Daily Archives: 25/08/2010

Da educação que temos para a sociedade que queremos

Há décadas ouvimos o discurso de que é preciso melhorar a qualidade da educação no Brasil, de que essa qualidade é essencial para o desenvolvimento do país etc. Hoje, vários programas públicos, assim como movimentos da sociedade civil, carregam esta bandeira, mas o que é, afinal, esta qualidade? Que qualidade queremos?

Rubens Salles

Conforme foi recentemente publicado1, só 33% das metas do Plano Nacional de Educação foram cumpridas entre 2001 e 2008, e foram apenas as metas quantitativas. Das metas qualitativas, nada foi conseguido, muito pelo contrário, elas pioraram. A taxa de repetência no ensino fundamental aumentou de 21,7% em 2001, para 27,7% em 2007, e a evasão no ensino médio aumentou de 10% em 2006, para 13,2% em 2008.

Depois de tantos planos fracassados2, fica claro que a raiz deste problema ainda é desconhecida pelos nossos gestores públicos. Reconhecidos estudiosos da educação, como Edgar Morin3, Francisco Imbernón4, Saturnino De La Torre5, Isabel Alarcão6 e tantos outros, já nos alertam há anos que o grande obstáculo para oferecermos uma educação adequada às demandas do nosso tempo, se encontra no âmbito das relações humanas, na qualidade das relações humanas na escola, em especial durante o ensino infantil e fundamental, um período essencial para o desenvolvimento humano.

No Brasil, o foco da relação do professor não é com os alunos, mas com o conteúdo, e os sistemas oficiais de avaliação do ensino, focados em notas, também estimulam esta cultura. Embora a formação em pedagogia, teoricamente, prepare o professor para lecionar em qualquer ano do ensino infantil ou fundamental de 1º ao 5º ano, ele se especializa no conteúdo relativo a um único ano escolar, e a cada ano pega uma nova turma de alunos para ensinar o mesmo conteúdo. Assim, ele não se compromete com o desenvolvimento e o sucesso futuro dos alunos. Se a criança tem dificuldades é cômodo transferir a culpa para a família ou o para o professor anterior, e ela será problema do próximo professor. Também é fato que, para se manter com um baixo salário, é comum o professor assumir uma carga horária muito alta, trabalhando em vários períodos, o que inviabiliza um envolvimento mais profundo com seus alunos. Nossas políticas públicas não estimulam o comprometimento do professor com o desenvolvimento individual dos alunos por longo prazo, nem uma aproximação efetiva do professor com as famílias, e, no fim, ninguém é responsabilizado pelo fracasso de um aluno.

Devido à pressão que a sociedade impõe ao poder público pela melhoria da qualidade na educação, governantes, assim como gestores de escolas privadas, tentam resolver o problema comprando “sistemas de ensino” apostilados, que não têm relação com as necessidades individuais dos alunos e nem com a identidade de suas comunidades. Com estes sistemas “economiza-se” o tempo para preparar aulas. Assim, os professores podem ter os vários empregos – necessários, pois os salários continuam baixos – e  não têm tempo para dedicar ao seu aprimoramento e aos seus alunos. É a pura lógica industrial: investe-se nos sistemas e economiza-se na mão de obra. Assim a qualidade de vida dos professores vai para o ralo e a qualidade da educação vai junto. Adotar estes sistemas equivale a obrigar pessoas que podem andar a usar muletas. Eles já atingem milhões de crianças brasileiras, e quem mais se beneficia são as editoras que os vendem7. A educação, principalmente a infantil e fundamental, não pode ser tratada como se fosse apenas um treinamento, desvinculada das relações humanas e da individualidade dos alunos, e os professores como se fossem incapazes de criar e planejar suas aulas. Isso tira a autonomia da escola, engessa e massifica o ensino, relega os professores a meros coadjuvantes, a aplicadores de tarefas e testes, tolhendo seu protagonismo, e perpetua o status quo8.

Sabemos que a educação é radical: ela é a raiz do bem ou raiz do mal. O que chamamos de escolas públicas, no Brasil, são, na maioria, escolas estatais, obrigadas a seguir programas impostos pelo estado, escolas sem “alma”, que cerceiam a criatividade e a iniciativa dos professores, e, como consequência, desestimulam a criatividade, a iniciativa e o interesse dos alunos. Aí os jovens chegam ao ensino médio despreparados e desmotivados, sem acreditar na escola, nem nas suas próprias chances de sucesso, e acabamos com o “apagão” de mão de obra que o país enfrenta hoje9.

Neste cenário, fica claro que nossa educação básica se perdeu do fator humano. As crianças não precisam da escola apenas para serem instruídas, elas precisam para se desenvolver como seres humanos. Embora esta seja uma responsabilidade primordial da família, sabemos que a escola é um ambiente privilegiado para o desenvolvimento de valores como a responsabilidade, a solidariedade, a sociabilidade, a tolerância, a inclusão, a justiça, a democracia, a diversidade, a cidadania e a sustentabilidade, entre outros.

Sem pretender esgotar aqui este assunto, relaciono alguns princípios que considero condicionantes para uma educação de qualidade, com base nas relações humanas e na educação como arte social, e que podem ser um caminho para enfrentarmos nosso maior desafio: substituirmos a cultura do consumismo pela da sustentabilidade10.

O professor como formador comprometido com o sucesso do aluno

O êxito da educação básica depende, em primeiro lugar, da qualidade da relação humana entre professor e aluno. Tanto no ensino infantil, como no fundamental, o foco do professor precisa deixar de ser apenas o conteúdo, e passar a ser o aluno, e seu desenvolvimento como ser humano completo, que pensa, se sensibiliza, se relaciona e atua no mundo. A mudança deste paradigma é essencial para que outras transformações sejam conseguidas. Tanto no ensino infantil quanto no fundamental, é preciso criar a possibilidade e incentivos para que cada professor se comprometa com a condução de sua turma pelo maior tempo possível, e com o sucesso individual de seus alunos.

No ensino infantil, isso seria por cerca de três anos. No ensino fundamental, o professor formadorpoderia acompanhar sua turma do 1º ao 5º ano, ministrando as atividades e matérias básicas. Aulas de música, língua estrangeira, educação física, trabalhos manuais etc. podem ser ministradas por professores especialistas. O professor formador precisa conhecer a fundo cada aluno, seu temperamento, suas qualidades e dificuldades, e conhecer sua família, para poder atuar da melhor forma com cada um, assumindo perante os pais o compromisso de conduzi-lo em sua formação. Deve preparar suas aulas a partir de seu conhecimento sobre o desenvolvimento humano, sua visão de mundo, os conteúdos curriculares e o conhecimento sobre seus alunos e, claro, deve poder dedicar-se a apenas uma turma. Nas séries superiores do ensino fundamental os professores com licenciatura também deveriam ter estímulo para acompanhar suas turmas. Desta forma se fortaleceria também o vínculo dos professores com as escolas.

