Daily Archives: 14/08/2010

Quem "controla" a mídia?

Venício Lima

Enquanto na América Latina, inclusive no Brasil, a grande mídia continua a “fazer de conta” que as amaças à liberdade de expressão partem exclusivamente do Estado, em nível global, confirma-se a tendência de concentração da propriedade e controle da mídia por uns poucos mega empresários.

Você já ouviu falar em Alexander Lebedev, Alexander Pugachev, Rupert Murdoch, Carlos Slim ou Nuno Rocha dos Santos Vasconcelos? Talvez não, mas eles já “controlam” boa parte da informação e do entretenimento que circulam no planeta e, muito provavelmente, chegam diariamente até você, leitor(a).

Enquanto na América Latina, inclusive no Brasil, a grande mídia continua a “fazer de conta” que as ameaças à liberdade de expressão partem exclusivamente do Estado, em nível global, confirma-se a tendência de concentração da propriedade e controle da mídia por uns poucos mega empresários.

Na verdade, uma das conseqüências da crise internacional que atinge, sobretudo, a mídia impressa, tem sido a compra de títulos tradicionais por investidores – russos, árabes, australianos, latino-americanos, portugueses – cujo compromisso maior é exclusivamente o sucesso de seus negócios. Aparentemente, não há espaço para o interesse público.

Na Europa e nos Estados Unidos

Já aconteceu com os britânicos The Independent e The Evening Standard e com o France-Soir na França. Na Itália, rola uma briga de gigantes no mercado de televisão envolvendo o primeiro ministro e proprietário de mídia Silvio Berlusconi (Mediaset) e o australiano naturalizado americano Ropert Murdoch (Sky Itália). O mesmo acontece no leste europeu. Na Polônia, tanto o Fakt (o diário de maior tiragem), quanto o Polska (300 mil exemplares/dia) são controlados por grupos alemães.

Nos Estados Unidos, a News Corporation de Murdoch avança a passos largos: depois do New York Post, o principal tablóide do país, veio a Fox News, canal de notícias 24h na TV a cabo; o tradicionalíssimo The Wall Street Journal; o estúdio Fox Films e a editora Harper Collins. E o mexicano Carlos Slim é um dos novos acionistas do The New York Times.

E no Brasil?

Entre nós, anunciou-se recentemente que o Ongoing Media Group – apesar do nome, um grupo português – que edita o “Brasil Econômico” desde outubro, comprou o grupo “O Dia”, incluindo o “Meia Hora” e o jornal esportivo “Campeão”. O Ongoing detem 20% do grupo Impressa (português), é acionista da Portugal Telecom e controla o maior operador de TV a cabo de Portugal, o Zon Multimídia.

Aqui sempre tivemos concentração no controle da mídia, até porque , ao contrário do que acontece no resto do mundo, nunca houve preocupação do nosso legislador com a propriedade cruzada dos meios. Historicamente são poucos os grupos que controlam os principais veículos de comunicação, sejam eles impressos ou concessões do serviço público de radio e televisão. Além disso, ainda padecemos do mal histórico do coronelismo eletrônico que vincula a mídia às oligarquias políticas regionais e locais desde pelo menos a metade do século passado.

Desde que a Emenda Constitucional n. 36, de 2002, permitiu a participação de capital estrangeiro nas empresas brasileiras de mídia, investidores globais no campo do informação e do entretenimento, atuam aqui. Considerada a convergência tecnológica, pode-se afirmar que eles, na verdade, chegaram antes, isto é, desde a privatização das telecomunicações.

Apesar da dificuldade de se obter informações confiáveis nesse setor, são conhecidas as ligações do Grupo Abril com a sul-africana Naspers; da NET/Globo com a Telmex (do grupo controlado por Carlos Slim) e da Globo com a News Corporation/Sky.

Tudo indica, portanto, que, aos nossos problemas históricos, se acrescenta mais um, este contemporâneo.

Quem ameaça a liberdade de expressão?

Diante dessa tendência, aparentemente mundial, de onde partiria a verdadeira ameaça à liberdade de expressão?

Em matéria sobre o assunto publicada na revista Carta Capital n. 591 o conhecido professor da New York University, Crispin Miller, afirma em relação ao que vem ocorrendo nos Estados Unidos:

“O grande perigo para a democracia norte-americana não é a virtual morte dos jornais diários. É a concentração de donos da mídia no país. Ironicamente, há 15 anos, se dizia que era prematuro falar em uma crise cívica, com os conglomerados exercendo poder de censura sobre a imensidão de notícias disponíveis no mundo pós-internet (…)”.

Todas estas questões deveriam servir de contrapeso para equilibrar a pauta imposta pela grande mídia brasileira em torno das “ameaças” a liberdade de expressão. Afinal, diante das tendências mundiais, quem, de fato, “controla” a mídia e representa perigo para as liberdades democráticas?

Fonte: ALAINET – http://alainet.org/

Um historiador comunista

Lidiane Soares Rodrigues

LIGAR AS DUAS pontas da vida e estabelecer um sentido entre elas. Eis um desafio básico, posto a todo biógrafo, enfrentado por Lincoln Secco em Caio Prado Júnior. O sentido da revolução, que vem a lume pela coleção "Paulicéia" da Boitempo (2008).

Desde logo, alguns procedimentos evidenciam que se trata de um historiador que assume o papel de biógrafo. Isso se entrevê na ambição de apreender a totalidade do indivíduo – "é o homem por inteiro que nos atrai" – e no reconhecimento de que escandir seus múltiplos papéis – "historiador, geógrafo, filósofo, economista com formação em direito, paulista de família tradicional" – não impede que ele escape "a cada aproximação" (p.11). Outrossim, o biógrafo poderia ter se satisfeito com a leitura dos numerosos trabalhos dedicados a Caio Prado Jr., porém, como se verifica ao longo dessas páginas, ele buscou fontes primárias, como os Anais da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, além de entrevistas e cartas – em tempo: não utilizadas por outros autores.

O biógrafo não pode, contudo, estabelecer o sentido dos dois extremos da existência humana – vida e morte – sem muita sensibilidade para os dilemas vividos pelo biografado. Lincoln Secco alia ao dever de historiador essa visão compreensiva e empática da qual não pode se desfazer o biógrafo. Talvez por trabalhar de maneira criativa essa empatia, seja indisfarçável no biógrafo alguns dos gostos que partilha com o biografado. Por exemplo, o gosto pela geografia e a sensibilidade aos deslocamentos no espaço, saliente na cuidadosa narrativa das viagens de Caio Prado Jr. Aliás, nele, esse gosto se traduziu em viagens pelo mundo e pelo Brasil, que, em particular, se tornaram oportunidades ímpares para o conhecimento da nossa gente e das coisas de nossa gente. É famosa sua asserção (algo de braudeliana há nela): "o Brasil exibe seu passado numa simples viagem pelo território" (p.171).

