoas podem, todavia, usá-la como quiserem, com a obrigação de dá-la a outros se desejar”.

Esse último detalhe tem sua importância. Como Bruce Sterling disse recentemente: “A informação quer ser desvalorizada” – quer dizer, desvalorizada em termos monetários6. E, para além da lógica do computador de software livre, o grande projeto alternativo da última década tem traçado o espaço transnacional investido primeiramente pelas corporações, e tem distribuído esse conhecimento livremente. Este é o real poder da “cooperação espontânea”, em um projeto da informação global como a Indymedia. Por uma década ou mais, do início dos anos 1980 a meados dos anos 1990, as réguas da economia neoliberal foram escondidas nos buracos negros de paraísos fiscais. Hoje, uma enormidade de projetos como Planeta dos Macacos está se tornando cada vez mais visível7, ao ponto de que uma nova resistência significa que podemos começar a imaginar – ou a explorar –, mais uma vez, um mapa radicalmente diferente do planeta.

Fuller teria adorado o desenho da internet, que torna possível o compartilhamento da informação para o jogo mundial. Fahlström, o admirador do cartunista Robert Crumb, teria amado a multidão dos Dias da Ação Global: autônoma e selvagem, inteligente e com pés ligeiros. O Bureau d’Etudes pertence a essa multidão. Colaborando com os squats, os desempregados e os sans papiers (sem documentos), operando um espaço auto-gerido em Estrasburgo, o Syndicat Potentiel e combinando-o com a Université Tangente, um projeto para a produção autônoma do conhecimento, ele começou silenciosamente a transmitir uma intransigência pragmática a outros da cena francesa da arte, dominada pelos gostos de Fabrice Hybert. Um nível novo de engajamento foi marcado pelo encontro deles com a rede No-Border para o curso de verão de Estrasburgo em 2002, uma tentativa de subverter uma das mais poderosas linhas de poder: o sistema de informação Schengen. Atividades como essas simplesmente não podem aparecer nos muros do mundo da arte. Neste sentido, metade do trabalho do Bureau d’Etudes permanece subterrânea: as recusas e as denúncias são claras, a cooperação e o jogo subjetivo permanecem quase invisíveis. E talvez seja melhor desse modo: como é possível representar com sucesso uma experiência alternativa radicalmente democrática?

Usos incertos

Um projeto sofisticado de mapeamento em multimídia tentou responder apenas a essa pergunta. A tela à sua frente mostra uma massa de cor púrpuro-negra, salpicada de constelações hipnóticas: aos poucos você nota que se trata de uma foto noturna da Europa urbanizada, com retângulos brancos que marcam as zonas de atividade potencial. A cena é interrompida: música toca, cartas dançam e rolam, soletrando palavras; e você começa a vagar dentro de uma matriz de telas autônomas ligeiramente elevadas. Você está cercado por séries distintas de imagens impositivas e estáticas em preto e branco de construções arquitetônicas; e depois por fotos coloridas instantâneas de pessoas que se misturam livremente em cenas do cotidiano; e entrevistas suspensas em preto e branco com enormes cabeças falantes; e então por um vídeo lírico que percorre labirintos do território urbano. Pare na frente de uma tela, e uma história específica, localizada, se desdobra: cenários arquitetônicos, atores, história individual, trajeto subjetivo pela cidade. Até que a cena se quebra, a língua rola, a música toca, e as permutações recomeçam diferentemente. Nas franjas do mundo da arte, um grupo de urbanistas criou um dos sistemas de representação visual mais impressionante que surgiu nos últimos anos: USE (USO, no português), ou o “Uncertain States of Europe” (“Estados incertos da Europa”), um projeto de Stefano Boeri e Multiplicity.

Multiplicity é um grupo de pesquisadores interligados que explora o território europeu conforme ele muda, em vinte e seis locais diferentes de Atenas a Espoo, de Porto a Bucareste ou Moscou. A premissa básica é que as fronteiras são inapreensíveis, que programas arquitetônicos e os limites urbanos são instáveis – mas, em toda parte, o excesso subjetivo de “inovações autopoéticas” cria padrões de mudança reconhecíveis, pelo menos para o observador que se mistura a elas. Para Boeri, cujo objetivo é desconstruir um planejamento urbano antiquado, o olhar se vê é “o triunfo da multitude”: transformando-se consistentemente, mas com padrões completamente imprevisíveis de auto-organização situados em ambientes construídos que, cada vez mais, perderam sua função predeterminada. Assim, uma das sequências (palavra-chave: détournement – desvio, em português) conta como os usos da comunidade chinesa transformaram completamente o programa ideal de um enorme quarteirão habitacional moderno no 13º distrito de Paris. Outro (palavra-chave: eruption – erupção) lida com a organização cuidadosa das caóticas raves, “nomadic flames” (chamas nômades): “Os trajetos de milhões de ravers e de tribos que invadem as ruas da Europa todos os finais de semana nos deixam cada vez mais distantes de um destino preciso, funcional8.

A referência à multidão no texto de Boeri e, certamente, às telas do USO, lembra o pensamento político da autonomia italiana, com o “êxodo” com um de seus temas centrais, a retirada consciente do planejamento modernista e do trabalho assalariado. Obviamente se trata de um dilema para os urbanistas tradicionais, ou para qualquer político que queira exercer o controle: “Escapar desta condição de impotência implica simplesmente na aceitação de ingovernabilidade de uma grande parte do território contemporâneo”, escreveu Boeri. Isso, por outro lado, significaria “aprender a agir em um contexto dirigido por diferentes sujeitos, altamente variáveis”9. É o que chamaria de uma situação de democracia radical.

Mas a grande questão que permanece é como usar uma instalação como o USO, e como usar o modelo operacional de um grupo de pesquisa em rede colaborativa como a Multiplicity. O dispositivo da exposição, em si, elaborado fora do sistema galeria-revista-museu, é a melhor instalação que já vi sobre o processo social interativo: com sua extensa matriz de telas/monitores, ela abre um território real e imaginário, um mundo multidimensional interrelacionado de liberdades subjetivas. Mas até que ponto ele é politicamente eficaz? “Resistir não é ser contra, não mais, mas singularizar”, escreveu Suely Rolnik, refletindo sobre as mudanças de significados da prática artística desde a Grande Recusa dos anos 1960. “Todo e qualquer ato de resistência é um ato de criação e não um ato de negação”10.

Dito belamente – mas não tenho certeza. O grande balanço teórico das três últimas décadas, da negação crítica sobre o valor do uso e da afirmação subversiva, deixou as práticas “progressivas” abertas a todas as forma de cooptação e cumplicidade. Apesar dos processos autopoéticos que uma instalação como o USO tão brilhantemente nos leva a enxergar, o planeta inteiro – a Terra espaçonave – é vítima do ressurgimento da autoridade repressiva, dentro do jogo perfeitamente legítimo do mundo de economia capitalista. A Itália de Berlusconi, onde esse projeto foi mostrado, não é uma exceção: e, no entanto, é também um dos laboratórios para novas formas de mobilização política. Podemos imaginar representações artísticas de processos auto-organizados em confronto aberto com o jogo econômico? “As regras se opõem e descarrilam a subjetividade, afrouxando os circuitos impressos do indivíduo”, escreveu Oyvind Fahlström. É somente então que um território mais profundo emerge, um jogo de interação mais complexo. Linhas de poder/democracia radical.

Brian Holmes, é pesquisador do Bureau d’Etudes & Multiplicity.

Traduzido por Germana Barata

Notas

Este texto foi originalmente publicado em alemão no jornal Springerin, Viena, Março 2002.

1. “A suposição comum dos poderes políticos principais de nosso planeta de que a guerra é a última solução causou o desenvolvimento da World WAR Gaming Science (ciência do jogo da GUERRA mundial) por parte das estratégias militares respectivas das grandes potências. A World WAR Gaming Science envolveu todos os recursos terrestres. Minha World PEACE Gaming Science (ciência do jogo da PAZ mundial) muda a premissa básica sobre a incapacidade fundamental da manutenção total das funções vitais e implica na capacidade total para o êxito de todos os seres humanos”. Buckminster Fuller, “Preamble and memorandum to those interested in playing world game”, In: The world game: integrative resource planning tool (Carbondale, Ill.: Southern Illinois University, typescript, 1971), p.2, disponível em: . Fuller é, claro, quem cunhou a expressão “Terra espaçonave”.

2. Citado em Medard Gabel, "Buckminster Fuller and the Game of the World," disponível em: . Obrigado a Hubert Salden por ter me colocado neste caminho.

3. Uso a distinção de Suely Rolnik’s entre “playing-the-game” jogando o jogo e  “just-playing” apenas jogando,  em “Oyvind Fahlström’s Changing Maps”, exhib. cat. Oyvind Fahlström: Another Space for Painting, MACBA, Barcelona, 2001.

4. Buckminster Fuller, “Preamble and Memorandum”, op. cit., p. 6.

5. Entrevista em 2 de maio de 1996, com Fabrice Hybert, artista que representou a França na Bienal de Veneza, em Bureau d’Etudes, Chroniques de guerre 2, brochure, February 2002.

6. Bruce Sterling, “Information wants to be worthless”, distribuída gratuitamente no Nettime, 6 de março de 2002, arquivada em: http://nettime.org. Deixe-me lembrar que um dos laços mais ricos do Nettime ao longo dos anos diz respeito à “high-tech gift economy” (economia do dom da alta tecnologia).

7. Os esboços diagramáticos e fichamentos de escândalos bancários de Mark Lombardi’s, ou o website “TheyRule” de Josh On and Futurefarmers (www.theyrule.net), se aproximam de projetos recentes do Bureau d’Etudes. “TheyRule” introduz o método DIY de rastreamento de corporações: os usuários podem construir diagramas a partir da participação de um único CEO diretor-presidente, em português em conselhos administrativos corporativos. No entanto, nenhum projeto possui as ambições sinópticas do Bureau d’Etudes.

8. Paolo Vari, “USE.04 Raves”, In: exhib. cat. Mutations, arc en rêve centre d’architecture, Bordeaux, 2000.

9. Stefano Boeri, “Notes for a Research Program”, In: Mutations, op. cit.

10. Suely Rolnik, “Oyvind Fahlström’s Changing Maps”, op. cit.

Fonte: Com Ciência – http://www.comciencia.br

Biotecnologia na agricultura

Helaine Carrer; André Luiz Barbosa; Daniel Alves Ramiro

A expectativa de o crescimento populacional atingir 9 bilhões de habitantes em 2050 em adição às questões da sustentabilidade e do aquecimento global nos desafiam a aumentar a oferta de alimentos. Uma metodologia alternativa que contribua para a redução do impacto desse cenário envolve a biotecnologia, que, nas últimas décadas, trouxe marcantes oportunidades tecnológicas na agricultura, resultando em relevante desenvolvimento na obtenção de novas variedades de plantas, na melhoria da qualidade de diversos alimentos e atualmente também na bioenergia. As técnicas biotecnológicas envolvendo os marcadores moleculares, a genômica e a transformação genética estão transformando a agricultura e são discutidas neste artigo.

Histórico

Embora pensemos a biotecnologia como uma tecnologia recente, sua origem pode ter ocorrido há mais de seis mil anos, a partir dos relatos de que os micro-organismos eram usados nos processos fermentativos para produção da cerveja e do pão. No entanto, as bases fundamentais da biotecnologia agrícola consideram a biologia molecular e as técnicas relacionadas como os eventos mais importantes da história da biotecnologia.

Num primeiro momento, a biotecnologia esteve centrada na questão da saúde humana e animal, em que se utilizou de micro-organismos para a fabricação de antibióticos. Relatos de culturas de células in vitro são datados da Segunda Guerra Mundial, quando cultura de Penicillum notarum era usada para a produção do antibiótico penicilina cuja ação como antibiótico foi descoberta por Alexander Fleming em 1929 (Bennett & Chung, 2001). Mas foi na década de 1970 que ocorreu o início das metodologias de uso do DNA recombinante e do sequenciamento do DNA que proporcionaram grandes avanços na ciência de plantas. A seguir, foram listados os principais eventos que marcaram os avanços da biotecnologia desde 1953 quando James Watson e Francis Crick descreveram a estrutura do DNA até os dias atuais.

É marcante como a biotecnologia tem revolucionado a agricultura com modernas tecnologias que nos permitem identificar e selecionar genes que codificam características benéficas para serem usados como marcadores moleculares nos processos de seleção assistida, ou ter a expressão de um determinado gene em outro organismo por transgenia e, assim, com maior precisão, obter novas características agronômicas e nutricionais desejáveis nos cultivos de plantas.

Ano Eventos históricos da biotecnologia

1953: A revista Nature publicou o manuscrito de James Watson e Francis Crick que descrevia a estrutura dupla-hélix do DNA. A descoberta da estrutura do DNA resultou em uma explosão de pesquisas em biologia molecular.