Como o exemplo pessoal do professor, independentemente de sua vontade, influencia na formação moral e social dos alunos, principalmente durante o ensino infantil e o fundamental, ele precisa se preparar para ensinar a responsabilidade sendo responsável e coerente em suas atitudes, ensinar a justiça sendo justo com todos os alunos, ensinar a solidariedade sendo solidário, ensinar a inclusão, incluindo, ensinar respeito, respeitando seus alunos, e, para entusiasmá-los pelo conhecimento, precisa ensinar com entusiasmo.

Este modelo de relação entre professor e aluno não é novo. É aplicado nas escolas que adotam a pedagogia Waldorf no Brasil, há mais de 50 anos11. Nestas escolas há professores formadores no ensino infantil e no fundamental. No fundamental os professores acompanham sua classe do 1º ao 8º ano, ministrando as matérias básicas. Eles recebem as crianças todos os dias na porta da classe, e as cumprimentam pegando em sua mão, desejando bom dia a cada uma, dizendo seu nome e olhando nos seus olhos. No fim das aulas se despedem da mesma forma. Assim, cada criança sente que foi olhada e percebida por seu professor, e que está no foco de sua atenção. Esta simples atitude já muda a disposição com que a criança recebe o que vem deste professor.12

A independência pedagógica da escola

Tudo que nossa civilização criou até hoje foi, em última instância, fruto de realizações individuais. Portanto, é fundamental estimular cada indivíduo a desenvolver suas capacidades próprias, e só o professor é capaz de enxergar o aluno como indivíduo. O Estado e as editoras não conseguem. Assim, cada professor precisa ter a liberdade de atuar com seus alunos. Esta liberdade não significa que as matérias exigidas pelos programas oficiais de ensino não sejam contempladas. Significa a forma como serão ensinadas e o momento, assim como a inclusão de matérias adicionais, principalmente no âmbito das artes e dos trabalhos manuais. O projeto educativo de uma escola deve ser livre da tutela estatal, tendo como base sua comunidade educadora, e partilhado por professores que experimentem em si próprios a liberdade, a responsabilidade e o protagonismo. A partir de professores livres, poderemos formar homens livres, com autonomia para escolher seu próprio caminho e novos caminhos para a humanidade.

O aprendizado deve ser prazeroso

Como Heródoto já disse há 24 séculos, “educar não é encher um balde, é acender um fogo”. A indisciplina que os professores do ensino fundamental enfrentam hoje ocorre porque suas aulas são focadas apenas no ensino cognitivo, como se esta fosse a única característica humana que precisasse ser desenvolvida. Ficam somente no exercício do Pensar, desprezam o desenvolvimento do Sentir e do Querer. Ocorre que as atividades ligadas ao Pensar sempre exigem “concentração”, e as aulas ficam chatas, pois crianças não aguentam só se concentrarem. Já as atividades ligadas ao desenvolvimento do Sentir e Querer permitem uma “descontração” e, quando as três são intercaladas, cria-se um ritmo mais saudável e produtivo, pois a aula “respira”. Os alunos passam a gostar das aulas e o professor se estressa muito menos para lecionar. Se o professor não cria momentos de descontração conduzidos por ele, os alunos criam por conta própria. A indisciplina deve ser encarada como um pedido de socorro dos alunos13.

O Sentir desenvolve-se por meio da vivência das relações humanas, pelo contar histórias (contos de fadas, lendas, fábulas, mitos, biografias etc.)14, pela interpretação musical, declamação de poemas15, rodas rítmicas, jogos, representação teatral etc. Interpretando personagens a criança e o adolescente vivenciam as qualidades que influirão na formação de seu caráter.16

O Querer, o fortalecimento da vontade, desenvolve-se exercitando a criação individual por meio de atividades que exigem uma ação manual transformadora, como criar um texto, um desenho, uma pintura, uma escultura, um trabalho em madeira e diversos tipos de trabalhos manuais, tocar um instrumento etc. O aluno precisa criar algo a partir da sua imaginação, usando a vontade, a perseverança, a coordenação psicomotora e o senso estético. Este é um antídoto contra o bitolamento de seu modo de pensar, onde cada resultado conquistado fortalece sua autoestima.

As atividades artísticas devem ser utilizadas como instrumento pedagógico para potencializar o aprendizado das matérias básicas, e não apenas como matéria isolada, pois permitem que o professor promova a vivência lúdica dos conteúdos. Representar uma peça sobre as grandes navegações, vivenciando as ações e emoções dos navegantes, é muito mais rico e interessante do que decorar nomes e datas, além de promover a socialização entre os alunos. A formação completa do ser humano não pode prescindir da arte como instrumento, pois ela ajuda a libertar e desenvolver as mais profundas capacidades que cada criança traz consigo.17

E quanto às avaliações, elas não podem incutir nas crianças o medo de errar. Se os alunos não estiverem preparados para errar, nunca terão idéias originais, e a maioria chegará à idade adulta tendo perdido sua criatividade. Como não sabemos como será o mundo onde eles vão viver, e os desafios que terão que enfrentar, a criatividade precisa ser tratada com a mesma importância que a alfabetização.

Um novo papel social para o professor

Um professor que assume a responsabilidade, perante um grupo de pais, de conduzir a educação de seus filhos por um período importante de sua formação, passa a ter uma importância social muito maior do que um professor “de passagem”. Ele deve atuar entre os alunos de modo a promover o fluir e a harmonia das relações, e o desenvolvimento harmônico de suas capacidades humanas de pensar, sentir e querer, criando um ambiente saudável para o aprendizado18. Educar desta forma deve ser considerado uma obra de arte social, e o educador, um artista social. Exige um constante esforço de aprendizado e autoconhecimento, ambiente de trabalho apropriado, e o reconhecimento da importância deste trabalho refletido em sua remuneração e num plano de carreira adequado e estimulante. Os jovens que tiverem a educação conduzida desta forma poderão chegar ao ensino médio com outra disposição de espírito para o aprendizado, com outro nível de responsabilidade social, mais idealistas e menos céticos em relação a suas perspectivas de sucesso na vida.

Fomentar o processo de auto-educação, auto-conhecimento e auto-estima do educador como base sólida para a sua interação saudável com a criança, é uma política pública primordial. A carreira de professor para o ensino básico precisa urgentemente melhorar seu status, pois temos que atrair para ela nossos melhores e mais promissores jovens. E as universidades, por sua vez, precisam fazer seu mea culpa e renovar seus currículos, proporcionando um estudo aprofundando do desenvolvimento humano19, o estudo pedagógico dos temperamentos20 e das necessidades da criança em cada etapa de seu desenvolvimento. Devem focar a realização do ensino com sentido estético, e estruturado com atividades artísticas, preparando-os para serem protagonistas da educação. Também é fundamental a criação de um sistema de estágios que realmente prepare os novos professores para a atuação em sala de aula, e um amplo programa de formação continuada ministrado por formadores com vivência prática em sala de aula.