A partir do núcleo em torno do qual "girou a maior parte de suas inquietações", a política, Lincoln Secco apresentou Caio Prado Jr. em cinco atos, que outros leitores diriam capítulos: "Os anos de formação"; "O parlamentar"; "O revolucionário", "O historiador"; "A questão agrária". A personagem aparece em cinco atos, pois há alguma gradação na apresentação desses papéis que não expressa apenas a cronologia ordinária da vida, mas a sedimentação do "sentido da revolução", o que justifica o título do livro. Dito de outro modo, se não são estritamente lineares os capítulos, em sua composição expressam um crescendo que vai da formação à maturidade intelectual e política, essas assumindo a feição daqueles papéis, segundo a sequência da disposição apresentada das atividades nas quais se empenhou. Ratifico, na própria organização e apresentação do material biográfico revela-se a intenção introdutoriamente confessa do autor que quis fazer uma exposição da trajetória pessoal, política e intelectual de Caio Prado Júnior, com destaque para sua relação aparentemente conflituosa com seu partido. Procurei entender, no contexto dos anos 1930, o significado de sua adesão ao marxismo e ao PCB, e, em cada contexto seguinte, a razão de sua permanência no partido. (p.13 – grifos meus)

Esse propósito anima a busca pela formação, consolidação e sedimentação do historiador comunista que foi Caio Prado Jr., para Lincoln Secco (p.12). Buscar a experiência social na base daquela rara, sofisticada e admirável combinação entre lucidez de análise e paixão revolucionária, na conformação de um "sentido da revolução" comoprocesso, move o biógrafo.

Essa perseguição faz de cada capítulo um ato. E em cada ato, encaminhar o enredo. Assim, atenta o autor à decepção com a "Revolução de 30" – que lhe rendeu a primeira prisão, e resultaria em "inquietações cada vez mais fortes que não cabiam no leito estreito da política oligárquica e mesmo no da sua dissidência (o Partido Democrático)" (p.29). E ainda, cuida de escandir o "marxismo próprio" de seu personagem, bem como de precisar o "significado da adesão" ao comunismo. Cabe, aliás, um breve comentário acerca desse ponto. A excepcionalidade de Caio Prado Jr. encontra-se num metro lançado ao que há, em matéria de marxismo, antes e depois dele. Ora, em relação aos que vieram antes, e aos coevos, não se restringe à reprodução da teoria da Internacional Comunista. Em relação aos que vêm depois, distingue-se pela simplicidade – assim qualifiquemos na falta de palavra melhor para designar a ausência de elucubrações conceituais, jargões reificados nos rincões dos grupos de estudos de O capital, mais afiados na leitura dessa obra do que na crítica ao capitalismo, na certeira tacada de Paulo Arantes. Uma boa história intelectual do marxismo terá que se ver com um problema básico proposto por esse trabalho para a trajetória de Caio Prado Jr., mas especialmente nesse ponto. Se acertando o ângulo de análise, vemos o homem no interior de seu tempo, ligado a ele de muitas maneiras, como compreender as inovações que sua obra inaugura?

Decerto, a figura excepcional que é Caio Prado Jr. não fica menos admirável por estar enraizada em seu tempo – dimensão que o autor alcança destacando as escolhas individuais no interior de um conjunto de estímulos que, mormente, sua classe social e a cidade, ofereciam-lhe. Assim, a experiência da campanha eleitoral, do "mergulho da discussão cotidiana de problemas concretos da população [...] da legislação, da realidade orçamentária" (p, 69), bem como a experiência parlamentar decepcionante e a subsequente cassação, que acabam por estimular o empenho na "luta cultural" e forjar um "entusiasmo temperado pelo ceticismo da razão" (p.89), que o anima na Gráfica Urupês e na Revista Brasiliense.

Com efeito, aqueles que se dedicam ao estudo da vida e obra de um intelectual que se filie ao Partido Comunista, que se proponha a pensar a revolução e atuar como revolucionário, enfrentam muitos problemas para compreender os vínculos entre tal indivíduo, seu ambiente cultural e a pedra de toque de uma obra nutrida por tal percurso: a arquitetura da relação reforma/revolução. Não bastasse essa observação geral, no caso de nossa vida intelectual e política, tudo parece mais dramático. Pois o exame que leva o autor a vislumbrar em Caio Prado Jr. o "entusiasmo temperado pelo ceticismo da razão" também o leva a afirmar que "ele era fruto da união de uma geração de intelectuais que redescobria o Brasil e da vinculação daquela redescoberta com o proletariado" (p.63). Porém, o que parece afligir todos os que por alguma via se encontrem no raio de objetos aqui tratados é o fato de que todos querem vincular suas descobertas contra a ordem a um proletariado que não vai ao encontro da revolução. É evidente que, em última análise, é em nossa formação social e na anatomia desse proletariado que se encontra a chave do equilíbrio "da paixão revolucionária militante" com a "racionalidade com relação a fins" – perfil de Caio Prado Jr., expresso em sua ação política, que com tom moderado quer reformas estruturais (p.93).

É então dessa perspectiva – do homem excepcional, mas fruto de seu tempo – que pontos inescapáveis e controversos da biografia de Caio Prado Jr. são tratados. Ao menos dois se destacam: a proclamada ruptura de classe é um deles. A franqueza de simples constatações, mas emancipadoras, diria, merece relevo: "Não precisamos aqui aceitar que sua adesão ao comunismo tivesse sido uma ruptura completa com sua classe e com seu conforto material" (p.121). A observação, como outras, convoca futuras pesquisas a dialogarem com mais esse lugar-comum acadêmico quando se fala em Caio Prado Jr. – afinal, como se define uma ruptura de classe? Ou como cada trânsfuga a definiu para si mesmo? Destaco outra controvérsia, indagando: como não reconhecer, que ao falarmos em sua trajetória, além da cisão de classe pela adesão ao comunismo, está em jogo, sempre e inexoravelmente, ainda que não problematizado de maneira explícita, que nosso bastião da inovação historiográfica foi um fiel e disciplinado militante de partido? Expor essa constatação é passo essencial dado pelo texto em tela e que lhe permite esboçar caminhos a serem trilhados, reitero, por pesquisas futuras. Como afirma Lincoln Secco, "é preciso desmistificar o próprio Caio Prado Júnior, indo além de sua visão a respeito daquela relação (com o partido) e também do senso comum que simplesmente contrapõe a imagem do grande intelectual à do partido ‘obscurantista’ que o perseguia" (p.13).