1956: Heinz Fraenkel-Conrat demonstrou como uma parte do vírus do mosaico do tabaco pode se remontar e ser funcional.

1957: Francis Crick e George Gamov elaboraram o "dogma central"sobre como fun-ciona o DNA para produzir proteínas.

Matthew Meselson e Frank Sthal demonstraram o mecanismo da replicação do DNA.

1958: O National Seed Storage Laboratory (NSSI) foi aberto em Forti Collin no Colorado (Estados Unidos), tornando-se a primeira instalação de armazenamento de longo prazo de sementes no mundo.

1965: Cientistas noticiaram que os genes que levam a resistência aos antibióticos em bactérias são frequentemente estruturas extracromossomais denominadas plasmídeos.

1966: Marshall Nirenberg, Heinrich Mathaei e Severo Ochoa demonstraram que uma sequência de três bases de nucleotídeos (códon) determina cada um dos 20 aminoácidos.

1970: Howard Temin e David Baltimore, trabalhando independentemente, isolaram a transcriptase reversa, uma enzima de restrição que corta a molécula do DNA em regiões específicas. O trabalho descreveu como o RNA viral que infecta uma bactéria hospedeira usa essa enzima para integrar sua mensagem dentro do DNA hospedeiro. Essa descoberta levou os cientistas a criar clones de bactérias e a observar seu funcionamento.

1972: Paul Berg isolou e empregou uma enzima de restrição para cortar o DNA e a DNA ligase para unir duas fitas de DNA e formar uma molécula circular híbrida. Esta foi a primeira molécula de DNA recombinante.

1973: Stanley Choen, Annie Chang e Herbert Boyer usaram setores de DNA viral e DNA bacteriano com as mesmas enzimas e produziram o primeiro plasmídeo com DNA recombinante, plasmídeo com dois genes de resistência a antibióticos.

1974: Satanley Choen e Herbert Boyer demonstraram a expressão de um gene implantado em bactéria por DNA recombinante.

1977: Genentech, Inc. mostrou a produção da primeira proteína humana (somatostatina) sintetizada em uma bactéria.

Walter Gilbert e Allan Maxam, na Universidade de Harvard e Frederick Sanger, na Inglaterra, desenvolveram o método de sequenciamento de DNA.

1978: Gentech, Inc. e o Centro de Medicina Nacional anunciaram a produção de insulina humana usando a tecnologia do DNA recombinante em laboratório.

David Botstein estabeleceu a técnica de RFLP para análise de polimorfismo

1980: Kary Mullis e outros desenvolveram a técnica de PCR (reações polimerase em cadeia).

1982: Gentech, Inc. recebeu aprovação da FDA para comercializar insulina humana modificada geneticamente.

1983: Patentes foram aprovadas para plantas geneticamente modificadas.

1985: Plantas geneticamente modificadas resistentes a insetos, vírus e bactéria foram testadas em campo pela primeira vez.

1986: O EPA aprovou a liberação da primeira planta de tabaco geneticamente modificada.

1987: Calgene, Inc. obteve a patente da sequência de DNA da poligalacturonase de tomate usada para produzir uma sequência de RNA antissenso que aumenta o tempo de longevidade dos frutos.

1990: Michael Fromm reportou transformação estável de milho utilizando bombardeador de gene.

Consórcio internacional foi estabelecido para o sequenciamento do genoma humano

1994: A FDA aprova o primeiro produto alimentício geneticamente modificado (GM), o tomate FlavrSavr®

1995: O Comitê Assessor Australiano (Gmac) permite liberação comercial de cravos azuis geneticamente modificados.

1997: Pesquisadores do Instituto Roslin na Escócia clonaram a ovelha chamada Dolly.

1998: Quarenta milhões de hectares de culturas GM são plantadas globalmente. Predominantemente soja, algodão, canola e milho.

Liberação comercial da soja transgênica tolerante a herbicida é concedida no Brasil e em seguida proibida por determinação judicial.

2000: O genoma da Arabidopsis é completamente sequenciado.

É criada uma variedade de arroz GM com o gene precursor da vitamina A.

2001: Sequenciamento completo da bactéria fitopatogênica Xyllela fastidiosa por consórcio de pesquisadores brasileiros.

Consorcio do Genoma Humano e o grupo Celera publicam o genoma humano

2002: O sequenciamento completo do genoma do arroz é realizado por um consórcio internacional.

A ovelha Dolly morre por problemas respiratórios.

2003: Plantas de canola tolerantes a herbicida e milho resistentes a lagartas são aprovadas nos Estados Unidos.

Milho GM tolerante a herbicidas é aprovado para uso como alimento na Austrália.

É estabelecida a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) com finalidade de prestar apoio técnico consultivo e assessoramento ao governo federal na formulação, atualização e implementação da Política Nacional de Biossegurança relativa a Organismos GM. Liberação da soja transgênica tolerante a herbicida no Brasil.

2006: Liberação nos Estados Unidos do arroz GM para consumo humano.

Uvas geneticamente modificadas são testadas na África do Sul.

2007: Liberação experimental de cana transgênica com alto teor de açúcar no Brasil pela empresa Allelyx/Monsanto.

Liberação comercial de milho GM resistente a inseto e tolerante a herbicida no Brasil.

2008: Pesquisadores australianos desenvolvem plantas com altos níveis de um ácido graxo (UFA) para produzir plásticos, tintas e cosméticos.

Pesquisadores japoneses desenvolvem a primeira rosa azul GM.

Liberação comercial de algodão GM tolerante a herbicida no Brasil.

2009: Liberação comercial da soja GM tolerante a herbicida e algodão resistente a inseto no Brasil.

Desenvolvimento da terceira geração de plantas GM com propriedades como tolerância a alta salinidade e seca, ou para produção de produtos farmacêuticos como vacinas orais, e produtos especializados como plástico biodegradável.

2010: Craig Venter cria "célula sintética" a partir de um genoma sintetizado em laboratório

Biotecnologia e agricultura

O estabelecimento de uma agricultura sustentável, que preserve o meio ambiente e proporcione segurança alimentar futura, é um fator primordial para o desenvolvimento da humanidade ante as mudanças climáticas e o declínio das reservas energéticas não renováveis. Diante das previsões de crescimento populacional mundial, atingindo nove bilhões de habitantes em 2050 (Ash et al., 2010), existe o desafio de criar métodos avançados e eficientes para aumentar a produção de alimentos e energia renovável sem, contudo, esgotar os recursos naturais. Em 2050, o mundo provavelmente estará vivendo sob a influência de três grandes crises anunciadas: a diminuição das reservas de petróleo, a escassez de água potável e a falta de alimentos para grande parte da população. Nesse cenário, a biotecnologia de plantas ocupa papel central na busca de soluções para atenuar os problemas, atuais e futuros, causados pelo estilo de vida adotado pelo homem.

No Brasil, o desenvolvimento do etanol combustível mostrou ser uma alternativa viável para reduzir a dependência do petróleo. Entretanto, a maioria das regiões agriculturáveis do planeta não possui as condições edafoclimáticas necessárias para o cultivo de plantas com potencial para a produção de biocombustíveis. Em contrapartida, o cultivo extensivo e exclusivo de plantas para a produção de energia pode gerar problemas no abastecimento de alimentos para a população, como escassez e elevação de preços. Nesse contexto, a biotecnologia se insere como propulsora para o aumento da produtividade, da qualidade da produção e para o desenvolvimento de plantas adaptadas a diversas condições ambientais de espécies com potencial energético. Em adição, a biotecnologia atua no desenvolvimento de outras fontes de bioenergia como a produção de biocombustíveis a partir de algas transformadas geneticamente (Beer et al., 2009).

Atualmente, o Programa Fapesp de Pesquisa em Bioenergia (Bioen) fornece aporte financeiro para projetos que têm por objetivo promover o avanço do conhecimento e sua aplicação em áreas relacionadas à produção de bioenergia no Brasil (http://bioenfapesp.org). Entre esses projetos, estão em andamento estudos que visam à análise funcional de genes envolvidos na fotossíntese da cana-de-açúcar, ao aumento do teor de sacarose, à análise da biossíntese da parede celular, à obtenção de plantas que apresentem tolerância a seca, entre outros. O objetivo comum desses projetos é o desenvolvimento, em curto prazo, de tecnologias que permitam uma produção eficiente de energia renovável.

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), estima-se que há no mundo mais de 1,2 bilhão de pessoas sem acesso à água potável, representando cerca de 20% da população mundial (Unesco, 2007). A agricultura é responsável por cerca de 70% do consumo de água do planeta (Aquastat-FAO, 2010), e o uso descontrolado de pesticidas e fertilizantes contribui para a contaminação da água de lençóis freáticos e mananciais subterrâneos. Para aperfeiçoar a eficiência do uso da água na agricultura, a biotecnologia atua em duas frentes: no desenvolvimento de espécies tolerantes a seca, diminuindo a irrigação intensiva e conservando a água no solo, e no melhoramento genético de variedades para resistência a pragas e doenças, reduzindo a necessidade da utilização de produtos químicos nas lavouras.

Na produção de alimentos, a biotecnologia pode fornecer meios para o aumento da produção agrícola pela aplicação do conhecimento molecular da função dos genes e das redes regulatórias envolvidas na tolerância a estresse, desenvolvimento e crescimento, "desenhando" novas plantas (Takeda & Matsuoka, 2008). A transformação genética de plantas cultivadas possibilita a validação funcional de genes individuais selecionados, bem como a exploração direta dos transgênicos no melhoramento genético, visando à inserção de características agronômicas desejáveis.

Atualmente, a produção de transgênicos está difundida em praticamente todas as regiões agrícolas do planeta, e a adoção da biotecnologia pelos produtores atinge níveis nunca alcançados por outras tecnologias avançada, em toda história da agricultura. Em 2009, culturas modificadas geneticamente foram plantadas por mais de 14 milhões de agricultores, em 134 milhões de hectares, distribuídos em 25 países (James, 2010). O Brasil ocupa o segundo lugar entre os países com maior área cultivada com transgênicos no mundo, cerca de 21,4 milhões de hectares, atrás apenas dos Estados Unidos com 62,5 milhões de hectares (Isaaa, 2010). A razão desse indiscutível sucesso são os benefícios obtidos com a produção de plantas transgênicas resistentes a doenças e insetos, a redução no uso de defensivos e o aumento da produção.

Segundo a FAO (2010), a previsão de crescimento do setor agrícola brasileiro até o ano de 2019 é de 40%, quando comparado ao período-base 2007-2009. Nesse mesmo período, Rússia, China e Índia não passarão os 26% de crescimento no setor, enquanto crescimentos mais modestos são esperados para Estados Unidos e Canadá (entre 10% e 15%). A União Europeia não deve ultrapassar os 4% (OECD-FAO Agricultural Outlook 2010-2019). Essa previsão de crescimento acentuado da produção brasileira se deve, por um lado, às condições econômicas e ambientais favoráveis do país, e, por outro, à adoção massificada de culturas geradas com o auxílio da biotecnologia.

Em um futuro próximo, a redução dos custos para o desenvolvimento e a adoção dos produtos da biologia molecular pode aumentar a variedade de plantas transgênicas e a sua disponibilidade para pequenos e médios produtores. A inserção de características antes ausentes na planta pode agregar valor aos seus produtos, multiplicando a renda do agricultor e diminuindo o êxodo rural. A transformação genética pode ser o motor de uma transformação social.

Neste artigo, será apresentado um breve resumo de três ramos da biologia molecular utilizados no melhoramento genético de plantas: a genômica, a transgenia e os marcadores moleculares.

Genômica de plantas e expressão gênica

Desde o estabelecimento da metodologia de sequenciamento do DNA por Walter Gilbert e Allan Maxam em 1977, o número de sequências disponíveis nos bancos de dados de genômica tem crescido exponencialmente, até mesmo nesses últimos anos com a nova geração de sequenciadores de alta eficiência, como Roche 454 GS System®, Illumina Genome Analyzer® e Life Technologies AB SOLiD System® .

Atualmente, está disponível no banco de dados do National Center for Biotechnology Information (NCBI) mais de 106 bilhões de nucleotídeos de 108 milhões de sequências individuais, e somente no ano passado foram adicionadas mais de 11 milhões de novas sequências nesse banco (Benson et al., 2010). Esse grande número de sequências nos leva a esperar com grande expectativa uma explosão no conhecimento e na inovação nas diversas áreas do conhecimento e especialmente na saúde e agricultura.