Educação de qualidade para uma sociedade sustentável

A qualidade da educação, considerada como o compromisso de promover o desenvolvimento do aluno como ser humano completo, que pensa, se sensibiliza, se relaciona e atua no mundo, só se sustenta pela competência, autonomia e dedicação de seus professores. Nenhum livro didático, computador ou recurso técnico substitui a qualidade da relação humana entre um professor preparado, motivado e entusiasmado com seu trabalho, e seus alunos. Nenhum método educativo supera ou substitui a palavra falada que vai de um ser humano a outro. Só um professor bem preparado, amparado pelo ambiente de trabalho, e dedicado, sustenta a qualidade de seu trabalho durante o tempo de duração de sua vida profissional. Qualificar a educação através da qualificação das relações humanas entre professores e alunos está na raiz da sustentabilidade ambiental, social e econômica. Só a vivência cotidiana sadia dos valores humanos pode estimular os jovens a darem mais valor às relações e qualidades humanas e à cultura, do que aos bens materiais e ao consumo. Para nos tornarmos uma sociedade sustentável, o paradigma cultural do sucesso e da felicidade pessoal precisa ser mudado do TER para o SER, para conseguirmos educar uma nova geração que consiga viver melhor, e ser mais feliz, consumindo menos21.

Os princípios aqui sugeridos já são aplicados nas escolas que adotam a pedagogia Waldorf, em mais de 80 países, nos cinco continentes, mas, como se pode perceber, são princípios universais e já existe pesquisa acadêmica sobre sua aplicação em escolas públicas no Brasil22. Eles podem contribuir para as profundas mudanças que precisamos efetuar na educação básica brasileira, se quisermos nos tornar uma sociedade mais humanizada, solidária, inclusiva, justa, democrática e sustentável.

Fonte: Le Monde Diplomatique – http://diplomatique.uol.com.br/

A Bossa Nova

Claudio Recco

A Revolução de 1930 deu inicio as primeiras mudanças estruturais no Brasil, na medida em que a lavoura tradicional de exportação perdeu espaço na economia nacional e a industria conheceu desenvolvimento significativo, a partir de então. Os cafeicultores foram os grandes prejudicados e ao mesmo tempo projetou-se a expansão industrial, aproveitando o espaço que se abrira na economia mundial, fruto da crise que se iniciara no ano anterior.

A depressão do capitalismo internacional afetou as importações e exigiu maior investimento e mecanismos de proteção a indústria nacional, marcando o novo modelo de Estado, caracterizado por grande intervenção, focado no desenvolvimento industrial e apoiado no discurso nacionalista.

O industrialismo nacionalista trouxe consigo a formação de uma nova classe operária, não apenas mais numerosa, mas caracterizada pela retração na presença de imigrantes e do movimento anarquista, que foi substituído pelo sindicalismo oficial e pelego, com um expressivo setor do operariado levado a apoiar o Estado e suas ações, que envolveram uma política paternalista e assistencialista.

Por motivos de espaço no provedor, leia esta matéria na íntegra no site CONTROVÉRSIA. Clique no link abaixo. Obrigado.

http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=6687

Os impactos da crise do euro e a possibilidade de ruptura social

IHU-OnLine

Analisando os impactos das crises financeiras dos últimos anos, sobretudo a recente crise do euro, o sociólogo francês Alain Touraine, em entrevista, por email, à IHU On-Line, constata o enfraquecimento das instituições políticas, “o que reforça a probabilidade de ruptura social”.

De acordo com ele, frente à “dominação da economia globalizada, não se pode mais encontrar, no interior da sociedade, forças de resistência. Nem os partidos, nem as crenças, nem as classes sociais têm, hoje em dia, a possibilidade de armar os descontentamentos e as recusas que correm o risco de se esgotar em ações negativas”. Os movimentos sociais, aponta, estão em crise e têm “cada vez menos expressão política”. De outro lado, surgem “movimentos culturais, como a ecologia política, o feminismo, a defesa das minorias, que devem poder encontrar novas expressões na política e na mídia”. A respeito do desmantelamento do estado de bem-estar social na zona do euro, Touraine é categórico: “Não se deve, em nenhum caso, aceitar um recuo da proteção e da redistribuição social, uma vez que, em escala mundial, as desigualdades aumentaram”.

Touraine é autor, entre inúmeros livros, de O mundo das mulheres (Petrópolis: Vozes, 2006), Penser autrement (Paris: Fayard, 2007), Um novo paradigma para compreender o mundo de hoje (Petrópolis: Vozes, 2006) e A sociedade pós-industrial (Lisboa: Moraes, 1970). Touraine tornou-se conhecido por ter sido o pai da expressão “sociedade pós-industrial”.

Confira a entrevista.

IHU On-LineQue novo modelo de organização da sociedade está se descortinando a partir das crises financeiras que vêm abalando o mundo recentemente?

Alain Touraine – A crise financeira e, agora, a crise monetária, que, provavelmente, será seguida de uma crise do crescimento, mostram que se constituiu um mundo financeiro cujas finalidades são estranhas àquelas da economia e de seus necessários investimentos. Vemos desenvolver-se uma sociedade firmada sobre ela mesma, porque está privada de toda a ação sobre o sistema econômico. As instituições políticas se encontram enfraquecidas, o que reforça a probabilidade de ruptura social.

IHU On-LineQual deveria ser o papel do Estado em pensar um modelo econômico e social ideal para a sociedade do futuro?

Alain Touraine – Pode-se esperar que, após a crise de 2008, todos os países reconhecerão a necessidade de pôr fim às ilusões neoliberais e, por exemplo, ao Consenso de Washington. Os países europeus, em particular, privados de crescimento, sobrecarregados de déficits e de dívidas, obrigados a impor medidas de rigor, necessitam, para ser aceitos pelas populações, propor objetivos socialmente positivos para o futuro próximo. Ainda é necessário que os Estados transformem sua concepção deles próprios, aliviem sua função administrativa, para dar prioridade ao combate ao desemprego, à elevação do nível de vida e à cobertura dos novos riscos.

IHU On-LineQuais são as principais necessidades do ser humano moderno e por que a chamada organização dos mercados e do capitalismo não atende a essas necessidades? Que alternativa o senhor vislumbra no sentido de suprir essa carência humana?

Alain Touraine – Face à dominação da economia globalizada, não se pode mais encontrar, no interior da sociedade, forças de resistência. Nem os partidos, nem as crenças, nem as classes sociais têm, hoje em dia, a possibilidade de armar os descontentamentos e as recusas que correm o risco de se esgotar em ações negativas.