Por adotar tal orientação, um dos pontos altos do trabalho consiste em assinalar: mesmo a obra produzida no combate às estratégias partidárias dos comunistas, no calor do pós-1964 – A revolução brasileira – "não apagava o fato de que o autor se inseria muito mais naquela cultura reformista que ele criticava do que na nova cultura dos marxismos radicais dos anos 1960". Nela há uma descontinuidade entre o econômico e o político, na medida em que "criticaria a estratégia de alianças de classes do PCB, mas por outro lado separaria o socialismo da luta imediata, como se o movimento fosse tudo e a finalidade nada" (p.116), tal qual Bernstein. A apreciação dessa obra contempla ainda – e o autor é exitoso nesse propósito – a investigação de sua recepção, e dos debates fomentados por ela. Justamente essa visada lhe autoriza afirmar que, se as reformas sociais constituem o programa revolucionário que se extrai do livro, esse traço que "contrariava bastante as leituras esquerdistas da época", "passou despercebido na medida em que o livro foi lido principalmente como crítica ao reformismo do PCB" (p.116). Decerto, as leituras de escritos políticos são condicionadas pelo contexto de sua polêmica. Quantos livros (e autores) não devem a adesão maciça que recebem a leituras que apreendem, apenas ou primordialmente, o que eles refutam, em detrimento de seu conteúdo programático e propositivo?

Deve-se ainda considerar, como cabe numa biografia e no esforço de compreensão de um indivíduo na história, certo tom elogioso para com os acertos de Caio Prado Jr., aliado à generosidade para com seus erros. Um exemplo de cada caso nos basta. É nítida a valorização de sua atuação parlamentar. Se é precisa a caracterização – e a considerar o projeto de criação de um instituto de apoio à pesquisa científica, ela o é (p.83) –, o biógrafo não esconde a intenção do perfil modelar. Como se ele caprichasse na delimitação para servir de inspiração aos militantes, seus leitores: esteve muito à frente da maioria dos políticos de extrema esquerda que, mesmo recentemente, concebem a atividade parlamentar como mera tribuna de denúncia e crítica (numa leitura extemporânea do leninismo). Ele apresentava propostas de reforma embasadas em estudos calcados nas realidades econômicas e orçamentárias do Estado, sem deixar de revelar um arco amplo de alianças de classes, incluindo a pequena burguesia do comércio e da terra nas suas justificativas para se opor a um imposto que agravava e encarecia o comércio varejista. (p.78)

Quanto à generosidade para com os erros, nutrida na vocação à compreensão que toda biografia convoca, ressalte-se a apreciação dos últimos escritos de Caio Prado Jr. Ele teria um programa político já defasado, não em relação apenas ao nosso tempo, mas diante de sua própria visão da história brasileira. É como se ele tivesse elaborado um programa político nacionalista, por um capitalismo autárquico como fase preparatória pra o socialismo internacional, em desacordo com um país que, nascido no interior da economia-mundo capitalista, seria incapaz de mudar seu papel estrutural nela. Nesse contexto, as soluções só poderiam ser pensadas no conjunto daquela vasta estrutura global. (p.201)

Convém, contudo, considerar, o que permite esse desdobramento, que hoje fazemos à escala sistêmica – senso comum entre os estudiosos de história, em geral, e da econômica em particular – decerto é fruto de sua obra, porém, o é por conta de leituras e pesquisas que seguiram sua trilha e tentaram ampliar suas sugestões. Essa vertente, mormente associada ao Departamento de História da Universidade de São Paulo, apropriou-se como nenhuma outra de Caio Prado Jr., fazendo dele seu predecessor mais eminente. Quanto ao âmbito político da interpretação, se ela se fazia anacrônica no final de sua vida, vale o belo arremate do biógrafo: "O mundo onde ele nascera era radicalmente distinto daquele em que chegou ao entardecer de sua vida" (p.198).

Esta resenha não pode se encerrar sem duas observações finais. Uma delas, estética e editorial. A seleção das fotografias expôs imagens menos vistas da personagem e de sua família, escolhendo com bom gosto aquelas que dividiriam os capítulos. É válido um olhar atento a esse ponto, em nada menor. Uma segunda observação diz respeito ao irreprimível incômodo do autor para com Claude Lévi-Strauss e o que nos cabe de sua caracterização em Tristes trópicos. Parece haver mais uma defesa de Caio Prado Jr., em face de um suposto "rápido e ácido retrato" que ele receberia, e de uma "descrição jocosa e pouco favorável" da elite paulista que aquele francês conheceu (p.41 e 121). Todos os que já tiveram o prazer de visitar aquelas páginas de Lévi-Strauss devem se recordar do riso envergonhado que o capítulo dedicado à vida cultural paulista nos provoca.

Concordar ou refutar creio que aconteça depois desse incontornável reconhecimento de traços de longa duração de nossos hábitos sociais no trato com a cultura, de resto também observado em nossas raízes no viés de Sérgio Buarque de Holanda. Porém, se o retrato é melancólico pela franqueza com a qual o elabora – por meio de um óbvio e implícito contraste com a vida intelectual francesa de sua formação, que também não escapa de sua verve irônica, patente em "Como se faz um etnógrafo" –, é instigante pensar que da pobreza daquele ambiente, viria brotar um "vigoroso" núcleo universitário, que nele estava Caio Prado Jr. Procurando manter o equilíbrio da paixão revolucionária com a lucidez da análise, com inspiração no Caio Prado Jr. de Lincoln Secco, penso que os que se dedicam à história da universidade, à história do marxismo e aos estudos intelectuais se empenharão no desafio de compreender essa (aparente) discrepância. Talvez gostemos menos do retrato que fizermos de nós mesmos do que aquele que fez Lévi-Strauss. Mas será essa a tarefa da crítica, ou ela não será. Jamais trocar a vida pela autobiografia, a imagem pelo espelho.1 É toda nossa vida cultural que está em jogo quando nos dedicamos à biografia de nossos intelectuais mais (e menos) diletos.

Fonte: Estudo Avançados – http://www.scielo.br

Hiroshima luta para manter viva a memória do ataque nuclear

Grande parte de Hiroshima foi destruída há 65 anos no primeiro ataque nuclear do mundo. A bomba, lançada por um avião da Força Aérea dos EUA, matou dezenas de milhares de pessoas e destruiu uma geração inteira na cidade. Seis décadas mais tarde, Hiroshima luta para manter viva a memória do ataque.