O sequenciamento completo do genoma de Arabidopsis thaliana foi publicado no ano 2000 (The Arabidopsis Genome Iniciative) e é considerado um marco para a ciência de plantas. Esse genoma possui 120 Mbp, apresenta em geral uma cópia de cada gene e menos de 10% de sequências repetitivas (Mahalakshmi & Ortiz, 2001), sendo considerado um genoma pequeno quando comparado a outras espécies vegetais. Até o momento, somente outras duas culturas agrícolas tiveram seus genomas finalizados, o arroz (Oryza sativa) com 390 Mbp (Goff et al., 2002, International Rice Genome Sequence Program) em 2002 e o milho (Zea mays) com 2.400 Mbp (Wei et al., 2009, Maize Genome Project) em 2009. No momento, estão em fase de finalização 19 espécies de plantas (Tabela 1) e mais 74 outras estão em diferentes fases de sequenciamento e montagem (www.ncbi.nlm.nih.gov/genomes/static/gpstat.html).

Desde que a genômica tem como objetivo entender como os genes e a informação genética estão organizados dentro do genoma, e ainda como essa organização determina a sua função, temos o grande desafio de buscar a função dos genes e entender essas sequências para reduzir a distância existente entre genótipo e fenótipo. Entretanto, um grande número de genes sequenciados possui função desconhecida.

Para auxiliar a decifrar a função dos genes, alguns programas têm sido estabelecidos. O National Science Foundation (NSF) nos Estados Unidos lançou em 2000 o projeto Arabidopsis 2010 com o objetivo de determinar a função de 25 mil genes dessa espécie (Sommerville & Dangl, 2000). No Brasil são várias as iniciativas de consórcios de pesquisadores nos projetos temáticos como os Sucest (Sugarcane ESTs), Forests (Eucaliptus ESTs) e CitEST (Citrus ESTs). Esses programas são financiados pelas agências federais (CNPq, Capes e Finep) e estaduais (Fapesp, Fapemig e outras) junto com as universidades. Na área de bioenergia, projetos individuais e programas temáticos como o Bioen (http://bioenfapesp.org) e INCT de Biotecnologia do Bioetanol (www.bioetanol.org.br) têm como parte dos objetivos principais a análise funcional de genes da cana-de-açúcar com ênfase à produção do bioetanol.

Adicionalmente às informações obtidas pela análise do genoma, é preciso ter conhecimento, por exemplo, sobre quais proteínas estão realmente sendo expressas, quando e em quais são os níveis de expressão e, ainda, as eventuais modificações pós-transcricionais (Canovas et al., 2004). O fato de as células de um organismo terem o mesmo genoma, mas apresentarem as mais variadas funções e morfologias, que são resultado de diferentes composições de proteínas expressas, ilustra a importância de estudar não só a sequência dos genes, mas também a sua expressão para podermos compreender as suas funções biológicas.

A análise da expressão gênica, também chamada de análise de transcriptoma, é uma metodologia significante para identificar genes candidatos, predição da função de genes e regiões regulatórias (Mochida & Shinozaki, 2010). Esse método é baseado na hibridização nos microarranjos e gene chips que permitem analisar a expressão de dezenas de milhares de genes simultaneamente. Genes identificados com expressão diferencial são clonados e analisados funcionalmente no metabolismo celular, sendo a transgenia um dos métodos utilizados.

Transformação genética de plantas

A transgenia converge com as técnicas de engenharia genética como solução biotecnológica para problemas que afetam a agricultura brasileira e mundial, como pragas, doenças e estresses ambientais. Além disso, pode beneficiar os setores de saúde, indústria e alimentação, contribuindo para agregar valor aos produtos agropecuário, unindo o agronegócio aos setores farmacêutico e industrial (Hansen & Wright, 1999). Essa tecnologia é uma possante ferramenta de auxílio ao melhoramento genético tradicional, que transpõe as barreiras do cruzamento entre diferentes espécies e acelera o processo de seleção de plantas.

Métodos de transformação genética

Na década de 1980, a técnica de hibridação somática, baseada na fusão completa de duas células de espécies diferentes, permitiu a transferência de cromossomos e organelas de uma planta para outra. Na hibridação somática, ocorre a transferência de caracteres poligênicos para obtenção de células híbridas sem passar pela reprodução sexual. Entretanto, a técnica não fornece informações detalhadas sobre os genes inseridos (Matsumoto, 2001). Com os avanços da tecnologia do DNA recombinante, a introdução de genes exógenos em plantas se tornou realidade (Perani et al., 1986). Atualmente há diversos genes introduzidos estavelmente em muitas espécies vegetais, conferindo resistência a estresses ambientais, herbicidas, fungos, bactérias, vírus e insetos (Lakshmanan et al., 2005).

A produção de plantas transgênicas é realizada por meio de diferentes métodos que podem ser agrupados em duas categorias: transformação indireta e transformação direta. No método de transformação indireta, a transferência de genes é intermediada por bactérias do gênero Agrobacterium, as quais são capazes de infectar plantas naturalmente e produzir um tumor conhecido como galha da coroa (Chilton et al., 1977; Srisvastava et al., 2009). Essa bactéria possui um plasmídeo denominado Ti, que pode ser modificado artificialmente para não formar o tumor e transportar o gene de interesse até o interior da célula da planta receptora. A técnica de transformação consiste em colocar o tecido da planta em contato com a Agrobacterium contendo o gene de interesse (Hensel et al., 2009). As bactérias, assim, infectam o tecido vegetal, iniciando o processo de transferência e a transformação do genoma da planta (Brasileiro & Cançado, 2000). As Agrobacterium modificadas, que perderam todo ou parte de seu DNA de transferência (T-DNA), passam a ser incapazes de produzir tumores nas plantas hospedeiras (Pitzschke & Hirt, 2010). A técnica de transformação indireta é limitada pela baixa suscetibilidade da maioria das monocotiledôneas e gimnospermas, e de algumas dicotiledôneas, à infecção pela Agrobacterium (Potrikus, 1990).

Os métodos de transformação direta variam em eficiência e praticidade. Nesses métodos são utilizados processos físicos e químicos para produzir alterações nas paredes e membranas celulares, facilitando a introdução do gene de interesse no genoma da planta receptora. Os métodos mais eficientes de transformação genética são a eletroporação de protoplastos, a transformação por polietilenoglicol (PEG) e o bombardeamento de micropartículas ou biolística (Fisk & Dandekar, 1993), sendo este último o mais importante entre os métodos diretos.

A transformação de plantas pela técnica de biolística consiste em bombardear o tecido-alvo com micropartículas de ouro ou tungstênio recobertas pelo plasmídeo no qual está o gene de interesse. Essa técnica foi designada biolística (biológico + balística) em razão da alta velocidade imprimida aos microprojéteis revestidos com DNA (Sanford et al., 1991). As micropartículas variam entre 0,6 a 1,5 µm de diâmetro e podem ser aceleradas com ar comprimido (hélio), onda de choque elétrico ou pólvora. Nesse método, as micropartículas são disparadas na direção do tecido-alvo para penetrar a parede celular e transferir o DNA exógeno para o interior das células. A biolística se diferencia da transformação via Agrobacterium por apresentar maior eficiência na transformação de plantas pertencentes a diferentes ordens, além de possuir maior plasticidade na utilização de diferentes tecidos de uma mesma planta (Brasileiro & Cançado, 2000).

A produção de transgênicos no mundo

Em 2009, 14 milhões de agricultores em 25 países cultivaram comercialmente lavouras geneticamente modificadas, e mais de 90% eram de pequenos produtores rurais de países em desenvolvimento. Do total plantado, as variedades transgênicas resistentes a insetos (Bt) e tolerantes a herbicida (Glifosato) representavam mais de 99% da área cultivada (James, 2010).

Segundo Carpenter (2010), as diferenças significativas para aumentos de produção entre países desenvolvidos e em desenvolvimento decorrem, provavelmente, da falta de um manejo adequado de pragas e plantas daninhas nas lavouras convencionais nos países em desenvolvimento. Dessa maneira, para os agricultores desses países, a adoção da cultura transgênica foi muito mais vantajosa do que para os agricultores de países desenvolvidos. O Brasil não foi considerado nessa pesquisa, e os dados de adoção e produção de culturas transgênicas por pequenos produtores ainda são escassos no país.

A produção de transgênicos no Brasil

Em 2009, o Brasil se tornou o segundo maior produtor de plantas geneticamente modificadas (GM) do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. O plantio de soja, milho e algodão transgênicos alcançou a marca de 21,4 milhões de hectares semeados, superando em 100 mil hectares a área plantada na Argentina (Isaaa, 2010). Desse total, 16,2 milhões de hectares são plantados com soja Roundup Ready (tolerante ao herbicida glifosato), 5 milhões com milho Bt (resistente a pragas) e 145 mil hectares com algodão transgênico, destes 116 mil correspondem ao algodão Bt e 29 mil são tolerantes a herbicida (Figura 1).

Apesar do domínio da soja na produção de transgênicos no Brasil, o crescimento de lavouras geneticamente modificadas em 2009 foi liderado pelo milho. A produção do milho transgênico foi aprovada pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) em agosto de 2007, e, a partir de então, o plantio vem crescendo vertiginosamente. O aumento na produção de milho transgênico na safra de 2009 foi de 400%, em comparação ao ano de 2008 (Isaaa, 2010). Na safra 2010/2011, estão disponíveis para o produtor 136 cultivares de milho transgênico, e as perspectivas são de produção superior à safra passada (Embrapa, 2010).

Marcadores moleculares em espécies vegetais

Nas últimas décadas, o desenvolvimento e a aplicação das técnicas de marcação molecular induziram transformações consideráveis em diversos ramos da biologia, notadamente a biologia molecular (clonagem posicional), a genética evolutiva (cartografia comparativa), a genética quantitativa (detecção e identificação de locus que controlam QTL), e o melhoramento genético (seleção assistida por marcadores) (Najimi et al., 2003).

No melhoramento genético, o desenvolvimento de marcadores ligados a genes de resistência contra pragas e agentes patogênicos, ou a sua utilização para acelerar a escolha do melhor parental, permite uma condução mais precisa dos programas de seleção quando comparado às seleções baseadas em outros marcadores. Além disso, a seleção assistida por marcadores moleculares permite a construção de genótipos que seriam dificilmente produzidos apenas com a seleção fenotípica (Alzate-Marin et al., 2005).

Um marcador molecular é um locus polimórfico que informa sobre o genótipo do indivíduo que o possui. Dessa maneira, os marcadores correspondem ao polimorfismo presente no nível do DNA. A análise desse polimorfismo por meio da biologia molecular é endereçada ao genoma como um todo, traduzido ou não em proteínas, e é independente das condições ambientais. Contrariamente aos marcadores morfológicos e bioquímicos, os marcadores moleculares não dependem do tipo de tecido analisado, nem do estágio de desenvolvimento da planta. Atualmente, esses marcadores são utilizados com as mais diversas finalidades genéticas, desde testes de paternidade e identificação de parentesco até a construção de mapas genéticos complexos (Rocha et al., 2003).

O número de marcadores genéticos é teoricamente ilimitado, e o genótipo de uma planta pode ser determinado em um estágio de desenvolvimento precoce, assim que haja material suficiente para a extração do DNA. Em razão dessas características, os marcadores moleculares são uma ferramenta cada vez mais útil no melhoramento genético de culturas de valor agronômico, sobretudo para características de difícil seleção fenotípica, sendo de grande utilidade para a aceleração de programas de melhoramento genético de espécies de ciclo de vida longo, onde um ciclo de seleção pode durar vários anos (Maluf et al., 2005)

Inúmeras técnicas de marcação molecular estão disponíveis atualmente (Langridge et al., 2001; Rafalski, 2002). As características de cada uma, seus domínios de aplicação, seus princípios e seus custos são bem descritos (Borém & Caixeta, 2006). Didaticamente, os métodos de marcação podem ser reunidos em duas grandes categorias: os marcadores do tipo RFLP (análise de restrição de fragmentos polimórficos ou restriction fragment lenght polymorphism, em inglês) e os marcadores baseados no método da reação em cadeia da polimerase (PCR).

A RFLP é uma técnica da primeira geração de marcadores, baseada na presença de variabilidade nas sequências de nucleotídeos do DNA genômico após digestão por enzimas de restrição (Botstein et al., 1980). Após a digestão do DNA, um grande número de fragmentos com tamanhos variados é gerado, os quais são hibridizados a uma sonda de DNA para a identificação de fragmentos homólogos. Mutações nos locais de restrição e/ou deleções/inserções de um fragmento de DNA na região reconhecida pela sonda são responsáveis pelo polimorfismo detectado.

Os principais marcadores baseados em PCR são a técnica Randomly Amplified Polymorphic DNA (Rapd), a Amplified Fragment Length Polymorphism (AFLP) e os microssatélites ou Simple Sequence Repeat (SSR).

A técnica Rapd consiste na amplificação ao acaso de fragmentos de DNA (Williams et al., 1990). A utilização de um único primer curto (10 pb) permite a amplificação de diversos pontos do genoma. Quando dois primers se ligam em distâncias que variam entre 200 e 2000 pb um do outro, em fitas opostas do DNA, a região delimitada entre ambos é amplificada na reação de PCR. O polimorfismo detectado se deve a mutações tanto nas regiões amplificadas, como nos locais de fixação dos primers.