IHU On-Line – Qual deve ser, na sua visão, a real função do setor financeiro de uma nação?

Alain Touraine – O setor financeiro de uma nação tem, normalmente, duas funções complementares: financiar os investimentos na produção e dar crédito aos indivíduos e aos negócios para a organização de sua vida e, em particular, para sua moradia. O imenso setor financeiro que se criou, em particular, nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, não tem nenhum cuidado dos investimentos; ele procurou e obteve lucros enormes por usa capacidade de dispor de informação em tempo real. Este sucesso de certos financistas enfraqueceu a economia e, por consequência, as condições de vida da população.

IHU On-LineSe considerarmos, como dizem alguns autores, que “Estado” e “mercado” foram dois meios de opressão nos últimos 100 anos, o que podemos esperar para o futuro?

Alain Touraine – Os que consideram o Estado e o mercado como dois meios de opressão se colocam numa situação irreal. Não há sistema econômico que funcione sem mercado e sem Estado. Opostamente, é indispensável que existam movimentos de base que apelem às necessidades mais reais contra as especulações mais abstratas. Aquilo de que provavelmente tenhamos mais necessidade é de aprender a combinar o mercado e o Estado após um período absurdo que queria dar tudo ao mercado.

IHU On-LineConsiderando um possível desmantelamento do estado de bem-estar social na zona do euro, quais elementos da sociedade sofrerão as piores consequências?

Alain Touraine – Os países europeus e outros têm a escolha entre duas políticas face ao déficit do estado de bem-estar social. A primeira é de diminuir os fornecimentos e as garantias, o que parece uma provocação, uma vez que a parte do trabalho na renda nacional baixou, e a outra solução consiste em mudar a concepção sobre a proteção social. O estado de bem-estar social foi concebido como realidade sendo financiada e como

servindo os trabalhadores, incluindo suas empresas. É preciso, agora, considerar que o conjunto dos rendimentos, os do capital ainda mais do que os do trabalho, devem participar na manutenção da proteção social. Também é preciso, com total urgência, responder a novos riscos e a novas demandas. Pensa-se, em particular, nos problemas acrescidos pela longevidade cada vez maior da vida humana. A dependência sob todas as suas formas e o aumento das doenças, como certos cânceres junto às pessoas idosas, criam problemas urgentes, mas sabe-se bem, hoje em dia, que as novas formas de trabalho e, principalmente, as novas políticas das empresas criavam novos riscos para os trabalhadores. No caso francês, a opinião pública foi golpeada pelas ondas de suicídio nas empresas, embora modernas. Não se deve, em nenhum caso, aceitar um recuo da proteção e da redistribuição social, uma vez que, em escala mundial, as desigualdades aumentaram.

IHU On-LinePor que o senhor afirma que os movimentos sociais vivem uma crise? Como eles têm reagido, na Europa e sobretudo na França, à crise econômica?

Alain Touraine – O que se chamou de movimentos sociais foi definido em termos que correspondem às sociedades industriais. Antes de seu desenvolvimento, conheceram-se, principalmente, movimentos políticos. Hoje, esses movimentos sociais têm cada vez menos expressão política, mas vê-se surgir movimentos culturais, como a ecologia política, o feminismo, a defesa das minorias, que devem poder encontrar novas expressões na política e na mídia.

Fonte: Mercado Ético – http://mercadoetico.terra.com.br/

OIT alerta para surgimento de "geração perdida" de jovens sem emprego

BBC Brasil

O número recorde de quase 81 milhões de jovens desempregados no mundo em 2009, devido à crise econômica, cria o risco do surgimento de "uma geração perdida, constituída de jovens que abandonaram o mercado de trabalho e perderam as esperanças de poder trabalhar e ganhar a vida decentemente", alerta a Organização Internacional do Trabalho (OIT) em um relatório divulgado nesta quarta-feira.

O risco da existência de uma "geração perdida" afeta sobretudo os jovens de países desenvolvidos, onde "novos candidatos que ingressam no mercado de trabalho se somam às filas de desempregados", disse à BBC Brasil Sara Elder, economista da OIT e autora do relatório Tendências mundiais do emprego dos jovens 2010.

O número de jovens desempregados nos países ricos passou de 8,5 milhões em 2008 a 11,4 milhões em 2009, o que representa um aumento de 34,1%.

No caso dos países em desenvolvimento e pobres, onde muitos trabalham de maneira independente e em setores informais e não podem contar com benefícios sociais, os jovens desempregados "perdem a oportunidade de sair da pobreza", afirmou a economista.

"Nos países em desenvolvimento, os efeitos da crise econômica ameaçam agravar os déficits de trabalho decente dos jovens, tendo como resultado um aumento do número de jovens trabalhadores bloqueados na pobreza, prolongando o ciclo da pobreza no trabalho em pelo menos uma geração", declarou o diretor-geral da OIT, Juan Somavia.

Já nos países ricos, muitos jovens desempregados acabam optando por prolongar seus estudos superiores após ficarem pelo menos um ano inativos. "Mas muitos se revoltam com a situação, se sentem desencorajados e abandonam a procura de um trabalho", disse a economista.

Programas para jovens

Não há números globais em relação aos jovens que desistem de ingressar no mercado de trabalho, mas ela citou os exemplos de alguns países.

Na Grã-Bretanha, segundo a autora do estudo, 25% dos jovens inativos se sentem desencorajados para procurar um emprego.

Esse é o índice mais alto entre as economias desenvolvidas. Na Espanha, 10% dos jovens desempregados perderam as esperanças de encontrar um trabalho.

Elder disse que muitos países desenvolvidos, como os da União Europeia, criaram programas de formação e adotaram medidas fiscais para subsidiar a contratação de jovens.

"O perigo agora são as pressões para retirar esses incentivos", afirmou, se referindo às restrições orçamentárias para reduzir os elevados déficits públicos dos países europeus.

Segundo o relatório, o número de jovens com idade entre 15 e 24 anos desempregados aumentou em 7,8 milhões no mundo entre 2007 e 2009, totalizando 80,7 milhões de pessoas.

A título de comparação, durante o período de dez anos que precedeu a crise atual (de 1996/97 a 2006/07), o número de jovens desempregados no mundo aumentou em 1,91 milhão.

A taxa de desemprego dos jovens passou de 11,9% em 2007 a 13% em 2009, a maior alta em termos percentuais dos últimos 20 anos em que a OIT dispõe de estatísticas internacionais.

A organização prevê que o índice de desemprego entre os jovens começará a diminuir somente em 2011.

Neste ano, a OIT estima uma leve alta na taxa, que deve atingir 13,1% dos jovens economicamente ativos.

Brasil

Embora o estudo da OIT retrate a situação apenas por regiões do mundo e não por países, a economista afirmou que o Brasil "é um caso muito especial e representa um bom exemplo de resposta à crise" do desemprego dos jovens.