Till Mayer

Japoneses lembram os 65 anos da explosão da bomba atômica

Japoneses lembram os 65 anos da explosão da bomba atômica

A bomba nuclear e pequenas garças de origami – para Kyoko Niiyama, estas duas imagens são inseparáveis. “Cada um dos pássaros de papel conta uma história triste da minha cidade, mas eles também representam suas esperanças e forças”, diz a moça de 20 anos de idade.

Quando ela estava na escola, também tentou fazer suas próprias garças de dobradura, conta. Assim como Sadoko Sasaki fez no passado. Todas as crianças de Hiroshima conhecem a história de Sasaki – e classes inteiras fazem peregrinações todos os anos para a parte do Memoria da Paz de Hiroshima que é dedicada a ela, onde penduram suas garças de origami em cordões.

Sadoko Sasaki tinha dois anos de idade quando a primeira bomba explodiu em sua cidade natal. Ela morreu aos 12 de leucemia, uma doença da qual muitas crianças foram vítimas por causa da radiação da bomba. Durante seus últimos dias no hospital, uma amiga disse a Sasaki que qualquer pessoa que fizesse mil origamis de garça poderia fazer um pedido a Deus.

Por motivos de espaço no provedor, leia esta matéria na íntegra no site CONTROVÉRSIA. Clique no link abaixo. Obrigado.

http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=6617

História como missão

Nicolau Sevcenko encontrou no estudo da história o caminho para defrontar-se com os enigmas de seu passado

Wilker Sousa

Nem todos podem se gabar de terem feito do desejo pessoal o fator preponderante na escolha de uma profissão. Ainda mais raros são aqueles capazes de fundir trajetória pessoal e profissional de tal modo a tornar obscura a fronteira entre elas. Separar Nicolau Sevcenko da história não é tarefa das mais fáceis. Nos idos da Revolução Russa, seu avô – oficial do exército daquele país – lutara ao lado dos tsaristas contra os bolcheviques, o que incutiu em sua família uma série de infortúnios que se arrastou por gerações. Forçados a fugirem do país, ante a implacável perseguição das tropas stalinistas, os Sevcenko perambularam por diversos países; muitos foram dizimados, outros conseguiram refúgio em regiões remotas como o Brasil. Embora distante dos olhos de Stalin, sua família aqui permaneceu sob o signo do medo, confinada em seu mundo particular. Uma vez firmada residência em terras brasileiras, optou-se então por bloquear esse passado, o que despertou a curiosidade do jovem Nicolau pelo estudo da história, na tentativa de desvendar aquele enigma pessoal. 

Somado à busca por compreender o passado familiar estava o interesse por conhecer a cultura brasileira, da qual fora igualmente privado nos primeiros anos de vida. Tornou-se então uma referência na articulação entre o pensamento historiográfico e a cultura do Brasil, como atestam as obras Literatura como Missão: Tensões Sociais e Criação Cultural na Primeira República (1983),Orfeu Extático na Metrópole: São Paulo Sociedade e Cultura nos Frementes anos 20 (1992) e A Revolta da Vacina (1983), cuja reedição chega às livrarias neste mês. Professor titular de história contemporânea na USP, acumula também experiência internacional, tendo lecionado nas universidades de Londres, Georgetown e Illinois, além de ser atualmente professor na célebre Universidade de Harvard. 

Nicolau Sevcenko nos recebeu em sua casa no bairro do Belém, em São Paulo, onde vive na companhia de sua mulher – a artista plástica Cristina Carletti –, além de 12 gatos e dois cachorros: Tobby e Biruta, uma simpática vira-lata que anda em movimentos circulares. E não seria exagero dizer que aquela residência parece ser uma extensão de sua estreita relação com a história. Construída por arquitetos normandos em 1920 por ocasião do surto industrial paulista, preserva em sua fachada e interiores os resquícios de um passado com vistas a ser demolido pela desenfreada especulação imobiliária. Felizmente ainda nos resta quem deseja mantê-lo de pé. 

CULT – O passado de sua família teve influência na sua escolha por estudar história?

Nicolau Sevcenko – Paradoxalmente, eu acho que sim porque meus familiares têm uma história muito trágica por serem refugiados políticos. Eles deixaram a Rússia literalmente fugidos, deixando para trás tudo o que tinham para poder comprar o direito de fugir e de sobreviver. De modo que, quando vieram para o Brasil, este era o lugar mais remoto do mundo, onde seria mais difícil encontrá-los. Sempre houve uma preocupação na família em bloquear esse passado. Havia uma instrução direta para os filhos das novas gerações nunca usarem o sobrenome, nunca dizerem quem são nem de onde vieram. Mesmo em casa, mantínhamos as cortinas fechadas, como uma espécie de blindagem em relação ao mundo externo. Então me acostumei a não cogitar, a não perguntar nada. Quando hoje penso por que fui fazer a opção por história, que é totalmente incomum na minha família, sem dúvida foi decisiva essa espécie de curiosidade sobre o passado longamente obscuro na minha memória. 

CULT – O senhor perdeu seu pai aos cinco anos e foi obrigado a trabalhar desde cedo. Quais lembranças o senhor guarda daquele tempo?

Sevcenko – Eu e meu irmão nos tornamos órfãos de pai quando eu tinha cinco anos e ele sete. Então, nos pusemos a ajudar minha mãe a manter a família, porque, pouco tempo depois da morte do meu pai, ela também perdeu o emprego. Aí eu e meu irmão entramos no sistema informal e nos especializamos na coleta de metais para a reciclagem. Nós morávamos na zona leste de São Paulo, próximo ao Vale do Tamanduateí, onde estavam instaladas as primeiras grandes montadoras de automóveis. Elas jogavam toda a sucata industrial nas margens do rio, então nós íamos até lá, fazíamos a seleção e coletávamos os materiais que tinham valor para reciclagem.Era uma loucura. Imagine duas crianças subindo o vale do rio até a parte de cima do planalto da Vila Prudente e depois arrastando aqueles carrinhos o bairro inteiro, carregados de zinco, cobre, chumbo, latão, metais incrivelmente pesados, e a gente fazia isso como nossa rotina de vida. 

CULT – E quais as marcas que essa experiência deixou em sua vida?