A AFLP é a análise conjunta da presença de polimorfismo nos locais de restrição enzimática e na hibridização de primers não específicos (Vos et al., 1995). Essa técnica utiliza simultaneamente enzimas de restrição para clivagem do DNA e amplificação por PCR dos fragmentos obtidos na digestão. É a combinação enzima de restrição/primers que permite a identificação de polimorfismo entre indivíduos.

Os marcadores microssatélites ou SSR são constituídos de sequências repetidas em tandem de 1 a 6 nucleotídeos, encontradas dispersas em todo o genoma (Jarne & Lagoda, 1996). A análise da variação entre indivíduos é realizada por meio de amplificação em PCR, utilizando primers específicos construídos nas regiões que flanqueiam os microssatélites. É o par de primers (senso e antissenso) do microssatélite que constitui o marcador. O polimorfismo é representado pela variação no número de elementos repetidos que constituem o microssatélite, os quais produzirão alterações no comprimento dos fragmentos.

Outras técnicas de marcação molecular estão sendo desenvolvidas e utilizadas no estudo genético de espécies vegetais, porém ainda em menor escala quando comparadas a RAPD, AFLP e SSR e suas variáveis. Todas essas técnicas são baseadas na aplicação em géis e, de uma maneira geral, são trabalhosas e de custo elevado.

Os avanços consideráveis dos sequenciamentos genômicos permitiram a determinação de sequências completas do DNA de vários organismos e a possibilidade de compará-las. Talvez a metodologia para a marcação molecular mais promissora atualmente seja os marcadores do tipo Single-Nucleotide Polymorphisms (SNP), baseados na identificação de polimorfismo em sequências em que houve deleção/inserção ou mutação de apenas um nucleotídeo (Rafalski, 2002). Os marcadores SNP são mais abundantes que os microssatélites, aumentando a chance de sucesso em diversas aplicações, como a construção de mapas genéticos de alta resolução, o mapeamento de QTL, o diagnóstico genético, a análise da estrutura genética da população, a filogenia, entre outras (Choi et al., 2007). A identificação de SNP está mais avançada no genoma humano, com aproximadamente 30 milhões de SNP identificados no banco de dados do NCBI (National Center for Biotechnology Information – SNP database), mas um aumento considerável na identificação de polimorfismos de base única está em andamento em diversas espécies vegetais (ibidem).

Conclusões

O uso da biotecnologia para a produção de alimentos e bioenergia representa novas oportunidades, mas também muitos desafios. Enquanto as estratégias para a produção de biocombustíveis devem ser adotadas de acordo com as possibilidades e necessidades de cada país, a produção de alimentos para a população deve ser priorizada a fim de evitar riscos à segurança alimentar, especialmente em países onde os níveis básicos de fornecimento de alimentos ainda são insuficientes. Nesse contexto, a biotecnologia pode auxiliar no desenvolvimento de plantas e métodos com maior potencial para a produção de combustíveis, sem a necessidade de aumento na área cultivada.

Em um futuro próximo, o desenvolvimento de biocombustíveis de segunda geração pode elevar os índices de produção de combustíveis por área plantada com culturas de potencial energético. No caso da cana-de-açúcar, os biocombustíveis de primeira geração são aqueles produzidos a partir da fermentação dos açúcares presentes no suco da cana, para a produção do etanol. Já os biocombustíveis de segunda geração são aqueles obtidos a partir da celulose presente no bagaço, que é utilizada na produção de álcool combustível. Assim, a biotecnologia pode auxiliar no desenvolvimento de variedades ricas em celulose, visando a uma maior eficiência na produção de etanol. Essa mesma estratégia pode ser usada em outras culturas, como o milho, cuja palha pode ser empregada na produção de biocombustível, enquanto os grãos são destinados para a alimentação.

O maior benefício da biotecnologia vegetal para a humanidade, entretanto, será, sem sombra de dúvidas, a produção de plantas melhoradas geneticamente, fornecendo suporte para as exigências atuais e futuras de segurança alimentar, para o desenvolvimento de uma agricultura sustentável e para a preservação dos recursos naturais.

Referências

ALZATE-MARIN, A. L. et al. Seleção assistida por marcadores moleculares visando ao desenvolvimento de plantas resistentes a doenças, com ênfase em feijoeiro e soja. Fitopatologia Brasileira, v.30, n.4, p.333-42, 2005.         [ Links ]

AQUASTAT – FAO. 2010. Disponível em: <http://www.fao.org/nr/water/aquastat/main/index.stm>         [ Links ].

ASH, C. et al. Feeding the future. Science, v.327, p.797, 2010.         [ Links ]

BEER, L. L. et al. Engineering algae for biohydrogen and biofuel production. Current Opinion in Biotechnology, v.20, n.3, p.264-71, 2009.         [ Links ]

BENNETT, J. W; CHUNG, K.-T. Alexander Fleming and the discovery of penicillin. Advances in Applied Microbiology, v.49, p.163-84, 2001.         [ Links ]

BENSON, D. A. et al. GenBank. Nucleic Acids Research, v.38, p.D46-D51, 2010.         [ Links ]

BORÉM, A.; CAIXETA, T. E. Marcadores moleculares. Viçosa: UFV, 2006.         [ Links ]

BOTSTEIN, D. et al. Construction of genetic linkage map in man using restriction fragment length polymorphism. The American Journal of Human Genetics, v.32, p.314-331, 1980.         [ Links ]

BRASILEIRO, A. C. M.; CANÇADO, G. M. de A. Plantas transgênicas. Informe Agropecuário, Belo Horizonte, v.21, n.204, p.28-35, 2000.         [ Links ]

CANOVAS, F. et al. Plant proteome analysis. Proteomics, v.4, p.285-98, 2004.         [ Links ]

CARPENTER, J. E. Peer-reviewed surveys indicate positive impact of commercialized GM crops. Nature Biotechnology, v.28, p.319-21, 2010.         [ Links ]

CHILTON, M.-D. et al. Stable incorporation of plasmid DNA into higher plant cells: the molecular basis of crown gall tumorigenesis. Cell, v.11, p.263-71, 1977.         [ Links ]

CHOI, I. Y. et al. A soybean transcript map: gene distribution, haplotype and single-nucleotide polymorphism analysis. Genetics, v.2007, v.176, p.685-96, 2007.         [ Links ]

EMBRAPA. 2010. Disponível em: <http://www.cnpms.embrapa.br/milho/cultivares/index.php>         [ Links ].

FAO. 2010. Disponível em: <http://www.fao.org>         [ Links ].

FISK, H. J.; DANDEKAR, A. M. The introduction and expression of transgenes in plants. Scientia Horticulture, v.55, p.5-36, 1993.         [ Links ]

GOFF, S. A. et al. A draft sequence of the rice genome (Oryza sativa L. ssp. japonica). Science, v.296, p.92-100, 2002.         [ Links ]

HANSEN, G.; WRIGHT, M. S. Recents advances in the transformation of plants. Trends in Plant Science, v.4, p.226-31, 1999.         [ Links ]

HENSEL, G. et al. Agrobacterium-Mediated Gene Transfer to Cereal Crop Plants: Current Protocols for Barley, Wheat, Triticale, and Maize. International Journal of Plant Genomics, doi:10.1155/2009/835608, 2009.         [ Links ]

ISAAA. 2010. Disponível em: <http://www.isaaa.org>         [ Links ].

JAMES, C. Global Status of Commercialized Biotech/GM Crops. The First Fourteen Years, 1996 to 2009. In: International Service for the Acquisition of Agri-Biotech Applications. Ithaca, New York, 2010.         [ Links ]

JARNE, P.; LAGODA, P. J. L. Microsatellites, from molecules to populations and back. Trends in Ecology and Evolution, v.11, p.424-9, 1996.         [ Links ]

LAKSHMANAN, P. et al. Invited review: Sugarcane biotechnology: the challenges and opportunits. In Vitro Cell Developmental Biology Plant, v.41, p.345-63, 2005.         [ Links ]

LANGRIDGE, P. et al. Trends in genetic and genome analyses in wheat: a review. Australian Journal of Agricultural Research, n.52, p.1043-77, 2001.         [ Links ]

MAHALAKSHMI, V.; ORTIZ, R. Plant genomics and agriculture: From model organisms to crops, the role of data mining for gene discovery. Electronic Journal of Biotechnology, v.4, p.1-10, 2001.         [ Links ]

MALUF, M. P. et al. Genetic diversity of cultivated Coffea arabica inbred lines assessed by RAPD, AFLP and SSR marker systems. Scientia Agricola, v.62, p.366-73, July/Aug. 2005.         [ Links ]

MATSUMOTO, K. Híbridos somáticos. Biotecnologia Ciência e Desenvolvimento, n.20, p.26, 2001.         [ Links ]

MOCHIDA, K.; SHINOZAKI, K. Genomics and Bioinformatics Resources for Crop Improvement. Plant Cellular Physiology, v.51, p.497-523, 2010.         [ Links ]

NAJIMI, B. et al. Applications des marqueurs moléculaires dans l’amélioration du blé tendre pour la résistance aux maladies et aux insectes. Biotechnology, Agronomy, Society and Environment, v.7, n.1, p.17-35, 2003.         [ Links ]

OECD-FAO. 2010. Disponível em: <http://www.agri-outlook.org>         [ Links ].

PERANI, L. et al. Gene Transfer Methods of Crop Improvement: introduction of foreign DNA into plants. Physiologia Plantarum, v.68, p.566-70, 1986.         [ Links ]

PITZSCHKE, A.; HIRT, H. New insights into an old story: Agrobacterium-induced tumour formation in plants by plant transformation. The EMBO Journal, v.29, p.1021-32, 2010.         [ Links ]

POTRYKUS, I. Gene Transfer to Plants: assessment and perspectives. Physiologia Plantarum, v.79, p.125-34, 1990.         [ Links ]

RAFALSKI, J. A. Novel genetic mapping tools in plants: SNPs and LD-based approaches. Plant Science, v.162, n.3, p.329-33, 2002.         [ Links ]

ROCHA, R. B. et al. O mapeamento genético no melhoramento de plantas. Revista Biotecnologia Ciência e Desenvolvimento, n.30, p.27-32, jan./jun. 2003.         [ Links ]

SANDFORD, J. C. et al. An improved, helium-driven biolistic device. Technique-A Journal of Methods in Cell and Molecular Biology, v.3, p.3-16, 1991.         [ Links ]

SRIVASTAVA, T. et al. A reliable protocol for transformation of Catharanthus roseus through Agrobacterium tumefaciens. Physiology and Molecular Biology of Plants, v.15, p.93-8, 2009.         [ Links ]

SOMMERVILLE, C.;  DANGL, J. Genomics: Plant Biology in 2010. Science, v.290, p.2077-8, 2000.         [ Links ]

TAKEDA, S.; MATSUOKA, M. Genetic approaches to crop improvement: responding to environmental and population changes. Nature Reviews Genetics, v.9, p.444-57, 2008.         [ Links ]

UNESCO. International Symposium on ‘New Directions in Urban Water Management, 2007. Disponível em: <http://typo38.unesco.org/index.php?urban_water_07>         [ Links ].

VOS, P. et al. AFLP: a new technique for DNA fingerprinting. Nucleic Acid Research Journal, v.23, p.4407-14. 1995.         [ Links ]

WEI, F. et al. Detailed analysis of a contigouous 22-Mb region of maize genome. PloS Genetics, v.5, n.11, p.e1000728, 2009.         [ Links ]

WILLIAMS, J. G. K. et al. DNA polymorphisms amplified by arbitrary primers are useful as genetic markers. Nucleic Acid Research Journal, v.18, p.6531-3, 1990.         [ Links ]

Recebido em 9.10.2010 e aceito em 18.10.2010.

Helaine Carrer é professora no Departamento de Ciências Biológicas, Laboratório de Biotecnologia Agrícola, da Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz", Universidade de São Paulo. @ –hecarrer@esalq.usp.br

André Luiz Barbosa é é bolsista CNPq pelo Programa do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) do Bioetanol. @ –abarbosa@esalq.usp.br

Daniel Alves Ramiro é pós-doutorando Fapesp, Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz", Universidade de São Paulo. @ –daramiro@esalq.usp.br

Fonte: Estudos Avançados USP – http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_issues&pid=0103-4014&lng=pt&nrm=iso

Jovens, educados e indesejados

Diploma universitário abre poucas portas na China

ANDREW JACOBS

Liu Yang, filha de um mineiro de carvão, chegou à capital em meados deste ano, trazendo consigo um diploma recém-impresso da Universidade de Datong, US$ 140 na carteira e um ar de invencibilidade.