Elder citou o programa Bolsa-Família, que teria contribuído, segundo ela, para a redução da taxa de desemprego dos jovens no Brasil.

O índice, no segundo trimestre deste ano, é de 17%. No mesmo período de 2007, a taxa era de 18,7%.

Na América Latina e Caribe, o número de jovens desempregados aumentou 11,4% entre 2008 e 2009, totalizando 8,8 milhões de pessoas.

Fonte: BBC Brasil – http://www.bbc.co.uk/portuguese/

Amores silenciados

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Como a política da elite do século XIX modelou a nossa sexualidade

Joselia Aguiar

A relação entre masculinidade, honra e violência parece ser herança do período, diz Miskolci

Seduzidos por Capitu, leitores e críticos que há um século debatem sobre Dom Casmurronem sempre se detêm em outro vértice do triângulo: a relação entre Bentinho e Escobar. Por esse ângulo, o sociólogo Richard Miskolci observa a obra de Machado de Assis, assim como a de outros escritores do final do século XIX, em sua pesquisa O desejo da nação, que tem apoio da FAPESP. Ao usar como fontes não só os discursos literários, como também políticos e científicos, ele pretende combinar reconstituição histórica e análise sociológica para compreender como interesses político-sociais levaram ao controle da sexualidade, notadamente da homossexua lidade entre homens brancos da elite.

Estudos sobre a construção da nação brasileira nesse período quase sempre se concentram nas discussões políticas ou nas relações étnico-raciais. “No Brasil, a experiência da colonização e do escravismo gerou particularidades no que se refere à sexualidade, ao desejo e ao erotismo”, avalia Miskolci, professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), onde coordena o grupo de pesquisa Corpo, Identidades e Subjetivações (www.ufscar.br/cis).

Ao contrário das representações dominantes hoje sobre o Brasil, de permissividade ou liberdade sexual, o pesquisador argumenta que nos caracterizam convenções culturais próprias ainda pouco analisadas. “Identificá-las é um desafio”, explica. “Quero compreender como estamos inseridos em formas específicas de controle e ‘agenciamento’ do desejo e até mesmo qual é nossa gramática erótica própria.”

O trio de personagens de Dom Casmurro, obra de 1900, ilustra o que Miskolci denomina de “heteronormatividade à brasileira”. Bento só consegue assumir seu papel de marido e pai de família “escorado” em sua amizade-amor por Escobar. “Não se trata da exclusão do homoerotismo. Antes, é sua contenção e disciplinamento dentro de um triângulo amoroso que direciona os homens para relações heterossexuais reprodutivas”, explica. As relações heterossexuais brasileiras, vistas a partir de Dom Casmurro, se fundam, assim, tanto em um vínculo disciplinado, mas profundo, entre dois homens, quanto na relação com a mulher, avalia o pesquisador.

Sutilezas – Com a leitura de outros romances da época, é possível entrever, segundo Miskolci, outras sutilezas no controle do desejo. No dia a dia do internato revelado em O Ateneu o fantasma a assombrar os homens de elite parece ser – muito mais do que o desejo pelo mesmo sexo – a possibilidade de ser tratado, ou maltratado, como uma mulher. O romance de Raul Pompeia, datado de 1888, mostra, assim, como ocorre o disciplinamento da masculinidade: há práticas “pedagógicas” violentas, combatendo e desqualificando qualquer traço de personalidade que pudesse ser associado ao feminino. Ou seja, mais que a homossexualidade, o que se pretende conter, pelas lentes de O Ateneu, é a existência de “efeminados”. “A relação entre masculinidade, honra e violência, concreta ou simbólica, parece ser uma herança desse período que estudo, pois rege tanto as masculinidades heterossexuais quanto as homossexuais na sociedade brasileira contemporânea”, afirma o professor.

Na sociedade brasileira do final do século XIX também são temidas as relações homossexuais interraciais, como Miskolci observa em Bom crioulo, romance de Adolfo Caminha que provocou escândalo ao ser publicado, em 1895. Em Amaro, um escravo foragido que protagoniza a trama, tem-se a imagem então corrente do homem negro como um predador sexual, perigoso e sem controle. “Há muitos temores e estereótipos sexuais que se mantêm ou se reatualizam em nossos dias”, explica o sociólogo.

Não se trata de traçar uma história dos homossexuais ou da homossexualidade na sociedade brasileira. O pesquisador diz que seu objetivo é contar a história da formação do nosso ideal de nação em uma perspectiva subalterna, ou seja, uma história “dos outros”: excluídos, abjetos, marginalizados por sua sexualidade não normativa. Seu levantamento busca encontrar, nas sombras, os desejos proscritos e impossíveis, os amores silenciados.

Na sociedade atual, o sociólogo observa que gays e lésbicas já são identidades normalizadas, inseridas no mercado e dentro de uma concepção política liberal. O caráter abjeto na sociedade brasileira de agora não seria atribuído a pessoas brancas de classe média ou alta, formando casais monogâmicos querendo se casar – mesmo que sejam casais homossexuais. Como estigmatizados, encontram-se hoje travestis, transe xuais, “efeminados”, pobres, negros, portadores de HIV. “Os que permanecem na base da pirâmide da respeitabilidade sexual e social são os que herdaram a abjeção que estudo no final do século retrasado”, diz Miskolci.

Em Bom crioulo, o pesquisador observa algo que permanece atual: a tendência cultural a desvalorizar o negro como parceiro amoroso para homens. Estudos sobre gays brasileiros como os feitos ou orientados por Júlio Assis Simões, professor do Departamento de Antropologia da USP e pesquisador colaborador do Pagu – Núcleo de Estudos de Gênero da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), têm mostrado como o ideal de parceiro é branco, e o negro tende a ser visto apenas como parceiro sexual ocasional, exótico. Algo diverso se passa entre casais héteros. Como mostra o livro Razão, “cor” e desejo, escrito pela também professora do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP) Laura Moutinho, o racismo brasileiro teve o efeito inesperado de “erotizar” os homens negros, fazendo com que a maioria de nossos casais interraciais héteros seja formada por um homem negro e uma mulher branca.

Burguesa – Na virada do século XIX para o XX, almejava-se que a nação se tornasse mais branca e burguesa do que era. A sexualidade, segundo Richard Miskolci, se não tinha centralidade até o século XVIII, deve ser vista a partir desse período como peça-chave na reconfiguração de tal imaginário nacional na nascente República. A tríade monarquia, indigenismo simbólico e catolicismo seria substituída por uma nova compreensão, “científica” e “racializada”, do que era a nação brasileira. O desejo e o sexo se tornam questões centrais por causa dos temores sobre relações interraciais e as incertezas sobre as consequências da miscigenação.