Sevcenko – Foi algo que tornou minha infância e adolescência incrivelmente penosas, mas ao mesmo tempo me deu essa contrapartida de endurecer o espírito no sentido de dar a ele a força, a energia e o ímpeto necessários para uma conquista intelectual e pessoal. Meu irmão se tornou engenheiro e eu construí uma carreira de historiador. Em nossa família, praticamente todos os outros tinham a orientação para a área das engenharias e das tecnologias aplicadas; fui o único que caiu para as humanidades. Obviamente isso causou uma certa crise familiar porque eles não entendiam e achavam que era uma opção completamente irresponsável. Durante um tempo fui estigmatizado, praticamente excluído do convívio familiar, até que começaram a aparecer notícias de um certo sucesso que deixou todo mundo muito surpreso e restaurou um pouco da minha respeitabilidade no núcleo familiar. Hoje em dia, a situação está muito mais tranquila e cordial. 

CULT – Como seus pais eram refugiados políticos e pretendiam voltar para a Rússia, imagino que não havia uma assimilação da cultura brasileira em sua casa. Como foi seu contato com nossa língua e cultura?

Sevcenko – Você tem toda razão. Eles não tinham essa perspectiva de ficarem aqui como imigrantes. Era uma situação de transição e, no fundo, a grande expectativa era que o governo soviético fosse colapsar em algum momento. Eles não tinham a preocupação de criar raízes aqui, então não se deram nunca ao empenho de aprender a língua portuguesa, de assimilar a cultura. Nós fomos educados em russo e com as instituições características da cultura russa, e isso foi um problema muito grande para nossa integração aqui. Quando me dei conta de que as crianças com as quais eu brincava falavam outra língua, me queixei para minha mãe dizendo que eram todas estrangeiras e ela pela primeira vez falou: “Não, estrangeiros somos nós”.Como eu não aprendia a língua portuguesa em casa, tinha que aprender com as crianças. E elas eram cruéis: sempre ensinavam palavras que pudessem me causar algum constrangimento, o que me deixou por muito tempo muito inseguro com o uso da língua. Acredito que isso também contribuiu para que eu me tornasse especialista em história e cultura brasileira, na tentativa de entender o que para mim também era um grande enigma. 

CULT – Deve ter sido penoso…

Sevcenko – Há também um outro aspecto da minha cultura familiar. O fato de eu ter nascido canhoto era visto como uma perversão do ponto de vista legal e também como um pecado segundo a Igreja. Isso fez com que minha mãe, contra sua vontade, por muito tempo amarrasse minha mão esquerda nas costas para me forçar usar a direita, o que acentuou uma condição de dislexia. Não a culpo, mas isso criou para mim uma condição irreversível, razão pela qual sou assim gaguejante, me faltam palavras óbvias, o que, para quem é professor, é problemático. 

CULT – Muito de seu trabalho tem como base a articulação entre história e literatura. Essa abordagem encontrou resistência entre historiadores?

Sevcenko – Quando fiz minha pós-graduação nos anos 1970, no auge da ditadura, os grandes temas eram história econômica e história política. Eu tinha acentuado interesse pela questão cultural, o que não pegava bem porque parecia ser uma alienação do foco do debate e, nesse sentido, eu era percebido como uma presença que estava tirando o foco das discussões e despolitizando o ambiente. Quando formulei o projeto de doutorado, que daria o livro Literatura como Missão, as pessoas do Departamento de História em geral se acercaram de mim para dizer que aquele tipo de trabalho era incompatível com a pesquisa do departamento e que eu devia procurar o Departamento de Letras. Os responsáveis pela da área de Letras, por sua vez, encaminharam o projeto para o Departamento de Sociologia, que o encaminhou novamente para o Departamento de História. Então completei o ciclo e voltei, meio que contra a maré. Mas, na ocasião da defesa, a banca composta por professores consagrados [Sérgio Buarque de Holanda, Boris Schnaiderman, entre outros] me deu uma resposta tão favorável ao trabalho que pela primeira vez começaram a cogitar que talvez houvesse alguma coisa relevante. 

CULT – O senhor possui quase 25 anos de experiência em universidades do exterior. Como analisa o interesse dos alunos estrangeiros pelo estudo da história brasileira e latino-americana?

Sevcenko – A sensação que tenho é a de um interesse contínuo que cresce mais ou menos como cresceu a projeção internacional do Brasil nestas últimas décadas. Houve um momento em que havia uma projeção cultural muito significativa, mas não havia, em contrapartida, uma compreensão do processo de desenvolvimento econômico e de remodelação da sociedade brasileira. 

Hoje em dia, porém, sobretudo nos Estados Unidos, onde há um sentido muito forte de se entender a universidade como um ambiente profissionalizante, há uma enorme parcela da juventude que se interessa por trabalhos de sentido social ou ecológico ligados a ONGs. É esse o público que procura os cursos ligados ao Brasil ou à América Latina e que, de maneira geral, tem uma sensibilidade muito aguçada para a questão social, para a democratização, urbanização e melhoria das condições de vida das populações carentes. 

CULT – De modo geral, a percepção do exterior com relação à história do Brasil é ainda marcada por estereótipos?

Sevcenko – Cada vez menos. Eu diria que a mídia sempre traz essa visão mais simplificada e redutiva, mas é claro que no ambiente universitário o interesse é sofisticar e qualificar essa visão. Hoje em dia há pessoas nos Estados Unidos e no Reino Unido que conhecem aspectos da realidade brasileira em profundidade e são capazes de discutir em igualdade de condição com os melhores cientistas sociais brasileiros. 

CULT – Em comparação a essas universidades, qual a posição do Brasil com relação ao ensino da história?

Sevcenko – O Brasil tem um conjunto muito rico e diversificado de escolas historiográficas. Temos a influência francesa, especialmente na Universidade de São Paulo, a forte influência britânica na Unicamp e, de uma maneira mais equilibrada, a força de universidades no Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Por toda parte há importantes centros de estudos históricos e encontros regionais e nacionais de historiadores que mantêm o debate em linha de conta com o melhor da produção internacional. Eu me sinto muito orgulhoso de pertencer à comunidade dos historiadores brasileiros e acho que o reconhecimento que encontrei fora do Brasil é justamente devido à qualidade da historiografia brasileira, não só da USP, mas desse grande contexto nacional. 

CULT – Passemos, então ao livro A Revolta da Vacina. No prólogo desta edição, o senhor afirma se tratar de “um livro amargo”, dado o contexto em que foi escrito, em plena ditadura militar. O senhor acredita que muito do ímpeto de indignação característico daquela geração cedeu lugar à acomodação, à manutenção do status quo?