Seu primeiro contato com a realidade aconteceu no mesmo dia, quando ela se viu arrastando suas malas por um bairro dilapidado, não longe da Vila Olímpica, onde dezenas de milhares de outros jovens batalhadores vivem apinhados, quatro em cada cômodo.

Incapaz de encontrar um lugar para dormir em meio ao labirinto de cortiços, Liu franziu o rosto enquanto o cheiro de lixo pairava ao seu redor. "Pequim não é assim nos filmes", disse ela.

Recém-formados ambiciosos como Liu, muitas vezes os primeiros das suas famílias que finalizam o ensino médio, são parte de uma jovem geração de chineses que supostamente deveria transportar esta economia dependente da mão de obra para um futuro nos escritórios. Desde 1998, o número anual de diplomados em faculdades cresceu de 830 mil para mais de 6 milhões.

É um feito notável e motivo de preocupação. A economia, embora robusta, não gera suficientes empregos qualificados para absorver o afluxo de jovens com formação universitária.

"A faculdade basicamente não lhes forneceu nada", disse Zhang Ming, cientista político e crítico inflamado do sistema educacional chinês. "Se houvesse uma crise econômica, eles poderiam ser uma fonte de instabilidade."

Numa cruel reviravolta, a antiga classe de migrantes -camponeses sem formação, dirigindo-se para cidades industriais- agora é muito requisitada. A escassez de mão de obra e a maior fiscalização governamental fizeram com que os salários dos operários subissem quase 80% de 2003 a 2009. Já o salário inicial para pessoas formadas nas áreas de contabilidade, finanças e programação de computadores se manteve igual nesse período.

Mas a sedução pela riqueza espetacular em cidades litorâneas como Xangai, Tianjin e Shenzhen faz com que os recém-formados continuem chegando.

"Em comparação a Pequim, minha cidade na província de Shanxi parece parada na década de 1950", disse Li Xudong, 25, ex-colega de classe de Liu. "Se eu ficasse lá, minha vida seria deprimente."

Os recém-chegados, porém, descobrem que seus diplomas provinciais lhes garantem pouco respeito na cidade grande. Além disso, eles não têm "guanxi" (contatos pessoais) e esbarram na burocracia da gestão populacional, o sistema "hukou", que nega subsídio habitacional e outros benefícios aos migrantes.

Some-se a isso uma maré demográfica que elevou a 123 milhões de pessoas a população chinesa na faixa dos 20 aos 25 anos.

"A China tem realmente melhorado a qualidade da sua força de trabalho, mas, ao mesmo tempo, a competição nunca foi tão séria", disse Peng Xizhe, chefe do departamento de Desenvolvimento Social e Políticas Públicas da Universidade Fudan, em Xangai.

Yuan Lei foi o primeiro a jogar água fria nas expectativas de Liu, Li e três outros colegas recém-chegados. Ele havia desembarcado em Pequim meses antes, mas continuava desempregado.

"Se você não é filho de uma autoridade ou não vem de família endinheirada, a vida vai ser amarga", disse Yuan aos amigos enquanto comiam uma tigela de macarrão de US$ 0,90, a primeira refeição deles na capital.

Ao cair da noite, enquanto as ruas se enchiam de jovens recepcionistas, caixas e balconistas voltando para casa, Yuan conduziu seus amigos por um beco úmido, até a instável escada que leva ao seu quarto. O cômodo tinha a largura de uma cama "queen", e ele dividia um banheiro imundo com dezenas de outros inquilinos.

Li sorriu ao absorver a cena. "Estou pronto para cair no mundo e me testar", disse.

Os cinco meses seguintes, de fato, seriam mais desafiadores do que o grupo previa. Li se acotovelava para entrar em concorridas feiras de empregos, mas saía de mãos vazias. Afinal, ele e seus amigos se contentaram com empregos de vendedores numa fábrica de macarrão instantâneo. O salário inicial, apenas US$ 180 por mês, dependia parcialmente do cumprimento de ambiciosas metas de vendas. Eles trabalhavam 12 horas por dia.

"Não é o que eu queria fazer, mas pelo menos tenho um emprego", disse Li. Como havia vendido apenas 800 caixas de macarrão naquele mês, 200 aquém da meta, seu minguado salário foi afetado.

Li teme que, caso não consiga ganhar o suficiente para comprar uma casa, não poderá se casar com sua namoradinha do colégio, que o acompanhou. Até novembro, dois jovens do grupo haviam sucumbindo a essa pressão, inclusive Liu Yang, que voltou para Shanxi. Restaram Yuan, Li e suas namoradas. Uma noite, no jantar, eles se queixavam da falta de gentileza dos pequineses e do tédio dos seus trabalhos. "Agora que eu vejo como é o mundo aqui fora, só lamento não ter me divertido mais na faculdade", disse Yuan.

Colaboraram, com pesquisa, Xiyun Yang e Benjamin Haas

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

Por entre elementos vazados

Brasilianista americano cruza a estridência do WikiLeaks ao analisar as relações Brasil-EUA

Carolina Rossetti

A leva de 250 mil documentos confidenciais vazados pelo site WikiLeaks revelou intimidades da diplomacia americana, disseminando um misto de constrangimento e preocupação em Washington. Particularmente no gabinete da secretária de Estado, Hillary Clinton, que, segundo tais despachos, mandou investigar funcionários das Nações Unidas, inclusive o secretário-geral Ban Ki Moon. Nesse mar de informações, foi possível pescar avaliações da saúde mental da presidente argentina Cristina Kirchner, alertas sobre um tumor maligno do boliviano Evo Morales e criativas análises sobre como Nicolas Sarkozy usa sua bela Carla Bruni para angariar popularidade no Brasil. "Os documentos mostram que tem muita gente falando sobre o que não deve, para quem não pode", pondera o cientista político americano Riordan Roett.

Especialista em América Latina e autor de The New Brazil, lançado neste ano pela Brookings Institution Press, Roett minimiza o comentário (também vazado) de Clifford Sobel, ex-embaixador dos Estados Unidos no Brasil, de que o País seria "antiamericano". Roett não vê azedume anti-Washington na política externa brasileira, mas sugere que simplesmente houve mudança na balança de poder que media as relações entre os dois países. Brasilianista da Escola de Estudos Internacionais da Johns Hopkins University, em Washington, Roett desenvolve nesta entrevista a ideia de como o Brasil foi deixando para trás a posição de obediência silenciosa em relação aos EUA para assumir o próprio peso nas negociações internacionais. "Europa e China já entenderam isso. Mas os EUA ainda não percebem que o Brasil não é mais ator periférico, mas global", diz no mesmo dia em que circulou o nome do ex-embaixador do Brasil em Washington, Antonio Patriota, para a pasta das Relações Exteriores. E como será o relacionamento Obama-Dilma? "Uma continuidade", prevê Roett, calculando porém que Dilma não será tão afeita quanto Lula aos holofotes das cúpulas presidenciais.

Em um dos documentos vazados pelo WikiLeaks, o ex-embaixador americano Clifford Sobel fala de ‘antiamericanismo’ na política externa brasileira. Já o chanceler Celso Amorim disse que o Itamaraty sempre foi ‘considerado antiamericano’. Tais afirmações podem impactar os laços entre Brasil e EUA? O ex-embaixador Clifford Sobel foi uma indicação política para o cargo, não sabia falar português, ficou no Brasil dois anos e não conheceu o País. Tenho vindo ao Brasil desde 1962 e desde então me deparo com antiamericanismos, seja em nível pessoal ou ideológico, mas isso não chega a ser uma grande ocorrência na política externa brasileira. Apenas que os EUA são hoje menos importantes para o Brasil, que persegue uma diplomacia Sul-Sul – compromisso reforçado na sexta-feira pelo Itamaraty com o reconhecimento do Estado palestino. Os EUA ainda não entendem que o Brasil é um ator global cada vez mais forte e não vai mais seguir a liderança americana da maneira que fazia nos governos de Getúlio Vargas (1930-1945) ou de Castello Branco (1964-1967). Lá atrás havia uma relação assimétrica. Esses dias passaram e o meu país deve entender que o mundo está diferente. Estamos em declínio, enquanto o Brasil, ao lado de Índia e China, está ascendendo. China é hoje o maior parceiro comercial do Brasil, seguido da Argentina, e só então vêm os EUA. Washington terá que se adaptar.

O seu livro China’s Expansion into the Western Hemisphere trata justamente do crescente interesse chinês pela América Latina. Essa inflexão também gera tensões com os EUA?A relação bilateral China-EUA é a mais importante do século 21, mas é também muito difícil e complicada em certos momentos. Os chineses têm sido cautelosos ao lidar com o triângulo EUA-Brasil-China. Pelo que percebo, não querem, de forma alguma, que sua relação comercial e diplomática com o Brasil tenha nenhum impacto na relação com os EUA. Se um dia tiverem que fazer uma escolha, certamente optarão pelo elo com os americanos. A China praticamente nos sustenta, além de deter a maior parte das ações do tesouro americano. Além disso, os EUA precisam desesperadamente da China para lidar com o Irã e a Coreia do Norte. Não temos outra escolha senão jogar o jogo deles.

Na sua avaliação, esses documentos revelaram algo inédito sobre o Brasil?Pelo que vi, as revelações mais sérias do WikiLeaks referem-se ao Afeganistão, à Rússia e à França. Os comentários em relação ao Brasil são menores e não creio que haja muito a ser revelado. Mas existe uma preocupação sobre relações mais amistosas entre o Brasil e a França, no que foi chamado de um "caso de amor" pelo embaixador americano em Paris. A França persegue uma estratégia com o Brasil diferente daquela dos EUA, pois combina diplomacia com relações comerciais. As visitas de Sarkozy ao Brasil foram entrelaçadas com negociações de compra de aviões. E o Brasil é visto como um país muito mais importante pela Europa e China do que é pelos EUA.

Com a saída de Bush e a eleição de Obama, mudou o diálogo Brasília-Washington?Comparado aos embaixadores de Bush, todos homens de negócio e politicamente escolhidos para o cargo, o atual embaixador, Thomas Shannon, é bem mais preparado, fala português e é conhecido do Itamaraty. Mas existe um descontentamento com o fato de Obama nunca ter arranjado tempo para vir ao Brasil. Esse foi um sério erro de seus dois primeiros anos na Casa Branca. Por outro lado, o presidente estava atolado com a crise financeira, as guerras no Iraque e no Afeganistão e depois com o vazamento de óleo no Golfo do México. Mas o problema é que em Washington não há ninguém acima do secretário assistente que saiba o que é o Brasil. Há especialistas em Arábia Saudita, Rússia, União Europeia, África do Sul, mas não em Brasil, um país de 190 milhões de habitantes, com uma economia competitiva. Washington não entende que, além de China, haja novos atores emergindo e o Brasil não seja mais um ator periférico, mas uma potência global permanente.

O Brasil é visto pelos EUA como um interlocutor com a América Latina?Para o governo americano, seja ele republicano ou democrata, todos os países abaixo do México são incompreensíveis. Pensam que o Chile deve ser igual ao Brasil e Paraguai e Uruguai sejam a mesma coisa. "Onde fica a Argentina mesmo?" Infelizmente, Washington gostaria que o Brasil fosse um guarda de trânsito para facilitar suas relações com a América Latina. Alguém que sinalizasse como agir e controlasse as coisas para os americanos. O Brasil nunca fará isso. Tem interesses próprios na região e já mostrou claramente que respeita a soberania dos vizinhos. A posição brasileira de fortalecer a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) é uma tentativa de manter Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa numa mesma tenda, onde o diálogo seja possível. O que o Brasil não quer é conflito. Lembro-me de quando houve um problema com a Bolívia, e o presidente Evo Morales nacionalizou o petróleo. Lula ligou para Evo, convidou-o a ir a Brasília e resolveram a questão. Quando houve atrito em Itaipu, o presidente paraguaio, Fernando Lugo, também foi chamado e fez-se um acerto. É assim que o Brasil opera.

Mas a mediação brasileira não foi assim tão efetiva numa crise como a do governo Zelaya, em Honduras.Honduras foi uma infelicidade. Todo mundo errou: EUA, Brasil e Honduras. Não tenho como comprovar, mas imagino que os EUA provavelmente sabiam que os militares hondurenhos iam se manifestar e, nessa situação, deveriam ter dito que não apoiariam um golpe, mesmo sendo Zelaya um presidente antiamericano. Ora, se lidamos com Chávez, Morales, Ortega, Lugo, deveríamos ter lidado também com Zelaya.