A construção da nação exigia o “agenciamento” do desejo para formas ideais, particularmente para a heterossexualidade reprodutiva do casal monogâmico estável. Esse casal era idealizado como branco ou branquea dor. Um casal “miscigenador” deveria ser formado por um homem branco – brancura, poder e masculinidade se equivaliam – e uma mulher mulata – pois se rejeitava a mulher negra. “Este ideal unia expectativas com relação à sexualidade e ao desejo, impunha a reprodução como norma e estabelecia que esta deveria resultar em ‘branqueamento’ da população. Devia-se evitar qualquer desvio do desejo que ameaçasse a formação do modelo de casal reprodutivo, ao qual se atribuía a expectativa de gerar a nação almejada, progressivamente cada vez mais branca e sexualmente normalizada”, argumenta o sociólogo.

A escolha em focar sua pesquisa nos homens, explica Miskolci, deriva da necessidade de explorar melhor como se reconfiguraram as relações entre eles e as expectativas sociais com relação a seu papel coletivo. De forma sintética, ele diz que aparentemente houve uma progressiva redução da importância da amizade entre homens, que se tornou periférica na comparação com a relação com a esposa e a família, dentro da qual se atendia às expectativas coletivas de reprodução da nação. Os temores com relação aos “desvios” dessa missão masculina de “embranquecimento” encontravam amparo na pedagogização do sexo, que se associava também à psiquiatrização das “perversões”. O controle da sexualidade feminina se baseará em uma hierarquização entre mulheres brancas, mulatas e negras.

Na sua interpretação dos desejos da nação, o sociólogo se baseia na obra de Michel Foucault e no campo acadêmico conhecido como Saberes Subalternos – a vertente culturalizada do marxismo que incorporou o pós-estru turalismo francês e se desdobra, hoje, na corrente feminista conhecida como Teoria Queer e nos Estudos Pós-coloniais. Às obras li terárias somam-se análises de discursos políticos e científicos da época. Entre os homens de ciência no Brasil, a maioria um misto de literatos-cientistas com ambições políticas, discutia-se qual seria a viabilidade da nação mestiça. “É um tema explorado exaustivamente pelo pensamento social brasileiro no que toca à questão racial, da miscigenação, mas que, fato curioso, deixa de fora as relações não reprodutivas, em especial entre pessoas do mesmo sexo.”

Para o sociólogo, as obras literárias não apenas ilustram a história do perío do; permitem acessá-la por meio de experiências subjetivas, diferenciadas, algumas vezes até mesmo em desacordo com o que se passava. “Não se trata da genialidade dos escritores, mas da característica da própria criação literária, que frequentemente foge ao controle e às intenções do autor”, afirma Miskolci. Enquanto o discurso político e o científico, mais institucionais e articulados, tendiam a coincidir mais do que a divergir, as expressões literárias da época permitem entrever ambiguidades, dissidências e, sobretudo, tanto o processo de constituição da nação quanto formas diversas de resistência a ele.

Fonte: Revista da FAPESP – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

A grande sessão plenária dos seres alados

Durante o dia, eles pendem às pencas em árvores sobrecarregadas. À noite, milhões deles fazem o ar vibrar. A reunião anual dos morcegos-frugívoros-cor-de-palha, no Parque Nacional de Kasanka, na Zâmbia, tem status de recorde mundial: provavelmente, em nenhum outro lugar da Terra tantos mamíferos se concentram em uma área tão pequena. E sua presença tem um efeito colateral ecológico

Michael Stührenberg

PENSANDO BEM, a selva africana é um tanto assustadora. “Olhe ali!”, sussurra Jill enquanto move a cabeça rumo ao céu, onde a última fenda azul acaba de sumir atrás de pesadas nuvens cor de chumbo. “É lá!”, diz agitada Lee-Anne, cujos olhos esbugalhados refletem dois raios que atingem simultaneamente a linha do horizonte.

Fico quieto, pois a situação poderia piorar. Por exemplo, se o céu se abrisse agora e despejasse toda a água de suas nuvens negras. Mas é exatamente isso que acontece. “Oh, meus Deus!”, exclamam Jill e Lee-Anne, resumindo nossa situação.

Lá estamos nós, ensopados da cabeça aos pés, por cima e por baixo, no meio desse charco, no Parque Nacional de Kasanka, na Zâmbia, 100km a leste da fronteira com a República Democrática do Congo. Anestesiados pelos trovões, lutando com nosso ânimo. E ânimo é o que mais precisamos: objetos voadores escuros deslizam em nossa direção. São centenas de milhares! Milhões? Eles passam uns 10m acima de nossas cabeças, que encolhemos instintivamente.

No incessante corisco, consigo ver uma dessas criaturas mais nitidamente por uma fração de segundo: um focinho de cachorro. Olhos saltados. Braços musculosos, apesar de finos, em cujas extremidades se encontram dedos compridos, como tentáculos. “Que maravilha!”, exclama Lee-Anne emocionada. E Jill pergunta subitamente, com toda calma: “Que tal um copo de vinho?”.

As duas se prepararam minuciosamente para esta noite. Jill Derderian, que trabalha na Embaixada dos Estados Unidos em Lusaka, trouxe uma garrafa de Sauvignon; Lee-Anne Sing colaborou com seu veículo de tração nas quatro rodas para a viagem de 6h da capital zambiense até aqui. Então Leslie, nosso guia de safári, apanha a garrafa de vinho da caixa térmica no porta-malas. “Bebam rápido”, aconselha ele, “senão haverá mais chuva que vinho no copo”. Erguemos as taças e brindamos emocionados: “To the straw-coloured fruit bats!”.

Com incrível precisão, bandos de morcegos-frugívoros-cor-de-palha (Eidolon helvum) começam a se amontoar a partir do fim de outubro, na floresta do Parque Nacional de Kasanka, na Zâmbia, que também oferece um espaço protegido a espécies raras de aves

COMO INDICA O NOME EM inglês os morcegos-frugívoros-cor-de-palha, cientificamente Eidolon helvum, têm uma espécie de colarinho cor de palha ao redor do pescoço. E, de fato, só se alimentam de frutas.

Ao lado de outras espécies de morcegos, essas criaturas pertencem à família dos Pteropodidae, da ordem dos quirópteros. O formato de suas cabeças lembra o formato de cães ou raposas, com os quais, evidentemente, não têm nenhum parentesco direto. Quando adultas, essas criaturas atingem uma envergadura de 80cm, e umas 300g de peso.

“Atraídos pela diversidade e quantidade de frutos silvestres, que levam nomes como ‘musuku’ e ‘mupundu’, milhões de morcegos-frugívoros-cor-de-palha visitam nosso parque todos os anos”, ensina Leslie, com a cadência de voz de um infalível perito em vida selvagem e natureza. “Na época do Natal, mais ou menos, depois que eles devoraram todos os frutos disponíveis, eles nos abandonam novamente”.