Sevcenko – É obviamente uma impressão pessoal porque eu venho de uma geração que lutou contra a ditadura militar, contra o obscurantismo da censura e da repressão. A juventude era estigmatizada como uma força turbulenta e “baderneira”, pois não se podia viver com espontaneidade a condição de ser jovem. Nós tínhamos a expectativa de que, quando a ditadura acabasse, toda essa enorme massa crítica ia se traduzir em um projeto de transformação do Brasil, traduzir-se em uma sociedade distributiva, democrática e inclusiva, mas absolutamente não foi isso que se deu. 

O país tomou a linha de um conservadorismo que se instaurou no mundo a partir de meados dos anos 1970, em especial a partir da liderança de Ronald Reagan e Margaret Thatcher, responsáveis por trazer esse discurso que hoje domina o planeta. Então foi terrível ver toda aquela corrente de crítica, de indignação e de esperança acabar sendo reduzida a essa plataforma conservadora, representada pelas forças políticas que se tornaram hegemônicas na sociedade civil após o fim da ditadura militar. 

CULT – Atualmente, o verbo “revoltar-se” tornou-se sinônimo de “nostalgia tola”?

Sevcenko – É triste, mas é. O verbo “revoltar-se” foi muito incorporado pela indústria, pelo mercado, pelo marketing no sentido de se fazer da revolta uma espécie de atitude fashion. Ser revoltado é o modo esperto de se assumir a juventude, aquilo que na linguagem do marketing se chama atitude. Infelizmente tudo a ver com roupas, marcas e estilos, nada a ver com conteúdo e substância. Até a revolta se tornou mercadoria. 

CULT – À época da Revolta da Vacina, já se mostraram ineficazes os meios de se lidar com nossas mazelas sem se preocupar efetivamente com a raiz do problema. Passados mais de cem anos, ainda não aprendemos a lição?

Sevcenko – Quando escrevi o livro, eu o dediquei aos mortos da tragédia de Vila Socó, ocorrida em 1983, em Cubatão. Naquela ocasião houve um vazamento nas redes de distribuição de derivados de petróleo das refinarias e a população pobre da região foi se abastecer daquele combustível precioso. A favela se expandiu em cima das áreas ensopadas e as poucas pessoas que tentaram fazer alguma espécie de clamor para que a autoridade pública removesse a população dali não obtiveram sucesso. O fato é que ninguém tinha coragem de atacar o problema, muito menos a autoridade pública, pois ela negocia votos. Logo, quanto mais gente morasse lá, mais votos. Então aquilo cresceu exponencialmente até o dia em que virou uma tocha e todo mundo que estava ali foi reduzido a cinzas. 

Quantas dessas tragédias anunciadas no Brasil se tornam moeda de negociação política? Por que proliferam essas construções em áreas de risco, onde qualquer alteração das condições atmosféricas ou do regime das águas vai causar uma tragédia? Porque justamente são áreas que se valorizam no mercado informal e atraem uma grande quantidade de pessoas, tornando mais fácil para as autoridades criar um sentido de negociação. Tolera-se que se assentem lá e isso significa que estarão em dívida e, portanto, terão que respaldar essas autoridades nas eleições. 

CULT – O senhor acredita que por trás do discurso assistencialista à pobreza está, sobretudo, o desejo de preservá-la enquanto elemento essencial para a manutenção do nosso sistema político?

Sevcenko – Sim, é isso que eu chamo de política assistencial remediadora. Não se quer eliminar a pobreza. O que se quer é um modo de se administrar a desigualdade para que ela se torne uma estrutura de manutenção do status quo político. Status esse que prevalece no país e não é muito diferente daquele que ensejou a Revolta da Vacina no início da República. Se então pensarmos ou na Revolta da Vacina ou na Vila Socó ou nas enchentes desencadeadas do sul até o extremo norte do país, estamos vendo o fenômeno em uma estrutura que se mantém a mesma, por mais que se diga que há um discurso de reforma e de transformação social. 

CULT – A exemplo do que foi feito nos primórdios da Primeira República, o Brasil ainda busca ocultar a todo custo o flagelo da escravidão?

Sevcenko – Eu acho que sim. Ela é na verdade a nossa herança maldita, a nossa dívida social que o país não consegue contemplar. Essa estrutura retrógrada praticamente nunca foi confrontada e nunca foi substancialmente transformada na passagem do período monárquico para o período republicano. Quando se objetivava fazer a transição do trabalho escravo para o trabalho assalariado, optou-se imediatamente pelo trabalho assalariado do imigrante europeu, deixando completamente à margem toda essa enorme população egressa da escravidão, como uma espécie de um estorvo social. Fica muito evidente, no contexto da Revolta da Vacina, como o país não tinha uma resposta para sair da escravidão na direção da construção de uma sociedade integrada, equilibrada e distributiva. 

Se olharmos para a história subsequente e pensarmos na condição dos trabalhadores sazonais hoje em dia – como os cortadores de cana que trabalham em condições subumanas, arrastando em suas costas o sucesso do agronegócio brasileiro –, veremos que não estamos tão longe assim das condições de escravidão. Infelizmente o quadro é de profunda indignidade. E dizer que este país é todo dedicado à promoção social hoje em dia? Isso não só é uma inverdade, mas uma afronta.

Fonte: Revista Cult – http://revistacult.uol.com.br

Terapia popular favoreceu surgimento de novas profissões

Rafaela Carvalho

Analisar a evolução da profissão de médicos e farmacêuticos entre os séculos XIX e XX, observando as terapias populares existentes desde então. Esse foi o tema da tese de doutorado Médicos e farmacêuticos na terapia popular: uma trajetória de suas profissões no Estado de São Paulo e na Inglaterra (1815-1930), apresentada na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP.

Terapias alternativas ganharam força e credibilidade nos últimos anos

A autora da pesquisa, Paula Yuri Sugishita Kanikadan, formada em Ciências Farmacêuticas, conta que questões como automedicação e a desaprovação de grande parte dos profissionais da saúde em relação à terapia popular foram os fatores que mais estimularam sua pesquisa. O estudo tinha como objetivo compreender a situação da saúde pública atual, por meio da análise dos séculos XIX e XX.

Paula conta que a II Revolução Industrial foi uma das razões para incluir a Inglaterra em sua tese. “Por ter iniciado essa revolução, esse país mostrou — apesar de bastante inicial — um desenvolvimento da indústria química e, posteriormente, da indústria de medicamentos.” A pesquisadora conta que esse desenvolvimento, mais tarde, influenciaria o estado de São Paulo, que entre o fim do século XIX e o início do século XX, já apresentava modificações significativas quanto ao uso de medicamentos e às profissões de saúde.