Afinal, como o senhor avalia a política externa brasileira sob o governo Lula?Lula consolidou a posição do país entre os Brics e mostrou que o Brasil já consegue arcar com o próprio peso nas negociações internacionais, sem precisar ser guiado. O país foi ativo no G-20, com críticas aos EUA e à UE. É impossível pensar numa reunião do G-20, ou num encontro sobre mudanças climáticas, sem a presença do Brasil – isso devido à Amazônia e também porque o país é um grande exportador agrícola. Com o pré-sal e o etanol logo vai se tornar um importante exportador de energia. E, como Lula gosta de dizer, o país foi mesmo "o último a entrar na crise e o primeiro a sair". O sistema bancário brasileiro está bastante saudável se comparamos ao da Europa, que tem crises diárias, e ao nosso, bem enfraquecido. Nessa área, o Brasil tem uma história para contar.

Em sua opinião, a política externa de Dilma seguirá na mesma direção?Antonio Patrioa, cotado para ser o próximo chanceler, é um ótimo comunicador e deve continuar a política externa do presidente Lula, de perfil realista, com diversificação dos parceiros comerciais e manutenção de relações amigáveis com EUA, Inglaterra e França, mas também com China e África do Sul, e dos laços Sul-Sul que o Brasil tem cuidadosamente tecido nestes últimos 12 anos. Não acho que Dilma venha a ser forte nas relações exteriores, mas Lula nos surpreendeu e ela poderá fazer o mesmo. Penso que ela terá outro perfil. Seu foco serão os assuntos internos. Ela tem uma agenda bem mais complicada que a de seu antecessor. Terá que lidar com gargalos na infraestrutura e com o pré-sal.

Dilma não é uma figura popular como Lula.Isso muda a imagem do Brasil lá fora? Perdi a conta das tantas vezes que abri um jornal americano para ler que "a nova presidente do Brasil é uma ex-guerrilheira". Nunca li isso em Paris. Os europeus simplesmente não se referem a Dilma nesses termos. Recebi de um grupo direitista americano a ficha de Dilma quando foi presa pela ditadura militar. Quão ridículo é isso? Nós todos éramos diferentes na década de 60. Infelizmente, os conservadores do Congresso americano, agora mais poderosos depois das eleições, compraram a ideia de que o Brasil seja agora uma nova Venezuela. Mas a Casa Branca não pensa assim. E uma embaixada brasileira competente poderá evitar a construção dessa falsa imagem do país.

Sobre a Amazônia, o embaixador Sobel teria caracterizado a preocupação brasileira de "paranoica". Qual é o peso dessa revelação?Eu não diria que é paranoica, mas li o Plano Nacional de Defesa inteiro, assim que saiu – devo ter sido um dos poucos – e, de fato, há uma preocupação grande com a segurança da Amazônia. Mas isso tem explicação histórica. Nos últimos 400 anos, seja sob o Império ou a República, o governo brasileiro sempre se preocupou com isso, não é novidade. A Amazônia, chamada de "pulmão do mundo", sempre foi difícil de controlar, tendo em vista a mineração, o desmatamento e o crescente avanço da fronteira agrícola. Além disso, por ter fronteiras com vários países torna-se via de contrabando de drogas. Por isso, há reforço militar na região. Dilma terá que focar esforços na questão de segurança das fronteira. E manter o ministro Jobim na Defesa foi correto porque ele tem boas relações com Washington.

Pois o ministro Jobim surgiu como um personagem central dos despachos do WikiLeaks. A revelação de que ele teria comentado sobre um tumor de Evo Morales, além de ter dito que o ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos, Samuel Pinheiro Guimarães, "odeia os Estados Unidos", causou desconforto. O senhor calcula que esses vazamentos venham a ter relevância?O problema é que eles demonstraram que tem muita gente falando sobre o que não deve para quem não pode. E que as pessoas deveriam ter mais cuidado quando veiculam suas opiniões. A diplomacia, de modo geral, terá que mudar. Particularmente embaixadores politicamente apontados, ou seja, os que não são funcionários de carreira como no Itamaraty, terão que ser cuidadosamente orientados sobre o que não podem falar. Por exemplo, não podem relatar rumores, apenas fatos. E fatos baseados em política, não em personalidade. Muitos desses despachos se concentram na personalidades dos líderes, como aconteceu com documentos enviados da Argentina, tratando do quadro de ansiedade de Cristina Kirchner e levantando hipóteses sobre sua saúde mental. Isso é coisa que um diplomata brasileiro, de carreira, sabe que não pode pôr no papel. Diplomatas americanos falam demais. Suspeito que muitos assinem relatórios escritos por funcionários juniores sem lê-los e sem entender as implicações de seus atos.

Na semana passada, o Exército e a Marinha foram acionados para combater o tráfico nos morros do Rio. Não houve menção a pedir ajuda aos EUA para resolver a questão como fizeram a Colômbia com as Farc e o México com os cartéis. Existe maior resistência do Brasil em relação à ingerência dos EUA na questão da segurança interna? A situação da Colômbia é complicada por conta da Venezuela, com quem os EUA têm péssimas relações. Entre México e EUA existe uma fronteira de 2 mil quilômetros, e a situação ali é trágica, o que, é claro, também preocupa os americanos. Agora, o Brasil parece estar muito mais confortável para lidar com os seus problemas internos sem se voltar a atores estrangeiros. A convocação do Exército para ocupar o Complexo do Alemão foi muito importante. O governo parece estar finalmente se concentrando na Copa de 2014 e nas Olimpíadas de 2016. Confesso que estava um tanto preocupado com isso.

Qual era sua preocupação?A Copa de 2014 é particularmente importante para o brasileiros. Vocês tentarão se recuperar do desempenho que tiveram na África do Sul. O desafio maior não é o dinheiro. Há 20 anos, o mundo teria se preocupado com a possibilidade de o Brasil não ter como financiar esses eventos. Hoje, não. A questão é se vocês conseguirão entregar os aeroportos, as estradas e a rede hoteleira necessária para receber os visitantes. O Brasil se saiu bem nos Jogos Pan-Americanos, mas por pouco. E, em 2014 e 2016, o trabalho exigido será bem maior.

O interesse do Brasil por um assento no Conselho de Segurança foi citado como ‘obsessão’ pelo representante da missão americana aqui. Em visita à Índia, Obama disse apoiar aspirações semelhantes daquele país. Deveria fazer o mesmo com o Brasil? A relação dos EUA com a Índia é estratégica por causa da situação instável no Paquistão, Afeganistão e China. Por isso, a atitude de Obama. Na América Latina, são poucas as situações de fato preocupantes para a Casa Branca. É difícil para os brasileiros entenderem que, por bem ou por mal, o Brasil não é ameaça para ninguém.

Em janeiro, um documento da embaixada americana em Paris chamou o Brasil de ‘ingênuo’ por tentar negociar com o Irã. Já Celso Amorim disse que o acordo ‘entrará para a história como a inauguração de um mundo multipolar’ e ele ‘não vai cobrar direito autoral’. Até que ponto a posição do Brasil em relação ao Irã pode ter sido prejudicial para a relação com os EUA?Falando com um ex-ministro de Relações Exteriores do Brasil, cujo nome não vou revelar, ele me disse que Obama mandou uma carta a Lula, que foi interpretada pelo governo brasileiro como sinal verde para prosseguir nas negociações com o Irã. E a mesma carta foi entendida por Washington como sinal amarelo: "Cuidado, Brasil, não faça nada sem nos consultar". Foi uma má interpretação da parte de ambos os países. O que me surpreende é que a Turquia não tenha sido repreendida pelos EUA, enquanto o Brasil foi. E a Turquia é um parceiro estratégico, faz fronteira com o Iraque, é membro da Otan e pleiteia uma cadeira na UE. Essas rusgas podem se tornar mesquinhas. A secretária de Estado Hillary Clinton, por sua vez, fez um discurso no mês passado no Conselho de Relações Exteriores em que falou das importantes alianças e citou Rússia, Índia e China, três membros do Bric. Não mencionou o Brasil. Esse é o tipo de coisa que Washington não deveria fazer. A demora de dez meses para instalar no Brasil o embaixador Shannon foi também uma atitude ridícula. O Brasil nunca deixa sua embaixada em Washington vazia mais do que duas semanas.

O WikiLeaks revelou que o governo Obama está preocupado com a comunidade islâmica no Brasil. Outros documentos responsabilizavam Dilma Rousseff, na época chefe da Casa Civil, por derrubar, por razões ‘ideológicas’, projeto de lei de 2007 que reforçaria o combate ao terrorismo no País. Como o senhor avalia a atitude americana?Não entendo por que os EUA acham que o Brasil precise de uma política para o terrorismo. Não há nenhuma ameaça terrorista na América Latina. Washington não entende que o Brasil não seja um país ideológico. É um país para onde todo mundo migra. Em muitos aspectos, o Brasil é mais um caldeirão racial do que os EUA, que gostam de se pensar como o grande caldeirão do mundo, o que de fato fomos, há cem anos.

O que seria o ‘novo Brasil’ ao qual o senhor se refere no título de seu novo livro?Primeiro precisamos entender o que era o "velho Brasil": incompetente, sempre em déficit e em crise econômica. Mas, a partir do governo de Fernando Henrique Cardoso, do Plano Real, da Lei de Responsabilidade Fiscal e do controle da inflação começou a emergir um novo país. Lula teve sorte. Recebeu uma economia em estado decente, não soberba, mas decente. E herdou a era de boom das commodities. O Brasil viveu bons anos ultimamente. Conseguiu aumentar reservas, subir o índice de investimento e teve decisões acertadas, como a de colocar, e manter, Henrique Meirelles no comando do Banco Central. Fora isso, pela primeira vez desde a chegada de Pedro Álvares Cabral vocês estão reduzindo a pobreza e estão aí os efeitos do Bolsa-Família no governo Lula. Enfim, o Brasil está no mapa.

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

Cinco municípios do ABC estão entre as maiores participações no PIB do País

Angela Martins

Cinco cidades do ABC estão entre os 100 municípios brasileiros que apresentam as maiores participações no PIB (Produto Interno Bruto) do País, segundo pesquisa PIB dos Municípios publicada nesta sexta-feira (10/12) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), referente ao ano de 2008.

O município da região melhor colocado é São Bernardo, ocupando a 11ª posição, com PIB de R$ 29.872.572 e participação de 0,99%. Em seguida está Santo André, na 29ª posição (R$ 13.446.559 e participação de 0,44%), São Caetano, em 40º (R$ 10.178.501 e participação de 0,34%), Diadema, em 41º (R$ 9.311.879 e participação de 0,31%) e Mauá, na 79ª posição (R$ 5.676.526 e participação de 0,19%).

As cidades de Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra não figuram entre os 100 maiores municípios brasileiros. Em 2008, Ribeirão Pires contabilizou PIB de R$ 1.486.905 e Rio Grande da Serra apresentou PIB de R$ 351.817.

De acordo com o estudo, os seis municípios brasileiros com as maiores participações no PIB do País, todos capitais, representavam aproximadamente 25% da riqueza nacional: São Paulo, 11,8%; Rio de Janeiro, 5,1%; Brasília, 3,9%; Curitiba, 1,4%; Belo Horizonte, 1,4% e Manaus, 1,3%. No outro extremo, os 1.313 municípios com os menores PIB (onde residiam 3,4% da população) respondiam por apenas 1% do PIB do País. A concentração permanecia semelhante à dos anos anteriores.

PIB per capita

No que diz respeito ao PIB per capita (por pessoa), São Caetano é o destaque da região, contabilizando R$ 67.361,37. O próximo município do ABC é São Bernardo, com PIB per capita de R$ 37.267,11. Em seguida, aparecem Diadema, Santo André, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra.

A cidade de São Francisco do Conde (BA) tem o maior do País (R$ 288.370,81). O resultado do PIB per capita representa a geração de riqueza nos municípios dividida pela população – mas não revela a riqueza apropriada. Ou seja, muitas vezes o tamanho da população é que determina a posição de determinado município no ranking.

Fonte: Repórter Diário

Decadência da democracia Americana

Patrick Martin

A campanha eleitoral dos Estados Unidos em 2010, agora melancolicamente se encerrando, marca uma queda mais profunda do sistema bipartidário num poço de imbecilidades. Nenhum das questões principais que o povo americano enfrenta – a pior crise econômica desde a Grande Depressão, duas guerras, pobreza que se alastra, a cobrança executiva de dívidas hipotecárias, crescente ataque aos direitos democráticos, a pior catástrofe ambiental da historia americana – foi seriamente discutida. A maior parte delas, nem foi abordada.

Em seu lugar, os candidatos democratas e republicanos engalfinharam-se numa guerra mútua de acusações injuriosas, frases vazias e deslavadas mentiras em escala sem precedentes mesmo no curso da história sinistra das eleições americanas. Mais de 4 bilhões de dólares foram gastos pelos dois partidos e criaram-se várias facções apoiadas por grandes empresários, com o propósito de difamar um grupo de candidatos em proveito de outro.

A parte do leão dessa enorme soma de dinheiro foi aplicada na compra de anúncios televisivos agressivos que alcançaram um crescendo no decorrer da semana passada. Tornou-se impossível assistir a um programa noticioso, a uma novela, a uma comédia ou a eventos desportivos sem sujeitar-se a alguma torrente de sujeiras, viciosas, alienantes da mente pelas suas deformidades, repetidas à exaustão e obviamente insinceras.