Isso soa empolgante, mas talvez não baste para explicar porque três adultos estão no meio de um pântano, debaixo de uma trovoada, tomando um pileque. Portanto, seria necessário elucidar ainda que os morcegos- -frugívoros-cor-de-palha são considerados recordistas: eles provavelmente empreendem a mais longa migração de mamíferos na África!

Em comparação com a distância que percorrem, no mínimo 2.000km, a migração sazonal dos gnus através do Serengeti parece quase asmática.

Marca registrada: um colar amarelo cor de palha e um apetite voraz por todas as frutas da floresta

Foi assim que os morcegos-frugívoros-gigantes conferiram fama ao pequeno e quase esquecido parque zambiense, de apenas 420km2.

Mas ainda existem algumas incertezas. Por exemplo, quantos milhões desses morcegos-frugívoros viajam até Kasanka? Pelo menos 5 milhões, afirma o relatório da Universidade da Flórida. Mas bwana David Lloyd, um ex-funcionário público colonialista britânico, que dirige a administração privada do parque desde 1985, fala em mais de 10 milhões.

Com envergaduras de 80cm, os morcegos-frugívoros-gigantes executam uma louca dança alada, que ocasionalmente resulta em colisões aéreas, pois, ao contrário de outros morcegos, essas criaturas não possuem um ecolocalizador

O contato corporal íntimo não constitui um problema. Os morcegos-frugívoros também realizam o ato de acasalamento de ponta-cabeça, dependurados no meio do grupo. Esses animais, presentes em toda a África Subsaariana, são considerados barulhentos e sociáveis, mas também muito briguentos. Como grotescas excrescências de carne, eles pendem em seus lugares de dormir durante o dia e resistem ao sol e ao vento encapsulados nas membranas de suas asas

PARA TENTARMOS FAZER nossa própria estimativa, ao amanhecer vamos com Leslie até um observatório que a administração do parque instalou perto dos alojamentos diurnos dos animais.

Ainda está escuro, mas Jill e Lee-Anne estão transbordando de energia, como algo que só poderia brotar de um entusiasmo verdadeiro. Jill é uma apaixonada observadora de aves; nenhum bater de asas escapa à sua atenção e isso também vale aqui, para os morcegos-frugívoros. Lee-Anne, uma famosa autora de guias turísticos, está constantemente em busca de superlativos. Todos os seus livros louvam as cloudscapes, as paisagens anuviadas, porque obviamente as formações de nuvens aqui pretendem deixar a beleza da terra envolta em sombras.

Mal acabamos de nos acomodar no dossel de um gigantesco mogno, tem início um espetáculo verdadeiramente celestial: o retorno dos morcegos-frugívoros-cor-de-palha de sua excursão alimentícia noturna.

Lee-Anne cita um trecho de seu próximo guia sobre a Zâmbia: “Como partículas de cinzas lançadas por um vulcão em erupção, as criaturas do gênero Eidolon helvum despontam no céu abrasado em cores amarelo-alaranjadas, que prenunciam o raiar do Sol no leste”.

“Quantos são?”, pergunta Jill objetivamente.

“Milhões”, responde Leslie descompromissadamente.

Agora, cada um desses animais bem alimentados e cansados procura um lugar para descansar. E todos eles vêm para a Floresta Fibwe, como se chama essa pequena floresta que abriga os morcegos-frugívoros durante o dia. Mas, incrivelmente, eles ocupam apenas relativamente poucas árvores.

Quando os galhos quebram sob o enorme peso, os montes de morcegos-frugívoros-gigantes despencam ao chão – presas fáceis para pítons e aves de rapina

“Por que eles não se distribuem por toda a floresta?“, pergunta Lee-Anne. “Eles dão preferência a certas árvores”, afirma Leslie, sem nos elucidar sobre o assunto. Na realidade, é difícil identificar as espécies das árvores escolhidas, pois elas já não passam de esqueletos pelados, sem folhas nem casca. Os morcegos-frugívoros-cor-de-palha, dependurados nelas em grandes cachos, parecem tê-las sufocado. Para Leslie isso não é surpresa: “esses milhões de animais pesam tanto quanto 500 elefantes!”.

Mas será que esse número está correto? “É bem complicado imaginar elefantes pendurados em árvores”, Jill argumenta. Lee-Anne me empresta seu binóculo. E assim posso observar de perto como um morcego-frugívero finalmente se acomoda no lugar dos seus sonhos. Batendo as asas agitadamente, ele pousa em um galho já densamente ocupado, se agarra com suas unhas e deixa-se tombar de ponta-cabeça sobre a espessa massa de asas de uma vizinhança superpopulosa. Em seguida, o recém-chegado se dedica à sua toalete: lambe o pelo e, com uma de suas garras, palita os dentes, eliminando restos de frutas.

O cenário é impressionante: lá estão nossos recordistas, todos dependurados, como frutas maduras prestes a cair. E alguns deles acabam realmente tombando. Quando um galho se quebra sob o peso excessivo do cacho vivo e despenca lá do alto, um grupo de abutres que estava à espreita na copa de uma árvore vizinha, alça voo e se precipita sobre o banquete de morcegos acidentados. Os exemplares que sobrevivem à queda, mas não conseguem mais voar, também enriquecem o cardápio alimentar de crocodilos e pítons.

TENHO A IMPRESSÃO de que a Floresta Fibwe é um grande restaurante darwiniano. Um lugar onde se come, mas onde também se pode ser comido. Mesmo quando nenhum galho quebra, os morcegos-frugívoros não estão a salvo da fome de outros animais. Diversas aves de rapina, como águias-pescadoras e águias-belicosas, elegeram a floresta como seu território particular de caça. Do alto de nosso observatório podemos observar muito bem como uma águia agarra um morcego-frugívoro em certeiro voo rasante. Às vezes, até parece que essas aves de rapina apanham sua refeição diretamente nas árvores.

Mas a colônia de Eidolon helvum pelo menos nada tem a temer dos bípedes. “Morcegos-frugívoros detestam o barulho e o cheiro de humanos”, frisa Leslie, “por isso, não permitimos que ninguém se aproxime mais do que 150m deles”.

Curiosamente, nesse mesmo instante, um enorme balão de ar quente, como aquele inventado por Júlio Verne, voa chiando e zunindo pela Floresta de Fibwe. A chiadeira é provocada pela chama de hélio, que mantém o balão suspenso. Abaixo da chama, está o piloto e um cameraman, que filma de perto os animais dependurados nos galhos, agora plenamente acordados.

ouco após o crepúsculo noturno, os animais partem rumo às árvores frutíferas. Esses vegetarianos são completamente inofensivos e deixam-se apanhar facilmente nas árvores, o que facilita o trabalho de cientistas que querem pesquisar suas rotas do voo por meio de transmissores via satélite

Mas os repórteres da BBC não se incluem na espécie Homo sapiens? Leslie dá um sorriso sem graça. Eu entendo: o método estrela também se aplica aqui. Como recordistas mundiais, os morcegos-frugívoros-cor-de-palha simplesmente não podem evitar a fama pela televisão.