A terapia popular, segundo a pesquisa de Paula, abriu portas para a criação e desenvolvimento de novas profissões na área de saúde. “O crescimento no número de especializações mostrou que apesar de importante, a profissão médica não é capaz de atender a todas as necessidades das populações”, relata. A pesquisadora conta que essas profissões já existiam havia décadas, mas estão ganhando mais credibilidade agora, graças à demanda por novos tratamentos. O trabalho do farmacêutico, segundo Paula, é um dos que está cada vez adquirindo mais importância na sociedade. “Um exemplo disso são as propagandas veiculadas na televisão, que dizem para consultar não só o médico, mas também o farmacêutico.”

Além disso, a necessidade de medidas sanitárias em São Paulo reforçou a necessidade de atuação dos médicos no estado: “Todos sabem que as epidemias da época traziam uma série de dificuldades para a população. Neste sentido, novas regulamentações para as profissões acarretaram em mudanças nas práticas médicas. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento da ciência e a urbanização contribuíam para que isso acontecesse”, diz a pesquisadora.

A pesquisadora também conta que as tentativas por parte dos médicos e farmacêuticos da época de tentar eliminar as práticas populares deram mais força às suas profissões, mais tradicionais, ofuscando os métodos alternativos. Ainda assim, houve grandes dificuldades para frear a manipulação de medicamentos caseiros, a criação de remédios artesanais e a prática de “conselhos médicos” por parte de leigos.

Ajuda mútua

Ainda hoje, apesar da resistência de profissões mais tradicionais em relação à terapia popular, existe a prática da terapia popular: “O conselho do vizinho, o uso de chás e outras práticas ditas alternativas, ou seja, que não seguem a medicina convencional. As ciências médica e farmacêutica andam ao lado das práticas populares de cura de doenças”, enfatiza Paula.

Também há adaptações que, hoje em dia, ganharam a confiança de quem adere a diferentes formas de tratamento de diversos problemas de saúde.“Não diria que há uma evolução, mas sim uma manutenção da terapia popular. A Organização Mundial de Saúde está, cada vez mais, estimulando as práticas alternativas de cura; no Brasil, o Sistema Único de Saúde criou uma política nacional de práticas integrativas e complementares, com destaque para a homeopatia, acupuntura, termalismo, meditações, orações, o uso de plantas medicinais e fitoterápicos”, lembra a pesquisadora.

Fonte: Agência USP de Notícias – http://www.usp.br/

Agroindústria cresce 6% no primeiro semestre

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IBGE

No primeiro semestre de 2010, a agroindústria brasileira cresceu 6%, resultado bem superior ao obtido no mesmo período de 2009 (-5,3%), porém abaixo do assinalado pela média da indústria geral (16,2%). Os setores vinculados à agricultura (4,4%), de maior peso na agroindústria, apresentaram desempenho semelhante aos setores associados à pecuária (4,3%). O grupo inseticidas, herbicidas e outros defensivos para uso agropecuário avançou 34,1% e o segmento madeira, 23,8%.

O crescimento de 6% da produção agroindustrial deve-se a safra recorde que está sendo colhida em 2010, ao aumento moderado do volume e dos preços exportados de algumas commodities e da recuperação na fabricação de máquinas e equipamentos agrícolas. Vale destacar também a baixa base de comparação no primeiro semestre do ano passado, decorrente dos efeitos da crise econômica internacional ocorrida no final de 2008, que provocou queda nas exportações e nos preços internacionais. O cenário positivo para a agroindústria e o aumento da renda agrícola estimularam os investimentos no setor, refletidos sobretudo nos avanços observados em máquinas e equipamentos agrícolas (50%), em adubos e fertilizantes (3,1%) e em defensivos agropecuários (34,1%).

Em bases trimestrais, a agroindústria apresentou resultados positivos nos dois primeiros períodos de 2010. Após crescer 5,2% no primeiro trimestre do ano, a agroindústria aumentou o ritmo de crescimento no segundo (6,7%), impulsionada tanto pela melhora da agricultura, que passou de 2,6% para 5,5%, como da pecuária (de 2,8% para 5,8%).

O resultado do primeiro semestre de 2010 para a agricultura foi influenciado positivamente pelas boas condições climáticas, ao contrário do ocorrido no ano passado, quando houve estiagem na Região Sul, principal região produtora do país. Conforme dados do Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA) de julho de 2010, a estimativa para a safra de grãos deste ano é de cerca de 146,4 milhões de toneladas, resultado 9,2% superior ao obtido em 2009 (134 milhões de toneladas) e 0,3% maior que a safra recorde de 2008 (146 milhões de toneladas).

Em relação ao setor externo, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (SECEX/MDIC), o volume exportado dos principais produtos da agroindústria apresentou as seguintes variações em comparação com o primeiro semestre de 2009: couros e peles de bovinos (17,1%), celulose (8,3%), carnes de bovinos congeladas (5,3%), carne de aves não cortadas em pedaços (2,5%), açúcar (0,9%), bagaços e outros resíduos da extração do óleo de soja (0,9%) e pedaços e miudezas de aves (0%). Por outro lado, registraram queda as exportações de álcool (-54,2%), fumo (-24,7%), óleo de soja em bruto (-13,5%) e grãos de soja triturados (-4,2%).

Produtos industriais derivados da agricultura

O setor de produtos industriais derivados da agricultura cresceu 2,6% no primeiro semestre de 2010, com resultados positivos em cinco dos oito subsetores pesquisados. O aumento dos derivados da cana-de-açúcar (15,7%) foi explicado pelo acréscimo tanto na produção de açúcar (20,1%), como na de álcool (11,9%), impulsionado sobretudo pelo crescimento do mercado interno, devido à expansão da frota de veículos bicombustíveis. Outras contribuições positivas vieram dos derivados da soja (2,8%) e trigo (1,5%), ambos puxados pelo crescimento da safra; laranja (35,7%) e celulose (2,7%). Em sentido oposto, as pressões negativas vieram de arroz (-7,6%), com redução na safra em função do excesso de chuvas no Rio Grande do Sul, maior estado produtor; fumo (-11,2%) e milho (-4,5%).