No Nevada, os telespectadores receberam a informação de que o atual senador democrata Harry Reid, patrocinara o fornecimento grátis de Viagra para pedófilos encarcerados. No Kentucky, disseram-lhes que o candidato republicano ao senado amarrara uma aluna de escola mista obrigando-a a adorar um ídolo chamado Aqua Buddha. No Illinois, o candidato democrata ao senado foi caluniado e apontado como “financiador de quadrilheiros”. Um candidato republicano do Michigan ao congresso, foi chamado de trapaceiro que extorquira 6 milhões de dólares de sócios comerciais.

A maior parte da propaganda e anúncios é paga por grupos “independentes” criados da noite para o dia com o objetivo de influenciarem a votação de 2010, comumente por um influxo de contribuições de doadores ricos, lobies corporativos ou um dos maiores sindicatos. Sob a capa de rótulos inocentes – “Americanos em favor da Prosperidade” , “Americanos pelo Trabalho”, “Famílias Americanas em Primeiro Lugar” – o grupo então compra horários televisivos destinados a detratarem alguns candidato e promoverem outros.

A função principal da barragem propagandística é confundir a audiência e tornar coerente a reflexão acerca de temas políticos virtualmente impossíveis. Nenhum partido deseja efetivamente comunicar-se com os eleitores em níveis racionais. Em vez disto, cabos eleitorais, marqueteiros e anunciantes procuram desorientar os ouvintes através de ataques prenhes de emoções sobre os candidatos adversários, enquanto a agenda efetiva dos patrocinadores permanece encapada.

O nível intelectual insondável da campanha de 2010 não é meramente o aspecto grotesco e diverso do que seria um processo eleitoral saudável. Representa fundamentalmente a expressão do caráter da democracia capitalista americana.

É impossível para os dois partidos do capital falar ao povo americano honesta e sem rodeios, porque ambos, tanto os democratas quanto os republicanos, representam a aristocracia financeira, um diminuto punhado da população cujos interesses se opõem diametralmente aos das amplas massas.

O posicionamento populista de ambos os partidos tornou-se enfadonho e incrível. É pretensão de Obama fazer crer que sua administração tem sido o flagelo de Wall Street, quando se observa que trilhões de dólares do tesouro foram empregados no socorro a instituições financeiras. Os republicanos por seu turno esbravejam contra os generosos subsídios para os bancos, no entanto os auxílios foram maquinados pela .administração Bush e ratificados pela liderança congressional republicana.

A ausência de uma discussão substantiva de assuntos como a guerra e os ataques arquitetados contra os direitos democráticos constitui demonstração do caráter degradado e falso de um processo político oficialmente sancionado. Nenhum dos partidos se subordina à vontade popular quando se trata de questões cruciais.

Bush foi à guerra contra o Iraque a despeito da maciça oposição interna. Obama escalonou a guerra no Afeganistão após ganhar a eleição em 2008 como suposto candidato da “paz”. Semelhantemente, na questão dos direitos democráticos ambos os partidos se encarregam de continuar a desenvolver o poder do aparato da inteligência bélica, no sentido de materializar o estado policial americano.

Faz exatamente uma década que a evidente intervenção da Suprema Corte dos Estados Unidos nas eleições presidenciais e a capitulação dos democratas consentiram a instalação de George W. Bush na Casa Branca. Na ocasião, a World Socialist Web Site concluiu que já deixara de existir um poder constituinte nos Estados Unidos, representativo da classe dirigente americana disposto a defender os direitos democráticos.

Seguiram-se varias eleições, cada uma mais grotesca do que a anterior. A de 2002 decorreu sob o temor da guerra do Iraque, com a administração Bush advertindo do perigo de “nuvens pestilentas” sobre as cidades americanas se Saddam Hussein não fosse derrubado.

Nas eleições de 2004, os democratas deram as costas aos sentimentos anti-bélicos do povo americano e apontaram um candidato empenhado numa vitória militar no Iraque. Em 2006, os democratas conseguiram o controle do Congresso, em grande parte por causa da oposição popular à guerra do Iraque, mas a administração Bush ampliou suas atividades bélicas ao invés de reduzir os fundos destinados às operações militares ou tomar alguma medida a fim de pôr cobro ao derramamento de sangue.

Nas eleições presidenciais de 2008, a vitoria de Obama representou o triunfo da manipulação da mídia e da disseminação de ilusões. Um candidato virtual e desconhecido, com apenas quatro anos no senado americano, foi escolhido e preparado pelos agentes do poder e magnatas do Partido Democrático e, então, acondicionado como um mocinho insurgente que poderia alimentar “esperanças” e promover “mudanças”. Assumiu o governo no meio de declarações pomposas de que o primeiro presidente afro-americano representava um marco na reconstrução democrática. Dois anos mais tarde, a desilusão é, em todos os aspectos, ainda maior.

Esses anos não foram vividos em vão, porem. Dezenas de milhões de pessoas perceberam, baseadas em dolorosas experiências, que ambos os partidos fazem o jogo da América corporativa, qualquer que seja sua retórica no curso das eleições. Há crescente compreensão de que o povo trabalhador necessita fundamentalmente de novos caminhos.

Não há saída no âmbito do caráter degradado e corrupto praticado pelo sistema político americano através de mecanismos tais como “reforma” das campanhas de financiamento eleitoral e outros esforços para remendar as regras pelas quais políticos capitalistas são comprados e vendidos por seus senhores do grande capital.

A política americana só será redefinida através do acesso das massas nas grandes lutas sociais e políticas. A emergência de um movimento genuinamente popular, de baixo para cima, explodirá tudo que é falso, inverídico, artificial, maquiado e mistificado na vida política americana, inclusive facções pseudo-populistas a exemplo do Tea Party (Partido do Chá).

O caminho futuro para a classe trabalhadora será a construção de um partido político independente próprio – do povo trabalhador e para o povo trabalhador e de todos oprimidos – fundamentado num programa socialista e antiimperialista. Esta é a política defendida pelo Partido da Igualdade Socialista.

Fonte: World Socialist Web Site – www.wsws.org

Mística da marginalidade

Obra de Jack Kerouac é permeada de metáforas de uma condição superior da marginalidade

Claudio Willer

“Tudo me pertence, porque eu sou pobre.”
Essa declaração de Jack Kerouac em Visões de Cody (L&PM, 2009, tradução de Guilherme da Silva Braga, assim como as citações a seguir) – sua obra mais complexa e substanciosa, escrita em 1952, na sequência de On the Road, e publicada postumamente em 1972 – serviria como epígrafe para ele e toda a geração beat. Poderia ser igualmente um lema do budismo, doutrina na qual Kerouac se aprofundou na década de 1950. E de movimentos como a heresia medieval do “Espírito Livre”, manifestação do que Norman Cohn, em The Pursuit of the Millenium, chama de “anarquismo místico”. Para seus adeptos, a abolição da propriedade privada era a condição prévia para o acesso ao Espírito Santo e o reingresso no Paraíso na Terra, eliminando o pecado e abrindo as portas para o exercício pleno da liberdade individual, incluindo o amor livre e a licenciosidade.

Metáforas de uma condição superior da marginalidade e de sua associação ao conhecimento estão em toda a obra de Kerouac. Trata vagabundos errantes como sábios que, através do trânsito por um lado mais obscuro da realidade, tiveram acesso a mistérios. O capítulo final de Viajante Solitário (L&PM Pocket, 2006, tradução de Eduardo Bueno), intitulado “O Vagabundo Americano em Extinção”, denuncia a perseguição policial aos representantes de “uma ideia especial e definida de liberdade” e os equipara a poetas e líderes políticos: “Benjamin Franklin era uma espécie de vagabundo na Pensilvânia (…) Será que Whitman aterrorizava as crianças da Loui- siana quando percorria a estrada aberta?”. E vai mais longe: “Jesus era um estranho vagabundo que caminhava sobre a água. Buda também foi um vagabundo que não prestava atenção nos outros vagabundos”. Para não deixar dúvidas quanto ao sentido místico da vagabundagem: “W. C. Fields – seu nariz vermelho explica o significado do mundo triplo, Grande Veículo, Veículo Menor, Veículo do Diamante”.

Quando Kerouac escreveu On the Road, trazer marginais, pobres e vagabundos errantes para a narrativa em prosa já fazia parte de uma tradição da literatura norte-americana; da vertente social que teve entre seus iniciadores Jack London. Uma das obras de London, lida por Kerouac, intitula-seThe Road: é o relato de suas experiências na adolescência, viajando clandestinamente em trens em companhia de outros miseráveis atingidos pela crise econômica de 1893. Evocar London interessa pela afinidade, e por diferenças que contribuem para melhor caracterizar Kerouac. O autor de O Lobo do Mar foi um militante socialista. Kerouac nunca pactuou com a exploração e a injustiça, abominou toda modalidade de elite e qualquer autoridade. Mas, se o quadro de referências de London para interpretar a história foi o marxismo, o de Kerouac foi aquele de um budista ou neoplatônico para quem a realidade imediata era falsa, o véu de Maia. Vagabundos errantes teriam, por meio de asceses pessoais, aberto brechas na realidade ilusória. Conviver e dialogar com eles era anamnese, evocação e invocação do passado. Em particular, das grandes migrações provocadas pela crise de 1929: participar delas, ter sido um “hobo” (termo pelo qual designavam os vagabundos errantes) equivalia ao contato com um nível ontologicamente superior da realidade. Daí a proclamação veemente ao final de Anjos da Desolação (L&PM, 2010, tradução de Guilherme da Silva Braga), a propósito de viajar de ônibus com a mãe, atravessando o país da Flórida à Califórnia, onde pretendiam morar, com a bagagem dela acondicionada em sacos:

Porque eu ainda me lembro da América quando homens viajavam levando toda a bagagem num saco de papel, sempre amarrado com barbante – Eu ainda lembro da América com pessoas em fila esperando café e rosquinhas – A América de 1932 quando as pessoas reviravam o lixo na beira do rio procurando alguma coisa para vender – Quando meu pai vendia gravatas ou cavava trincheiras para a WPA – Quando velhos com bolsas de serapilheira remexiam latas de lixo à noite ou juntavam o escasso esterco de cavalo pelas ruas afora – Quando batatas-doces eram uma alegria. Mas cá estava a América próspera de 1957 e as pessoas rindo do nosso entulho (…)

Cosmovisão
Logo no início de On the Road (L&PM Pocket, 2004, tradução de Eduardo Bueno), na primeira de suas viagens, Kerouac conhece Mississipi Gene, vagabundo errante comparado a um negro: “Embora Gene fosse branco, havia algo da sabedoria de um velho negro experiente nele”. O negro que tem “sabedoria”, símbolo da exceção e de toda minoria social.

Essa mística da marginalidade é proclamada com o vigor de um manifesto em outra passagem de On the Road: “Num entardecer lilás caminhei com todos os músculos doloridos entre as luzes da 27 com a Welton no bairro negro de Denver, desejando ser negro, sentindo que o melhor que o mundo branco tinha a me oferecer não era êxtase suficiente para mim, não era vida o suficiente, nem alegria, excitação, escuridão, não era música o suficiente”. Paráfrase do que Rimbaud havia escrito sobre o “mau sangue” em Uma Estadia no Inferno: “Sou um bicho, um negro. (…) Falsos negros que sois, vós, manía- cos, perversos, avaros” (Arthur Rimbaud, Prosa Poética, Topbooks, 1998, tradução de Ivo Barroso).

Todos os seus encontros com vagabundos, marginais, pobres, assim como com integrantes de civilizações arcaicas e sociedades tribais, correspondem à ocasião para recuperar ou reencontrar algo do passado. Essa cosmovisão se traduz em reverência diante dos que estão mais próximos de um começo dos tempos; na perspectiva neoplatônica, mais próximos da verdade, a exemplo dos índios do México, sua terra de eleição, celebrados e comparados aos “antigos chineses” no capítulo final de On the Road. Mas a recuperação do arcaico também pode ser a construção do futuro, apresentação de uma utopia. É o que se vê no trecho de Os Vagabundos Iluminados (L&PM Pocket, 2007, tradução de Ana Ban), com a famosa profecia da revolução de jovens de mochila às costas, atribuída a outro beat, o poeta budista Gary Snyder (Japhy Rider no livro):

Pense na maravilhosa revolução mundial que vai acontecer quando o Oriente finalmente encontrar o Ocidente, e são caras como nós que podem dar início a essa coisa. Pense nos milhões de sujeitos espalhados pelo mundo com mochilas nas costas, percorrendo o interior e pedindo carona e mostrando o mundo como ele é de verdade para todas as pessoas. (…) eu quero que meus vagabundos do Darma carreguem a primavera no coração (…).