Mas eu sei, por experiência própria, que em outros países os morcegos-frugívoros não parecem se incomodar o mínimo com a presença de pessoas. Trinta anos atrás fui professor na selva da Costa do Marfim, e viajava a cada dois meses para Abidjan, a segunda maior metrópole da África Ocidental, para tomar um aperitivo no terraço do Calão. Na época, esse bistrô, localizado no centro da cidade, era a expressão máxima de civilização para mim.

Bem perto dele havia árvores que sustentavam cachos de morcegos-frugívoros durante o dia. Ao entardecer os animais acordavam, davam algumas voltas sobre as avenidas congestionadas da cidade e depois sumiam em busca de alimentos.

“Interessante”, comenta Leslie, “e o que você bebia?” Explico a ele que tomava pastis (uma bebida alcoólica aromatizada com anis), mas acho que uma outra informação vai interessá-lo mais: eu sei que, até hoje, os animais retornam à cidade de mais de 4 milhões de habitantes e que constam, inclusive, no cardápio de vários restaurantes. Kampala, a capital de Uganda, também abriga uma colônia permanente de cerca de 250.000 morcegos-frugívoros-cor-de-palha.

PARECE-ME que esses animais ainda oferecem muito terreno de pesquisa aos biólogos. Razão pela qual talvez não devêssemos levar tão a sério os recordes de Kasanka.

Apenas a americana Heidi Richter estuda essa população cientificamente. Há vários anos atrás ela viajou para a Zâmbia como assistente social e no final daquele ano surpreendeu-se com a chegada dos bandos de morcegos-frugívoros. Posteriormente, Richter retornou ao Parque Nacional de Kasanka, como estudante de Biologia da Universidade da Flórida. Mas seus meios de pesquisa eram limitados.

Mesmo assim, ela descobriu muitas coisas interessantes. Por exemplo, quando os morcegos-frugívoros-cor-de-palha deixam a Floresta de Fibwe ao anoitecer para procurar seus alimentos, eles voam em um raio de 60km, uma distância muito maior do que se presumia inicialmente. Pesquisadores partem do princípio de que, na África Central, esses animais são responsáveis pela dispersão de até 60% das sementes de novas árvores, que carregam dentro de si e excretam, contribuindo, assim, para a preservação das florestas tropicais.

Pesquisadores equipam machos fortes com coleiras levíssimas munidas de transmissores e coletores solares. Após 6 meses, um dos animais experimentais já tinha voado 2.000km

A americana também calculou que os morcegos-frugívoros examinados por ela consumiam, por noite, o equivalente a mais de duas vezes e meia o seu próprio peso corporal em frutas; sendo que os processos de digestão e excreção levavam cerca de 20min. Portanto, partindo-se do princípio de que 5 milhões de morcegos-frugívoros passam 10 semanas em Kasanka, conclui-se que eles consumiriam 262 mil toneladas de frutas durante esse período. Mas essa equação necessita de aprimoramento: talvez os animais utilizema quantidade calculada de frutas, mas não a consumam inteiramente.

“Com suas bochechas elásticas, os morcegos-frugívoros-cor-de-palha podem abocanhar grandes nacos de frutas”, escreve Gerhard Neuweiler em sua obra Biologia dos morcegos. A polpa da fruta é empurrada com a língua para trás, contra o palato duro, e espremida. O suco de fruta então é engolido, mas as fibras restantes são expelidas. Portanto, os morcegos-frugívoros não se alimentam exatamente das frutas, mas apenas bebem seu suco espremido”. Afinal de contas, o esôfago desses animais é tão estreito, que seria impossível deglutir pedaços de frutas.

Em dezembro de 2005, Heidi Richter conseguiu afixar em quatro morcegos-frugívoros-cor-de-palha machos transmissores alimentados por minibaterias recarregáveis por meio de coletores solares. Tudo ultraleve. Mas para os pilotos experimentais deve ter sido um peso e um incômodo miserável. Por isso, a bióloga batizou o mais forte dos quatro animais de Hércules.

Quando esses pioneiros deixaram o parque por volta da época do Natal, o satélite pode rastreá- -los até o interior profundo da selva congolesa. Mas lá os sinais foram interrompidos. Presumiu-se que talvez as baterias tivessem morrido, porque sob o espesso dossel da floresta os coletores não tinham mais como absorver os raios solares. Mas também seria possível que os quatro tivessem conseguido se livrar dos incômodos aparelhos, ou então, que tivessem sido devorados por águias, crocodilos ou pítons.

Ainda assim, os resultados do experimento foram sensacionais. Ao desaparecer da tela de radar de Richter, um dos morcegos encontrava-se a uma distância de 1.200km. E isso apenas um mês após sua decolagem de Kasanka. Ninguém acreditava que os morcegos-frugívoros, aparentemente habituados ao nomadismo, eram capazes de percorrer tamanhas distâncias. O último animal que ainda transmitia sinais era Hércules, 6 meses depois de partir da floresta zambiense, ele cobrira a distância de 2.000km.

A grande debandada ainda está por vir. A partir da Zâmbia, a multidão avança até as florestas congolesas, defendendo assim mais um recorde mundial: a mais longa migração de mamíferos na África

CASO AINDA esteja vivo, Hércules agora certamente faz parte da imensa revoada sobre a Floresta de Fibwe. No torpor de um entusiasmo permanente, descemos do mogno e caminhamos pela campina na qual quase nos afogamos na noite anterior, rumo a uma planície verde, que Jill elegeu como símbolo do “idílio de Kasanka”.

Independentemente da hora do dia, a área é frequentada por incontáveis antílopes chamados puku, um nome que certamente combina melhor com essas criaturas delicadas, de olhar suave, do que o nome oficialKobus vardonii. Ociosos, eles estão deitados entre cupinzeiros acinzentados que se parecem com pedras tumulares. “Um cemitério no dia da ressurreição”, anuncia Lee-Anne maravilhada.

Somente Jill parece insatisfeita. “Afinal, quantos são os morcegos-frugívoros-cor-de-palha?”, insiste teimosa. Eu respondo por Lee-Anne: “Em todo caso, é um recorde mundial!”. Para mim, os morcegos-frugívoros de Kasanka são absolutamente únicos e imbatíveis; principalmente quando eles ocupam o espaço aéreo sobre Fibwe e o charco, emoldurados por fantásticas paisagens de nuvens. Talvez devêssemos colocar mais uma garrafa de vinho no gelo para esta noite.

Fonte: Revista GEO – http://revistageo.uol.com.br/