Produtos industriais utilizados pela agricultura

O setor dos produtos industriais utilizados pela agricultura avançou 18,9%, impulsionado pela maior fabricação de máquinas e equipamentos agrícolas (50%) e de adubos e fertilizantes (3,1%). Este segmento foi influenciado pela expansão da renda agrícola, decorrente da maior safra em 2010, e do aumento moderado no preço de algumas commodities. Com isso, o investimento em tratores e colheitadeiras e a utilização de adubos e fertilizantes na lavoura, itens fundamentais para o crescimento da produtividade agrícola, foram ampliados nestes seis primeiros meses do ano. O setor externo também contribuiu para o acréscimo na produção de equipamentos agrícolas, com crescimento na quantidade exportada tanto de colheitadeiras (17,5%) como de tratores de rodas (2,8%), segundo estatísticas da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA).

Produtos industriais derivados da pecuária

O setor de produtos industriais derivados da pecuária avançou 3,4% nos seis primeiros meses do ano. Neste grupamento, os derivados de aves aumentaram 4,6%, apoiado principalmente no mercado interno e na ligeira recuperação das exportações. Os derivados da pecuária bovina e suína recuaram 0,9%. A produção de leite, produto predominantemente direcionado ao mercado interno, cresceu 5%, enquanto a de couros e peles apresentou expansão de 14,8%, influenciada em grande parte pelas exportações.

Produtos industriais utilizados pela pecuária

O setor de produtos industriais utilizados pela pecuária cresceu 7,5% no ano, impulsionado pelo incremento de 11,2% no grupamento de rações e suplementos vitamínicos, de maior peso no setor, uma vez que o grupo de produtos veterinários decresceu 5,7%.

Fonte: IBGE – http://www.ibge.gov.br/

Crise faz o Japão rever sua política de imigração

Philippe Mesmer

Na cidade industrial de Kawasaki, o samba que invadia as ruas em meados de julho convidava a uma certa alegria. Mas esse ritmo embriagante não conseguiria fazer esquecer que a comunidade brasileira no Japão, a terceira maior atrás dos chineses e dos coreanos, sofreu muito com a crise que começou no outono de 2008. Ainda que a queda de 1,4%, para 2,2 milhões, do número de imigrantes em 2009 – o primeiro recuo desde 1961 – se deva muito ao repatriamento de expatriados enviados por grandes empresas, ela é sobretudo ligada à partida dos cidadãos brasileiros. Em um ano, seu número recuou 14,4%, para 267.456.

Os descendentes de japoneses são obrigados a deixar o Japão

Os descendentes de japoneses são obrigados a deixar o Japão

Constituída principalmente por trabalhadores pouco qualificados e suas famílias, a população brasileira do Japão se concentra nas grandes cidades industriais: 54% trabalham em fábricas, (diante de 38,9% dos imigrantes em geral), geralmente em condições muito precárias.

A maior parte é de nikkeis, descendentes de japoneses que imigraram para a América do Sul a partir de 1908. Eles vieram ao Japão aproveitando a revisão, em 1989, da lei sobre a imigração, que lhes permitia terem vistos de trabalho mesmo na ausência de qualificações especiais. A medida visava compensar a queda na população ativa, que começou nos anos 1980 no Japão. Menos de 4 mil antes de 1990, os nikkeis eram mais de 310 mil no fim de 2007. Sua integração foi por vezes difícil, especialmente nos anos 1990, pontuados por problemas sociais.

Logo no início da crise do outono de 2008, as indústrias dispensaram essa mão de obra como prioridade. O índice de desemprego da comunidade teria atingido 40%, contra 5% antes da crise. O afluxo desses novos desempregados, sem qualificação e que mal falam o japonês, provocou um certo pânico nos centros Hello Work de busca de empregos. O governo chegou a criar um programa de ajuda financeira para o retorno. Cerca de 11.300 nikkeis já teriam se beneficiado dele.

Hoje, a situação parece estabilizada. Em Hamamatsu, cidade da província de Shizuoka que abriga fábricas da Suzuki e da Yamaha, a HICE, fundação local encarregada do comércio internacional, assinala que “seu índice de desemprego voltou aos níveis tradicionais”. O órgão observa, no entanto, que “os brasileiros eram 14.655 em junho, diante de mais de 20 mil dezoito meses atrás”.

Cerca de 5 mil deles foram embora e, obviamente, ainda não se sente a necessidade de substituí-los. O plano quinquenal de controle da imigração, publicado em março, chega a fazer uma reflexão sobre as condições de concessão de vistos aos nikkeis. “A crise fez com que nos conscientizássemos de quanto custa o fato de aceitar trabalhadores estrangeiros, de um ponto de vista econômico e social”, reagiu Masahiko Yamada, ministro do Trabalho. Ela reavivou o debate sobre a imigração, sendo que a população ativa poderá cair para 55,8 milhões de pessoas em 2030, ante 66,6 milhões em 2006. Um declínio próprio a acentuar os desequiíbrios das contas sociais já deficitárias, que ameaça o desenvolvimento econômico do país.

Em dez anos, o número de imigrantes aumentou 40,5%, mas eles só representam 1,71% da população total. Nada indica que irão aumentar sensivelmente. O objetivo da política japonesa continua sendo atrair pessoas altamente qualificadas e estudantes – de preferência asiáticos, para favorecer o comércio com uma zona em pleno crescimento – até mesmo para fazer cursos de especialização nas universidades.

A imigração deve compensar necessidades reais e indentificadas pelas autoridades. Os Acordos de Parceria Econômica fechados antes da crise com as Filipinas e a Indonésia são exemplo disso. Eles preveem a chegada a cada ano de dezenas de auxiliares de enfermagem desses países para compensar a falta de funcionários nos hospitais. Havia urgência, mas a chegada deles já está sendo questionada: a crise faz com que os japoneses se voltem para essa profissão, que o governo tem se esforçado para valorizar.

Tudo isso mostra que , antes de trazer estrangeiros, é preciso, como confirma a nova estratégia de crescimento finalizada em junho, “encorajar as pessoas que têm capacidades não exploradas, como os jovens as mulheres e os idosos, a entrarem no mercado de trabalho”. Para Yamada, a adoção de medidas adequadas nesse sentido deve “estabilizar a população ativa para os próximos dez anos”.

O apoio público para a pesquisa em robótica parece ser também um meio de evitar que se recorra aos trabalhadores de fora.

De forma mais geral, os debates mostram que o Japão continua reticente em abrir suas fronteiras, e não somente por razões econômicas. A imagem do estrangeiro continua negativa em um país que se vê como homogêneo etnicamente. E a base da política de imigração continua sendo a criação de um “consenso público” a respeito da influência da instalação de estrangeiros “sobre o mercado de trabalho, mas também sobre a previdência social, a educação, a comunidade ou ainda a segurança”.

Tradução: Lana Lim

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/