O trecho é programático: os hippies viriam a corresponder a seus “vagabundos do Darma” e tentariam realizar essa “maravilhosa revolução mundial”. Mais tarde, Kerouac não aceitaria os hippies como seguidores, argumentando faltar-lhes substância espiritual. Rejeitaria a politização, o messianismo e o milenarismo evidentes na poesia e na atuação de Ginsberg. Em contraste, no Kerouac de Anjos da Desolação, final de seu ciclo de viagens frenéticas e criatividade intensa (de 1949 a 1957), a tônica dominante é o pessimismo: “Só o que eu me lembro é que antes de eu nascer existia alegria”. Não há o que esperar do futuro; daí sua despedida da cena beat nessa narrativa: “Um pacífico pesar em casa é o melhor que sempre serei capaz de oferecer ao mundo, ao final, e assim eu disse adeus a meus Anjos da Desolação. Uma nova vida para mim”. Seu pessimismo foi proporcional à radicalidade de sua utopia: quis o impossível, reverter o tempo e recuperar o passado perdido. Não por acaso, ele e Neal Cassady viajavam pelos trajetos de On the Road com um amarrotado volume de Proust no bolso ou na mochila.

Busca de identidade
Kerouac descendia de franco-canadenses, os canucks. Sua primeira língua foi o joual, um francês macarrônico, dialeto daqueles nègres blancs. Aprenderia inglês na escola, aos 5 anos de idade. Sentia-se um estrangeiro, deslocado em todo lugar onde estivesse. Suas viagens foram a busca irrealizável de uma identidade. Interpretar a complexidade de sua obra e seus paradoxos pela origem seria redutor. Mas, se Rimbaud declarou-se negro, Kerouac deu um passo adiante: expressou-se como negro (especialmente em sua derradeira obra, Pic, terminada em 1969, pouco antes de ele morrer destruído pelo alcoolismo, aos 47 anos). E como canuck, em joual, em Visões de Cody, obra na qual se declara índio e nègre blanc. Um exemplo é este trecho paradoxal, por valer-se de uma língua falada (no sentido de o joual  não ter registro escrito) e comentar literatura, embora por meio de obscenidades e impropérios: “Gros fou, envi d’chien en culotte, ça c’est pire – en face! – fam toi! – chrashe! – varge! – frappé! – mange! – foure! – foure moi’l Gabin! – envalle Céline, mange l’e rond ton Genêt, Rabelais?

Conforme seus diários, Kerouac quis trazer a fala para a escrita: “On the Road é meu veículo com o qual, como um poeta lírico, como um profeta leigo (…), desejo evocar essa música triste indescritível da noite nos Estados Unidos – por razões que são mais profundas que a música. É o verdadeiro som interior de um país.” (Diários de Jack Kerouac, 1947-1954, L&PM, 2006, tradução de Edmundo Barreiros). O culto a jazzistas, resultando em páginas de prosa poética em On the Road e outras de suas obras, foi pela qualidade de sua música, pela improvisação e espontaneidade que inspirou suaprosódia bop, por viverem no underground e na noite. E por representarem ou simbolizarem a língua falada; aquela voz das ruas, da noite, dos subterrâneos. Realizar essa poética tornou boa parte de sua poesia, dos choruses de seus blues, simplesmente intraduzível. E também um texto como Old Angel Midnight (publicado em The Beat Book, organizado por Anne Waldman, Shambala, 1996), sobre sua escrita, com páginas de impropérios e algaravia: “lick, lock, mix it for pa-tit a a lamina lacasta reda va Poo moo koo – la”. Assim transferiu a produção do sentido ao som e recorreu às glossolalias, aos fonemas não semantizados. Aproximações com James Joyce nada têm de gratuito: foi uma de suas matrizes, ao lado de Louis Ferdinand Céline (que incorporou a língua falada à literatura francesa), Dostoiévski e Thomas Wolfe. Ulisses, de Joyce, é citado em Visões de Cody, Anjos da Desolação e nosDiários, e Finnegan’s Wake era lido em voz alta, para captar sua prosódia (como atesta seu biógrafo Gerard Nicosia, autor de Memory Babe).

A riqueza da obra de Kerouac é extraordinária. Declarava que On the Road havia sido um começo. Foi das límpidas prosas poéticas de The Sripture of Golden Eternity e dos modos de experimentação emOs Subterrâneos, Visões de Cody, Doctor Sax e Old Angel Midnight, além da caudalosa produção de poemas, da concisão e força de Tristessa, até narrativas mais lineares, como Os Vagabundos Iluminados. O modo como diferentes registros e vocabulários se combinam em tramas intrincadas tornam-no um autor difícil, por isso, mal assimilado, quando não ferozmente atacado por muitos críticos. Mas de enorme influência, exemplificada por testemunhos como os de Bob Dylan e Francis Ford Coppola (entre outros artistas notáveis) declarando que a leitura de On the Road foi decisiva e mudou suas vidas. E, felizmente, tema de uma bibliografia de qualidade, cada vez mais extensa e substanciosa. Assim cresce o culto a Kerouac. Ele o merece.


CULT – Qual o impacto causado quando você leu Kerouac?
Joca Terron – O primeiro texto de Kerouac que li foi o poema “Rimbaud”, publicado na antologia Alma Beat. Depois disso, li On The Road. Eu tinha entre 16 e 18 anos na época, havia saído da casa dos meus pais e as descobertas de Sal Paradise e Dean Moriarty não eram muito diferente das minhas. Foi a primeira vez que encontrei personagens nos quais eu podia me espelhar. De que modo ele o influenciou?
Foi uma influência comportamental nesse período da juventude. Em termos de técnica literária, não acredito ter recebido algo de Kerouac, pois sempre fui avesso à escrita automática que o caracteriza.

Qual o legado de Kerouac para a literatura mundial?
Fora o caráter histórico de ruptura com a prosódia norte-americana à época de seu surgimento. Acredito que os livros de Kerouac cumprem o papel de iniciar leitores.

Joca Terron, escritor

Fonte: Revista Cult – http://revistacult.uol.com.br

A vitória dos “moralizadores” e a depressão nos EUA

Eleições legislativas dos EUA. Quantos de vocês querem pagar a hipoteca do vizinho que construiu um banheiro extra e não pode pagar suas faturas? Falta coragem a Obama para pôr em questão as falsas ideias populares, ou é simplesmente preguiça intelectual? Cada vez mais votantes, tanto aqui como na Europa, estão convencidos de que aquilo de que necessitamos não é mais estímulo, mas castigo. A ironia é que, em sua determinação de castigar os eleitores que não merecem, castigam a si mesmos: rechaçando o estímulo fiscal e o alívio da dívida, perpetuam o desemprego elevado. A análise é de Paul Krugman.

Paul Krugman

É a célebre pergunta que Rick Santelli fez em 2009, pela CNBC, numa discussão que para muitos foi o ponto de partida do movimento Tea Party. É um sentimento  que tem eco não só nos EUA, mas em grande parte do mundo. O tom difere de um lugar a outro – ao escutar um funcionário alemão denunciando o déficit, minha mulher sussurrou: “na saída distribuirão chicote a todo mundo, para nos flagelarmos”.

Mas a mensagem é a mesma: a dívida é má, os devedores devem pagar pelos seus pecados e daqui por diante viveremos todos de acordo com os nossos meios.

Por motivos de espaço no provedor, leia esta matéria na íntegra no site CONTROVÉRSIA. Clique no link abaixo. Obrigado.

http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=7583

Pablo Mariconda

Filósofo da USP diz que Einstein desenvolveu as idéias de Galileu.

Marcos Pivetta

Mariconda: entre as idéias do físico alemão e do cientista italiano.

Na palestra intitulada “De Galileu a Einstein: do tempo da física ao tempo vivido”, o filósofo Pablo Mariconda, da Universidade de São Paulo (USP), traçou um paralelo entre as idéias de Galileu Galilei (1564-1642) e Albert Einstein. Segundo o pesquisador, o trabalho de Einstein, embora revolucionário, não promoveu uma ruptura em relação às teses de Galileu Galilei (1564-1642), mas um desenvolvimento do pensamento do cientista italiano, que vivera quase três séculos antes do gênio alemão. “Einstein aprofunda a constituição do observador científico, que, cada vez mais, se separa do observador comum”, disse o filósofo, que fez a apresentação no dia 1° de novembro.

Mariconda comparou especificamente as idéias de Galileu e de Einstein sobre duas questões fundamentais da física: o tempo físico (e a organização espaço-temporal dos eventos naturais) e a idéia de relatividade do movimento (e de sua caracterização físico-matemática). “Esses dois aspectos, presentes no pensamento de Galileu, convergem em um sentido preciso para a concepção relativista de Einstein”, disse o filósofo da USP.

No início do século XVII, Galileu foi o primeiro a introduzir na física o conceito de que o tempo é uma grandeza mensurável, ligada à determinação matemática do movimento. Fez isso por meio da chamada lei da queda dos corpos, segundo a qual a distância percorrida pelos corpos em queda livre é proporcional ao quadrado do tempo decorrido. Estabeleceu-se, assim, uma relação entre o espaço e o tempo. Com essa lei Galileu modificou a própria significação do conceito de tempo e criou o que se entende, desde então, como o tempo físico. “Isso abriu a possibilidade do desenvolvimento de uma cronologia centrada na natureza, diferentemente da cronologia medieval ou renascentista que se centrava no homem e nos seus afazeres”, comentou Mariconda. “Galileu introduz o tempo físico para além daquilo que poderíamos chamar de tempo social.” Essa modificação na significação da noção de tempo está intimamente ligada a uma nova concepção da natureza, que é vista como composta por regularidades imanentes às ligações observáveis entre os acontecimentos. Essas regularidades podem ser matematicamente expressas e adquirem o estatuto de leis eternas, presentes em todas as transformações observáveis na natureza.

Na concepção de tempo físico introduzida por Galileu, o termo tempo designa, na verdade, um movimento físico, uma seqüência de eventos físicos tomada como padrão de medida de tempo. Essa peculiaridade faz com que os instrumentos desenvolvidos para medir o tempo, os relógios, devam estar constantemente em movimento uniforme, sem aceleração. Os ponteiros de um relógio, por exemplo, devem percorrer um dado espaço fixo a um intervalo de tempo sempre regular. “Galileu marca o início da cronometria”, disse Mariconda.Einstein dá um passo além na definição do tempo. Para ele, além de grandeza física, o tempo é uma dimensão do espaço natural. “Vocês podem ver, principalmente na parte relativa ao tempo da exposição Einstein, a dilatação e contração da dimensão temporal proposta pelo físico alemão”, afirmou.

Para estabelecer a relação entre as idéias de Galileu e Einstein sobre a questão da relatividade do movimento, Mariconda retrocedeu ainda mais no tempo e recorreu às teses do polonês Nicolau Copérnico (1473-1543). No século XVI, ao apresentar a sua hipótese do duplo movimento da Terra (rotação e translação), Copérnico introduz o chamado princípio da relatividade óptica do movimento, que determina três situações possíveis na relação entre o observador e o objeto observado: o movimento pode ser produzido pelo observador, pela própria coisa observada ou por ambos. “Esse princípio chama a atenção para a relatividade do conceito de movimento e de repouso em relação ao observador”, explicou o filósofo.

Galileu aprofunda essa concepção na direção da relatividade mecânica, segundo a qual o movimento e o repouso são estados relativos e complementares dos corpos: um só pode ser definido em relação ao outro. Ou seja, o movimento só pode ser caracterizado em função dos corpos que não participam desse movimento. “Segundo Galileu, o movimento é totalmente extrínseco à natureza das coisas”, disse. “Ele é definido como uma simples modificação das relações espaço-temporais entre as coisas.” De acordo com as idéias do cientista italiano, dois corpos animados pelo mesmo movimento estão em repouso entre si e, ao mesmo tempo, em movimento em relação a todos os outros corpos que estão fora desse movimento comum.

O princípio da relatividade de Galileu possui uma importante conseqüência experimental: um observador situado no interior de um sistema em movimento não consegue definir se esse sistema mecânico está em repouso ou em movimento uniforme. Galileu, portanto, mostra as diferenças entre um observador interno e outro externo a um sistema em movimento. “A relatividade einsteiniana aprofunda essa perspectiva”, comentou Mariconda. Einstein muda de maneira muito peculiar a posição do observador em seus experimentos de pensamento. O físico imagina, por exemplo, o que aconteceria se fosse possível postar um observador se movendo à velocidade da luz (300 mil quilômetros por segundo). Uma das conseqüências dos estudos de Einstein é demolir a noção de que há um tempo absoluto, como dizia Isaac Newton. Para um observador em movimento na velocidade da luz, o tempo passa mais lentamente do que para as demais pessoas, segundo a relatividade de Einstein.

Fonte: Revista Pesquisa – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/